Em 1854, nos últimos dias do outono, uma névoa espessa cobria as montanhas ao redor de Ouro Preto, quando Helena de Alencar desapareceu de sua residência na rua das Flores. A Ca, considerada pela sociedade local como a mulher mais bela, que já havia pisado nas pedras irregulares da antiga Vila Rica, simplesmente não estava mais em seu quarto.
Na manhã de 23 de maio daquele ano, o casarão dos Alencar erguia-se imponente na encosta íngreme, suas janelas de madeira escura contrastando com as paredes caiadas de branco. A construção datava do início do século, quando o ouro ainda corria abundante pelos córregos da região.
Três andares se distribuíam pela encosta, conectados por escadas internas que rangiam mesmo com o menor movimento. A casa respirava pelos poros das pedras centenárias, sussurrando histórias que poucos se atreviam a escutar. Helena de Alencar havia chegado a Ouro Preto no inverno de 1852, acompanhada apenas por uma criada idosa chamada Benedita.

Não se sabia muito sobre sua origem, exceto que viera das terras do Rio de Janeiro, carregando papéis que comprovavam sua linhagem nobre e uma fortuna considerável em moedas de ouro. O título de condessa, embora questionado em sussurros por algumas famílias tradicionais da região, jamais foi oficialmente contestado. A beleza de Helena transcendia os padrões da época. Cabelos negros como carvão cascateavam até a cintura, em moldurando um rosto de traços delicados que pareciam esculpidos em mármore.
Seus olhos, de um verde profundo que lembrava as águas paradas dos açudes da região, carregavam uma intensidade perturbadora. era alta para os padrões femininos daquela época, com movimentos que combinavam graça e determinação de maneira incomum. Durante os primeiros meses em Ouro Preto, Helena manteve-se reclusa, recebendo apenas os comerciantes necessários para o abastecimento da casa.
Benedita, uma mulher de 60 anos, cujo rosto marcado pelo tempo carregava cicatrizes inexplicáveis. era a única pessoa que a acompanhava nas raras caminhadas pelas ruas da cidade. As duas mulheres caminhavam sempre em silêncio, Helena, alguns passos à frente. Benedita seguindo com olhos constantemente alertas, como se esperasse algum perigo iminente.
A primeira aparição pública da condessa aconteceu durante a festa de São João de 1853. Helena surgiu na praça principal, vestindo um vestido azul marinho que realçava ainda mais sua pele alva e os cabelos escuros. A multidão que dançava ao redor das fogueiras gradualmente parou suas atividades, hipnotizada pela presença da misteriosa mulher.
Ela permaneceu na praça apenas por uma hora, observando as festividades em silêncio antes de retornar para casa, acompanhada pela fiel benedita. A partir daquela noite, os convites começaram a chegar ao casarão da rua das flores. As famílias mais influentes de Ouro Preto disputavam a presença da Condessa em seus eventos sociais.
Helena aceitava alguns convites de forma aparentemente aleatória, aparecendo em jantares e saraus, onde sua beleza ofuscava todas as outras mulheres presentes. Porém, seu comportamento durante esses eventos intrigava os anfitriões e demais convidados.
Helena, de Alencar falava pouco, respondendo às perguntas com cortesia, mas sempre de forma vaga. Quando questionada sobre sua família ou passado, seus olhos verdes se tornavam ainda mais intensos e ela desviava o assunto com uma elegância que desencorajava insistências. Alguns convidados notaram que ela jamais comia durante os jantares, limitando-se a provar pequenos goles de vinho e a mexer na comida com os utensílios de prata.
Durante o inverno daquele ano, eventos estranhos começaram a ser relatados por vizinhos do casarão dos Alencar. Moradores da rua das flores mencionaram luzes que permaneciam acesas durante toda a madrugada, acompanhadas por sons de passos que ecoavam pelos corredores da casa em horários incomuns. Dona Francisca Mendes, que morava na casa ao lado, relatou ter ouvido conversas sussurradas em idioma que ela não conseguia identificar sempre nas primeiras horas da manhã.
O padre Joaquim Santos, responsável pela Igreja do Pilar, visitou a Condessa em duas ocasiões distintas durante aquele período. Após a segunda visita, o religioso pareceu profundamente perturbado, recusando-se a comentar detalhes sobre os encontros. Em seus registros pessoais encontrados anos depois de sua morte, constava apenas uma anotação enigmática datada de 15 de agosto de 1853.
A beleza pode ser uma armadilha para a alma. Deus nos proteja dos anjos caídos. Helena nunca foi vista na igreja, apesar dos constantes convites do padre Santos e da pressão social exercida pelas famílias tradicionais da região. Quando questionada sobre suas práticas religiosas, ela respondia que mantinha suas orações em particular em um pequeno oratório montado em seus aposentos.
Algumas visitas relataram ter visto um crucifixo de ouro maciço em seu quarto, mas Benedita negava veementemente a existência de qualquer símbolo religioso na casa. Durante a primavera de 1853, Helena começou a receber visitas de homens jovens da alta sociedade local. Esses encontros aconteciam sempre durante o período da tarde e os visitantes saíam da casa com expressões que variavam entre êxtase e profunda melancolia.
João Baptista Ferreira, filho de um rico comerciante de pedras preciosas, passou a visitar a Condessa três vezes por semana, retornando para casa com olheiras profundas e um comportamento cada vez mais retraído. O jovem Ferreira, que antes era conhecido por sua disposição alegre e sociabilidade, transformou-se em uma sombra de si mesmo ao longo daqueles meses.
Sua família notou que ele havia perdido peso considerável e desenvolvido o hábito de falar sozinho durante as madrugadas, caminhando inquieto pelo quintal da residência familiar. Em dezembro daquele ano, João Batista foi encontrado morto em seu quarto, aparentemente vítima de parada cardíaca aos 23 anos de idade. Dr.
Manuel Rodrigues, médico responsável pelo exame do corpo, não conseguiu determinar a causa exata da morte. O coração do jovem estava em perfeitas condições, assim como todos os demais órgãos. Não havia sinais de envenenamento ou violência física. O corpo apresentava apenas uma característica inusitada, uma palidez extrema, como se todo o sangue tivesse sido drenado das veias.
O médico registrou em seu relatório que jamais havia observado um fenômeno similar 30 anos de profissão. Após a morte de João Batista, as visitas masculinas ao casarão dos Alencar cessaram abruptamente. Helena retomou sua rotina reclusa, sendo vista apenas durante suas caminhadas vespertinas com Benedita, pelas ruas de pedra da cidade.
Os moradores começaram a notar que a condessa parecia ainda mais bela, se isso fosse possível, como se sua pele tivesse adquirido um brilho sobrenatural que contrastava de forma perturbadora com seus olhos verdes. As especulações sobre a morte do jovem Ferreira se espalharam pelos salões e praças da cidade. Alguns suspeitos recaíam sobre Helena, embora ninguém conseguisse explicar como ela poderia ter causado a morte sem deixar vestígios.
O delegado Francisco Pereira interrogou tanto a Condessa quanto Benedita, mas ambas apresentaram álibes sólidos para a noite da morte. Helena afirmou ter permanecido em casa lendo, enquanto Benedita confirmou ter servido chá para sua patroa às 10 horas da noite. Durante o verão de 1854, novos detalhes sobre o passado de Helena começaram a emergir através de correspondências que chegavam esporadicamente ao correio local.
Uma carta enviada por um comerciante do Rio de Janeiro mencionava transações financeiras suspeitas envolvendo propriedades que teriam pertencido à família Alencar, mas que haviam sido vendidas misteriosamente anos antes da chegada da Condessa a Ouro Preto. Benedita tornou-se ainda mais vigilante e protecionista em relação à patroa. A criada idosa desenvolveu o hábito de verificar todas as janelas e portas da casa múltiplas vezes durante a noite, como se temesse uma invasão iminente.
Vizinhos relataram tê-la visto caminhando pelo jardim durante a madrugada, carregando uma lamparina e murmurando palavras incompreensíveis. Se vos está gostando da história e sente que quer ajudar o canal com qualquer valor, por favor, nos apoie clicando no botão de valeu e doando o que você quiser.
Isso vai ajudar o canal a continuar postando as histórias. O comportamento de Helena também começou a apresentar mudanças sutis. Ela passou a declinar todos os convites sociais, alegando indisposições frequentes. Suas caminhadas pela cidade se tornaram mais breves e sempre aconteciam nos horários de menor movimento nas ruas.
Durante essas saídas, ela evitava contato visual com outros pedestres e respondia aos cumprimentos com apenas um aceno discreto da cabeça. Em abril de 1854, o Padre Santos decidiu fazer uma nova visita à Condessa, acompanhado desta vez pelo padre Antônio Silva, um religioso mais experiente que havia chegado recentemente de São Paulo.
A visita durou menos de uma hora e ambos os padres saíram da casa com expressões de profunda preocupação. Padre Silva foi visto fazendo o sinal da cruz repetidamente enquanto caminhavam de volta à igreja. Nos registros da Igreja do Pilar existe uma anotação datada de 2 de maio de 1854, escrita pela própria letra do Padre Santos.
Solicitamos orientação do bispado sobre procedimentos adequados para casos de natureza indefinida. A alma em questão pode estar em grande perigo, mas nossa autoridade pode não ser suficiente para a intervenção necessária. Durante as duas semanas que antecederam seu desaparecimento, Helena foi vista apenas por Benedita.
A criada passou a fazer todas as compras sozinha, retornando sempre com cestas. menores que o habitual, como se o consumo da casa tivesse diminuído drasticamente. Comerciantes notaram que Benedita havia parado de comprar alimentos frescos, limitando-se a adquirir apenas itens não perecíveis e vinho. Dr. Manoel Rodrigues, ainda intrigado com a morte inexplicável de João Batista Ferreira, decidiu observar discretamente a residência dos Alencar durante suas caminhadas médicas pela região.
Em suas anotações particulares, o médico registrou ter observado que as luzes da casa permaneciam acesas durante toda a madrugada, mas nunca conseguiu distinguir silhuetas ou movimentos através das janelas cobertas por pesadas cortinas escuras. Na noite de 22 de maio, véspera do desaparecimento, vários moradores da rua das flores relataram ter ouvido sons estranhos vindos do casarão dos Alencar.
Dona Francisca Mendes descreveu os ruídos como uma mistura entre passos pesados no andar superior e algo que lembrava móveis sendo arrastados pelos cômodos. Os sons cessaram abruptamente por volta das 3 horas da manhã, seguidos por um silêncio absoluto que permaneceu até o amanhecer. Benedita foi vista pela última vez na tarde de 22 de maio, retornando do mercado com uma cesta que continha apenas pão e uma garrafa de vinho tinto.
O padeiro José Gonçalves notou que ela parecia mais nervosa que o habitual, verificando constantemente por cima do ombro enquanto caminhava, como se estivesse sendo seguida. Ela pagou suas compras rapidamente e retornou para casa sem trocar as cortesias costumeiras. Na manhã de 23 de maio, quando Helena de Alencar não foi vista em sua caminhada matinal habitual, alguns vizinhos começaram a especular sobre possíveis problemas de saúde. Dr.
Manoel Rodrigues, preocupado com o silêncio absoluto vindo da casa, decidiu fazer uma visita médica não solicitada por volta das 10 horas da manhã. Suas batidas na porta principal não receberam resposta, apesar de ele poder ouvir ecos propagando pelos corredores internos da casa.
O médico contornou a propriedade e descobriu que a porta dos fundos estava destrancada, balançando suavemente com a brisa matinal. Ele entrou chamando pelos nomes de Helena e Benedita, mas apenas o eco de sua própria voz respondia através dos cômodos silenciosos. A casa estava impecavelmente organizada, como se tivesse sido preparada para uma longa ausência. No quarto de Helena, Dr.
Rodrigues encontrou a cama perfeitamente arrumada, sem sinais de ter sido usada durante a noite anterior. As roupas estavam cuidadosamente dobradas nos armários e não havia sinais de luta ou partida apressada. O único detalhe incomum era um copo de cristal sobre a penteadeira, contendo um líquido escuro que exalava um odor doce e enjoativo que o médico não conseguiu identificar.
O quarto de Benedita apresentava uma situação similar: cama arrumada, pertences organizados, mas nenhum sinal da presença recente da criada. Na cozinha, Dr. Rodrigues encontrou pratos lavados e guardados, como se a última refeição tivesse sido servida e cuidadosamente limpa antes da misteriosa partida das duas mulheres. O delegado Francisco Pereira foi notificado sobre o desaparecimento por volta do meio-dia.
Sua investigação inicial revelou que não havia sinais de arrombamento ou violência na propriedade. Todas as joias e valores de Helena permaneciam em seus locais habituais, descartando a hipótese de roubo. A ausência de bilhetes ou mensagens explicativas tornava o caso ainda mais intrigante.
Durante as buscas realizadas nos dias seguintes, foram descobertos alguns detalhes perturbadores no porão da casa. O espaço, que aparentemente servia como depósito, continha várias caixas lacradas, contendo documentos em idiomas diferentes do português. Alguns papéis estavam redigidos em latim, outros em uma língua que nenhum dos especialistas consultados conseguiu identificar.
Entre os documentos foram encontrados mapas antigos de diversas cidades europeias, todos marcados com símbolos estranhos próximos a cemitérios e igrejas antigas. Uma das descobertas mais perturbadoras foi um baú de madeira escura contendo dezenas de retratos em miniatura.
As imagens mostravam homens jovens de diferentes épocas e nacionalidades, todos pintados com uma técnica que destacava, de forma quase hipnótica a palidez de suas faces e o brilho febril em seus olhos. No verso de cada retrato, havia datas que se estendiam por mais de dois séculos, todas acompanhadas por anotações em uma caligrafia idêntica à encontrada nos documentos em latim.
O padre Santos, consultado sobre os documentos em latim, recusou-se a traduzi-los publicamente. Em conversa privada com o delegado Pereira, o religioso mencionou que os textos conham referências a práticas que a igreja considerava heréticas, envolvendo rituais relacionados à preservação da juventude através de métodos não ortodoxos.
Ele recomendou que todos os documentos fossem enviados para a análise do bispado em Mariana. As investigações revelaram também que Helena de Alencar havia estabelecido relacionamentos similares ao que mantinha com João Batista Ferreira em diversas outras cidades ao longo dos anos anteriores. Correspondências encontradas em uma gaveta secreta de sua escrivaninha mencionavam jovens homens de Diamantina, Sabará e mesmo do Rio de Janeiro, que haviam morrido em circunstâncias similares, mortes súbitas, sem causa aparente, precedidas por um período de cortejo intenso, com uma mulher de beleza excepcional. Dr.
Manuel Rodrigues, intrigado com as semelhanças entre esses casos, solicitou permissão para esumar o corpo de João Baptista Ferreira. O exame revelou que o corpo havia se decomposto de forma anormalmente lenta, mantendo características que contradiziam o tempo decorrido desde sua morte. Mais perturbador ainda, foram encontradas duas pequenas perfurações no pescoço do jovem, tão diminutas que haviam passado despercebidas durante o primeiro exame.
As marcas no pescoço de João Batista despertaram memórias em alguns moradores mais idosos de Ouro Preto. Dona Augusta Silva, uma parteira aposentada de 75 anos, relatou ter ouvido histórias similares contadas por sua avó sobre uma mulher de beleza sobrenatural que havia assombrado a região durante a época colonial.
Segundo as narrativas familiares, essa figura feminina aparecia periodicamente ao longo dos séculos, sempre associada à morte misteriosa de homens jovens. O padre Antônio Silva decidiu conduzir uma investigação mais aprofundada nos arquivos da Igreja do Pilar.
Nos registros mais antigos datados do final do século X, ele encontrou menções esparsas a uma mulher chamada Helena de Almeida, que havia sido acusada de bruxaria e posteriormente desaparecido antes de seu julgamento. A descrição física da mulher correspondia de forma impressionante às características de Helena de Alencar. Os registros paroquiais indicavam que Helena de Almeida havia sido associada à morte de pelo menos sete jovens ao longo de um período de 3 anos.
As mortes seguiam sempre o mesmo padrão. Homens saudáveis que desenvolviam uma obsessão pela misteriosa mulher, seguida por um período de definhamento gradual e morte súbita. As autoridades coloniais nunca conseguiram estabelecer uma conexão definitiva entre Helena e as mortes, mas a pressão social forçou seu desaparecimento.
Durante a investigação dos arquivos eclesiásticos, Padre Silva descobriu também um documento datado de 1702, escrito pelo então vigário da Igreja do Pilar, relatando o encontro de ossadas humanas em uma caverna localizada nas proximidades da cidade. Os ossos pertenciam a jovens do sexo masculino e apresentavam as mesmas perfurações diminutas no pescoço encontradas no corpo de João Batista Ferreira.
A caverna mencionada nos documentos coloniais localizava-se em uma região que em 1854 havia se tornado parte dos terrenos pertencentes ao casarão dos Alencar. O delegado Pereira organizou uma expedição para explorar o local. descobrindo uma rede de túneis naturais que se estendiam por centenas de metros sob a propriedade. No túnel principal foram encontrados restos humanos em diferentes estágios de decomposição, todos apresentando as características perfurações no pescoço.
A descoberta dos túneis e dos restos mortais provocou pânico na população de Ouro Preto. Muitas famílias passaram a trancar suas casas ao anoitecer e evitar as ruas durante as primeiras horas da manhã. O caso ganhou repercussão em jornais de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, atraindo a atenção de investigadores e curiosos de outras regiões do país.
Entre os restos mortais encontrados nos túneis, foram identificados pertences pessoais que confirmaram a identidade de pelo menos três jovens que haviam desaparecido misteriosamente nos últimos do anos. Além de João Batista Ferreira, foram identificados objetos pertencentes a Carlos Eduardo Pinto, desaparecido em 1853 e Antônio Ribeiro Santos, sumido durante o carnaval daquele mesmo ano. Dr.
Manuel Rodriguees examinou todos os restos mortais encontrados nos túneis, confirmando que todos apresentavam as mesmas perfurações no pescoço e sinais de decomposição anormalmente lenta. Em seu relatório final, o médico expressou sua perplexidade científica diante dos fenômenos observados, admitindo que sua formação médica não oferecia explicações plausíveis para as características dos corpos.
A investigação sobre Helena de Alencar se estendeu por várias semanas, envolvendo autoridades locais, religiosas e médicas. Apesar dos esforços concentrados, nenhum vestígio da condessa ou de sua criada benedita foi encontrado. O casarão da rua das flores permaneceu vazio, suas janelas seladas por ordem judicial, enquanto as investigações prosseguiam. Durante a busca por pistas sobre o paradeiro de Helena, foram descobertas correspondências que sugeriam conexões com outras mulheres de características similares em diferentes regiões do Brasil e até mesmo da Europa. Uma carta datada de 1850,
enviada de Salvador, mencionava uma condessa italiana que havia deixado um rastro de mortes inexplicáveis antes de desaparecer misteriosamente da cidade. O Padre Santos, profundamente perturbado pelos eventos, solicitou ao bispo de Mariana que enviasse especialistas em casos considerados sobrenaturais pela igreja.

A resposta oficial foi que os eventos de Ouro Preto seriam investigados discretamente, mas que nenhuma declaração pública seria feita sobre a natureza dos acontecimentos, a fim de evitar pânico generalizado na população. As semanas que se seguiram ao desaparecimento de Helena foram marcadas por uma série de eventos estranhos relatados por moradores da região. Vários habitantes afirmaram ter visto uma figura feminina caminhando pelas ruas durante as madrugadas, sempre vestida de preto e com o rosto coberto por um véu espesso.
Essas aparições duravam apenas alguns segundos antes que a figura desaparecesse entre as sombras dos casarões coloniais. Dr. Manuel Rodrigues documentou um aumento significativo no número de pacientes que procuraram seus serviços relatando pesadelos recorrentes e sensações de fraqueza inexplicável. Muitos desses pacientes eram homens jovens que afirmavam sonhar repetidamente com uma mulher de beleza incomparável que os chamava para encontros noturnos.
O médico prescreveu tônicos fortificantes, mas os sintomas persistiam na maioria dos casos. O delegado Pereira estabeleceu o patrulhamento noturno nas ruas de Ouro Preto, especialmente na região próxima ao casarão abandonado dos Alencar. Durante uma dessas rondas, dois guardas relataram ter observado luzes se movendo no interior da casa vazia, apesar de todas as entradas estarem lacradas.
Quando verificaram a propriedade na manhã seguinte, não encontraram sinais de invasão ou presença humana. A família Ferreira, devastada pela morte inexplicável de João Batista, contratou um investigador particular do Rio de Janeiro para conduzir sua própria análise do caso. O investigador chamado Joaquim Alves Miranda chegou a Ouro Preto em junho de 1854 e permaneceu na cidade por dois meses, realizando entrevistas detalhadas com todos os envolvidos nos eventos.
Miranda descobriu que Helena de Alencar havia usado pelo menos três identidades diferentes durante sua permanência no Brasil. Documentos bancários revelaram transferências de grandes quantias de dinheiro para contas em nomes diferentes, sempre precedendo mudanças de cidade da misteriosa mulher. O padrão sugeria uma operação cuidadosamente planejada para manter múltiplas identidades e recursos financeiros disponíveis.
Durante suas investigações, Miranda também descobriu que Benedita não era uma simples criada doméstica, como aparentava ser. Registros encontrados em São Paulo indicavam que ela havia sido vista em companhia de outras mulheres suspeitas de crimes similares ao longo de várias décadas. A criada aparentemente possuía conhecimentos que iam muito além de tarefas domésticas, incluindo idiomas estrangeiros e práticas médicas não convencionais.
O investigador particular conseguiu localizar duas outras cidades onde Helena havia residido anteriormente, Diamantina e Sabará. Em ambos os locais, os registros locais confirmavam padrões similares aos observados em Ouro Preto. Chegada misteriosa de uma mulher de beleza excepcional.
Relacionamentos com homens jovens da sociedade local, mortes inexplicáveis e desaparecimento súbito da mulher. Quando as suspeitas começavam a crescer em Diamantina, Miranda entrevistou a família de um jovem chamado Pedro Henrique Castro, morto em circunstâncias similares às de João Baptista Ferreira. Os pais do rapaz mantinham diário detalhado das mudanças comportamentais observadas em seu filho durante o período em que ele frequentava a companhia da misteriosa mulher, que na época se apresentava como condessa Isabela de Souza.
O diário da família Castro revelava detalhes perturbadores sobre as últimas semanas de vida de Pedro Henrique. O jovem havia desenvolvido a versão à luz solar, permanecendo em seus aposentos durante todo o dia e saindo apenas após o anoitecer. Ele havia perdido o apetite por alimentos comuns, recusando refeições familiares e sobrevivendo, aparentemente apenas com pequenas quantidades de vinho tinto.
Mais preocupante ainda, Pedro Henrique havia começado a manifestar conhecimentos sobre eventos e pessoas que ele nunca deveria ter conhecido. Durante conversas familiares, ele mencionava detalhes precisos sobre a história colonial de Diamantina, que não constavam em livros ou registros públicos. Quando questionado sobre a origem dessas informações, ele respondia vagamente que a Condessa havia compartilhado histórias de seus ancestrais.
As investigações de Miranda em Sabará revelaram um padrão ainda mais estabelecido. Naquela cidade, Helena havia residido por quase do anos, usando o nome de Baronesa Catarina de Bragança. Durante esse período, cinco jovens haviam morrido em circunstâncias idênticas, todos após períodos de intensa convivência com a misteriosa mulher.
As autoridades locais haviam iniciado uma investigação formal, mas ela desapareceu antes que qualquer acusação fosse formalizada. Dr. Fernando Lacerda, médico responsável pelos exames dos corpos em Sabará, havia documentado observações similares às de Dr. Manuel Rodriguez.
Em seu relatório, ainda preservado nos arquivos municipais, constavam detalhes sobre a decomposição anormalmente lenta dos corpos e as perfurações microscópicas encontradas no pescoço das vítimas. O médico havia enviado amostras para análise em faculdades do Rio de Janeiro, mas nunca recebeu respostas conclusivas. O investigador Miranda conseguiu também acesso a correspondências privadas enviadas por Helena durante sua estadia em Sabará.
As cartas eram dirigidas a destinatários em diferentes países europeus e escritas em francês, italiano e uma língua que especialistas consultados identificaram como possivelmente húngaro ou romeno. O conteúdo das cartas se concentrava em assuntos aparentemente banais. mas incluía referências codificadas a recursos renovados e necessidades específicas atendidas.
Durante o outono de 1854, as investigações sobre Helena de Alencar começaram a revelar conexões internacionais que ampliavam significativamente o escopo do caso. Através de contatos na capital do império, Miranda conseguiu acesso a registros diplomáticos que mencionavam mulheres de características similares envolvidas em eventos misteriosos na França, Itália e países do Leste Europeu.
Um documento particularmente intrigante datado de 1848, descrevia investigações conduzidas pela polícia de Paris sobre uma série de mortes misteriosas. envolvendo jovens aristocratas. A principal suspeita era uma mulher conhecida como Contesses Elena Lanson, cuja descrição física correspondia exatamente às características de Helena de Alencar, incluindo detalhes específicos, como uma pequena cicatriz em formato de crescente na mão esquerda.
O padre Antônio Silva, continuando suas pesquisas nos arquivos eclesiásticos, descobriu menções em documentos Vaticanos sobre investigações conduzidas pela Inquisição no século X. Os registros faziam referência a uma mulher chamada Helena de Alencar, acusada de práticas heréticas relacionadas ao prolongamento artificial da vida através de métodos considerados diabólicos. pela igreja.
A mulher havia escapado antes de seu julgamento, deixando apenas relatos de testemunhas sobre sua beleza sobrenatural e os efeitos devastadores de sua presença sobre homens jovens. As semelhanças entre os nomes e as descrições físicas, encontradas em documentos separados por três séculos, eram impossíveis de ignorar. O padre Silva começou a considerar a possibilidade de que Helena de Alencar fosse a mesma pessoa mencionada nos registros históricos, uma conclusão que desafiava todas as leis naturais conhecidas e forçava-o a questionar os limites de sua própria fé.
Dr. Manuel Rodrigues, influenciado pelas descobertas históricas, decidiu conduzir experimentos com amostras de cabelo encontradas no quarto de Helena. As análises microscópicas revelaram uma estrutura celular que não correspondia aos padrões humanos normais.
As células apresentavam uma densidade e organização que ele nunca havia observado em tecidos humanos, sugerindo processos biológicos que contradiziam o conhecimento médico da época. Durante o inverno de 1854, eventos estranhos continuaram a ser relatados na região de Ouro Preto. Comerciantes que viajavam pelas estradas montanhosas mencionaram encontros com uma carruagem preta que surgia nas névoas matinais, conduzida por uma figura feminina vestida de luto.
Esses relatos sempre incluíam descrições sobre a sensação de frio extremo que acompanhava a aparição, mesmo durante os dias mais quentes do inverno tropical. O casarão dos Alencar permaneceu selado e vazio durante meses, mas vizinhos continuaram relatando fenômenos inexplicáveis.
Luzes eram vistas movendo-se pelos cômodos durante as madrugadas, acompanhadas por sons que lembravam passos descalços sobre o piso de madeira. Tentativas de investigar esses fenômenos sempre resultavam em descobrir a casa completamente vazia e sem sinais de invasão. Uma expedição organizada pelo delegado Pereira para explorar mais profundamente os túneis sob a propriedade revelou ramificações que se estendiam muito além do que havia sido inicialmente descoberto.
Algumas passagens levavam a câmaras naturais, onde foram encontrados objetos pessoais, datando de diferentes épocas, incluindo joias e roupas, que pareciam ter centenas de anos, mas se mantinham em estado de conservação impossível. Entre os objetos encontrados nas câmaras subterrâneas destacava-se um espelho de prata com moldura ornamentada que não refletia imagem alguma quando posicionado sob a luz das tochas.
O artefato carregava inscrições em latim que padre Silva traduziu como speculum animarum perditarum, espelho das almas perdidas. Em dezembro de 1854, o investigador Miranda recebeu uma carta anônima postada em Salvador. O envelope continha apenas uma fotografia em Daguerreótipo, mostrando uma mulher idêntica à Helena de Alencar.
Mas a imagem havia sido feita em 1820, três décadas antes. No verso da fotografia, uma caligrafia familiar escrevera: “A beleza é eterna para quem conhece seus segredos”. O padre Santos, profundamente perturbado pelos eventos, solicitou transferência para uma paróquia distante. Em sua última homilia na igreja do Pilar, ele advertiu sutilmente os fiéis sobre os perigos de belezas que transcendem a natureza humana e a necessidade de proteção espiritual contra criaturas que se alimentam da força vital dos inocentes.
Dr. Rodriguees continuou documentando casos de fraqueza inexplicável entre homens jovens da região até sua morte natural em 1862. Seus registros médicos, preservados pela família conham centenas de casos similares aos observados nas vítimas de Helena, sugerindo que sua influência se mantinha mesmo após desaparecimento.
O delegado Francisco Pereira arquivou oficialmente o caso em 1855, classificando Helena de Alencar como desaparecida em circunstâncias indeterminadas. O relatório final omitia deliberadamente os detalhes mais perturbadores da investigação, limitando-se a mencionar que não foram encontradas evidências conclusivas sobre o paradeiro da mulher.
O casarão da rua das flores foi vendido em asta pública dois anos depois, mas nenhuma família conseguiu residir no local por mais de algumas semanas. Todos os ocupantes relatavam pesadelos recorrentes, sensações de presença invisível e sons inexplicáveis durante as madrugadas. A propriedade foi abandonada definitivamente em 1858.
Durante as décadas seguintes, relatos esporádicos sobre aparições de uma mulher de beleza sobrenatural continuaram surgindo em diferentes regiões do Brasil. sempre seguiam o mesmo padrão. Chegada misteriosa, relacionamentos com jovens locais, mortes inexplicáveis e desaparecimento súbito quando as suspeitas aumentavam. Em 1920, durante reformas na antiga residência dos Alencar, operários descobriram um túnel secreto que conectava o porão a um antigo cemitério abandonado nos arredores da cidade. No final da passagem encontraram um caixão vazio,
feito de madeira escura, forrado com seda vermelha, que ainda mantinha sua cor vibrante após décadas de abandono. Os túneis foram lacrados definitivamente pelas autoridades municipais e a casa foi demolida em 1925. No local foi construída uma pequena capela dedicada às almas dos jovens que morreram misteriosamente na região.
O padre responsável pela bênção do terreno relatou ter sentido uma resistência inexplicável durante a cerimônia, como se algo lutasse contra a consagração do local. Em 1962, um historiador da Universidade Federal de Minas Gerais encontrou nos arquivos de Ouro Preto uma pasta contendo fotografias, documentos e relatórios sobre o caso Helena de Alencar.
O pesquisador iniciou um estudo acadêmico sobre os eventos, mas abandonou o projeto após algumas semanas, alegando impossibilidade de manter objetividade científica diante de evidências contraditórias. Os documentos do caso foram microfilmados e arquivados definitivamente em 1968, com acesso restrito a pesquisadores credenciados.
O microfilme original desapareceu misteriosamente do arquivo durante uma transferência administrativa em 1969, restando apenas cópias parciais que omitiam as descobertas mais perturbadoras. Até hoje, moradores mais antigos de Ouro Preto evitam mencionar o nome Helena de Alencar, especialmente durante as noites de Lua Nova.
Alguns afirmam que sua presença ainda pode ser sentida nas ruas de pedra da cidade colonial, especialmente na antiga rua das flores, onde sombras se movem de forma inexplicável, e o ar carrega um perfume doce que lembra rosas murchas. A beleza da condessa Helena de Alencar permanece um mistério que desafia explicações racionais. Sua história se tornou uma lenda sussurrada entre famílias tradicionais de Minas Gerais.
Um lembrete perturbador de que alguns segredos são profundos demais para serem completamente desvendados pela mente humana. E nas madrugadas mais silenciosas de Ouro Preto, quando a névoa desce das montanhas e envolve as construções coloniais, alguns ainda juram poder ouvir o som de passos delicados, ecoando pelas pedras antigas, acompanhados por uma risada baixa e melancólica, que parece vir de tempos muito distantes, lembrando que certas presenças nunca verdadeiramente partem dos lugares que um dia chamaram de lar. Yeah.