Espírito Santo. 1768. No pelourinho da vila de Vitória, uma mulher negra de aproximadamente 40 anos estava sendo açoitada pela décima vez naquele mês. Seu corpo, coberto de cicatrizes antigas e feridas recentes sangrava sob o sol escaldante, mas seus olhos permaneciam fixos no horizonte, como se enxergassem algo que os outros não podiam ver.

Ninguém ali sabia que aquela mulher havia sido realeza em sua terra natal, e muito menos que em poucos meses ela envenenaria seu Senhor e lideraria uma das fugas mais audaciosas da história do Espírito Santo colonial. Esta é a história de Zacimba Gaba, a princesa que nunca se curvou. O ano era 1750, quando Zassim Bagaba viu pela última vez as terras do reino de Cabinda, na costa africana.
tinha apenas 22 anos e era filha de um dos chefes mais respeitados da região, prometida em casamento a um príncipe de um reino vizinho. Sua vida era de privilégios, educação e preparação para se tornar uma líder entre seu povo. Falava três línguas, conhecia as tradições ancestrais e era iniciada nos segredos das plantas medicinais e venenosas, conhecimento passado de geração em geração entre as mulheres de sua linhagem. Tudo mudou numa manhã de março.
Traficantes portugueses, em aliança com reinos rivais atacaram sua aldeia enquanto os homens estavam em uma cerimônia distante. Zacimba lutou com todas as forças, mas foi capturada junto com outras dezenas de mulheres, crianças e idosos. Acorrentada pelo pescoço, caminhou por dias até alcançar a costa, onde um navio negreiro aguardava sua carga humana.
O que se seguiu foram três meses de horror no porão escuro daquele navio, cruzando o Atlântico em condições que mataram metade dos cativos antes mesmo de chegarem ao Brasil. Quando finalmente pisou em solo brasileiro, no porto de Vitória, Espírito Santo, Zacimba já não era mais a princesa que um dia fora. Estava magra, doente, coberta de feridas, mas algo dentro dela permanecia intacto, sua dignidade e sua memória de quem realmente era. Foi vendida no mercado de escravos por 200.
000 reis a um fazendeiro chamado Benedito Meira do Amaral, homem conhecido em toda a capitania por sua riqueza e por sua crueldade sem limites. A fazenda Santo Antônio, propriedade de Benedito Meira, ficava a três léguas de Vitória, numa região de morros cobertos por Mata Atlântica, onde se cultivava principalmente cana de açúcar e mandioca.
A propriedade abrigava cerca de 150 escravizados que trabalhavam de sol a sol sob a supervisão de feitores brutais. Benedito, viúvo de 52 anos, mantinha a fazenda com mão de ferro e tinha prazer pessoal em participar das punições aos cativos que considerava insubordinados.
Desde o primeiro dia, Zacimba chamou a atenção do Senhor, não pela beleza, pois estava esquelética e marcada pela travessia, mas por algo em seu porte, na forma como mantinha a cabeça erguida, mesmo quando todos ao redor abaixavam os olhos. Benedito interpretou aquilo como desafio. “Essa aqui precisa aprender logo o seu lugar”, disse ao feitor Mor João Batista, um mulato liberto que servia seu antigo Senhor com uma lealdade doentia.
Os primeiros meses de Zacimba na fazenda Santo Antônio foram um inferno calculado. Benedito Meira parecia ter feito dela seu projeto pessoal de quebra de espírito. Foi designada para os trabalhos mais pesados nos canaviais, onde o sol do meio-dia era implacável e as cobras eram presença constante entre as plantas.
quando não conseguia cumprir as cotas impossíveis estabelecidas pelo feitor, era açoitada publicamente na frente dos outros escravizados como exemplo. Mas as torturas físicas eram apenas o começo. Benedito tinha o costume de escolher escravas para seus prazeres noturnos. Isaacimba logo se tornou vítima desses abusos sistemáticos.
Nas noites em que era levada à casa grande, sofria não apenas o estupro, mas também humilhações calculadas para destruir qualquer resquício de dignidade. “Você se acha melhor que os outros negros?”, ele perguntava enquanto a violentava. “Vou te ensinar que aqui você não passa de um animal”. Durante os primeiros três anos de cativeiro, Zacimba foi açoitada mais de 50 vezes.
Teve dois dedos da mão esquerda quebrados com martelo como punição por ter derrubado um cesto de mandioca. Foi trancada por cinco dias no tronco sob o sol escaldante sem água, porque ousou olhar diretamente para o Senhor quando ele lhe dava ordens. Seu corpo se tornou um mapa de cicatrizes, cada uma contando uma história de dor e resistência.
Mas algo extraordinário acontecia. Quanto mais Benedito tentava quebrar Zacimba, mais ela se fortalecia internamente. Nos momentos de descanso na cenzala, quando a maioria dos escravizados caía em sono exausto, ela permanecia acordada, observando, aprendendo, planejando.
Estudava os movimentos do Senhor e dos feitores. memorizava as rotinas da fazenda, identificava os pontos fracos do sistema que a aprisionava. Zacimba também começou a conquistar a confiança dos outros escravizados. Nos domingos, único dia de folga parcial, utilizava seu conhecimento ancestral sobre plantas para curar feridas e aliviar dores dos companheiros de Senzala.
preparava cataplasmas com folhas da mata, chás que acalmavam febres, unguentos que cicatrizavam açoites. Lentamente, tornou-se uma figura respeitada e até mesmo reverenciada entre os cativos. Eles começaram a chamá-la de mãe mesmo ela tendo apenas 25 anos. Foi durante esse período que ela conheceu Benedito, o escravo.
Sim, o senhor da fazenda tinha tanta arrogância que havia comprado um cativo e lhe dado seu próprio nome como se fosse uma piada cruel. Benedito, o escravo, tinha 40 anos e havia chegado ao Brasil ainda criança. Era um homem quieto, forte, que trabalhava como carpinteiro na fazenda. Diferente da maioria, ele sabia ler e escrever habilidades que aprendera secretamente com um padre abolicionista anos antes.
Entre Zacimba e Benedito desenvolveu-se algo raro naquele ambiente de brutalidade. Uma amizade profunda baseada em respeito mútuo e esperança compartilhada de liberdade. Nas noites de Lua Nova, quando a escuridão era total, eles conversavam baixinho na cenzala sobre suas memórias de liberdade e seus sonhos de um dia serem livres novamente. Benedito falava dos quilombos que sabia existirem na região, como unidades de fugitivos escondidas nas matas densas do interior.
Dizem que existe um quilombo grande há dois dias de caminhada daqui”, contou ele certa vez. chamam de riacho doce. Lá vivem mais de 200 almas livres, plantando, caçando, vivendo como gente de verdade. Tem até uma escola para as crianças. Zacimba ouviu aquilo com o coração acelerado.

Pela primeira vez em anos, uma centelha de esperança genuína acendeu dentro dela. Mas sabia que fugir sozinha seria suicídio. Precisaria de um plano, de aliados, de recursos. E, mais importante, precisaria de uma forma de garantir que Benedito Meira nunca pudesse persegui-la. O ano de 1753 trouxe uma seca severa que afetou toda a capitania do Espírito Santo. As plantações sofreram, a produção caiu e Benedito Meira ficou ainda mais cruel e paranoico.
Aumentou as cotas de trabalho, reduziu as rações dos escravizados e intensificou as punições por qualquer deslize. Três cativos morreram de exaustão naquele verão. Uma mulher chamada Joana foi açoitada até a morte porque tentou esconder um pouco de farinha para alimentar seu filho doente. Foi nesse clima de terror intensificado que Zacimba tomou a decisão final. Não podia mais esperar.
Ou agiria logo ou morreria naquela fazenda. Começou então a arquitetar o plano que mudaria seu destino e o de dezenas de outros escravizados. O primeiro passo foi identificar aliados confiáveis. Além de Benedito, o carpinteiro recrutou discretamente mais sete pessoas. Maria Joaquina, uma cozinheira da casa grande que tinha acesso à comida do Senhor. Tomás, um ferreiro forte como um touro.
Josefa e seu marido, André, ambos trabalhadores dos canaviais. Silvestre, um rapaz jovem e rápido, que servia de mensageiro entre a fazenda e a vila, Rosa, uma parteira respeitada, e Domingos, um ancião que conhecia todas as trilhas da região por ter trabalhado como caçador antes de ser escravizado. Durante três meses, esse grupo se reuniu em segredo, sempre em locais diferentes e em pequenos números para não levantar suspeitas.
Zacimba liderava as discussões com uma clareza estratégica que impressionava a todos. Havia herdado de seu pai a capacidade de planejar campanhas militares e agora aplicava esse conhecimento à sua própria guerra de libertação. O plano tinha três fases cruciais.
Primeiro, envenenar Benedito Meira de forma que parecesse morte natural, evitando assim uma caça imediata aos fugitivos. Segundo, roubar armas, ferramentas e mantimentos suficientes para a jornada até o quilombo do riacho doce. Terceiro, fugir em grupo durante a confusão que se seguiria à morte do Senhor, levando o maior número possível de escravizados que quisessem arriscar a liberdade.
Para a primeira fase, Zacimba utilizaria seus conhecimentos ancestrais sobre plantas. Na mata ao redor da fazenda, identificou uma espécie de cipó, conhecido entre seu povo, por suas propriedades letais, quando preparado corretamente. O veneno causaria sintomas semelhantes a um ataque cardíaco fulminante, comum em homens de idade avançada.
Maria Joaquina, a cozinheira, seria responsável por adicionar o veneno à comida do Senhor no momento certo. A data escolhida foi 15 de agosto de 1753, dia de Nossa Senhora da Assunção, quando haveria uma festa religiosa na vila e a maioria dos feitores estaria ausente participando das celebrações. Benedito Meira ficaria na fazenda, como era seu costume, em dias de festa, bebendo aguardente e abusando das escravas que ficassem para trás.
Os dias que antecederam a execução do plano foram de tensão insuportável. Zacimba preparou o veneno pessoalmente, extraindo o sumo do cipó e concentrando-o, através de um processo lento de fervura em panela de barro, escondida na mata. O líquido resultante era espesso, amargo e mortal em pequenas doses.
Guardou-o num frasco de vidro roubado da Casa Grande, escondido sob as tábuas soltas do chão da Cenzala. Na noite de 14 de agosto, Zacimba reuniu-se uma última vez com seus aliados. Amanhã, quando o sol se pr, seremos livres ou estaremos mortos?”, disse ela. Sua voz firme, apesar do coração acelerado. Não há mais volta. Cada um sabe o que fazer. Que os espíritos de nossos ancestrais nos protejam. Maria Joaquina estava visivelmente nervosa.
E se o veneno não funcionar? E se ele perceber o gosto? Vai funcionar? respondeu Zacimba com uma confiança que tranquilizou a todos. Meu povo usava esse veneno há centenas de anos. É infalível e praticamente sem gosto quando misturado a comida forte. Você vai colocar no ensopado de carne que ele sempre pede aos domingos. O tempero forte vai mascarar qualquer coisa.
O dia 15 de agosto de 1753 amanheceu quente e úmido, típico do verão capixaba. A fazenda tinha um ar de abandono parcial, com a maioria dos feitores tendo partido antes do nascer do sol para a festa na vila. Apenas João Batista, o feitor MOR, permanecera para supervisionar os trabalhos essenciais junto com dois capatazes menos importantes.
Benedito Meira acordou de mau humor, ressaca da cachaça da noite anterior. Gritou por café assim que acordou e xingou Maria Joaquina quando ela demorou 3 minutos a mais que o habitual para trazer a bandeja. O Senhor passou o dia bebendo, passeando pela fazenda para demonstrar autoridade e fazendo ameaças aleatórias aos escravizados que encontrava pelo caminho.
Ao cair da tarde, por volta das 5 horas, Benedito ordenou seu jantar. Maria Joaquina preparou o prato favorito dele, ensopado de carne de porco com quiabos, feijão tropeiro e farinha de mandioca. Suas mãos tremiam enquanto adicionava o veneno de Zacimba à panela, mexendo bem para distribuir uniformemente.

Serviu o prato numa travessa de louça e levou à sala de jantar, onde o senhor já esperava, com uma garrafa de aguardente aberta ao lado. Demorou, negra, resmungou ele. Quer apanhar? Não, senhor, respondeu Maria Joaquina, abaixando os olhos. Peço perdão, senhor. Benedito começou a comer com apetite, elogiando até a qualidade do tempero. Hoje você acertou a mão, Joaquina, assim que eu gosto.
Terminou todo o prato, limpando até os últimos restos com farinha, e bebeu mais dois copos de aguardente antes de se levantar da mesa. Na cenzala, Zacimba e os outros aguardavam notícias. O combinado era que Maria Joaquina acenderia uma lamparina específica na janela da cozinha assim que o senhor começasse a passar mal. Os minutos se arrastavam como horas.
O veneno poderia levar de 30 minutos a 2 horas para fazer efeito, dependendo de vários fatores. 1 hora e meia depois do jantar, a lamparina foi acesa. Maria Joaquina saiu correndo da casa grande, gritando: “O senhor, o senhor está passando mal!” Zacimba e Benedito, o carpinteiro, correram até a casa grande, seguidos por outros escravizados curiosos.
Encontraram Benedito Meira caído no chão da sala, agarrando o peito, o rosto contorcido de dor, suores correndo pela testa. Seus lábios estavam azulados e ele lutava para respirar. Busquem o Dr. Teodoro na vila”, gritou João Batista, o feitor More, que havia chegado correndo ao ouvir a confusão. “Rápido, o senhor está tendo um ataque.” Mas Zacassimba sabia que nenhum médico poderia salvá-lo.
O veneno já havia percorrido todo o corpo, atacando o coração e os pulmões. Em menos de 10 minutos, Benedito Meira do Amaral estava morto. Seus olhos abertos e vidrados. A boca congelada num último grito silencioso de agonia. João Batista ficou em pânico. Sem o Senhor, sem os outros feitores. Estava sozinho para controlar mais de 150 escravizados. Mandou Silvestre, o mensageiro, cavalgar até a vila para buscar os outros feitores e avisar sobre a morte. Era exatamente o que Zacimba esperava.
Assim que Silvestre partiu, Zacimba reuniu discretamente seu grupo. É agora, disse ela. Temos talvez 4 horas até os feitores voltarem. Vamos pegar tudo que precisamos e partir. A confusão na fazenda trabalhava a favor deles. João Batista estava ocupado tentando organizar o velório do Senhor e manter a ordem entre os escravizados, que murmuravam excitados sobre a morte súbita.
Enquanto isso, o grupo de Zacimba executava a segunda fase do plano. Tomás, o ferreiro, invadiu o depósito de ferramentas e pegou facões, machados, facas e até duas espingardas velhas com munição. Benedito arrombou a dispensa e encheu sacos com farinha, carne seca, feijão e rapadura. Rosa reuniu cobertores e roupas extras. Domingos, o ancião preparou cantis com água e verificou que todos tinham calçados adequados para a caminhada longa.
Ao anoitecer, quando o caos na fazenda estava no auge, com escravizados chorando, outros comemorando secretamente e João Batista tentando desesperadamente manter controle, Zacimba deu o sinal final. Quem quer ser livre, nos siga agora. Não forçaremos ninguém, mas quem vier não pode voltar atrás. 32 escravizados, incluindo sete crianças, se juntaram ao grupo original.
Às 8 horas da noite de 15 de agosto de 1753, enquanto o corpo de Benedito Meira ainda estava sendo preparado para o velório, Zacimbagaba liderou a fuga mais ousada da história do Espírito Santo colonial. Domingos, que conhecia as trilhas, guiou o grupo por caminhos secretos através da Mata Atlântica.
Caminharam a noite toda, parando apenas brevemente para descansar e beber água. As crianças foram carregadas nos ombros dos adultos quando não conseguiam mais andar. Zacimba seguia na frente ao lado de Domingos, seus olhos brilhando com uma determinação que contagiava todos ao redor. Ao amanhecer do dia 16, já haviam percorrido uma distância considerável.
Pararam numa clareira protegida para descansar e comer. Foi ali que Zacimba, pela primeira vez em mais de 3 anos, permitiu-se chorar. Não eram lágrimas de tristeza, mas de libertação. Somos livres, ela sussurrou para Benedito, que estava sentado ao seu lado. Finalmente somos livres. Ainda não respondeu ele, sempre prático. Ainda faltam muitas léguas até o riacho doce e certamente virão atrás de nós.
Ele estava certo. Quando os feitores retornaram à fazenda na manhã do dia 16 e descobriram a fuga em massa, a fúria foi imediata. Capitães do mato foram contratados, cães foram soltos na trilha e cartazes com recompensas foram espalhados por toda a capitania. A recompensa pela captura de Zacimba era especialmente alta, 500.000 réis, mais do que o valor de cinco escravos comuns.
Mas Domingos conhecia truques antigos para despistar cães farejadores. Caminharam por riachos sempre que possível. espalharam pimenta nas trilhas e mudaram de direção várias vezes para confundir os perseguidores. A viagem que normalmente levaria dois dias acabou durando cinco, pois precisaram fazer desvios constantes e se esconder sempre que ouviam barulho de cavalos ou cães ao longe.
No quinto dia, exaustos, com as provisões quase acabando, avistaram finalmente as primeiras roças do quilombo do riacho doce. Era uma comunidade escondida numa depressão entre morros, cercada por mata densa, que a tornava quase invisível para quem não conhecesse a localização exata. Guardas armados os interceptaram antes que chegassem às primeiras casas.
“Quem são vocês? De onde vêm?”, perguntou um homem alto, segurando uma lança. “Somos fugitivos da fazenda Santo Antônio”, respondeu Zacimba. Dando um passo à frente, buscamos refúgio e liberdade. Somos 32, incluindo sete crianças. Estamos dispostos a trabalhar, a lutar, a fazer o que for necessário para viver como gente livre. O homem estudou o grupo por um longo momento, sua expressão séria.
Então, lentamente um sorriso se abriu em seu rosto. Sejam bem-vindos ao Riacho Doce. Aqui todos são irmãos. O quilombo do riacho doce era muito mais do que Zacimba havia imaginado. Era uma comunidade organizada, com mais de 200 pessoas vivendo em casas de pau a pique, plantando mandioca, milho, feijão e legumes, criando galinhas e porcos e até mantendo uma pequena escola onde as crianças aprendiam a ler e escrever.
Havia um conselho de líderes que tomava decisões coletivas e todos contribuíam com trabalho para o bem comum. Zacimba e seu grupo foram recebidos com festa. Comida foi preparada, histórias foram compartilhadas e lágrimas de alegria foram derramadas. Pela primeira vez em anos, Zacimba dormiu sem medo de ser acordada por um feitor, sem dor de açoites recentes, sem o terror de ser violentada durante a noite.
Nos meses seguintes, Zacimba se estabeleceu no quilombo e rapidamente ganhou respeito da comunidade. Seus conhecimentos sobre plantas medicinais eram preciosos, especialmente numa comunidade sem acesso a médicos. tratou feridas, curou febres, ajudou em partos e ensinou outras mulheres sobre as propriedades das plantas da Mata Atlântica.
Mas Zacimba não era apenas curandeira. Sua experiência como princesa e líder em sua terra natal se manifestava em sua capacidade de organizar, mediar conflitos e inspirar as pessoas ao seu redor. Em menos de um ano, foi convidada a fazer parte do conselho de líderes do quilombo, a primeira mulher a receber essa honra.
Durante os 15 anos seguintes, Zacimba viveu no quilombo do riacho doce, ajudando a comunidade a crescer e prosperar. casou-se com Benedito, o carpinteiro, que havia sido seu aliado na fuga, e juntos tiveram três filhos que nasceram e cresceram livres, algo que ela jamais ousara sonhar durante seus anos de cativeiro. O quilombo enfrentou várias tentativas de invasão por parte de capitães do mato e tropas oficiais, mas a comunidade sempre conseguiu se defender ou se dispersar temporariamente na mata, reagrupando-se depois. Zacimba participou ativamente da defesa
do quilombo, usando seu conhecimento estratégico para planejar emboscadas e rotas de fuga. Em 1768, já com 40 anos e o corpo marcado pelas torturas do passado, Zacimba adoeceu gravemente. Os anos de maus tratos na fazenda haviam cobrado seu preço. Suas costas, cobertas de cicatrizes de açoites, desenvolveram feridas que não cicatrizavam.
Seus pulmões, danificados pelo trabalho forçado sob o sol e pela travessia no navio negreiro, falhavam gradualmente. Mesmo doente, continuou atendendo os doentes do quilombo e ensinando suas técnicas às mulheres mais jovens. “Meu corpo pode estar fraco”, dizia ela, “mas meu espírito está mais forte do que nunca.
Vivi escravizada, mas morro livre e deixo filhos livres. Isso é mais do que muitos conseguem. Zacassim Bagaba morreu numa manhã de setembro de 1778, cercada por sua família e pela comunidade que ajudara a construir. Tinha 40 anos, mas parecia muito mais velha devido aos sofrimentos que suportara.
Foi enterrada num local especial do quilombo sob uma grande árvore, com todos os rituais de sua cultura africana que conseguiam lembrar e recriar. Nos anos que se seguiram à sua morte, a história de Zacimba se espalhou por outros quilombos e comunidades de escravizados. Transformou-se em lenda, em símbolo de resistência e coragem.
Contavam sobre a princesa africana que nunca se curvou, que sobreviveu a torturas inimagináveis, que envenenou seu algóz e liderou dezenas de pessoas para a liberdade. O quilombo do riacho doce continuou existindo por mais de 50 anos após a morte de Zacimba, até ser finalmente destruído numa operação militar massiva em 1820.
Mas mesmo depois de sua destruição física, a memória do quilombo e de sua liderança feminina persistiu na tradição oral das comunidades negras do Espírito Santo. A fazenda Santo Antônio, de onde Zacimba fugiu, nunca recuperou sua prosperidade após a morte de Benedito Meira e a fuga em massa de escravizados.
Seus herdeiros a venderam poucos anos depois e a propriedade mudou de mãos várias vezes antes de ser abandonada. Hoje, apenas ruínas marcam o local onde um dia funcionou aquela máquina de horror. A história de Zassimba Gaba nos ensina sobre a resiliência extraordinária do espírito humano. Capturada em sua terra natal, brutalizada durante anos de escravidão, marcada física e emocionalmente por torturas inimagináveis.
Ela não apenas sobreviveu, mas encontrou forças para liderar outros para a liberdade e construir uma nova vida baseada em dignidade e autonomia. Sua trajetória também revela a importância das mulheres negras como líderes de resistência durante o período escravista brasileiro. Quanto a história oficial frequentemente destaca apenas líderes masculinos como Zumbi dos Palmares, inúmeras mulheres como Zacimba, exerceram papéis fundamentais na organização de fugas, na manutenção de comunidades quilombolas e na preservação de conhecimentos ancestrais africanos. O conhecimento de Zacimba sobre plantas
medicinais e venenosas, herdado de suas ancestrais africanas, foi essencial não apenas para sua vingança contra Benedito Meira, mas também para o estabelecimento e sobrevivência do quilombo. Esse conhecimento botânico, frequentemente menosprezado pelos colonizadores europeus, era, na verdade, altamente sofisticado e científico, resultado de séculos de observação e experimentação.
A decisão de Zacimba de envenenar seu senhor, embora possa ser julgada moralmente por alguns, deve ser compreendida no contexto de uma pessoa que não tinha acesso a qualquer forma legal de justiça. Numa sociedade onde escravizados eram legalmente considerados propriedade, sem direitos humanos básicos, a resistência violenta era muitas vezes a única forma de autodefesa e libertação possível.
Hoje, mais de 250 anos após sua morte, Jassimba Gaba permanece como um símbolo poderoso da resistência negra no Brasil. Sua história nos lembra que a escravidão não foi aceita passivamente por seus vítimas, mas foi constantemente contestada, sabotada e combatida através de inúmeras formas de resistência, desde a fuga e formação de quilombos até atos de insurreição direta.
Em tempos recentes, historiadores e ativistas têm trabalhado para resgatar e divulgar histórias como a Zacassimba, histórias que foram sistematicamente apagadas ou minimizadas nos registros oficiais. Esse trabalho de memória é fundamental para uma compreensão completa e honesta da história brasileira e para o reconhecimento das contribuições e da resistência das populações africanas e afrodescendentes na formação do país.
A vida de Zacimba também levanta questões importantes sobre identidade e pertencimento. arrancada violentamente de sua terra natal, forçada a viver num contexto completamente estranho, ela conseguiu não apenas preservar elementos de sua identidade africana, mas também criar uma nova identidade híbrida, brasileira e africana, simultaneamente, que foi transmitida aos seus descendentes e a comunidade quilombola, que ajudou a construir, que a memória de Zassimba Gaba, A princesa que se tornou escrava, mas que reconquistou sua liberdade através de coragem e determinação,
continue inspirando todas as pessoas que lutam por justiça, dignidade e libertação. Sua história não é apenas sobre o passado, mas um lembrete urgente de que a luta contra todas as formas de opressão continua sendo necessária e que a resistência em todas as suas formas é não apenas legítima, mas essencial para a construção de sociedades verdadeiramente justas e humanas.
Aleluia.