A Escrava Que Suportou 40 Dias de Humilhação e Fugiu: A Vingança Silenciosa de Joana – 1858

Ninguém na fazenda Santa Cecília, em Vassouras, Rio de Janeiro, imaginava que aquela jovem escrava de 20 anos, com olhar firme e postura ereta demais para quem deveria andar de cabeça baixa, estava contando cada dia de humilhação, 40 dias exatos, 40 dias que dona Eugênia da Silva Monteiro transformou em um inferno calculado de crueldades psicológicas.
40 dias que terminariam com uma fuga que ninguém esperava e uma vingança tão silenciosa quanto devastadora. Mas para entender como Joana conseguiu o impossível, precisamos voltar ao início, ao dia em que tudo começou a desmoronar. Joana nasceu livre. Esse detalhe é importante porque marca a diferença entre quem nasce aceitando correntes e quem as recebe como uma violência contra sua própria natureza.


Filha de José e Benedita, pequenos lavradores negros libertos que tinham uma roça modesta perto de Valença. Joana cresceu com a promessa de que seu futuro seria diferente. Seu pai repetia sempre: “Você vai estudar, menina? vai ser diferente de nós. Mas o destino tem formas cruéis de quebrar promessas. Em março de 1858, uma febre misteriosa varreu a região.
Em duas semanas, José e Benedita estavam mortos. Joana, aos 20 anos, ficou sozinha com uma pequena propriedade e dívidas que seus pais haviam contraído para plantar a última safra. Foi quando apareceu o coronel Antônio da Silva Monteiro, senhor da fazenda Santa Cecília, com documentos que provavam que José devia uma quantia impossível de pagar. “Ou você paga R00.
000 ré”, disse o coronel naquela tarde de abril, “Ou trabalha para mim até quitar a dívida”. Joana sabia que aquilo era uma armadilha, sabia que 1200.000 Ris eram uma fortuna que levaria décadas para pagar. Sabia que seu pai jamais teria feito uma dívida dessas, mas não tinha como provar. Não tinha advogado, não tinha família, não tinha ninguém.
“Quanto tempo?”, perguntou ela, já sentindo o peso das correntes invisíveis. “Depende do seu trabalho, uns 5, se anos, talvez.” “Mentira!” Joana descobriria que ele nunca pretendia deixá-la ir. A fazenda Santa Cecília era uma das propriedades mais prósperas do Vale do Paraíba. Seus cafezais se estendiam por centenas de hectares, trabalhados por mais de 200 escravos.
A Casagrande, um sobrado imponente de dois andares com varandas largas e colunas brancas, dominava a paisagem como um símbolo do poder absoluto do coronel. Mas quem realmente comandava os detalhes do dia a dia era dona Eugênia. Eugênia da Silva Monteiro tinha 42 anos quando Joana chegou à fazenda. Era uma mulher magra, de feições afiadas e olhos pequenos que pareciam sempre estar avaliando, julgando, encontrando defeitos.
Casada aos 16 anos com o coronel, que agora tinha 58, ela havia passado mais de duas décadas exercendo um poder absoluto sobre as escravas domésticas. E dona Eugênia tinha um talento especial para identificar quem não se curvaria facilmente. Joana chegou à fazenda numa manhã de maio. Foi levada diretamente para a cenzala, onde recebeu duas mudas de roupa de algodão grosso e um cobertor fino.
Feitor Mor, um mulato chamado Severino, explicou as regras: acordar antes do amanhecer, trabalhar até o anoitecer, obedecer sempre, jamais olhar diretamente para os senhores. E principalmente, disse Severino com voz baixa, não provoque assim a ela tem memória longa e criatividade para punir. Joana ouviu tudo em silêncio, mas seu rosto não mostrava a submissão esperada.
Seus olhos permaneciam firmes, sua postura ereta, aquilo seria sua perdição. No terceiro dia na fazenda, Joana foi designada para trabalhar na casa grande. Dona Eugênia estava tomando café na varanda quando a viu pela primeira vez. Assim parou com a xícara no ar, observando aquela jovem que caminhava com a cabeça erguida, que olhava diretamente para a frente em vez de manter os olhos no chão.
“Como é seu nome?” O Eljuiz perguntou dona Eugênia com voz fria. Joana. Joana o quê? Só Joana Senhá. Dona Eugênia tomou um gole do café sem desviar os olhos. Você tem um jeito muito altivo para quem deve estar aqui. Severino, não te ensinou a andar de cabeça baixa? Joana abaixou o olhar, mas não rápido o suficiente.
Dona Eugênia viu a resistência naquele gesto, viu a raiva contida, o orgulho ferido, a recusa em aceitar completamente sua condição. E algo nela, algo sombrio e retorcido, decidiu que quebraria aquele espírito. “Você vai trabalhar na cozinha?”, disse assim: “Ah, e na sala de jantar, servindo à mesa, quero você onde eu possa te ver”.
Foi assim que começou. As primeiras duas semanas foram apenas observação. Dona Eugênia estudava Joana como um caçador estuda sua presa. Notava cada gesto, cada expressão, cada momento em que a máscara de submissão escorregava e revelava a pessoa livre que Joana havia sido. E assim a foi desenvolvendo um plano meticuloso de humilhação.
A crueldade de dona Eugênia não era física. Ela raramente ordenava açoites ou castigos corporais diretos. Seu método era psicológico, refinado, projetado para corroer a dignidade aos poucos, como água que desgasta a pedra. Começou com pequenas coisas. Joana servia o jantar e assim a reclamava que o prato estava frio, mesmo quando estava quente, mandava refazer.
Joana voltava com outro prato. Agora está quente demais. Você quer me queimar? Joana tinha que refazer novamente enquanto os outros escravos comiam, deixando-a por último, sempre com as sobras. Depois vieram as armadilhas. Dona Eugênia deixava objetos valiosos em lugares estratégicos e depois acusava Joana de tê-los movido ou quebrado.
Eu deixei esse leque exatamente aqui. Você mexeu, não foi? confessa que mexeu. Mesmo quando Joana jurava que não tinha tocado em nada, era punida, ficando de pé na cozinha por horas, sem poder sentar ou descansar. Mas assim, percebia que aquilo não era suficiente. Joana aguentava tudo com um silêncio teimoso, com olhos que, mesmo baixos, carregavam uma centelha de resistência.
Dona Eugênia precisava de algo mais devastador. Foi então que bolou a cena da mesa. Era um domingo de junho, seis semanas depois da chegada de Joana. A família havia recebido visitas, o pároco local e duas outras famílias de fazendeiros da região. Depois da missa na capela da fazenda, todos se reuniram para um almoço especial na varanda da Casagre.
Dona Eugênia convocou todas as escravas domésticas. Eram sete ao todo, incluindo Joana. Ordenou que ficassem em fila de pé ao lado da mesa enquanto os senhores comiam. Sobre um aparador lateral havia uma bandeja com pastéis ainda quentes, cocadas e doces de abóbora. O cheiro era torturante.
As escravas estavam de pé há 4 horas desde a preparação do almoço. Nenhuma havia comido desde a noite anterior. Era parte do plano de dona Eugênia deixá-las com fome extrema antes da humilhação final. Quando os senhores terminaram de comer, aá se levantou graciosamente e caminhou até o aparador. Pegou a bandeja com os doces e começou a distribuir uma a escravas em fila.
Você trabalhou bem hoje, Benedita. Pode pegar um pastel. Benedita pegou com mãos trêmulas e comeu rapidamente em pé. Você também, Rosa. E você, Francisca? Uma a uma, dona Eugênia foi distribuindo os doces. As escravas comiam rapidamente, agradecidas, sem ousar olhar diretamente paraá. A bandeja ia esvaziando.
Restavam apenas três pastéis. Quando dona Eugênia chegou em Joana, Joana estava com tanta fome que seu estômago doía. havia trabalhado desde antes do amanhecer, ajudando a preparar aquele banquete que não podia comer. Seus olhos fixaram-se involuntariamente nos pastéis restantes. Dona Eugênia parou bem na frente dela, segurou a bandeja na altura dos olhos de Joana, fazendo questão de que ela visse bem os pastéis ainda quentes, o açúcar polvilhado, o cheiro tentador.
Você não disse assim, com voz doce e venenosa, e continuou para as próximas duas escravas, distribuindo os últimos pastéis, enquanto Joana permanecia ali vazia, humilhada na frente de todos. Joana sentiu algo quebrar dentro dela naquele momento. Não foi a fome, embora ela estivesse quase desmaiando. Foi a crueldade calculada, a humilhação pública, o prazer evidente nos olhos de dona Eugênia. Joana olhou para Simá.
Foi um olhar breve, apenas 2 segundos, mas estava carregado de tudo que ela não podia dizer: raiva, desprezo, ódio. Dona Eugênia viu aquele olhar e sorriu. Virou-se para o marido que conversava com os convidados do outro lado da varanda. Antônio, Antônio, venha ver isso. O coronel se aproximou intrigado. O que foi, Eugênia? Essa escrava aqui”, disse assim a apontando para Joana, “cabou de me olhar com desrespeito na frente de todos.
Você viu o jeito que ela me olhou?” O coronel franziu a testa. “É verdade isso, Joana?” Joana manteve os olhos baixos agora, mas seu corpo tremia de fome, de raiva, de humilhação. “Ela precisa ser corrigida”, continuou dona Eugênia com voz firme. “Não podemos permitir esse tipo de atrevimento. Se deixarmos passar, amanhã ela vai estar respondendo.
Depois será violenta.” Severino. O feitor apareceu imediatamente. Sim, sim. Leve essa escrava para o tronco, 20 chibatadas e depois ela fica amarrada lá até amanhã de manhã para aprender respeito. Joana foi arrastada para o terreiro. O tronco ficava perto da cenzala à vista de todos. Seus pulsos foram amarrados, suas costas expostas.


As 20 chibatadas rasgaram sua pele e sua dignidade. Cada golpe ecoava pelo silêncio da fazenda. Os outros escravos assistiam aterrorizados, sabendo que aquilo poderia acontecer com qualquer um deles. Mas o pior não foram as chicotadas. foi ficar amarrada ali sangrando com fome, com sede, sob o sol escaldante da tarde e depois sob o frio da noite, enquanto ouvia os sons da fazenda continuando normalmente, o jantar sendo servido, as risadas vindas da casa grande, a vida seguindo como se ela não existisse. Foi naquela noite
amarrada ao tronco que Joana tomou uma decisão. Ela iria embora. Não importava como, não importava quando, mas ela sairia daquela fazenda. E quando saísse, dona Eugênia pagaria por cada humilhação. Joana começou a contar os dias. 40 dias, decidiu. 40 dias para planejar tudo perfeitamente 40 dias para juntar informações, mapear a fazenda, identificar a melhor rota de fuga, 40 dias para suportar o que viesse, mantendo a cabeça baixa e o coração aceso.
Mas dona Eugênia estava apenas começando. Nos dias seguintes, as humilhações se intensificaram. Aá inventava motivos para punir Joana constantemente. Se ela varria o chão, estava varrendo errado. Se lavava a roupa, não estava tirando as manchas. Se costurava, os pontos estavam tortos. Cada acusação vinha acompanhada de alguma punição. Ficar de joelhos no milho, ficar de pé segurando pesos, ser privada de água durante horas.
Mas o método favorito de dona Eugênia continuava sendo a comida. Ela descobriu que negar alimento a Joana ou fazê-la assistir outros comerem enquanto ela passava fome era a tortura psicológica mais eficaz. Passou a fazer isso regularmente. Ordenava que Joana servisse à mesa e depois mandava que ficasse ali de pé, assistindo todos comerem sem poder tocar em nada.
Você comeu ontem”, dizia a Simá. “Não precisa comer hoje também”. Joana suportava tudo em silêncio, mas por dentro estava mudando. A jovem que chegara à fazenda com raiva estava se transformando em algo mais perigoso, uma mulher com um plano. Durante aqueles 40 dias, Joana observou tudo. Aprendeu que o coronel viajava toda a terceira segunda-feira do mês para a cidade, ficando ausente por dois dias.
Notou que Severino, o feitor, bebia cachaça todas as noites e dormia pesado. Descobriu que havia uma trilha nos fundos da fazenda que os escravos usavam para buscar lenha, uma trilha que levava a mata fechada e, eventualmente a estrada para Valença. Também fez aliados. Havia uma escrava mais velha chamada Tomásia, que trabalhava na cozinha há 30 anos.
Tomásia havia visto tanta crueldade na vida que já não se assustava com nada. Ela gostava de Joana, via nela a filha que havia perdido vendida para outra fazenda anos atrás. “Você tem fogo nos olhos, menina”, disse Tomás a certa noite, enquanto preparavam a janta. Esse tipo de fogo ou te consome ou te salva. Escolhe qual vai ser.
“Eu vou embora daqui, tia Tomásia”, sussurrou Joana. A velha escrava não se assustou, apenas a sentiu devagar. Quando for, vai de noite, lua nova, e leva farinha, rapadura e esse aqui. Ela enfiou na mão de Joana um pequeno embrulho. É veneno de rato. Se eles te pegarem, você sabe o que vai acontecer. Às vezes é melhor morrer pela própria mão do que nas mãos deles.
Joana engoliu seco, mas pegou o embrulho. O 30º dia chegou. Faltavam apenas 10 dias para a próxima lua nova quando Joana planejava fugir. Mas dona Eugênia ainda tinha uma última crueldade reservada. Eram sábado à tarde. A Sinh estava entretendo visitas na sala de estar quando mandou chamar Joana. Quando a jovem chegou, encontrou dona Eugênia sentada com outras três senhoras da região, todas tomando chá e comendo bolos.
Joana disse assim: “Ah, com voz doce demais. Minhas amigas estavam comentando sobre você. Dizem que você tem um jeito muito orgulhoso. Isso é verdade?” Joana manteve os olhos no chão. Não, sim. Ah, então prove. Vire-se de costas e levante seu vestido. Minhas amigas querem ver as marcas das correções que você recebeu.
O silêncio na sala ficou pesado. As outras senhoras pareciam desconfortáveis, mas nenhuma protestou. Joana ficou paralisada. Aquilo não era apenas humilhação, era tortura pública de sua dignidade. Eu disse para levantar o vestido, repetiu dona Eugênia, agora com voz dura. As mãos de Joana tremiam quando ela lentamente virou-se de costas e levantou o vestido, expondo as cicatrizes dos açoites, as marcas da violência, sua pele machucada.
As senhoras examinaram como se estivessem avaliando um animal. fizeram comentários sobre as técnicas de correção, sobre quantas chibatadas eram necessárias para quebrar o espírito de uma escrava teimosa. Joana permaneceu ali exposta, destruída por quase 10 minutos. Quando finalmente recebeu permissão para abaixar o vestido e sair, algo nela havia se calcificado em pura determinação.
Não eram mais 10 dias até a fuga, eram sete. Ela não aguentaria mais. Na noite do 37º dia, Joana finalizou seus preparativos. Tomásia havia escondido para ela um pouco de farinha, rapadura e carne seca. Joana havia roubado uma faca pequena da cozinha e escondido no forro de seu vestido. Tinha um pequeno frasco com água e tinha o veneno guardado em um lugar que só ela sabia.
Mas antes de fugir, Joana precisava fazer uma última coisa. Uma vingança que não envolveria a violência física, mas que destruiria a dona Eugênia de uma forma muito mais profunda. Joana sabia que a Simá tinha um segredo. Havia descoberto por acaso três semanas atrás, quando estava limpando o quarto do casal. Encontrou cartas escondidas no fundo de uma gaveta.
Cartas de amor de dona Eugênia para um homem que não era o coronel, um advogado de vassouras chamado Dr. Henrique Campos. As cartas eram explícitas, apaixonadas, falavam de encontros secretos durante as viagens do coronel. Joana havia lido todas e memorizado o nome do advogado e alguns trechos específicos. Depois, cuidadosamente colocou tudo de volta no lugar, mas guardou aquela informação como uma arma.
Na noite do 39º dia, Joana escreveu uma carta. Ela sabia ler e escrever algo que seus pais haviam insistido em ensinar e que havia escondido dos senhores. A carta era endereçada ao coronel Antônio da Silva Monteiro e detalhava tudo: os encontros da esposa com o Dr. Henrique Campos, as cartas escondidas, as datas específicas das viagens suspeitas de dona Eugênia para a cidade.
Joana não tinha as cartas originais, mas descreveu trechos que eram inconfundíveis. Celou a carta e a escondeu em um lugar estratégico dentro de um livro de rezas que o coronel consultava todas as manhãs na biblioteca. Ela sabia que ele encontraria em dois, talvez três dias. Na madrugada do quadrago dia, uma segunda-feira sem lua, enquanto o coronel estava viajando e Severino roncava bêbado, Joana saiu da cenzala silenciosamente.
Carregava seus poucos pertences amarrados em um pano. Seguiu a trilha da lenha, entrando na mata fechada. Seu coração batia tão forte que ela tinha medo de que alguém pudesse ouvir. Caminhou a noite inteira, orientando-se pelas estrelas. como seu pai havia ensinado anos atrás. Quando o sol começou a nascer, ela já estava a léguas de distância da fazenda Santa Cecília.
Escondeu-se em uma grota durante o dia, bebendo água de um riacho, comendo um pouco da rapadura. Ao cair da noite, continuou caminhando. Três dias depois, chegou a uma comunidade quilombola escondida nas montanhas perto de três rios. Os quilombolas, desconfiados no início, aceitaram Joana depois que ela demonstrou suas habilidades.
Sabia cozinhar, sabia plantar, sabia ler e escrever. Em uma comunidade, sempre precisando de pessoas com conhecimento, Joana encontrou seu lugar. Enquanto isso, na fazenda Santa Cecília, o caos se instalava. Na manhã seguinte à fuga de Joana, Severino descobriu que ela havia sumido. Organizou uma busca imediata, mas os cães perderam o rastro na mata.
O coronel, quando retornou dois dias depois, ficou furioso. Ordenou que capatazes vasculhassem toda a região, mas Joana havia desaparecido. Foi naquela mesma manhã que o coronel abriu seu livro de rezas e encontrou a carta. O que aconteceu nos dias seguintes se tornou lenda na região. O coronel Antônio confrontou dona Eugênia com as acusações.
Ela negou tudo, obviamente, mas ele encontrou as cartas escondidas exatamente onde a carta anônima dizia que estavam. A verdade era innegável. O escândalo varreu vassouras como um incêndio. Dr. Henrique Campos foi forçado a deixar a cidade. Dona Eugênia foi mandada para viver em um convento em Petrópolis, uma forma velada de prisão domiciliar perpétua.
O casamento foi anulado pela igreja. A reputação da família Monteiro, construída durante décadas, desmoronou em questão de semanas. O coronel, humilhado publicamente, tornou-se um homem amargo e recluso. A fazenda Santa Cecília começou a declinar. Sem a administração rígida da Casagre, os negócios se desorganizaram.


5 anos depois, em 1863, o coronel morreu de desgosto, diziam. A fazenda foi vendida para pagar dívidas. Joana nunca soube de todos esses detalhes. Permaneceu no quilombo por 3 anos, até que a lei do ventre livre de 1871 trouxe mudanças que tornaram sua situação menos perigosa. Com a ajuda de abolicionistas de vassouras, conseguiu documentação falsa que a registrava como liberta.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1872, onde trabalhou como cozinheira em uma casa de família abolicionista. Foi lá que conheceu Tomás, um marceneiro negro livre. Casaram-se em 1874 e tiveram três filhos. Joana viveu o resto de sua vida longe do Vale do Paraíba, longe das memórias da fazenda Santa Cecília, mas ela nunca esqueceu aqueles 40 dias.
nunca esqueceu o rosto de dona Eugênia quando negou a ela um simples pastel. Nunca esqueceu a humilhação de ser exposta como animal diante de estranhos. Essas memórias a acompanharam até sua morte, em 1903, aos 65 anos. Antes de morrer, já velha e rodeada pelos netos, Joana contou sua história para a filha mais velha, Benedita.
contou sobre a fuga, sobre a carta, sobre a vingança silenciosa que destruiu uma família inteira de escravocratas. “Mãe”, perguntou Benedita, “a senhora se arrepende do que fez?” Joana ficou em silêncio por um longo momento, seus olhos fixos em algum ponto distante no passado. “Me arrependo de não ter fugido no primeiro dia”, respondeu finalmente.
“Me arrependo de cada humilhação que suportei antes de ter coragem de partir, mas da carta, daquela vingança, nunca. Dona Eugênia destruiu minha dignidade durante 40 dias. Eu destruí sua vida inteira com uma única carta. Foi justiça, não vingança. A história de Joana nunca foi registrada nos livros oficiais. Não há documentos que confirmem sua existência, nenhum registro de sua fuga ou das consequências que desencadeou, mas sua história ecoou através das gerações, passada de mãe para filha, de avó para neta, como um testemunho do que a
crueldade pode gerar e do que a coragem pode conquistar. 40 dias. 40 dias de humilhação sistemática, de crueldade calculada, de quebra deliberada da dignidade humana, mas também 40 dias de planejamento, de resistência silenciosa, de preparação para uma liberdade que seria conquistada não dada. Joana suportou o insuportável e transformou seu sofrimento em libertação.
Mais do que isso, transformou a arma de sua opressora contra ela mesma, provando que até mesmo no sistema mais brutal, a inteligência e a determinação podem encontrar caminhos para a justiça. Em uma época onde a escravidão roubava tudo dos cativos, sua força física, seu tempo, sua liberdade, havia uma coisa que não conseguia roubar completamente, a capacidade de resistir, de planejar, de encontrar brechas no sistema aparentemente impenetrável.
Joana representa todas aquelas que se recusaram a aceitar a desumanização, que mantiveram acesa a chama da dignidade, mesmo nos momentos mais sombrios. Hoje, quando visitamos as ruínas das antigas fazendas de café do Vale do Paraíba, quando caminhamos pelas censalas restauradas e admiramos as casas grandes preservadas, raramente pensamos nas joanas que passaram por ali, nas mulheres e homens que sofreram humilhações inimagináveis, que foram tratados como objetos, que tiveram sua humanidade negada a cada dia. Eles
existiram. Resistiram. E alguns, como Joana, encontraram formas de quebrar suas correntes e reescrever seus destinos. A escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. deixou cicatrizes profundas em nossa sociedade, que ainda não cicatrizaram completamente, mas também deixou histórias de resistência, de coragem, de pessoas que se recusaram a ser apenas vítimas passivas de um sistema brutal.
Joana é uma dessas histórias, um lembrete de que a dignidade humana não pode ser completamente destruída, mesmo quando submetida às piores formas de crueldade. 40 dias mudaram tudo. 40 dias que começaram com uma jovem de 20 anos sendo humilhada por uma senhá cruel e terminaram com uma mulher livre, vivendo sob seu próprio nome, criando filhos livres em uma vida que ela mesma conquistou.
Não foi um final feliz no sentido convencional. As cicatrizes permaneceram, os pesadelos não desapareceram, a raiva nunca se dissolveu completamente, mas foi um final de liberdade e às vezes é tudo que importa.

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