A Escrava Que Escondia Fugitivos Dentro da Própria Casa do Senhor: Historia Real – 1865

Durante 15 anos, o desembargador Joaquim Pereira da Fonseca, um dos magistrados mais respeitados do Rio de Janeiro, dormiu tranquilamente em sua luxuosa residência no Catete, sem imaginar que, bem debaixo de seus pés, no porão de sua própria casa, dezenas de escravos fugitivos encontravam abrigo temporário antes de seguirem para os quilombos urbanos.


A responsável por essa operação audaciosa era felicidade, sua escrava de confiança, governanta da casa há mais de uma década. Quando finalmente descobriram a verdade, em outubro de 1880, mais de 300 fugitivos já haviam passado por aquele esconderijo impossível. Mas para entender como uma mulher conseguiu manter esse segredo por tanto tempo, precisamos voltar ao ano de 1865, quando tudo começou.
Felicidade tinha 32 anos, quando a guerra do Paraguai começou a esvaziar as fazendas de café do Vale do Paraíba. Nascida na própria casa do desembargador, filha de sua antiga cozinheira, ela crescera servindo a família Pereira da Fonseca. Diferente da maioria dos escravos urbanos, felicidade tinha acesso a praticamente todos os cômodos da residência.
supervisionava o trabalho das outras cinco escravas domésticas, controlava a dispensa, organizava os jantares sociais e era responsável pela limpeza de cada canto daquela mansão de três andares que ocupava uma esquina inteira no catete. A casa do desembargador era imponente, construída no estilo neoclássico.
Tinha fachada amarela com janelas de guilhotina, portão de ferro trabalhado e um jardim frontal com palmeiras imperiais. Mas era sua estrutura interna que interessava a felicidade. Havia um porão amplo, usado apenas para guardar móveis velhos e caixas esquecidas. Um sótam que ninguém visitava há anos, passagens estreitas entre paredes duplas, comuns nas construções antigas, e uma porta lateral nos fundos que dava para um beco escuro, onde os comerciantes entregavam mantimentos.
Tudo começou em março de 1865, numa madrugada chuvosa. Felicidade acordou com batidas suaves na porta dos fundos. Era Benedito, irmão de uma das lavadeiras da casa, que trabalhava numa fazenda de café em vassouras. Ele havia fugido três dias antes, depois que o senhor decidira vendê-lo para um comprador de Minas Gerais, que separaria definitivamente sua família.
“Felicidade”, sussurrou ele encharcado e tremendo. “Eu não tenho mais para onde ir. A polícia tá procurando em todos os lugares conhecidos. Você pode me esconder só por uma noite? Felicidade sabia o risco. Esconder um fugitivo era crime grave. Se descoberta, seria açoitada publicamente, vendida para uma fazenda cruel ou pior.
Poderia acabar na casa de correção da corte, onde escravos rebeldes eram torturados até a morte. Mas olhando para Benedito, viu não apenas um fugitivo desesperado, mas todos os outros que sofriam sob o sistema que os mantinha acorrentados. Entra rápido”, disse, puxando-o para dentro. Ela o escondeu no porão atrás de pilhas de móveis velhos e baús cobertos de poeira.
Levou-lhe comida escondida em seu avental, água numa jarra velha que ninguém usava. Benedito ficou ali por três dias, até que felicidade conseguiu contato com membros do quilombo do Leblon, que vieram buscá-lo numa noite sem lua. Quando ele partiu, abraçou-a com lágrimas nos olhos. Você me salvou a vida. Que Deus te abençoe. Aquela experiência plantou uma semente na mente de felicidade.
Se conseguira esconder Benedito por três dias sem que ninguém percebesse, poderia fazer isso novamente. A casa era grande demais, com cômodos demais, e o desembargador passava a maior parte do dia no tribunal. Sua esposa, dona Eugênia, era uma mulher frágil que raramente saía de seus aposentos no segundo andar. Os filhos do casal já eram adultos e moravam em suas próprias residências.
A casa estava praticamente vazia durante o dia e à noite todos dormiam profundamente no andar superior. Em maio de 1865, uma mulher apareceu na porta dos fundos. Chamava-se Rosa e fugira de uma fazenda em Campos dos Goitacazes depois que seu filho de 12 anos fora vendido para São Paulo.
Estava grávida de se meses e não tinha forças para caminhar mais. “Me disseram que você ajuda fugitivos”, disse com voz fraca. “Por favor, só preciso de um lugar para descansar alguns dias”. Felicidade a levou para o sótam, um espaço quente e abafado, mas seguro. Limpou um canto, levou colchões velhos, água e comida. Rosa ficou ali por duas semanas recuperando as forças, até que felicidade conseguiu contato com uma rede de abolicionistas que a levaram para uma comunidade segura em Niterói.
Quando Rosa partiu, abraçou felicidade e disse algo que mudaria tudo. Existem centenas como eu, precisando de ajuda. Se você tem esse espaço, use-o. Foi assim que nasceu a operação mais audaciosa da resistência escrava no Rio de Janeiro. Felicidade decidiu transformar a casa de seu senhor numa estação secreta da rede de fuga de escravos.
Mas para isso funcionar, precisaria de aliados, organização e muito cuidado. Seu primeiro aliado foi Joaquim, escravo de ganho, que trabalhava como carregador no CIS do Porto. Joaquim tinha contatos com marinheiros, estivadores e comerciantes que traziam notícias de todo o império. Ele sabia quais escravos estavam planejando fugas, quais fazendeiros estavam vendendo famílias, onde a polícia estava concentrando buscas.
Tornou-se os olhos e ouvidos de felicidade nas ruas do Rio. A segunda aliada foi emerenciana, escrava doméstica de uma família vizinha que simpatizava secretamente com a causa abolicionista. Ela servia de mensageira, levando recados entre felicidade e os membros dos quilombos urbanos, sem levantar suspeitas. Escrava fazendo compras no mercado era uma cena tão comum que ninguém prestava atenção.
O terceiro foi o mais surpreendente. Padre Miguel, um jovem sacerdote português que atendia à paróquia de São José. Ele não escondia sua oposição à escravidão e usava sua posição para ajudar discretamente fugitivos. Providenciava documentos falsos, cartas de alforria forjadas e contatos com fazendeiros abolicionistas que ofereciam emprego a libertos.
Sua batina era proteção suficiente contra suspeitas. Com essa rede estabelecida, felicidade criou um sistema. Joaquim identificava fugitivos que precisavam de abrigo temporário. Ele os levava até um ponto de encontro seguro, geralmente uma igreja ou mercado. Emerenciana buscava o fugitivo e o levava até a casa do desembargador, sempre em horários específicos quando a rua estava vazia.
Felicidade os escondia no porão ou no sótam, dependendo da situação. Alimentava-os com comida que desviava da dispensa, explicando qualquer falta como consumo normal de uma casa grande. E quando estava seguro, geralmente depois de três a s dias, Padre Miguel providenciava documentos e passagem para os quilombos urbanos ou para fazendas abolicionistas.
O quilombo do Leblon, escondido atrás da lagoa Rodrigo de Freitas, era o destino mais comum. Ali, sob liderança de José e suas filhas, mais de 100 fugitivos viviam livres, cultivando camélias brancas que vendiam na cidade. O quilombo do urubu nas montanhas da Tijuca era outra opção para quem tinha força para caminhar.


E havia ainda comunidades menores espalhadas pelos subúrbios da cidade, formadas por libertos que acolhiam fugitivos. Durante os primeiros meses, felicidade escondia apenas um ou dois fugitivos por vez, mas à medida que a notícia de seu trabalho se espalhava discretamente pela comunidade escrava, a demanda cresceu. Em 1867, ela já estava abrigando até cinco pessoas simultaneamente, distribuídas pelo porão e sótam.
O desafio logístico era imenso. Como alimentar cinco pessoas extras sem que fosse notado? Como esconder seus rastros? Como garantir que não fizessem barulho? Felicidade desenvolveu técnicas engenhosas. Toda segunda-feira, dia que ia ao mercado, comprava porções extras, alegando que a família receberia visitas. Armazenava no porão, onde tinha montado uma pequena dispensa secreta atrás de baús velhos.
A água vinha de um poço nos fundos, acessível pela porta lateral. Para o problema do barulho, estabeleceu regras rígidas: silêncio absoluto durante o dia, movimento só à noite, comunicação por sussurros, mas o maior desafio era o emocional. Felicidade carregava o peso de centenas de vidas. Cada decisão errada poderia significar morte ou captura não apenas dos fugitivos, mas dela própria e de todos envolvidos na rede. Dormia pouco, sempre alerta.
Seu coração disparava a cada ruído estranho, a cada visita inesperada à casa. Em setembro de 1868, quase foi descoberta. O desembargador decidiu fazer uma reforma no porão, querendo transformá-lo em adega para sua coleção de vinhos. Felicidade teve apenas um dia de aviso. Naquele momento, havia quatro fugitivos escondidos ali.
Duas mulheres, um homem e uma criança de 8 anos. Trabalhou a noite toda, transferindo-os para o sóton, limpando qualquer rastro de ocupação, reorganizando móveis. Quando os trabalhadores chegaram na manhã seguinte, o porão estava impecável, aparentando abandono de anos. A reforma durou duas semanas.
Foram as piores duas semanas da vida de felicidade. Nove pessoas escondidas no sótam em pleno verão carioca, com calor sufocante e espaço mínimo. A criança teve febre e precisou ser tratada com ervas que felicidade conhecia. Uma das mulheres entrou em desespero, quase gritando e precisou ser acalmada. Mas felicidade manteve tudo sob controle, sua voz firme, sussurrando palavras de conforto e esperança.
Quando a reforma terminou, o desembargador tinha sua nova adega, mas também, sem saber, um porão ainda mais adequado para esconder pessoas. Os trabalhadores haviam criado pequenos nichos e divisórias para armazenar garrafas de vinho que Felicidade rapidamente adaptou para esconderijos ainda mais seguros. [Música] Os anos se passaram e a operação se expandiu.
Em 1870, Felicidade já tinha uma rede de 12 colaboradores espalhados pela cidade. Cada um tinha função específica. Alguns identificavam fugitivos, outros forneciam comida e roupas, alguns falsificavam documentos, outros guiavam rotas seguras até os quilombos. Era uma organização sofisticada, funcionando na total clandestinidade.
Dona Eugênia, a senhora da casa, começou a notar pequenas mudanças em felicidade. “Você parece cansada ultimamente”, comentou uma tarde. “Está tudo bem?” Felicidade sorriu e respondeu que apenas estava ficando mais velha. Mas a verdade era que carregava o peso de um segredo gigantesco, vivendo em constante tensão entre seu dever para com seu senhor e seu compromisso com a liberdade de seu povo.
Em 1871, a lei do ventre livre trouxe esperança renovada. Todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data seriam livres. Mas isso não resolvia o problema dos milhões que já estavam escravizados. Se algo intensificou as fugas, pois muitos pais queriam garantir que seus filhos nascidos livres não crescessem sem eles.
Foi nesse período que Felicidade recebeu seu caso mais complicado. Uma família inteira de sete pessoas: pai, mãe, três filhos adolescentes, uma avó idosa e um bebê de colo. haviam fugido de uma fazenda em Petrópolis depois que o senhor decidira vender os filhos separadamente. Era muita gente, muito risco, mas felicidade olhou para aquelas faces desesperadas e não conseguiu dizer não.
Escondeu-os por 17 dias, o período mais longo que alguém já ficara em sua casa. teve que ser extremamente cuidadosa, desviando quantidades maiores de comida, explicando barulhos estranhos, mantendo a família unida e esperançosa, mesmo em condições tão difíceis, quando finalmente conseguiu transferi-los em segurança para o quilombo do Leblom, chorou de alívio.
Aquela família representava tudo pelo qual vinha lutando, o direito de permanecerem juntos livres. Padre Miguel se tornou peça cada vez mais importante da operação. Sua igreja serviu de santuário temporário incontáveis vezes. Ele realizava batizados falsos para criar documentos que provavam que certos escravos eram, na verdade, libertos.
abençoava casamentos que serviam como proteção legal e pregava sermões cada vez mais inflamados contra a escravidão, o que começou a atrair atenção indesejada das autoridades. Em 1875, a rede de felicidade estava no auge. Estima-se que naquele ano sozinho, mais de 50 fugitivos passaram por sua casa. Cada um ficava em média cco dias.
Cada um tinha uma história de sofrimento, separação, abuso. E cada um partia com renovada esperança de liberdade, graças à coragem de uma mulher que transformara a casa de seu senhor num santuário secreto. Mas o sucesso da operação começou a chamar atenção. Fazendeiros da região notaram um padrão.
Muitos fugitivos desapareciam nas proximidades do cete. A polícia intensificou patrulhas no bairro. O desembargador, ironicamente, foi convidado a participar de uma comissão para combater o problema crescente das fugas de escravos no Rio de Janeiro. É uma vergonha, comentou ele durante um jantar em 1876, que nossa capital se tenha transformado em refúgio para negros fugitivos.
Deve haver uma rede organizada ajudando essas fugas. Felicidade servia o jantar, mantendo expressão neutra, enquanto por dentro seu coração disparava. O homem cuja casa ela usava para esconder fugitivos agora estava encarregado de combater exatamente isso. A situação ficou mais perigosa. Felicidade teve que ser ainda mais cuidadosa.
Reduziu o número de fugitivos para dois ou três por vez. aumentou o tempo entre recepções, estabeleceu protocolos mais rígidos de segurança, mas não parou, não podia parar. Cada pessoa que ajudava representava uma vitória contra o sistema que a mantinha escravizada. Em 1877, Joaquim foi preso. Durante uma batida policial no porto, encontraram documentos comprometedores em sua posse, listas de nomes e localizações que poderiam expor toda a rede.
Joaquim foi torturado na casa de correção, mas não confessou nada. morreu três semanas depois, levando seus segredos para o túmulo. Sua morte abalou profundamente felicidade, mas também a fortaleceu na determinação de continuar o trabalho que ele iniciara. Emerenciana teve que se afastar da rede por um tempo, quando sua senhora começou a suspeitar de suas saídas frequentes.
Felicidade precisou recrutar novos mensageiros, um processo arriscado que envolvia confiar em pessoas que ela mal conhecia. Mas a rede sobreviveu, adaptou-se, continuou funcionando. Em 1879, Padre Miguel foi transferido para outra paróquia no interior. Antes de partir, entregou à felicidade uma lista de contatos confiáveis, abolicionistas secretos que poderiam ajudar.
“Você é a mulher mais corajosa que já conheci”, disse ele. “Que Deus te proteja sempre”. Mas a proteção de Deus só podia ir até certo ponto. Em outubro de 1880, 15 anos depois de ter escondido seu primeiro fugitivo, a sorte de felicidade finalmente se esgotou. Tudo desmoronou por causa de um detalhe insignificante. Uma criança que torciu no momento errado.
Havia uma família de cinco pessoas escondida no sótam. Entre eles, uma menina de 6 anos com tosse persistente que felicidade, tratava com xopes caseiros. Era tarde da noite e ela estava levando mais remédio para a criança quando o desembargador, incapaz de dormir por causa do calor, decidiu caminhar pela casa. Ele a encontrou subindo à escada estreita que levava ao sótam, carregando uma bandeja com comida e remédio.


Felicidade! O que você está fazendo a esta hora?” A pergunta era simples, mas fatal. Felicidade tentou improvisar uma desculpa, dizendo que estava verificando um vazamento no telhado, mas o desembargador, desconfiado, insistiu em acompanhá-la. Quando abriram a porta do sótam, encontraram cinco pessoas escondidas ali, um homem, duas mulheres, uma criança e um bebê.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O desembargador olhou para os fugitivos, depois para a felicidade, depois novamente para os fugitivos. Expressão era de choque total, incredulidade absoluta. Quanto tempo? e perguntou com voz trêmula: “Felicidade ergueu a cabeça. 15 anos, senhor. A revelação foi devastadora.
O desembargador, um magistrado respeitado que dedicara anos combatendo fugas de escravos, descobriu que durante todo esse tempo sua própria casa servia de esconderijo. Sua escrava de confiança, a mulher que administrava seu lar, era na verdade uma das líderes da resistência escrava no Rio de Janeiro. As consequências foram imediatas. A polícia foi chamada.
Felicidade foi presa, algemada como criminosa comum. A família escondida no sótam foi capturada e devolvida a seus senhores. A casa foi vasculhada de alto a baixo, revelando esconderijos secretos que felicidade mantivera por anos. Encontraram roupas escondidas, restos de comida, sinais inequívocos de ocupação prolongada.
O julgamento de felicidade atraiu a atenção de toda a cidade. Ebolicionistas tentaram defendê-la, argumentando que ela apenas seguira os ditames de sua consciência. Mas a lei era clara. Ajudar fugitivos era crime grave. O desembargador, humilhado publicamente, pressionou por punição exemplar. Queriam fazê-la exemplo para desencorajar outros.
Felicidade foi condenada a 50 açoites públicos. e venda para uma fazenda no interior de São Paulo, longe de qualquer possibilidade de continuar seu trabalho. Mas na noite antes de sua transferência, algo extraordinário aconteceu. Membros da rede que ela construíra ao longo de 15 anos organizaram sua fuga, usando contatos dentro da prisão, documentos falsificados e uma carroça de entregas como disfarce conseguiram tirá-la.
Felicidade foi levada para o quilombo do Leblon, onde foi recebida como heroína. Mais de 200 pessoas, muitas delas salvas pessoalmente por ela, estavam lá para recebê-la com lágrimas e abraços. O desembargador Joaquim Pereira da Fonseca nunca se recuperou completamente do escândalo.
Sua reputação ficou manchada, não por ter uma escrava que ajudava fugitivos, mas por não ter percebido durante 15 anos. aposentou-se silenciosamente da magistratura em 1882. Felicidade viveu no quilombo do Leblon até a abolição em 1888. Quando a lei Áurea foi finalmente assinada, ela tinha 55 anos e tinha dedicado mais de 20 anos de sua vida a causa da liberdade.
Participou das celebrações na cidade, onde foi reconhecida e aplaudida por centenas de pessoas cujas vidas ela salvara. Após a abolição, Felicidade trabalhou como parteira e curandeira na comunidade do Leblon. nunca se casou dedicando sua vida a ajudar outros. Morreu em 1903, aos 70 anos, cercada por uma família escolhida.
Dezenas de pessoas que ela ajudara ao longo dos anos que a consideravam mãe, avó, heroína. No funeral, realizado na pequena igreja do Leblon, mais de 500 pessoas compareceram. Muitas tinham histórias para contar sobre como felicidade as salvara. Um homem idoso revelou que tinha 8 anos quando ela o escondeu com sua família no porão.
Uma mulher contou que felicidade a abrigara grávida e a ajudara quando seu filho nasceu no sótam daquela casa no catete. Outro relatou que ela costurou roupas para disfarçá-lo quando precisava atravessar a cidade. A história de felicidade permaneceu relativamente desconhecida por décadas. Não havia monumentos, em sua honra, nenhuma placa comemorativa, mas na memória da comunidade negra do Rio de Janeiro, especialmente entre descendentes dos quilombos urbanos, seu nome era lembrado com reverência e gratidão.
Em 1920, um historiador pesquisando a resistência escrava no Rio de Janeiro encontrou documentos do julgamento de felicidade nos arquivos da Polícia Imperial. Ao investigar mais profundamente, descobriu a extensão extraordinária de sua operação. Através de entrevistas com sobreviventes e seus descendentes, conseguiu reconstruir a história da rede secreta que funcionou por 15 anos dentro da casa de um desembargador.
A casa no Catete ainda existe, hoje transformada em residência particular. Seus atuais moradores provavelmente não sabem que o porão que usam como garagem e o sótam que serve de depósito foram por muitos anos santuário para centenas de pessoas buscando liberdade. Que aquelas paredes guardam memórias de coragem, resistência e esperança.
A história de felicidade nos ensina que a resistência à escravidão não aconteceu apenas através de revoltas armadas ou fugas espetaculares. Aconteceu também através de atos cotidianos de coragem extraordinária. Uma mulher que, trabalhando dentro do coração do sistema opressor, usou sua posição para subvertê-lo de dentro para fora.
Ela arriscou sua vida diariamente durante 15 anos. Vivendo em constante tensão entre descoberta e sucesso, construiu uma rede sofisticada de resistência, provando que mesmo os mais oprimidos podiam encontrar formas de lutar pela liberdade. E ao transformar a casa de seu senhor num refúgio para fugitivos, demonstrou que os lugares mais improváveis podiam se tornar espaços de libertação.
Hoje, quando discutimos a história da escravidão no Brasil, precisamos lembrar de pessoas como felicidade. Ela não foi uma exceção, mas uma entre milhares de mulheres e homens escravizados que encontraram formas criativas e corajosas de resistir. Sua história honra não apenas sua própria memória, mas a de todos aqueles que ela salvou e de todos que continuam lutando por liberdade e dignidade.

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