No pequeno apartamento em Sorier, Lagos, a rotina era sempre a mesma. O pai, MR. AAYI, preparava-se para sair para mais um turno noturno. O trabalho pesado como segurança sustentava a família, mas também o afastava das noites ao lado do filho e da esposa.
DAVID, um menino de nove anos, observava em silêncio enquanto o pai colocava os sapatos. Seus olhos estavam cheios de um misto de medo e coragem, como se carregasse um segredo grande demais para sua idade.
— Papai, posso te contar uma coisa? — perguntou finalmente.
MR. AAYI parou, surpreso. Estava acostumado a despedidas rápidas, mas a seriedade do olhar do filho o fez parar.
— O que foi, DAVID?
O menino respirou fundo, as palavras pesando em sua boca.
— Toda vez que o senhor vai trabalhar de noite… um homem vem aqui. Ele entra no quarto da mamãe.
O coração de MR. AAYI disparou.
— DAVID, não brinque com isso.
— Não estou brincando, papai. Eu vejo quase toda noite.
Houve silêncio. O pai apenas colocou a mão no ombro do menino, tentando disfarçar o choque.
— Vá dormir. Eu volto logo.
Mas ao sair, as palavras ecoaram dentro dele como marteladas. “Um homem vem aqui… no quarto da mamãe.” Ele tentou convencer-se de que era imaginação infantil. Mas quanto mais pensava, mais o coração queimava em dúvida.
No caminho para o trabalho, MR. AAYI não conseguiu se concentrar. Cada esquina parecia um peso. Às 21h30, disse ao supervisor que estava doente e pediu para ir embora. Sabia que não teria paz até confirmar a verdade.
Ele estacionou o carro a alguns metros de casa, apagou as luzes e esperou. As ruas de Lagos estavam silenciosas, com apenas algumas vozes distantes. Caminhou devagar, colou o rosto na janela e viu a cena que jamais esqueceria.
No sofá da sala, sua esposa ria. Ao lado dela, um homem sorria como se fosse dono do lugar. E ali estava DAVID, olhando desconfiado. O homem estendeu um doce para o menino.
— Pegue, não tenha medo.
— Meu pai disse que não posso aceitar nada de estranhos — respondeu DAVID.
O homem riu.
— Eu não sou estranho. Sou amigo da sua mãe.
Da cozinha, a voz dela ecoou:
— DAVID, vai para o quarto agora.
O menino obedeceu. Nesse momento, a porta se abriu com violência.
MR. AAYI entrou tomado pela fúria.
— Quem é você?! — gritou.
O homem levantou-se, atordoado.
— Espere… quem é você?
— Você ousa perguntar isso dentro da minha própria casa? — rugiu ele, avançando.
O primeiro soco derrubou o intruso. O homem tentou reagir, mas foi golpeado novamente. A luta foi rápida, selvagem. Com o rosto ensanguentado e a roupa rasgada, o invasor correu para fora, tropeçando, quase nu, em plena rua.
O silêncio voltou. MR. AAYI estava ofegante, o peito subindo e descendo como um tambor. Ele se virou para a esposa, que tremia diante da cena.
— Você trouxe outro homem para dentro da minha casa. Na frente do nosso filho!
Ela tentou se aproximar.
— Eu… eu posso explicar…
Mas ele bateu na mesa com tanta força que os copos saltaram.
— Não fale! Você me envergonhou. Depois de todo o esforço que faço, noite e dia, para sustentar esta família, é assim que me paga?
As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Eu estava sozinha… você nunca está aqui. Sempre cansado, sempre distante. Eu cometi um erro…
— Cale a boca! — gritou. — Você é uma mulher casada, não uma adolescente buscando atenção. Eu estou lá fora, quebrando o corpo para que nosso filho tenha o que comer. E você… você destrói tudo.
Ele apontou para a porta, a voz cortante como uma lâmina.
— Pegue suas coisas. Saia hoje.
Nesse instante, DAVID saiu correndo do quarto, chorando desesperado.
— Papai, por favor, não manda a mamãe embora!
MR. AAYI ajoelhou-se diante do filho, tentando controlar a raiva. Abraçou-o com força.
— Filho, eu estou fazendo isso por você. Um homem precisa crescer sabendo o que é certo e o que é errado. Eu não posso criar você em uma casa onde a traição se torna normal.
A esposa caiu de joelhos, implorando.
— Me perdoa… não me deixa sair assim…
Mas nada mudava a decisão dele. O coração estava ferido demais para concessões. Entre lágrimas e malas improvisadas, ela deixou o apartamento naquela noite.
O silêncio que ficou era quase insuportável. A respiração de DAVID, ainda soluçando no peito do pai, era a única coisa que o mantinha firme.
MR. AAYI passou a noite acordado, com o menino adormecido sobre ele. Olhou para o teto escuro e, como se falasse consigo mesmo, sussurrou:
— Perdi uma esposa… mas não vou perder a mim mesmo.
Naquele instante, entendeu que a integridade era o único legado que poderia deixar ao filho. Dinheiro acaba, casas desmoronam, mas a verdade e a honra ficam. E ainda que a dor fosse grande, a decisão de proteger o filho da mentira era maior.
Nos dias seguintes, os vizinhos cochicharam. Alguns culparam a esposa, outros disseram que MR. AAYI foi duro demais. Mas ele não ligava. Só havia uma coisa em sua mente: criar DAVID para ser um homem diferente, um homem que nunca confundisse traição com amor.
A rotina mudou. Agora, as noites eram longas e solitárias, mas o olhar do filho dava-lhe forças. A cada manhã, ao vê-lo acordar, sabia que sua escolha tinha sido dolorosa, porém necessária.
E assim, naquela pequena casa em Lagos, uma família se desfez. Mas, para MR. AAYI, um princípio permaneceu inabalável: melhor perder uma esposa do que perder a si mesmo.