Prestes a cortar o ventre de uma grávida ‘morta’, o legista gela ao ouvir um choro! Ao tocar a barriga, a ‘falecida’ agarra seu braço e revela uma farsa macabra que chocou a polícia!

O ar dentro do necrotério era sempre o mesmo: frio, estéril e impregnado com o cheiro acre de formol e desinfetante hospitalar. Para o Dr. Camilo, um legista com mais de duas décadas de experiência, aquele ambiente era seu escritório, um lugar de paz onde os mortos contavam suas últimas histórias. Mas para Ricardo, o jovem assistente recém-contratado, o silêncio daquela sala era ensurdecedor e perturbador.

— Corram para o necrotério agora… Dr. Camilo, o senhor… o senhor ouviu isso? — perguntou Ricardo, com a voz embargada e os olhos arregalados, enquanto sentia os pelos de seus braços se arrepiarem de maneira involuntária.

Camilo parou de organizar os instrumentos cirúrgicos na bandeja de metal e virou-se lentamente. A luz fluorescente zumbia acima deles, lançando sombras duras sobre os azulejos brancos.

— Isso o quê, Ricardo? — questionou o legista, franzindo a testa e arqueando uma sobrancelha grisalha. — Você está muito tenso, rapaz.

Foi nesse instante que o som ecoou novamente. Não era o zumbido das luzes, nem o gotejar de uma torneira distante. Era um choro. Um choro fraco, abafado, como se viesse de dentro de uma caixa forrada de algodão, mas inconfundivelmente humano. Fez o sangue de Ricardo gelar nas veias.

— É um choro… um choro de bebê — sussurrou o jovem, dando um passo para trás e esbarrando em uma prateleira.

Camilo permaneceu imóvel, apurando os ouvidos. O silêncio voltou a dominar a sala, pesado e opressor. — Eu não ouvi nada, Ricardo. Esse ambiente mexe com a cabeça, principalmente no início. São fantasmas da mente. Se precisar, vá tomar um ar.

Ricardo tentou se recompor, mas seus olhos foram atraídos magneticamente para a maca central. Nela repousava o corpo de uma mulher jovem, de pele pálida como porcelana e cabelos escuros espalhados como um leque sobre o metal frio. Sua expressão era serena, perturbadoramente tranquila. Mas o que prendia o olhar de Ricardo era o ventre: inchado, redondo, evidenciando uma gestação avançada.

— Ela parece… viva — murmurou Ricardo, aproximando-se com relutância. — Parece que só está dormindo. E o bebê, doutor? É comum?

Camilo suspirou, calçando as luvas de látex. — Raro. Muito raro. Geralmente, tentam salvar a criança. Mas neste caso… ela foi envenenada. Cianeto de potássio. Estava morta há horas quando a encontraram. Já era tarde para os dois.

Ricardo sentiu o estômago revirar. — Quem faria isso com uma grávida? — A maldade humana não tem limites, meu jovem. Agora, vamos começar. Segure a barriga dela para a incisão inicial.

Tremendo, Ricardo estendeu a mão e tocou a pele fria da gestante. O relógio na parede marcava cada segundo com um “tic-tac” seco. Camilo aproximou o bisturi. A lâmina brilhou sob a luz.

— Espera! — O grito de Ricardo fez Camilo recuar bruscamente, o bisturi quase caindo. — O que foi agora?! — explodiu o legista. — Eu senti! — Ricardo estava pálido como a defunta. — A barriga… ela se mexeu. Um chute. Eu senti um chute!

Camilo olhou para o assistente com um misto de pena e irritação. — Ricardo, isso são espasmos póstumos. Gases. Contrações fúnebres. O bebê está morto há horas. Não há oxigênio. É impossível. — Não, doutor. Foi forte. Foi vida!

Desafiando a lógica, Ricardo colocou as duas mãos sobre o ventre novamente. O silêncio se estendeu por cinco segundos agonizantes. E então, aconteceu. A barriga ondulou visivelmente. Um chute vigoroso, determinado. E, logo em seguida, o som abafado rompeu o ar novamente, mas desta vez, Camilo também ouviu. Um choro. Um lamento desesperado vindo de dentro do ventre imóvel.

Camilo largou o bisturi, o ceticismo dando lugar ao horror e ao fascínio. Ele tocou a barriga. Outro movimento. — Meu Deus… — sussurrou o veterano. — Está vivo.

E então, o impossível tornou-se surreal. A mão da mulher morta, rígida e fria, moveu-se. Os dedos se fecharam sobre o pulso de Camilo. O médico soltou um grito sufocado. Os olhos da mulher se abriram, injetados e confusos, e seus lábios secos sussurraram:

— Ajuda… Salve o meu bebê…

Para entender o milagre macabro no necrotério, era preciso voltar no tempo. Valéria, a mulher na maca, vivia um conto de fadas. Doce, professora de pedagogia e apaixonada pela vida, ela havia se casado com Eduardo, herdeiro de um império empresarial. Eles aguardavam ansiosamente a chegada do primeiro filho. A mansão do casal transbordava amor.

Mas a felicidade de uns é o veneno de outros.

Semanas antes, a campainha da mansão tocou. Era Vanessa, a irmã gêmea de Valéria. Fisicamente idênticas, mas espiritualmente opostas. Enquanto Valéria era luz, Vanessa era uma tempestade de inveja e ressentimento.

— Vim cuidar de você, maninha! — disse Vanessa, com um sorriso que não alcançava os olhos, abraçando a irmã grávida.

Valéria, ingênua e bondosa, acolheu a irmã de braços abertos. Eduardo, querendo o bem da esposa, ofereceu o melhor quarto de hóspedes. O que eles não sabiam era que Vanessa não viera para ajudar, mas para tomar tudo.

No quarto de hóspedes, a máscara de Vanessa caiu. Ela trancou a porta e olhou-se no espelho com ódio. — Você conseguiu tudo, não é, Valéria? O marido rico, a casa, o filho… Tudo isso devia ser meu.

Minutos depois, Pablo, o mordomo da casa, entrou no quarto. A relação entre patrão e empregado era fachada; Pablo era amante de Vanessa e seu cúmplice. Ele fora colocado na casa por influência dela meses antes.

— E então? — perguntou Pablo, beijando-a. — Qual é o plano? — O plano é mandar a minha irmãzinha sonsa direto para o caixão — disse Vanessa, retirando dois frascos da bolsa. — Frasco um: Cianeto. Morte certa. Frasco dois: Uma toxina rara que simula a morte, parando o coração temporariamente. Trouxe esse caso precisemos tirar o Eduardo de cena, mas o foco é matar a Valéria.

Pablo hesitou. — E se der errado? — Não vai. O Eduardo viaja em breve. Eu vou envenená-la aos poucos. Ela vai ficar fraca, e quando ele sair… eu dou o golpe final. Eu serei a viúva inconsolável da irmã. O Eduardo vai precisar de ombro amigo. E eu sou idêntica a ela. Em pouco tempo, eu serei a senhora dessa casa.

Os dias se passaram. Vanessa, fingindo ser a irmã dedicada, assumiu a cozinha e os cuidados com Valéria. “Preparei um suco especial para você”, dizia ela, misturando pequenas doses de veneno. Valéria começou a adoecer. Enjoos, tonturas, fraqueza. Os médicos não encontravam a causa, atribuindo tudo ao “estresse da gravidez”.

— Você tem muita sorte de ter a Vanessa — dizia Eduardo, preocupado, sem saber que elogiava a assassina de sua família.

Chegou o dia da viagem de negócios de Eduardo. Ele não queria ir, mas Vanessa insistiu: — Vá tranquilo, cunhado. Eu não vou sair do lado dela.

Assim que o carro de Eduardo cruzou o portão, a atmosfera na casa mudou. Valéria sentia-se estranhamente melhor naquela manhã, pois havia desconfiado do sabor metálico em sua comida no dia anterior e descartado o jantar sem que ninguém visse.

Decidida a investigar, Valéria caminhou silenciosamente pelos corredores. Ouviu vozes vindas do quarto de hóspedes. Era Vanessa e Pablo.

Escondida dentro do closet, através de uma fresta na porta, Valéria viu o impensável. Vanessa segurava o frasco de veneno. — É hoje, Pablo. O Eduardo viajou. Hoje a Valéria não passa do jantar. Vou dar uma dose cavalar. Ela morre, o bebê morre, e tudo isso será nosso. Se ela recusar beber, eu a estrangulo com minhas próprias mãos.

O mundo de Valéria desabou. As lágrimas escorriam silenciosas. Sua irmã, seu sangue, era um monstro. O medo paralisante quase a dominou, mas a mão instintiva sobre a barriga a lembrou de que não estava sozinha. Eu preciso proteger meu filho, pensou.

Ela sabia que não podia confrontá-los. Eles eram dois, e ela estava fraca e grávida. Precisava ser mais esperta. Valéria viu onde Vanessa guardava o segundo frasco – aquele que simulava a morte.

Valéria saiu do esconderijo sem ser vista e arquitetou um plano desesperado. Mais tarde, pediu a Vanessa: — Mana, traz meu jantar? Quero um suco de laranja, mas tem que ser no meu copo da sorte, aquele vermelho com bordas douradas.

— Claro, querida — respondeu Vanessa com um sorriso sádico.

Valéria sabia que Vanessa usaria aquele copo específico para a dose letal. Correndo contra o tempo, Valéria foi à cozinha, pegou um copo idêntico do armário (havia um jogo completo, algo que Vanessa desconhecia) e preparou sua própria bebida, misturando a toxina de “morte falsa” que conseguira roubar do quarto da irmã enquanto esta tomava banho.

Ela escondeu o copo “seguro” debaixo da cama.

Quando Vanessa entrou no quarto com a bandeja e o copo envenenado com cianeto, Valéria usou uma distração. — Olha, Vanessa! Tem uma aranha enorme na cortina! Enquanto a irmã se virava, Valéria trocou os copos com uma agilidade movida pela adrenalina.

Valéria bebeu o líquido que paralisaria seu coração, rezando para que a dose não afetasse o bebê. Minutos depois, sentiu o frio tomar conta de seus membros. Sua respiração falhou. Seus olhos pesaram. — Está feito — ouviu Vanessa dizer, rindo, antes da escuridão total.

Eduardo voltou mais cedo, sentindo um aperto no peito. Encontrou a esposa “morta”. O caos se instalou. O médico da família atestou o óbito, e a polícia, notando o copo com resíduos (o copo que Vanessa achava ser o do crime), pediu a autópsia.

De volta ao necrotério, o presente colidia com o passado.

— Ela está viva! — gritou Ricardo, ajudando Valéria a se sentar na maca. A mulher tremia, tossindo, o efeito da droga passando.

— Minha irmã… — Valéria sussurrou, agarrando o braço de Camilo. — Ela e o mordomo… tentaram me matar. Eles vão vir aqui. Ela quer garantir que o laudo diga “morte natural”.

Como se fosse uma deixa em um teatro macabro, batidas soaram na porta dos fundos do necrotério. — Escondam-se — ordenou Camilo, assumindo uma postura rígida. Ricardo ajudou Valéria a se deitar novamente e a cobriu parcialmente com o lençol.

A porta se abriu. Vanessa entrou. Ela usava preto, um véu de luto falso, mas seus olhos brilhavam de ganância. — Doutor Camilo? — disse ela, fechando a porta. — Podemos conversar? Sei que o senhor é um homem prático.

Camilo manteve a expressão neutra, ativando discretamente o gravador de voz em seu celular no bolso. — O que a senhora deseja? — Quero simplificar as coisas. Minha irmã… pobre Valéria. Seria terrível se descobrissem algo… impróprio no sangue dela. Quero que o laudo diga ataque cardíaco. Tenho aqui uma mala com dinheiro suficiente para o senhor se aposentar hoje.

— Está me subornando para encobrir um assassinato? — perguntou Camilo. — Estou pagando pela sua discrição. O Eduardo não precisa sofrer mais. E eu… bem, eu serei muito generosa quando assumir os bens dele.

Nesse momento, um ruído veio de trás da cortina onde Ricardo estava. — O que foi isso? — Vanessa estremeceu. — Foi a testemunha da sua confissão — disse Camilo.

Ricardo puxou o lençol. Valéria sentou-se na maca, viva, pálida, mas com o olhar flamejante de uma leoa defendendo sua cria.

Vanessa recuou, tropeçando nos próprios pés. O sangue drenou de seu rosto. Parecia ter visto um fantasma. — Não… Você morreu! Eu vi você morrer! — Você viu o que queria ver, Vanessa — disse Valéria, a voz ganhando força. — Você tentou matar seu sobrinho. Sua própria irmã.

— Sua maldita! — Vanessa, tomada pelo ódio puro ao ver seu plano ruir, avançou contra a irmã grávida, pegando um bisturi da mesa.

Mas antes que pudesse atacar, a porta principal se escancarou. Eduardo entrou, seguido por dois policiais. Ele ouvira tudo através da ligação que Ricardo fizera minutos antes. — Acabou, Vanessa! — gritou Eduardo, segurando o braço da cunhada antes que ela ferisse Valéria.

Vanessa gritava, se debatia enquanto era algemada. — Isso é meu! Tudo isso devia ser meu! Eu sou melhor que ela! Eu mereço!

Pablo foi preso no aeroporto, tentando fugir com joias roubadas da família.

O necrotério, antes um lugar de morte, tornou-se o palco de um renascimento. Valéria foi levada às pressas para a maternidade. O estresse e a toxina adiantaram o parto, mas a equipe médica estava preparada.

Horas depois, o choro que Ricardo ouvira como um sussurro fantasmagórico explodiu nos pulmões de um menino forte e saudável.

Semanas mais tarde, Valéria segurava o pequeno Gabriel nos braços, sentada no jardim da mansão. Eduardo estava ao seu lado. A cicatriz da traição da irmã jamais desapareceria completamente, mas olhando para o rosto do filho, Valéria sabia que o amor era mais forte que qualquer veneno.

Vanessa foi condenada a trinta anos de prisão. Na solidão de sua cela, ela ainda culpava o destino, incapaz de entender que sua própria maldade fora sua ruína.

Ricardo, o jovem médico, nunca esqueceu aquela noite. Ele aprendeu que, às vezes, a fronteira entre a vida e a morte é tênue, e que o instinto de uma mãe — e a vontade de viver de um bebê — podem operar milagres que a ciência jamais conseguirá explicar totalmente.

E o Dr. Camilo? Ele continuou seu trabalho, mas sempre que um corpo chegava, ele parava por um segundo, escutando o silêncio, lembrando-se do dia em que a morte deu uma trégua para que a justiça fosse feita.

Related Posts

Our Privacy policy

https://abc24times.com - © 2025 News