Larissa Nunes apertou o cinto do uniforme cinza de faxineira pela terceira vez. O tecido áspero pinicava sua cintura, mas o desconforto físico era irrelevante comparado ao nó em seu estômago. Diante dela, erguia-se a mansão mais imponente que já vira, um monumento de mármore e vidro que parecia zombar de sua conta bancária zerada. Aos 26 anos, aquele emprego temporário era a única barreira entre a dignidade de sua mãe diabética e a falta de insulina.

A governanta, uma mulher cujas rugas pareciam talhadas à faca de tão rígidas, recebeu-a com frieza. — Você vai limpar apenas o térreo. O segundo andar é área restrita. O Sr. Bittencourt não tolera barulho perto do quarto da filha. Entendido? — Sim, senhora — Larissa respondeu, baixando os olhos.
Duas horas depois, o cheiro de lavanda e cera polida dominava o hall de entrada. Larissa passava o pano na base da escadaria de mármore quando ouviu. Não era um choro de birra, daqueles que pedem brinquedos ou atenção superficial. Era um som quebrado, agudo, um lamento de alma partida que ecoava do andar proibido.
O coração de Larissa falhou uma batida. Ela conhecia aquele som. Era o mesmo que saíra de sua própria garganta quando seu pai morreu, anos atrás. Ignorando o aviso da governanta e o risco de demissão, ela subiu os degraus, guiada pelo instinto.
O som vinha do banheiro da suíte principal. A porta estava trancada. — Oi, querida? — Larissa chamou, encostando a testa na madeira fria. — Está tudo bem aí? O choro cessou por um instante, suspenso no ar, antes de recomeçar com mais força. — Vai embora! — A voz era infantil, mas carregada de uma dor adulta. — Não quero que ninguém me veja assim!
Larissa não recuou. Em vez disso, sentou-se no chão do corredor, abraçando os joelhos. — Sabe… quando eu era pequena, eu também me escondia no banheiro quando o mundo parecia grande demais. Posso ficar aqui do lado de fora com você?
Houve um silêncio longo. Depois, o clique metálico da fechadura. A porta se abriu devagar. Larissa prendeu a respiração. Diante dela estava uma menina de sete anos, pálida e completamente careca. Em suas mãos trêmulas, ela segurava uma peruca loira de cachos artificiais. — Eu estou feia — soluçou a menina, jogando a peruca no chão. — Estou horrível. Pareço um menino. Um monstro.
O coração de Larissa se partiu. Ela reconheceu os sinais do tratamento oncológico imediatamente. Sem pensar nas regras ou na hierarquia, entrou no banheiro e se agachou para ficar na altura dos olhos da menina. — Você não está feia, meu amor. Você está careca. E sabe o que a gente pode fazer com uma cabecinha lisa e perfeita assim? A menina parou de chorar, fungando, a curiosidade vencendo a tristeza. — O quê? Larissa avistou uma caneta hidrográfica colorida esquecida sobre a bancada de mármore. — Podemos transformá-la no céu mais lindo do mundo.
Com mãos firmes e delicadas, Larissa começou a desenhar. Uma borboleta azul pousou perto da orelha esquerda; uma rosa abriu as asas na testa; uma amarela, vibrante como o sol, na nuca. — Agora você tem as borboletas mais lindas voando na sua cabeça — sussurrou Larissa, terminando o traço. — Elas são mágicas. A azul te dá coragem, a rosa traz sonhos bonitos e a amarela… a amarela lembra que você é uma princesa.
A menina correu para o espelho. Pela primeira vez em oito meses, os lábios dela se curvaram em um sorriso genuíno. — Elas são mágicas mesmo… — sussurrou a criança, tocando os desenhos com reverência.
Foi nesse momento que Fernando Bittencourt apareceu na porta. O milionário congelou. Há meses ele via a filha definhar, recusando-se a sair do quarto, escondendo-se sob lençóis. E ali estava ela, sorrindo para o espelho. Seus olhos se desviaram para a faxineira ajoelhada, uma mulher simples que operara um milagre que todo o seu dinheiro não conseguira comprar.
— Papai, olha só! — Sofia correu até ele. — A Lalá fez borboletas mágicas! Eu não sou mais feia! Fernando abraçou a filha, os olhos marejados, e olhou para Larissa. — Obrigado — ele murmurou, a voz rouca. — Eu não sei o que você fez, mas… obrigado.
A magia do momento foi quebrada pelo som de saltos agulha no corredor. A Dra. Silvia Monteiro entrou no quarto com a autoridade de quem possui o lugar. Oncologista renomada e apaixonada secretamente por Fernando há anos, ela via na doença de Sofia uma oportunidade de se tornar indispensável para o viúvo. — Como está nossa pequena guerreira? — Silvia perguntou, com seu sorriso ensaiado. Ao ver os desenhos, o sorriso vacilou. — O que é isso na cabeça dela? — Borboletas mágicas, doutora! — Sofia exclamou.
Os olhos de Silvia fuzilaram Larissa. — Interessante — disse a médica, com um tom gélido. — Espero que a tinta seja atóxica. A pele de crianças em quimioterapia é extremamente sensível. Uma infecção agora seria catastrófica. Fernando, você deveria orientar melhor seus empregados. Larissa empalideceu. — É… é caneta comum, doutora. Eu não sabia… — Claro que não sabia — cortou Silvia. — Vamos lavar isso agora. — Não! — gritou Sofia, protegendo a cabeça. — Elas me dão força!
Larissa interveio, suavemente. — As borboletas vão continuar no seu coração, querida. E amanhã, se o papai deixar, eu faço novas. Prometo.
Fernando, observando a interação, tomou uma decisão. No dia seguinte, Larissa não voltou como faxineira. Foi contratada como cuidadora de Sofia, com o dobro do salário. A casa mudou. Onde antes havia silêncio e cortinas fechadas, agora havia risadas e luz. Larissa, que cursara três anos de pedagogia antes da doença do pai, aplicava todo o seu conhecimento e amor. Sofia voltou a comer, tomava os remédios sem brigar (“para alimentar as borboletas”, dizia Larissa) e até brincava no jardim.
Fernando começou a chegar mais cedo do trabalho. Encontrava desculpas para estar na sala, observando as duas. Emprestando livros de sua biblioteca para Larissa, suas mãos se tocavam, e uma eletricidade silenciosa crescia entre o patrão e a ex-faxineira.
Mas Silvia observava tudo, escondida atrás de sua “preocupação médica”. O ciúme a corroía. Ela começou a fotografar Sofia em momentos fora de contexto, documentando “irregularidades”. Convocou uma reunião com colegas oncologistas, manipulando fatos, alegando que uma mulher sem instrução estava colocando a vida da paciente em risco com “substâncias químicas” e criando uma “dependência emocional perigosa”.
O golpe final veio numa tarde chuvosa. Silvia colocou um dossiê na mesa de Fernando. — É ela ou a saúde da Sofia, Fernando. O Conselho Médico está pressionando. Se essa mulher continuar aqui, eu não posso mais ser a médica da sua filha. E você sabe que sou a melhor. Fernando, assombrado pelo medo de perder a filha como perdera a esposa, cedeu.
A demissão foi devastadora. — O senhor está me mandando embora? Mas a Sofia está tão bem… — Larissa chorava, incrédula. — É uma recomendação médica, Larissa. Não posso arriscar. Sofia gritava do andar de cima: — Lalá! Cadê minhas borboletas? Larissa saiu da mansão sob a chuva, levando consigo a luz daquela casa.
O declínio de Sofia foi imediato e brutal. Em duas semanas, a menina parou de comer. Recusava os remédios. Arranhava a cabeça onde antes haviam borboletas, criando feridas reais. Acabou internada no Hospital São Vicente, desidratada e em depressão profunda. — Eu quero a Lalá — era a única coisa que ela sussurrava, virada para a parede.
No hospital, Fernando via a filha definhar. Silvia insistia que era uma “fase de adaptação”, mas a enfermeira da noite, Ana, amiga de Larissa, não aguentou. — Senhor Fernando — Ana o abordou na madrugada. — Sua filha não está morrendo de câncer. Ela está morrendo de tristeza. Eu conheço a Larissa. O que os médicos disseram sobre os desenhos era mentira. Caneta atóxica não faz isso. O que faz isso — ela apontou para Sofia — é a falta de amor.
A verdade atingiu Fernando como um soco. Ele pesquisou, ligou para outros médicos, confrontou os dados. Havia sido manipulado pelo medo. Naquela mesma madrugada, Fernando foi até a empresa de limpeza onde Larissa voltara a trabalhar. Encontrou-a no ponto de ônibus, magra e abatida. — Larissa… — ele disse, a voz trêmula. — Eu fui um tolo. Me perdoe. A Sofia está morrendo sem você.
Eles montaram um plano de emergência. Com a ajuda de Ana, Larissa entrou no hospital disfarçada de consultora terapêutica antes do turno de Silvia. Ao entrar no quarto, Larissa segurou o choro. Sofia parecia uma boneca quebrada. — Oi, minha borboleta — sussurrou ela, desenhando uma pequena borboleta azul no pulso da menina, longe dos acessos venosos. Sofia abriu os olhos. O reconhecimento foi instantâneo. — Lalá… você voltou. Em vinte minutos, Sofia comeu, tomou os remédios e sorriu.
Quando Silvia chegou e flagrou a cena, tentou armar um escândalo, chamando a segurança e acusando Larissa de invasão. Mas dessa vez, a reação foi diferente. Dr. Augusto, o chefe da ala, presenciou a melhora milagrosa da menina. — Doutora Silvia — disse ele, analisando os sinais vitais de Sofia. — O protocolo médico diz para priorizar a vida. E essa mulher acabou de salvar sua paciente. Desmascarada e confrontada por Fernando sobre as fotos falsas e a manipulação, Silvia saiu do quarto sem argumentos, sua reputação manchada pela própria arrogância.
Mas a médica vingativa não desistiria. Nos dias seguintes, ela vazou a história para a imprensa sensacionalista. “Milionário coloca vida da filha em risco com tratamento de faxineira”, diziam as manchetes. A opinião pública caiu matando. Fernando e Larissa foram chamados de irresponsáveis. O Conselho Tutelar foi acionado.
Foi o momento mais sombrio. Larissa queria fugir para não prejudicar Fernando. — Eles vão tirar a Sofia de você se eu ficar — disse ela. — Eles vão tirar a vida da Sofia se você for — respondeu Fernando. — Nós vamos lutar. Agora somos uma família.
Para surpresa de todos, Fernando convocou uma coletiva de imprensa no jardim de casa. Ao lado de Sofia, que exibia orgulhosa suas borboletas, e de Larissa, ele falou a verdade. — O amor não requer diploma médico — disse ele às câmeras. — Esta mulher salvou minha filha quando a medicina tradicional falhou em curar sua alma. E ali mesmo, diante dos flashes, Fernando ajoelhou-se. — Larissa Nunes, você aceita se casar comigo e ser a mãe que a Sofia escolheu? O “sim” de Larissa foi transmitido ao vivo, mudando a narrativa do país. De “faxineira irresponsável”, ela passou a ser vista como o anjo que era.
O processo do Conselho Tutelar foi arquivado após a análise da melhora clínica de Sofia. O casamento aconteceu dias depois, uma cerimônia simples, mas carregada de significado.
Dois anos depois.
O auditório do Congresso Nacional de Oncologia estava lotado. No palco, uma menina de nove anos, com cabelos cacheados crescendo fortes, segurava o microfone. — Meu nome é Sofia — disse ela, com a voz firme. — E quando eu perdi meu cabelo, eu achei que tinha perdido minha mágica. Mas minha mãe, Larissa, me ensinou que borboletas não precisam de cabelo para voar. Elas precisam de coragem. Aplausos ecoaram. Na primeira fila, Fernando segurava a mão de Larissa, que agora coordenava o Instituto Borboletas da Esperança, levando arte e apoio emocional a milhares de crianças hospitalizadas.
No fundo do salão, uma figura solitária observava. Silvia, agora trabalhando em um laboratório longe da clínica pediátrica, sentiu o peso do remorço. Ela viu o amor que tentara destruir florescer e transformar o mundo. Baixou a cabeça e saiu em silêncio, finalmente compreendendo que a medicina trata o corpo, mas o amor… o amor cura a vida.
Fernando beijou a testa de Larissa enquanto Sofia descia do palco correndo para os braços deles. A família estava completa, unida por laços mais fortes que o sangue, desenhados com a tinta indelével do afeto. As borboletas, enfim, podiam voar livres.