Um choro desesperado rasgou o silêncio da mansão.

Isadora congelou no meio do corredor, o pano de limpeza ainda em sua mão. Não era um choro comum de manha ou sono; era um grito agudo, contínuo, de puro desamparo. Ela largou o balde e correu.
O som vinha do quarto do fundo, onde ficava o bebê. A porta estava entreaberta. Isadora empurrou-a e a cena fez seu coração apertar.
Um bebê, não devia ter mais de seis meses, estava sozinho no berço. Seu rosto estava vermelho, suado de tanto se debater. A fralda estava visivelmente suja, pesada. Uma mamadeira vazia estava caída no chão, longe do alcance dele. E não havia ninguém. Nenhuma babá. Nenhum adulto.
— Meu Deus! — Isadora correu até o berço e pegou a criança no colo. — Calma, meu amor, calma. A tia tá aqui.
O bebê continuou chorando, mas o tom mudou. Era menos desespero e mais alívio, como se ele sentisse o calor humano finalmente voltando. Isadora, que havia criado seus dois irmãos mais novos sozinha após a morte da mãe, sabia exatamente o que fazer. Trocou a fralda com agilidade, preparou uma mamadeira nova, testou a temperatura no pulso e sentou-se na poltrona de amamentação.
O bebê agarrou a mamadeira com voracidade. Seus olhos azuis, enormes e marejados, fixaram-se nela. — Pronto, né? Tava era com fome — ela sussurrou, limpando o suor da testa dele. — Cadê a mulher que cuida de você, hein?
Ela começou a cantarolar baixinho, uma canção de ninar que sua mãe costumava cantar. O bebê relaxou. Seus olhos pesaram e, em poucos minutos, ele dormia tranquilo nos braços da faxineira.
A porta se abriu abruptamente.
Isadora ergueu os olhos. Um homem alto estava parado ali, terno impecável, cabelo escuro e uma expressão de confusão que rapidamente virou frieza. Rafael Matarazo, o patrão.
— O que você está fazendo aqui? — A voz dele era controlada, mas perigosa.
Isadora levantou-se devagar para não acordar o bebê. — Desculpa, senhor. Eu ouvi ele chorando muito. A babá não estava aqui. Eu só vim ver se…
Rafael entrou no quarto. Ele olhou para o filho dormindo placidamente nos braços daquela mulher estranha, olhou para o berço vazio, para a fralda suja no lixo. Ele respirou fundo, sentindo um nó se desatar em seu peito. Pela primeira vez em dias, Miguel estava em paz.
— Cadê a Andreia? — perguntou ele. — Não vi ela desde que cheguei, senhor.
A raiva subiu pelo pescoço de Rafael. Ele pagava uma fortuna para aquela mulher. — Pode colocar ele no berço.
Isadora obedeceu. Com um cuidado reverente, deitou o bebê e o cobriu. — Desculpa, eu não queria me intrometer… — Obrigado — Rafael a cortou, olhando para ela pela primeira vez de verdade. Não a faxineira invisível, mas a mulher que fez o que ele não conseguiu.
Isadora saiu rápido, o coração disparado. Rafael ficou sozinho com o filho. Fazia seis meses que sua esposa, Helena, morrera no parto. Seis meses que ele olhava para Miguel e sentia uma mistura de amor e dor insuportável. Mas agora, vendo o filho dormir, ele sentiu apenas fúria.
Ele desceu as escadas e foi para o jardim. Encontrou Andreia sentada perto da piscina, rindo ao telefone. — Senhor Rafael! — ela desligou o celular, assustada. — O senhor chegou cedo… — Meu filho estava chorando, sujo e com fome. E você aqui. — Eu só saí um minutinho, ele estava dormindo… — Mentira. A faxineira teve que cuidar dele. Você está demitida. Saia da minha casa agora.
Nos dias seguintes, a mansão virou um caos. Rafael tentava cuidar de Miguel enquanto entrevistava novas babás, mas o bebê não parava de chorar. Rafael não tinha jeito. O desespero crescia.
E era sempre Isadora quem salvava o dia.
Certa manhã, Miguel chorava recusando a papinha. Rafael estava coberto de purê de cenoura, exausto. — Com licença, senhor — Isadora apareceu na porta. — O senhor está segurando a colher muito fundo. Ele tá engasgando.
Rafael, com o orgulho ferido, quis mandá-la embora. Mas o choro do filho era mais alto. — Me ajuda. Por favor.
Isadora entrou, pegou a colher e, com uma paciência infinita, começou a alimentar Miguel. Ela fazia barulhinhos, sorria, esperava o tempo dele. Miguel comeu tudo.
— Como você sabe fazer isso? — Rafael perguntou, impressionado. — Criei meus irmãos. Minha mãe morreu cedo. A gente aprende na raça.
Rafael olhou para ela. Isadora tinha três empregos, sustentava dois irmãos e sonhava em ser enfermeira. E ali estava ela, ensinando um milionário a ser pai. Uma admiração silenciosa começou a crescer entre eles.
Com o tempo, Isadora passou a ficar mais horas na mansão. Rafael pagava extra para ela ajudar com Miguel. E, inevitavelmente, a presença dela preencheu os vazios da casa e do coração dele. Ele se pegava esperando a hora dela chegar, observando-a cantar para o bebê, sentindo uma paz que não sentia desde a morte de Helena.
Mas a felicidade alheia incomoda quem vive de aparências.
Beatriz Abreu apareceu numa tarde de terça-feira. Loira, rica, ex-noiva de Rafael. Ela o deixara porque não queria filhos, mas quando soube que ele estava viúvo e vulnerável, viu a chance de voltar.
— Rafa, soube que você está sem babá. Trouxe uma indicação perfeita. Carla. Trabalhou com diplomatas.
Rafael, exausto das entrevistas falhas, aceitou. Carla era eficiente, fria, robótica. Miguel não chorava com ela, mas também não sorria.
Isadora sentiu o perigo. Ela via os olhares de Beatriz para a casa, para Rafael. Olhares de posse. E via Carla sussurrando pelos cantos.
Numa tarde, enquanto limpava a biblioteca, Isadora ouviu vozes no terraço. A janela estava entreaberta. — Amanhã, às três da tarde — era a voz de Beatriz. — Pela porta dos fundos. A faxineira sai ao meio-dia. — E o dinheiro? — perguntou Carla. — 50 mil. Metade agora. Você leva o bebê para o sítio. Fica lá três dias. Aí eu “descubro” o cativeiro, resgato ele e volto como a heroína que salvou a família. O Rafael vai ficar tão grato que vai comer na minha mão.
Isadora congelou. Sequestro. Elas iam sequestrar Miguel para Beatriz posar de salvadora.
Ela pensou em chamar a polícia, mas quem acreditaria na faxineira contra duas mulheres da alta sociedade? Rafael estava viajando, só voltaria no dia seguinte. Ela estava sozinha.
No dia seguinte, Isadora não saiu ao meio-dia. Ela se escondeu na despensa. Às duas e meia, viu Carla descer com o carrinho de bebê coberto e uma mala grande.
Quando Carla chegou à porta dos fundos, Isadora bloqueou a passagem. — Aonde você pensa que vai?
Carla parou. O sorriso profissional sumiu. — Sai da frente, garota. — Você não vai levar ele. Eu sei do plano. Sei da Beatriz.
Carla largou o carrinho e tirou uma faca da bolsa. — Eu disse para sair da frente.
Isadora tremeu, mas não recuou. Ela pegou um cabo de vassoura. Quando Carla avançou, Isadora golpeou o braço dela com toda a força de uma vida de trabalho duro. A faca voou longe. As duas rolaram no chão, brigando. Carla era forte, mas Isadora lutava por algo maior: uma vida inocente.
No meio da luta, a porta da frente se abriu. Rafael chegara mais cedo. Ele correu para a cozinha ao ouvir os gritos e encontrou o caos: Isadora com o lábio cortado, segurando Carla no chão com uma chave de braço, enquanto Miguel chorava no carrinho.
— O que está acontecendo aqui?!
— Ela ia levar ele! — Isadora gritou, ofegante. — Ela e a Beatriz! Iam sequestrar o Miguel!
A polícia chegou minutos depois. Carla, pressionada, confessou tudo em troca de redução de pena. Entregou as mensagens, os áudios, as transferências bancárias de Beatriz.
Beatriz foi presa em seu apartamento de cobertura, gritando que era tudo um engano. No julgamento, tentou se fazer de vítima, de doente, mas as provas eram irrefutáveis. Foi condenada a 22 anos de prisão.
Passada a tempestade, Rafael e Isadora estavam no jardim. Miguel brincava na grama. — Você salvou meu filho — disse Rafael, segurando a mão dela. — Você arriscou sua vida por nós. Por que?
Isadora olhou para ele, e pela primeira vez, não desviou o olhar. — Porque quando a gente ama, a gente protege.
Rafael sorriu. Aquele sorriso que iluminava tudo. — Então fica. Fica com a gente. Não como babá, não como funcionária. Fica como parte da família.
— E o que as pessoas vão dizer? — Que falem. A única coisa que importa é que o Miguel sorri quando você chega. E eu também.
Seis meses depois, eles se casaram na capela pequena da cidade natal de Isadora. Foi simples, foi verdadeiro. Lucas, o irmão de Isadora, a levou ao altar.
Anos depois, a família estava completa. Miguel corria pelo jardim com sua irmãzinha, Helena, batizada em homenagem à mãe que partiu. Rafael e Isadora observavam da varanda, de mãos dadas.
A vida não era perfeita, mas era deles. Construída sobre coragem, verdade e a certeza de que o amor não se compra; ele se conquista nos momentos em que decidimos ficar e lutar por quem amamos.
E longe dali, numa cela fria, Beatriz ouvia o sino tocar, lembrando-se todos os dias de que o dinheiro pode comprar tudo, menos um final feliz.