Amarrada à cerca e sangrando, ela implorou: “Por favor, acabe logo com isso.” O fazendeiro solitário sacou sua faca, mas sua atitude impensável desafiou a morte e desencadeou uma justiça brutal.

O som do chicote estalando contra a pele ecoou pelo vale, seco e cortante como um tiro.

Sana desabou de joelhos, seus pulsos amarrados com força por uma corda áspera, o sangue escorrendo em longos fios vermelhos sobre a areia sedenta. Hematomas roxos cobriam seus ombros e costas; cada centímetro de seu corpo estava manchado de poeira e sofrimento. Toda vez que ela tentava erguer a cabeça, a luz impiedosa do sol parecia rasgar seus olhos já ardentes.

Diante dela estava Harlon Briggs, o homem que um dia entrou na vida de sua mãe com promessas doces e um sorriso fácil, agora ofegante, segurando o chicote como um executor.

— Aquela terra pertence a mim! Você ouviu? — gritou ele, a voz distorcida pela ganância. — Assine, Sana. Assine e eu deixo você ir.

Ela lutou para recuperar o fôlego, cada inspiração queimando como fogo em seus pulmões. Sua voz saiu quebrada, mas firme como aço: — Aquela terra… pertence à minha mãe.

O próximo golpe pousou como ferro quente. Sana gritou roucamente. Seu corpo cedeu, curvando-se em direção ao chão, mas seus olhos — negros e profundos como a noite do deserto — recusaram-se a se render.

Harlon jogou o papel amarrotado na areia, sua voz pingando veneno. — Não vai assinar? Ótimo. Deixe o sol fazer o resto.

Ele soltou uma risada seca, montou em seu cavalo e partiu, deixando para trás apenas o som do vento uivante e a respiração irregular da garota Apache abandonada para morrer. Sana sentiu a pele queimar sob o sol do meio-dia. Sua garganta estava seca como cinzas. Ela olhou para o céu, os lábios rachados tremendo em uma prece silenciosa: “Mãe, se você pode me ver… eu sei que você nunca o perdoaria.”

Um som distante de cascos ecoou na vastidão.

Elias Holt, um fazendeiro solitário, puxou as rédeas de seu cavalo, os olhos semicerrados contra a poeira. Ele viu o corpo amarrado à cerca, pequeno e imóvel. Naquele momento, algo dentro dele, adormecido há anos, se agitou.

Ele desmontou, sacou sua faca e cortou as cordas que mordiam a carne dela. Elias cerrou o maxilar ao ver a brutalidade dos ferimentos e a ergueu em seus braços. O sol ainda castigava, mas agora havia alguém carregando-a para longe daquele inferno.

A noite caiu sobre a pradaria, trazendo consigo o cheiro de capim seco queimado. Na cabana de madeira isolada, Elias deitou Sana suavemente na cama rústica. Ele buscou água da chuva em um barril e começou a limpar cada ferida com um cuidado quase religioso.

Toda vez que o pano úmido tocava a pele ferida, Sana soltava um gemido fraco. Seus cílios tremiam, mas ela não acordava. A luz da lamparina projetava sombras no rosto de Elias — um rosto endurecido pelo sol, com ossos salientes e olhos cinzentos como aço, marcados pelo tempo e pela perda.

Ele parou, olhando para as marcas de corda nos pulsos dela. Eram tão profundas que a carne havia se partido, grãos de areia ainda presos no sangue seco. Seu maxilar apertou. Aquele sentimento familiar surgiu: sangue, pele queimada, impotência. Ele já havia carregado uma mulher assim — sua esposa, morta em um incêndio criminoso durante um ataque ao rancho. Desde então, Elias Holt vivia como uma sombra: uma cabana de madeira, um rifle Winchester e campos que ninguém visitava.

Na manhã seguinte, quando a primeira luz invadiu a janela, Sana despertou. Seu corpo inteiro tremeu, e seus olhos instantaneamente se aguçaram com o olhar cauteloso de um animal encurralado.

Elias não se aproximou. Ele falou do canto da sala, a voz baixa e seca: — Não tenha medo. Você está segura agora.

Ela olhou ao redor do pequeno quarto, sentindo o cheiro de madeira e cinzas. — Quem é você? — perguntou ela suavemente. — Apenas alguém que vive por perto. — Você vai me entregar a ele?

Elias virou-se, olhando pela janela. — Se esse fosse meu plano, você não estaria deitada aí.

Naquele momento, a luz caiu sobre o rosto da garota Apache. Havia medo em seus olhos escuros, sim, mas também havia desafio. Elias olhou para ela por um longo tempo e disse calmamente, quase como um voto: — Descanse. Ninguém vai tocar em você de novo.

Os dias passaram lentamente. Elias falava pouco, mas deixava comida e água fresca ao lado da cama todos os dias. Sana começou a recuperar as forças, caminhando pela cabana, explorando aquele refúgio silencioso.

Ela encontrou um suporte de munição enferrujado, um violão coberto de poeira e uma moldura velha sobre a mesa com a foto de uma mulher sorrindo com uma criança. — Essa é sua esposa? — perguntou ela, a voz hesitante. Elias parou o que estava fazendo, o silêncio pesando no ar. — Sim. Elas estão em paz agora.

Sana não perguntou mais nada. Naquela noite, ela reacendeu o fogo e fez uma sopa com os últimos vegetais que encontrou. Elias não disse nada, apenas observou, mas seus olhos cinzentos suavizaram.

Quando ele levou seu cobertor para dormir no alpendre, ela perguntou baixinho: — Por que você me salvou? — Porque eu não podia assistir outro ser humano ser torturado daquele jeito — respondeu ele, após uma longa pausa.

Sana sussurrou: — Homens como você são raros.

Elias não respondeu. Ele apenas olhou para o campo onde o luar banhava a poeira dourada.

No meio do dia seguinte, o vento do deserto levantou-se, chicoteando a poeira vermelha. O som de cascos ecoou à distância — pesado, constante, ameaçador.

Elias estava cortando lenha quando parou, semicerrando os olhos para a trilha. Três cavaleiros emergiram da poeira. Harlon na frente, seu casaco preto esvoaçando ao vento, seguido por dois pistoleiros.

Dentro da casa, Sana deixou cair uma caneca de água. O medo antigo, aquele que gela os ossos, voltou com força total. Elias subiu no alpendre, o rifle Winchester em mãos.

Harlon parou o cavalo no portão, um sorriso torto sob a barba grisalha. — Ouvi dizer que você está guardando algo meu, Holt. Elias manteve-se ereto, a luz do sol refletindo em seus olhos frios. — Ela não é uma coisa.

Harlon bufou, jogando o cigarro no chão e esmagando-o com a bota. — Ela é a garota de Helen. A mãe dela me prometeu aquela terra. Agora a garota a detém, então vim cobrar.

Sana apareceu na porta, a mão trêmula, mas os olhos queimando de fúria. — Minha mãe nunca prometeu nada a você!

Harlon virou-se, sorrindo como um homem que mata sem remorso. — Você acha que não? Eu a conhecia melhor do que você. — Ele deu um passo à frente com o cavalo. — Se ela não assinar, vou queimar esta casa assim como queimei o rancho de Helen.

Elias apertou o rifle, a voz baixa e mortal. — Tente.

O ar congelou. Os homens de Harlon levaram as mãos aos revólveres. Elias ergueu lentamente o Winchester. Um momento tenso como um fio de arame prestes a arrebentar.

Harlon soltou uma risada curta e puxou as rédeas. — Não importa. Vamos ver quanto tempo você consegue mantê-la.

Ele virou o cavalo, a poeira explodindo sob os cascos, deixando para trás uma ameaça suspensa no ar.

Naquela noite, o vento do deserto uivava através das frestas da porta. À luz trêmula da lamparina, Sana contou sua história.

— Ele não veio por sentimentos, Elias. Ele veio pela terra. Minha mãe tinha a terra mais fértil da região, a única com um poço profundo. Depois que meu pai morreu, ela lutou sozinha contra a seca e contra o preconceito por ser Apache. Então ele apareceu. Trouxe água, consertou cercas, ganhou a confiança dela.

Sana olhou para o fogo, a voz falhando. — Eles comeram juntos, trabalharam juntos. Ele disse que queria ajudá-la a manter a terra, mas a verdade é que ele queria tomá-la. Uma tarde, voltei do riacho e a casa estava em chamas. Minha mãe ainda estava lá dentro.

Elias observava, os olhos escurecendo. — O xerife chamou de acidente, mas eu vi as marcas dos cascos dele. Semanas depois, ele voltou exigindo a escritura. Quando recusei, ele me bateu, me amarrou à cerca e disse: “Se você morrer, a terra naturalmente pertencerá a quem sabe mantê-la”.

— E você deixou o sol decidir — disse Elias, a sombra esticada na parede. — Eu prefiro morrer a entregar aquela terra a ele.

Elias olhou para ela por um longo tempo, sua voz grave e pesada. — Ele não vai tirar mais nada. Aquela terra pertence a você. E se você quiser mantê-la, eu estarei com você.

No dia seguinte, ao meio-dia, o ar estava pesado como chumbo. Corvos circulavam acima, grasnando. Elias estava verificando a munição quando ouviu os cascos novamente. Ele sabia que Harlon voltaria.

Três figuras emergiram da névoa de poeira. Harlon no centro, ladeado por seus pistoleiros. Elias colocou o rifle no ombro e saiu para o alpendre.

— Olha só — zombou Harlon. — O herói do oeste. Você realmente acha que pode salvá-la de mim? — Você veio para conversar ou para morrer? — perguntou Elias, a voz áspera como cascalho.

Harlon cuspiu no chão e desmontou. — Vim pegar o que é meu. A garota e a terra.

Sana saiu da cabana, os punhos cerrados. — Essa terra não pertence a você! Minha mãe morreu por sua causa! Eu não tenho mais medo!

O clique do Winchester de Elias ecoou no silêncio. — Já chega.

Três segundos de silêncio. Então, o caos.

Tiros explodiram. Fumaça e areia voaram. Elias mergulhou atrás de um caixote, disparando. Um dos homens de Harlon caiu. Uma bala rasgou o ombro de Elias, manchando sua camisa de sangue. Sana gritou, pegou o revólver Colt que estava sobre a mesa e disparou duas vezes. O segundo pistoleiro caiu.

Harlon gritou, erguendo sua arma, mas Elias já estava de pé, o rifle apontado diretamente para o peito dele. — Não tem para onde correr, Briggs.

O homem recuou, suando. — Você não vai atirar em mim, Holt. Você tem medo da culpa. — Eu não tenho medo — disse Elias, firmando a mira. — Mas ela merece ver justiça, não apenas sangue.

Ele girou o rifle e golpeou Harlon no rosto com a coronha de madeira. O homem desabou.

O entardecer caiu lentamente, tingindo o céu de bronze profundo. O cheiro de pólvora ainda pairava no ar quando o xerife Colton chegou com dois fazendeiros.

— O que aconteceu aqui, Holt? — perguntou o xerife, olhando para Harlon amarrado no chão. — Apenas fiz o que ele me forçou a fazer.

Harlon, com sangue na boca, gritou: — Fui emboscado! Eles tentaram roubar minha terra!

Sana deu um passo à frente, retirando um papel velho e dobrado do bolso. As bordas estavam chamuscadas, a tinta desbotada pela fumaça — a única coisa que sobreviveu ao incêndio anos atrás. — Ninguém roubou nada de você. Esta terra pertencia à minha mãe. Eu tenho a escritura.

O xerife leu o documento cuidadosamente. Então olhou para Harlon com olhos frios. — Já chega, Briggs. Você está preso por tentativa de homicídio e apropriação indébita.

Enquanto levavam Harlon, Sana permaneceu imóvel, olhando para o pôr do sol. — Você me salvou, Elias. Mas mais do que isso… você me devolveu a vontade de viver.

Elias aproximou-se, colocando a mão calejada no ombro dela. — Ninguém deve morrer pela ganância de outro homem. Sana, você e essa terra merecem viver.

A primeira chuva da estação veio naquela tarde. Começou com gotas suaves no telhado de zinco, transformando-se em um aguaceiro que lavou a poeira vermelha e o sangue da terra.

Elias e Sana sentaram-se nos degraus do alpendre, observando a chuva cair sobre os campos. O cheiro de terra molhada subiu, rico e promissor.

— A chuva voltou — disse Sana suavemente, um sorriso tímido surgindo em seus lábios. — Sim — respondeu Elias, sentindo seu próprio coração bater forte pela primeira vez em anos. — E esta terra é grata a você.

Naquele vale onde o vento e a areia nunca param, duas almas que pensavam estar secas encontraram-se novamente. Não através do sangue ou do ódio, mas através da confiança. O amor no Oeste não vem com flores ou palavras doces. Ele vem como a chuva: lavando a dor, regando o coração petrificado e fazendo a vida florescer onde todos diziam ser impossível.

E às vezes, tudo o que é preciso é uma pessoa corajosa o suficiente para ficar, para que a terra floresça novamente.

Related Posts

Our Privacy policy

https://abc24times.com - © 2025 News