Durante 16 meses, todos na fazenda Boa Vista acreditavam que Joana estava apenas embelezando a propriedade, plantando mudas de árvores ornamentais nos jardins e ao redor da Casagrande. O coronel Antônio Ferreira da Costa até elogiava o trabalho da escrava de 38 anos. Afinal, as árvores cresciam vigorosas, proporcionavam sombra agradável e os frutos aromáticos que produziam perfumavam o ar com um cheiro doce e quase hipnótico.
Mas na tarde de 23 de agosto de 1856, enquanto 11 homens, incluindo o senhor da fazenda, três feitores, quatro capatazes e três visitantes, celebravam e se alimentavam dos frutos colhidos das árvores que Joana havia plantado. A verdade se revelou de forma brutal e agonizante. Joana não estava embelezando jardins.
Ela estava criando um pomar da morte, usando conhecimentos ancestrais de botânica venenosa, que sua avó, uma curandeira iorubá capturada na costa da mina, lhe ensinou em segredo desde a infância. Ela havia transformado a fazenda Boa Vista, no Vale do Paraíba, em uma armadilha verde e silenciosa, cultivando espécies de espirradeira, mamona modificada e outras plantas letais disfarçadas de ornamentação inocente.

Quando as convulsões começaram, guiadas por 16 meses de cultivo meticuloso e paciência botânica, o massacre silencioso se iniciou e 11 homens morreram em agonia indescritível, envenenados por frutos que eles mesmos colheram e consumiram com prazer. E tudo começou em abril de 1855, quando Joana viu seu filho de 17 anos ser açoitado até a morte na frente de toda a cenzala, punido com 150 xibatadas por ter tentado proteger sua irmã mais nova de uma violação.
A fazenda Boa Vista se estendia por mais de 600 alqueires de terra fértil no coração do Vale do Paraíba Fluminense, na província do Rio de Janeiro. Era abril de 1855 e o império do Brasil vivia o auge da produção cafeira que enriquecia os barões e coronéis, enquanto consumia a vida de milhares de africanos e seus descendentes acorrentados à Terra.
A fazenda do coronel Antônio Ferreira da Costa era uma das mais prósperas da região, com suas intermináveis fileiras de cafeiros plantados nas encostas suaves das colinas. A casa grande imponente pintada de branco com detalhes em azul colonial e a cenzala que abrigava 143 almas escravizadas. O coronel Antônio tinha 52 anos, bigode grisalho, meticulosamente aparado, olhos claros que raramente piscavam e uma reputação de homem de negócios astuto que transformara uma herança modesta em uma fortuna considerável.
Ele acreditava firmemente que a escravidão era uma instituição natural e necessária, que africanos eram naturalmente inferiores e que a mão firme, leia-se brutal, era o único método eficaz de administração. Sua esposa, dona Amélia, 45 anos, passava os dias bordando na varanda, recebendo visitas de outras senhoras da região e fingindo não ouvir os gritos que vinham da cenzala.
Ela usava vestidos de seda importados de Paris, leques de marfim e perfumes caros que não conseguiam disfarçar o cheiro de sangue que às vezes o vento trazia. A fazenda operava com precisão militar. Três feitores principais comandavam a operação sob as ordens diretas do coronel.
O mais velho era Joaquim Mendes, um português de 48 anos que chegara ao Brasil ainda jovem e aprendera que crueldade era lucrativa. Ele tinha mãos grandes calejadas de tanto segurar o chicote e um prazer doio em inventar punições criativas. Dizia que um escravo com medo era um escravo produtivo. O segundo feitor, Sebastião Rocha, era brasileiro, 36 anos, filho de pequenos proprietários, que vira, na função de feitor, uma forma de ascensão social.
Era metódico, frio e mantinha um caderno onde anotava infrações reais e imaginárias para justificar castigos regulares. O terceiro, Antônio Barbosa, apenas 28 anos, era o mais violento dos três. Jovem demais para ter desenvolvido qualquer traço de compaixão, ansioso demais para provar sua utilidade através da brutalidade. Baixo dos feitores havia quatro capatazes.
Homens mulatos ou escravos de confiança que haviam sido coptados pelo sistema, recebendo pequenos privilégios em troca de vigiar e controlar seus próprios irmãos de corrente. Eram, talvez os mais odiados na cenzala, porque traíam os seus por migalhas de poder. Seus nomes eram Benedito, Tomás, Miguel e João.
homens que esqueceram de onde vieram em troca de não dormir na cenzala, de receber roupas um pouco melhores, de comer sobras da casa grande. E então havia Joana. Ela tinha 38 anos naquela primavera de 1855 e já estava na fazenda Boa Vista há 22 anos. Fora comprada ainda a adolescente, 16 anos, em um leilão no porto do Rio de Janeiro, a arrancada de sua mãe, que gritava em língua iorubá, enquanto as correntes a mantinham imóvel.
Joana nunca mais viu a mãe, mas carregava dentro de si as sementes do conhecimento que a mulher lhe plantara durante toda a infância, os segredos das plantas, os nomes das ervas em língua africana, as propriedades de cada folha, cada raiz, cada fruto.
Sua avó, que morrera durante a travessia do Atlântico, era uma babalaô respeitada em sua terra natal, uma curandeira que dominava os mistérios das plantas sagradas e venenosas de Odudua. Joana era magra, de ossura delicada, mas forte, mãos que pareciam feitas para tocar a terra. Tinha olhos profundos que observavam tudo, registravam tudo, arquivavam tudo. Seu rosto era marcado por três pequenas escarificações nas maçãs do rosto, marcas de sua linhagem que ela recebera ainda criança na África antes de ser capturada.
Trabalhava nos jardins da Casagrande, função que conseguira há 15 anos, quando demonstrou habilidade especial com plantas. Fazia as rosas florescerem mais vermelhas, as hortaliças crescerem mais vigorosas, as ervas medicinais que aliviavam as enchaquecas de dona Amélia. Era invisível na sua utilidade, apenas mais uma escrava competente que sabia seu lugar.
Mas Joana carregava muito mais do que conhecimento botânico. Carregava memórias, memórias de sua terra natal, dos mercados vibrantes, das cerimônias sagradas. da liberdade. Carregava também a memória do dia em que foi capturada aos 14 anos em uma emboscada quando buscava água no rio.
Carregava a memória do navio negreiro, dos corpos amontoados, do cheiro de morte, das correntes que arrancavam a pele dos tornozelos. carregava a memória de ver homens e mulheres se jogarem ao mar, preferindo a morte à escravidão. Carregava a memória de cada chicotada que recebeu nesses 22 anos, cada humilhação, cada momento em que precisou abaixar os olhos quando queria arrancar os olhos de quem a oprimia. Mas acima de tudo, Joana carregava amor.
Amor por seus três filhos. Kuame, que agora respondia pelo nome de João, tinha 17 anos. Era alto, de ombros largos. Tinha herdado a inteligência silenciosa da mãe e os olhos observadores que aprendiam com tudo. Trabalhava na lavoura desde os 8 anos, quando o coronel decidiu que já estava grande o bastante para ser útil.
Kuam sonhava com liberdade. Falava baixinho sobre os quilombos das montanhas, sobre histórias de escravos que conseguiram fugir. Era cuidadoso, prestativo com os mais velhos na cenzala, protetor feroz de suas duas irmãs. A Beni, agora chamada de Maria, tinha 15 anos.
Era bonita, algo que Joana temia desde que a menina começara a se desenvolver. Beleza era perigo. Beleza chamava a atenção. Beleza dos senhores, dos feitores, dos visitantes que vinham à fazenda. Joana tentara ensinar a filha a se fazer invisível, a andar curvada, a esconder os olhos. Mas como se esconde o sol? E a Iodelli, batizada como Ana, tinha apenas 11 anos.
era a mais parecida com Joana, pequena, delicada, mas com um fogo interno que nenhuma corrente conseguia apagar. Passava horas com a mãe nos jardins, aprendendo os nomes secretos das plantas, as canções antigas, as histórias da terra natal que nunca conheceria.
Joana encontrava alegria apenas neles nos raros momentos da noite, quando podia abraçá-los na cenzala, quando podia sussurrar palavras em iorubá, quando podia manter viva a memória do que foram e poderiam ter sido. Ela trabalhava para eles, suportava para eles, sonhava para eles. A vida na fazenda Boa Vista seguia o ritmo cruel da produção cafeeira. Os escravizados acordavam antes do amanhecer com o sino que anunciava o início de mais um dia de trabalho forçado.
Formavam filas para receber a ração diária, ango de milho, às vezes feijão, raramente carne. Depois marchavam para a lavoura sob o olhar dos feitores e o peso dos chicotes sempre prontos. O trabalho não terminava até o sol se pôr completamente e mesmo então havia tarefas noturnas. Joana tinha o privilégio relativo de trabalhar nos jardins da Casagrande, longe das fileiras de café, mas isso não significava menos trabalho ou menos vigilância.
O sistema era projetado para quebrar o espírito, mas alguns espíritos não quebram, apenas se transformam. Joana mantinha um pequeno jardim secreto nos fundos da cenzala, onde plantava ervas medicinais que usava para curar os ferimentos dos castigos, para aliviar febres, para trazer algum conforto aos moribundos.
Os outros escravizados a procuravam nos momentos de desespero. Ela era curandeira, conselheira, guardiã de memórias. sussurravam que ela tinha conhecimento profundo, que carregava segredos antigos. Alguns a chamavam baixinho de Iá, mãe em Yorubá. Outros diziam que ela sabia preparar ebó oferendas aos orixás e que mantinha viva a fé ancestral, apesar do batismo forçado, apesar da cruz que o padre vinha impor uma vez por mês.
Se você está sentindo a opressão desta história, se está começando a entender o peso que Joana carregava, deixe seu like. Esta é uma história que precisa ser contada, uma memória que não pode ser apagada. O coronel Antônio tinha visitantes frequentes.
A fazenda Boa Vista era ponto de encontro para outros fazendeiros da região. Homens que vinham discutir política, preços do café, métodos de controle dos escravizados. Vinham também para jogar cartas, beber conhaque importado, fumar charutos cubanos e se vangloriarem de suas posses, terras, escravos, filhos bastardos que nunca reconheceriam. Entre esses visitantes estavam três homens que se tornariam presença regular nos meses seguintes.
O major Rodrigo Sampaio, proprietário da fazenda vizinha, um homem gordo de 60 anos que ria alto demais e bebia mais ainda. O capitão Fernando Lustosa, especulador de escravos que comprava e vendia seres humanos como gado, 54 anos, olhos de cobra e Dr. Henrique Almeida, o médico da região, 42 anos, que tratava dos senhores com dedicação e dos escravos com descaso brutal, considerando os animais que não mereciam anestesia durante procedimentos. Eram 11 homens no total.
que frequentavam regularmente a fazenda Boa Vista. 11 homens que bebiam, riam, celebravam sua prosperidade construída sobre sofrimento. 11 homens que veriam Joana passar carregando mudas de árvores, regando plantas, podando galhos e nunca realmente a enxergavam. Era apenas mais uma escrava, apenas mais uma peça da engrenagem. Mas Joana os via. Via todos.
Observa cada um com olhos que memorizavam detalhes, que catalogavam fraquezas, que esperavam o momento certo. Ainda não sabia que esse momento estava chegando. Ainda não sabia que em poucos dias algo quebraria definitivamente dentro dela e a curandeira se transformaria em algo muito mais perigoso.
A fazenda Boa Vista estava prestes a descobrir que algumas plantas não são feitas para embelezar jardins. Algumas plantas são feitas para matar. Era uma tarde quente de abril, o tipo de calor úmido que grudava na pele e tornava o ar pesado demais para respirar confortavelmente.
Joana estava nos jardins da casa grande, podando as rosezeiras que floresciam em explosões de vermelho e rosa, quando ouviu a voz de Abene, Maria, como a forçavam a se chamar, subindo em pânico da direção da cenzala. O coração de Joana imediatamente se apertou. Mães escravizadas desenvolviam um instinto terrível, um pressentimento que antecipava tragédias. Ela largou a tesoura de poda e correu.
O que viu a fez parar no meio do caminho, as pernas subitamente fracas. Sebastião Rocha, o feitor brasileiro metódico e frio, estava arrastando a Benny pelos cabelos, em direção à sua cabana particular, aquela pequena construção de madeira, onde os feitores levavam mulheres escravizadas. A menina gritava, se debatia, arranhava o braço do homem.
tinha apenas 15 anos, ainda era criança, mas isso nunca importou para homens como Sebastião. E então Joana viu seu filho. Quame João saiu correndo de entre as fileiras de café onde trabalhava. Devia ter ouvido os gritos da irmã. Corria com desespero, com fúria, com aquela coragem suicida que apenas o amor verdadeiro pode inspirar.
Gritava para que o feitor soltasse sua irmã. Suas mãos, grandes e fortes do trabalho pesado, agarraram Sebastião pelo ombro e o viraram bruscamente. Por um momento, o mundo pareceu parar. Sebastião olhou para o jovem de 17 anos que ousara tocá-lo. Seus olhos se estreitaram. Um sorriso cruel se formou em seus lábios.
soltou a Benny, que caiu no chão, e imediatamente correu para longe. Mas Quam não correu, ficou ali de pé, o peito subindo e descendo rapidamente, as mãos fechadas em punhos, olhando diretamente nos olhos do feitor. “Você acabou de assinar sua sentença de morte, negrinho”, disse Sebastião baixo, quase gentil. Mas antes de morrer, você vai aprender o que acontece com o escravo que ergue a mão contra homem branco.
Ele puxou o apito que carregava no pescoço e soprou três vezes, o sinal de emergência. Em minutos, os outros dois feitores chegaram correndo, Joaquim Mendes e Antônio Barbosa. Atrás deles, o coronel Antônio, alertado pela agitação. Os quatro capatazes também se aproximaram cercando Quame. Joana finalmente conseguiu se mover.
Correu, gritando, implorando: “Meu filho não fez nada, por favor. Ele só estava protegendo a irmã. Por favor, senhor”, abaixou-se de joelhos na terra vermelha, as mãos juntas em súplica, lágrimas descendo pelo rosto. Não havia dignidade naquele momento, apenas desespero puro de mãe. O coronel Antônio olhou para ela com algo entre desprezo e enfado. Seu filho esqueceu seu lugar.
Levantou a mão contra um homem livre. Isso é inaceitável. Ele precisa ser exemplo. Exemplo? Joaquim Mendes cuspiu no chão. Esse moleque precisa ser morto. É isso que a lei permite. Escravo que agride homem branco merece morte. Qu mantinha o queixo erguido, olhando fixamente para o coronel. Não implorou, não chorou.
Joana veria mais tarde em pesadelos recorrentes, aquele momento em que seu filho decidiu morrer com dignidade, já que não podia viver com ela. “Não vou matar ele”, disse o coronel lentamente, como se estivesse calculando o valor monetário de sua propriedade. “Um escravo jovem e forte vale dinheiro, mas ele será castigado 150 chibatadas no tronco agora que todos vejam”.
150 chiatadas. A lei brasileira teoricamente limitava castigos a 50 chibatadas por dia. Na prática, nas fazendas isoladas do interior, a lei era o que o senhor decidisse que fosse. 150 chibatadas matavam. Sempre matavam. Talvez não imediatamente, mas nas horas seguintes, quando a carne aberta infeccionava, quando o choque se instalava, quando o corpo simplesmente desistia, o sino foi tocado.
Não o sino do trabalho, mas o sino dos castigos públicos. Todos os escravizados da fazenda foram obrigados a parar suas tarefas e formar um semicírculo ao redor do tronco. Aquela estrutura de madeira no centro do terreiro, manchada de sangue velho que nunca saía completamente, não importava quantas chuvas viessem. Joana foi forçada a ficar na frente.
Para que aprenda disse Sebastião, empurrando-a para que veja o que acontece quando não ensina seus filhos a se comportar. Amarraram Kuam ao tronco, arrancaram sua camisa de pano grosso. Suas costas jovens, ainda sem muitas cicatrizes, ficaram expostas ao sol inclemente da tarde. Ele virou a cabeça e encontrou os olhos da mãe.
E naquele olhar, Joana viu que seu filho estava se despedindo. Joaquim Mendes pegou o chicote especial, aquele feito de couro de boi, trançado com pontas de metal. Era um instrumento desenhado não apenas para causar dor, mas para destruir carne. A primeira chibatada cortou o ar com um açubio agudo e depois estalou contra as costas de Quamê com um som que Joana jamais esqueceria.
Um som úmido de pele se partindo. O corpo do jovem se retesou, ele não gritou. A segunda chibatada abriu um corte paralelo ao primeiro. Sangue começou a escorrer. Na terceira, um gemido baixo escapou dos lábios de Quam. Na décima, sua pele já não era mais pele, mas uma massa vermelha e sangrenta. Na viésª, ele começou a gritar.
Joana tinha as mãos sobre a boca, lágrimas descendo sem parar, o corpo inteiro tremendo. A Ben estava abraçada a ela, o rosto enterrado no ombro da mãe soluçando. A Yodellia, a pequena Ana, estava sendo segurada por uma mulher mais velha da Senzala, protegida de ver completamente, mas ouvindo tudo. Na trima xibatada, pedaços de carne começaram a se soltar.
As costas de Quam não eram mais reconhecíveis como costas, eram apenas carne viva, músculos expostos, sangue pingando e formando uma poça na terra. Na quadragma, ele parou de gritar. Seu corpo apenas estremecia com cada impacto. Os outros, escravizados assistiam em silêncio forçado. Alguns choravam silenciosamente, outros tinham rostos de pedra tentando se desconectar, tentando sobreviver psicologicamente ao horror.
Mas todos entendiam a mensagem: “Isto é o que acontece com quem resiste. Isto é o que acontece com quem esquece seu lugar”. Joaquim Mendes cansou na seagésima chibatada. Antônio Barbosa assumiu o chicote. O jovem feitor atacou com energia renovada, com entusiasmo doentio. Cada golpe arrancava mais carne, mais sangue. As costas de Quam agora expunham ossos em alguns pontos.
A coluna vertebral estava visível através da carne destroçada. Na nonagésima chiatada, a cabeça de Quam caiu para a frente. Ele havia perdido a consciência. Seu corpo pendia frouxo contra as amarras. “Joguem água nele”, ordenou o coronel. “Precisa estar acordado.” Um balde de água salgada foi jogado nas costas abertas.
O sal na carne viva fez o corpo de Quam convulsionar. Ele acordou com um grito que não parecia humano. Era um som primitivo, além da dor, além da linguagem. Sebastião Rocha pegou o chicote para o último turno. Nas 100 chibatadas, as costas de Quam eram uma cratera vermelha. Costelas estavam expostas. O sangue havia formado uma poça considerável.
Nas 110 ele voltou a desmaiar. Mais água salgada, mais gritos. Nas 120, seu corpo começou a tremer incontrolavelmente. Choque. O corpo estava entrando em choque. Nas 130, Joana não conseguia mais ficar de pé. Estava de joelhos na terra, vomitando, o corpo convulsionando com soluços. Nas 140, Quam parou de reagir completamente. Seu corpo pendia inerte.
Apenas amarras o mantinham de pé. Nas 145, o chicote arrancou um pedaço maior de carne das costas já destruídas e na 150 chibatada, um grito coletivo e abafado se ergueu dos escravizados reunidos, porque todos sabiam, todos reconheciam. O corpo de Quam havia parado de respirar. Sebastião jogou o chicote no chão, cansado, satisfeito.
Pronto, exemplo dado. Desamarraram o corpo e o deixaram cair na terra como um saco de roupas sujas. Joana rastejou até ele, ignorando os feitores, ignorando tudo. Abraçou o corpo do filho, sentindo o sangue ainda quente, encharcando suas roupas. puxou a cabeça dele para seu colo.
Seus dedos tremiam ao tocar o rosto de Quam, ainda jovem, ainda bonito, apesar da dor congelada em suas feições. “Meu filho”, ela sussurrava em yorubá, uma litania de dor. “Meu filho, meu menino, homocumni, homocumni, meu filho, meu filho.” Ab chegou, ajoelhou-se ao lado da mãe, abraçou o irmão morto. Suas lágrimas caíam no rosto dele. Foi minha culpa ela soluçava. Ele morreu por minha causa. Ele morreu protegendo-me. Não Joana disse.
Sua voz subitamente firme, apesar das lágrimas. Ela olhou para a filha com olhos que queimavam. Ele não morreu por sua culpa. Ele foi assassinado por eles. Virou a cabeça e olhou para os feitores, para o coronel, para os capatazes. Olhou para cada um deles e eles sentiram pela primeira vez algo estranho naquele olhar, algo frio, algo que não era mais medo.
“Tirem esse corpo daqui”, ordenou o coronel incomodado. “E voltem todos ao trabalho. O dia não acabou.” permitiram que Joana e outras mulheres levassem o corpo de Quam, carregaram-no até os fundos da fazenda, onde havia um pequeno cemitério para escravizados, terra não consagrada, apenas covas rasas marcadas com cruzes de madeira tosca.
Cavaram enquanto o sol começava a se pôr. Lavaram o corpo como puderam, com panos e água, tentando devolver alguma dignidade àquele filho, irmão, amigo. Quando colocaram Quame na terra e começaram a cobri-lo, algo dentro de Joana morreu também. a parte dela que ainda tinha esperança, a parte que ainda acreditava em sobrevivência paciente, a parte que ensinava suas filhas a abaixar os olhos e sobreviver.
Naquele momento, algo novo nasceu, algo frio, calculado, paciente de uma forma diferente. Não a paciência da vítima esperando que o sofrimento passe, a paciência do predador esperando o momento exato de atacar. Aquela noite, Joana não voltou para a censala. Foi até seu jardim secreto nos fundos, aquele pequeno espaço onde cultivava ervas medicinais.
Ajoelhou-se na terra, ainda úmida das lágrimas que havia derramado. Olhou para o céu noturno, para as estrelas que sua avó lhe ensinara a ler quando era criança na África, antes de tudo ser arrancado dela, e fez um juramento, não em português, em iorubá, na língua de seus ancestrais, na língua que carregava poder. Ogun, Senhor do ferro e da guerra, testemunhe meu juramento.
Jangô, Senhor da justiça e do trovão, ouça minhas palavras. Oia, senhora dos ventos e dos mortos, guie. Eu, Joana, filha de Amara, neta de Adoni, juro pelo sangue do meu filho Quame, que cada homem responsável por sua morte pagará. Pagarão com suas vidas, pagarão com dor, pagarão da forma que meus ancestrais ensinaram, lenta, silenciosa, inevitável, como a morte que vem das plantas sagradas.
Este é meu juramento, este é meu ebó. Meu sacrifício será a vida deles, e meu filho descansará quando a última gota do sangue deles regar esta terra amaldiçoada. Ela pegou um punhado de terra e esfregou em seu rosto, na testa, nas bochechas, um ritual antigo, uma marcação de guerra, e então começou a planejar. Pause por um momento e reflita: “O que você faria se estivesse no lugar de Joana? O que significa justiça quando não há lei que te proteja?” Deixe nos comentários. Joana tinha uma vantagem que nenhum dos homens na fazenda Boa Vista percebia. Era invisível. 22 anos
de escravidão a haviam ensinado a se tornar parte do cenário. Uma presença tão constante e despercebida quanto o mobiliário da Casa Grande. Quando ela entrava na casa para cuidar das plantas ornamentais nas salas, quando passava pela varanda regando os vasos de flores, quando podava as rosezeiras próximas às janelas abertas, onde os homens conversavam, ninguém baixava a voz, ninguém interrompia conversas. Escravos não ouviam, escravos não entendiam.
Escravos não eram gente o suficiente para que suas presenças importassem. Mas Joana ouvia tudo, registrava tudo e começou a observar de forma diferente. Durante as duas semanas após a morte de Quam, enquanto fingia que continuava sendo a mesma Joana de sempre, obediente, competente, quebrada, ela observou os padrões.
Observou que o coronel Antônio tomava café na varanda todas as manhãs, sempre no mesmo horário, sempre sozinho, antes que os outros acordassem. observou que Joaquim Mendes gostava de caminhar pelos jardins ao entardecer, fumando um cachimbo, inspeccionando o trabalho do dia. Observou que Sebastião Rocha tinha o hábito de beber cachaça barata escondido atrás dos estábulos, pensando que ninguém sabia de seu vício.
observou que Antônio Barbosa, o feitor mais jovem, visitava regularmente a cabana de uma escrava chamada Rosa, que não tinha escolha se não recebê-lo. Observou os capatazes. Benedito tinha diabetes e frequentemente sentia sede intensa.
Tomás sofria de dor crônica nas costas e mastigava folhas de coca quando conseguia. Miguel tinha problemas de estômago e vivia reclamando. João era o mais saudável, mas tinha um apetite voraz e roubava comida da cozinha da Casagre quando achava que ninguém via. Observou os visitantes. O Major Rodrigo Sampaio vinha toda sexta-feira para jogar cartas com o coronel.
O capitão Fernando Lustosa aparecia no início de cada mês para discutir negócios de compra e venda de escravos. O Dr. Henrique Almeida vinha quando chamado para tratar de alguma doença dos senhores ou para realizar inspeções sanitárias quando havia surtos de febre na cenzala. Inspeções que consistiam em recomendar isolamento dos doentes e queima de pertences, nunca tratamento real.
Mas Joana precisava de mais que observação, precisava de um método. E foi então que voltou às lições de sua avó. Ainda criança, antes da captura, Joana passava dias inteiros com a avó Duni nos campos ao redor da aldeia, aprendendo os segredos das plantas. A velha curandeira lhe ensinara que toda planta tinha duplo propósito: curar e matar.
A diferença estava apenas na dose, na preparação, no conhecimento de como extrair e concentrar as propriedades. Ensinou sobre a mandioca brava, que alimentava, mas cujas raízes mal preparadas matavam com ácido cianídrico. Ensinou sobre a espirradeira, com suas flores lindas e seus frutos mortais. ensinou sobre a mamona e seu óleo, que em pequenas doses era purgante medicinal, mas em doses maiores destruía órgãos internamente.
Ensinou sobre dezenas de plantas cujos nomes em Yoruboana ainda lembrava, mesmo quando os nomes em português lhe escapavam. E então Joana se lembrou de uma lição específica que a avó lhe dera anos antes de tudo ser destruído. A velha apontara para uma árvore específica e dissera em Iorubá: “Esta é a árvore da paciência, minha neta ela não mata rápido.
Ela mata tão devagar que nem parece que está matando. Suas folhas, suas flores, seus frutos, tudo tem o veneno e o veneno se acumula. Uma pessoa pode comer um fruto e não morrer. Pode comer dois, três, 10 e apenas sentir-se um pouco mal. Mas o veneno fica no corpo, acumula.
E depois de meses comendo pequenas quantidades, de repente o corpo colapsa. E quando colapsa, nenhum curandeiro consegue salvar, porque já é tarde demais. O veneno já fez seu trabalho silencioso. A árvore que a avó descrevera tinha uma prima aqui no Brasil. Joana a conhecia. Os portugueses chamavam de espirradeira, outros de Oleandro.
Nerium Oleander, o nome dos médicos. Ela já a tinha visto em algumas fazendas da região, plantada como ornamento, porque tinha flores bonitas, rosa, branca, vermelha. As pessoas não sabiam ou não ligavam. que todas as partes da planta eram mortalmente tóxicas, as folhas, os caules, as flores, os frutos, tudo.
E o veneno, a oleandrina era particularmente insidioso porque causava problemas cardíacos que poderiam parecer morte natural, especialmente em homens mais velhos. Mas Joana precisava de mais de uma planta, precisava de variedade, precisava criar um pomar da morte disfarçado de jardim ornamental e precisava de um pretexto para plantar essas árvores ao redor da casa grande.
Foi aí que teve a ideia. Três dias após o enterro de Quam, Joana procurou o coronel Antônio. Encontrou-o no escritório revisando livros de contabilidade da safra. bateu levemente na porta aberta e esperou cabeça baixa, mãos entrelaçadas à frente do corpo, a imagem perfeita da escrava submissa.
O que você quer? O coronel não levantou os olhos dos papéis. Perdão por incomodar, senhor, Joana disse com voz baixa. Eu queria queria pedir permissão para fazer algo na fazenda. Algo. Agora ele olhou sobrancelha levantada. Fale rápido. Estou ocupado. Eu trabalho nos jardins já faz 15 anos, senhor. A casa grande tem flores bonitas, mas falta sombra nos caminhos.
Os senhores e as que visitam reclamam do sol forte quando caminham pelos jardins. E eu sei plantar árvores. Árvores que crescem rápido, dão sombra, tem flores bonitas. Eu queria permissão para plantar algumas, para embelezar a fazenda, para deixar tudo mais bonito para o senhor e para dona Amélia. O coronel a estudou por um momento.
Joana manteve os olhos baixos, a respiração controlada, não mostrando nenhuma ansiedade. Árvores ornamentais. De onde você vai tirar as mudas? Na mata, senhor. Sei onde encontrar e sei como plantar, como cuidar. Aprendi quando era jovem. Não vai custar nada pro senhor e vai valorizar a fazenda.
Valorizar a fazenda, as palavras mágicas. O coronel gostava de impressionar visitantes. Gostava que sua propriedade fosse a mais bela, a mais bem cuidada. Havia competição silenciosa entre os fazendeiros da região sobre quem tinha a fazenda mais imponente. “Muito bem”, ele disse finalmente, “poe plantar suas árvores, mas não quero que isso atrapalhe seus outros trabalhos. E as árvores têm que ser bonitas mesmo.
Nada de plantar qualquer porcaria.” Sim, senhor. Obrigada, senhor. Joana se curvou e saiu. Quando virou as costas, um sorriso frio tocou seus lábios por uma fração de segundo. O coronel acabara de dar permissão para ela plantar as sementes de sua própria destruição. A preparação levou tempo, paciência, precisão absoluta.
Joana começou saindo nos domingos o único dia parcial de descanso que os escravizados tinham, usando a desculpa de que ia coletar mudas na mata. Levava a Iodelli, Ana com ela, ensinando a filha mais nova enquanto coletava os instrumentos de vingança. A primeira árvore que encontrou foi a espirradeira. Havia um exemplar crescendo semi-elvagem próximo a um riacho a poucos quilômetros da fazenda. Suas flores rosas balançavam inocentes na brisa.
Joana cavou cuidadosamente ao redor das raízes, preservando a estrutura, transportou a muda em um saco de pano úmido. Mãe! Aelli perguntou enquanto caminhavam de volta. Por que esta árvore? Ela é bonita? É muito bonita, minha filha. e muito especial. Mas nunca, nunca toque suas folhas sem lavar as mãos depois. Nunca coloque nada desta árvore na boca. Nunca. Me prometa.

A menina, com seus 11 anos, mas já velha demais para a idade devido ao que havia testemunhado, olhou para a mãe com olhos sabidos. Esta é uma árvore má, mãe. Não existe árvore má, minha filha. Existem apenas plantas que sabem se defender. E esta aqui, esta sabe se defender muito bem. Ao longo das semanas seguintes, Joana coletou outras mudas, encontrou mamona crescendo em terrenos baldios, coletou sementes de plantas tóxicas que conhecia de seu tempo na África e que também cresciam no Brasil. A natureza era generosa em espalhar suas armas.
conseguiu mudas do que chamavam de chapéu de Napoleão, cujos frutos vermelhos eram mortalmente venenosos. Encontrou exemplares de trombeta de anjo, com suas flores lindas em forma de sino, e seu veneno que causava alucinações, seguidas de convulsões. Coletou sementes de coerana, uma trepadeira cujos frutos pareciam uvas, mas carregavam veneno cardiovascular.
E então começou a plantar. plantou estrategicamente duas espirradeiras, flanqueando a entrada principal da casa grande, onde dariam sombra aos visitantes que chegavam a cavalo. Uma fileira de mamonas ao longo do caminho que levava aos estábulos onde os feitores costumavam passar. Chapéu de Napoleão próximo à área onde os capatazes descansavam no meio do dia.
Trombeta de anjo perto das janelas do coronel, onde o perfume noturno das flores poderia entrar durante o verão. Que bom trabalho, Joana! Dona Amélia comentou uma tarde, observando da varanda. As árvores estão crescendo bem. Ficarão lindas quando maiores. Obrigada, Sá. São árvores especiais.
vão dar flores o ano todo e dariam flores bonitas, frutos tentadores, folhas verdes e viçosas, tudo envenenado, tudo mortal. Mas Joana não poderia simplesmente esperar que alguém comesse frutos por acidente. Era impreciso demais, arriscado demais. poderia matar a pessoa errada. Outra escrava encarregada de coletar frutas? Uma criança? Não. Ela precisava de controle total. Precisava garantir que apenas seus alvos consumissem o veneno.
Foi quando a segunda parte do plano se formou. Joana tinha acesso à cozinha da Casa Grande. Não trabalhava lá regularmente. Essa era a função de outras escravas, mas frequentemente levava ervas frescas que cultivava. Hortelã para chás, alecrim para temperar carnes, manjericão para molhos.
As cozinheiras a recebiam bem, trocavam palavras breves. Joana observava onde guardavam cada coisa, como preparavam cada refeição, quais ingredientes usavam e começou a se oferecer para ajudar. Posso preparar o chá da hoje? Ofereceu uma manhã. Conheço uma mistura de ervas que ajuda com dores de cabeça. Assim, sempre reclama de enxaqueca. A cozinheira, uma escrava chamada Benedita, com quem Joana sempre mantivera boas relações, aceitou grata.
Ah, sim. Ela acordou reclamando hoje mesmo. Prepare o chá. Joana preparou hortelã, camomila, um toque de erva cidreira. Nada de veneno ainda. Ainda não. Primeiro precisava estabelecer o padrão. Precisava se tornar a pessoa que preparava chás especiais, que fazia infusões, que conhecia ervas. Precisava que todos se acostumassem a vê-la mexendo com plantas, preparando bebidas, lidando com temperos.
Ao longo de dois meses, Joana se tornou presença cada vez mais comum na cozinha. preparava chás para dona Amélia, fazia tônicos para o coronel, que havia comentado sobre digestão difícil, criava misturas de ervas para temperar a carne dos jantares especiais. E enquanto fazia isso, observava, observava quais comidas cada homem preferia. O coronel adorava doce de goiaba.
Joaquim Mendes comia qualquer coisa que tivesse carne. Sebastião tinha preferência por caldos e sopas. Antônio Barbosa gostava de frutas frescas. Os capatazes recebiam sobras, mas geralmente comiam juntos, compartilhando pratos. Joana arquivava cada informação, construía seu mapa de vulnerabilidades culinárias. Mas havia outro problema.
Ela precisava de doses consistentes de veneno altamente concentrado e preparar isso levaria tempo. Precisava extrair a oleandrina das espirradeiras que havia plantado. Precisava processar as sementes de mamona para obter o óleo tóxico concentrado. precisava secar e moer folhas, preparar tinturas, criar concentrados que poderiam ser adicionados em quantidades minúsculas à comida, sem alterar dramaticamente sabor ou cor.
Era trabalho de meses, trabalho que precisava ser feito em absoluto segredo. Então, Joana transformou uma pequena área esquecida nos fundos da cenzala em seu laboratório secreto. Era um canto entre dois barracões, parcialmente escondido por uma pilha de madeira velha que ninguém usava. À noite, quando todos dormiam exaustos do trabalho, ela acordava silenciosamente e ia até lá.
trabalhava à luz de uma pequena vela, moendo folhas em um pilão que escondera, fervendo extratos em uma panela rachada que salvara do lixo, filtrando líquidos através de panos, armazenando concentrados em pequenos frascos de vidro que colecionara ao longo dos anos. Era a química ancestral.
Era conhecimento que passara de avó para mãe, de mãe para neta, através de gerações. Era ciência que os senhores brancos nem sabiam que existia, porque consideravam africanos e seus descendentes incapazes de conhecimento sofisticado. Essa arrogância seria a morte deles. Joana testava seus extratos em pequenos animais. Primeiro, uma gota em um pedaço de carne deixado para um rato.
Observava quanto tempo levava para fazer efeito, quais sintomas apareciam, quanto era dose letal versus quanto causava apenas doença. Precisava calibrar perfeitamente. Não queria que eles morressem rápido. Queria que acumulasse. queria que sofressem por semanas, meses, sentindo seus corpos falharem gradualmente, sem entender porquê, sem que nenhum médico pudesse identificar o que estava errado.
Queria que experimentassem a impotência, a confusão, o medo crescente de estar morrendo sem saber a causa. Queria que nos últimos momentos, quando os corações falhassem e os pulmões parassem de funcionar, eles soubessem, com certeza absoluta que não era doença, era vingança. Três meses após a morte de Quam, Joana estava pronta. Tinha seus venenos preparados e concentrados, tinha seus alvos mapeados, tinha seu acesso garantido à cozinha.
Tinha a confiança de todos. Porque quem suspeitaria da escrava silenciosa e obediente que apenas queria fazer um chá bom? Havia apenas uma decisão final a tomar, a ordem de morte. Joana decidiu que Sebastião Rocha seria o último, o homem que levava sua filha quando Cuam interferiu, o homem cujas ações diretas causaram a morte de seu filho.
Ele precisava ver todos os outros morrerem primeiro. Precisava sentir o medo crescer, precisar entender que algo estava errado. E então, quando estivesse mais apavorado, mais desesperado, seria a sua vez. O coronel Antônio seria o penúltimo, porque era dele a ordem, era dele o poder, e seu sofrimento precisava ser prolongado, observando sua propriedade, seus homens, seu mundo cuidadosamente construído, desmoronara ao seu redor antes que ele próprio caísse.
Os outros, Joaquim Mendes, Antônio Barbosa, os quatro capatazes, os três visitantes regulares, morreriam em ordem de oportunidade, mas todos morreriam. 11 homens, 11 vidas por uma vida. Parecia justo para Joana, parecia até insuficiente, mas seria o que ela poderia alcançar antes de ser descoberta ou antes que os venenos se esgotassem.
Estamos chegando ao momento mais intenso. Se você está sentindo atenção, deixe seu like para apoiar histórias como esta. A primeira dose foi adicionada uma terça-feira de julho, se meses antes do massacre final, que viria em agosto do ano seguinte. Joana tinha paciência, tinha todo o tempo do mundo, porque os mortos podem esperar, e Cuame esperaria até que cada gota de vingança fosse extraída.
Joaquim Mendes, o feitor mais velho, seria o primeiro a começar a morrer e ele nem saberia até que fosse tarde demais. A morte de Joaquim Mendes começou com um chá. Era uma manhã de julho de 1855, o sol já forte, apesar da hora matinal, quando Joana viu sua primeira oportunidade real.
O feitor português, que tinha o hábito de beber qualquer coisa que amenizasse a ressaca de suas bebedeiras noturnas, havia reclamado em voz alta perto da cozinha, sobre dor de cabeça intensa. Benedita, a cozinheira, comentara que ia preparar um chá de ervas para ele. Deixa que eu preparo Joana se ofereceu, aparecendo como sempre fazia, útil e discreta.
Tenho uma mistura especial que ajuda muito com dor de cabeça. O senhor Feitor vai gostar. Benedita, ocupada com o preparo do café da manhã da família, acenou agradecida. Está bem, você sabe fazer melhor que eu mesmo. Joana foi até seu cesto de ervas, pegou hortelã, camomila, gengibre ralado, todos os ingredientes legítimos e benéficos.
E então, virando-se levemente para que seu corpo bloqueasse a visão de qualquer um, pegou um pequeno frasco escondido nas dobras de sua saia. Dentro havia três gotas de extrato concentrado de espirradeira, oleandrina pura que ela passara semanas preparando. Três gotas não eram suficientes para matar, não ainda, mas eram suficientes para começar o processo.
Colocou as gotas na caneca de barro, acrescentou a água fervente por cima, mexeu as ervas. O cheiro era agradável, fresco, medicinal. Nada sugeria veneno. A oleandrina não tinha sabor forte em pequenas doses, especialmente mascarada pelo gengibre e pela hortelã. Levou a caneca até Joaquim Mendes, que estava sentado em um banquinho, à sombra dos estábulos, o rosto vermelho e suado.
“Senhor feitor”, ela disse, baixando os olhos respeitosamente. Chápra a dor de cabeça, ainda está quente. Ele pegou a caneca sem olhar para ela, sem agradecer. Por que agradeceria a uma escrava? E bebeu metade do conteúdo de uma vez, fazendo barulho. Está bom. resmungou. “Pode ir.” Joana se afastou. Seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir, mas seu rosto permaneceu perfeitamente neutro.
Primeira dose administrada, mas dezenas viriam. Ao longo das semanas seguintes, sempre que podia, Joana se oferecia para preparar bebidas para Joaquim. Chá de manhã, suco de frutas à tarde, vinho quente à noite quando o clima esfriava, três gotas aqui, duas gotas ali, às vezes apenas uma para não acelerar demais.
O veneno se acumulava silenciosamente em seu coração, em seus rins, em seus músculos. Era imperceptível, era perfeito. Mas Joaquim não era o único alvo. Joana precisava trabalhar em múltiplos front simultaneamente. O major Rodrigo Sampaio vinha toda sexta-feira para jogar cartas. Era gordo, bebia demais e adorava os doces que dona Amélia mandava servir. Joana começou a se oferecer para preparar bandejas especiais de frutas cristalizadas e doces de goiaba.
para os jogadores. E nas porções do major sempre havia algumas gotas extras de extrato de mamona, um veneno diferente, para sintomas diferentes, para que nenhum médico conectasse à mortes quando começassem a acontecer. O capitão Fernando Lustosa preferia café forte, amargo, carregado.
Joana começou a preparar o café especial que ele sempre pedia quando visitava. Moía os grãos pessoalmente e adicionava pó finamente moído de sementes de espirradeira torradas. Impossível de detectar no café escuro, impossível de sentir no sabor amargo. Antônio Barbosa, o feitor mais jovem, gostava de frutas frescas que roubava do pomar.
Joana começou a deixar cestas de frutas esquecidas em lugares estratégicos, frutas que ela mesma preparava, cujas cascas ela cuidadosamente injetava com veneno, usando uma espinha de peixe como seringa primitiva. Ele comia sem desconfiar. Os quatro capatazes comiam juntos frequentemente sobras da casa grande servidas em panelas comuns.
Joana às vezes preparava caldos especiais, sopas grossas de legumes que Benedita servia para eles. E nesses caldos entravam tinturas variadas, doses pequenas, mas constantes. Passaram-se 2 meses, 3 meses, 4 meses. Ninguém suspeitava de nada. Ninguém morrera ainda, mas os sintomas começavam. Joaquim Mendes começou a reclamar de fadiga. Suava mais que o normal.
Seu coração batia irregular. Às vezes ele notava, mas atribuía à idade. Aos 48 anos. Era natural sentir-se cansado pensava ele. O major Rodrigo começou a ter problemas digestivos sérios, vômitos ocasionais, diarreia crônica. Perdia peso, apesar de comer tanto. Consultou o Dr.
Henrique Almeida, que diagnosticou problemas no fígado relacionados à bebida, e recomendou beber menos. O major ignorou o conselho. O capitão Fernando Lustosa desenvolveu tremores nas mãos, dores no peito que vinham e iam. Atribuiu ao estresse dos negócios. Nunca imaginou que cada xícara de café estava depositando mais veneno em seu sistema cardiovascular.
Antônio Barbosa, tão jovem e forte, começou a sentir fraqueza inexplicável, dores musculares, problemas de coordenação ocasionais. achava que estava trabalhando demais no sol. Os capatazes tinham sintomas variados, dores de cabeça, náuseas, visão borrada ocasional, nada dramático, nada que os fizesse parar de trabalhar, apenas o suficiente para começar a corroer a saúde. E Joana observava tudo, ajustava doses conforme necessário.
Se alguém parecia muito doente e muito rápido, ela reduzia. Não queria mortes prematuras. Queria todos doentes simultaneamente quando chegasse o momento final. Queria o massacre sincronizado, mas manter controle absoluto sobre quem consumia o quê estava se tornando difícil. Havia dias em que Joana não tinha acesso à cozinha, dias em que não conseguia preparar as bebidas específicas, dias em que outras escravas preparavam a comida e ela não tinha oportunidade de adicionar nada.
Foi então que Joana decidiu intensificar a operação plantando veneno diretamente nas fontes de alimento da fazenda. As árvores que ela plantara 15 meses antes agora estavam crescidas, bonitas, verdejantes, algumas já florindo, especialmente as espirradeiras, que cresciam rápido e já tinham altura considerável, e haviam começado a produzir frutos.
Os frutos da espirradeira pareciam vagens longas e secas. Dentro conham sementes, sementes extremamente venenosas. E Joana começou a colhê-la sistematicamente. Triturava as sementes completamente, transformando-as em pó fino. Este pó, ela então adicionava a recipientes de farinha na despensa da casa grande, misturava no pote de açúcar mascavo, polvilhava sobre sacos de feijão seco, quantidades minúsculas espalhadas por múltiplas fontes, impossíveis de detectar visualmente ou pelo paladar.
Mas cada refeição preparada com aqueles ingredientes carregava agora mais veneno. Era genial em sua maldade, era sistêmico. Todo homem que comia na casa grande ou que recebia comida preparada na cozinha principal estava lentamente, gradualmente sendo envenenado.
Mas Joana tinha um problema, dona Amélia e as crianças da família. O coronel tinha dois filhos pequenos de um casamento anterior. Joana não queria que inocentes morressem, especialmente crianças. Por mais que odiasse tudo que aquela fazenda representava, ela não mataria crianças. Então começou a preparar refeições separadas para a família do coronel.
ofereceu-se para fazer isso, dizendo que os homens preferiam comida mais pesada e temperada, enquanto a senhora e as crianças precisavam de preparos mais delicados. Benedita, sempre sobrecarregada de trabalho, aceitou a ajuda gratamente. Joana preparava duas versões de tudo: sopa para os homens, envenenada, sopa para a família pura, pão para os jantares de negócios, envenenado, pão para o café da manhã das crianças puro.
Era trabalho meticuloso, exaustivo, que requeria a atenção absoluta para não misturar as panelas, os pratos, as travessas. Mas funcionou. Dezembro chegou, depois janeiro de 1856. Os sintomas estavam se agravando nos 11 alvos, mas ainda nenhuma morte. O veneno estava fazendo seu trabalho lento e perfeito, acumulando-se nos órgãos, destruindo tecidos célula por célula, preparando o terreno para o colapso final.
Foi em fevereiro que Joaquim Mendes teve o primeiro episódio sério. Estava caminhando pelos cafezais, inspeccionando o trabalho, quando de repente seu coração disparou. bateu tão rápido e tão irregular que ele caiu de joelhos, a mão apertando o peito, o rosto drenando de cor. Os escravizados ao redor pararam e olharam assustados.
Será que ele estava morrendo? Alguns esperavam que sim, mas após alguns minutos agonizantes, o coração dele voltou ao ritmo normal. Ele se levantou, trêmulo, suado, aterrorizado pela experiência. mandou chamar o Dr. Henrique Almeida. O médico veio, examinou Joaquim, ouviu seu coração com o estetoscópio, tomou o pulso. “Seu coração está irregular”, diagnosticou.
“Aritmia é comum em homens da sua idade, especialmente se bebe e fuma muito. Recomendo repouso, menos álcool, menos esforço.” Joaquim seguiu o conselho por exatos três dias. Depois voltou ao trabalho, ao álcool, aos cigarros. e continuou bebendo os chás que Joana preparava. Continuou comendo a comida envenenada. O veneno continuou acumulando.
Em março, o Major Rodrigo teve uma crise de diarreia tão severa que passou dois dias incapacitado, perdendo fluidos e peso de forma alarmante. Sua pele ficou amarelada, seus olhos ficaram fundos. Parecia ter envelhecido 10 anos em uma semana. O Dr. Henrique diagnosticou desenteria e prescreveu ópio para controlar os espasmos intestinais. Ajudou temporariamente, mas não parou o veneno.
Em abril, Antônio Barbosa desmaiou enquanto chicoteava um escravo. Simplesmente caiu, perdeu a consciência. Quando acordou, minutos depois, não se lembrava do que havia acontecido. Tinha visão dupla que persistiu por horas. atribuíram a uma insolação. Os capatazes estavam todos visivelmente doentes. Agora Tomás tinha perdido tanto peso que suas roupas pendiam frouxas no corpo.
Miguel vomitava frequentemente, especialmente de manhã. Benedito tinha sede insaciável e urinava constantemente sintomas que confundiam com piora do diabetes. João, o mais saudável, começou a ter dores no peito que o assustavam durante a noite.
E através de tudo isso, Joana continuava implacável, paciente, adicionando mais veneno a cada oportunidade, preparando chás, temperando comida, polvilhando pó mortífero sobre açúcar e farinha. Ela estava transformando a fazenda Boa Vista em uma necrópole e ninguém sabia. A noite deitada na cenzala, Joana às vezes olhava para o teto escuro e se perguntava se estava se tornando monstruosa, se estava perdendo sua humanidade na busca por vingança. Mas então lembrava do corpo destroçado de Quame.
Lembrava dos gritos dele. Lembrava das 150 chibatadas. Lembrava que ele morreu protegendo a irmã. morreu porque ousou agir como ser humano em um sistema que o definia como propriedade e qualquer dúvida evaporava. Eles mereciam isso. Todos mereciam. Cada gota de veneno, cada momento de dor, cada hora de confusão sobre porque seus corpos estavam falhando.
Mereciam porque eram os arquitetos e executores de um sistema que torturava e matava crianças, porque eram homens que dormiam tranquilos depois de ordenar atrocidades, porque eram monstros que se viam como normais, como justificados, como superiores. Joana não era monstruosa. Ela era justiça. Era a mão de Ogum empunhando a espada.
Era a fúria de Xangô caindo como trovão. Era Oia guiando os mortos para seu destino. E o destino deles estava chegando. Maio. Passou, junho, julho. As árvores que Joana plantara estavam agora completamente crescidas. O jardim da fazenda Boa Vista era comentado pelos visitantes como o mais bonito da região.
As espirradeiras tinham flores magníficas, grandes, rosadas, perfumadas. As trepadeiras cobriam paredes com folhagens exuberantes. Até Mamona, normalmente considerada praga, estava estrategicamente plantada em canteiros, onde seus cachos de sementes vermelhas pareciam decorativos.
Era um jardim de morte disfarçado de paraíso e ninguém via. Em agosto, Joana decidiu que era a hora do ato final. 11 homens estavam suficientemente envenenados. Seus corpos estavam carregados de toxinas, esperando apenas um empurrão final para o colapso completo. E Joana planejara o empurrão perfeito.
Havia um jantar programado para 23 de agosto, um grande jantar de negócios onde o coronel Antônio receberia investidores e outros fazendeiros para discutir a formação de uma cooperativa de exportação de café. Seria um evento importante. Comida elaborada, vinhos importados. Os homens mais importantes da região estariam presentes, incluindo todos os 11 alvos de Joana, o coronel claro, os três feitores, os quatro capatazes, que serviriam e depois receberiam permissão para comer as sobras.
e os três visitantes importantes, Major Rodrigo, capitão Fernando, Dr. Henrique. 11 homens, uma noite, uma refeição. Joana prepararia o banquete da morte. A semana antes do jantar foi de preparação meticulosa. O coronel Antônio estava empolgado. Queria impressionar os investidores potenciais. ordenou que matassem três porcos, duas cabras, galinhas. Queria fartura demonstrada, queria mostrar prosperidade.
Mandou buscar vinhos caros do Rio de Janeiro, frutas importadas, queijos europeus e colocou Benedita e Joana no comando da preparação do banquete. “Quero que seja perfeito”, ele ordenou. Absolutamente perfeito. A reputação da fazenda está em jogo. Se essa cooperativa for formada, seremos ainda mais ricos.
Não aceito erros. Sim, senhor. Benedita respondeu. Vai ser a melhor comida que o senhor já viu. Joana apenas a sentiu. Olhos baixos, mãos juntas. Por dentro, seu coração acelerava. Esta era a oportunidade. A culminação de 16 meses de planejamento paciente, de envenenamento gradual, de preparação meticulosa, tudo levava a esta noite.
Nos dias anteriores, Joana coletou tudo que precisaria. Dos frascos escondidos em seu laboratório secreto, reuniu seus venenos mais potentes, oleandrina concentrada das espirradeiras. Extrato de mamona processado e purificado. Pó de sementes de chapéu de Napoleão. Tintura de trombeta de anjo que causava primeiro alucinações, depois convulsões e algo especial que preparara especificamente para esta noite.
um extrato concentrado de múltiplas plantas, uma combinação letal que aceleraria todos os efeitos acumulados dos últimos 16 meses. Era um coquetel de morte, rápido demais para ser natural, mas os corpos dos homens já estavam tão saturados com toxinas anteriores que qualquer médico atribuiria à mortes por condições cardíacas ou falência orgânica pré-existente.
No dia 23 de agosto de 1856, Joana acordou antes do amanhecer. Não havia dormido bem. Sonhara com Quam, com seu filho, lhe dizendo que estava na hora, que estava tudo bem, que ela podia fazer o que precisava fazer. Acordou com o rosto molhado de lágrimas, mas com determinação renovada. foi até seu esconderijo e pegou todos os frascos de veneno.
Escondeu-os nas dobras profundas de sua saia, em bolsos secretos que havia costurado especificamente para este propósito. Depois foi para a cozinha, onde Benedita já estava trabalhando desde cedo. Bom dia, Joana. Hoje vai ser um dia longo. Temos muito trabalho. Bom dia, Benedita. Eu ajudo em tudo. Pode deixar comigo os molhos e as bebidas. Você cuida das carnes.
Dividir as tarefas era estratégico. Joana precisava controle total sobre tudo que fosse líquido ou que pudesse ser facilmente adulterado sem que a alteração fosse visível. A preparação começou. Benedita temperava e assava as carnes. Joana preparava os acompanhamentos. Purê de mandioca, farofa rica com bacon e passas.
legumes cozidos, arroz branco perfumado e os molhos, molho de pimenta, molho de alho, molho agri doce para as carnes. Foi nos molhos que Joana começou seu trabalho. O molho de pimenta, que sabia ser favorito de Joaquim Mendes, adicionou 10 gotas de oleandrina concentrada, suficiente para matar um boi.
Nos corpos já saturados dos homens, seria como apertar o gatilho de uma arma já carregada. No molho agri doce que o major Rodrigo sempre pedia, misturou o extrato de mamona. O sabor doce mascararia completamente qualquer traço da toxina. No molho de alho que o capitão Fernando preferia, dissolveu o pó finíssimo de sementes venenosas.
Preparou uma jarra especial de vinho quente com especiarias, algo que os homens beberam copiosamente em uma noite que prometia esfriar. Neste vinho colocou a tintura de trombeta de anjo. Causaria alucinações leves primeiro, depois convulsões. Os homens atribuiriam as alucinações ao álcool. Quando as convulsões começassem, já seria tarde.
Fez suco de frutas que seria servido aos capatazes quando comessem suas porções de sobras. Envenenou cada jarra. Preparou o café forte que seria servido após o jantar. No bule destinado aos convidados, dissolveu mais oleandrina e, finalmente, como toque final, preparou a sobremesa, cocada feita com coco fresco ralado, açúcar queimado e leite condensado.
Nas cocadas que seriam servidas aos 11 homens específicos, ela marcaria discretamente com uma castanha no topo. adicionou seu coquetel especial de venenos múltiplos. Dose massiva, letal, definitiva. Ao meio-dia, a comida estava quase pronta. As mesas estavam sendo arrumadas na grande sala de jantar da Casagre. Toalhas brancas importadas, talheres de prata, taças de cristal, velas em castiçais dourados.
O coronel queria ostentação, queria que os investidores vissem riqueza. Joana observava de longe, observava os homens chegando para o jantar. Primeiro os da própria fazenda, o coronel, naturalmente, dona Amélia, que participaria apenas do começo da refeição, antes de se retirar com as outras senhoras para a sala de estar. Os três feitores, vestidos com suas melhores roupas, que comeriam em uma mesa lateral, mas na mesma sala, os capatazes, que esperariam do lado de fora até que os senhores terminassem para então comer as sobras.
Depois começaram a chegar os visitantes, carruagens trazendo fazendeiros da região. O major Rodrigo desceu de sua carruagem com dificuldade. Estava visivelmente mais magro, mais pálido. O capitão Fernando tinha as mãos tremendo quando cumprimentou o anfitrião. O Dr. Henrique trazia sua maleta médica, sempre preparado, caso algum dos senhores precisasse de atendimento. Outros fazendeiros também vieram.
Mas Joana não tinha interesse neles. Seu foco estava apenas nos 11. Às 7 horas da noite, o jantar começou. Joana e Benedita serviam, ajudadas por duas outras escravas. Levavam as travessas de carne, as tigelas de acompanhamentos, as molheiras cuidadosamente separadas.
Joana tinha controle absoluto sobre quem recebia qual molho. Servia pessoalmente os homens que precisava servir. Molho de pimenta, Senr. Joaquim? Sei que o senhor gosta. Ah, sim. Coloque bastante. Ela colocou bastante veneno disfarçado de tempero. Major o molho agri doce para o senhor. Perfeito, minha querida. Você faz o melhor molho da região.
Se ele soubesse que estava elogiando seu próprio assassinato. A refeição progrediu. Os homens comiam copiosamente, bebiam mais ainda. O vinho especial com especiarias foi um sucesso enorme. Todos pediram mais. Joana servia sorrindo gentilmente, reabastecendo taças, garantindo que cada homem consumisse dose suficiente.
As conversas eram altas. animadas. Falavam de negócios, de política, das novas leis sobre tráfico de escravos que estavam dificultando a reposição de mão de obra. “Precisamos aumentar a reprodução dos que já temos”, dizia um fazendeiro. “Incentivar as negras a terem mais filhos é mais barato que importar”. Joana ouvia enquanto servia.
Ouvia e sentia a raiva familiar, o ódio familiar. Falavam de seres humanos como gado de reprodução e se achavam civilizados, se achavam superiores. “Você paga hoje”, pensou ela, servindo mais vinho envenenado. “Todos vocês pagam hoje.” Após a carne vieram os doces. As cocadas foram servidas em uma bandeja de prata. Joana havia marcado cuidadosamente com castanhas as 11 porções especiais.
circulou pela sala, oferecendo cocada para o senhor coronel. Sim, coloque aqui uma cocada marcada para o coronel Antônio. Cheque. Senhor Joaquim, parece deliciosa. Cheque. Senhor Sebastião, o feitor que levava a Benny, que causara a interferência de Quam, pegou a cocada sem olhar para ela. Cheque.
Um por um, Joana serviu os 11 homens suas porções de morte doce. E um por um eles comeram, elogiaram, pediram mais, ela serviu mais. Às 9 horas da noite, o jantar formal terminou. Dona Amélia e as outras senhoras já haviam se retirado há muito. Os homens se moveram para a varanda para fumar charutos e beber conhaque, discutindo os termos da cooperativa.
Os capatazes foram chamados para limpar a mesa e foram autorizados a comer as sobras na cozinha. Joana serviu os sucos envenenados. Eles beberam agradecidos. Às 10 horas, o Dr. Henrique foi o primeiro a sentir algo errado. Estava no meio de uma frase sobre exportações, quando de repente parou, sua mão foi ao peito. “Que estranho”, ele murmurou. Meu coração está acelerado.
Deve ser empolgação com os negócios, riu o major Rodrigo. Mas então ele próprio ficou pálido. Na verdade, eu também não estou me sentindo muito bem. O estômago Ele não terminou a frase, levantou-se abruptamente e saiu correndo para vomitar na lateral da varanda. No espaço de 5 minutos, todos os homens na varanda começaram a demonstrar sintomas.
O capitão Fernando tinha as mãos tremendo tão violentamente que derrubou a taça de conhaque. O líquido se espalhou pela mesa. Não consigo controlar minhas mãos. O coronel Antônio estava suando profusamente. Está muito quente aqui. Por que está tão quente? Ele puxou o colarinho da camisa, respirando com dificuldade.
Joaquim Mendes caiu de joelhos, a mão apertando o peito com força. Meu coração, algo está errado com meu coração. Seu rosto estava cinza, os lábios azul dentro da casa, os outros feitores e capatazes estavam em situação pior. Antônio Barbosa estava no chão, convulsionando. Puma saía de sua boca, seus olhos reviravam. Benedito vomitava violentamente, sangue misturado aos vômitos.
Tomás estava tendo alucinações, gritando sobre cobras que só ele via. Miguel estava imóvel, em choque, seu pulso fraco demais para sentir. Sebastião Rocha tentou ficar de pé, cambaleou e caiu. “Envenenados”, ele conseguiu dizer. “Fomos envenenados. Mas por quem? Como quando o caos tomou conta da fazenda Boa Vista? Dona Amélia correu para a varanda ao ouvir os gritos.
Viu seu marido no chão vomitando. Viu homens convulsionando, tremendo, morrendo diante de seus olhos. O que está acontecendo? Alguém chame o médico, o Dr. Henrique. Mas o Dr. Henrique estava ocupado demais, morrendo ele próprio. Estava deitado de lado, o corpo em espasmos, incapaz de respirar direito.
Sua boca abria e fechava como um peixe fora d’água. Seus olhos, arregalados de terror, procuravam entender o que estava acontecendo ao próprio corpo. Tudo estava acontecendo rápido demais. 16 meses de envenenamento lento haviam preparado o terreno perfeitamente. Os corpos dos homens estavam saturados de toxinas, seus órgãos já danificados, suas defesas já destruídas. A dose final não foi o início da morte, foi a conclusão dela.
Foi o empurrão final que enviou corpos já pendurados à beira do abismo para a queda final. Joana observa de dentro da cozinha. Seu rosto não mostrava emoção, nem alegria, nem tristeza, nem horror, apenas observação clínica, como um jardineiro que verifica o resultado de meses de cultivo cuidadoso. Benedita estava ao lado dela, os olhos arregalados de choque.
O que está acontecendo, Joana? Todos estão morrendo. O que fizemos? O que servimos? Joana não respondeu imediatamente, apenas observou. Observou o major Rodrigo convulsionar uma última vez e parar. Seu corpo volumoso ficou imóvel no chão da varanda. morto. Observou o capitão Fernando tentar rastejar para dentro da casa, procurando ajuda que não viria. Ele parou no meio do caminho, o coração finalmente falhando completamente, morto.
Observou o capataz Tomás correr em círculos, ainda alucinando, até que seu coração explodiu no peito, e ele caiu como uma árvore cortada, morto. Era uma sinfonia de mortes. Cada homem morrendo de forma ligeiramente diferente, dependendo de qual veneno predominava em seu sistema, de quão resistente seu corpo era, de quanto havia consumido.
Mas todos morrendo, todos pagando. O coronel Antônio tentou gritar ordens: “Busquem, busquem ajuda, mandem chamar”. Mas suas palavras foram cortadas por um vômito violento. Sangue. Estava vomitando sangue. Seus rins estavam falhando. Seu fígado estava falhando. Seu coração estava falhando. Tudo de uma vez. 16 meses de oleandrina acumulada finalmente cumprindo seu propósito mortal.
Joaquim Mendes, o velho feitor português que adorava inventar punições cruéis, estava tendo um ataque cardíaco massivo. Seu rosto estava roxo, as veias do pescoço saltadas, os olhos vermelhos. Caiu para trás e ficou olhando para o céu noturno, incapaz de se mover, apenas sentindo seu coração bater erraticamente. Depois, mais devagar, depois parar.

Suas últimas visões foram das estrelas acima. as mesmas estrelas que ele vira tantas vezes enquanto escravos gemiam de dor sob seu chicote morto. Antônio Barbosa, o feitor mais jovem, morreu afogado em seu próprio vômito. Estava convulsionando tão violentamente que não conseguiu virar de lado. O líquido encheu sua garganta, seus pulmões.
Ele morreu se debatendo, olhos aterrorizados, ainda sem entender o que estava acontecendo. tinha 28 anos, morto. Os capatazes morreram em sequência rápida. Benedito, o diabético, entrou em choque e simplesmente apagou seu coração, parando silenciosamente. Miguel vomitou até não ter mais nada para vomitar.
Depois continuou vomitando sangue até morrer de hemorragia interna. João, o de apetite voraz, teve um ataque epiléptico induzido por neurotoxinas e bateu a cabeça com força no chão de pedra da cozinha. Morreu com o crânio fraturado. Mortos! Todos mortos! Sebastião Rocha foi o penúltimo a morrer. Joana havia planejado assim. queria que ele visse, queria que entendesse. Ele estava deitado no chão da varanda, paralisado, mas consciente.
Seu corpo não respondia mais, mas sua mente estava dolorosamente lúcida. Observava os outros homens morrerem ao seu redor, observava o caos, observava a dona Amélia gritar histericamente. E então viu Joana. Ela havia saído da cozinha, caminhava lentamente pela varanda, passando entre os corpos, os moribundos, os mortos.
Caminhava até ficar de pé ao lado de Sebastião, olhando para baixo. Seus olhos se encontraram e naquele momento, Sebastião entendeu: “Você”, ele conseguiu sussurrar apenas isso. “Você?” Joana ajoelhou-se ao lado dele. Quando falou, foi em voz baixa, apenas para ele ouvir. E falou em Yorubá primeiro. Depois traduziu para que ele entendesse.
Iculonbo, a morte está vindo pelo meu filho Quame, que você ajudou a matar, pelas 150 chibatadas, por minha filha, Abeni, que você tentou violar, por todos os outros que você torturou. Você come agora o fruto das árvores que plantei. 16 meses plantando sua morte e agora você colhe. Lágrimas escorriam dos olhos de Sebastião, de dor, de terror, de compreensão tardia.
Tentou falar, talvez pedir perdão, talvez praguejar, mas seu corpo não obedecia mais. Joana ficou e observou enquanto ele morria. Observou seus olhos ficarem vítrios. Observou a última respiração sair. Observou a vida deixar o corpo do homem que destruiu sua família. Morto, restava apenas um. O coronel Antônio ainda estava vivo, mal, agonizando, mas vivo.
Estava apoiado contra a parede da varanda, sangue escorrendo da boca, o corpo tremendo incontrolavelmente. Seus olhos procuraram Joana. Ela se aproximou, ficou de pé diante dele. “Foi você?”, ele conseguiu dizer. “Não era uma pergunta, era constatação.” “Como?” “A árvores?” Joana disse simplesmente: “Você me deu permissão para plantá-las. Disse que queria a fazenda mais bonita da região.
Eu fiz isso. Plantei o jardim mais mortal que você poderia imaginar. Plantei durante 16 meses, cultivei pacientemente, colhi no momento certo e servi. Servi aos homens que mataram meu filho. Servi a morte em pratos de prata. O coronel quis responder, mas um espasmo de dor cortou suas palavras.
Sangue fresco encheu sua boca. Você não se lembra dele, não é? Joana continuou. Sua voz ainda calma, ainda controlada. Não se lembra do garoto de 17 anos? que mandou chicotear até a morte. Eram apenas 150 chibatadas em mais um escravo, algo comum, algo normal para você. Mas ele era meu filho, meu quame.
E cada gota de veneno que você consumiu, cada momento de dor que está sentindo agora, é por ele. Por cada lágrima que derramei, por cada noite que passei acordada, lembrando dos gritos dele. Você vai morrer, coronel. vai morrer sabendo que foi vencido por uma escrava, que todo seu poder, todo seu dinheiro, todas suas terras não valeram nada, que uma mulher que você considerava propriedade destruiu você completamente.
O coronel Antônio tentou se erguer, talvez para atacá-la, talvez apenas para morrer de pé, mas seu corpo não obedeceu. caiu de lado, ainda olhando para Joana com ódio e incompreensão, misturados. “Como você ousa?”, ele tentou dizer. “Como eu ouso”, Joana repetiu. E pela primeira vez essa noite, emoção cruzou seu rosto. Raiva, raiva profunda, antiga, justa. “Como você ousa fazer o que fez? Por 22 anos vivi como sua propriedade, trabalhei sua terra, construí sua riqueza. Suportei seus abusos.
Vi pessoas que amo morrerem nas suas mãos. E você me pergunta como eu ouso? Eu ouso porque sou humana, porque meu filho era humano. Porque todos nós na cenzala somos humanos. Não animais, não propriedades e humanos se vingam quando não há justiça. Você criou este inferno, agora arde nele.
O coronel tentou falar mais uma vez, mas apenas sangue saiu. Seus olhos viraram. Seu corpo estremeceu uma última vez e parou morto. 11 homens, 11 corpos espalhados pela varanda e pelos cômodos da casa grande, alguns ainda quentes, outros já esfriando. O cheiro de vômito, sangue e morte impregnava o ar. Dona Amélia estava em choque, sentada no chão, balançando para a frente e para trás, murmurando incoerências.
As outras escravas da cozinha se escondiam aterrorizadas. Benedita olhava para Joana com uma mistura de horror e algo que poderia ser admiração. E Joana? Joana ficou de pé no meio do massacre que criara. 16 meses de trabalho culminando em uma noite de mortes simultâneas. Vingança completa, justiça por suas próprias mãos, já que nenhuma lei a protegeria, nenhum tribunal a ouviria.
Se esta história está mexendo com você, compartilhe. Histórias como esta não podem ser esquecidas. Este é um pedaço de história real sobre resistência, sobre o que acontece quando os seres humanos são tratados como coisas, quando a justiça falha, quando a única opção é a vingança. Mas a história de Joana não termina aqui. Ela sabia que terminaria com a vingança.
Sabia que não haveria fuga, não haveria liberdade após isto. O preço da justiça seria a sua própria vida. e ela estava pronta para apagar. A manhã seguinte trouxe o horror completo à luz do dia. Corpos espalhados pela casa grande, 11 mortos. A notícia se espalhou pela fazenda como fogo em pasto seco.
Os escravizados saíam cautelosamente da cenzala, observando, sussurrando, tentando entender o que havia acontecido. Dona Amélia mandou buscar ajuda imediatamente. Enviou mensageiros às fazendas vizinhas, a vila mais próxima. Em questão de horas, autoridades chegaram. O delegado da região, dois soldados, um juiz de paz. Trouxeram também um médico de outra localidade, já que o Dr.
Henrique estava entre os mortos. O médico examinou os corpos. Todos apresentavam sintomas similares, problemas cardíacos severos, hemorragias internas, falência de múltiplos órgãos, envenenamento, ele concluiu rapidamente. Mas não consigo identificar a substância. É algo potente, algo que eles vinham consumindo há tempo.
Os danos internos são extensivos demais para serem de dose única. Quem fez isso? O delegado olhava ao redor, procurando culpados óbvios. Seus olhos caíram naturalmente sobre os escravizados reunidos. Qual de vocês envenenou os senhores? Ninguém respondeu. Medo paralisava a todos. Sabiam que seriam culpados de qualquer forma. Escravos sempre eram culpados.
Foi dona Amélia quem apontou. Sua mão trêmula se ergueu, o dedo indicador direcionado diretamente para Joana. Ela foi ela quem preparou toda a comida, ela quem serviu, ela quem trabalhava com as plantas do jardim. Foi ela. Todos os olhos se viraram para Joana.
Ela estava de pé no meio dos outros escravizados, sem tentar fugir, sem tentar se esconder. Olhava diretamente para o delegado. Não havia medo em seu olhar. Havia apenas uma calma profunda, uma resignação pacífica de quem já completou seu propósito. “É verdade?”, o delegado perguntou. “Você fez isso?” Joana não respondeu em português imediatamente. Primeiro respondeu em Yorubá para que sua avó, sua mãe, todos os ancestrais ouvissem através dos véus entre os mundos. Moé, M pauon, Mogbesfun, Omomi.
Eu fiz, eu os matei, eu vinguei meu filho. Depois em português, para que todos os presentes entendessem. Sim, fui eu. Plantei as árvores envenenadas. Preparei os extratos, coloquei veneno na comida deles durante 16 meses. Cada gota foi intencional, cada dose foi calculada. Matei 11 homens e se pudesse, faria de novo. Silêncio absoluto seguiu suas palavras.
Dona Amélia gritou histérica, prendam essa assassina. Torturem-la. Matem-la. O delegado fez sinal para os soldados que agarraram Joana pelos braços. Ela não resistiu, deixou-se ser agarrada, acorrentada, mas manteve a cabeça erguida. Por quê? O juiz de paz perguntou horrorizado e fascinado ao mesmo tempo. Por que você fez isso? Era tão bem tratada aqui, trabalhava na casa grande, tinha privilégios.
A risada de Joana foi amarga, seca, sem humor. Privilégios de trabalhar 16 horas por dia como escrava. de ver meu filho açoitado até a morte com 150 xibatadas, porque ousou proteger a irmã de violação, de ser considerada propriedade, coisa menos que animal, esses privilégios? Ela deu um passo à frente, as correntes tiltando.
Os soldados tentaram puxá-la para trás, mas ela continuou falando, sua voz crescendo em intensidade. Vocês querem saber porquê? Porque em abril do ano passado, o feitor Sebastião Rocha arrastou minha filha de 15 anos pelos cabelos para sua cabana para violentá-la. Meu filho Quam, 17 anos, interveio, impediu o feitor, salvou sua irmã e, por isso, foi amarrado ao tronco e chicoteado 150 vezes.
O couro arrancou sua pele, seus músculos, expôs seus ossos. Ele morreu naquele tronco. Morreu defendendo a honra da irmã. Morreu sendo humano em um lugar que o tratava como coisa. Ela olhou para cada pessoa presente, para o delegado, para o juiz, para os soldados, para a dona Amélia.
Cada homem que matei tinha as mãos sujas do sangue dele. O coronel que deu a ordem, os feitores que executaram, os capatazes que assistiram e apoiaram, os visitantes que vinham a esta fazenda. e se beneficiavam do sistema que permite essas atrocidades. Todos culpados. Todos mereceram o que receberam. “Você é uma assassina”, disse o juiz. “Uma escrava que matou homens livres”. Sabe qual é a punição para isso? Morte.
Joana respondeu calmamente. Sei e aceito, porque valeu a pena. Meu filho foi vingado, e cada um desses homens morreu, sabendo que foi vencido por uma mulher que eles consideravam propriedade. Morri cumprindo meu juramento. Morreram pagando suas dívidas de sangue.
A multidão de escravizados que observava tudo isso mantinha silêncio absoluto, mas nos olhos de muitos algo brilhava. Não era apenas medo, era algo mais. admiração, esperança, a compreensão de que resistência era possível, de que os opressores não eram invencíveis. A Bene, a filha de Joana, tentou correr até a mãe, mas foi contida por outras mulheres. Mãe, não, mãe.
Seu grito rasgava o ar. Joana olhou para a filha, para Aodelli ao seu lado, e, pela primeira vez naquela manhã, seu rosto se suavizou. Minhas filhas, ela disse em Yorubá, sejam fortes. Lembrem-se de quem são. Lembrem-se de onde viemos. Lembrem-se que seu irmão era humano e morreu como humano.
E lembrem-se que sua mãe não era a propriedade, era Joana, filha de Amara, neta de Adune, da linhagem das curandeiras e orubás. E ninguém nunca nos tirou isso. Levaram-la embora, acorrentada, mas de cabeça erguida. Levaram para a cadeia da vila mais próxima, onde ficaria presa, esperando o julgamento que era mera formalidade. O julgamento aconteceu três dias depois.
Não havia júri. O juiz era o mesmo que visitara a fazenda. Joana foi trazida acorrentada à pequena sala que servia de tribunal. Joana, escrava pertencente à fazenda do falecido coronel Antônio Ferreira da Costa. Você está acusada de assassinato múltiplo através de envenenamento deliberado e premeditado.
Como você se declara? Culpada. Ela respondeu sem hesitar. De tudo. Planejei durante 16 meses. Executei com precisão. Matei 11 homens. Não nego nada. Não houve necessidade de testemunhas. Sua própria confissão era suficiente, mas o juiz quis detalhes. Explique como fez para os registros. E Joana explicou, detalhou tudo.
As plantas que usou, como as cultivou, como extraiu os venenos, como administrou doses gradualmente durante meses, como planejou o banquete final. Cada etapa, cada decisão, cada dose calculada. O escrivão anotava tudo com mãos tremendo. Era um relato de inteligência, paciência e determinação que desafiava todas as noções daqueles homens sobre o que escravos eram capazes. Quando Joana terminou, o juiz a olhou por um longo momento.
“Você demonstrou inteligência notável”, ele disse finalmente. Pena que a usou para o mal. Usei para justiça, Joana corrigiu. Justiça que nenhuma lei me daria. Justiça que nenhum tribunal concederia. Porque para este sistema eu não sou gente. Meu filho não era gente. Éramos coisas. E coisas não têm direito à justiça. Então peguei a justiça com minhas próprias mãos.
O juiz bateu o martelo, considerando a gravidade dos crimes, considerando a premeditação demonstrada e considerando que escravos que matam homens livres não podem ser tolerados sob nenhuma circunstância, eu a sentencio a morte. será enforcada na praça pública em dois dias como exemplo. Joana não reagiu, apenas assentiu.
Havia esperado exatamente isso. Os dois dias na cela antes da execução foram de preparação espiritual. Joana jejuou, orando aos orixás em voz baixa. Cantava canções antigas em iorubá que sua avó lhe ensinara. Preparava sua alma para a jornada. No segundo dia, trouxeram-lhe visitantes. Suas filhas, a Ben e a Iodelli, foram permitidas a vê-la por breves minutos.
As três se abraçaram, chorando. “Mãe, não queremos que você morra”, a Benny soluçava. Eu já morri, minha filha”, Joana disse gentilmente. Morri quando vi seu irmão morrer. Esta execução é apenas formalidade, mas morro em paz, porque sei que os homens que o mataram pagaram e vocês duas viverão. Sejam fortes, sobrevivam.
E quando este sistema abominável finalmente cair, e ele cairá, eu prometo, mesmo que leve gerações, vocês ou seus descendentes estarão livres e contarão essa história. A história de Kuam, que morreu com dignidade, e de Joana, que vingou seu filho, e não teve medo de enfrentar as consequências.
Elas foram levadas embora ainda chorando. Mas nos olhos de Abene, Joana viu determinação nascendo. A menina era forte, sobreviveria e carregaria a história. O dia da execução chegou. Era uma manhã de agosto, exatamente um ano e 4 meses após a morte de Quam. A praça central da vila estava cheia. Escravizados foram obrigados a comparecer. Era para ser exemplo.
Senhores de fazenda vieram para testemunhar, para garantir que a ordem seria mantida, que rebeldia teria consequências. A forca já estava preparada. Uma plataforma de madeira, o poste, a corda balançando levemente na brisa. Levaram Joana até lá. Ela caminhava lentamente, mas com firmeza.
Não permitiu que a ajudassem a subir os degraus. Subiu sozinha, com a dignidade de uma rainha. O carrasco perguntou se ela tinha últimas palavras. Joana olhou para a multidão, para os escravizados tremendo de medo, para os senhores satisfeitos com a justiça sendo feita, para suas filhas na primeira fila, forçadas a assistir, e falou não em português, em yorubá, alto e claro.
omomantame aik bagbe. Todos que estão aqui me ouçam. Eu não temo a morte. Eu vinguei meu filho. Lembrem-se de mim. Lembrem-se de Quame. Não os deixaremos esquecer. E então em português, para que todos entendessem, este sistema de escravidão é abominação. Vocês que o mantém terão que responder um dia, senão aos homens, aos deuses.
E vocês, ela olhou diretamente para os escravizados. Lembrem-se que são humanos, sempre foram, sempre serão. E humanos podem resistir, podem lutar, podem vencer. O carrasco colocou a corda em volta de seu pescoço. Joana fechou os olhos, sussurrou uma última oração a Ogum, a Xangô, a Oia, sussurrou um último pensamento para Quame. Já vou, meu filho, espera por mim. A plataforma se abriu. Joana caiu.
O pescoço quebrou limpo. Morte instantânea. Seu corpo balançou na corda por longos minutos, enquanto a multidão observava em silêncio. Permitiram que suas filhas levassem o corpo. Foi enterrada no cemitério de escravos da fazenda Boa Vista, ao lado de Quame. Uma cruz tosca de madeira marcava o local. Mas os escravizados que ainda viviam lá plantaram uma árvore sobre o túmulo.
Não uma árvore venenosa, mas uma árvore frutífera, uma mangueira que daria frutos doces e abundantes, uma árvore de vida, não de morte. Os dias após a execução, trouxeram mudanças significativas para a fazenda Boa Vista. Com o coronel morto, todos os feitores mortos, os capatazes mortos e o sistema de administração completamente destruído, a fazenda entrou em crise.
Dona Amélia, incapaz de administrar a propriedade sozinha e traumatizada demais para permanecer, vendeu tudo. A fazenda foi comprada por um especulador do Rio de Janeiro, que rapidamente revendeu os escravizados para outras propriedades, maximizando o lucro. As famílias foram separadas. A Beni foi vendida para uma fazenda em São Paulo, a Iodelli para outra no interior do rio.
Nunca mais se viram. Mas a história de Joana não morreu com ela. Espalhou-se pelos cafezais do Vale do Paraíba, pelas cenzalas da região, pelos quilombos escondidos nas montanhas. A história da escrava que plantou árvores de morte e matou 11 senhores e feitores em uma noite se tornou lenda.
Alguns detalhes foram exagerados com o tempo, outros foram perdidos, mas a essência permaneceu. Uma mulher que se recusou a aceitar a morte do filho sem vingança. Uma mulher que usou inteligência, paciência e conhecimento ancestral para derrotar seus opressores. Os senhores de fazenda da região ficaram aterrorizados, começaram a desconfiar de tudo, da comida preparada por escravos, das plantas em seus jardins, dos remédios que tomavam.
Alguns mandaram arrancar todas as árvores ornamentais de suas propriedades. Outros proibiram que escravos trabalhassem em cozinhas. O medo se instalou e esse medo era em si uma vitória póstuma de Joana. Para os escravizados, a história teve outro significado. Provou que resistência era possível. Provou que os senhores não eram invencíveis, não eram deuses, eram homens.
Homens que comiam, bebiam e podiam morrer. A história de Joana inspirou outras formas de resistência, algumas violentas, outras sutis, pequenos atos de sabotagem, trabalho deliberadamente mal feito, ferramentas acidentalmente quebradas, e, sim alguns casos documentados de envenenamento em outras fazendas nos anos seguintes, sempre executados de forma que parecia doença natural. A fazenda em si nunca se recuperou completamente.
O novo proprietário instalou novos feitores, mas a produtividade nunca voltou aos níveis anteriores. Os escravizados que permaneceram antes de serem vendidos trabalhavam devagar, com resistência passiva. E havia rumores de que a fazenda era amaldiçoada, de que os fantasmas dos 11 mortos assombravam os jardins à noite.
Em 188, 32 anos após os eventos, quando a abolição finalmente chegou ao Brasil, uma mulher velha procurou a antiga fazenda Boa Vista. Era Aodelli Ana. Agora com 43 anos, finalmente livre. Ela caminhou pela propriedade abandonada, pelos jardins crescidos demais, até encontrar o cemitério de escravos. encontrou a mangueira plantada sobre os túmulos de sua mãe e irmão.
A árvore havia crescido enorme, frondosa, seus galhos se estendendo como braços abertos. Estava carregada de mangas maduras, douradas, perfumadas. Aelli colheu uma manga, comeu, era doce, suculenta, perfeita e chorou. Chorou por tudo que foi perdido, chorou por tudo que foi ganho.
Chorou pela mãe que se sacrificou, pelo irmão que morreu defendendo a irmã, por todas as pessoas que viveram e morreram naquela terra manchada de sangue e lágrimas. Mas também sorriu porque estava livre, finalmente, realmente livre e podia honrar a memória deles, vivendo plenamente essa liberdade. Ela pegou sementes da manga, plantou-as em sua pequena propriedade, terra comprada com trabalho livre. E quando as árvores cresceram, contou a seus filhos e netos a história.
A história de Joana, a bruxa do vale, como alguns a chamavam, a história de Quam, o jovem herói. A história de resistência, coragem e o preço terrível da justiça em um sistema sem justiça. Hoje, mais de 160 anos depois, a história de Joana sobrevive em fragmentos. Não há documentos oficiais extensos. Escravos não tinham suas histórias registradas com cuidado.
O julgamento foi sumário, os registros mínimos. A fazenda não existe mais. Foi dividida e revendida múltiplas vezes ao longo das décadas. Mas em comunidades quilombolas da região, em famílias de descendentes, a história oral sobrevive. Os nomes podem ter mudado, os detalhes podem ter sido alterados, mas a essência permanece. Uma mulher que não aceitou passivamente a morte de seu filho.
Uma mulher que transformou jardins em arsenais. Uma mulher que provou que conhecimento é poder e que os oprimidos podem sim vencer seus opressores quando usam inteligência, paciência e determinação. A história de Joana nos ensina várias lições difíceis, mas necessárias.
Primeiro, sobre a brutalidade inerente da escravidão, um sistema que não apenas explorava trabalho, mas destruía famílias, negava a humanidade e criava condições onde a única justiça possível vinha através de vingança pessoal, porque nenhum sistema legal protegia os escravizados. Segundo, sobre a inteligência e capacidade dos africanos e seus descendentes escravizados, pessoas que os senhores consideravam inferiores, incapazes de pensamento complexo, mas que dominavam conhecimentos ancestrais sofisticados sobre química botânica, que planejavam operações complexas por meses, que demonstravam paciência estratégica que
rivalizava qualquer general. Terceiro, sobre o preço da resistência. Joana sabia desde o primeiro dia de planejamento que não haveria fuga. Sabia que vingança significaria sua própria morte e escolheu pagar esse preço porque algumas coisas são mais importantes que sobrevivência individual, dignidade, justiça, a memória dos entes queridos, o exemplo para os que ficam.
E finalmente sobre memória e história. A história oficial do Brasil raramente conta essas narrativas. Prefere silenciar, apagar, minimizar. Mas as histórias sobrevivem nas famílias, nas comunidades, na tradição oral e precisam ser contadas não para glorificar violência, mas para entender completamente o horror da escravidão e a coragem daqueles que resistiram de todas as formas possíveis.
Joana não era monstro, era mãe, era mulher, era humana em um sistema que tentava desumanizá-la. E quando esse sistema matou seu filho, ela respondeu da única forma que sentia possível. 16 meses de planejamento paciente, 11 mortes calculadas, uma mensagem clara: escravos não eram coisas, eram pessoas. E pessoas se vingam. Esta história de Joana nos ensina que dignidade não pode ser roubada, apenas temporariamente suprimida.
nos ensina que conhecimento ancestral preservado através de gerações pode se tornar arma quando necessário. Nos ensina que subestimar os oprimidos é erro fatal e nos ensina que algumas histórias precisam ser lembradas, não importa quão desconfortáveis sejam, porque esquecimento é traição contra aqueles que sofreram e lutaram.
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A mangueira plantada sobre o túmulo de Joana e Quam ainda produz frutos até hoje, dizem: “Doce onde era esperado amargo, vida onde deveria haver apenas morte, um legado diferente, um lembrete de que mesmo nas histórias mais sombrias, mesmo nos atos mais desesperados de vingança, havia humanidade, havia amor, havia mãe protegendo o filho mesmo após a morte, havia esperança de que um dia gerações futuras seriam livres e elas são.
Somos e devemos lembrar de Joana, de Quam, de Abene, de Aodeli e de todos os milhões cujos nomes se perderam, mas cujo sofrimento e resistência construíram as fundações da liberdade que hoje conhecemos. Esta é a história da bruxa do vale. A escrava que plantou árvores que mataram 11 homens em silêncio.
A mãe que vingou seu filho. A mulher que provou que até no mais opressivo dos sistemas resistência é possível e sua história não será esquecida. M.