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  • XANDÃO PEGA GUSTAVO GAYER COM A MÃO NA MASSA. FILME DE BOLSONARO VIRA PIADA NAS REDES

    XANDÃO PEGA GUSTAVO GAYER COM A MÃO NA MASSA. FILME DE BOLSONARO VIRA PIADA NAS REDES

    Em um cenário onde a estabilidade parece ser apenas uma miragem distante, as últimas semanas em Brasília se converteram em um espetáculo de crises sucessivas, intervenções jurídicas dramáticas e escândalos que misturam o submundo da política com o mundo da arte e do cinema. O Brasil acompanha, atônito, uma série de acontecimentos que colocam em xeque a moralidade, a legalidade e até a sanidade da representação popular no Congresso Nacional.

    De um lado, a mão firme do Judiciário, representada pelo ministro Alexandre de Moraes, o “Xandão”, impõe limites com decisões monocráticas que redefinem o destino de mandatos parlamentares. De outro, a bancada bolsonarista, atordoada e encurralada, lida com indiciamentos por corrupção, um filme que vira escárnio público e a sombra de um veto presidencial sobre um controverso “acordão” que visa suavizar a punição de golpistas. É um enredo complexo, digno de uma produção de suspense, mas que, infelizmente, é a mais pura realidade brasileira.

    O Xeque-Mate de Moraes: Carla Zambelli Perde o Mandato por Decisão Monocrática

    O ponto central da explosão institucional desta semana reside no caso da deputada federal Carla Zambelli. Após um voto na Câmara que, em uma manobra controversa, decidiu pela manutenção de seu mandato, o cenário de comemoração da direita durou poucas horas. A decisão da Câmara ignorou uma premissa fundamental do direito brasileiro: a perda automática do mandato parlamentar quando há uma condenação em ação penal criminal com trânsito em julgado.

    A legislação é clara: se um deputado perde seus direitos políticos, ele não pode mais exercer a função para a qual foi eleito. No entanto, em um movimento que beirou a insubordinação, a Mesa Diretora da Câmara tentou politizar o que deveria ser um ato administrativo. O Supremo Tribunal Federal, contudo, não hesitou.

    Alexandre de Moraes anulou a votação da Câmara e determinou a perda imediata do mandato de Zambelli, dando um prazo de 48 horas para a posse de sua suplente. A mensagem de Moraes é inequívoca: a Constituição e as leis se impõem sobre a vontade política do Congresso, especialmente em casos de condenação definitiva.

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    Mais do que apenas a cassação de Zambelli, essa decisão tem um efeito cascata que pode derrubar mais dois parlamentares. Com a anulação dos quase um milhão de votos que a deputada obteve, o quociente eleitoral do PL será recalculado. Essa recontagem ameaça os mandatos dos deputados Paulo Bilinski e Tiririca, que foram eleitos na esteira da votação expressiva de Zambelli. A turma do “dominó” bolsonarista pode estar prestes a presenciar uma queda em série no Congresso.

    A Casa em Desordem: A Batalha Interna na Presidência da Câmara

    Enquanto o Judiciário impõe a ordem, a Câmara vive um momento de descontrole interno. O presidente da Casa, Arthur Lira, manifestou publicamente sua insatisfação com a gestão de seu afilhado político e atual presidente em exercício, Hugo Mota. Lira, notoriamente irritado com a falta de pulso e as decisões desastradas de Mota, classificou a situação da Câmara como uma “esculhambação”, um caos total.

    A insatisfação de Lira é alimentada, em parte, pelo fracasso em cassar o mandato do deputado Glauber Braga (PSOL), um de seus mais ferrenhos críticos, que o acusa constantemente de envolvimento em falcatruas do orçamento secreto. Mota, por sua vez, tentou se defender publicamente, alegando que a presidência da Câmara não é “ferramenta de revanchismo”.

    No entanto, foi justamente Hugo Mota quem optou por descumprir a ordem judicial e colocar a cassação de Zambelli em votação, desafiando o STF e resultando em sua completa desmoralização após a intervenção de Moraes. Mota, que não possui a estatura ética, moral ou política para o cargo, segundo críticas internas, demonstra o nível de imaturidade e ineficácia que atualmente domina a cúpula do Legislativo.

    O caso de Glauber Braga, por outro lado, resultou em um “acordão” para uma suspensão de seis meses, em vez da cassação. A punição, embora ainda excessiva para muitos, foi vista como o “mal menor” e evitou uma inelegibilidade de oito anos. A vaga de Braga será ocupada temporariamente pela experiente política Heloísa Helena, que traz consigo uma história de coerência e combatividade.

    A Mão na Massa: O Indiciamento de Gustavo Gayer e a Suspeita de Desvio

    Se as crises jurídicas e políticas não bastassem, o bolsonarismo enfrenta um duro golpe com o indiciamento do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) pela Polícia Federal. As acusações são graves: desvio de verbas da cota parlamentar.

    O inquérito da PF aponta que Gayer teria utilizado a cota – dinheiro destinado à manutenção de seu gabinete, como aluguel e despesas operacionais – para fins escusos. Um dos pontos centrais é o aluguel de um imóvel que ele declarou como seu escritório político em Goiânia. Acontece que, no local, funcionava uma escola de inglês de sua propriedade. Ou seja, o dinheiro público, bancado pelo pagador de impostos, estaria sendo desviado para pagar o aluguel de uma de suas empresas privadas.

    Além disso, Gayer é investigado por direcionar verbas para uma Organização Social (OSCIP), uma ONG que ele teria comprado ou manipulado, e por suposta falsificação de documentos para que essa entidade pudesse receber os repasses.

    O caso está sob relatoria de Alexandre de Moraes. O indiciamento pela PF significa que há elementos e indícios robustos de culpa. Se a Procuradoria-Geral da República formalizar a denúncia e o STF aceitá-la, Gayer se tornará réu em um processo criminal. Caso seja condenado, a punição é pesada: a perda dos direitos políticos e a inelegibilidade que, somada à pena de cumprimento de prisão, pode ultrapassar 13 anos.

    O Filme Que Virou Farça: A Produção Cinematográfica em Meio ao Escândalo

    O projeto de um filme em inglês sobre Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse (Azarão), mal começou a ser rodado e já se tornou uma fonte inesgotável de polêmicas e piadas nas redes sociais.

    O trailer do filme, que busca retratar o ex-presidente como um herói que superou adversidades e a facada, foi recebido com escárnio pelo público, que o comparou a uma comédia pastelão. A interpretação dos atores, especialmente na cena da facada, foi descrita como patética e risível.

    A farsa se estende para além da tela. O Sindicato dos Trabalhadores da Arte (SATED) foi acionado para investigar denúncias graves no set de filmagens em São Paulo, incluindo reclamações de agressões verbais e físicas, além de fornecimento de comida estragada para figurantes e equipe técnica. Um ambiente de trabalho insalubre e desrespeitoso, supervisionado por produtores com vínculos conhecidos com o bolsonarismo.

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    O escândalo atinge até a esfera internacional: a cantora Beyoncé acionou a justiça após sua música ser utilizada sem autorização no teaser de divulgação. O vídeo foi rapidamente derrubado do YouTube por violar direitos autorais, comprovando que a produção, além de tudo, cometeu uma ilegalidade grosseira.

    Para completar, o Intercept Brasil revelou as “ligações perigosas” da produtora. A empresa que está por trás do filme de Bolsonaro é a mesma que possui um contrato milionário, de R$ 108 milhões, com a prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes, para a instalação de pontos de Wi-Fi. Um contrato que, além de ter sido firmado em condições questionáveis (licitação solitária e preço duas vezes superior ao mercado), liga a produtora, sem experiência em tecnologia, diretamente ao poder municipal paulista. E em um dos trechos mais sombrios da investigação, a produtora também teria repassado R$ 12 milhões a um indivíduo suspeito de crime grave, Alex Bispo, apenas reforçando o submundo nebuloso que financia a obra.

    O “Acordão” e a Sentença Final para o Golpe

    Outro tema de profunda gravidade é a proposta de Projeto de Lei (PL) de Dosimetria, que visa reduzir as penas para os envolvidos no golpe de 8 de janeiro, incluindo Jair Bolsonaro.

    O colunista Luís Costa Pinto denunciou o que seria um “acordão” costurado nas sombras entre membros do Congresso e três ministros do Supremo: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. A negociação teria sido mediada por figuras como Michel Temer e Aécio Neves, junto ao relator Paulinho da Força. A condição imposta pelo STF: o PL poderia reduzir as penas – uma prerrogativa do Legislativo – mas jamais poderia configurar uma anistia total para crimes contra a democracia, o que seria declarado inconstitucional.

    O projeto já passou pela Câmara e agora tramita no Senado. O relator no Senado, Espiridião Amim, um bolsonarista, reconhece o risco de transformar o PL em anistia total, o que derrubaria todo o acordo e forçaria o veto do STF. Assim, por receio de perder o que já foi conquistado, a própria base governista de extrema-direita hesita em avançar na tentativa de anistia plena.

    No entanto, o freio final pode vir da Presidência da República. Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou que, embora vá avaliar o texto final, seu instinto é vetar o projeto. Para Lula, os responsáveis pelo 8 de janeiro devem pagar integralmente pela tentativa de golpe. Caso o veto seja confirmado, o Congresso precisará de maioria absoluta (257 deputados e 41 senadores) para derrubá-lo. O caminho para a impunidade, portanto, ainda é longo e incerto.

    Convocação e Perícia: Os Últimos Movimentos

    Em meio a este cenário, a esquerda retoma as ruas. Uma manifestação maciça está convocada para o próximo domingo, na Avenida Paulista, em São Paulo, com o lema de exigir respeito do Congresso Nacional e reforçar a posição de “Sem Anistia para Golpistas”.

    E a trama pessoal de Jair Bolsonaro se adensa. Após ser preso, o ex-presidente solicitou autorização para realizar duas cirurgias (em uma hérnia inguinal e para tratar um soluço crônico) e, em seguida, cumprir o período de recuperação em prisão domiciliar.

    Alexandre de Moraes, no entanto, não se deixou levar pela súbita urgência médica. Diante da cronologia suspeita – a necessidade cirúrgica só surgiu após a prisão – Moraes determinou que peritos da Polícia Federal avaliem os laudos e exames para atestar a real urgência e necessidade da intervenção. Enquanto a perícia não comprovar a emergência, o pedido de soltura para domiciliar é negado.

    O Brasil se move em um ritmo alucinante, ditado por conflitos de poder, decisões judiciais inadiáveis e a sombra de crimes financeiros. O que se desenrola no palco político é a peça mais dramática e controversa da história recente do país, e o público, mais do que nunca, é parte atuante desta história.

  • “A ESCRAVA MORREU NO TRONCO DE CASTIGO — MAS SEU CORPO…

    “A ESCRAVA MORREU NO TRONCO DE CASTIGO — MAS SEU CORPO…

    Engenho, Araruna, Porto Calvo, Alagoas, 1869. Alagoas era naquele momento, uma das províncias mais brutais do império quando se tratava de escravidão. Não era a mais rica, essa era São Paulo com café. Não era a maior produtora de açúcar. Essa era Pernambuco, mas era uma das mais cruéis.

    Talvez pelo calor sufocante, talvez pela mentalidade dos senhores de engenho alagoanos, homens que tinham aprendido brutalidade com pais, que tinham aprendido com avós, gerações de crueldade destilada e refinada, ou talvez simplesmente porque podiam, porque o império estava longe, porque autoridades faziam vista grossa, porque escravos não tinham para onde correr, cercados por canaviais intermináveis de de um lado e oceano do outro.

    O engenho Araruna ficava perto de Porto Calvo, cidade costeira que tinha sido importante no período colonial, mas que em 1869 estava decadente, vivendo de glórias passadas e açúcar cada vez menos lucrativo. O engenho tinha 100 haares, 500.000 pés de cana, 160 escravos, casa de enfardar com moenda movida por bois. e capela, onde padre vinha uma vez por mês rezar missa rápida antes de fugir de volta para a cidade. O nome Araruna vinha de pássaro.

    A Araraúa, papagaio de plumagem azul profundo que habitava matas da região. Dono anterior tinha achado o nome poético, mas não havia nada de poético naquele lugar. Era inferno verde cercado de Cana. A propriedade pertencia à família Mendonça, família que tinha chegado a Alagoas no século X7, perseguindo sonhos de riqueza fácil com açúcar.

    Tinham encontrado riqueza, mas fácil nunca foi. Foi construída sobre suor, sangue e morte de milhares de africanos escravizados. No comando em 1869 estava Coronel Baltazar Mendonça e sua esposa Sá Perpétua. Perpétua tinha 42 anos. Vinha de família tradicional de Maceió. Tinha se casado com Baltazar aos 19 anos em casamento arranjado, que uniu duas fortunas açucareiras. Não era bonita, nunca tinha sido.

    Rosto angular com queixo proeminente, nariz grande e adunco, olhos pequenos e fundos que pareciam sempre desconfiados, corpo magro e sem curvas. Masculino demais”, diziam as outras senhoras quando achavam que ela não estava ouvindo. Cabelo grisalho que tinha começado a embranquecer aos 30 anos, sempre preso em coque tão apertado que puxava a pele do rosto.

    Vestia-se sempre de cores escuras, marrom, cinza, preto, como se estivesse em luto perpétuo, embora não tivesse perdido ninguém importante. Era apenas escolha estética que combinava com alma sombria. tinha tido quatro gravidezes, todas terminaram em abortos espontâneos. Médicos disseram que útero era inóspito, que não conseguiria levar gravidez a termo.

    Isso a amargurou profundamente, porque mulher sem filhos era mulher que tinha falhado em propósito fundamental aos olhos da sociedade. Baltazar nunca a culpou abertamente, mas também nunca a consolou, apenas aceitou que não teria herdeiros diretos. e começou a preparar sobrinho para herdar engenho. E perpétua, Perpétua canalizou dor e amargura em crueldade.

    Não era como senhoras que explodiam em fúria e batiam em escravos impulsivamente. Essas eram previsíveis, tempestuosas, mas passageiras. perpétua era diferente, era fria, calculista, metódica, planejava punições, como general, planeja campanhas militares, pensava em como causar máxima dor física e psicológica com mínimo desperdício de propriedade.

    “Não adianta matar escravo rápido, dizia, tem que fazer durar, fazer exemplo para que outros vejam e aprendam”. Gostava de humilhações públicas, de forçar escravos a se ajoelharem e pedirem perdão por crimes inventados, de fazer mães escolherem qual filho apanharia, de quebrar espíritos antes de quebrar corpos e tinha ciúme patológico do marido.

    Baltazar Mendonça tinha 48 anos. Era homem corpulento, não gordo, mas grande. Ombros largos de quem tinha trabalhado fisicamente na juventude antes de herdar engenho. Rosto queimado de sol, permanentemente vermelho, bigode grosso e grisalho, mãos grandes e calejadas, bebia muito.

    Cachaça, principalmente, começava no café da manhã com golinho para acordar e continuava até desmaiar à noite. Não era homem atraente, não era homem refinado, mas era homem com poder absoluto sobre 160 vidas. E isso o tornava perigoso. Tinha histórico. Antes de casar, tinha tido filhos com várias escravas, pelo menos seis, que se sabia.

    Vendia todos logo após nascimento para eliminar evidência e evitar problemas. Depois de casar com perpétua, tinha tentado ser discreto, mas era difícil ser discreto em engenho, onde todo mundo via tudo. Havia rumores, sempre havia rumores, de visitas noturnas à cenzala, de escravas jovens que desapareciam grávidas e reapareciam magras meses depois sem beber.

    Perpétua ouvia rumores e enlouquecia. Não podia controlar marido. Homem de 48 anos, dono de engenho, com poder de vida e morte sobre todos ao redor fazia o que queria, mas podia controlar as escravas, podia puni-las, podia destruí-las. Se não podia ter filhos próprios, ao menos podia garantir que nenhuma escrava tivesse filhos com seu marido e vivesse para contar história. Teodora tinha 24 anos em 1869.

    Era escrava doméstica. Trabalhava na Casagre desde os 15 anos, quando foi comprada de engenho vizinho que tinha falido. Cozinhava, limpava, servia refeições, lavava roupas, engomava rendas delicadas com ferro quente. Todas as tarefas de Mucama. Era bonita, impossível negar. Não era beleza chamativa. Teodora fazia tudo o possível para não chamar atenção.

    Usava roupas mais largas que tinha. Prendia cabelo sob lenç baixava olhos. Falava baixo. Mas beleza existia, apesar de esforços para escondê-la. Pele cor de canela clara, olhos amendoados grandes e expressivos, cílios naturalmente longos e curvos, lábios cheios, corpo com curvas que nenhum pano largo conseguia disfarçar completamente.

    Movimentos graciosos, mesmo carregando peso, voz naturalmente melodiosa, mesmo quando sussurrava. E algo mais, dignidade quieta que emanava dela sem esforço. Perpétua odiava tudo isso. Odiava com intensidade que ia além de razão. Porque como escrava ousa ser bonita, como escrava ousa ter graça natural. Como escrava ousa existir de forma que atrai olhares, fica longe do coronel. Era a advertência que Perpétua repetia quase diariamente.

    Agarrava braço de Teodora com força de deixar hematomas. Se eu ver você olhando para ele, arranco seus olhos, entendeu? Sim, sim. Ah, se eu ver você sorrindo quando ele está perto, corto sua boca de orelha a orelha. Entendeu? Sim, sim. H. Você não é nada, é propriedade, é ferramenta. Ferramentas não seduzem homens.

    Então, age como ferramenta que é sem vontade, sem personalidade, sem existir, além do trabalho. Sim. Sim. Teodora obedecia, fazia todo o possível para ser invisível. Quando Baltazar entrava incômodo, Teodoro encontrava desculpa para sair. Vou buscar mais lenha, Sim. Preciso verificar panela no fogo. Esqueci de qualquer mentira para não estar no mesmo espaço que ele.

    Se tinha que servir refeição com Baltazar presente, Teodora se movia como sombra. entrava, colocava prato, saía sem olhar, sem falar, além de sim, senhor, se perguntada diretamente. A noite, quando outros escravos domésticos voltavam para Senzá-la, Teodora ia com eles rapidamente, sem olhar para trás, sem dar chance de ser chamada para trabalho extra, tinha aprendido, tinha visto outras moças bonitas que chamavam atenção do Senhor eram destruídas, ou por ele, ou pela esposa ciumenta, ou por ambos. Melhor ser invisível, melhor ser

    feia, se possível, melhor não existir além do mínimo necessário. Mas não importava o quanto Teodora se esforçasse, porque Perpétua tinha decidido que ela era a ameaça. E uma vez que Perpétua decidia isso sobre alguém, era questão de tempo até inventar desculpa para destruir. A desculpa veio em 15 de março de 1869.

    Perpétua tinha broche de ouro, herança de sua avó, peça antiga, em forma de flor estilizada com pétalas trabalhadas em ouro maciço de 18 quiles. Não era bonita, era pesada e antiquada, mas tinha valor sentimental e monetário considerável. guardava emcaixa de madeira de jacarandá em sua penteadeira, junto com outras joias que raramente usava, porque vida em engenho não tinha ocasiões para ostentação.

    E numa manhã de março, quando abriu caixa para pegar brincos para a missa, o broche não estava lá. Por segundo, Perpétua ficou confusa. Será que guardei em lugar diferente? Mas não, ela era metódica, sempre guardava no mesmo lugar. E então confusão virou raiva, raiva fria e calculada. Roubaram! Gritou voz ecoando pela casa grande. Alguém entrou em meu quarto e roubou.

    Perpétua mandou reunir todos os escravos domésticos imediatamente. 11 pessoas alinhadas no corredor da casa grande, de pé, imóveis, tremendo, porque quando se agritava sobre roubo, alguém ia sangrar, sempre sangrava. Perpétua caminhou lentamente na frente deles, examinando cada rosto, procurando culpa, ou melhor, procurando quem ela queria que fosse culpado.

    Alguém, disse com voz perigosamente calma, entrou em meu quarto, abriu minha caixa de joias e roubou broche de ouro que minha avó me deixou. Broche que vale mais que a vida de todos vocês juntos. Silêncio absoluto. Ninguém ousava respirar alto. Vou perguntar uma vez, apenas uma vez. Quem roubou? Mais silêncio, porque ninguém tinha roubado, e porque confessar crime que não cometeu era suicídio.

    Mas não confessar quando acusado também era. Não havia opção certa, apenas opções ruins. Estou perguntando. A voz de perpétua explodiu. Quem roubou meu broche? Nada. 11 escravos olhando para o chão, rezando para não serem escolhidos. perpétua, respirou fundo, controlando raiva, voltando para a frieza calculada que era mais perigosa. Muito bem, então vamos fazer diferente.

    Coronel Baltazar. Baltazar apareceu de seu escritório. Copo de cachaça na mão, mesmo sendo apenas 9 da manhã. O que foi? Roubaram meu broche. Esses negros mentem dizendo que não sabem de nada. Manda revistar tudo. Roupas, pertences, censala inteira. Vira tudo de cabeça para baixo até achar.

    Baltazar acenou para Feitor. Ouviu assim: “Ah, faz o que ela mandou”. Levou 3 horas. Rasgaram colchões de palha, viraram baús velhos, revistaram cada canto de cada quartinho na cenzala. Até buracos no chão foram verificados. Vasculharam roupas, bolsos, dobras, forros. Checaram galinheiro pensando que talvez tivesse sido escondido entre ovos.

    Olharam em poço, em horta, em qualquer lugar que pudesse servir de esconderijo. Nada. Zero. O broche não foi encontrado porque ninguém tinha roubado. Provavelmente tinha caído atrás de algum móvel, ou perpétua tinha guardado em gaveta diferente e esquecido, ou qualquer uma de mil explicações mundanas. Mas admitir isso significaria admitir que tinha sido alarme falso, que tinha causado 3 horas de transtorno por nada, que talvez, apenas, talvez tinha cometido erro e Perpétua nunca admitia erro. Quando feitor voltou com mãos vazias, Perpétua

    não demonstrou surpresa, apenas a sentiu como se já esperasse. Então, esconderam bem ou venderam já? ou jogaram fora quando perceberam que eu descobriria? Sim. Ah, o feitor, homem chamado Augusto, mulato de 40 anos, veterano de décadas supervisionando escravos, falou cuidadosamente: “Talvez o broche tenha caído em algum lugar. Talvez a Você está me chamando de descuidada.

    Não, senhá, nunca. Apenas digo que você está dizendo que menti sobre roubo. Augusto empalideceu. Não, senh perdão. Não quis dizer isso. Então alguém roubou e vai confessar ou vai morrer. Perpétua olhou para os 11 escravos ainda alinhados, esperando julgamento. E seus olhos pararam em Teodora.

    sempre paravam em Teodora, porque Perpétua tinha decidido meses atrás, talvez anos, que Teodora era problema, era ameaça, era rival imaginária que precisava ser eliminada. Tinha apenas esperado desculpa, momento certo, justificativa que pudesse usar e agora tinha. Foi você, disse, apontando para Teodora. Você roubou meu broche. Teodora sentiu o estômago cair.

    Não, senh eu juro por Deus que não fui eu. Não jura por Deus em vão. Você roubou. Sei que foi você. Sim. Ah, eu nunca roubei nada em minha vida. Por favor, acredite. Porque eu acreditaria em você? A voz de perpétua era gelo e fogo ao mesmo tempo. Você é escrava. Escravos mentem. Escravos roubam. É natureza de vocês. Eu não roubei. Sá, podem revistar minhas coisas de novo. Podem. Já revistaram.

    É claro que não acharam. Porque você é esperta. Já vendeu ou escondeu tão bem que ninguém vai achar? Não, Senhá, eu juro, não tenho o broche, nunca tive. Perpétua se aproximou tão perto que Teodora podia sentir hálito azedo, verveias pulsando na testa. Você sabe porque roubou? Vou te dizer. Roubou porque está com raiva.

    Raiva de mim. Porque eu vejo o que você faz. Vejo como se arruma, como prende cabelo, como anda rebolando. Tudo para chamar a atenção do meu marido. Não, Sá. Eu nunca. Cala a boca. Perpétua agarrou o rosto de Teodora, unhas cravando pele.

    Você acha que sou cega? Acha que não vejo como ele olha para você? Como segue você com olhos quando passa? Teodora queria gritar que não era culpa dela se Baltazar olhava, que ela fazia todo o possível para evitá-lo, que não controlava olhos dele, mas sabia que dizer isso seria pior, porque confirmaria que Baltazar de fato olhava e isso aumentaria fúria de perpétua.

    Então ficou calada, aceitando unhas cravadas em seu rosto, sentindo sangue quente escorrendo pelo queixo. E quando viu que ele não correspondia suas investidas de vagabunda, perpétua continuou: “Você decidiu se vingar de mim, roubando o que é meu, pensando que isso me machucaria.” Não foi assim, senhor. Não foi. Confessa. Não posso confessar o que não fiz.

    Perpétua soltou o rosto de Teodora, limpou unhas ensanguentadas em avental e sorriu. Foi sorriso que todos os escravos reconheceram. Sorriso que significava que Perpétua tinha decidido. E quando Perpétua decidia, não havia volta. Então vamos ao tronco. Vamos ver quanto tempo você aguenta antes de confessar. O tronco ficava no terreiro, à vista de todos.

    Era tora grossa de madeira enterrada verticalmente no chão, com argolas de ferro presas na altura do peito e na altura dos pés. Tinha manchas escuras de sangue seco de anos de uso. Tinha sucos onde chicote tinha atingido madeira junto com carne. E tinha história, história de dezenas, talvez centenas de escravos que tinham sido amarrados ali, chicoteados, quebrados. Alguns tinham sobrevivido, outros não.

    “Amarra ela”, ordenou perpétua. Augusto hesitou. “Sim ah, talvez seja melhor deixar ela pensar um pouco. Às vezes no tronco eles confessam sem precisar bater.” Eu disse para amarrar. Augusto sinalizou para dois outros homens. Pegaram Teodora pelos braços. Ela não resistiu porque resistir só piorava. Levaram-na até o tronco. Arrancaram camisa dela, deixando costas nuas.

    Amarraram pulsos nas argolas superiores. Amarraram tornozelos nas inferiores. Teodora estava esticada, ponta dos pés tocando chão mal, costas completamente expostas. Perpétua caminhou ao redor dela, examinando. Como a solgueiro examina carne antes de cortar. Você vai ficar aqui até confessar. horas, dias, semanas, se necessário, e vai apanhar.

    Vai apanhar até pele abrir, até carne cair, até ossos ficarem expostos e então vai apanhar mais. Sim. Teodora tentou uma última vez, voz tremendo. Por favor, eu não roubei. Não sei onde está o broche. Por favor, Augusto, começa. Augusto pegou o chicote. Não era chicote simples de couro, era chicote de nove pontas, cada ponta com nó duro na extremidade. Ferramenta feita especificamente para rasgar carne.

    Sim há até ela confessar ou até morrer, o que vier primeiro. Augusto olhou para Teodora, viu medo em seus olhos, mas também viu algo mais. Dignidade. Aquela maldita dignidade que irritava perpétua. “Vai confessar?”, perguntou baixo. “Facilita para você. Diz que foi você. Inventa onde escondeu. Ela vai acreditar. E isso para.

    Teodora podia ter mentido, podia ter confessado crime que não cometeu, podia ter inventado história elaborada e talvez, talvez Perpétua aceitasse e parasse. Mas Teodora sabia a verdade. Sabia que Perpétua não procurava confissão, procurava desculpa para destruir. Confessar ou não confessar, o resultado seria o mesmo. Dor, sofrimento, talvez morte. Então decidiu morrer com verdade nos lábios.

    Não vou confessar mentira, disse. Voz firme, apesar de medo. Não roubei. Morro dizendo verdade. Augusto fechou olhos por segundo, depois os abriu e levantou o chicote. Craque. Primeira chicotada cortou o ar, depois costas de Teodora. Ela gritou, não conseguiu conter. Dor era como fogo líquido derramado em pele. Craque segunda, paralela à primeira, abrindo nova linha de fogo.

    Craque, terceira, cruzando as anteriores. E perpétua a assistia, com sorriso satisfeito, como se estivesse assistindo ópera favorita. Depois de 10 chicotadas, Perpétua levantou mão para Vai confessar agora, Teodora. Teodora mal conseguia respirar. Costas eram massa de dor pulsante. Sentia sangue escorrendo pelas costas, pelas pernas, formando poça aos pés. Não roubei. Ofegou. Continua, Augusto.

    Craque, crack, crack. Mais 10. Pausa. E agora? Vai confessar. Não tenho nada para confessar. Mais 10. Crack. Crack. Crack! Teodora parou de gritar porque não tinha voz mais, apenas gemia. Sons baixos de agonia animal. Perpétua se aproximou, passou o dedo em sangue, escorrendo das costas de Teodora, olhou para ele.

    Vermelho vivo em dedo pálido, bonita cor, disse quase para si mesma: “Vermelho de culpa, vermelho de mentira, vermelho que vai continuar até verdade sair. Continua, Augusto, e não para até eu mandar”. Augusto chicoteou e chicoteou e chicoteou. Perdeu conta depois de 50. Outros escravos foram forçados a assistir para aprenderem, perpétua disse, para verem o que acontece com ladrões, com mentirosos, com negras que acham que podem roubar de mim. O sol subia. Calor de Alagoas era infernal.

    Março era um dos meses mais quentes. Teodora estava exposta ao sol direto, desidratando rapidamente, queimando, mas chicote não parava. Pele abriu, depois carne, depois músculos ficaram expostos. Em algum ponto, ninguém sabia exatamente quando. Teodora parou de fazer sons. Parou de se mover.

    Cabeça pendia para a frente, inconsciente. “Joga a água nela”, ordenou Perpétua. “Acorda ela!” Jogaram balde de água fria. Teodora se mexeu levemente, mas não acordou completamente. “Mais outro balde.” “Nada. Deixa”, disse perpétua. “Finalmente, “Quando acordar continua, fica aí até confessar”. E foi embora para dentro da casa grande, para a sombra fresca.

    para a limonada gelada, deixando Teodora amarrada no tronco sob sol escaldante, sangrando. Mas Teodora não acordou, ficou ali. Horas passando, solcorrendo céu. Outros escravos foram liberados para voltar ao trabalho, mas tiveram que passar por ela, ver seu corpo destroçado. Lembrei-te constante do que acontecia com quem a perpétua marcava.

    À tarde, moscas começaram a se juntar, atraídas por sangue, por carne aberta. Ao anoitecer, Perpétua saiu para verificar. Ainda não confessou, Augusto estava ali guardando. Sim, ah, ela não está consciente. Não respondeu o dia todo. Então acorda, ela chicoteia mais. Sim. Ah. Augusto hesitou. Acho que ela está morta.

    Perpétua se aproximou, tocou o pescoço de Teodora, procurando pulso. Nada, sem batimento, sem respiração, pele já esfriando no ar noturno. Morreu sem confessar, disse perpétua. Não havia remorço na voz, nem culpa, apenas irritação leve, negra, teimosa até o fim. O que fazemos com corpo? Sim. Deixa aí até amanhã, que outros vejam o que acontece com ladrões. Amanhã em terra e foi dormir.

    Dormiu tranquilamente, sem pesadelos, sem remorço, porque em sua mente distorcida tinha feito justiça, tinha punido ladra, tinha eliminado ameaça, tudo estava bem. Mas na manhã seguinte, quando amanheceu, algo impossível estava acontecendo, algo que faria aquele engenho nunca mais ser o mesmo. Quando amanheceu em 16 de março de 1869, dois escravos foram designados para tirar corpo de Teodora do tronco e enterrá-lo.

    Tomás, homem de 50 anos que trabalhava como carpinteiro do engenho. e Joaquim, jovem de 20 anos, forte, que normalmente cavava sepulturas quando alguém morria. Aproximaram-se do tronco com lençol velho para embrulhar corpo. E foi Tomás quem viu primeiro. Joaquim, olha isso. Joaquim olhou e seus olhos se arregalaram.

    Segundo os dois homens contaram depois e juraram pela Virgem Maria que era verdade, o corpo de Teodora ainda estava sangrando. Não era sangramento fraco, não era apenas sangue coagulado úmido de noite anterior. Era sangramento ativo, vermelho vivo, escorrendo pelas costas dilaceradas, gotejando no chão, formando poça fresca sob o tronco. “Ela está viva”, Joaquim sussurrou. Tomás se aproximou, tocou o pescoço de Teodora, procurando pulso.

    Nada, pele fria, rígida. Mortes estava começando. Cadavérica está morta, confirmou. Mas como está sangrando assim? Os dois homens olharam um para o outro, medo nos olhos. Porque corpos mortos não sangram assim. Sangue para de circular quando coração para de bater. Pode haver sangramento residual por algumas horas, mas não assim. Não vermelho vivo, não tanto.

    É sinal, disse Tomás, voz baixa, reverente. Sinal de que ela morreu inocente. Sangue de inocente não seca. Clama à terra, clama aos céus. O que fazemos? Enterramos. O que mais podemos fazer? Desamarraram Teodora do Tronco com cuidado. Embrulharam corpo no lençol velho e, segundo juraram depois, o lençol ficou encharcado de sangue imediatamente, como se feridas fossem frescas, como se tivessem acabado de ser feitas. Carregaram corpo até cemitério pequeno que engenho tinha para escravos.

    Área de terra batida cercada por cerca velha, sem lápides, apenas cruzes simples de madeira marcando onde cada pessoa estava enterrada. Joaquim tinha cavado cova na noite anterior. Rasa porque escravos não mereciam covas profundas aos olhos dos senhores. Apenas buraco suficiente para cobrir corpo. Colocaram Teodora lá, embrulhada no lençol ensanguentado, e começaram a jogar terra.

    Tomás rezou enquanto trabalhavam, palavras que padre tinha ensinado, Pai Nosso, Ave Maria, orações que talvez trouxessem paz para a alma que tinha partido tão violentamente, cobriram completamente, alisaram terra, colocaram cruz simples. Teodora, 1845-1869. apenas isso, sem sobrenome, porque escravos não tinham sobrenome. Sem Epitáfio, porque quem se importava com palavras bonitas para escrava morta? E foram embora. Mas no dia seguinte, 17 de março, algo estranho aconteceu.

    Foi Maria das Dores, escrava velha de 60 anos, que cuidava de cemitério, limpava mato, mantinha cruzes em pé. Quem notou primeiro? A terra sobre sepultura de Teodora estava diferente, escura, úmida, vermelha, como se tivesse sido regada com vinho ou com sangue. Maria se ajoelhou, tocou terra com dedos, olhou, era úmida, pegajosa e tinha cheiro característico, cheiro de ferro, de sangue.

    “Meu Deus!”, sussurrou, chamou outros, Tomás, Joaquim, alguns mais. Todos viram, todos tocaram, todos confirmaram. A terra estava encharcada de algo que parecia que todos juravam ser sangue. “Cavem”, disse Tomás, “de precisamos ver”. Joaquim hesitou. Profanar sepultura? Isso não é profanação, é verificação. Cava. cavaram apenas alguns centímetros.

    E segundo o testemunho de todos que estavam presentes, testemunho que repetiram pelo resto de suas vidas, viram um líquido vermelho subindo pela terra. Não era água avermelhada de chuva misturada com barro. Alagoas não tinha tido chuva em semanas. Era viscoso, espesso, como sangue fresco, borbulhando gentilmente, subindo através de grãos de terra, manchando tudo de vermelho. Está vindo do caixão.

    Joaquim disse com voz trêmula: “Do corpo, mas ela está morta há dois dias. Mortos não sangram assim. Sangue de inocente não seca.” Maria das Dores repetiu o que Tomás tinha dito. Teodora morreu inocente, morreu por acusação falsa e seu sangue, seu sangue testemunha. Notícia se espalhou pelo engenho como fogo em cana seca.

    A sepultura de Teodora está sangrando. O corpo dela continua sangrando mesmo morta. É milagre, é maldição, é sinal de Deus, é sinal dos orixás. Cada pessoa interpretava diferente, mas todos concordavam. Algo impossível estava acontecendo. Perpétua ouviu rumores e ficou furiosa. São mentiras. Superstição de negros ignorantes. Mortos não sangram. Mandou Augusto verificar.

    Augusto foi ao cemitério, viu a terra vermelha, viu o líquido subindo, voltou pálido. Sim. Ah, tem algo lá. Não sei o que é, mas tem. É água, água misturada com barro vermelho. Não choveu sem a e o cheiro é de sangue. Perpétua quis ir ver pessoalmente, mas tinha medo. Medo de que fosse verdade, medo de que Teodora, mesmo morta, estivesse a acusando.

    Joguem cal sobre sepultura, cal seca tudo. Resolve isso. Augusto obedeceu. Jogaram sacos de cal virgem sobre terra ensanguentada. caucheou, fumegou, reagindo com líquido e por algumas horas parou. A terra ficou branca, seca, normal, perpétua, suspirou aliviada. Viu? Não era nada, apenas água, superstição. Mas na manhã seguinte, 18 de março, a terra estava vermelha de novo, não apenas úmida, encharcada, como se quantidade impossível de sangue tivesse jorrado durante a noite.

    A cal tinha sido lavada, dissolvida, empurrada para os lados, e o vermelho voltara mais intenso. Jogaram mais cal. De novo, parou por horas, de novo voltou. Os escravos começaram a fazer peregrinações ao cemitério. Não abertamente isso seria punido, mas discretamente. Quando podiam, quando feitores não estavam olhando. Ajoelhavam-se diante da sepultura de Teodora, rezavam, alguns para Deus, alguns para orixás, alguns para os dois. Teodora, você morreu inocente. Morreu por mentira de se amar.

    Seu sangue testemunha a verdade. Não deixa que esqueçamos, não deixa que aceitem mentira como verdade. Deixavam oferendas, flores silvestres, pedaços de pano branco, velas quando conseguiam roubar sem serem notados, e contavam entre si, sussurrando na cenzala à noite. O sangue de Teodora não para, já faz três dias, quatro dias, cinco dias.

    Dizem que enquanto sangrar é prova de inocência dela. Dizem que vai sangrar até perpétuo a confessar verdade. Dizem que vai sangrar 40 dias. Por que 40? Porque é número de Deus. 40 dias de dilúvio. 40 dias de jejum de Cristo. 40 dias para purificar, para separar mundo velho de mundo novo.

    Uma semana passou, sete dias. E segundo todos no engenho Araruna e juravam que era verdade, juravam por tudo que era sagrado. A sepultura de Teodora continuava sangrando. Toda manhã a terra estava vermelha, úmida, encharcada. Tentaram de tudo, mas calou. Terra nova por cima, o vermelho atravessava, pedras pesadas cobrindo área inteira.

    O líquido encontrava caminho pelos lados. Era como se como se a terra se recusasse a aceitar o sangue, como se o sangue se recusasse a secar, como se algo, Deus, os orixás, justiça cósmica, mantivesse testemunho vivo. E perpétua, perpétua começou a mudar nos primeiros dias. Era raiva, é truque.

    Esses negros estão fazendo isso, jogando sangue de galinha na sepultura de noite para me assustar. mandou vigiar cemitério à noite. Dois homens armados ficaram lá a noite inteira. De manhã, terra vermelha de novo. Vocês dormiram? Deixaram alguém passar? Não. Sim. Ah, ficamos acordados o tempo todo. Ninguém passou. Ninguém se aproximou. Mentirosos.

    Mas sabia que não era mentira, porque conhecia aqueles homens e viu medo genuíno em seus olhos. Depois de 10 dias, raiva começou a se misturar com algo mais. Inquietação. Perpétua, não dormia bem. Acordava no meio da noite com coração acelerado, suando, sem razão aparente. Sonhava sempre o mesmo sonho. Estava em cemitério. Noite, lua cheia iluminando cruzes.

    E via Teodora de pé sobre própria sepultura, costas de laceradas sangrando. Olhando para ela, não falava, apenas olhava e sangrava. Sangue escorrendo infinitamente. Perpétua acordava gritando. Baltazar, que dormia em quarto separado desde anos, às vezes ouvia, mas não ia verificar. Apenas virava na cama e voltava a dormir. 15 dias. Perpétua parou de comer direito. Comida tinha gosto de ferro, de sangue.

    Parou de sair de casa. tinha medo de passar perto do cemitério, mesmo de longe, mesmo sabendo que não podia ver sepultura dali, começou a evitar espelhos, porque às vezes, apenas à vezes, quando se olhava, via Teodora atrás dela no reflexo, por fração de segundo, depois desaparecia.

    “Estou imaginando coisas”, dizia para si mesma. “É culpa! Culpa tola. Não tenho nada a me culpar. Ela roubou, foi punida, justiça foi feita, mas repetir não tornava a verdade mais convincente. 20 dias, os escravos notaram mudança imperpétua. Estava mais magra, olhos fundos, com círculos escuros, profundos, pele pálida, mãos tremendo constantemente.

    Gritava menos, punia menos, não porque tinha ficado mais gentil, mas porque parecia distraída. ausente, como se parte dela estivesse em outro lugar. “Ela sendo assombrada”, sussurravam. Teodora não deixa ela em paz. Sangue de inocente clama e ela ouve 30 dias, um mês completo. E a terra sobre sepultura de Teodora continuava vermelha todas as manhãs.

    Perpétua, parou de negar completamente. Chamou o padre. Padre Sebastião da vila de Porto Calvo, homem de 70 anos que servia aquela região há décadas. Padre, preciso de bênção, preciso de de exorcismo. Talvez exorcismo para quem? Paraitou, para cemitério, para sepultura. Tem escrava que morreu e coisas estranhas estão acontecendo.

    Padre Sebastião franziu testa. Conhecia Perpétua há anos. Sabia de sua crueldade. Tinha ouvido confissões dela que faziam seu estômago revirar. Que coisas? A sepultura. Dizem que sangra, que continua sangrando faz um mês. Dizem. Ou você viu? Não vi. Mas todos dizem. E eu eu não durmo bem. Tenho sonhos. Vejo vejo ela a morta. Sim.

    Padre Sebastião suspirou. E como essa escrava morreu? Perpétua não respondeu imediatamente. Depois foi punida por roubo no tronco. Morreu durante punição. Ela tinha roubado. Sim, meu broche de ouro. Acharam o broche? Silêncio. Acharam evidência do roubo? Mais silêncio. Ela confessou? Não. Mas isso não significa. Então você a matou.

    Padre interrompeu com voz dura, sem prova. sem confissão, apenas com acusação. Ela era culpada. Eu sabia. Como sabia? Perpétua não conseguiu responder porque não sabia. Nunca soube, apenas tinha querido acreditar. Padre Sebastião ficou em pé. Não posso exorcizar sepultura perpétua, porque não há demônio ali. Há apenas sangue de inocente. E sangue de inocente clama a Deus, não a mim. A Deus.

    E eu não posso calar o que Deus ouve, mas o que eu faço? Confessa. Confessa que matou mulher inocente. Confessa sua injustiça e reza por perdão. É única forma. Mas ela roubou. Não roubou. A voz do padre explodiu. Raramente gritava, mas agora gritou. Você sabe que não roubou.

    Sabe que inventou desculpa e agora paga preço deixando perpétua sozinha. Tremendo. 35 dias. Perpétua começou a vagar pela casa grande à noite. Baltazar a encontrava às vezes 3 da manhã, caminhando descalça pelos corredores, falando sozinha. Não roubou. Eu sei que não roubou, mas tinha que fazer algo. Ela era ameaça. Olhava para você.

    Não, não olhava, mas podia olhar. Tinha que eliminar antes que perpétua. Baltazara a agarrava pelo ombro. Volta para a cama. Ela olhava para ele como se não reconhecesse. Depois piscava. Baltazar. O quê? Por que estou aqui? Você estava andando, falando sozinha. Estava. Não me lembro. E realmente não lembrava. Blocos de tempo desaparecendo de sua memória, horas perdidas, 38 dias.

    Maria das Dores, a velha que cuidava de cemitério, veio procurar perpétua. Era ato de coragem enorme. Escrava não procurava por vontade própria, apenas quando chamada. Mas Maria veio porque precisava dizer: “Sim”. Perpétua estava sentada na varanda, olhando para nada. O que quer? É sobre Teodora. Perpétua enrijeceu.

    Não quero ouvir sobre ela, mas precisa, porque vai acabar em dois dias. O que vai acabar? O sangramento faz 38 dias. No quadº dia vai parar. É o que todos sabem, 40 dias. Depois para. Como sabe? Porque é número de Deus. 40 dias de purificação, 40 dias de testemunho. Depois, depois o sangue vai silenciar e Teodora vai descansar.

    Então, vai acabar. Perpétua sentiu alívio. Vai acabar e tudo volta ao normal. Maria olhou para ela com piedade. Vai acabar, mas nada volta ao normal, senhá, porque todos vão lembrar. Vão lembrar para sempre que Teodora sangrou 40 dias. Vão lembrar que morreu inocente e vão lembrar que foi a senhora que matou. Ela roubou? Não roubou. E a senhora sabe? Sempre soube.

    E Maria saiu, deixando verdade pendurada no ar como espada. 4º dia. 25 de abril de 1869. Amanheceu. Maria das Dores foi ao cemitério, como fazia toda manhã por 40 dias, e olhou para a sepultura de Teodora. A terra estava seca, não vermelha, não úmida, seca, marrom normal. Tocou poeira fina, como se nunca tivesse estado molhada. Acabou, sussurrou, 40 dias completos.

    E agora? Descansa, Teodora. Descansa em paz. Seu testemunho foi dado. Sua inocência foi provada. Descansa. Notícia se espalhou. Parou. No quadréso dia exato. Parou. É sinal. Prova que era real, que não era truque. A Teodora está em paz agora, mas Perpétua nunca estará. E perpétua. Perpétua ouviu que tinha parado.

    Esperava sentir alívio, libertação, mas sentiu apenas vazio, porque o sangramento tinha parado, mas memória não. Todos sabiam agora, todos tinham testemunhado 40 dias de sangue impossível, 40 dias de acusação silenciosa. E ela, perpétua, era culpada. assassina de inocente, não aos olhos da lei.

    Lei não se importava com escrava morta, mas aos olhos de Deus, aos olhos dos escravos, aos olhos de si mesma, embora lutasse para não admitir. E essa culpa, essa culpa nunca secaria, como o sangue de Teodora nunca tinha secado por 40 dias. Depois que o sangramento parou depois do quadrago dia, perpétua nunca mais foi a mesma. Não foi transformação súbita, foi deterioração lenta, erosão gradual de quem ela era ou de quem fingia ser.

    Nos primeiros meses, tentou voltar à normalidade, voltar a ser siná perpétua, dona absoluta, mulher temida, mas não funcionava mais. Os escravos a olhavam diferente. Antes olhavam com medo, medo genuíno de punição, de dor, de morte. Agora olhavam com algo mais. Não exatamente desafio. Não eram tolos a ponto disso, mas algo próximo de pena.

    Pena misturada com julgamento silencioso. Ela matou Teodora por mentira. E todos sabemos, o sangue testemunhou por 40 dias. Não há como negar. E perpétua sentia aqueles olhares perfurando, acusando, lembrando, tentou punir de novo. Reafirmar a autoridade. Duas semanas após sangramento parar, escrava jovem deixou cair prato durante jantar.

    Quebrou em pedaços. Antes, perpétua teria explodido. Chicotadas, jejum, humilhação pública. Agora abriu boca para gritar e voz falhou. ficou presa na garganta porque viu medo nos olhos da menina. Mas viu também outra coisa. Viu Teodora, por fração de segundo, sobreposta ao rosto da menina, costas dilaceradas sangrando. Perpétua ofegou, cambaleou. Lim, limpa isso, vai.

    A menina correu aliviada, confusa, porque sim, a Perpétua nunca, nunca era misericordiosa. E perpétua subiu para quarto, trancou-se, chorou, pela primeira vez em décadas chorou. Os sonhos pioraram toda a noite agora, sem exceção. Sempre Teodora, sempre cemitério, sempre sangue, mas variavam.

    Às vezes, Teodora estava no tronco, sendo chicoteada infinitamente, e cada chicotada ecoava como trovão. E perpétua era forçada a assistir, incapaz de fechar olhos, incapaz de fugir. Outras vezes, Teodor estava de pé, silenciosa, apontando, acusando sem palavras. E pior, as piores noites, perpétua sonhava que estava no tronco, que era ela sendo chicoteada.

    sentindo cada golpe, cada rasgo de carne, cada quebra de osso. Acordava gritando, suor encharcando lençóis, mãos checando próprias costas, procurando feridas que não estavam lá fisicamente, mas que sentia mesmo assim. Seis meses após morte de Teodora, setembro de 1869, Perpétua parou de sair de casa completamente.

    “Estou doente”, dizia a Baltazar. Não me sinto bem. Médico foi chamado Dr. Fonseca de Maceió. Examinou perpétua minuciosamente. Não encontrou nada fisicamente errado. Sua esposa está saudável, pelo menos corporalmente. Então, por que ela diz que está doente? Dr. Fonseca hesitou, depois falou baixo.

    Ouvi rumores sobre escrava que morreu, sobre coisas estranhas que aconteceram depois. Baltazar ficou tenso. São superstições, boatos de negros ignorantes, talvez. Mas sua esposa acredita e crença pode adoecer tanto quanto doença real. Ela sofre de de aflição da consciência, de culpa. Isso manifestando em sintomas físicos.

    Como trata isso? confissão, arrependimento, aceitação, perdão de Deus, de si mesma, da pessoa que prejudicou. A pessoa está morta, então busca perdão da memória dela ou aprende a viver com peso. Baltazar dispensou o médico. Tolices, minha esposa não tem nada a se arrepender. Fez justiça, puniu ladra. Mas doutor Fonseca balançou cabeça.

    Se acreditasse nisso, não me teria chamado. Um ano após morte de Teodora, março de 1870, aconteceu algo que todos no engenho interpretaram como sinal. O broche de perpétua foi encontrado. Estava embaixo de cômoda pesada em seu próprio quarto. Tinha caído lá quando ela o guardava meses atrás.

    rolou, ficou preso entre móvel e parede. Criada encontrou ao limpar. Sim. Ah, achei seu broche. Perpétua olhou para a peça de ouro em mãos trêmulas. O broche porque Teodora tinha morrido. O broche que nunca tinha sido roubado. O broche que tinha simplesmente caído. Sentiu algo romper dentro dela, algo fundamental.

    Porque até aquele momento, até aquele segundo exato, tinha se apegado a fio fino de justificativa. Talvez ela roubou e devolveu. Talvez escondeu tão bem que nunca acharam. Talvez. Mas agora, agora tinha prova física. Teodora nunca tinha roubado, tinha morrido inocente, completamente inocente. E Perpétua a tinha matado.

    A partir daquele dia, Perpétua começou a definhar. Parou de comer quase completamente. Comida tinha gosto de cinzas, de sangue, de culpa. Emagreceu rapidamente. Pele ficou translúcida sobre ossos. Cabelo começou a cair em mechas. Parou de falar. dias inteiros em silêncio, apenas sentada, olhando para a parede ou para a janela que dava para cemitério ao longe.

    Baltazar tentou alimentá-la à força. “Você vai morrer de fome.” “Já estou morta”, disse ela. Primeira coisa que tinha falado em semana. Morri no dia que Teodora morreu. Só não fui enterrada ainda. Dois anos após morte de Teodora, 1871, Perpétua ficou acamada permanentemente, não por doença física. Médicos continuavam não achando nada, mas simplesmente desistiu de viver.

    Ficava deitada, olhando o teto, murmurando. Às vezes as palavras eram distinguíveis: “Perdão, não sabia, não roubou. perdão. Outras vezes eram apenas sons, lamentos, choro seco, sem lágrimas. Maria das Dores, que agora cuidava dela porque outras escravas tinham medo, a ouvia. Ela pede perdão.

    Contava aos outros, toda hora, mas não sei se é para Teodora ou para Deus ou para si mesma. E então uma noite, conta-se, perpétua teve visita. Era a noite sem lua de março de 1871. Exatos do anos após morte de Teodora, Perpétua estava sozinha no quarto. Baltazar dormia em quarto separado há anos e acordou, se é que estava dormindo, com sensação de presença.

    Olhou e, segundo ela, contou depois, com voz trêmula: “Vio Teodora de pé ao lado da cama. Não era fantasma translúcido de histórias. Era sólida, real, como se estivesse viva. Mas costas, costas ainda mostravam cicatrizes profundas de chicotadas. Teodora perpétua sussurrou. Você você é real? A aparição não falou, apenas olhou. Eu sinto muito.

    Sinto tanto. Você não roubou. Eu sabia. Sempre soube. Mas estava com ciúmes, com raiva e precisava de desculpa. E você, você morreu por minha mentira, minha maldade. Silêncio. Por favor, por favor, me perdoe. Não consigo viver assim. Não consigo dormir. Não consigo existir sabendo o que fiz.

    E então, perpétua jurou até morte que isso aconteceu. Teodora falou: “Vóz suave, sem raiva, sem ódio, apenas cansada. Não posso perdoar, porque perdão não é meu para dar, é de Deus, dos orixás, da terra que bebeu meu sangue por 40 dias. Mas você você veio, vim para dizer que está acabando. Seu sofrimento, sua culpa logo vai acabar, porque você vai juntar-se a mim e lá, lá você vai entender tudo que eu entendi. Vou morrer.

    Todos morrem, mas você vai morrer sabendo verdade e verdade, verdade tanto liberta quanto condena. E desapareceu. Perpétua começou a gritar. Baltazar veio correndo. Outros escravos, todos encontraram na sentada na cama olhos arregalados apontando para canto vazio. Ela estava aqui. Teodora estava aqui. Falou comigo. Não tem ninguém aqui, perpétua. Você sonhou. Não foi sonho.

    Ela estava aqui e nunca se convenceram dela do contrário. Três dias depois, 18 de março de 1871, Perpétua morreu. Simplesmente parou de respirar. Durante sono. Não houve agonia, não houve luta, apenas parou. Tinha 44 anos. O médico disse que foi coração, que simplesmente parou de bater sem razão aparente.

    Mas os escravos sabiam a verdade. Teodora veio buscá-la como prometeu. E agora, agora perpétua vai pagar, não aqui, mas lá. Enterraram perpétua no cemitério do engenho, não cemitério de família em igreja de Porto Calvo, porque Baltazar achou que não merecia honra de sepultura nobre. Colocaram-na perto de onde Teodora estava, não ao lado.

    Isso seria insulto, mas perto o suficiente para que todos vissem ironia, assassina e vítima, separadas por poucos metros de terra, unidos por história que ninguém esqueceria. A história de Teodora e do sangramento de 40 dias nunca foi esquecida no Engenho Araruna. Passou de geração para geração, de pais escravizados para filhos nascidos cativos, de avós libertos para netos nascidos livres após 1888.

    Variações existiam, como sempre acontece com histórias passadas oralmente. Alguns diziam que não foram 40 dias exatos. Alguns diziam que foi menos, outros juravam que foi mais. Alguns diziam que era realmente sangue. Outros diziam que era água avermelhada que parecia sangue.

    Outros ainda diziam que era manifestação espiritual que cada pessoa via diferente. Mas todos concordavam nos pontos fundamentais. Teodora morreu inocente por acusação falsa. Algo impossível aconteceu com sepultura dela. Durou o período significativo, 40 dias na versão mais contada, e perpétua nunca mais foi mesma depois morreu consumida por culpa do anos depois.

    O engenho Araruna continuou funcionando até 1889, um ano após abolição. Baltazar tentou manter produção com trabalhadores livres pagos. Não funcionou. Custos eram altos demais, preços de açúcar caindo. Faliu. Vendeu terra por fração do valor e morreu sozinho e amargo em 1892. O engenho foi abandonado. Virou ruína. Natureza retomou.

    Mas o cemitério, o cemitério permaneceu pequeno, esquecido, escondido em mata que cresceu ao redor. As cruzes de madeira apodreceram com tempo. Nomes foram apagados por chuva e vento, exceto uma. A cruz de Teodora foi renovada. Repetidamente por décadas. Descendentes de escravos do engenho Araruna, mesmo morando longe, voltavam periodicamente, trocavam cruz velha por nova, limpavam mato ao redor, deixavam flores, porque Teodora tinha se tornado mais que pessoa, tinha se tornado símbolo, símbolo de todos que morreram injustamente, de todos acusados falsamente, de todos que sofreram sob

    crueldade de senhores sádicos. E o sangramento real ou lendário, era testemunho. Prova de que injustiça não passa despercebida, de que sangue inocente clama, de que verdade eventualmente emerge. Hoje, 2025, poucos sabem onde ficava Engenho Araruna. Está em mapas antigos, em registros de cartório empoeirados, em documentos históricos que ninguém lê.

    As ruínas foram engolidas por fazendas modernas. por plantações de cana mecanizadas, por progresso que apaga passado. Mas locais ainda conhecem história. Velhos de Porto Calvo e arredores ainda contam. Para netos, para quem quiser ouvir. Houve mulher chamada Teodora.

    Morreu no tronco inocente, e seu corpo sangrou 40 dias para provar inocência. 40 dias que o chão não aceitou mentira. 40 dias que Deus testemunhou. A maioria ouve como folclore, como lenda interessante, mas impossível. Alguns ouvem como verdade literal, como milagre que aconteceu. E alguns, talvez os mais sábios, ouvem como verdade moral envolta em linguagem de milagre.

    Porque o que importa não é se sangue literalmente borbulhou da terra por 40 dias. O que importa é que Teodora morreu inocente, que Perpétua a matou por mentira e que essa injustiça foi tão profunda que marcou memória coletiva de forma indelével. O sangramento literal ou metafórico é forma que história encontrou de dizer. Isto não pode ser esquecido. Isto não pode ser perdoado sem reconhecimento.

    Isto clama da terra, dos céus, de todos que testemunharam. E há algo mais que história ensina. Culpa, verdadeira culpa por verdadeiro crime, não pode ser apagada. Perpétua tentou, negou, justificou, racionalizou, mas culpa comeu ela de dentro. consumiu do anos de vida.

    E se acreditamos em justiça cósmica, continua comendo além da morte, porque sangue inocente derramado nunca seca completamente. Pode parar de fluir após 40 dias, mas mancha permanece na terra, na memória, na alma de quem derramou para sempre. M.

  • O Presidente dos estados unidos Que Engravidou a Escrava da Família Seis Vezes.

    O Presidente dos estados unidos Que Engravidou a Escrava da Família Seis Vezes.

    Em setembro de 1802, um jornal de Richmond, Virgínia, publicou um artigo que abalou toda a nação americana. O presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, o homem que havia escrito as palavras Todos os homens são criados iguais, mantinha como concubina uma de suas escravas. O nome dela era Selly e ele havia tido vários filhos com ela.

    O escândalo explodiu no meio da presidência de Jefferson. Seus inimigos políticos usaram a história para destruí-lo. Os jornais publicavam caricaturas obscenas. Os sermões nas igrejas o condenavam. Mas Jefferson nunca respondeu, nunca negou, nunca confirmou, simplesmente guardou silêncio.

    E esse silêncio durou 200 anos. O que o jornal não publicou era ainda pior. Celly Hemings não era apenas sua escrava, era a meia irmã de sua esposa morta. As duas mulheres compartilhavam o mesmo pai. Quando a esposa de Jefferson morreu, ele herdou Cell. Ela tinha 9 anos. 18 anos depois, Cell havia tido seis filhos. Todos do mesmo homem, todos filhos do presidente.

    Todos nascidos na escravidão. Todos com a pele clara o suficiente para serem confundidos com brancos. Todos com o rosto de Thomas Jefferson. Como o autor da declaração de independência, ele terminou tendo uma família secreta com a irmã de sua esposa morta. Como uma menina de 16 anos, terminou grávida do homem mais poderoso da América.

    Porque Celly aceitou voltar de Paris quando poderia ter sido livre? E como eles viveram durante 38 anos sob o mesmo teto sem que ninguém fizesse nada para detê-lo? A resposta está no que começou em 1787, quando Thomas Jefferson levou Cell Hemings a Paris. Quando ela chegou a Paris com 14 anos e ele tinha 44, quando ela ainda era legalmente sua propriedade e quando ele lhe fez uma promessa que mudaria o destino de ambos para sempre.

    Esta é a história que a América tentou enterrar por dois séculos. A história que só o DNA pôde confirmar. A história do presidente e da escrava que era irmã de sua esposa morta. Virgínia, Estados Unidos. 1782. Thomas Jefferson tinha 39 anos. Era advogado, político, arquiteto, filósofo. Havia escrito a Declaração de Independência 6 anos antes.

    Era respeitado em toda a nação. Tinha uma plantação chamada Monte Celo, com centenas de escravos que trabalhavam para ele. Era um homem de princípios, ou pelo menos era o que dizia. Em setembro daquele ano, sua esposa Marta morreu depois de dar a luz ao seu sexto filho. Jefferson ficou devastado. Passou três semanas trancado em seu quarto.

    Quando finalmente saiu, fez uma promessa. Nunca mais se casaria. Nunca substituiria Martha. Cumpriu essa promessa, mas encontrou outra maneira de não ficar sozinho. Martha Wales Jefferson havia trazido um dote considerável para seu casamento, terras, dinheiro e escravos. Entre esses escravos estava a família Hemings, Elizabeth Hemings e seus filhos. Uma dessas filhas era Celly.

    Tinha 9 anos quando Marta morreu. Era pequena, magra, de pele clara, tinha o cabelo longo e liso. Não parecia uma escrava africana porque não era completamente. O pai dela era John Wales, o pai de Martha, o sogro de Jefferson. Sally Hemings era a meia irmã da esposa morta de Jefferson e agora era sua propriedade.

    Antes de continuar com esta história, queremos pedir algo. Se ainda não o fez, inscreva-se no nosso canal e ative o sininho para não perder nenhuma história. Também deixe nos comentários de que país você está nos assistindo. Isso nos ajuda muito a continuar trazendo essas histórias que não devem ser esquecidas. Agora sim, voltemos a 1782, a Monte Shelo, a plantação onde Thomas Jefferson acabara de herdar a irmã de 9 anos de sua esposa morta e onde 5 anos depois tomaria uma decisão que mudaria ambas as vidas para sempre.

    Quando Martha Jefferson morreu, Thomas herdou tudo o que ela havia trazido para o casamento. Isso incluía a família Hemings. Elizabeth Hemings era a matriarca, tinha 57 anos. Havia sido escrava de John Wales, o pai de Marta. Havia tido 12 filhos. Seis deles eram de John Wales. Eram irmãos de Marta, meios irmãos, escravos com o sangue do seu próprio pai.

    Uma dessas crianças era Cell. Tinha 9 anos quando chegou a Monte Celo. Cell não trabalhava nos campos. Isso era inusitado. As crianças escravas começavam a trabalhar nos campos desde os s ou 8 anos. Marcell foi designada para a casa principal. Trabalhava como camareira, ajudava na cozinha, servia a mesa, limpava os quartos.

    estava perto da família branca de Jefferson o tempo todo. Isso também era inusitado. Jefferson tinha regras rígidas sobre quais escravos podiam estar na casa, mas Celly e seus irmãos eram diferentes. Eram família de Marta, sangue dos Wales. Isso lhes dava certos privilégios que outros escravos não tinham. Os anos passaram, Celceu.

    Jefferson passava a maior parte do seu tempo na política. viajava constantemente, foi governador da Virgínia, depois enviado à França como ministro. Em 1784, Jefferson partiu para Paris. Levou consigo sua filha mais velha, Petsy, que tinha 11 anos. deixou suas duas filhas mais novas na Virgínia com parentes. Seu plano era ficar na França apenas do anos, ficou cinco.

    Durante esses anos, Jefferson viveu em Paris como diplomata. Tinha uma casa elegante nos campos elíse assistia a jantares com nobres franceses. Conhecia filósofos e artistas. desfrutava da cultura europeia, mas sentia falta de suas filhas. Em 1787, decidiu que era hora de trazer Poly, sua filha de 9 anos, para Paris.

    Escreveu ao seu cunhado na Virgínia: “Precisava que enviassem a menina de navio e precisava que viajasse com uma acompanhante, uma mulher adulta, responsável, que pudesse cuidar dela durante as seis semanas de travessia. Mas quando o navio chegou a Londres em junho de 178, quem desceu com Poly não era uma mulher adulta, era Sally Hemins, tinha 14 anos.

    O capitão do navio escreveu uma carta a Jefferson explicando a situação. A mulher que deveria acompanhar Poly havia adoecido no último momento. A família decidiu enviar Cell em seu lugar. O capitão escreveu que Celly era uma moça muito agradável, que havia cuidado bem de Poly durante toda a viagem, que a menina estava saudável e feliz.

    Jefferson recebeu a carta, não expressou raiva pela mudança de planos, simplesmente fez os arranjos para que ambas viajassem de Londres a Paris. Celly chegou a Paris em meados de julho. Fazia calor. A cidade estava cheia de vida. Cell nunca havia saído da Virgínia, nunca havia visto uma cidade tão grande, nunca havia visto tantas pessoas.

    Jefferson as recebeu em sua casa, abraçou Poly, depois olhou para Cel. Ela havia mudado. Já não era a menina de 9 anos que ele se lembrava. Tinha 14 anos agora. Era alta, magra, tinha o cabelo longo e liso, a pele clara, os traços delicados. Parecia com alguém. com Marta, a esposa morta de Jefferson. Isso não era coincidência. Cell e Marta eram irmãs.

    Compartilhavam os mesmos genes, os mesmos traços. Cell era como um fantasma do passado, uma lembrança viva da mulher que Jefferson havia amado. Jefferson decidiu que Celly ficaria em Paris, não a enviaria de volta à Virgínia. Poly precisava de uma acompanhante constante, alguém que cuidasse dela.

    Cel cumpriria esse papel, mas Cell também precisava de treinamento. Na França, os empregados eram mais refinados do que na Virgínia. Jefferson pagou para que Cell aprendesse francês, para que aprendesse a costurar melhor, para que aprendesse os modos franceses. Cell passou do anos em Paris aprendendo, crescendo, vivendo em uma cidade onde a escravidão não existia legalmente, onde os escravos podiam pedir sua liberdade perante um tribunal, onde podiam ser livres.

    Celly vivia na casa de Jefferson. Dormia em um pequeno quarto no andar de cima. ajudava a vestir pets e poli, as acompanhava a escola, comprava nos mercados, aprendia o idioma. Os vizinhos a viam como uma criada, não como uma escrava, porque tecnicamente não o era. Em solo francês, Cell era livre. Podia ir embora, se quisesse, podia ficar na França, podia pedir asilo, podia começar uma nova vida, mas tinha 14 anos.

    estava sozinha, não conhecia ninguém, não tinha dinheiro, não tinha família, exceto os Jefferson. Para onde iria? Jefferson passava muito tempo em casa durante esses anos. Não viajava tanto quanto antes. Trabalhava de seu escritório, recebia visitantes, escrevia cartas e observava. Observava Cell se mover pela casa.

    Observava como aprendia francês rapidamente. Observava como Poly a adorava. Observa como se parecia cada dia mais com Marta. Cada gesto, cada movimento, cada sorriso. Era como ter Marta de volta, mas mais jovem, mais vulnerável e completamente dependente dele. Não está claro exatamente quando começou. Os registros não dizem os documentos são vagos, mas em algum momento entre 178 e 1789, Thomas Jefferson e Sally Hemmings começaram um relacionamento.

    Ele tinha 44 anos, ela tinha 16. Ele era o ministro dos Estados Unidos na França, ela era sua escrava. Ele era livre para fazer o que quisesse. Ela não tinha opções reais. Essa é a natureza do poder. Essa é a natureza da escravidão. Não importa que estivessem na França, não importa que tecnicamente ela fosse livre.

    O poder entre eles era tão desigual que a palavra consentimento não tinha um significado real. Quando o ano de 1789 se encerrou, Jefferson foi informado sobre a situação nos Estados Unidos. George Washington havia conquistado a presidência e o convidava a integrar seu governo na função de secretário de estado.

     

    Isso significava que Jefferson precisaria retornar à Virgínia e, consequentemente, abandonar a capital francesa. Ele iniciou os preparativos para a mudança, acondicionando seus pertences como livros, mobiliário e papéis. adquiriu bilhetes para uma embarcação com partida marcada para outubro. Foram compradas quatro passagens, duas destinadas à suas filhas, uma para James Hemings, irmão de Cell, encarregado da cozinha, e a última para Celly.

    Entretanto, Cel relutava em partir. Era a primeira vez que experimentava algo remotamente parecido com a liberdade. Em Paris, sua condição não era tratada como de uma escrava. Ela podia andar livremente, conversar com quem quisesse e conceber um futuro distinto. Se retornasse à Virgínia, essa condição cessaria. Ela seria novamente uma posse sujeita à escravidão, desprovida de direitos e de voz.

    Além disso, havia um fator crucial. Cel estava esperando um bebê. Tinha apenas 16 anos. estava em um país estrangeiro e carregava o filho do homem que legalmente a possuía. De acordo com o depoimento de seu filho, Madison Hemings, registrado anos mais tarde, Celly comunicou a Jefferson sua intenção de permanecer na França, onde poderia ser uma pessoa livre, e garantir que seu filho nascesse em liberdade.

    Jefferson estava impedido de coagi-la legalmente no território francês. Restou-lhe, portanto, somente um caminho, suplicar e oferecer garantias. Ele prometeu que caso ela voltasse para a Virgínia, seria tratada com dignidade, teria vantagens e jamais seria designada para os trabalhos do campo.

    Mais importante, ele garantiu que toda criança que nascesse dela seria alforreada ao atingir 21 anos de idade. Essa era a essência da promessa. Liberdade não para si, mas para seus descendentes. A próxima geração. Cell, com 16 anos, grávida e isolada, sem recursos financeiros ou apoio familiar fora dos Jefferson na França, viu nas palavras dele a única alternativa viável. Assim, Celly concordou.

    Em outubro de 1789, Celly Hemings embarcou para a Virgínia no terceiro mês de gestação. Ela viajava ao lado do pai de seu filho, o indivíduo que era seu proprietário e que fora casado com sua meia irmã. Ela estava regressando à escravidão porque naquele momento era a única escolha, ou pelo menos a mais palpável.

    Selemings desembarcou em Montecelo em novembro de 1789 com 5 meses de gravidez. Ninguém levantou questionamentos. Os escravos sabiam que o silêncio era o mais prudente. A família branca de Jefferson também manteve o sigilo. Se havia suspeitas, elas não foram vocalizadas. Cel foi realocada para o serviço doméstico principal, evitando o trabalho nas plantações ou nas cozinhas dos escravos.

    permanecendo próxima à residência de Jefferson e de suas filhas, como se nada houvesse mudado. Contudo, tudo havia mudado. Em 1790, Cell deu à luz seu primeiro filho, cuja data e nome exatos não foram registrados. Apenas uma breve anotação nos documentos de Jefferson, indicando o nascimento seguida por outra. O bebê faleceu semanas após o parto.

    A causa é incerta, mas a mortalidade infantil era alta, especialmente entre os escravizados. Celly tinha 17 anos e havia perdido seu primeiro filho. Jefferson não fez menção ao nascimento ou a perda em sua correspondência particular, tratando o evento como se nunca tivesse ocorrido. Naquele período, Jefferson foi nomeado secretário de Estado sob a administração de George Washington, exigindo que passasse longos períodos na Filadélphia, então capital.

    Não obstante, ele regressava a Monteelo regularmente, a cada poucos meses, permanecendo por semanas ou meses, e sempre encontrava Cél ali trabalhando e residindo em um pequeno aposento na ala sul, adjacente ao seu. Essa proximidade era incomum, mas Cell não era uma escrava comum e essa distinção era conhecida por todos em Monteelo.

    Em 1795, Celly deu à luz uma menina chamada Harriet. Ela possuía uma tes muito clara, a ponto de ser confundida com uma pessoa branca e apresentava os traços faciais de Jefferson, os olhos a forma do rosto. Qualquer observador atento notaria a semelhança, mas a descrição prevalecia. Harriet viveu por apenas do anos vindo a falecer.

    Novamente a causa não foi documentada e Jefferson manteve seu silêncio. Três crianças perdidas, um filho vivo. Cel, aos 22 anos, havia sofrido a perda de três bebês e permanecia em cativeiro. Em 1798, ela deu à luz um menino, Beverly, que sobreviveu. Ele cresceu saudável, de pele clara como a irmã, e com a fisionomia de Jefferson.

    Beverly não era enviado para o trabalho nos campos. Ele atuava como carpinteiro e músico, residindo na casa principal, não nos alojamentos dos escravos. Recebia tratamento diferenciado, privilegiado, pois todos sabiam quem era seu pai, ainda que fosse um conhecimento não declarado. Em 1799, Celly teve mais uma menina que morreu na infância.

    Quatro filhos perdidos, um vivo. Celly tinha 26 anos. Jefferson 56 era o vice-presidente dos Estados Unidos e voltava a Montecelo, buscando Celly. Em 1800, Cell teve outra menina, batizada novamente de Harriet em memória da primeira. Esta Harriet prosperou. Era bela, de pele clara, cabelos lisos e olhos azuis.

    não se assemelhava a uma escrava, mas a uma jovem branca de boa família, o que, de fato, ela era por metade de sua herança. No mesmo ano, Thomas Jefferson foi eleito presidente e se mudou para a Casa Branca em Washington DC, mas continuava a visitar Montecelo a cada poucos meses, passando semanas ou verões inteiros ali. Em cada regresso, Cel o aguardava.

    Durante sua presidência, Jefferson era a figura mais poderosa da América, mas em Montecelo, naquele quarto ao lado do seu, residia seu segredo. A comunidade escravizada e os vizinhos suspeitavam. Os visitantes notavam as crianças claras que se pareciam com o presidente, mas o silêncio era absoluto até que um artigo quebrou o pacto.

    Em setembro de 1802, um jornalista descontente, James Cender, divulgou um texto no jornal Recorder. Cender, que fora um aliado de Jefferson, estava em busca de vingança e tinha a história ideal para desacreditar o presidente. O artigo afirmava que Jefferson mantinha uma de suas escravas, Celly, como concubina, com quem tinha vários filhos que residiam em Montecelo e eram notavelmente parecidos com ele.

    O texto de Cender continha detalhes específicos, não inventados, mas baseados em boatos e fatos conhecidos. O escândalo se propagou. A oposição política usou o artigo para atacar Jefferson, publicando caricaturas e poemas satíricos. chamando-o de hipócrita por pregar a igualdade enquanto mantinha filhos escravos.

    Jefferson, contudo, nunca respondeu publicamente. Suas filhas o defenderam, alegando que as crianças claras eram filhos de sobrinhos dele e que Cinder agia por ressentimento. Mas Jefferson manteve seu silêncio absoluto sobre Sally Hemins. O escândalo perdeu força e Jefferson foi reeleito em 1804, completando seu segundo mandato sem que o relacionamento fosse interrompido.

    Ele continuou a voltar para Cel, pois seu poder o protegia enquanto ela estava em defesa. Em 1805, Celly teve Madson, seu quinto filho vivo, que cresceu sabendo a identidade do pai. Anos depois, já livre, Misson confirmou em entrevista que Thomas Jefferson era seu genitor e que o fato era de conhecimento geral em Montecelo.

    Em8, nasceu Stone, o último filho, o mais claro de todos. que mais tarde mudaria seu sobrenome para Aston Hemins Jefferson. Selly Hemins teve seis filhos com Thomas Jefferson. Quatro sobreviveram e cresceram com traços semelhantes aos do Pai, mas nasceram escravos. A lei determinava que a condição dos filhos seguia a da mãe.

    Se a mãe era escrava, os filhos também o eram, independentemente de o pai ser o presidente. A lei protegia homens como Jefferson, nunca mulheres como Celly. Após o escândalo de 1802, Jefferson completou seus 8 anos de presidência, viajando constantemente entre a capital e Monteicelo. O tumulto não alterou o relacionamento.

    Ele não a vendeu nem a dispensou, seguindo a vida como se nada tivesse acontecido, pois não havia quem o impedisse. Em 1809, Jefferson encerrou sua carreira política, retornando a Monteelo para seus anos finais. Cell, com 36 anos, havia dedicado metade da vida a ele, tido seis filhos e continuava sendo sua escrava.

    A rotina em Montecelo era peculiar. Jefferson vivia na casa principal com sua família branca enquanto Celly residia em um quarto anexo conectado à residência. Seus filhos Beverly, Harriot, Madson e Aston, trabalhavam na casa em ofícios especializados, recebendo tratamento privilegiado, que a vasta maioria dos outros escravos não tinha.

     

    Os visitantes percebiam as crianças de pele clara, mas as perguntas eram evitadas. Era um segredo compartilhado e protegido, pois revelar a verdade ameaçava a reputação de Jefferson. Um escravo chamado Isaac Jefferson, que trabalhou ali, relatou anos depois que Cel era camareira e muito estimada, mas omitiu a natureza de seu relacionamento com o Senhor.

    As filhas e netas brancas de Jefferson, apesar das evidências, negaram veementemente a história após a morte dele, inventando explicações para a semelhança dos filhos Hemings e atacando a credibilidade de Misson. A família branca protegeu a reputação de Jefferson por décadas e a nação optou por acreditar neles, pois a verdade era inconveniente para a imagem de um pai fundador.

    Com o passar dos anos, Jefferson acumulou enormes dívidas, o que tornava a venda de Monteelo e de seus escravos inevitável após sua morte. Em 1826, endividado, ele podia apenas controlar a alforria de alguns escravos em seu testamento. Dos mais de 100 que possuía, decidiu libertar apenas cinco, incluindo os três filhos vivos de Cel, Beverly, Madson e Eston.

    Ele cumpriu a promessa feita a Cel 37 anos antes, mas notavelmente não a libertou. O nome dela não constava no testamento, permanecendo legalmente sua escrava. Quando Thomas Jefferson faleceu em 4 de julho de 1826, Sally Hemings era legalmente propriedade dele. Sua morte no mesmo dia que John Adams foi celebrada como um evento de grande significado histórico e ninguém mencionou Sally Hemings ou seus filhos.

    Após a morte de Jefferson, sua filha Marta permitiu que Celly deixasse Monte Celo. Celly mudou-se para Charlottesville, vivendo com seus filhos Madison e Eston, tornando-se de facto livre, embora legalmente sua escravidão persistisse até sua morte em 1835 aos 62 anos. No censo de 1830, ela e seus filhos foram registrados como brancos, cruzando a linha de cor.

    Essa mudança social e legal era a única forma de sobrevivência para eles. Os quatro filhos adultos de Sally Hemings trilharam caminhos distintos após a libertação. Beverly e Harriet saíram de Monteo em 1822 fugindo, mas Jefferson permitiu que partissem. Eles seguiram para o norte, casaram-se com pessoas brancas e viveram como brancos, apagando sua ascendência africana e sua ligação com Monte Telo para garantir a liberdade de seus descendentes.

    Madson Hemings, libertado em 1826, permaneceu na Virgínia, casou-se com uma mulher negra livre e viveu como homem negro. Ele foi o único a confirmar publicamente a história em uma entrevista de 1873, revelando que Jefferson era seu pai. Aston Hemings, também libertado em 1826, mudou-se para Ohio em 1852 e adotou o nome Aston Hemings Jefferson.

    Ele e sua família viveram como brancos, mantendo a linhagem de Jefferson, mas silenciando a história de Celly. A família branca de Jefferson manteve a negação por mais de 150 anos. Os historiadores também duvidaram da veracidade da história, desvalorizando o testemunho de Madson Hemings, pois não queriam manchar a imagem do pai fundador. Ш.

  • BOLSONARO É TRAÍDO POR SENADORES E SE DESESPERA!! GILMAR AJUDA LULA E DÁ XEQUE-MATE EM ALCOLUMBRE

    BOLSONARO É TRAÍDO POR SENADORES E SE DESESPERA!! GILMAR AJUDA LULA E DÁ XEQUE-MATE EM ALCOLUMBRE

    CAPÍTULO 1: O Plano de 2027 Desmantelado no STF

    O cenário político brasileiro, já notoriamente complexo, vive um momento de articulações nos bastidores que parecem desmantelar o xadrez do ex-presidente Jair Bolsonaro. O plano de longo prazo da ala bolsonarista era obter uma maioria sólida no Senado Federal até 2027, um poder legislativo que, na visão de seus estrategistas, seria utilizado para impor limites e, se necessário, buscar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

    No entanto, essa estratégia audaciosa encontrou um obstáculo já na sua fase inicial, vindo de uma canetada do ministro Gilmar Mendes. O ministro proferiu uma decisão que elevou a barra para o processo de impedimento de membros da corte máxima do país, estabelecendo que a destituição só poderia ocorrer com o voto de dois terços do Senado – uma maioria de 54 dos 81 senadores – e que, inicialmente, apenas o Procurador-Geral da República (PGR) teria a prerrogativa de solicitar tal medida.

    Essa determinação gerou um forte descontentamento na cúpula do Congresso Nacional, especialmente no então presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Alcolumbre, que via o poder do Senado ser cerceado em um tema de alta relevância, expressou sua insatisfação, preparando o terreno para uma batalha política.

    É neste ponto que entra em campo um dos indicados do atual governo para o STF: o então Advogado-Geral da União, Jorge Messias. Em um movimento que revelou a sagacidade do atual governo, Messias interpôs um recurso contra a decisão de Gilmar Mendes. Em vez de confrontar diretamente a medida, o recurso focou em um detalhe crucial: a exclusividade do PGR para iniciar o processo.

    Gilmar Mendes acatou parcialmente o recurso de Messias. A nova modulação manteve o requisito de dois terços (54 votos) para a aprovação do impeachment, mas permitiu que “qualquer cidadão” pudesse dar entrada no pedido, removendo a exclusividade do PGR.

    Gilmar elogia Pacheco e Alcolumbre em decisão sobre impeachment

    Apesar de parecer uma concessão, o resultado final foi interpretado como uma vitória estratégica para o governo e para Messias. Ao manter o quórum de 54 votos, Mendes assegurou a blindagem institucional do STF. Para Davi Alcolumbre e o Senado, representou um revés. Embora o ministro tenha recuado na questão do PGR, a manutenção do quórum superqualificado significou, na prática, uma diminuição das prerrogativas e do poder de barganha do Senado, pois a articulação necessária para atingir 54 votos se tornou exponencialmente mais complexa.

    O fato de Messias ter sido o articulador do recurso, obtendo um resultado positivo para a estabilidade institucional, colocou Alcolumbre em uma situação desconfortável. O presidente do Senado, que vinha tentando barrar a indicação de Messias ao STF, viu o próprio indicado do governo obter um ganho político que, indiretamente, o enfraquecia, demonstrando um “drible” do Planalto.

    CAPÍTULO 2: O Drible de Mestre e o Constrangimento de Alcolumbre

    A tentativa de Davi Alcolumbre de barrar a nomeação de Jorge Messias ao STF resultou em um dos episódios mais constrangedores da política recente. O senador, com a intenção de acelerar a sabatina de Messias e criar um ambiente de pressão para sua rejeição, agendou a sessão. No entanto, o Palácio do Planalto, ciente da articulação, usou a burocracia a seu favor: o governo demorou a enviar a notificação oficial, a carta do Presidente da República ao Senado com a indicação formal.

    Sem o documento oficial, Alcolumbre foi forçado a cancelar a sabatina, sofrendo um constrangimento público e sendo criticado por parlamentares. O que era para ser uma demonstração de força do Senado contra o governo tornou-se uma exibição da fragilidade da presidência da Casa. Alcolumbre reagiu com irritação, classificando a manobra como “grave e inaceitável”.

    No entanto, o cerne do problema para o grupo político ligado ao ex-presidente não reside apenas na disputa com o STF ou com o governo. A verdadeira crise se manifesta nas fileiras internas, onde a unidade ideológica desmorona diante dos interesses eleitorais e da necessidade de sobrevivência frente às investigações.

    CAPÍTULO 3: A Lei da Dosimetria e a Ameaça de Flávio Bolsonaro

    A pressão por uma Lei de Dosimetria de Pena ou, em sua versão mais radical, uma Lei de Anistia, tornou-se o principal instrumento de negociação e coesão na direita e no Centrão. O projeto, que visa estabelecer parâmetros para a diminuição de penas, é visto por muitos como um mecanismo indireto para aliviar a situação legal de figuras ligadas ao bolsonarismo.

    Neste caldeirão de tensões, o Senador Flávio Bolsonaro lançou uma cartada de alto risco ao anunciar uma pré-candidatura à Presidência da República. Embora a candidatura seja amplamente vista como uma estratégia de barganha, sua ameaça foi explícita e poderosa: ele prometeu usar a plataforma da campanha para “queimar todas as pontes” com os aliados da direita e do Centrão que se opusessem aos interesses da família, especialmente no que tange à dosimetria ou à anistia.

    O recado era claro: “Eu posso não ser eleito, mas garanto que vocês também não serão.”

    Essa ameaça surtiu efeito imediato. Os parlamentares do Centrão, que já se articulavam para lançar candidaturas próprias e forçar o apoio de Flávio em um eventual segundo turno, perceberam o risco de uma implosão do campo da direita. O medo de se tornarem alvos de ataques implacáveis durante um ano eleitoral fez com que a pauta da dosimetria fosse acelerada na Câmara dos Deputados e, subsequentemente, no Senado.

    CAPÍTULO 4: A Traição Silenciosa: A Escolha do Relator

    A verdadeira fissura no projeto bolsonarista se revelou na escolha do relator do projeto de dosimetria no Senado. Este relator, que terá o poder de moldar o texto e usará a função como uma poderosa vitrine eleitoral em 2026, é um posto cobiçado. A expectativa era que fosse um aliado incondicional e sem pretensões concorrenciais contra os filhos do ex-presidente.

    No entanto, o Senado escolheu Esperidião Amin (PP-SC).

    Para observadores da política interna, a escolha de Amin foi um ato de traição silenciosa e calculada. Amin é um nome de peso em Santa Catarina e um concorrente direto de Carlos Bolsonaro para uma das duas vagas ao Senado pelo estado. Carlos, que já havia sido indicado pelo pai para disputar a vaga, viu em Amin um obstáculo intransponível.

    A briga é estratégica: com três candidatos de direita disputando duas vagas (Carlos Bolsonaro, Esperidião Amin e Caroline de Toni, que também é uma aliada bolsonarista), os votos seriam fatalmente divididos, arriscando a eleição de todos. Amin, ciente do embate, já sinalizou que, se for preterido ou traído, explodirá qualquer articulação com o Partido Liberal (PL) de Bolsonaro.

    A escolha de Amin, portanto, é a prova de que o Centrão e uma parte da direita estão dispostos a priorizar seus próprios projetos eleitorais, mesmo que isso signifique minar as ambições políticas da família Bolsonaro. Para eles, a aprovação de “qualquer coisa” que mantenha a narrativa de defesa do ex-presidente – como a dosimetria – é suficiente para mobilizar a base radical sem, contudo, dar palanque para um adversário direto.

    O movimento coloca Amin em uma “saia justa” política. O senador, que agora precisa defender a dosimetria publicamente, pode ser penalizado pela base bolsonarista por não ter aprovado a anistia total – o desejo da base radical. Parlamentares da direita já expressaram o sentimento de que estão “sequestrados” pela pauta da anistia, dispostos a aprovar a dosimetria apenas para tirar o tema da frente e se livrar da pressão da base e dos apelos da família Bolsonaro.

    O consenso, na cúpula do Centrão e em parte da direita, parece ser: manter a figura em xeque e usar a aprovação de uma medida intermediária, como a dosimetria, para se eleger, alegando que fizeram o que era “possível”.

    CAPÍTULO 5: O Desespero e a Corrida Contra o Tempo de 2027

    A disputa interna e o caos político são, em última análise, sintomas de um desespero crescente entre a cúpula do Legislativo. Investigações se aprofundam, e a perspectiva de que aliados de peso, e até mesmo eles próprios, sejam alcançados pela Justiça é real.

    A grande preocupação desse grupo é que as operações policiais e os desdobramentos judiciais atinjam seu auge no próximo ano eleitoral, com os crimes “frescos” na memória do eleitor.

    A estratégia final, portanto, passa pela eleição de um Presidente de extrema direita ou de direita radical em 2027. Nomes como Tarcísio de Freitas, Jorginho Mello ou Ronaldo Caiado, que se perfilam como candidatos do “centro democrático” pela imprensa, são vistos, na realidade, como peças-chave da extrema direita para barrar as investigações a partir de 2027.

    O desespero em torno da dosimetria e a traição na escolha do relator são, assim, duas faces da mesma moeda: de um lado, a necessidade de dar uma resposta à base eleitoral do ex-presidente; de outro, a urgência em defender seus próprios mandatos e evitar a implosão política, mesmo que para isso seja necessário trair o plano maior da família Bolsonaro.

    O xadrez se inverteu: o ex-presidente, que desejava usar o Senado para minar o STF, agora é refém das articulações de um Senado dividido que, na luta pela própria sobrevivência, não hesita em apunhalar seus próprios aliados para se proteger de um futuro incerto e, para muitos, sombrio.

  • A Cartada do Desespero: Bolsonaro Lança Flávio à Presidência e Racha a Direita com Fantasmas do Passado

    A Cartada do Desespero: Bolsonaro Lança Flávio à Presidência e Racha a Direita com Fantasmas do Passado

    A Cartada do Desespero: Bolsonaro Lança Flávio à Presidência e Racha a Direita com Fantasmas do Passado

    O Clã Bolsonaro joga sua última e mais arriscada carta para 2026, expondo fraturas internas, desconfianças familiares e a aposta contínua na radicalização religiosa como ferramenta de poder.

    Em um movimento que agitou os bastidores de Brasília e dominou as manchetes dos principais jornais do país neste sábado, o ex-presidente Jair Bolsonaro — atualmente cumprindo pena e isolado do convívio social — definiu o nome que levará a bandeira do bolsonarismo nas eleições de 2026: seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro. A decisão, longe de unificar a direita, expõe o desespero de um grupo político acuado e traz à tona um passado repleto de escândalos que prometem assombrar a campanha antes mesmo de ela começar oficialmente.

    A Escolha do “Filho 01” e o Racha na Direita

    A imprensa nacional amanheceu em polvorosa. Veículos como a Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo destacaram a manobra de Bolsonaro, que, mesmo encarcerado e impossibilitado de desfrutar de luxos como jantares em família ou viagens à praia, continua tentando ditar os rumos da oposição. A escolha de Flávio, contudo, não é apenas uma sucessão dinástica; é um sintoma de isolamento.

    Conhecido por alcunhas pejorativas que remetem às investigações que pesam contra ele — como “Flávio Rachadinha” ou referências a ligações com milícias —, o senador carrega um fardo eleitoral pesado. Para muitos analistas políticos, lançar Flávio é oficializar um “racha” na própria direita. Setores mais moderados ou pragmáticos do conservadorismo veem com ceticismo uma candidatura que já nasce manchada por denúncias de apropriação de salários de servidores (a famosa “rachadinha”), compra de mansões suspeitas e lavagem de dinheiro através de lojas de chocolate.

    Michelle Bolsonaro: A Carta Fora do Baralho

    Uma das questões mais intrigantes desse xadrez político é o descarte de Michelle Bolsonaro. Apesar de demonstrar maior desenvoltura nos palcos e possuir um apelo forte junto ao eleitorado evangélico — transitando com facilidade na “picaretagem político-religiosa” que mobiliza multidões —, a ex-primeira-dama foi vetada. O motivo? A mais pura falta de confiança.

    Informações de bastidores indicam que nem Jair Bolsonaro e nem seus filhos confiam plenamente em Michelle para uma missão dessa magnitude. O receio de traições ou de perda de controle sobre a narrativa familiar fez com que o clã optasse pelo “sangue do seu sangue”, mesmo que isso signifique apostar em um nome com rejeição altíssima e telhado de vidro. Michelle, ao que tudo indica, deverá contentar-se com disputas menores, servindo apenas como cabo eleitoral de luxo para o enteado.

    A Estratégia do Pânico e a Alienação Religiosa

    Se politicamente a escolha parece um suicídio, como o bolsonarismo pretende viabilizar Flávio? A resposta reside na estrutura que manteve o movimento vivo até aqui: a manipulação da fé e o pânico moral. A análise de especialistas, corroborada pelo cientista político Christian Lynch, aponta que o bolsonarismo nunca foi um movimento com “ossatura” ou propostas reais de governo. Ele funciona como uma seita, alimentada por medo — medo do comunismo, medo do “inferno”, medo da diversidade.

    Para blindar Flávio das acusações de corrupção que seriam fatais a qualquer outro político, a máquina de propaganda deverá intensificar a narrativa de “guerra espiritual”. É a tática de transformar criminosos em perseguidos e vilões em heróis bíblicos. O fenômeno não é novo, mas encontra terreno fértil em um Brasil desigual, onde a falta de instrução e a desesperança econômica tornam parte da população vulnerável a discursos que misturam teologia e política de forma perversa.

    Um Passado que Condena e um Futuro Incerto

    A candidatura de Flávio Bolsonaro nasce como uma “tábua de salvação” para um pai angustiado na prisão, que passa seus dias consumindo noticiário e vendo seu legado político ruir. No entanto, o embate de 2026 exigirá mais do que retórica. Flávio terá que confrontar o desastroso legado administrativo de seu pai com os resultados concretos do atual governo.

    Enquanto a base fanatizada — aquela que ignora fatos em nome de uma idolatria cega — garantirá um piso de votos expressivo, a dúvida que resta é se isso será suficiente para furar a bolha da insanidade. O Brasil de hoje tenta se reconstruir e olhar para o futuro, enquanto o clã Bolsonaro insiste em arrastar o país de volta para um passado de turbulência, crimes e negacionismo. A “lata do lixo da história” pode estar aberta, mas cabe à sociedade decidir se vai ou não reciclar velhos problemas.

  • O Fim da Ilusão: Por Que a “Vitória” da Direita na Câmara é, na Verdade, o Pesadelo Final de Bolsonaro?

    O Fim da Ilusão: Por Que a “Vitória” da Direita na Câmara é, na Verdade, o Pesadelo Final de Bolsonaro?

    O Fim da Ilusão: Por Que a “Vitória” da Direita na Câmara é, na Verdade, o Pesadelo Final de Bolsonaro?

    Olá, leitores atentos! Hoje precisamos ter uma conversa franca, direta e estritamente baseada em fatos — algo que, infelizmente, parece estar em falta em certas bolhas da internet. Se você acompanhou o noticiário recente, deve ter visto uma movimentação estranha na Câmara dos Deputados, com votações atravessando a madrugada e uma aparente “vitória” da oposição. Mas, se foi uma vitória tão grande assim, por que não vimos a tradicional algazarra, os hinos sendo cantados e as orações de joelhos no plenário?

    A resposta é simples e, para os apoiadores do ex-presidente, devastadora: eles sabem fazer contas. E a matemática, meus amigos, não perdoa ninguém, nem mesmo os “mitos”.

    A Matemática Cruel: Eleições Apenas aos 102 Anos?

    Vamos dissecar o que realmente aconteceu. O projeto aprovado, que muitos celebraram como a “salvação” de Jair Bolsonaro, na verdade, esconde uma armadilha temporal. Atualmente, a pena combinada que paira sobre o ex-presidente gira em torno de 27 anos e 3 meses. Mesmo que, num cenário hipotético e extremamente otimista para a defesa, essa pena caísse para cerca de 20 anos com as novas regras, a situação continua catastrófica.

    A progressão de regime (ir para o semiaberto ou aberto após cumprir 1/6 da pena) não significa o fim da pena. O condenado continua cumprindo sua sentença, apenas em condições diferentes. Se a pena total for de 20 anos, ela só terminaria de ser paga integralmente por volta de 2047.

    E aqui está o “pulo do gato” que a extrema-direita tenta esconder: a Lei da Ficha Limpa determina que a inelegibilidade de 8 anos só começa a contar após o cumprimento total da pena. Ou seja:

    Término da pena: 2047

    Período de inelegibilidade: + 8 anos

    Ano em que estaria apto novamente: 2055

    Como não teremos eleições presidenciais em 2055, a próxima oportunidade seria apenas em 2060. Nascido em 1955, Jair Bolsonaro estaria disputando a presidência com aproximadamente 102 anos de idade. Essa é a realidade que transformou a euforia em um silêncio constrangedor nos corredores de Brasília.

    Dino e a Bomba-Relógio da CPI

    Como se o futuro distante não fosse sombrio o suficiente, o presente reserva surpresas desagradáveis. O Ministro Flávio Dino tem uma carta na manga. Aproxima-se a data limite de 90 dias desde que foi solicitado à Polícia Federal a conclusão do inquérito sobre os crimes apontados na CPI da Covid.

    Essa investigação, que estava em “banho-maria”, deve ser finalizada e entregue à Procuradoria Geral da República (PGR) nos próximos dias (por volta de 18 ou 19 de dezembro). Isso significa que, enquanto a militância se distrai com projetos de lei que dificilmente passarão pelo crivo do STF, uma nova denúncia criminal robusta e documentada está prestes a cair no colo do ex-presidente. É uma “surpresa” que promete azedar as festas de fim de ano de muita gente graúda.

    O Fim das Mordomias e o Impacto em Michelle

    Para piorar o cenário do “clã”, a Justiça Federal decidiu agir com rigor imediato. Foi determinada a suspensão de todos os benefícios vitalícios concedidos a ex-presidentes enquanto durar a execução da pena. Isso significa o corte imediato de seguranças, motoristas e assessores pagos com dinheiro público.

    Essa decisão atinge diretamente a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que utilizava essa estrutura para sua proteção e logística diária. A partir de agora, qualquer “mordomia” terá que sair do bolso privado da família, sem o auxílio dos cofres da União. É o desmonte prático da estrutura de poder que ainda orbitava o ex-presidente, transformando-o, aos olhos da lei e do cotidiano, em um cidadão comum — e presidiário.

    O Longo Caminho das Pedras

    É fundamental lembrar que o projeto aprovado na Câmara é apenas o primeiro passo de uma maratona cheia de obstáculos. O texto ainda precisa:

      Passar pelo Senado (onde a resistência é maior);

      Passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ);

      Ser sancionado pelo Presidente Lula (que certamente vetará);

      Ter o veto derrubado pelo Congresso;

      E, finalmente, enfrentar o Supremo Tribunal Federal (STF).

    A chance de o STF considerar constitucional um projeto que atenta contra o Estado Democrático de Direito é praticamente nula. Portanto, o que vimos ontem foi um teatro político. Um show para manter a base engajada e alimentada por falsas esperanças, enquanto a liderança sabe que o barco já zarpou — e eles ficaram no cais.

    A realidade é dura, mas precisa ser dita: o mundo de ilusão criado pelos algoritmos não resiste a uma simples folha de papel, uma caneta e uma calculadora. A alegria da direita durou pouco, e o choque de realidade promete ser longo.

  • BOLSONARO TENTA FUGIR DA PRlSÃO E ALEXANDRE ACIONA A PF!!! BANANINHA CHORA APÓS CASSAÇÃO E PRlSÃO!!

    BOLSONARO TENTA FUGIR DA PRlSÃO E ALEXANDRE ACIONA A PF!!! BANANINHA CHORA APÓS CASSAÇÃO E PRlSÃO!!

    O Brasil assiste, em tempo real, a uma intensificação dramática do cerco jurídico e político que envolve a família Bolsonaro. A semana foi marcada por dois eventos de alta voltagem: a descoberta de uma suposta e engenhosa tentativa de fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão, meticulosamente disfarçada sob a capa de uma emergência médica, e o desespero público do filho 03, Eduardo Bolsonaro, acuado pela iminente cassação de seu mandato parlamentar.

    Em uma jogada que mistura desespero e tática, a defesa do ex-presidente acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido de prisão domiciliar. O argumento central era a necessidade de uma cirurgia urgente e imediata, que exigiria ao menos sete dias de internação no renomado Hospital Seis Estrelas DF Nova Star. O movimento, contudo, não passou despercebido pelo ministro Alexandre de Moraes, que agiu de forma decisiva, acionando a Polícia Federal (PF) e expondo a fragilidade do plano.

    A Justiça, diante do histórico de manobras envolvendo a saúde de figuras políticas, levantou imediatamente suspeitas. O Hospital Nova Star já foi palco de episódios controversos, como os ocorridos com Roberto Jefferson e Daniel Silveira, onde uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) se transformou em um espaço de livre acesso para visitas não autorizadas pela Justiça, gerando um ambiente de confusão e descontrole. Era evidente o receio de que o mesmo roteiro se repetisse: um deslocamento da custódia oficial para um ambiente hospitalar de luxo, mais propenso a falhas de segurança ou, mais grave, a servir como ponto de partida para um plano de evasão.

    A desconfiança de Moraes, no entanto, foi além da mera especulação. Ao analisar o laudo médico apresentado pelos advogados de Bolsonaro, o ministro identificou uma incoerência crucial: o documento se baseava em exames realizados há três meses. Tão logo a análise foi concluída, a verdade veio à tona, revelando a audácia da estratégia da defesa. A própria equipe médica de Bolsonaro havia, em um episódio anterior, há menos de dois meses, descartado a necessidade de cirurgia após uma internação em outubro por obstrução intestinal.

    Brazil's Most Powerful Judge Is in the Spotlight—Again

    Essa contradição temporal e diagnóstica descredibilizou por completo o pedido. Se os exames de três meses atrás não justificavam a cirurgia na época, por que o fariam agora? A inconsistência sugeria uma tentativa de manipulação, de forçar uma internação com base em dados obsoletos. Além disso, Moraes notou que, desde o início de sua custódia, já se passavam três semanas, e o ex-presidente não havia apresentado nenhuma emergência médica. Ele possui acompanhamento 24 horas e uma rotina que, ironicamente, lhe proporciona uma dieta mais balanceada e controlada do que a que mantinha em casa.

    No cárcere, a dieta restritiva impede o consumo de alimentos de difícil processamento intestinal, como carne de porco, pato ou camarão, que ele costumava consumir. A ausência de emergências médicas derrubou o argumento de que seu estado de saúde estaria se deteriorando rapidamente, desfazendo a alegação de um quadro de “soluços intermitentes” que exigiria uma intervenção imediata.

    Com a credibilidade dos médicos da defesa zerada, o ministro determinou o acionamento dos peritos da Polícia Federal. Em um prazo de até duas semanas, os peritos têm a missão de realizar uma avaliação isenta e emitir um laudo definitivo sobre a real necessidade de uma cirurgia urgente. A decisão de Moraes representa um ponto final na estratégia de usar a saúde como salvo-conduto e reforça o princípio de que, perante a Justiça, apenas laudos periciais independentes são válidos, e não aqueles fornecidos por médicos particulares, que podem estar sujeitos a pressões ou interesses.

    Enquanto o pai era contido por uma decisão judicial cirúrgica, o filho, Eduardo Bolsonaro, vivia seu próprio drama de perda de poder. O deputado federal, conhecido como “Bananinha” por seus apoiadores e críticos, emergiu de um período de reclusão e viagens internacionais (Estados Unidos, El Salvador, Israel, Catar) para confrontar a ameaça real de cassação de seu mandato.

    O pivô da crise é o presidente da Câmara, Hugo Motta, que anunciou o processo de cassação de Eduardo por faltas regimentais. O deputado, que limitou sua atividade nas redes sociais a postagens esporádicas e vídeos de reação no YouTube, reagiu com extrema revolta. Em uma postagem amplamente divulgada, ele acusou Motta de escolher a “desonra” e de se curvar a Alexandre de Moraes, alegando que suas ausências seriam fruto de uma “perseguição” política.

    O discurso de Eduardo escalou rapidamente para a ameaça velada. Ele declarou que Motta “pagaria o preço” e seria “cobrado nas ruas”, insinuando que não poderia mais circular em público se insistisse na cassação. Essa tática de intimidação, que já foi observada em outros momentos da política recente, serve como um termômetro do desespero do clã. A perda do mandato significa a perda do foro privilegiado, abrindo caminho para que qualquer mandado de prisão, atualmente suspenso pela imunidade, possa ser executado. O medo de se tornar um “futuro foragido”, como especulado por analistas, é palpável.

    A ação de Hugo Motta não é isolada; faz parte de um complexo xadrez político que dominou o Congresso. O movimento de cassar Eduardo Bolsonaro serviu como uma espécie de compensação política após a polêmica envolvendo o projeto de lei de “dosimetria”, que propunha a redução de penas para detentos que lessem e trabalhassem. A extrema-direita e o Centrão tentaram aprovar a medida, vista por muitos como uma tentativa de beneficiar indiretamente o ex-presidente.

    Apesar de a redução de pena ser mínima e improvável de se aplicar a Bolsonaro (visto que ele teria de ler e trabalhar na prisão, algo considerado impensável), o debate gerou um “escarcel” na esquerda. A aprovação da medida no Senado colocou o projeto na berlinda da Câmara, mas a resistência do Centrão, que não deseja a medida da forma como está, indica que o projeto pode nem ser votado na próxima semana.

    Caso seja aprovado, o presidente Lula tem o poder de vetá-lo em até 15 dias úteis, um período que se estende por quase um mês devido aos feriados de Natal e Ano Novo. O Congresso entra em recesso e só retorna em 1º de fevereiro. Motta, visando estabilidade no ano eleitoral, já ventilou a aliados que não pretende pautar temas polêmicos, como a derrubada de um veto presidencial, logo no início de fevereiro. O gesto de colocar a cassação de Eduardo na pauta é visto, portanto, como uma forma de aceno à esquerda e de despolarização da pauta antes de 2026.

    A realidade é que o projeto de dosimetria está quase esquecido pelos próprios idealizadores. O que resta é a implacável perseguição política a Eduardo Bolsonaro, vista como uma moeda de troca no grande tabuleiro do poder.

    O desenrolar dos fatos desta semana deixa claro que o ex-presidente e seus aliados estão cada vez mais isolados e recorrendo a estratégias de alto risco, como a tentativa de fuga médica. A Justiça, por sua vez, demonstra ter aprendido com os erros do passado, agindo com celeridade e desconfiança calculada. O clã Bolsonaro, agora, enfrenta a ameaça de um destino duplo: a prisão confirmada para o pai e a perda do capital político e da imunidade para o filho. O jogo não está apenas acirrado; ele está chegando ao seu clímax.

  • DISCURSO QUE CALOU ATÉ BOLSONARISTAS: GLAUBER BRAGA EXPLODE NO PLENÁRIO, EXPÕE BASTIDORES SOMBRIOS E REVELA ATAQUES À PRÓPRIA FAMÍLIA

    DISCURSO QUE CALOU ATÉ BOLSONARISTAS: GLAUBER BRAGA EXPLODE NO PLENÁRIO, EXPÕE BASTIDORES SOMBRIOS E REVELA ATAQUES À PRÓPRIA FAMÍLIA

    CALOU ATÉ A CONHECIDA GRITARIA BOLSONARISTA; A PERGUNTA: A CÂMARA MERECE GLAUBER BRAGA?

    Nos últimos anos, a Câmara dos Deputados tem sido palco de confrontos ideológicos intensos, embates verbais inflamados e disputas políticas que muitas vezes ultrapassam o limite do razoável. Mas, em meio ao tumulto permanente, algumas vozes conseguem se destacar – não pelo volume, mas pela firmeza, pela profundidade moral e pela incapacidade absoluta de negociar aquilo que consideram princípios inegociáveis. Nesse cenário, a pergunta que reverbera pelas galerias fechadas, pelos corredores silenciosos e até mesmo pelas redes sociais é inevitável: a Câmara dos Deputados merece Glauber Braga?

    O episódio que reacendeu essa discussão envolveu não apenas política, mas emoção, memória, dor familiar e a luta de um deputado para defender sua honra diante de algo que ultrapassava a disputa ideológica. Tudo começou com uma provocação pública repetida sete vezes por um agressor que, nas palavras de Glauber, “não sabia o que estava dizendo” – até o momento em que atacou de forma vil a memória da mãe do deputado, uma mulher que ele descreve como honrada, que “cavou o chão com as unhas” e que, àquela altura, já sofria com Alzheimer e faleceria alguns dias depois.

    Essa dor pessoal serviu como pano de fundo para o discurso mais forte, mais emotivo e mais politicamente carregado que o plenário viu nos últimos anos. Um discurso que, por sua densidade emocional, chegou a calar até mesmo a tradicional “gritaria bolsonarista” – conhecida pelas provocações, interrupções e tumultos organizados. Mas, desta vez, ninguém ousou atravessar. O plenário ouviu. E calou.


    “Congresso inimigo do povo”: o início de um confronto anunciado

    Glauber abriu sua fala com uma frase que já seria suficiente para incendiar qualquer sessão: “Congresso inimigo do povo.” Mas imediatamente explicou: se um deputado age de acordo com a consciência pública, se honra os votos que recebeu e não tem do que se envergonhar, então não deve sentir-se ferido pela afirmação.

    O recado estava dado: a crítica não era genérica, mas direcionada. E os alvos sabiam disso.

    Glauber não estava ali para se justificar, não estava ali para fazer pose ou pedir desculpas. Ele mesmo deixou claro: “Eu não posso pedir desculpas por defender uma mulher honrada.” Muito menos se arrepender por reagir a ataques contra sua mãe, seu filho e sua família. Se a provocação repetida e covarde lhe tirou o equilíbrio por um instante, a tentativa de cassá-lo agora tinha outro objetivo, muito mais amplo: calar sua voz política.


    A dor que vira política e a política que vira história

    Glauber Braga é multado em R$ 1 milhão por mera presença em local de  manifestação proibida

    Ao relatar o episódio, Glauber não se escondeu atrás de discursos técnicos ou jurídicos. Falou de emoção, falou de dignidade, falou de um amor que ultrapassa qualquer disputa partidária.

    “Pela minha família, eu sou capaz de muito mais do que um chute na bunda”, declarou.

    O plenário, geralmente barulhento, ficou estático.

    Esse episódio, que seus adversários tentam utilizar como justificativa para cassação, virou o centro de um debate muito maior: até onde vai a hipocrisia política de um Congresso que tolerou tudo, menos um gesto impulsivo de alguém que nunca teve contra si uma denúncia de corrupção em 16 anos de mandato?

    O próprio deputado reforçou essa contradição gritante:

    “Desde 2009 não existe uma única denúncia de corrupção contra mim. E agora eu sou retirado à força do mandato sem ter cometido crime?”

    É uma pergunta que ecoa. Que machuca. Que dialoga diretamente com a indignação crescente da população brasileira.


    A tentativa de cassação: um teatro político anunciado

    Segundo Glauber, a tentativa de cassação não tem absolutamente nada a ver com o episódio do chute. Trata-se, segundo ele, de retaliação direta do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, com quem o deputado travou embates intensos, especialmente durante a luta contra o orçamento secreto – um dos maiores esquemas de corrupção institucionalizada já revelados no país.

    E ele foi ainda mais direto: a representação que pedia sua cassação, feita por um partido adversário, não foi defendida nenhuma vez, nem sequer com uma pergunta na Comissão de Ética. Para Glauber, a tentativa é política, silenciosa e covarde.

    A cena paradoxal se aprofundou quando ele comparou seu processo ao de figuras como Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro, ambos com graves acusações ou condenações formais.

    “Não venham querer me igualar”, disparou.


    A greve de fome, as viagens pelo Brasil e a militância que abraça

    Se a Câmara tentou isolá-lo, o Brasil não tentou.

    Emocionado, Glauber contou como percorreu todos os 26 estados e o Distrito Federal em apenas 48 dias, dialogando com movimentos sociais, trabalhadores, sindicatos, jovens, religiosos e até pessoas que não concordam com suas ideias, mas que reconhecem a injustiça de um processo que tenta cassar um mandato limpo, combativo e coerente.

    Uma multidão que cresceu, se organizou e se fez presente, mesmo sem poder ocupar as galerias – que, segundo Glauber, foram fechadas propositalmente para impedir que o povo acompanhasse a sessão. Uma metáfora perfeita da política que tenta se esconder da própria população.

    Glauber agradeceu um por um: militantes socialistas, trabalhadores, religiosos, apoiadores de várias correntes políticas, figuras públicas e, com especial emoção, a deputada Luiza Erundina, que lhe disse: “Você é o filho que eu não tive.”

    Foi aí que o plenário estremeceu.

    Erundina, aos 91 anos, representa uma linha política que acredita profundamente no poder transformador da justiça social. Ser reconhecido por ela dessa forma não é apenas uma homenagem – é um símbolo, um legado vivo.


    A juventude que observa e o futuro que se constrói agora

    Glauber fez questão de direcionar parte do discurso à juventude que acompanha as sessões, mesmo quando elas são transmitidas pela metade – como ocorreu recentemente quando a TV Câmara foi tirada do ar durante tumultos envolvendo bolsonaristas.

    Ele fez um alerta profundo:

    “Não se pode negociar princípios e convicções profundas.”

    A frase sintetiza sua postura desde que chegou à Câmara, em 2009: não recuar em temas estruturais, não se omitir diante da injustiça, não recuar frente à pressão.

    Glauber relembrou a luta pelas 40 horas semanais, a denúncia contra o orçamento secreto, a defesa da classe trabalhadora e a batalha contra a pejotização e a precarização do trabalho. Ele lembrou que mandatos parlamentares devem ser tribunas do povo, ecoando a frase clássica de Lenin – algo raro de se ouvir em pleno plenário.

    E completou:

    “Eu estou deputado federal. Eu sou militante socialista. E isso não se negocia.”


    Hugo, de quatro anos, e a promessa silenciosa de um pai

    Um dos momentos mais emocionantes do discurso – e talvez um dos mais humanos já vistos no Congresso – foi quando Glauber falou de seu filho Hugo, de apenas quatro anos.

    Ele contou que o menino gosta de ir à Câmara, subir nos carpetes, correr pelos corredores – sem entender nada do que está acontecendo naquele momento.

    Mas, um dia, vendo os vídeos dessa sessão, ele entenderá. E, segundo Glauber, não terá motivos para se envergonhar do pai.

    Nesse momento, muitos parlamentares – até adversários – baixaram os olhos.


    O desfecho provisório de uma batalha maior

    Glauber encerrou afirmando que não estava nervoso, mas calmo – profundamente calmo –, porque estava consciente de estar cumprindo seu papel. Ele sabia que a decisão final estaria nas mãos dos demais parlamentares e que seu voto nem contaria no processo.

    Mas fez questão de marcar posição, deixando uma marca histórica no plenário:

    “Calar um mandato que não se corrompeu é uma violência.”

    E para muitos brasileiros que assistiram de casa, pela internet, pelos recortes que viralizaram, uma pergunta permanece: quem merece quem?

    A Câmara merece um deputado como Glauber Braga?

    Ou o país merece uma Câmara capaz de silenciar justamente aqueles que não têm manchas, não têm escândalos, não têm rabo preso – apenas coragem?

    A resposta, como ele mesmo disse, virá não apenas da votação, mas da história.

    Porque, diante de uma política marcada por escândalos, acordos secretos, conchavos e traições, uma coisa ficou clara naquela tarde:

    Glauber Braga falou pelo seu mandato, falou pela sua mãe, falou pelo seu filho, falou pelos trabalhadores – mas, acima de tudo, falou por um Brasil que se recusa a aceitar a injustiça como normalidade.

    E isso, definitivamente, não se cala.

  • PAU QUEBRANDO NO CONGRESSO: HUMBERTTO COSTA EXPLODE DE REVOLTA, DETONA HUGO MOTTA E ESCANCARA ESQUEMA PARA SALVAR BOLSONARO E ANISTIAR GOLPISTAS EM AÇÃO CHOCANTE E SEM PRECEDENTES!

    PAU QUEBRANDO NO CONGRESSO: HUMBERTTO COSTA EXPLODE DE REVOLTA, DETONA HUGO MOTTA E ESCANCARA ESQUEMA PARA SALVAR BOLSONARO E ANISTIAR GOLPISTAS EM AÇÃO CHOCANTE E SEM PRECEDENTES!

    PAU QUEBRANDO: HUMBERTO COSTA PERDE A PACIÊNCIA E DESTRÓI HUGO MOTTA E DESMORALIZA BOLSONARO SEM DÓ!

    Em um dos discursos mais incendiários e contundentes já registrados no Senado Federal nos últimos anos, o senador Humberto Costa protagonizou um momento que imediatamente reverberou em todo o cenário político nacional. Visivelmente indignado, o parlamentar denunciou, em detalhes, o que chamou de “um espetáculo de horrores” ocorrido na Câmara dos Deputados, acusando o presidente da Casa, Hugo Motta, e o bolsonarismo de conduzirem um ataque orquestrado contra a democracia, a imprensa, os parlamentares e o Estado de Direito.

    O estopim de toda a revolta foi a aprovação, durante a madrugada, de um projeto que reduz penas de envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo Humberto Costa, a votação não apenas ocorreu “às escondidas”, mas teria sido previamente autorizada pelo próprio Jair Bolsonaro — atualmente condenado e preso — configurando um acordo político-penal entre a extrema direita e setores da Câmara. O senador não poupou palavras ao denunciar o que considera uma “manobra vergonhosa” para beneficiar golpistas de alto escalão.

    “Um espetáculo de horrores que envergonhou o país”

    Ao iniciar o discurso, Costa fez questão de contextualizar: o Congresso é independente, mas isso não o impede de reagir diante de abusos e acontecimentos graves provenientes de qualquer uma das Casas Legislativas. Para ele, o que aconteceu na Câmara ultrapassou todos os limites aceitáveis.

    Segundo o senador, a votação surpresa que reduziu penas dos envolvidos no golpe de 8 de janeiro constitui um recado perigoso ao Brasil. “O que estão dizendo é que é possível planejar golpe, destruir patrimônio, atacar instituições e, no final, receber um afago do Congresso”, disse.

    Ele foi além, afirmando que, se o golpe tivesse sido bem-sucedido, muitos parlamentares hoje estariam mortos, presos, torturados ou exilados, e talvez o próprio Congresso nem estivesse de portas abertas. Não se tratava apenas de reduzir penas: tratava-se, na visão dele, de reescrever a história e liberar novamente o caminho para novos atentados contra a democracia.

    A acusação mais forte: “autorizado de dentro da cadeia”

    Uma das frases mais impactantes do discurso foi a afirmação de que a votação teria sido “combinada e autorizada de dentro da cadeia” por Jair Bolsonaro. Condenado a mais de 27 anos de prisão, o ex-presidente teria orientado sua base política sobre como agir, em troca de apoio eleitoral para 2026.

    Segundo Costa, o projeto aprovado não é para beneficiar “peixe pequeno”, mas sim os líderes da organização criminosa — começando pelo próprio Bolsonaro. A proposta aprovada pela Câmara buscaria abrandar condenações já julgadas, contrariando decisões judiciais e abrindo um precedente perigoso na história do país.

    Violência contra parlamentares e censura: “Nem na ditadura”

    Em um tom cada vez mais inflamado, Humberto Costa também denunciou episódios de violência que teriam ocorrido durante a votação. Para ele, Hugo Motta protagonizou um dos momentos mais vergonhosos da história da Câmara ao determinar ação agressiva da Polícia Legislativa contra deputados, especialmente Glauber Braga.

    O senador ressaltou que jamais, nem mesmo durante a ditadura militar, se viu jornalistas sendo expulsos de um plenário ou impedidos de exercer sua função. A imprensa foi retirada à força, impedida de filmar e até a TV Câmara teve sua transmissão cortada. “Uma violência inominável contra a liberdade de imprensa dentro da casa do povo”, disse Costa, lembrando que Hugo Motta havia prometido honrar a memória de Ulisses Guimarães, símbolo da luta contra a ditadura, mas acabou envergonhando esse legado.

    O “acordão” para 2026: um escândalo político-eleitoral

    O senador atribuiu o episódio a um acordo político entre Hugo Motta, Tarcísio de Freitas e o bloco bolsonarista. O objetivo, segundo ele, seria pavimentar alianças para as eleições de 2026, usando a democracia como moeda de troca.

    “Negociadores da pátria”, afirmou Costa, descrevendo o grupo como cúmplice de um pacto vergonhoso que coloca interesses eleitorais acima da preservação do regime democrático. Ele acusou esses atores de entregarem o Estado brasileiro para atender aos interesses criminosos de uma única família e de um movimento político extremista.

    Glauber Braga vs. Eduardo Bolsonaro: pesos e medidas distintos

    Outro ponto central do discurso foi a crítica ao tratamento desigual dado a diferentes parlamentares. Enquanto Glauber Braga estaria sendo alvo de processo de cassação por se defender de um agressor que atacou sua mãe doente, Eduardo Bolsonaro — que abandonou seu mandato para atuar contra o país — estaria sendo protegido pela Câmara.

    Costa lembrou ainda do caso da deputada que, armada, perseguiu um cidadão em São Paulo e chegou a ser presa na Itália. Mesmo assim, segundo ele, ela permanece “vergonhosamente vinculada” ao Legislativo.

    Um alerta ao Senado: “Não entreguem as chaves da casa ao golpismo”

    Com tom firme, Humberto Costa apelou para que o Senado Federal rejeite o projeto vindo da Câmara. Segundo ele, aprovar a proposta significaria fragilizar a democracia como nunca antes desde 1988.

    O senador alertou para o risco de uma crise institucional profunda envolvendo os três poderes e enfatizou que suas “digitais não estarão nessa vergonha”. Ele garantiu que a bancada do PT, incluindo sua colega Teresa Leitão, votará contra a proposta.

    “Não fui eleito para anistiar golpistas”, afirmou.

    O impacto político imediato

    O discurso viralizou rapidamente, ganhando força nas redes sociais e alimentando um clima de tensão crescente entre Senado, Câmara e setores do Executivo. A fala de Costa expõe as rachaduras internas do Congresso e coloca pressão direta sobre os senadores, que agora têm em mãos a responsabilidade de decidir se o projeto será enterrado ou aprovado.

    Analistas políticos afirmam que o país vive um momento crítico: a votação do Senado pode definir o rumo da democracia brasileira pelos próximos anos. Uma eventual derrota do projeto significaria um revés profundo para o bolsonarismo. Já sua aprovação poderia fortalecer a narrativa de que o Congresso estaria disposto a flexibilizar punições contra golpistas, abrindo precedente perigoso.

    Democracia em xeque: o que está em jogo?

    O discurso de Humberto Costa não é apenas um desabafo. É um retrato da tensão institucional que o Brasil enfrenta em um momento delicado, no qual o passado recente — marcado pelo 8 de janeiro — ainda reverbera nas estruturas do Estado.

    A possível anistia ou redução de penas de golpistas traz um risco evidente: a normalização de crimes contra a democracia. Se a mensagem transmitida for a de impunidade, movimentos extremistas podem sentir-se encorajados a tentar novamente, acreditando que terão proteção institucional.

    O senador buscou justamente escancarar esse risco, afirmando que aprovar o projeto seria dizer ao país: “Façam de novo, que no final o Congresso vai passar a mão na cabeça de vocês”.

    Conclusão: um discurso que ecoará por muito tempo

    Humberto Costa protagonizou um dos discursos mais duros já feitos contra o bolsonarismo dentro do Senado. Sua fala, carregada de indignação, acusação e defesa enfática da democracia, colocou luz sobre articulações políticas que estavam acontecendo nos bastidores.

    Agora, o foco volta-se ao Senado Federal. A decisão dos senadores não será apenas sobre um projeto de lei — será um marco histórico sobre até onde o Brasil está disposto a ir para proteger sua democracia.

    Seja qual for o desfecho, uma coisa é certa: o discurso de Humberto Costa já entrou para a história política recente como um grito de alerta, um chamado à responsabilidade institucional e um marco na defesa do Estado democrático de direito.

    A democracia está em jogo — e, como destacou o senador, não haverá neutralidade possível nesse momento.

  • ‘Lula ficou 580 dias preso sem pedir anistia’, dispara Otto Alencar ao rebater pressões no Senado e expor contradições explosivas sobre a corrida pela anistia bolsonarista

    ‘Lula ficou 580 dias preso sem pedir anistia’, dispara Otto Alencar ao rebater pressões no Senado e expor contradições explosivas sobre a corrida pela anistia bolsonarista

    “Lula passou 580 dias preso e não pediu anistia”, dispara Otto Alencar — Debate no Senado expõe tensão sobre projeto de anistia

    Brasília viveu uma tarde de ebulição política rara até mesmo para os padrões das últimas semanas. Em meio ao debate acalorado sobre o projeto de anistia para envolvidos nos atos antidemocráticos, uma frase disparada pelo senador Otto Alencar (PSD-BA) ecoou pelo plenário como uma rajada de ar frio, congelando a sessão por alguns segundos:

    “O ex-presidente Lula passou 580 dias preso e não pediu anistia.”

    A declaração, em tom firme e incisivo, simbolizou o ponto mais tenso de um debate que já vinha sendo marcado por discordâncias regimentais, pressões políticas e divergências profundas sobre o futuro do projeto que tramita na Câmara e pode chegar ao Senado nos próximos dias.

    O clima no Senado: cobrança, pressa e resistência

    Tudo começou quando parlamentares questionaram à mesa diretora se o projeto — ligado à dosimetria das penas e visto por muitos como uma forma indireta de anistia — seria pautado ainda este ano. A discussão rapidamente ultrapassou os limites técnicos e ganhou contornos políticos.

    O presidente do Senado afirmou:

    “Há pelo menos seis meses, tratamos deste tema entre os líderes. Sempre disse que precisávamos buscar uma solução de pacificação para o Brasil.”

    Segundo ele, a expectativa sempre foi que Câmara e Senado seguissem um acordo comum: a Câmara votaria primeiro e, uma vez aprovado, o Senado daria seguimento sem demora — porém dentro das regras regimentais, com passagem pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

    Mas nem todos concordaram com a ideia de acelerar o processo.

    Foi nesse momento que o senador Otto Alencar pediu a palavra e, visivelmente indignado com a possibilidade de votação direta em plenário sem discussão prévia na CCJ, fez um dos discursos mais contundentes da sessão.

    Otto Alencar reage: “Não aceito votar de afogadilho”

    Otto Alencar nega articulação por votos para Jorge Messias

    O senador deixou claro que, embora respeite as posições divergentes, não admitiria que um tema de tamanha relevância fosse votado “de afogadilho”.

    “Não posso aceitar que chegue aqui e se vote imediatamente. Isso é um desrespeito aos senadores.”

    A frase ecoou entre as mesas, gerando um clima de desconforto entre os defensores da votação acelerada.

    Otto seguiu:

    “Se for para a CCJ, terá relator, terá discussão, terá deliberação. Mas chegar aqui e votar sem debate, eu discordo completamente.”

    Essa defesa enfática das normas regimentais foi vista por alguns como um recado direto aos parlamentares da oposição, que pressionam para acelerar o processo e liberar os investigados e condenados pelos atos de 8 de janeiro.

    O ponto de inflexão: Lula, prisão e anistia

    Tổng thống Lula của Brazil tiết lộ ông thích ai trở thành tổng thống Mỹ |  Báo Pháp Luật TP. Hồ Chí Minh

    O ápice da tensão veio quando Rogério Marinho argumentou que o Senado deveria agir com celeridade porque “há pessoas presas”, sugerindo que a demora seria uma forma indireta de punição.

    A resposta de Otto foi imediata — e histórica:

    “O ex-presidente Lula passou 580 dias preso e não pediu anistia.”

    Silêncio. Olhares trocados. Câmeras se ajustando.

    A comparação surpreendeu até os aliados. Em um único movimento, o senador desmontou o argumento da urgência baseada em sofrimento pessoal e recolocou o debate nos trilhos institucionais: a lei não pode ser moldada para casos específicos.

    Otto continuou:

    “O fato de alguém estar preso não justifica atropelar a discussão. Lula ficou preso mais de um ano e meio. Não pediu favor, não pediu anistia.”

    A fala viralizou quase instantaneamente nas redes sociais. Parlamentares, jornalistas e assessores começaram a redigir mensagens freneticamente. A sessão seguiu, mas o ambiente já havia mudado.

    A disputa sobre o calendário e a controvérsia do remoto

    O presidente da Casa tentou encontrar uma solução intermediária. Ofereceu um caminho: caso a Câmara votasse o projeto ainda hoje, o texto poderia ser enviado à CCJ imediatamente, e o relator seria designado no dia seguinte.

    Mas havia um problema técnico que rapidamente virou político: a próxima semana é de votação remota.

    Otto foi categórico:

    “Não votarei isso no sistema remoto. Absolutamente não concordo.”

    Segundo ele, um tema “dessa magnitude” exige presença física, debate aberto e transparência integral.

    Parlamentares da oposição, especialmente ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, argumentaram que havia urgência porque o projeto “poderia libertar pessoas presas injustamente”. A base governista insistiu que não se tratava de libertar ninguém de imediato, mas sim de ajustar a legislação.

    O embate tornou-se praticamente simbólico:
    celeridade contra rito; pressão social contra regimento; política contra institucionalidade.

    Por dentro da disputa: afinal, o que está em jogo?

    O projeto em discussão não é uma anistia explícita, mas envolve a dosimetria das penas na Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito. A proposta inclui revisões de critérios, lacunas e interpretações que, na prática, podem beneficiar investigados e condenados pelos atos de 8 de janeiro.

    Por isso, parlamentares mais alinhados à oposição veem a proposta como uma oportunidade de reverter punições consideradas “excessivas”, enquanto a base governista tenta manter o debate dentro de limites técnicos.

    Otto Alencar, por sua vez, enfatizou que a relevância do tema exige tempo, prudência e debate adequado:

    “Eu sigo o regimento. Vou designar relator, vamos discutir e deliberar. Mas não votarei de imediato.”

    Oposição reage, governo pondera, e o Senado segue dividido

    Senadores da oposição criticaram a “lentidão” e insistiram que a matéria poderia ser levada diretamente ao plenário, citando precedentes em outras sessões.

    Já senadores governistas lembraram que a tramitação acelerada exige acordo coletivo — algo que não existe no momento.

    Jacques Wagner, líder do governo, buscou um tom conciliador:

    “Não tenho nada contra discutir a dosimetria. Mas precisamos de calma e responsabilidade.”

    Ele reconheceu a pressão, mas reforçou que o calendário deve ser construído com equilíbrio.

    O dilema do Congresso: pacificar ou inflamar?

    A discussão acalorada reflete um dilema maior que assombra Brasília desde 2022:
    como pacificar o país sem parecer condescendente com atos antidemocráticos?

    O presidente do Senado, ao mencionar que buscava “uma solução de pacificação”, admitiu que havia uma expectativa de que o projeto avançasse como um gesto político. Mas a reação dos senadores mostra que esse gesto não é consensual.

    Ao contrário: muitos temem que acelerar demais pareça uma capitulação.

    Otto Alencar resume esse temor:

    “Esta matéria importa a muitos seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Tenho o dever de colocar para votar — mas corretamente, pelo rito. Não de forma atropelada.”

    A fala sobre Lula vira símbolo de resistência ao atalho regimental

    A frase “Lula passou 580 dias preso e não pediu anistia” ganhou outro significado dentro do debate:
    foi usada como argumento para reforçar que ninguém está acima do processo legal, seja aliado ou adversário.

    Para analistas, a declaração de Otto:

    Desarmou a narrativa da urgência emocional;

    Reposicionou o debate no campo institucional;

    E dialogou com a opinião pública que vê com desconfiança qualquer movimento que pareça casuístico.

    E agora? O que pode acontecer?

    Três cenários são possíveis nos próximos dias:

    1. A Câmara vota imediatamente e envia ao Senado

    A CCJ é acionada, o relator é nomeado, e o debate começa ainda nesta semana — mas sem votação remota.

    2. A Câmara adia a votação

    O tema fica para fevereiro, reacendendo a tensão entre oposição e governo.

    3. O Senado tenta costurar um acordo interno

    Se houver número suficiente de senadores dispostos a assinar um requerimento, o projeto poderia ir direto ao plenário, apesar da resistência de Otto.

    Mas, pelo tom do debate, o caminho regimental clássico parece ganhar força.

    Conclusão: Uma tarde que entrou para os anais do Senado

    O debate desta tarde mostrou que a discussão sobre anistia — direta ou indireta — está longe de ser simples. Não se trata apenas de técnica legislativa, mas de memória recente, feridas políticas e interpretações divergentes sobre justiça.

    A frase de Otto Alencar sintetizou esse conflito:

    “Lula não pediu anistia.”

    E, a partir dela, o Senado precisará decidir se seguirá o caminho mais rápido ou o caminho mais institucional. A única certeza é que a disputa está longe do fim — e que cada palavra dita no plenário agora reverbera muito além das paredes de Brasília.