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  • A Rua da Criança Perdida na Cidade do México: A Verdadeira História de Terror que Ninguém Conta

    A Rua da Criança Perdida na Cidade do México: A Verdadeira História de Terror que Ninguém Conta

    Bem-vindos a este percurso por um dos casos mais emocionantes e esquecidos da Cidade do México. Antes de começar, convido-vos a deixar nos comentários de onde nos estão a ouvir e a hora exata neste momento.

    Interessa-nos profundamente saber até que lugares e em que momentos do dia ou da noite chegam estes relatos que a cidade tentou enterrar sob o betão e o esquecimento.


    A história que estão prestes a ouvir não é uma lenda urbana, não é um conto de terror inventado para assustar as crianças. É o testemunho de uma época em que a palavra de um adulto valia mais do que a vida de uma criança.

    Uma época em que as paredes de uma casa podiam guardar segredos mais obscuros do que qualquer sepultura.


    Existe na Cidade do México uma rua cujo nome ressoa com o eco de um choro que nunca cessou. Uma rua que leva o nome de um menino que desapareceu dentro da sua própria casa.

    Um menino que gritou durante dias sem que ninguém pudesse ouvi-lo. Um menino que morreu na mais absoluta escuridão, emparedado vivo pela única pessoa que deveria protegê-lo.


    Esta é a história do “menino perdido”, uma história que os nossos avós contavam em voz baixa, que as famílias do centro da cidade transmitiam de geração em geração e que as autoridades da época preferiram sepultar sob o peso do silêncio institucional.


    Corria o ano de 1908. A Cidade do México encontrava-se em plena transformação sob o Porfiriato.

    Don Porfirio Díaz levava mais de 30 anos no poder e a capital enchia-se de edifícios modernos, avenidas amplas e uma falsa sensação de progresso que ocultava as profundas desigualdades de uma sociedade dividida.


    Era uma época de contrastes brutais. Enquanto as famílias abastadas passeavam pelo Paseo de la Reforma nas suas carruagens puxadas por cavalos importados, os bairros populares asfixiavam-se na pobreza e na superlotação.

    A justiça funcionava com duas velocidades, dois pesos, duas medidas, e as crianças, especialmente as crianças pobres ou órfãs de mãe, não tinham voz alguma.


    O centro da cidade ainda conservava essa arquitetura colonial que hoje admiramos, mas que na altura se deteriorava rapidamente.

    Casas de dois e três andares com pátios interiores, varandas de ferro forjado, muros de tezontle (pedra vulcânica) vermelho com mais de meio metro de espessura, portas de madeira maciça que pesavam tanto que eram precisos dois homens para as mover.


    As ruas do centro enchiam-se todas as manhãs com o som dos pregoeiros. “Tamales de Oaxaca”, gritavam as vendedoras ambulantes. “Compram-se colchões velhos”, anunciavam os comerciantes que percorriam as ruas com as suas carroças.

    O cheiro a carvão e a tortilhas acabadas de fazer misturava-se com o aroma do pão doce que saía das padarias antes do amanhecer.


    Nesse México do início do século XX, a família era uma instituição sagrada e intocável. O que acontecia dentro de portas de uma casa permanecia dentro de portas.

    Os vizinhos podiam suspeitar, podiam murmurar, mas nunca interferiam nos assuntos familiares alheios. E as autoridades, nas poucas vezes em que se envolviam, davam sempre preferência à palavra do adulto sobre qualquer evidência que pudesse sugerir o contrário.


    Numa dessas casarões do centro da cidade, especificamente na rua que então se conhecia como Calle de las Damas número 32, a seis quarteirões do Zócalo e a três da Alameda Central, vivia uma família que parecia como qualquer outra.

    A casa era imponente por fora, três andares de altura com uma fachada de cantaria cinzenta que outrora foi branca.


    A porta principal de madeira de cedro talhada com motivos florais dava acesso a um saguão longo e estreito que conduzia ao pátio principal. Este pátio, como todos os das casas coloniais, tinha no centro uma fonte de cantaria com um pequeno repuxo.

    À volta cresciam buganvílias que trepavam pelas colunas até ao segundo andar. Os pisos eram de ladrilhos hidráulicos com desenhos geométricos em tons vermelhos e pretos.


    Os quartos distribuíam-se à volta do pátio, cada um com janelas de guilhotina e varandas para o interior. No segundo andar estavam os quartos principais e no terceiro os quartos de serviço e uma área de lavandaria com tanques de barro.


    O dono desta casa era Don Sebastián Montes de Oca. Um homem de 43 anos que trabalhava como comerciante de tecidos finos.

    Tinha um local no portal dos mercadores, onde vendia sedas importadas da China, linho da Irlanda e veludos de França. Era um negócio próspero que lhe permitia manter a casa e contratar serviço doméstico.


    Don Sebastián tinha ficado viúvo 3 anos antes, em 1905. A sua primeira esposa, Doña María del Carmen Ríos, tinha morrido de tuberculose depois de uma longa doença.

    A doença tinha-a levado lentamente, consumindo-a durante dois anos até a deixar irreconhecível. Tinha morrido nessa mesma casa, no quarto principal do segundo andar, rodeada de imagens religiosas e do cheiro penetrante dos medicamentos que já não serviam para nada.


    Desse casamento tinha nascido um único filho, um menino que em 1908 tinha apenas 7 anos de idade. Chamava-se Francisco Montes de Oca Ríos, mas todos na família e no bairro o conheciam simplesmente como Panchito.

    Panchito era um menino pequeno para a sua idade, de compleição magra e pele pálida, que herdou da mãe. Tinha o cabelo preto e liso que lhe caía sobre a testa em madeixas rebeldes.


    Os seus olhos eram grandes e escuros, desses olhos que parecem guardar uma tristeza antiga. Na sua bochecha direita tinha uma pequena pinta que a sua mãe costumava beijar antes de dormir.

    Era um menino calado, não como os outros meninos do bairro que jogavam às bolinhas de gude nas ruas ou corriam atrás dos carros que distribuíam leite.


    Panchito passava as tardes sentado no pátio da sua casa, observando as buganvílias e contando os ladrilhos do chão.

    Alguns vizinhos diziam que era um menino demasiado sério para a sua idade, como se a morte da sua mãe lhe tivesse roubado algo mais do que a sua companhia.


    Doña Gertrudis López, a vizinha que vivia na casa contígua, uma mulher de 60 anos que passava as manhãs na sua varanda do segundo andar, recordaria anos depois que Panchito costumava falar sozinho.

    Dizia que conversava com a sua mãe morta, que lhe contava coisas do dia e lhe perguntava sobre as flores do pátio. “Não é que estivesse louco”, diria Doña Gertrudis no seu testemunho. “É que estava sozinho, completamente sozinho naquela casa grande.”


    Don Sebastián, devastado pela perda da sua esposa, tinha-se afundado no trabalho. Saía de casa antes do amanhecer e regressava depois do anoitecer.

    Aos domingos viajava para Puebla ou Toluca para negociar novos envios de tecido. Às vezes passava semanas inteiras fora da cidade.


    Panchito ficava ao cuidado de Jacinta, uma mulher oaxaqueña de 50 anos que tinha trabalhado com a família desde antes de o menino nascer.

    Jacinta era uma mulher robusta, de mãos grandes e calejadas pelo trabalho. Tinha o cabelo completamente branco que sempre usava apanhado num coque apertado.


    Usava saias longas de manta e xales escuros. Falava pouco, mas quando o fazia, a sua voz era suave e musical com esse sotaque zapoteco que nunca perdeu.

    Jacinta amava Panchito como se fosse o seu próprio filho. Dava-lhe banho, preparava-lhe a comida, ensinava-lhe as poucas letras que ela própria conhecia.


    À noite, quando o menino não conseguia dormir porque sentia falta da mãe, Jacinta ficava sentada junto à sua cama cantando-lhe canções em zapoteco até que o sono o vencesse.


    Mas um homem viúvo, especialmente um homem de negócios no México porfiriano, não podia permanecer sozinho por muito tempo. A sociedade via isso mal. Os clientes desconfiavam de um comerciante sem esposa que supervisionasse a sua casa.

    E Don Sebastián, além da pressão social, sofria a solidão como uma doença física.


    Foi assim que, no final de 1907, apenas dois anos depois da morte de Doña María del Carmen, Don Sebastián conheceu uma mulher numa reunião social organizada por outros comerciantes do centro.

    Chamava-se Hortensia Villalobo Santa María. Tinha 32 anos. Era viúva sem filhos e provinha de uma família em declínio de San Luis Potosí.


    O seu primeiro esposo tinha morrido em circunstâncias que ela preferia não detalhar e, desde então, tinha vivido com uma irmã mais velha numa pensão da colónia Santa María la Ribera.

    Hortensia era uma mulher alta, de figura esbelta e porte ereto. Tinha o cabelo castanho claro que penteava num apanhado elaborado adornado com pentes de tartaruga.


    O seu rosto era angular, de maçãs do rosto altas e lábios finos, mas o que mais chamava a atenção eram os seus olhos. Olhos verdes, claros como a água, que podiam ser encantadores quando sorria, mas que se tornavam duros como o gelo quando algo a contrariava.

    Vestia sempre de preto, como correspondia à sua condição de viúva, mas eram vestidos de tecido fino, com rendas e bordados que sugeriam um gosto requintado.


    Usava perfume francês, um aroma a violetas que deixava atrás de si quando caminhava. Falava com voz suave e modulada, com a dicção perfeita de quem tinha recebido educação num colégio de freiras.


    Don Sebastián ficou apaixonado por ela desde o primeiro encontro. Hortensia sabia exatamente o que dizer e quando dizê-lo. Conhecia os bons modos, sabia de literatura e música.

    Tocava piano com destreza e bordava com mãos delicadas. Era, em aparência, a esposa perfeita para um comerciante próspero que precisava de recuperar a respeitabilidade social.


    O namoro foi breve. Naquela época, os viúvos podiam voltar a casar sem esperar o período completo de luto que era exigido às viúvas.

    Don Sebastián começou a visitar Hortensia na pensão, sempre na presença da sua irmã como acompanhante.


    Levava-lhe rosas que comprava no mercado de La Merced, um terço de prata que tinha pertencido à sua mãe e prometeu-lhe uma vida confortável numa casa grande do centro da cidade.


    Hortensia aceitou o namoro com uma mistura de agrado calculado e necessidade real. Aos seus 32 anos, sem família própria e sem recursos, as opções para uma viúva no México do início do século XX eram limitadas.

    Podia continuar a viver da caridade da sua irmã, trabalhar como institutriz ou dama de companhia, ou aceitar a proposta de casamento de um homem respeitável que lhe oferecia segurança.


    Só houve um detalhe que pareceu incomodá-la durante o namoro. Um detalhe que Don Sebastián mencionou quase de passagem numa das suas primeiras conversas.

    “Tenho um filho”, tinha-lhe dito Don Sebastián. “Um menino de 7 anos que se chama Francisco. É tudo o que me resta da minha primeira esposa. É um menino tranquilo, obediente. Tenho a certeza de que gostará de ti como gostava da mãe.”


    Hortensia tinha assentido com um sorriso que não chegou aos seus olhos. “Claro”, tinha respondido. “Será um prazer ser mãe para esse menino.”

    Mas algo na sua voz, algo quase impercetível, tinha soado falso, como as notas desafinadas de um piano que precisa de afinação.


    Casaram-se a 12 de abril de 1908 numa cerimónia discreta na igreja de Santo Domingo. Não houve grande celebração.

    Os viúvos que voltavam a casar não podiam ter festas ostentosas, apenas uma missa de vigília pela manhã, com um punhado de convidados e um pequeno-almoço simples no restaurante do Hotel Iturbide.


    Panchito não assistiu ao casamento. Don Sebastián considerou que era demasiado jovem para entender o evento e que, além disso, poderia ficar triste ao ver o seu pai a casar-se com alguém que não era a sua mãe.

    O menino ficou em casa ao cuidado de Jacinta, a brincar no pátio enquanto a vida do seu pai mudava para sempre naquela igreja do centro.


    Quando Don Sebastián levou Hortensia para casa, nessa mesma tarde, Panchito estava sentado no pátio, no seu lugar de sempre, junto à fonte.

    Vestia a sua roupa de domingo, um fato de marinheiro azul escuro que lhe ficava um pouco grande. Jacinta tinha-lhe lavado o rosto e penteado o cabelo com água e brilhantina.


    Tinha-lhe avisado que devia portar-se bem, que devia saudar a sua nova mãe com respeito, que devia fazer-lhe uma vénia como era costume.

    Don Sebastián entrou primeiro no pátio, levando a sua nova esposa pela mão. “Panchito”, disse com voz alegre, forçadamente alegre, “vem saudar a tua nova mãe.”


    O menino levantou-se lentamente, caminhou na direção deles com passos pequenos, parou a um metro de distância, fez uma pequena vénia, tal como Jacinta lhe tinha ensinado. “Boa tarde”, murmurou com voz apenas audível.

    Hortensia olhou-o de cima a baixo. Não estendeu a mão, não se baixou para estar à sua altura, apenas o observou com esses olhos verdes que pareciam avaliar e julgar simultaneamente.


    “Boa tarde”, respondeu finalmente. A sua voz era fria, correta, mas fria, como a saudação que se dá a um empregado ou a um desconhecido na rua.

    Panchito levantou o olhar. Os seus olhos escuros encontraram os olhos verdes dela e, nesse instante, algo aconteceu entre eles. Algo silencioso e invisível, mas tão real como o ar que respiravam.


    O menino soube, da maneira como as crianças sabem as coisas sem necessidade de palavras. Soube que essa mulher não gostava dele. Soube que a sua presença a incomodava.

    Soube que por detrás desse sorriso educado e desses modos perfeitos havia algo obscuro, algo perigoso.


    E ela também soube. Soube que o menino a tinha visto, que tinha visto para além da sua fachada de senhora respeitável. E isso, mais do que qualquer outra coisa, fê-la odiá-lo desde esse primeiro momento.


    Don Sebastián, alheio a tudo isto, sorriu satisfeito. “Vais ver que se darão muito bem”, disse. “Panchito é um menino bom, muito obediente, nunca dá problemas.”

    Hortensia assentiu sem deixar de olhar para o menino. “Tenho a certeza disso”, respondeu.


    Os primeiros dias foram de ajuste. Hortensia tomou o controlo da casa com a eficiência de um general a ocupar um território inimigo.

    Reorganizou os móveis, trocou as cortinas, mandou reparar as janelas que não fechavam bem. Revistou cada canto da casa com olho crítico, encontrando defeitos que Don Sebastián nunca tinha notado.


    Com Jacinta estabeleceu uma relação de distância profissional. Dava-lhe ordens todas as manhãs e esperava que fossem cumpridas à risca.

    Já não lhe permitia cantar enquanto trabalhava. Já não tolerava que passasse tempo com Panchito para além do estritamente necessário.


    “Jacinta tem trabalho a fazer”, dizia a Don Sebastián. “Não pode estar a entreter o menino o dia todo. Isso está a estragá-lo.”

    E com Panchito, as coisas foram deteriorando-se gradualmente. No início foram mudanças pequenas, quase impercetíveis.


    Panchito já não comia na sala de jantar com o pai, agora comia na cozinha, sozinho num banquinho baixo. “É melhor assim”, explicava Hortensia.

    “Os meninos fazem tanta desordem na mesa, mancham as toalhas, não sabem usar corretamente os talheres.”


    Depois vieram as repreensões por cada pequeno erro: por fazer barulho ao caminhar, por deixar uma porta aberta, por sujar a roupa ao brincar.

    “És um menino descuidado”, dizia-lhe com voz cortante. “O teu pai trabalha muito para te dar o que tens e tu não sabes apreciá-lo.”


    Panchito começou a passar cada vez mais tempo fechado no seu quarto. Era um quarto pequeno no segundo andar com uma cama de solteiro de ferro forjado, um baú onde guardava a sua pouca roupa e uma janela que dava para o pátio interior.

    Nas paredes pendiam duas imagens religiosas que tinham pertencido à sua mãe, uma do Sagrado Coração e outra da Virgem de Guadalupe.


    O menino passava as tardes a olhar pela janela. Observava Jacinta enquanto lavava a roupa nos tanques do pátio. Contava as buganvílias que caíam das trepadeiras.

    Falava sozinho, como sempre tinha feito, mas agora as suas conversas imaginárias com a sua mãe morta tinham mudado de tom.


    “Mãe”, sussurrava à imagem da Virgem, “Essa senhora não gosta de mim. Olha para mim feio, diz-me coisas más quando o pai não está. Por que é que o pai casou com ela? Por que é que tu te foste e ela veio?”


    Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, escutava estas conversas através das paredes finas que separavam ambas as casas.

    Anos depois recordaria com lágrimas nos olhos como a voz do menino se foi tornando cada vez mais triste, cada vez mais desesperada.


    Don Sebastián não notava nada ou não queria notar. Estava demasiado ocupado com o seu negócio, demasiado contente com a sua nova esposa, demasiado aliviado por ter recuperado uma vida normal.


    Hortensia sabia exatamente como manipulá-lo. Recebia-o todas as tardes com um sorriso. A casa estava sempre limpa e arrumada.

    O jantar estava pronto a tempo e ela, ela estava sempre perfeita, penteada, perfumada, vestida com roupas que realçavam a sua figura.


    “E o Panchito?”, perguntava Don Sebastián algumas vezes. “Já está a dormir”, respondia ela. “O pobre estava tão cansado, brincou o dia todo no pátio. É um menino muito ativo.”


    Mas Panchito não estava a dormir. Estava acordado no seu quarto, na escuridão, a escutar as vozes do seu pai e da sua madrasta que vinham da sala de jantar.

    Escutava como o seu pai ria, como elogiava a comida, como planeavam passeios de domingo e viagens a Cuernavaca, planos que nunca o incluíam a ele.


    Jacinta via tudo isto com uma angústia crescente, mas o que podia fazer? Era apenas uma criada, uma mulher sem educação que mal sabia assinar o seu nome. A sua palavra não significava nada contra a da senhora da casa.


    Tentou falar com Don Sebastián uma vez. Foi numa manhã de domingo, quando ele desceu cedo ao pátio para tomar o seu café.

    “Don Sebastián”, começou Jacinta com voz trémula, “desculpe que me intrometa, mas o menino Francisco está muito triste ultimamente.”


    Don Sebastián olhou para ela por cima da sua chávena de café. “Triste? Por que é que estaria triste? Tem uma mãe nova, tem tudo o que precisa.”

    “É que…” Jacinta hesitou. Como lhe dizer que a sua nova esposa era cruel sem parecer insubordinada? “É que sente falta… sente falta de passar tempo consigo, Don Sebastián. Às vezes pergunta porque é que já não o leva consigo ao negócio como antes.”


    Don Sebastián franziu a testa. “Jacinta”, disse com voz séria. “Aprecio a tua preocupação, mas não voltes a questionar as decisões desta casa. Doña Hortensia sabe o que é melhor para o menino. Ela é a mãe dele agora e tu deves limitar-te a fazer o teu trabalho.”


    Jacinta baixou a cabeça. “Sim, Don Sebastián, desculpe.” Não voltou a tentar falar do assunto, mas à noite, quando se retirava para o seu pequeno quarto no terceiro andar, rezava.

    Rezada à Virgem de Juquila, aos santos da sua aldeia, à memória de Doña María del Carmen, para que algo mudasse, para que Don Sebastián abrisse os olhos.


    Mas nada mudou, as coisas só pioraram. Chegou o mês de julho, um julho quente e húmido, como todos na Cidade do México.

    O céu cobria-se de nuvens cinzentas à tarde e descarregava aguaceiros breves, mas intensos, que deixavam as ruas enlameadas e os pátios cheios de poças.


    Don Sebastián tinha estado a planear uma viagem de negócios há semanas. Tinha que viajar para Puebla para negociar com uns fabricantes de têxteis. Era uma viagem importante que podia significar um contrato lucrativo. Estaria fora durante 10 dias.


    “Queres que te acompanhe?”, tinha perguntado Hortensia uma noite durante o jantar, mas Don Sebastián negou com a cabeça.

    “Não é necessário”, respondeu. “A viagem será muito cansativa. Muito sol, caminhos poeirentos. Além disso, alguém tem que ficar a tomar conta da casa.”


    Hortensia sorriu. Um sorriso que não alcançou os seus olhos. “Claro”, disse, “eu encarrego-me de tudo.”

    Panchito, que comia em silêncio o seu prato de arroz na cozinha, escutou esta conversa através da porta entreaberta e sentiu algo no seu estômago, algo parecido com o medo, mas mais frio, como se alguém tivesse aberto uma janela em pleno inverno.


    Don Sebastián partiu a 15 de julho de 1908. Era uma sexta-feira. Levantou-se antes do amanhecer, quando as ruas ainda estavam escuras e apenas se ouvia o canto distante dos galos.

    Subiu para se despedir de Panchito. O menino estava a dormir ou fingia estar. Don Sebastián ficou um momento à porta do seu quarto, observando essa figura pequena debaixo dos lençóis.


    “Comporta-te bem”, murmurou. “Obedece à tua mãe.”

    Depois desceu ao pátio onde Hortensia o esperava com a sua mala preparada. Deu-lhe um beijo na bochecha. “Cuida-te”, disse-lhe, “e cuida da casa e do menino.”


    “Não te preocupes”, respondeu Hortensia. “Tudo estará perfeito quando regressares.”

    A porta grande da casa fechou-se com um ruído surdo. Os passos de Don Sebastián afastaram-se pela rua empedrada e a casa ficou em silêncio.


    Um silêncio que de repente se sentiu demasiado pesado, demasiado denso, como se o próprio ar se tivesse tornado mais espesso.

    Hortensia ficou de pé no saguão durante um longo minuto, imóvel olhando a porta fechada. Depois virou-se lentamente e caminhou para o pátio.


    Os seus passos ressoavam nos ladrilhos. Cada passo marcado com uma precisão quase militar.

    Parou no centro do pátio junto à fonte e levantou o olhar para o segundo andar, para a janela do quarto de Panchito.


    O menino estava ali a observá-la por detrás da cortina. Os seus olhares cruzaram-se e Hortensia sorriu. Uma sorriso lento, um sorriso que prometia coisas terríveis.


    Os primeiros dois dias foram estranhamente normais. Hortensia não mudou nada da sua rotina. Dava ordens a Jacinta, revistava a casa, bordava na sala à tarde, ignorava Panchito como sempre.


    Mas na segunda-feira de manhã as coisas começaram a mudar. Jacinta estava a lavar roupa nos tanques do pátio quando Hortensia desceu. Era pouco depois do meio-dia. O sol caía verticalmente sobre o pátio, criando sombras duras e curtas.


    “Jacinta”, disse Hortensia com voz suave, demasiado suave. “Preciso que vás ao mercado de La Merced. Preciso de linhas para bordar de várias cores e um tecido específico, uma seda que só vendem num posto particular.”


    Jacinta secou as mãos no avental. “Agora, senhora, agora.”

    “Correto”, confirmou Hortensia. “É urgente e demora o tempo que for preciso. Assegura-te de encontrar exatamente o que preciso. Não regressas até teres tudo.”


    Jacinta assentiu, tirou o avental, pegou no seu xale e no dinheiro que Hortensia lhe deu e saiu de casa.

    Quando a porta se fechou, Hortensia esperou. Esperou até ter a certeza de que Jacinta se tinha afastado o suficiente.


    Esperou até que só ficassem ela e o menino naquela casa enorme e silenciosa. Depois subiu as escadas lentamente, passo a passo. As suas saias roçavam os degraus com um som sussurrante.


    Chegou ao segundo andar, caminhou pelo corredor até parar em frente à porta do quarto de Panchito. Tocou à porta, três batidas secas.

    “Panchito”, disse, “abre a porta.” O menino estava lá dentro, sentado na sua cama. Tinha ouvido os passos na escada. Tinha ouvido como se aproximavam.


    E tinha sentido esse frio no estômago outra vez.

    “Panchito”, repetiu Hortensia. A sua voz continuava suave, mas agora tinha um gume. “Não me faças repetir.”


    O menino levantou-se lentamente, caminhou para a porta. A sua mão pequena tremeu quando alcançou o puxador. Abriu.

    Hortensia estava ali a olhá-lo da sua altura. Os seus olhos verdes brilhavam com algo que o menino não podia entender, mas que o aterrorizava.


    “Vamos”, disse ela, “temos que fazer algo, algo que devia ter sido feito há muito tempo.”

    Pegou-lhe no braço com força, com tanta força, que os seus dedos se cravaram na pele magra do menino.


    “Aonde vamos?”, perguntou Panchito com voz pequena.

    “Para um lugar onde devias ter estado desde o princípio”, respondeu ela, “para um lugar onde não incomodes mais, onde não estorves, onde ninguém tenha que te ver nem ouvir.”


    Arrastou-o pelo corredor. Panchito tentou resistir, mas ela era muito mais forte. Puxou-o até uma porta no final do corredor. Uma porta que dava para um quarto pequeno que antes se usava como despensa.


    Abriu a porta. O quarto cheirava a humidade e a cal. Era estreito, com apenas 2 m por 2 m. Não tinha janelas, só muros grossos de tezontle e uma parede de adobes.

    “Entra”, ordenou Hortensia, empurrando-o. Panchito tropeçou e caiu sobre o chão de terra.


    Virou-se com lágrimas a começar a escorrer pelas suas bochechas. “Por favor”, suplicou. “Não fiz nada de mal, por favor.”

    Hortensia olhou-o do limiar e, por um momento, só por um momento, algo pareceu hesitar na sua expressão, algo quase humano.


    Mas depois esse algo desapareceu e só restou essa frieza, essa dureza. “Tu és o erro”, disse com voz plana. “Tu és o que está mal nesta casa, mas isso vai ser resolvido agora.”


    Fechou a porta. O menino ficou na escuridão absoluta, uma escuridão tão completa que não podia ver a sua própria mão em frente ao seu rosto.

    “Mamã!”, gritou. “Por favor, deixa-me sair.”


    Mas do outro lado não houve resposta, apenas o som dos passos de Hortensia a afastar-se pelo corredor.

    Panchito ficou ali a tremer na escuridão, pensando que seria apenas um castigo, que em breve ela regressaria e o deixaria sair.


    Mas as horas passaram e ninguém veio. Passou a tarde. O menino escutou os sons da casa através das paredes grossas.

    Escutou quando Jacinta regressou do mercado. Escutou vozes abafadas. Escutou passos que iam e vinham.


    Gritou. Gritou até que a sua garganta ficou rouca. Bateu na porta com os seus punhos pequenos até que lhe doeram as mãos. Mas ninguém veio.


    Caiu a noite. O quarto tornou-se mais frio. Panchito encolheu-se num canto, abraçando os seus joelhos, a tremer de frio e de medo.

    “Mamã”, sussurrou na escuridão. “Mamãzinha, onde estás? Porque é que não vens buscar-me?”


    Mas a sua mãe estava morta, enterrada no cemitério de Dolores há 3 anos e ninguém podia ouvi-lo.

    Amanheceu a terça-feira. O menino não tinha dormido. Tinha sede, tinha fome. Tinha chorado tanto que já não lhe restavam lágrimas.


    Escutou movimento na casa, passos, vozes, a vida normal de uma casa que seguia o seu curso como se nada tivesse mudado.

    Bateu na porta de novo. “Por favor”, gritou com voz rouca. “Tenho sede, por favor.”


    Os passos aproximaram-se, pararam do outro lado da porta. “Senhora”, era a voz de Jacinta. “Ouvi algo, como se alguém batesse.”

    “É o vento”, respondeu a voz de Hortensia. “As portas velhas rangem, continua com o teu trabalho.”


    “Mas…” começou Jacinta. “Eu disse para continuares com o teu trabalho.” A voz de Hortensia era agora dura como o aço.

    Os passos afastaram-se, ambos os pares de passos.


    E Panchito compreendeu com a terrível clareza que só o desespero pode dar. Compreendeu que Hortensia não o ia deixar sair, que isto não era um castigo temporário, que isto era algo muito pior.


    Quanto tempo pode sobreviver um menino de 7 anos sem água? Quanto tempo na escuridão absoluta antes que a sua mente comece a fraturar-se? Quanto tempo a gritar antes que a sua voz se apague para sempre?


    Se quiserem saber a verdade do que aconteceu nesse quarto, não se esqueçam de subscrever o canal e ativar o sininho, porque o que estão prestes a ouvir mudará para sempre a maneira como veem as casas antigas do centro da cidade.


    Passou a terça-feira, passou a quarta-feira e chegou a quinta-feira. Jacinta estava inquieta, não tinha visto Panchito desde segunda-feira.

    “Onde está o menino Francisco?”, perguntou a Hortensia nessa tarde.


    “Está doente”, respondeu Hortensia sem levantar os olhos do seu bordado. “Uma febre forte. Dei-lhe os seus medicamentos e está a descansar. Não deve ser incomodado.”


    “Posso vê-lo?”, insistiu Jacinta. “Posso preparar-lhe um chá ou um caldo?”

    “Não.” A voz de Hortensia era final. “Não quero que o incomodem. Precisa de silêncio e descanso. Quando melhorar, aviso-te.”


    Jacinta não ficou convencida, mas o que podia fazer? Não podia desobedecer à senhora da casa. Não podia entrar no quarto do menino sem permissão.


    Mas nessa noite, quando todos dormiam, Jacinta levantou-se da sua cama no terceiro andar. Desceu as escadas em silêncio. Descalça para não fazer barulho.


    Chegou ao segundo andar e caminhou para o quarto de Panchito. A porta estava aberta, o quarto estava vazio. A cama desfeita, como se ninguém tivesse dormido ali em dias.


    O coração de Jacinta começou a bater mais rápido. “Menino Francisco”, sussurrou, “onde estás?”

    Percorreu o corredor, colou o ouvido a cada porta e foi então que o ouviu. Um gemido tão fraco que quase não era audível. Vinha de trás da porta da despensa.


    Jacinta aproximou-se, pôs a mão no puxador, tentou abri-la. Estava fechada à chave.

    “Menino Francisco”, chamou, colando a boca à madeira. “Estás aí?”


    Do outro lado veio uma resposta. Uma voz tão fraca, tão quebrada, que mal parecia humana. “Jacinta, água, por favor.”

    Jacinta sentiu que o mundo parava. Puxou o puxador com força, bateu na porta. “Espera, vou tirar-te daí.”


    Mas nesse momento ouviu passos, passos que desciam do terceiro andar. Hortensia apareceu no corredor. Vestia uma camisa de noite branca e o cabelo solto sobre os ombros. Na mão segurava uma vela.

    A luz bruxuleante projetava sombras dançantes no seu rosto, fazendo-a parecer uma aparição.


    “O que fazes aqui?”, perguntou com voz perigosamente calma.

    “O menino”, começou Jacinta, “o menino está ali dentro, está fechado, precisa de água.”


    “Volta para o teu quarto.” Ordenou Hortensia.

    “Mas está doente. Precisa de ajuda.”


    “Volta para o teu quarto.” Cada palavra era uma ameaça.

    Jacinta olhou-a nos olhos e viu algo ali que a gelou até aos ossos. Viu uma ausência de humanidade, um vazio onde deveria haver compaixão.


    “Se disseres uma palavra disto a alguém”, continuou Hortensia aproximando-se lentamente, “ponho-te na rua, sem pagamento, sem recomendações e assegurar-me-ei de que mais ninguém nesta cidade te dê trabalho. Entendes-me?”


    Jacinta tremia, tinha 60 anos, não tinha poupanças, não tinha família na cidade. Se a pusessem na rua, acabaria a pedir esmola nas ruas.

    “Entendes-me?”, repetiu Hortensia.


    Jacinta assentiu lentamente com lágrimas a escorrer pelas suas bochechas enrugadas. Assentiu e recuou. Subiu as escadas de regresso ao seu quarto, ajoelhou-se em frente ao seu pequeno altar com a imagem da Virgem de Juquila e chorou.


    Chorou e rezou. Rezou como nunca tinha rezado. “Perdoa-me”, sussurrava. “Perdoa-me, menino Francisco. Perdoa-me, Virgemzinha, mas não posso fazer nada. Não posso.”


    Os dias seguintes foram uma tortura para Jacinta. Trabalhava como autómato, lavava, cozinhava, limpava, mas a sua mente estava naquele quarto fechado no final do corredor.

    Já não ouvia ruídos, já não havia batidas na porta, já não havia gemidos, apenas silêncio. Um silêncio que era pior do que qualquer grito.


    Passou a sexta-feira, passou o sábado e chegou o domingo, 22 de julho de 1908.

    Nesse dia, Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, estava a regar as suas plantas quando notou algo estranho, um odor.


    Um odor que vinha da casa do lado. Não era o odor normal de uma casa, não era comida queimada nem humidade, era algo mais doce e mais nauseabundo ao mesmo tempo.

    Um odor que ela conhecia bem porque o tinha cheirado antes, quando o seu esposo tinha morrido e só o encontraram três dias depois. Era o odor da morte.


    Doña Gertrudis largou o regador, bateu à porta da casa dos Montes de Oca. Hortensia abriu sorridente, perfeitamente penteada, vestida com um vestido de domingo.

    Doña Gertrudis saudou: “Que surpresa. Em que posso ajudá-la?”


    “Desculpe que a incomode”, disse a vizinha incómoda, “mas notei um odor, um odor estranho. Pensei que talvez tivesse algum problema com a canalização.”

    “Oh! Ah!” Hortensia riu ligeiramente. “Deve ser o poço. Creio que morreu um rato ali. Já mandei a Jacinta limpá-lo. Não se preocupe, o odor passará em breve.”


    Doña Gertrudis assentiu, mas não ficou convencida. Algo na expressão de Hortensia, algo nesse sorriso demasiado perfeito.

    E o menino? perguntou de repente, “Como está o Panchito? Há dias que não o vejo a brincar no pátio.”


    O sorriso de Hortensia congelou por uma fração de segundo, só uma fração. Mas Doña Gertrudis notou.

    “Está com o pai”, respondeu Hortensia. “Don Sebastián veio buscá-lo há uns dias. Decidiu levá-lo para Puebla para que conhecesse o negócio.”


    “Que bom”, murmurou Doña Gertrudis, mas pensou: “Por que é que ninguém me avisou? Avisam-me sempre quando o menino sai da cidade.”

    Despediu-se e regressou a sua casa. Mas nesse dia não conseguiu tirar o odor da sua mente, nem a expressão de Hortensia, nem o facto de não ter visto Panchito.


    Don Sebastián regressou na segunda-feira, 23 de julho, à tarde. Chegou cansado, poeirento pela viagem, mas satisfeito porque tinha fechado um bom negócio.

    Hortensia recebeu-o com um abraço, com um beijo, com um jantar preparado especialmente para ele.


    “E o Panchito?”, perguntou Don Sebastián enquanto lavava as mãos. “Como se portou?”

    Hortensia olhou-o com expressão preocupada, uma expressão que parecia genuína. “Sebastián”, disse com voz trémula, “tenho que te dar uma notícia terrível.”


    Don Sebastián voltou-se para ela alarmado. “O que aconteceu? É o Panchito?”

    Hortensia levou um lenço aos olhos. “Desapareceu. Na terça-feira de manhã saiu para brincar e não regressou. Procurámos por toda a parte. Jacinta e eu perguntámos em todo o bairro. Já avisei a polícia.”


    Don Sebastián empalideceu. “O quê? Desapareceu? Mas, quando? Como?”

    “Não sei”, soluçou Hortensia. “Procurei durante horas. Perguntei a todos os vizinhos. Ninguém o viu. É como se a terra o tivesse engolido.”


    Don Sebastián saiu a correr de casa, foi diretamente para a esquadra de polícia na Calle Revillagigedo. Exigiu falar com o chefe. Exigiu que organizassem uma busca.


    O chefe de polícia, um homem de bigodes grisalhos chamado Don Eugenio Ríos Villegas, atendeu-o com a paciência cansada de quem viu demasiados casos.

    “Don Sebastián”, disse, revendo uns papéis. “A sua esposa já veio reportar o desaparecimento na quarta-feira. Enviámos homens a fazer perguntas, revistámos as cantinas, o mercado, a estação de comboios.”


    “Ninguém o viu. É como se o menino se tivesse esfumado.”

    “Mas tem que estar em algum sítio!”, gritou Don Sebastián. “Os meninos não desaparecem assim do nada!”


    “Infelizmente”, respondeu o chefe com expressão séria, “desaparecem o tempo todo, especialmente numa cidade tão grande. Continuaremos a procurar, Don Sebastián, mas devo ser honesto consigo, depois de tantos dias as possibilidades…”

    Terminou a frase. Não era necessário.


    Don Sebastián regressou a sua casa como um homem destruído. Hortensia recebeu-o com um abraço. “Tranquilo”, sussurrava-lhe, “tudo ficará bem, encontrá-lo-emos.”

    Mas nos seus olhos verdes, se alguém tivesse olhado com atenção, teria visto algo diferente, algo frio e satisfeito.


    Os jornais da época reportaram o caso. O Monitor Republicano, de 25 de julho de 1908, publicou uma nota breve na página 7:

    “Menino desaparecido no centro. Francisco Montes de Oca Ríos, de 7 anos de idade, filho do respeitável comerciante Don Sebastián Montes de Oca, encontra-se desaparecido desde a passada terça-feira. A família pede a qualquer pessoa que tenha informação sobre o seu paradeiro que comunique com a esquadra de polícia. O menino vestia calções pretos e camisa branca no momento do seu desaparecimento.”


    O El Imparcial publicou uma nota semelhante dois dias depois, mas nenhum jornal lhe deu maior importância. Os meninos desapareciam com frequência na Cidade do México do Porfiriato. Alguns voltavam, a maioria não.


    Durante semanas, Don Sebastián procurou o seu filho, percorreu cada rua do centro, visitou hospitais e orfanatos, ofereceu recompensas, mandou imprimir cartazes com a descrição do menino que colou nas esquinas, mas Panchito não aparecia.


    Jacinta observava tudo isto com o coração destroçado. Via Don Sebastián consumir-se de tristeza. Via-o chorar à noite quando acreditava que ninguém o ouvia.

    Via-o agarrar-se às roupas do filho, aos seus brinquedos, a qualquer coisa que conservasse o seu cheiro.


    E sabia, sabia que o menino não estava perdido, sabia que estava ali em algum lugar dessa casa, mas não se atrevia a falar, não se atrevia a acusar porque não tinha provas e porque Hortensia a vigiava constantemente com esses olhos verdes que prometiam consequências terríveis.


    O odor que Doña Gertrudis tinha notado desapareceu depois de uns dias. A casa voltou a cheirar normal, a comida e a carvão e a flores do pátio. E a vida seguiu.

    Como sempre, segue depois das tragédias. Os comerciantes continuavam a vender nos seus portais. Os carros continuavam a percorrer as ruas. O sol continuava a nascer todas as manhãs.


    Don Sebastián, pouco a pouco, deixou de procurar, não porque deixasse de amar o seu filho, mas porque a dor era insuportável, porque cada dia sem notícias era como morrer um pouco.

    Hortensia dizia-lhe com voz suave e mãos consoladoras que tinha que aceitar o que tinha acontecido, que tinha que seguir em frente.


    “Talvez o levaram uns ciganos”, sugeria-lhe. “Ouvi dizer que roubam meninos para os vender no Sul. Talvez esteja longe daqui. Talvez, talvez esteja melhor onde estiver.”

    E Don Sebastián, destroçado e cansado, queria acreditar nisso. Queria acreditar que o seu filho estava vivo em algum lugar, que talvez algum dia regressasse.


    Passaram os meses, chegou o inverno, depois a primavera e chegou o verão de 1909, um ano completo desde o desaparecimento de Panchito.

    Don Sebastián tinha envelhecido 10 anos nesses 12 meses. O seu cabelo tinha-se tornado completamente grisalho. Os seus olhos tinham perdido esse brilho de comerciante próspero. Caminhava curvado como se carregasse um peso invisível sobre os ombros.


    O negócio começava a cair. Don Sebastián já não tinha a mesma energia. Já não viajava como antes. Passava as tardes sentado no pátio, olhando a fonte, recordando o seu filho.


    Hortensia, pelo contrário, parecia florescer. Tinha ganhado algum peso que lhe assentava bem. A sua pele estava mais luminosa, sorria mais.

    Recebia visitas de outras senhoras do bairro, organizava saraus, tinha-se convertido, aos olhos de todos, na esposa perfeita que consolava o seu esposo, destroçado pela perda do seu filho.


    Mas as fissuras começaram a aparecer. Foi Doña Gertrudis quem primeiro notou algo estranho da sua varanda.

    Durante essas tardes quentes de verão, via Hortensia no pátio do lado. Via-a caminhar pelo corredor do segundo andar.


    E às vezes, quando acreditava que ninguém a observava, Hortensia parava em frente a uma porta em particular. A porta da despensa.

    Ficava ali imóvel, olhando a porta como se pudesse ver através dela. E no seu rosto havia uma expressão que Doña Gertrudis não podia decifrar. Era satisfação, era medo, era culpa.


    E depois estava Jacinta. A mulher que tinha sido forte e trabalhadora, tinha-se convertido numa sombra. Tinha emagrecido dramaticamente.

    O seu cabelo branco tinha-se tornado ralo. Tinha olheiras profundas e murmurava. Murmurava o tempo todo enquanto trabalhava. Orações em zapoteco. Desculpas a santos e virgens.


    E às vezes, quando acreditava que ninguém a escutava, sussurrava um nome: Panchito.

    Os vizinhos começaram a notar coisas, pequenas coisas, rumores que se sussurravam no mercado. “Não acham estranho que o menino desapareceu justamente quando o pai estava de viagem?”, dizia uma.


    “E que a nova esposa nem sequer parece triste?”, acrescentava outra.

    “Ouvi dizer que a Jacinta está doente dos nervos”, comentava uma terceira. “Dizem que fala sozinha, que vê coisas.”


    Mas eram só rumores, murmúrios de vizinhas ociosas. Ninguém se atrevia a acusar diretamente até que aconteceu algo que mudou tudo.


    Em outubro de 1909, Don Sebastián decidiu que precisavam de fazer reparações na casa. As chuvas do verão tinham deixado humidade em algumas paredes.

    Era preciso arranjar o telhado em algumas secções e queria aproveitar para fazer algumas mudanças.


    “Vou mandar derrubar essa despensa do segundo andar”, disse a Hortensia uma tarde. “Não a usamos para nada. Poderíamos alargar o corredor ou convertê-la num quarto de banho moderno.”


    Hortensia deixou cair o bordado que tinha nas mãos. O seu rosto, normalmente controlado, mostrou um brilho de pânico puro.

    “A despensa?”, repetiu com voz estrangulada. “Por que é que tem que ser essa?”


    “Porque não serve para nada”, respondeu Don Sebastián sem notar a sua reação. “É um quarto morto, sem janelas, sempre com humidade. Melhor aproveitá-lo para algo útil.”


    “Mas, mas…” Hortensia procurou alguma desculpa. “É um gasto desnecessário. O dinheiro está escasso com o negócio como está.”

    “Tenho poupanças”, insistiu Don Sebastián. “E preciso de fazer algo. Preciso de me manter ocupado. Esta casa tem demasiadas recordações. Demasiados quartos vazios que me lembram…” Não terminou a frase, mas ambos sabiam de quem falava.


    Hortensia tentou dissuadi-lo durante dias. Sugeriu-lhe outras reparações, outras mudanças, mas Don Sebastián já tinha tomado a decisão.

    Contratou um pedreiro, um homem chamado Fulgencio Campos, que vivia no bairro de Tepito e que tinha fama de ser bom trabalhador.


    “O que querem os senhores que eu faça?”, perguntou Fulgencio, percorrendo a casa.

    “Derrubar esta parede”, assinalou Don Sebastián, a parede de adobes da despensa, “e alargar o espaço.”


    Fulgencio examinou a parede. Bateu nos adobes com os nós dos dedos. “É parede velha”, disse. “Adobe e cal. Não será difícil.”

    Concordaram que começaria na segunda-feira seguinte, 1 de novembro de 1909.


    No domingo à noite, Hortensia não dormiu. Don Sebastián ouviu-a caminhar pela casa durante horas, subir e descer as escadas, entrar e sair de quartos.

    “Estás bem?”, perguntou-lhe na manhã seguinte. “Só nervosa”, respondeu ela. Tinha olheiras profundas, as suas mãos tremiam ligeiramente. “Não gosto de obras, do pó, do barulho.”


    Fulgencio chegou às 7 da manhã. Trazia as suas ferramentas, um maço, cinzéis, pás e um ajudante, um rapaz jovem chamado Toño.

    Don Sebastián foi para o negócio, deixou instruções para que fizessem tudo o necessário.


    Hortensia ficou em casa sentada na sala do primeiro andar, imóvel com as mãos apertadas no colo.

    Fulgencio e Toño subiram ao segundo andar. Abriram a porta da despensa. Um cheiro a ranço saiu do quarto fechado. Odor a humidade e a tempo estagnado.


    “Está escuro aqui dentro?”, comentou Toño. “Não tem nem uma janela.” “É por isso que a vão derrubar”, respondeu Fulgencio. “Para que entre luz.”

    Começaram a trabalhar. O som do maço a bater nos adobes ressoava por toda a casa.


    Lá em baixo, Hortensia sobressaltava-se com cada golpe. As suas mãos apertavam-se mais forte, os seus lábios murmuravam algo que ninguém podia escutar.

    Jacinta entrou na sala, olhou para a sua senhora e viu algo na sua expressão que fez o seu coração acelerar. Viu medo, medo puro e desesperado.


    E Jacinta soube, soube que o que levava um ano a temer estava prestes a revelar-se.

    O que encontraria o pedreiro atrás dessa parede de adobes? Que segredo guardava esse quarto sem janelas? Por que é que Hortensia tremia de terror enquanto escutava cada golpe do maço?


    Se quiserem descobrir a verdade, certifiquem-se de que estão subscritos ao canal e de que ativaram o sininho, porque o que vem a seguir comoveu toda a Cidade do México e mudou para sempre a vida de todos os envolvidos.


    Os golpes do maço continuaram durante toda a manhã. Fulgencio e Toño trabalhavam com ritmo constante. Os adobes velhos desmoronavam-se com relativa facilidade. O pó de cal rodopiava no ar.


    “Olha”, disse Toño de repente. “A parede está estranha aqui.”

    Fulgencio aproximou-se, examinou a secção que o seu ajudante assinalava. Parte da parede parecia mais nova do que o resto. Os adobes não tinham a mesma pátina de tempo. O argamassa era diferente.


    “É como se tivessem tapado algo”, murmurou Fulgencio. “Como se tivessem feito uma parede dentro da parede.”

    Continuou a bater. Com mais cuidado agora. Mais devagar.


    E então o maço atravessou um adobe. Formou-se um buraco do tamanho de um punho.

    Desse buraco saiu ar, ar que tinha estado preso durante mais de um ano. E com esse ar veio um odor.


    Toño recuou imediatamente. Cobriu o nariz e a boca com a manga da sua camisa. “Mãe de Deus”, exclamou.

    Fulgencio também recuou. Conhecia esse odor. Tinha-o cheirado antes em velórios, no cemitério.


    “Há algo morto aí dentro”, disse com voz grave.

    Aumentou o buraco, tirou mais adobes, pouco a pouco o espaço foi ficando maior e então viu.


    No buraco entre a parede falsa e a parede original, num espaço de apenas meio metro de largura, encolhido num canto, havia um corpo, o corpo de um menino pequeno.


    Fulgencio sentiu que o chão se movia debaixo dos seus pés. “Toño”, disse com voz trémula, “desce, vai procurar a polícia.”

    O rapaz saiu a correr. Os seus passos retumbaram nas escadas.


    Fulgencio ficou ali a olhar para aquele pequeno corpo. O corpo de um menino que tinha morrido na mais absoluta escuridão, sozinho, aterrorizado, a chamar por um pai que nunca chegou.


    O menino estava vestido com calções e camisa. A roupa tinha-se decomposto em parte, mas ainda era visível. Tinha uma posição que sugeria que tinha tentado fazer-se o mais pequeno possível, como tentando desaparecer.


    As suas unhas, ou o que restava delas, estavam destroçadas. Havia marcas nos adobes, marcas de onde tinha tentado arranhar, raspar, desesperadamente procurar uma saída.


    No chão havia pequenos objetos, um botão, um pedaço de tecido e algo mais, algo que fez com que Fulgencio tivesse que se virar e vomitar. Uma medalha. Uma pequena medalha da Virgem de Guadalupe que o menino tinha apertado na sua mão até ao fim.


    Em baixo, na sala, Hortensia ouviu os passos apressados de Toño a descer as escadas. Ouviu a porta da rua abrir-se de repente e soube que tudo tinha terminado.


    Levantou-se lentamente com movimentos mecânicos, caminhou para as escadas. Subiu passo a passo, chegou ao segundo andar.

    Viu Fulgencio parado em frente ao buraco na parede. Viu a sua expressão de horror.


    “Senhora”, disse Fulgencio, virando-se para ela. A sua voz tremia. “Senhora, há… há um menino morto na parede.”

    Hortensia não respondeu, só olhou para o buraco. Olhou para o que tinha ficado exposto.


    “A senhora sabia?”, perguntou Fulgencio. Mas era mais uma acusação do que uma pergunta.

    Hortensia olhou-o. E nesse momento a sua máscara de senhora respeitável desmoronou-se. O seu rosto transformou-se em algo duro, algo vazio.


    “Era um estorvo”, disse com voz plana, como quem fala do clima, “um estorvo que não me deixava viver a minha vida.”

    Fulgencio recuou. Nunca na sua vida tinha visto tanta frieza num ser humano.


    Jacinta apareceu nas escadas. Tinha ouvido tudo da cozinha. Subiu devagar, agarrando-se ao corrimão, porque as suas pernas mal a sustentavam.

    Chegou ao segundo andar, viu o buraco na parede e algo dentro dela quebrou-se definitivamente.


    Caiu de joelhos. Um gemido saiu da sua garganta. Um gemido animal, dilacerante.

    “Menino Francisco, perdoa-me, perdoa-me, menino. Eu sabia, eu sabia e não disse nada.”


    Hortensia olhou-a com desprezo. “Cala-te, velha tonta.”

    Mas Jacinta não se calou. As palavras que tinha guardado durante mais de um ano começaram a sair como uma torrente.


    “Ela o fechou”, disse a Fulgencio entre soluços, “o fechou quando o Senhor foi viajar. Eu ouvi. Ouvi-o pedir água. Ouvi-o chorar e ela… ela o deixou morrer ali.”


    “Eu te avisei”, sibilou Hortensia. “Eu te disse para te calares.”

    “Já não me importa”, gritou Jacinta. “Já não me importa nada. Esse menino está morto por minha culpa, porque eu não tive a coragem de falar.”


    Os passos de várias pessoas a subir as escadas interromperam a cena. Toño tinha regressado e com ele vinham dois guardas.

    Os polícias eram agentes do destacamento do centro. Um era um homem mais velho chamado Wenceslao Carvajal, veterano de muitos anos. O outro era jovem, apenas 20 anos, de nome Miguel Robles.


    “O que está a acontecer aqui?”, perguntou Wenceslao com voz de autoridade.

    Fulgencio apontou para o buraco na parede. “Ali”, disse, “há um menino morto emparedado.”


    Wenceslao aproximou-se, olhou pelo buraco. O seu rosto curtido pelos anos endureceu. Tinha visto muitas coisas na sua carreira, crimes de todo o tipo, mas isto… isto era diferente.


    “Miguel”, disse ao seu companheiro, “vai avisar o chefe, que mande vir o médico legista e que venha o juiz.”

    O jovem Miguel, depois de dar uma olhadela para o interior da parede, saiu a correr. Tinha empalidecido.


    Wenceslao voltou-se para as duas mulheres. “Quem é o dono desta casa?”

    “Don Sebastián Montes de Oca”, respondeu Jacinta. “Está no seu negócio, no portal dos mercadores.”


    “E vocês quem são?”

    “Eu sou a criada”, disse Jacinta. “Jacinta Velasco.”

    “Eu sou Hortensia Villalobos de Montes de Oca”, respondeu a outra com voz controlada. Já tinha recuperado algo da sua compostura. “A esposa de Don Sebastián.”


    “Sabe a senhora algo deste menino?”, perguntou Wenceslao, olhando-a diretamente nos olhos.

    “É o meu enteado”, respondeu Hortensia. “Francisco desapareceu há mais de um ano. Reportámos às autoridades. Vocês têm o relatório.”


    “E como é que acabou emparedado na sua própria casa?”

    Hortensia levantou o queixo. “Não tenho ideia. Deve ter sido um acidente terrível. Talvez se meteu ali a brincar e…”


    “Mentirosa!”, explodiu Jacinta. “A senhora fechou-o. Eu vi-a. Eu ouvi quando o menino pedia água e a senhora não lhe abriu.”

    “Esta mulher está louca”, disse Hortensia friamente. “Está com problemas mentais há meses. Vê coisas que não existem.”


    “Eu ouvi”, insistiu Jacinta. “Ouvi-o gritar e ela ameaçou-me para que me calasse.”

    Wenceslao levantou a mão para que ambas se calassem. “Ninguém vai sair daqui até que chegue o chefe.”


    Olhou para Fulgencio. “O senhor continue a trabalhar, mas com cuidado. Abra toda a parede. Temos que tirar o menino.”

    Fulgencio assentiu. Voltou ao seu trabalho com o maço, mas agora cada golpe lhe doía porque sabia que estava a libertar um menino que tinha morrido da maneira mais horrível e imaginável.


    A notícia propagou-se pelo bairro como fogo em palha seca. Os vizinhos começaram a aglomerar-se à porta da casa. Primeiro foram dois ou três curiosos, depois 10. Depois 20.

    “Dizem que encontraram o menino Panchito”, murmurava uma mulher.


    “Morto?”, perguntava outra.

    “Emparedado”, respondia a primeira com horror. “Emparedado na sua própria casa.”


    Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, levou as mãos ao rosto. “Eu sabia”, murmurou, “eu sabia que algo terrível tinha acontecido, o odor e os olhares dessa mulher.”


    Don Eugenio Ríos Villegas, o chefe de polícia, chegou meia hora depois. Com ele vinham o médico legista, o Doutor Eriiberto Castañeda e o juiz de distrito, o Licenciado Alfonso Herrera.

    Subiram ao segundo andar. Por essa altura, Fulgencio tinha derrubado quase toda a parede falsa. O corpo do menino ficou completamente exposto.


    O Doutor Castañeda aproximou-se. Era um homem de 50 anos, habituado a examinar cadáveres, mas quando viu o menino teve que respirar fundo.


    “É o menino de Don Sebastián”, disse Don Eugenio. “Francisco Montes de Oca, o que reportaram como desaparecido há quanto tempo, um ano?”

    “Quinze meses”, corrigiu o Juiz Herrera, revendo uns papéis. “Reportado como desaparecido a 19 de julho de 1908.”


    O Doutor Castañeda pôs-se de cócoras junto ao pequeno corpo. Examinou-o sem tocar ainda.

    “Não há sinais de violência externa”, ditou. “Não há fraturas evidentes. A posição sugere que o menino estava consciente quando foi fechado.”


    “As marcas nos adobes indicam que tentou sair. Causa provável de morte: desidratação ou asfixia por falta de ventilação.”

    Fez uma pausa. A sua voz quebrou ligeiramente.


    “Este menino morreu lentamente”, disse, “pode ter demorado dias, três, quatro, talvez cinco dias. Consciente o tempo todo na escuridão, a chamar por alguém que nunca veio.”


    O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

    “Quem fez isto?”, perguntou o Juiz Herrera com voz grave.


    Wenceslao assinalou Hortensia. “Segundo o testemunho da criada, foi ela, a madrasta.”

    Todos os olhos se voltaram para Hortensia. Ela mantinha-se ereta com as mãos cruzadas em frente a si. O seu rosto era uma máscara de calma.


    “Eu não fiz nada”, disse com voz firme. “O menino desapareceu. Procurámos por toda a parte. Avisámos as autoridades. Não sei como acabou ali.”


    “Isso é impossível”, disse o Doutor Castañeda. “Esta parede foi construída recentemente. A argamassa não tem mais de 15 meses. Alguém emparedou este menino deliberadamente.”


    “Foi ela!”, gritou Jacinta do seu canto. “Eu a vi na segunda-feira depois que Don Sebastián se foi, ela me mandou ao mercado. Quando regressei, o menino já não estava e nessa noite ouvi batidas nesta parede.”

    “Ouvi o menino gritar e ela ameaçou-me para que me calasse.”


    “Por que é que não denunciou isto antes?”, perguntou o juiz.

    Jacinta começou a chorar: “Porque sou uma velha pobre e tonta, porque tive medo, porque pensei que ninguém me acreditaria.”


    “Porquê? Porque sou uma cobarde que deixou morrer um menino inocente.”

    Nesse momento ouviram-se passos apressados nas escadas. Don Sebastián tinha chegado. Alguém lhe tinha dado a notícia no seu negócio.


    Chegou ao segundo andar a correr. O seu rosto estava vermelho do esforço. Os seus olhos procuravam respostas.

    “O que se passa?”, exigiu. “Disseram-me que encontraram…”


    Não terminou a frase porque viu o buraco na parede e viu o que havia dentro.

    “Não”, sussurrou. “Não, não, não.”


    Aproximou-se cambaleando, caiu de joelhos em frente ao pequeno corpo. “Panchito!”, gemeu. “Meu filho, meu menino.”

    Estendeu a mão para tocar o menino, mas o Doutor Castañeda deteve-o gentilmente.


    “Don Sebastián”, disse com voz suave, “lamento muito a sua perda, mas não pode tocar o corpo ainda. É prova.”

    “Prova?”, repetiu Don Sebastián sem compreender. “Prova de quê?”


    “De assassinato”, respondeu o Juiz Herrera.

    Don Sebastián levantou o olhar. Os seus olhos percorreram os rostos de todos os presentes. A confusão na sua expressão foi dando lugar à compreensão. E a compreensão deu lugar ao horror.


    “Quem? Porquê?”, perguntou com voz quebrada. “Quem fez isto ao meu filho?”

    Ninguém respondeu, mas todos os olhares se voltaram para a mesma pessoa.


    Don Sebastián seguiu esses olhares e encontrou-se a olhar para a sua esposa.

    “Hortensia”, disse, a sua voz mal era audível. “Diz-me que não é verdade. Diz-me que não foste tu.”


    Hortensia olhou-o diretamente nos olhos e, nesse momento, algo nela se quebrou. Ou talvez era que simplesmente deixou de fingir.

    “Era ele ou eu?”, disse com voz plana. “Esse menino arruinava tudo. A sua presença, a sua existência mesma era um insulto, um lembrete constante da tua primeira esposa.”


    “Eu não podia ser feliz com ele. Nós não podíamos ser felizes.”

    Don Sebastián olhava-a como se nunca antes a tivesse visto.


    “Fechaste-o”, disse lentamente, como se estivesse a tentar compreender uma língua estrangeira. “Fechaste-o na escuridão e deixaste-o morrer.”


    “Precisava que desaparecesse”, continuou Hortensia. Agora que tinha começado a falar, as palavras saíam sem controlo.

    “Pensei em deixá-lo num orfanato, em enviá-lo com alguma família para longe, mas tu tê-lo-ias procurado. Sempre o terias procurado.”


    “Esta era a única maneira.”

    “A única maneira?”, repetiu Don Sebastián. A sua voz começava a subir de tom. “A única maneira era emparedar vivo um menino de 7 anos? O meu filho?”


    Levantou-se de repente. Por um momento, pareceu que ia atirar-se sobre ela. Don Eugenio e Wenceslao tiveram que o segurar.

    “Deixaste-o morrer!”, rugiu Don Sebastián. “Enquanto eu estava em Puebla à procura de dinheiro para te dar uma boa vida, tu estavas aqui a matar o meu filho e depois recebeste-me com um beijo.”


    “Consolaste-me quando te disse que o procuraria. Dormiste na minha cama sabendo que o meu filho estava morto na parede.”

    Hortensia não respondeu. O seu rosto tinha-se tornado pétreo como se já não estivesse ali, como se a sua mente tivesse ido para um lugar onde as acusações não podiam alcançá-la.


    “Senhora Hortensia Villalobos de Montes de Oca”, disse o Juiz Herrera com voz solene, “fica detida pelo assassinato de Francisco Montes de Oca Ríos. Será transferida para a prisão de Belén, onde permanecerá até que se celebre o julgamento.”


    Wenceslao aproximou-se com algemas. Hortensia estendeu as mãos sem resistir, sem dizer nada.

    Enquanto a levavam para as escadas, virou-se uma última vez. Olhou para o pequeno corpo no buraco da parede e nos seus olhos verdes não havia remorso, não havia culpa, só havia esse vazio, esse espaço onde deveria haver humanidade e não havia nada.


    A casa da Calle de las Damas número 32 converteu-se num espetáculo macabro. Os vizinhos amontoavam-se à porta a tentar ver algo.

    Os vendedores ambulantes faziam o seu negócio vendendo tamales e água fresca aos curiosos. Os meninos do bairro espreitavam com olhos grandes, sem compreender completamente o que tinha acontecido, mas sentindo o horror no ar.


    O Doutor Castañeda supervisionou pessoalmente a extração do corpo. Fizeram-no com todo o cuidado possível, como se o menino ainda pudesse sentir dor.

    Don Sebastián observava tudo de um canto. Já não chorava, já não gritava, só olhava com olhos vazios enquanto tiravam o pequeno corpo do seu filho dessa tumba de adobe.


    Jacinta também observava, rezava em voz baixa. Os seus lábios moviam-se constantemente, repetindo as mesmas palavras uma e outra vez. “Perdão, perdão, perdão.”


    Puseram o corpo do menino numa maca coberta com um lençol branco. Baixaram-no com cuidado pelas escadas.

    Quando saíram para o pátio, o sol da tarde caía sobre o lençol branco. As buganvílias balançavam suavemente com a brisa. A fonte continuava a fazer barulho. Tudo continuava igual como se nada tivesse acontecido, como se um menino não tivesse morrido a gritar por ajuda nessa mesma casa.


    Tiraram o corpo para a rua. A multidão afastou-se em silêncio. Alguns benzeram-se. As mulheres limpavam as lágrimas. Os homens tiravam os chapéus.

    Subiram a maca para um carro fúnebre. Don Sebastián caminhou atrás como um autómato, subiu para o carro, sentou-se junto ao pequeno corpo do seu filho.


    “Perdoa-me”, sussurrava. “Perdoa-me, meu filho, por não te ter protegido, por não ter visto, por ter trazido essa mulher para a nossa casa.”


    O carro afastou-se lentamente pelas ruas empedradas do centro e com ele se foi Don Sebastián, o homem que tinha sido, o pai que tinha falhado com o seu filho da maneira mais terrível e imaginável.


    A notícia apareceu em todos os jornais da capital. O El Imparcial de 2 de novembro de 1909 publicou na primeira página:

    “Horrendo crime descoberto no centro da capital. Madrasta emparedou vivo menino de 7 anos. O pequeno Francisco Montes de Oca, reportado como desaparecido há 15 meses, foi encontrado morto num muro da sua própria casa. A sua madrasta, Doña Hortensia Villalobos, confessou ser a autora do crime. A sociedade capitalina encontra-se comovida perante a crueldade inaudita deste ato.”


    O Monitor Republicano foi mais explícito: “A monstruosa madrasta da Calle de las Damas. Emparedamento como método de assassinato. O caso que horroriza o México. Os detalhes do achado são tão perturbadores que esta redação considera prudente omitir os mais gráficos. Basta dizer que o menino Francisco passou os seus últimos dias na mais absoluta escuridão, a chamar por um pai que não podia ouvi-lo, enquanto a sua madrasta vivia a sua vida normal do outro lado da parede.”


    O El Nacional adotou um tom mais moralista: “Até onde pode ir a maldade feminina? O caso de Hortensia Villalobos recorda-nos que sob a aparência de uma dama educada pode esconder-se um coração de pedra. Este crime obriga-nos a refletir sobre a instituição do casamento e a proteção das crianças em famílias reconstituídas.”


    O julgamento começou a 15 de janeiro de 1910. Realizou-se no Palácio da Justiça da Calle Corregidora. O juiz encarregado foi o Licenciado Alfonso Herrera, o mesmo que tinha estado presente no achado do corpo.


    A sala estava apinhada. Havia jornalistas de todos os jornais da cidade. Havia curiosos que tinham chegado cedo para conseguir um lugar. Havia mulheres do bairro que vinham ver como a justiça castigava quem tinha cometido o imperdoável.


    Hortensia entrou na sala escoltada por dois guardas. Vestia de preto como sempre, mas agora a sua roupa estava amarrotada. O seu cabelo, antes perfeitamente penteado, mostrava madeixas grisalhas sem pintar.

    O seu rosto tinha emagrecido, mas os seus olhos, os seus olhos verdes continuavam a ter essa mesma dureza.


    Sentou-se no banco dos réus sem olhar para ninguém, sem procurar compaixão, sem mostrar arrependimento.

    O procurador foi Don Rodrigo Santoña, um homem de 45 anos, conhecido pela sua eloquência. Apresentou o caso com precisão cirúrgica.


    “Senhores”, começou. “O caso que nos ocupa não é simplesmente um assassinato, é algo muito mais obscuro. É o assassinato premeditado de um menino indefeso, executado da maneira mais cruel que a mente humana pode conceber.”


    Descreveu os factos passo a passo. Como Hortensia tinha esperado que Don Sebastián se fosse. Como tinha afastado Jacinta de casa. Como tinha fechado o menino.


    “Segundo o relatório do Doutor Castañeda”, continuou o procurador. “O menino Francisco morreu lentamente. Pode ter demorado entre três e cinco dias. Três a cinco dias de agonia, de sede, de fome, de terror.”


    “Três a cinco dias a chamar pelo pai, a chamar pela sua mãe morta, a chamar por qualquer um que pudesse ouvi-lo.”

    A sala estava em silêncio absoluto. Algumas mulheres choravam em silêncio.


    “E enquanto este menino morria”, o procurador elevou a voz. “A acusada vivia a sua vida normal, cozinhava, limpava, bordava. E quando o seu esposo regressou da viagem, recebeu-o com um beijo.”


    “Consolou-o quando ele chorou pelo seu filho desaparecido. Abraçou-o à noite enquanto o pequeno corpo de Panchito se decompunha do outro lado da parede.”

    O procurador voltou-se para Hortensia. “Como é que alguém pode fazer algo assim?”, perguntou. “Como é que alguém pode viver sabendo que um menino agoniza a poucos metros de distância?”


    “A resposta é simples e aterradora. Só pode fazê-lo alguém que carece por completo de humanidade.”

    Chamou testemunhas. Primeiro declarou Jacinta. A pobre mulher mal conseguia falar entre soluços. Contou tudo.


    Como tinha ouvido o menino, como Hortensia a tinha ameaçado, como viveu 15 meses com esse segredo que a estava a matar por dentro.

    “Por que é que não denunciou isto de imediato?”, perguntou o advogado de defesa de Hortensia, um homem chamado Licenciado Eusebio Gómez.


    “Porque sou uma velha pobre”, respondeu Jacinta. “Porque tive medo, porque pensei que ninguém me acreditaria e porque sou uma cobarde.”


    “Então não tem provas reais?”, pressionou o advogado. “Apenas a sua palavra contra a da minha cliente.”

    “Tenho isto.” Jacinta levantou-se, subiu a manga do seu vestido, mostrando o seu braço. Havia marcas.


    Marcas velhas de dedos que se tinham cravado com força. “Na noite em que tentei abrir a porta”, disse Jacinta, “ela agarrou-me assim, deixou-me estas marcas, tive-as durante semanas e cada vez que as via recordava que havia um menino a morrer e eu não fazia nada.”


    Depois declarou Doña Gertrudis. Falou do odor que tinha sentido, de como Hortensia tinha mentido dizendo que era um rato morto, de como o menino tinha deixado de brincar no pátio justamente quando Don Sebastián se foi viajar.


    “E a senhora não suspeitou de nada?”, perguntou o procurador.

    “Suspeitei”, admitiu Doña Gertrudis. “Mas, como acusar alguém sem provas? Como dizer que uma senhora respeitável matou um menino? Ter-me-iam chamado louca.”


    Declarou Fulgencio Campos. O pedreiro descreveu o momento da descoberta, a parede falsa, o pequeno corpo encolhido, as marcas de arranhões nos adobes.


    “Era como se tivesse tentado sair”, disse Fulgencio com voz quebrada, “como se tivesse arranhado e arranhado até que já não teve forças.”


    Declarou o Doutor Castañeda. Apresentou o seu relatório forense completo.

    “O menino Francisco Montes de Oca Ríos”, leu com voz profissional. “Tinha 7 anos de idade no momento da sua morte. Pesava aproximadamente 19 kg, media 1 m e 12 cm.”


    “A causa de morte foi desidratação severa combinada com asfixia progressiva por falta de ventilação.”

    Fez uma pausa, depois continuou com voz menos firme.


    “A análise das unhas do menino mostra restos de adobe e cal. As pontas dos dedos apresentavam feridas que sugerem que tentou arranhar a parede durante um período prolongado. No estômago não foram encontrados restos de comida nem água. O menino morreu sozinho, aterrorizado e em agonia.”


    Houve um murmúrio na sala. Várias mulheres soluçavam abertamente.

    Por último, declarou Don Sebastián. Tinha envelhecido anos em apenas uns meses. O seu cabelo era completamente branco.


    Caminhava curvado. As suas mãos tremiam constantemente.

    “Alguma vez notou a senhora algum comportamento estranho na sua esposa em relação ao menino?”, perguntou o procurador.


    “Agora que penso nisso”, respondeu Don Sebastián com voz quebrada. “Havia sinais, pequenas coisas que não vi ou que não quis ver. Como ela sempre encontrava desculpas para que Panchito não comesse connosco. Como sempre dizia que o menino estava a dormir quando eu perguntava por ele.”


    “Como… como me convenceu a fazer essa viagem a Puebla justamente nesse momento.” Cobriu o rosto com as mãos.

    “Ela planeou tudo”, disse entre lágrimas. “Esperou pelo momento perfeito, quando eu não estivesse, quando pudesse fazê-lo sem testemunhas. E eu… eu permiti. Deixei o meu filho sozinho com a sua assassina.”


    “Don Sebastián”, disse o procurador com gentileza, “o senhor não é culpado disto. O senhor confiava na sua esposa.”

    “Devia tê-lo protegido”, soluçou Don Sebastián. “Era o meu filho. A minha única responsabilidade era protegê-lo e falhei.”


    Durante todo o julgamento, Hortensia permaneceu em silêncio. Escutava os testemunhos sem reagir, sem se defender, sem mostrar emoção alguma.

    Quando finalmente lhe coube falar, o Juiz Herrera perguntou-lhe diretamente: “Senhora Hortensia Villalobos, o que tem a dizer em sua defesa?”


    Ela levantou-se lentamente, olhou para o juiz, depois percorreu com o olhar toda a sala.

    “Não me arrependo”, disse com voz clara e firme. Um murmúrio de horror percorreu a sala.


    “Esse menino arruinava a minha vida”, continuou. “A sua mera existência era um insulto, um lembrete constante de que eu era a segunda opção, de que nunca seria a verdadeira senhora dessa casa enquanto ele estivesse ali.”


    “Fiz o que tinha que fazer.”

    “O que tinha que fazer?”, repetiu o juiz incrédulo. “Emparedar vivo um menino de 7 anos?”


    “Era ele ou eu?”, respondeu Hortensia, “e escolhi sobreviver.”


    O julgamento durou três semanas, mas o veredito estava claro desde o princípio. A 11 de fevereiro de 1910, o Juiz Herrera leu a sentença.

    “Declaramos a acusada Hortensia Villalobos Santa María culpada de assassinato premeditado em primeiro grau”, declarou. “Dadas as circunstâncias particularmente atrozes do crime, a ausência total de remorso da acusada e a natureza indefesa da vítima, este tribunal sentencia a acusada a 30 anos de prisão na cadeia de Belén.”


    Hortensia escutou a sentença sem reagir. Não chorou, não protestou, simplesmente assentiu como se estivesse à espera exatamente disso.

    Mas o castigo legal não foi tudo o que recebeu. Na cadeia de Belén, Hortensia foi marcada como o pior que uma mulher podia ser: uma assassina de crianças.


    As outras presas, muitas delas mães separadas dos seus próprios filhos, tratavam-na com um desprezo absoluto, cuspiam-lhe ao passar, negavam-lhe comida quando podiam, batiam-lhe nos pátios. Os guardas olhavam para o outro lado.

    “Aqui não proteges quem mata crianças”, diziam.


    Hortensia sobreviveu 7 anos nessas condições, 7 anos de isolamento, de violência, de desprezo absoluto.

    A 11 de março de 1917, foi encontrada morta na sua cela. O relatório oficial disse que tinha sido uma paragem cardíaca, mas as presas contavam outra história.


    Diziam que as companheiras de cela se tinham cansado dela, que uma noite a tinham asfixiado com uma almofada, que a tinham feito sentir o que se sente morrer sem poder respirar. Ninguém investigou, ninguém perguntou.


    O corpo de Hortensia Villalobos foi enterrado na vala comum do cemitério municipal, sem nome, sem lápide, sem ninguém que a chorasse.


    Don Sebastián nunca se recuperou. Fechou o seu negócio, vendeu a casa da Calle de las Damas, não conseguiu continuar a viver ali. Cada parede lhe recordava o seu filho.


    Mudou-se para uma casa pequena na colónia San Rafael. Viveu ali sozinho durante 5 anos. Bebia, quase não comia. Passava os dias a olhar pela janela.


    Os seus amigos tentaram ajudá-lo, mas ele tinha morrido no dia em que encontraram Panchito. O seu corpo simplesmente demorou 5 anos a dar-se conta.


    Morreu a 20 de abril de 1914. De cirrose segundo o certificado médico, de coração partido, segundo quem o conhecia.

    Foi enterrado no cemitério de Dolores, na mesma sepultura onde descansava a sua primeira esposa, Doña María del Carmen, e junto a eles enterraram os restos de Panchito.


    Na lápide familiar lê-se: “Família Montes de Oca Ríos. María del Carmen Ríos de Montes de Oca. 1875-1905. Sebastián Montes de Oca. 1865-1914. Francisco Montes de Oca Ríos. 1901-1908. Finalmente juntos em paz.”


    Jacinta viveu até aos 82 anos. Nunca conseguiu perdoar-se por não ter falado antes.

    Levava sempre consigo uma pequena imagem da Virgem de Guadalupe, a mesma imagem que tinha estado no quarto de Panchito.


    Passou os seus últimos anos num asilo para idosos administrado por religiosas. Falava pouco, mas as freiras diziam que à noite a ouviam chorar e sussurrar sempre o mesmo nome. “Menino Francisco, perdão, menino Francisco.”


    Morreu em 1931. As suas últimas palavras foram: “Já vou, Panchito, já vou pedir-te perdão.”


    A casa da Calle de las Damas teve vários donos depois da tragédia, mas nenhum durava muito tempo.

    Diziam que se ouviam ruídos, batidas nas paredes, choros de menino, especialmente no segundo andar, no corredor onde tinha estado a despensa.


    As famílias mudavam-se depois de poucas semanas assustadas, dizendo que não podiam dormir, que sentiam uma presença, que os seus próprios filhos tinham pesadelos com um menino que pedia ajuda.


    Por volta de 1930, a casa estava abandonada. Ninguém queria viver ali, nem sequer alugá-la.

    Em 1952, a casa foi demolida. No seu lugar foi construído um edifício de apartamentos, mas antes de construir, o dono mandou chamar um sacerdote para benzer o terreno.


    E a rua, a rua onde Panchito tinha vivido e onde tinha morrido. Essa rua mudou de nome.

    Alguns dizem que foi decisão da câmara municipal, outros dizem que foram os vizinhos quem pediram a mudança. A realidade é que ninguém queria viver numa rua marcada por semelhante tragédia.


    E assim lentamente o nome de Calle de las Damas foi desaparecendo dos mapas e no seu lugar apareceu outro nome: Calle del Niño Perdido (Rua do Menino Perdido).


    Um nome que persiste até hoje no centro da Cidade do México. Uma rua que leva o nome de um menino que se perdeu dentro da sua própria casa.

    Um menino que ninguém pôde encontrar porque estava oculto, onde ninguém pensou procurar.


    Os velhos do bairro ainda contam a história, transmitem-na aos seus filhos e netos, não como uma lenda de terror, mas como um aviso.

    “Cuidem dos vossos filhos”, dizem, “porque o perigo nem sempre vem de fora. Às vezes está na mesma casa, na pessoa em quem mais confiam.”


    E quando passam por essa rua, ainda se benzem, ainda sussurram uma oração pelo menino perdido que nunca deixou de procurar a saída.


    Este caso deixou marcas profundas na sociedade mexicana do início do século XX. Levou a mudanças nas leis de proteção infantil, a maior escrutínio em casos de crianças desaparecidas, à criação de protocolos para investigar dentro das casas das famílias quando um menor desaparecia.


    Mas também deixou algo mais obscuro. Uma pergunta que nunca foi respondida completamente.

    Quantas outras crianças desaparecidas acabaram nas paredes das suas próprias casas? Quantos outros Panchitos morreram a chamar pelos seus pais enquanto os seus assassinos viviam tranquilamente do outro lado do muro?


    Porque a história de Panchito só foi descoberta por acidente, por uma remodelação casual. Se Don Sebastián nunca tivesse decidido derrubar essa parede, o menino continuaria ali e Hortensia teria morrido como uma viúva respeitável, levando o seu segredo para a sepultura.


    Em quantas casas antigas do centro do México há paredes que nunca foram derrubadas? Quantos segredos continuam ocultos atrás do adobe e da cal?


    Hoje, mais de um século depois, a Calle del Niño Perdido continua ali. É uma rua comercial do centro histórico, cheia de lojas e escritórios, cheia de vida.


    Mas se caminharem por ali ao anoitecer, quando as lojas fecham e as ruas se esvaziam, alguns dizem que ainda podem escutar algo. Um choro suave, quase impercetível. O choro de um menino que chama pelo pai.


    Não é uma lenda urbana, não é um conto para assustar turistas, é o eco de uma tragédia real, de um horror que realmente aconteceu, de um menino que realmente morreu pedindo ajuda que nunca chegou.


    A história de Francisco Montes de Oca Ríos. O menino perdido, não perdido nas ruas da cidade, mas perdido nas paredes da sua própria casa, tão perto e tão longe ao mesmo tempo.


    Esta história recorda-nos que o horror mais profundo não vem de fantasmas nem demónios, vem da capacidade humana para a crueldade.

    Vem de corações tão frios que podem escutar o choro de um menino e não sentir nada.


    Recorda-nos também que as crianças são as mais vulneráveis, que dependem completamente dos adultos que as rodeiam e que quando esses adultos falham, as consequências são irreversíveis.


    Quantas crianças hoje vivem em perigo dentro das suas próprias casas? Quantas gritam sem que ninguém as escute? Quantos Panchitos ainda estão à espera que alguém os encontre?


    A resposta é demasiados e isso é o mais aterrador de tudo.


    Obrigado por nos acompanharem neste percurso por um dos casos mais dilacerantes da história da Cidade do México.

    Se esta história vos impactou, partilhem-na, porque recordar é a primeira forma de prevenir. Não se esqueçam de subscrever o canal, ativar as notificações e deixar nos comentários a vossa reflexão sobre este caso.


    Conheciam esta história? Na vossa cidade há ruas com nomes que escondem tragédias semelhantes? O que pensam sobre a sentença que Hortensia recebeu? Foi suficiente ou devia ter sido mais severa?

  • TERREMOTO POLÍTICO: TRUMP SE AFASTA, BOLSONARO AFUNDA, MORAES AVANÇA E A DIREITA ENTRA EM PÂNICO

    TERREMOTO POLÍTICO: TRUMP SE AFASTA, BOLSONARO AFUNDA, MORAES AVANÇA E A DIREITA ENTRA EM PÂNICO

    TERREMOTO! TRUMP “ENTERRA” BOLSONARO DE VEZ! MORAES ATROPELA! DIREITA CHORA E SE HUMILHA NAS REDES!

    A política, às vezes, não avisa quando vai mudar de fase. Ela simplesmente rompe, estala e deixa os escombros à vista. Nos últimos dias, o cenário político brasileiro foi sacudido por um verdadeiro terremoto simbólico — não por um único ato isolado, mas por uma sequência de sinais claros de que uma era está chegando ao fim. Jair Bolsonaro, antes sustentado por uma rede internacional de apoio ideológico, hoje parece cada vez mais sozinho. E o silêncio — ou distanciamento estratégico — de Donald Trump ecoou como um golpe final nessa narrativa.

    Durante anos, a extrema direita brasileira vendeu a imagem de uma aliança global inquebrável. Trump e Bolsonaro eram apresentados como irmãos de armas, símbolos de uma mesma guerra cultural contra instituições, imprensa e democracia liberal. Mas a política real não vive de slogans eternos. Vive de interesses. E quando os interesses mudam, os discursos são descartados sem cerimônia.

    Trump, focado exclusivamente em sua própria sobrevivência política e jurídica nos Estados Unidos, deixou claro que o Brasil já não é prioridade. Nenhuma declaração enfática, nenhum gesto de solidariedade pública, nenhum movimento que resgate Bolsonaro do isolamento internacional. Para a militância bolsonarista, isso soou como abandono. Para os analistas, foi um recado frio: cada um por si.

    Enquanto isso, no Brasil, o ministro Alexandre de Moraes avançou com decisões firmes, sustentadas por instituições que, ao contrário do que pregavam os discursos extremistas, não ruíram. O Supremo Tribunal Federal mostrou musculatura, resistência e disposição para impor limites. O resultado foi imediato: a narrativa de perseguição perdeu força fora das bolhas digitais, e o discurso do “nós contra o sistema” começou a desmoronar.

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    Nas redes sociais, o espetáculo foi quase constrangedor. Influenciadores que antes se apresentavam como guerreiros destemidos passaram a pedir socorro, denunciar censura imaginária e implorar por atenção internacional. O tom mudou. Saiu a arrogância, entrou o desespero. Saiu a certeza da vitória, entrou a confusão emocional. Prints, vídeos exaltados, lives caóticas — tudo isso expôs uma direita fragilizada, emocionalmente instável e sem estratégia clara.

    Bolsonaro, por sua vez, adotou o silêncio intercalado com declarações vagas. Um líder que antes falava diariamente para sua base agora parece medir cada palavra, como quem sabe que qualquer passo em falso pode custar caro. O mito virou homem. E um homem acuado. Sua imagem de força, construída sobre confrontos constantes, perdeu impacto diante da realidade jurídica e institucional.

    O mais simbólico desse momento não é apenas a ação das instituições, mas a reação da própria base. O bolsonarismo sempre se alimentou da sensação de pertencimento, de luta épica contra inimigos difusos. Quando essa narrativa entra em colapso, sobra o vazio. E o vazio gera raiva, choro e humilhação pública — exatamente o que se viu nos últimos dias.

    Alexandre de Moraes tornou-se, gostem ou não, o rosto dessa virada. Não como um herói messiânico, mas como a personificação do Estado que decidiu reagir. Para a direita radical, ele virou obsessão. Para o centro político, um símbolo de contenção. Para a esquerda, uma peça institucional cumprindo seu papel. O fato é que sua atuação mudou o jogo e obrigou todos a recalcular rotas.

    A direita tradicional observa tudo isso com cautela. Parte tenta se afastar do bolsonarismo tóxico, parte ainda hesita em romper de vez. Mas uma coisa é clara: o projeto personalista de Bolsonaro perdeu tração. Sem apoio internacional forte, sem controle da narrativa digital e pressionado juridicamente, o ex-presidente já não dita o ritmo do debate nacional.

    Este terremoto político não significa o fim da direita no Brasil. Significa, sim, o fim de uma ilusão: a de que gritos, ataques às instituições e lives inflamadas substituem estratégia, diálogo e governabilidade. A política cobra seu preço. E ele chega, invariavelmente, com juros altos.

    O choro nas redes, as humilhações públicas e os ataques descoordenados não são sinais de força — são sintomas de colapso. A militância percebeu, ainda que inconscientemente, que algo se perdeu no caminho. O “mito” não protege mais. O aliado internacional não responde. E o Estado não recua.

    No fim, o que estamos testemunhando não é apenas a queda de um líder, mas o desgaste de um modelo político baseado no confronto permanente. A democracia brasileira, com todas as suas falhas, mostrou que ainda respira. E quando ela respira, os projetos autoritários sufocam.

    O terremoto passou. A poeira ainda está no ar. Mas os escombros já revelam uma verdade incômoda para muitos: nada será como antes.

  • A Rua da Criança Perdida na Cidade do México: A Verdadeira História de Terror que Ninguém Conta

    A Rua da Criança Perdida na Cidade do México: A Verdadeira História de Terror que Ninguém Conta

    Bem-vindos a este percurso por um dos casos mais emocionantes e esquecidos da Cidade do México. Antes de começar, convido-vos a deixar nos comentários de onde nos estão a ouvir e a hora exata neste momento.

    Interessa-nos profundamente saber até que lugares e em que momentos do dia ou da noite chegam estes relatos que a cidade tentou enterrar sob o betão e o esquecimento.


    A história que estão prestes a ouvir não é uma lenda urbana, não é um conto de terror inventado para assustar as crianças. É o testemunho de uma época em que a palavra de um adulto valia mais do que a vida de uma criança.

    Uma época em que as paredes de uma casa podiam guardar segredos mais obscuros do que qualquer sepultura.


    Existe na Cidade do México uma rua cujo nome ressoa com o eco de um choro que nunca cessou. Uma rua que leva o nome de um menino que desapareceu dentro da sua própria casa.

    Um menino que gritou durante dias sem que ninguém pudesse ouvi-lo. Um menino que morreu na mais absoluta escuridão, emparedado vivo pela única pessoa que deveria protegê-lo.


    Esta é a história do “menino perdido”, uma história que os nossos avós contavam em voz baixa, que as famílias do centro da cidade transmitiam de geração em geração e que as autoridades da época preferiram sepultar sob o peso do silêncio institucional.


    Corria o ano de 1908. A Cidade do México encontrava-se em plena transformação sob o Porfiriato.

    Don Porfirio Díaz levava mais de 30 anos no poder e a capital enchia-se de edifícios modernos, avenidas amplas e uma falsa sensação de progresso que ocultava as profundas desigualdades de uma sociedade dividida.


    Era uma época de contrastes brutais. Enquanto as famílias abastadas passeavam pelo Paseo de la Reforma nas suas carruagens puxadas por cavalos importados, os bairros populares asfixiavam-se na pobreza e na superlotação.

    A justiça funcionava com duas velocidades, dois pesos, duas medidas, e as crianças, especialmente as crianças pobres ou órfãs de mãe, não tinham voz alguma.


    O centro da cidade ainda conservava essa arquitetura colonial que hoje admiramos, mas que na altura se deteriorava rapidamente.

    Casas de dois e três andares com pátios interiores, varandas de ferro forjado, muros de tezontle (pedra vulcânica) vermelho com mais de meio metro de espessura, portas de madeira maciça que pesavam tanto que eram precisos dois homens para as mover.


    As ruas do centro enchiam-se todas as manhãs com o som dos pregoeiros. “Tamales de Oaxaca”, gritavam as vendedoras ambulantes. “Compram-se colchões velhos”, anunciavam os comerciantes que percorriam as ruas com as suas carroças.

    O cheiro a carvão e a tortilhas acabadas de fazer misturava-se com o aroma do pão doce que saía das padarias antes do amanhecer.


    Nesse México do início do século XX, a família era uma instituição sagrada e intocável. O que acontecia dentro de portas de uma casa permanecia dentro de portas.

    Os vizinhos podiam suspeitar, podiam murmurar, mas nunca interferiam nos assuntos familiares alheios. E as autoridades, nas poucas vezes em que se envolviam, davam sempre preferência à palavra do adulto sobre qualquer evidência que pudesse sugerir o contrário.


    Numa dessas casarões do centro da cidade, especificamente na rua que então se conhecia como Calle de las Damas número 32, a seis quarteirões do Zócalo e a três da Alameda Central, vivia uma família que parecia como qualquer outra.

    A casa era imponente por fora, três andares de altura com uma fachada de cantaria cinzenta que outrora foi branca.


    A porta principal de madeira de cedro talhada com motivos florais dava acesso a um saguão longo e estreito que conduzia ao pátio principal. Este pátio, como todos os das casas coloniais, tinha no centro uma fonte de cantaria com um pequeno repuxo.

    À volta cresciam buganvílias que trepavam pelas colunas até ao segundo andar. Os pisos eram de ladrilhos hidráulicos com desenhos geométricos em tons vermelhos e pretos.


    Os quartos distribuíam-se à volta do pátio, cada um com janelas de guilhotina e varandas para o interior. No segundo andar estavam os quartos principais e no terceiro os quartos de serviço e uma área de lavandaria com tanques de barro.


    O dono desta casa era Don Sebastián Montes de Oca. Um homem de 43 anos que trabalhava como comerciante de tecidos finos.

    Tinha um local no portal dos mercadores, onde vendia sedas importadas da China, linho da Irlanda e veludos de França. Era um negócio próspero que lhe permitia manter a casa e contratar serviço doméstico.


    Don Sebastián tinha ficado viúvo 3 anos antes, em 1905. A sua primeira esposa, Doña María del Carmen Ríos, tinha morrido de tuberculose depois de uma longa doença.

    A doença tinha-a levado lentamente, consumindo-a durante dois anos até a deixar irreconhecível. Tinha morrido nessa mesma casa, no quarto principal do segundo andar, rodeada de imagens religiosas e do cheiro penetrante dos medicamentos que já não serviam para nada.


    Desse casamento tinha nascido um único filho, um menino que em 1908 tinha apenas 7 anos de idade. Chamava-se Francisco Montes de Oca Ríos, mas todos na família e no bairro o conheciam simplesmente como Panchito.

    Panchito era um menino pequeno para a sua idade, de compleição magra e pele pálida, que herdou da mãe. Tinha o cabelo preto e liso que lhe caía sobre a testa em madeixas rebeldes.


    Os seus olhos eram grandes e escuros, desses olhos que parecem guardar uma tristeza antiga. Na sua bochecha direita tinha uma pequena pinta que a sua mãe costumava beijar antes de dormir.

    Era um menino calado, não como os outros meninos do bairro que jogavam às bolinhas de gude nas ruas ou corriam atrás dos carros que distribuíam leite.


    Panchito passava as tardes sentado no pátio da sua casa, observando as buganvílias e contando os ladrilhos do chão.

    Alguns vizinhos diziam que era um menino demasiado sério para a sua idade, como se a morte da sua mãe lhe tivesse roubado algo mais do que a sua companhia.


    Doña Gertrudis López, a vizinha que vivia na casa contígua, uma mulher de 60 anos que passava as manhãs na sua varanda do segundo andar, recordaria anos depois que Panchito costumava falar sozinho.

    Dizia que conversava com a sua mãe morta, que lhe contava coisas do dia e lhe perguntava sobre as flores do pátio. “Não é que estivesse louco”, diria Doña Gertrudis no seu testemunho. “É que estava sozinho, completamente sozinho naquela casa grande.”


    Don Sebastián, devastado pela perda da sua esposa, tinha-se afundado no trabalho. Saía de casa antes do amanhecer e regressava depois do anoitecer.

    Aos domingos viajava para Puebla ou Toluca para negociar novos envios de tecido. Às vezes passava semanas inteiras fora da cidade.


    Panchito ficava ao cuidado de Jacinta, uma mulher oaxaqueña de 50 anos que tinha trabalhado com a família desde antes de o menino nascer.

    Jacinta era uma mulher robusta, de mãos grandes e calejadas pelo trabalho. Tinha o cabelo completamente branco que sempre usava apanhado num coque apertado.


    Usava saias longas de manta e xales escuros. Falava pouco, mas quando o fazia, a sua voz era suave e musical com esse sotaque zapoteco que nunca perdeu.

    Jacinta amava Panchito como se fosse o seu próprio filho. Dava-lhe banho, preparava-lhe a comida, ensinava-lhe as poucas letras que ela própria conhecia.


    À noite, quando o menino não conseguia dormir porque sentia falta da mãe, Jacinta ficava sentada junto à sua cama cantando-lhe canções em zapoteco até que o sono o vencesse.


    Mas um homem viúvo, especialmente um homem de negócios no México porfiriano, não podia permanecer sozinho por muito tempo. A sociedade via isso mal. Os clientes desconfiavam de um comerciante sem esposa que supervisionasse a sua casa.

    E Don Sebastián, além da pressão social, sofria a solidão como uma doença física.


    Foi assim que, no final de 1907, apenas dois anos depois da morte de Doña María del Carmen, Don Sebastián conheceu uma mulher numa reunião social organizada por outros comerciantes do centro.

    Chamava-se Hortensia Villalobo Santa María. Tinha 32 anos. Era viúva sem filhos e provinha de uma família em declínio de San Luis Potosí.


    O seu primeiro esposo tinha morrido em circunstâncias que ela preferia não detalhar e, desde então, tinha vivido com uma irmã mais velha numa pensão da colónia Santa María la Ribera.

    Hortensia era uma mulher alta, de figura esbelta e porte ereto. Tinha o cabelo castanho claro que penteava num apanhado elaborado adornado com pentes de tartaruga.


    O seu rosto era angular, de maçãs do rosto altas e lábios finos, mas o que mais chamava a atenção eram os seus olhos. Olhos verdes, claros como a água, que podiam ser encantadores quando sorria, mas que se tornavam duros como o gelo quando algo a contrariava.

    Vestia sempre de preto, como correspondia à sua condição de viúva, mas eram vestidos de tecido fino, com rendas e bordados que sugeriam um gosto requintado.


    Usava perfume francês, um aroma a violetas que deixava atrás de si quando caminhava. Falava com voz suave e modulada, com a dicção perfeita de quem tinha recebido educação num colégio de freiras.


    Don Sebastián ficou apaixonado por ela desde o primeiro encontro. Hortensia sabia exatamente o que dizer e quando dizê-lo. Conhecia os bons modos, sabia de literatura e música.

    Tocava piano com destreza e bordava com mãos delicadas. Era, em aparência, a esposa perfeita para um comerciante próspero que precisava de recuperar a respeitabilidade social.


    O namoro foi breve. Naquela época, os viúvos podiam voltar a casar sem esperar o período completo de luto que era exigido às viúvas.

    Don Sebastián começou a visitar Hortensia na pensão, sempre na presença da sua irmã como acompanhante.


    Levava-lhe rosas que comprava no mercado de La Merced, um terço de prata que tinha pertencido à sua mãe e prometeu-lhe uma vida confortável numa casa grande do centro da cidade.


    Hortensia aceitou o namoro com uma mistura de agrado calculado e necessidade real. Aos seus 32 anos, sem família própria e sem recursos, as opções para uma viúva no México do início do século XX eram limitadas.

    Podia continuar a viver da caridade da sua irmã, trabalhar como institutriz ou dama de companhia, ou aceitar a proposta de casamento de um homem respeitável que lhe oferecia segurança.


    Só houve um detalhe que pareceu incomodá-la durante o namoro. Um detalhe que Don Sebastián mencionou quase de passagem numa das suas primeiras conversas.

    “Tenho um filho”, tinha-lhe dito Don Sebastián. “Um menino de 7 anos que se chama Francisco. É tudo o que me resta da minha primeira esposa. É um menino tranquilo, obediente. Tenho a certeza de que gostará de ti como gostava da mãe.”


    Hortensia tinha assentido com um sorriso que não chegou aos seus olhos. “Claro”, tinha respondido. “Será um prazer ser mãe para esse menino.”

    Mas algo na sua voz, algo quase impercetível, tinha soado falso, como as notas desafinadas de um piano que precisa de afinação.


    Casaram-se a 12 de abril de 1908 numa cerimónia discreta na igreja de Santo Domingo. Não houve grande celebração.

    Os viúvos que voltavam a casar não podiam ter festas ostentosas, apenas uma missa de vigília pela manhã, com um punhado de convidados e um pequeno-almoço simples no restaurante do Hotel Iturbide.


    Panchito não assistiu ao casamento. Don Sebastián considerou que era demasiado jovem para entender o evento e que, além disso, poderia ficar triste ao ver o seu pai a casar-se com alguém que não era a sua mãe.

    O menino ficou em casa ao cuidado de Jacinta, a brincar no pátio enquanto a vida do seu pai mudava para sempre naquela igreja do centro.


    Quando Don Sebastián levou Hortensia para casa, nessa mesma tarde, Panchito estava sentado no pátio, no seu lugar de sempre, junto à fonte.

    Vestia a sua roupa de domingo, um fato de marinheiro azul escuro que lhe ficava um pouco grande. Jacinta tinha-lhe lavado o rosto e penteado o cabelo com água e brilhantina.


    Tinha-lhe avisado que devia portar-se bem, que devia saudar a sua nova mãe com respeito, que devia fazer-lhe uma vénia como era costume.

    Don Sebastián entrou primeiro no pátio, levando a sua nova esposa pela mão. “Panchito”, disse com voz alegre, forçadamente alegre, “vem saudar a tua nova mãe.”


    O menino levantou-se lentamente, caminhou na direção deles com passos pequenos, parou a um metro de distância, fez uma pequena vénia, tal como Jacinta lhe tinha ensinado. “Boa tarde”, murmurou com voz apenas audível.

    Hortensia olhou-o de cima a baixo. Não estendeu a mão, não se baixou para estar à sua altura, apenas o observou com esses olhos verdes que pareciam avaliar e julgar simultaneamente.


    “Boa tarde”, respondeu finalmente. A sua voz era fria, correta, mas fria, como a saudação que se dá a um empregado ou a um desconhecido na rua.

    Panchito levantou o olhar. Os seus olhos escuros encontraram os olhos verdes dela e, nesse instante, algo aconteceu entre eles. Algo silencioso e invisível, mas tão real como o ar que respiravam.


    O menino soube, da maneira como as crianças sabem as coisas sem necessidade de palavras. Soube que essa mulher não gostava dele. Soube que a sua presença a incomodava.

    Soube que por detrás desse sorriso educado e desses modos perfeitos havia algo obscuro, algo perigoso.


    E ela também soube. Soube que o menino a tinha visto, que tinha visto para além da sua fachada de senhora respeitável. E isso, mais do que qualquer outra coisa, fê-la odiá-lo desde esse primeiro momento.


    Don Sebastián, alheio a tudo isto, sorriu satisfeito. “Vais ver que se darão muito bem”, disse. “Panchito é um menino bom, muito obediente, nunca dá problemas.”

    Hortensia assentiu sem deixar de olhar para o menino. “Tenho a certeza disso”, respondeu.


    Os primeiros dias foram de ajuste. Hortensia tomou o controlo da casa com a eficiência de um general a ocupar um território inimigo.

    Reorganizou os móveis, trocou as cortinas, mandou reparar as janelas que não fechavam bem. Revistou cada canto da casa com olho crítico, encontrando defeitos que Don Sebastián nunca tinha notado.


    Com Jacinta estabeleceu uma relação de distância profissional. Dava-lhe ordens todas as manhãs e esperava que fossem cumpridas à risca.

    Já não lhe permitia cantar enquanto trabalhava. Já não tolerava que passasse tempo com Panchito para além do estritamente necessário.


    “Jacinta tem trabalho a fazer”, dizia a Don Sebastián. “Não pode estar a entreter o menino o dia todo. Isso está a estragá-lo.”

    E com Panchito, as coisas foram deteriorando-se gradualmente. No início foram mudanças pequenas, quase impercetíveis.


    Panchito já não comia na sala de jantar com o pai, agora comia na cozinha, sozinho num banquinho baixo. “É melhor assim”, explicava Hortensia.

    “Os meninos fazem tanta desordem na mesa, mancham as toalhas, não sabem usar corretamente os talheres.”


    Depois vieram as repreensões por cada pequeno erro: por fazer barulho ao caminhar, por deixar uma porta aberta, por sujar a roupa ao brincar.

    “És um menino descuidado”, dizia-lhe com voz cortante. “O teu pai trabalha muito para te dar o que tens e tu não sabes apreciá-lo.”


    Panchito começou a passar cada vez mais tempo fechado no seu quarto. Era um quarto pequeno no segundo andar com uma cama de solteiro de ferro forjado, um baú onde guardava a sua pouca roupa e uma janela que dava para o pátio interior.

    Nas paredes pendiam duas imagens religiosas que tinham pertencido à sua mãe, uma do Sagrado Coração e outra da Virgem de Guadalupe.


    O menino passava as tardes a olhar pela janela. Observava Jacinta enquanto lavava a roupa nos tanques do pátio. Contava as buganvílias que caíam das trepadeiras.

    Falava sozinho, como sempre tinha feito, mas agora as suas conversas imaginárias com a sua mãe morta tinham mudado de tom.


    “Mãe”, sussurrava à imagem da Virgem, “Essa senhora não gosta de mim. Olha para mim feio, diz-me coisas más quando o pai não está. Por que é que o pai casou com ela? Por que é que tu te foste e ela veio?”


    Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, escutava estas conversas através das paredes finas que separavam ambas as casas.

    Anos depois recordaria com lágrimas nos olhos como a voz do menino se foi tornando cada vez mais triste, cada vez mais desesperada.


    Don Sebastián não notava nada ou não queria notar. Estava demasiado ocupado com o seu negócio, demasiado contente com a sua nova esposa, demasiado aliviado por ter recuperado uma vida normal.


    Hortensia sabia exatamente como manipulá-lo. Recebia-o todas as tardes com um sorriso. A casa estava sempre limpa e arrumada.

    O jantar estava pronto a tempo e ela, ela estava sempre perfeita, penteada, perfumada, vestida com roupas que realçavam a sua figura.


    “E o Panchito?”, perguntava Don Sebastián algumas vezes. “Já está a dormir”, respondia ela. “O pobre estava tão cansado, brincou o dia todo no pátio. É um menino muito ativo.”


    Mas Panchito não estava a dormir. Estava acordado no seu quarto, na escuridão, a escutar as vozes do seu pai e da sua madrasta que vinham da sala de jantar.

    Escutava como o seu pai ria, como elogiava a comida, como planeavam passeios de domingo e viagens a Cuernavaca, planos que nunca o incluíam a ele.


    Jacinta via tudo isto com uma angústia crescente, mas o que podia fazer? Era apenas uma criada, uma mulher sem educação que mal sabia assinar o seu nome. A sua palavra não significava nada contra a da senhora da casa.


    Tentou falar com Don Sebastián uma vez. Foi numa manhã de domingo, quando ele desceu cedo ao pátio para tomar o seu café.

    “Don Sebastián”, começou Jacinta com voz trémula, “desculpe que me intrometa, mas o menino Francisco está muito triste ultimamente.”


    Don Sebastián olhou para ela por cima da sua chávena de café. “Triste? Por que é que estaria triste? Tem uma mãe nova, tem tudo o que precisa.”

    “É que…” Jacinta hesitou. Como lhe dizer que a sua nova esposa era cruel sem parecer insubordinada? “É que sente falta… sente falta de passar tempo consigo, Don Sebastián. Às vezes pergunta porque é que já não o leva consigo ao negócio como antes.”


    Don Sebastián franziu a testa. “Jacinta”, disse com voz séria. “Aprecio a tua preocupação, mas não voltes a questionar as decisões desta casa. Doña Hortensia sabe o que é melhor para o menino. Ela é a mãe dele agora e tu deves limitar-te a fazer o teu trabalho.”


    Jacinta baixou a cabeça. “Sim, Don Sebastián, desculpe.” Não voltou a tentar falar do assunto, mas à noite, quando se retirava para o seu pequeno quarto no terceiro andar, rezava.

    Rezada à Virgem de Juquila, aos santos da sua aldeia, à memória de Doña María del Carmen, para que algo mudasse, para que Don Sebastián abrisse os olhos.


    Mas nada mudou, as coisas só pioraram. Chegou o mês de julho, um julho quente e húmido, como todos na Cidade do México.

    O céu cobria-se de nuvens cinzentas à tarde e descarregava aguaceiros breves, mas intensos, que deixavam as ruas enlameadas e os pátios cheios de poças.


    Don Sebastián tinha estado a planear uma viagem de negócios há semanas. Tinha que viajar para Puebla para negociar com uns fabricantes de têxteis. Era uma viagem importante que podia significar um contrato lucrativo. Estaria fora durante 10 dias.


    “Queres que te acompanhe?”, tinha perguntado Hortensia uma noite durante o jantar, mas Don Sebastián negou com a cabeça.

    “Não é necessário”, respondeu. “A viagem será muito cansativa. Muito sol, caminhos poeirentos. Além disso, alguém tem que ficar a tomar conta da casa.”


    Hortensia sorriu. Um sorriso que não alcançou os seus olhos. “Claro”, disse, “eu encarrego-me de tudo.”

    Panchito, que comia em silêncio o seu prato de arroz na cozinha, escutou esta conversa através da porta entreaberta e sentiu algo no seu estômago, algo parecido com o medo, mas mais frio, como se alguém tivesse aberto uma janela em pleno inverno.


    Don Sebastián partiu a 15 de julho de 1908. Era uma sexta-feira. Levantou-se antes do amanhecer, quando as ruas ainda estavam escuras e apenas se ouvia o canto distante dos galos.

    Subiu para se despedir de Panchito. O menino estava a dormir ou fingia estar. Don Sebastián ficou um momento à porta do seu quarto, observando essa figura pequena debaixo dos lençóis.


    “Comporta-te bem”, murmurou. “Obedece à tua mãe.”

    Depois desceu ao pátio onde Hortensia o esperava com a sua mala preparada. Deu-lhe um beijo na bochecha. “Cuida-te”, disse-lhe, “e cuida da casa e do menino.”


    “Não te preocupes”, respondeu Hortensia. “Tudo estará perfeito quando regressares.”

    A porta grande da casa fechou-se com um ruído surdo. Os passos de Don Sebastián afastaram-se pela rua empedrada e a casa ficou em silêncio.


    Um silêncio que de repente se sentiu demasiado pesado, demasiado denso, como se o próprio ar se tivesse tornado mais espesso.

    Hortensia ficou de pé no saguão durante um longo minuto, imóvel olhando a porta fechada. Depois virou-se lentamente e caminhou para o pátio.


    Os seus passos ressoavam nos ladrilhos. Cada passo marcado com uma precisão quase militar.

    Parou no centro do pátio junto à fonte e levantou o olhar para o segundo andar, para a janela do quarto de Panchito.


    O menino estava ali a observá-la por detrás da cortina. Os seus olhares cruzaram-se e Hortensia sorriu. Uma sorriso lento, um sorriso que prometia coisas terríveis.


    Os primeiros dois dias foram estranhamente normais. Hortensia não mudou nada da sua rotina. Dava ordens a Jacinta, revistava a casa, bordava na sala à tarde, ignorava Panchito como sempre.


    Mas na segunda-feira de manhã as coisas começaram a mudar. Jacinta estava a lavar roupa nos tanques do pátio quando Hortensia desceu. Era pouco depois do meio-dia. O sol caía verticalmente sobre o pátio, criando sombras duras e curtas.


    “Jacinta”, disse Hortensia com voz suave, demasiado suave. “Preciso que vás ao mercado de La Merced. Preciso de linhas para bordar de várias cores e um tecido específico, uma seda que só vendem num posto particular.”


    Jacinta secou as mãos no avental. “Agora, senhora, agora.”

    “Correto”, confirmou Hortensia. “É urgente e demora o tempo que for preciso. Assegura-te de encontrar exatamente o que preciso. Não regressas até teres tudo.”


    Jacinta assentiu, tirou o avental, pegou no seu xale e no dinheiro que Hortensia lhe deu e saiu de casa.

    Quando a porta se fechou, Hortensia esperou. Esperou até ter a certeza de que Jacinta se tinha afastado o suficiente.


    Esperou até que só ficassem ela e o menino naquela casa enorme e silenciosa. Depois subiu as escadas lentamente, passo a passo. As suas saias roçavam os degraus com um som sussurrante.


    Chegou ao segundo andar, caminhou pelo corredor até parar em frente à porta do quarto de Panchito. Tocou à porta, três batidas secas.

    “Panchito”, disse, “abre a porta.” O menino estava lá dentro, sentado na sua cama. Tinha ouvido os passos na escada. Tinha ouvido como se aproximavam.


    E tinha sentido esse frio no estômago outra vez.

    “Panchito”, repetiu Hortensia. A sua voz continuava suave, mas agora tinha um gume. “Não me faças repetir.”


    O menino levantou-se lentamente, caminhou para a porta. A sua mão pequena tremeu quando alcançou o puxador. Abriu.

    Hortensia estava ali a olhá-lo da sua altura. Os seus olhos verdes brilhavam com algo que o menino não podia entender, mas que o aterrorizava.


    “Vamos”, disse ela, “temos que fazer algo, algo que devia ter sido feito há muito tempo.”

    Pegou-lhe no braço com força, com tanta força, que os seus dedos se cravaram na pele magra do menino.


    “Aonde vamos?”, perguntou Panchito com voz pequena.

    “Para um lugar onde devias ter estado desde o princípio”, respondeu ela, “para um lugar onde não incomodes mais, onde não estorves, onde ninguém tenha que te ver nem ouvir.”


    Arrastou-o pelo corredor. Panchito tentou resistir, mas ela era muito mais forte. Puxou-o até uma porta no final do corredor. Uma porta que dava para um quarto pequeno que antes se usava como despensa.


    Abriu a porta. O quarto cheirava a humidade e a cal. Era estreito, com apenas 2 m por 2 m. Não tinha janelas, só muros grossos de tezontle e uma parede de adobes.

    “Entra”, ordenou Hortensia, empurrando-o. Panchito tropeçou e caiu sobre o chão de terra.


    Virou-se com lágrimas a começar a escorrer pelas suas bochechas. “Por favor”, suplicou. “Não fiz nada de mal, por favor.”

    Hortensia olhou-o do limiar e, por um momento, só por um momento, algo pareceu hesitar na sua expressão, algo quase humano.


    Mas depois esse algo desapareceu e só restou essa frieza, essa dureza. “Tu és o erro”, disse com voz plana. “Tu és o que está mal nesta casa, mas isso vai ser resolvido agora.”


    Fechou a porta. O menino ficou na escuridão absoluta, uma escuridão tão completa que não podia ver a sua própria mão em frente ao seu rosto.

    “Mamã!”, gritou. “Por favor, deixa-me sair.”


    Mas do outro lado não houve resposta, apenas o som dos passos de Hortensia a afastar-se pelo corredor.

    Panchito ficou ali a tremer na escuridão, pensando que seria apenas um castigo, que em breve ela regressaria e o deixaria sair.


    Mas as horas passaram e ninguém veio. Passou a tarde. O menino escutou os sons da casa através das paredes grossas.

    Escutou quando Jacinta regressou do mercado. Escutou vozes abafadas. Escutou passos que iam e vinham.


    Gritou. Gritou até que a sua garganta ficou rouca. Bateu na porta com os seus punhos pequenos até que lhe doeram as mãos. Mas ninguém veio.


    Caiu a noite. O quarto tornou-se mais frio. Panchito encolheu-se num canto, abraçando os seus joelhos, a tremer de frio e de medo.

    “Mamã”, sussurrou na escuridão. “Mamãzinha, onde estás? Porque é que não vens buscar-me?”


    Mas a sua mãe estava morta, enterrada no cemitério de Dolores há 3 anos e ninguém podia ouvi-lo.

    Amanheceu a terça-feira. O menino não tinha dormido. Tinha sede, tinha fome. Tinha chorado tanto que já não lhe restavam lágrimas.


    Escutou movimento na casa, passos, vozes, a vida normal de uma casa que seguia o seu curso como se nada tivesse mudado.

    Bateu na porta de novo. “Por favor”, gritou com voz rouca. “Tenho sede, por favor.”


    Os passos aproximaram-se, pararam do outro lado da porta. “Senhora”, era a voz de Jacinta. “Ouvi algo, como se alguém batesse.”

    “É o vento”, respondeu a voz de Hortensia. “As portas velhas rangem, continua com o teu trabalho.”


    “Mas…” começou Jacinta. “Eu disse para continuares com o teu trabalho.” A voz de Hortensia era agora dura como o aço.

    Os passos afastaram-se, ambos os pares de passos.


    E Panchito compreendeu com a terrível clareza que só o desespero pode dar. Compreendeu que Hortensia não o ia deixar sair, que isto não era um castigo temporário, que isto era algo muito pior.


    Quanto tempo pode sobreviver um menino de 7 anos sem água? Quanto tempo na escuridão absoluta antes que a sua mente comece a fraturar-se? Quanto tempo a gritar antes que a sua voz se apague para sempre?


    Se quiserem saber a verdade do que aconteceu nesse quarto, não se esqueçam de subscrever o canal e ativar o sininho, porque o que estão prestes a ouvir mudará para sempre a maneira como veem as casas antigas do centro da cidade.


    Passou a terça-feira, passou a quarta-feira e chegou a quinta-feira. Jacinta estava inquieta, não tinha visto Panchito desde segunda-feira.

    “Onde está o menino Francisco?”, perguntou a Hortensia nessa tarde.


    “Está doente”, respondeu Hortensia sem levantar os olhos do seu bordado. “Uma febre forte. Dei-lhe os seus medicamentos e está a descansar. Não deve ser incomodado.”


    “Posso vê-lo?”, insistiu Jacinta. “Posso preparar-lhe um chá ou um caldo?”

    “Não.” A voz de Hortensia era final. “Não quero que o incomodem. Precisa de silêncio e descanso. Quando melhorar, aviso-te.”


    Jacinta não ficou convencida, mas o que podia fazer? Não podia desobedecer à senhora da casa. Não podia entrar no quarto do menino sem permissão.


    Mas nessa noite, quando todos dormiam, Jacinta levantou-se da sua cama no terceiro andar. Desceu as escadas em silêncio. Descalça para não fazer barulho.


    Chegou ao segundo andar e caminhou para o quarto de Panchito. A porta estava aberta, o quarto estava vazio. A cama desfeita, como se ninguém tivesse dormido ali em dias.


    O coração de Jacinta começou a bater mais rápido. “Menino Francisco”, sussurrou, “onde estás?”

    Percorreu o corredor, colou o ouvido a cada porta e foi então que o ouviu. Um gemido tão fraco que quase não era audível. Vinha de trás da porta da despensa.


    Jacinta aproximou-se, pôs a mão no puxador, tentou abri-la. Estava fechada à chave.

    “Menino Francisco”, chamou, colando a boca à madeira. “Estás aí?”


    Do outro lado veio uma resposta. Uma voz tão fraca, tão quebrada, que mal parecia humana. “Jacinta, água, por favor.”

    Jacinta sentiu que o mundo parava. Puxou o puxador com força, bateu na porta. “Espera, vou tirar-te daí.”


    Mas nesse momento ouviu passos, passos que desciam do terceiro andar. Hortensia apareceu no corredor. Vestia uma camisa de noite branca e o cabelo solto sobre os ombros. Na mão segurava uma vela.

    A luz bruxuleante projetava sombras dançantes no seu rosto, fazendo-a parecer uma aparição.


    “O que fazes aqui?”, perguntou com voz perigosamente calma.

    “O menino”, começou Jacinta, “o menino está ali dentro, está fechado, precisa de água.”


    “Volta para o teu quarto.” Ordenou Hortensia.

    “Mas está doente. Precisa de ajuda.”


    “Volta para o teu quarto.” Cada palavra era uma ameaça.

    Jacinta olhou-a nos olhos e viu algo ali que a gelou até aos ossos. Viu uma ausência de humanidade, um vazio onde deveria haver compaixão.


    “Se disseres uma palavra disto a alguém”, continuou Hortensia aproximando-se lentamente, “ponho-te na rua, sem pagamento, sem recomendações e assegurar-me-ei de que mais ninguém nesta cidade te dê trabalho. Entendes-me?”


    Jacinta tremia, tinha 60 anos, não tinha poupanças, não tinha família na cidade. Se a pusessem na rua, acabaria a pedir esmola nas ruas.

    “Entendes-me?”, repetiu Hortensia.


    Jacinta assentiu lentamente com lágrimas a escorrer pelas suas bochechas enrugadas. Assentiu e recuou. Subiu as escadas de regresso ao seu quarto, ajoelhou-se em frente ao seu pequeno altar com a imagem da Virgem de Juquila e chorou.


    Chorou e rezou. Rezou como nunca tinha rezado. “Perdoa-me”, sussurrava. “Perdoa-me, menino Francisco. Perdoa-me, Virgemzinha, mas não posso fazer nada. Não posso.”


    Os dias seguintes foram uma tortura para Jacinta. Trabalhava como autómato, lavava, cozinhava, limpava, mas a sua mente estava naquele quarto fechado no final do corredor.

    Já não ouvia ruídos, já não havia batidas na porta, já não havia gemidos, apenas silêncio. Um silêncio que era pior do que qualquer grito.


    Passou a sexta-feira, passou o sábado e chegou o domingo, 22 de julho de 1908.

    Nesse dia, Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, estava a regar as suas plantas quando notou algo estranho, um odor.


    Um odor que vinha da casa do lado. Não era o odor normal de uma casa, não era comida queimada nem humidade, era algo mais doce e mais nauseabundo ao mesmo tempo.

    Um odor que ela conhecia bem porque o tinha cheirado antes, quando o seu esposo tinha morrido e só o encontraram três dias depois. Era o odor da morte.


    Doña Gertrudis largou o regador, bateu à porta da casa dos Montes de Oca. Hortensia abriu sorridente, perfeitamente penteada, vestida com um vestido de domingo.

    Doña Gertrudis saudou: “Que surpresa. Em que posso ajudá-la?”


    “Desculpe que a incomode”, disse a vizinha incómoda, “mas notei um odor, um odor estranho. Pensei que talvez tivesse algum problema com a canalização.”

    “Oh! Ah!” Hortensia riu ligeiramente. “Deve ser o poço. Creio que morreu um rato ali. Já mandei a Jacinta limpá-lo. Não se preocupe, o odor passará em breve.”


    Doña Gertrudis assentiu, mas não ficou convencida. Algo na expressão de Hortensia, algo nesse sorriso demasiado perfeito.

    E o menino? perguntou de repente, “Como está o Panchito? Há dias que não o vejo a brincar no pátio.”


    O sorriso de Hortensia congelou por uma fração de segundo, só uma fração. Mas Doña Gertrudis notou.

    “Está com o pai”, respondeu Hortensia. “Don Sebastián veio buscá-lo há uns dias. Decidiu levá-lo para Puebla para que conhecesse o negócio.”


    “Que bom”, murmurou Doña Gertrudis, mas pensou: “Por que é que ninguém me avisou? Avisam-me sempre quando o menino sai da cidade.”

    Despediu-se e regressou a sua casa. Mas nesse dia não conseguiu tirar o odor da sua mente, nem a expressão de Hortensia, nem o facto de não ter visto Panchito.


    Don Sebastián regressou na segunda-feira, 23 de julho, à tarde. Chegou cansado, poeirento pela viagem, mas satisfeito porque tinha fechado um bom negócio.

    Hortensia recebeu-o com um abraço, com um beijo, com um jantar preparado especialmente para ele.


    “E o Panchito?”, perguntou Don Sebastián enquanto lavava as mãos. “Como se portou?”

    Hortensia olhou-o com expressão preocupada, uma expressão que parecia genuína. “Sebastián”, disse com voz trémula, “tenho que te dar uma notícia terrível.”


    Don Sebastián voltou-se para ela alarmado. “O que aconteceu? É o Panchito?”

    Hortensia levou um lenço aos olhos. “Desapareceu. Na terça-feira de manhã saiu para brincar e não regressou. Procurámos por toda a parte. Jacinta e eu perguntámos em todo o bairro. Já avisei a polícia.”


    Don Sebastián empalideceu. “O quê? Desapareceu? Mas, quando? Como?”

    “Não sei”, soluçou Hortensia. “Procurei durante horas. Perguntei a todos os vizinhos. Ninguém o viu. É como se a terra o tivesse engolido.”


    Don Sebastián saiu a correr de casa, foi diretamente para a esquadra de polícia na Calle Revillagigedo. Exigiu falar com o chefe. Exigiu que organizassem uma busca.


    O chefe de polícia, um homem de bigodes grisalhos chamado Don Eugenio Ríos Villegas, atendeu-o com a paciência cansada de quem viu demasiados casos.

    “Don Sebastián”, disse, revendo uns papéis. “A sua esposa já veio reportar o desaparecimento na quarta-feira. Enviámos homens a fazer perguntas, revistámos as cantinas, o mercado, a estação de comboios.”


    “Ninguém o viu. É como se o menino se tivesse esfumado.”

    “Mas tem que estar em algum sítio!”, gritou Don Sebastián. “Os meninos não desaparecem assim do nada!”


    “Infelizmente”, respondeu o chefe com expressão séria, “desaparecem o tempo todo, especialmente numa cidade tão grande. Continuaremos a procurar, Don Sebastián, mas devo ser honesto consigo, depois de tantos dias as possibilidades…”

    Terminou a frase. Não era necessário.


    Don Sebastián regressou a sua casa como um homem destruído. Hortensia recebeu-o com um abraço. “Tranquilo”, sussurrava-lhe, “tudo ficará bem, encontrá-lo-emos.”

    Mas nos seus olhos verdes, se alguém tivesse olhado com atenção, teria visto algo diferente, algo frio e satisfeito.


    Os jornais da época reportaram o caso. O Monitor Republicano, de 25 de julho de 1908, publicou uma nota breve na página 7:

    “Menino desaparecido no centro. Francisco Montes de Oca Ríos, de 7 anos de idade, filho do respeitável comerciante Don Sebastián Montes de Oca, encontra-se desaparecido desde a passada terça-feira. A família pede a qualquer pessoa que tenha informação sobre o seu paradeiro que comunique com a esquadra de polícia. O menino vestia calções pretos e camisa branca no momento do seu desaparecimento.”


    O El Imparcial publicou uma nota semelhante dois dias depois, mas nenhum jornal lhe deu maior importância. Os meninos desapareciam com frequência na Cidade do México do Porfiriato. Alguns voltavam, a maioria não.


    Durante semanas, Don Sebastián procurou o seu filho, percorreu cada rua do centro, visitou hospitais e orfanatos, ofereceu recompensas, mandou imprimir cartazes com a descrição do menino que colou nas esquinas, mas Panchito não aparecia.


    Jacinta observava tudo isto com o coração destroçado. Via Don Sebastián consumir-se de tristeza. Via-o chorar à noite quando acreditava que ninguém o ouvia.

    Via-o agarrar-se às roupas do filho, aos seus brinquedos, a qualquer coisa que conservasse o seu cheiro.


    E sabia, sabia que o menino não estava perdido, sabia que estava ali em algum lugar dessa casa, mas não se atrevia a falar, não se atrevia a acusar porque não tinha provas e porque Hortensia a vigiava constantemente com esses olhos verdes que prometiam consequências terríveis.


    O odor que Doña Gertrudis tinha notado desapareceu depois de uns dias. A casa voltou a cheirar normal, a comida e a carvão e a flores do pátio. E a vida seguiu.

    Como sempre, segue depois das tragédias. Os comerciantes continuavam a vender nos seus portais. Os carros continuavam a percorrer as ruas. O sol continuava a nascer todas as manhãs.


    Don Sebastián, pouco a pouco, deixou de procurar, não porque deixasse de amar o seu filho, mas porque a dor era insuportável, porque cada dia sem notícias era como morrer um pouco.

    Hortensia dizia-lhe com voz suave e mãos consoladoras que tinha que aceitar o que tinha acontecido, que tinha que seguir em frente.


    “Talvez o levaram uns ciganos”, sugeria-lhe. “Ouvi dizer que roubam meninos para os vender no Sul. Talvez esteja longe daqui. Talvez, talvez esteja melhor onde estiver.”

    E Don Sebastián, destroçado e cansado, queria acreditar nisso. Queria acreditar que o seu filho estava vivo em algum lugar, que talvez algum dia regressasse.


    Passaram os meses, chegou o inverno, depois a primavera e chegou o verão de 1909, um ano completo desde o desaparecimento de Panchito.

    Don Sebastián tinha envelhecido 10 anos nesses 12 meses. O seu cabelo tinha-se tornado completamente grisalho. Os seus olhos tinham perdido esse brilho de comerciante próspero. Caminhava curvado como se carregasse um peso invisível sobre os ombros.


    O negócio começava a cair. Don Sebastián já não tinha a mesma energia. Já não viajava como antes. Passava as tardes sentado no pátio, olhando a fonte, recordando o seu filho.


    Hortensia, pelo contrário, parecia florescer. Tinha ganhado algum peso que lhe assentava bem. A sua pele estava mais luminosa, sorria mais.

    Recebia visitas de outras senhoras do bairro, organizava saraus, tinha-se convertido, aos olhos de todos, na esposa perfeita que consolava o seu esposo, destroçado pela perda do seu filho.


    Mas as fissuras começaram a aparecer. Foi Doña Gertrudis quem primeiro notou algo estranho da sua varanda.

    Durante essas tardes quentes de verão, via Hortensia no pátio do lado. Via-a caminhar pelo corredor do segundo andar.


    E às vezes, quando acreditava que ninguém a observava, Hortensia parava em frente a uma porta em particular. A porta da despensa.

    Ficava ali imóvel, olhando a porta como se pudesse ver através dela. E no seu rosto havia uma expressão que Doña Gertrudis não podia decifrar. Era satisfação, era medo, era culpa.


    E depois estava Jacinta. A mulher que tinha sido forte e trabalhadora, tinha-se convertido numa sombra. Tinha emagrecido dramaticamente.

    O seu cabelo branco tinha-se tornado ralo. Tinha olheiras profundas e murmurava. Murmurava o tempo todo enquanto trabalhava. Orações em zapoteco. Desculpas a santos e virgens.


    E às vezes, quando acreditava que ninguém a escutava, sussurrava um nome: Panchito.

    Os vizinhos começaram a notar coisas, pequenas coisas, rumores que se sussurravam no mercado. “Não acham estranho que o menino desapareceu justamente quando o pai estava de viagem?”, dizia uma.


    “E que a nova esposa nem sequer parece triste?”, acrescentava outra.

    “Ouvi dizer que a Jacinta está doente dos nervos”, comentava uma terceira. “Dizem que fala sozinha, que vê coisas.”


    Mas eram só rumores, murmúrios de vizinhas ociosas. Ninguém se atrevia a acusar diretamente até que aconteceu algo que mudou tudo.


    Em outubro de 1909, Don Sebastián decidiu que precisavam de fazer reparações na casa. As chuvas do verão tinham deixado humidade em algumas paredes.

    Era preciso arranjar o telhado em algumas secções e queria aproveitar para fazer algumas mudanças.


    “Vou mandar derrubar essa despensa do segundo andar”, disse a Hortensia uma tarde. “Não a usamos para nada. Poderíamos alargar o corredor ou convertê-la num quarto de banho moderno.”


    Hortensia deixou cair o bordado que tinha nas mãos. O seu rosto, normalmente controlado, mostrou um brilho de pânico puro.

    “A despensa?”, repetiu com voz estrangulada. “Por que é que tem que ser essa?”


    “Porque não serve para nada”, respondeu Don Sebastián sem notar a sua reação. “É um quarto morto, sem janelas, sempre com humidade. Melhor aproveitá-lo para algo útil.”


    “Mas, mas…” Hortensia procurou alguma desculpa. “É um gasto desnecessário. O dinheiro está escasso com o negócio como está.”

    “Tenho poupanças”, insistiu Don Sebastián. “E preciso de fazer algo. Preciso de me manter ocupado. Esta casa tem demasiadas recordações. Demasiados quartos vazios que me lembram…” Não terminou a frase, mas ambos sabiam de quem falava.


    Hortensia tentou dissuadi-lo durante dias. Sugeriu-lhe outras reparações, outras mudanças, mas Don Sebastián já tinha tomado a decisão.

    Contratou um pedreiro, um homem chamado Fulgencio Campos, que vivia no bairro de Tepito e que tinha fama de ser bom trabalhador.


    “O que querem os senhores que eu faça?”, perguntou Fulgencio, percorrendo a casa.

    “Derrubar esta parede”, assinalou Don Sebastián, a parede de adobes da despensa, “e alargar o espaço.”


    Fulgencio examinou a parede. Bateu nos adobes com os nós dos dedos. “É parede velha”, disse. “Adobe e cal. Não será difícil.”

    Concordaram que começaria na segunda-feira seguinte, 1 de novembro de 1909.


    No domingo à noite, Hortensia não dormiu. Don Sebastián ouviu-a caminhar pela casa durante horas, subir e descer as escadas, entrar e sair de quartos.

    “Estás bem?”, perguntou-lhe na manhã seguinte. “Só nervosa”, respondeu ela. Tinha olheiras profundas, as suas mãos tremiam ligeiramente. “Não gosto de obras, do pó, do barulho.”


    Fulgencio chegou às 7 da manhã. Trazia as suas ferramentas, um maço, cinzéis, pás e um ajudante, um rapaz jovem chamado Toño.

    Don Sebastián foi para o negócio, deixou instruções para que fizessem tudo o necessário.


    Hortensia ficou em casa sentada na sala do primeiro andar, imóvel com as mãos apertadas no colo.

    Fulgencio e Toño subiram ao segundo andar. Abriram a porta da despensa. Um cheiro a ranço saiu do quarto fechado. Odor a humidade e a tempo estagnado.


    “Está escuro aqui dentro?”, comentou Toño. “Não tem nem uma janela.” “É por isso que a vão derrubar”, respondeu Fulgencio. “Para que entre luz.”

    Começaram a trabalhar. O som do maço a bater nos adobes ressoava por toda a casa.


    Lá em baixo, Hortensia sobressaltava-se com cada golpe. As suas mãos apertavam-se mais forte, os seus lábios murmuravam algo que ninguém podia escutar.

    Jacinta entrou na sala, olhou para a sua senhora e viu algo na sua expressão que fez o seu coração acelerar. Viu medo, medo puro e desesperado.


    E Jacinta soube, soube que o que levava um ano a temer estava prestes a revelar-se.

    O que encontraria o pedreiro atrás dessa parede de adobes? Que segredo guardava esse quarto sem janelas? Por que é que Hortensia tremia de terror enquanto escutava cada golpe do maço?


    Se quiserem descobrir a verdade, certifiquem-se de que estão subscritos ao canal e de que ativaram o sininho, porque o que vem a seguir comoveu toda a Cidade do México e mudou para sempre a vida de todos os envolvidos.


    Os golpes do maço continuaram durante toda a manhã. Fulgencio e Toño trabalhavam com ritmo constante. Os adobes velhos desmoronavam-se com relativa facilidade. O pó de cal rodopiava no ar.


    “Olha”, disse Toño de repente. “A parede está estranha aqui.”

    Fulgencio aproximou-se, examinou a secção que o seu ajudante assinalava. Parte da parede parecia mais nova do que o resto. Os adobes não tinham a mesma pátina de tempo. O argamassa era diferente.


    “É como se tivessem tapado algo”, murmurou Fulgencio. “Como se tivessem feito uma parede dentro da parede.”

    Continuou a bater. Com mais cuidado agora. Mais devagar.


    E então o maço atravessou um adobe. Formou-se um buraco do tamanho de um punho.

    Desse buraco saiu ar, ar que tinha estado preso durante mais de um ano. E com esse ar veio um odor.


    Toño recuou imediatamente. Cobriu o nariz e a boca com a manga da sua camisa. “Mãe de Deus”, exclamou.

    Fulgencio também recuou. Conhecia esse odor. Tinha-o cheirado antes em velórios, no cemitério.


    “Há algo morto aí dentro”, disse com voz grave.

    Aumentou o buraco, tirou mais adobes, pouco a pouco o espaço foi ficando maior e então viu.


    No buraco entre a parede falsa e a parede original, num espaço de apenas meio metro de largura, encolhido num canto, havia um corpo, o corpo de um menino pequeno.


    Fulgencio sentiu que o chão se movia debaixo dos seus pés. “Toño”, disse com voz trémula, “desce, vai procurar a polícia.”

    O rapaz saiu a correr. Os seus passos retumbaram nas escadas.


    Fulgencio ficou ali a olhar para aquele pequeno corpo. O corpo de um menino que tinha morrido na mais absoluta escuridão, sozinho, aterrorizado, a chamar por um pai que nunca chegou.


    O menino estava vestido com calções e camisa. A roupa tinha-se decomposto em parte, mas ainda era visível. Tinha uma posição que sugeria que tinha tentado fazer-se o mais pequeno possível, como tentando desaparecer.


    As suas unhas, ou o que restava delas, estavam destroçadas. Havia marcas nos adobes, marcas de onde tinha tentado arranhar, raspar, desesperadamente procurar uma saída.


    No chão havia pequenos objetos, um botão, um pedaço de tecido e algo mais, algo que fez com que Fulgencio tivesse que se virar e vomitar. Uma medalha. Uma pequena medalha da Virgem de Guadalupe que o menino tinha apertado na sua mão até ao fim.


    Em baixo, na sala, Hortensia ouviu os passos apressados de Toño a descer as escadas. Ouviu a porta da rua abrir-se de repente e soube que tudo tinha terminado.


    Levantou-se lentamente com movimentos mecânicos, caminhou para as escadas. Subiu passo a passo, chegou ao segundo andar.

    Viu Fulgencio parado em frente ao buraco na parede. Viu a sua expressão de horror.


    “Senhora”, disse Fulgencio, virando-se para ela. A sua voz tremia. “Senhora, há… há um menino morto na parede.”

    Hortensia não respondeu, só olhou para o buraco. Olhou para o que tinha ficado exposto.


    “A senhora sabia?”, perguntou Fulgencio. Mas era mais uma acusação do que uma pergunta.

    Hortensia olhou-o. E nesse momento a sua máscara de senhora respeitável desmoronou-se. O seu rosto transformou-se em algo duro, algo vazio.


    “Era um estorvo”, disse com voz plana, como quem fala do clima, “um estorvo que não me deixava viver a minha vida.”

    Fulgencio recuou. Nunca na sua vida tinha visto tanta frieza num ser humano.


    Jacinta apareceu nas escadas. Tinha ouvido tudo da cozinha. Subiu devagar, agarrando-se ao corrimão, porque as suas pernas mal a sustentavam.

    Chegou ao segundo andar, viu o buraco na parede e algo dentro dela quebrou-se definitivamente.


    Caiu de joelhos. Um gemido saiu da sua garganta. Um gemido animal, dilacerante.

    “Menino Francisco, perdoa-me, perdoa-me, menino. Eu sabia, eu sabia e não disse nada.”


    Hortensia olhou-a com desprezo. “Cala-te, velha tonta.”

    Mas Jacinta não se calou. As palavras que tinha guardado durante mais de um ano começaram a sair como uma torrente.


    “Ela o fechou”, disse a Fulgencio entre soluços, “o fechou quando o Senhor foi viajar. Eu ouvi. Ouvi-o pedir água. Ouvi-o chorar e ela… ela o deixou morrer ali.”


    “Eu te avisei”, sibilou Hortensia. “Eu te disse para te calares.”

    “Já não me importa”, gritou Jacinta. “Já não me importa nada. Esse menino está morto por minha culpa, porque eu não tive a coragem de falar.”


    Os passos de várias pessoas a subir as escadas interromperam a cena. Toño tinha regressado e com ele vinham dois guardas.

    Os polícias eram agentes do destacamento do centro. Um era um homem mais velho chamado Wenceslao Carvajal, veterano de muitos anos. O outro era jovem, apenas 20 anos, de nome Miguel Robles.


    “O que está a acontecer aqui?”, perguntou Wenceslao com voz de autoridade.

    Fulgencio apontou para o buraco na parede. “Ali”, disse, “há um menino morto emparedado.”


    Wenceslao aproximou-se, olhou pelo buraco. O seu rosto curtido pelos anos endureceu. Tinha visto muitas coisas na sua carreira, crimes de todo o tipo, mas isto… isto era diferente.


    “Miguel”, disse ao seu companheiro, “vai avisar o chefe, que mande vir o médico legista e que venha o juiz.”

    O jovem Miguel, depois de dar uma olhadela para o interior da parede, saiu a correr. Tinha empalidecido.


    Wenceslao voltou-se para as duas mulheres. “Quem é o dono desta casa?”

    “Don Sebastián Montes de Oca”, respondeu Jacinta. “Está no seu negócio, no portal dos mercadores.”


    “E vocês quem são?”

    “Eu sou a criada”, disse Jacinta. “Jacinta Velasco.”

    “Eu sou Hortensia Villalobos de Montes de Oca”, respondeu a outra com voz controlada. Já tinha recuperado algo da sua compostura. “A esposa de Don Sebastián.”


    “Sabe a senhora algo deste menino?”, perguntou Wenceslao, olhando-a diretamente nos olhos.

    “É o meu enteado”, respondeu Hortensia. “Francisco desapareceu há mais de um ano. Reportámos às autoridades. Vocês têm o relatório.”


    “E como é que acabou emparedado na sua própria casa?”

    Hortensia levantou o queixo. “Não tenho ideia. Deve ter sido um acidente terrível. Talvez se meteu ali a brincar e…”


    “Mentirosa!”, explodiu Jacinta. “A senhora fechou-o. Eu vi-a. Eu ouvi quando o menino pedia água e a senhora não lhe abriu.”

    “Esta mulher está louca”, disse Hortensia friamente. “Está com problemas mentais há meses. Vê coisas que não existem.”


    “Eu ouvi”, insistiu Jacinta. “Ouvi-o gritar e ela ameaçou-me para que me calasse.”

    Wenceslao levantou a mão para que ambas se calassem. “Ninguém vai sair daqui até que chegue o chefe.”


    Olhou para Fulgencio. “O senhor continue a trabalhar, mas com cuidado. Abra toda a parede. Temos que tirar o menino.”

    Fulgencio assentiu. Voltou ao seu trabalho com o maço, mas agora cada golpe lhe doía porque sabia que estava a libertar um menino que tinha morrido da maneira mais horrível e imaginável.


    A notícia propagou-se pelo bairro como fogo em palha seca. Os vizinhos começaram a aglomerar-se à porta da casa. Primeiro foram dois ou três curiosos, depois 10. Depois 20.

    “Dizem que encontraram o menino Panchito”, murmurava uma mulher.


    “Morto?”, perguntava outra.

    “Emparedado”, respondia a primeira com horror. “Emparedado na sua própria casa.”


    Doña Gertrudis, a vizinha da varanda, levou as mãos ao rosto. “Eu sabia”, murmurou, “eu sabia que algo terrível tinha acontecido, o odor e os olhares dessa mulher.”


    Don Eugenio Ríos Villegas, o chefe de polícia, chegou meia hora depois. Com ele vinham o médico legista, o Doutor Eriiberto Castañeda e o juiz de distrito, o Licenciado Alfonso Herrera.

    Subiram ao segundo andar. Por essa altura, Fulgencio tinha derrubado quase toda a parede falsa. O corpo do menino ficou completamente exposto.


    O Doutor Castañeda aproximou-se. Era um homem de 50 anos, habituado a examinar cadáveres, mas quando viu o menino teve que respirar fundo.


    “É o menino de Don Sebastián”, disse Don Eugenio. “Francisco Montes de Oca, o que reportaram como desaparecido há quanto tempo, um ano?”

    “Quinze meses”, corrigiu o Juiz Herrera, revendo uns papéis. “Reportado como desaparecido a 19 de julho de 1908.”


    O Doutor Castañeda pôs-se de cócoras junto ao pequeno corpo. Examinou-o sem tocar ainda.

    “Não há sinais de violência externa”, ditou. “Não há fraturas evidentes. A posição sugere que o menino estava consciente quando foi fechado.”


    “As marcas nos adobes indicam que tentou sair. Causa provável de morte: desidratação ou asfixia por falta de ventilação.”

    Fez uma pausa. A sua voz quebrou ligeiramente.


    “Este menino morreu lentamente”, disse, “pode ter demorado dias, três, quatro, talvez cinco dias. Consciente o tempo todo na escuridão, a chamar por alguém que nunca veio.”


    O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

    “Quem fez isto?”, perguntou o Juiz Herrera com voz grave.


    Wenceslao assinalou Hortensia. “Segundo o testemunho da criada, foi ela, a madrasta.”

    Todos os olhos se voltaram para Hortensia. Ela mantinha-se ereta com as mãos cruzadas em frente a si. O seu rosto era uma máscara de calma.


    “Eu não fiz nada”, disse com voz firme. “O menino desapareceu. Procurámos por toda a parte. Avisámos as autoridades. Não sei como acabou ali.”


    “Isso é impossível”, disse o Doutor Castañeda. “Esta parede foi construída recentemente. A argamassa não tem mais de 15 meses. Alguém emparedou este menino deliberadamente.”


    “Foi ela!”, gritou Jacinta do seu canto. “Eu a vi na segunda-feira depois que Don Sebastián se foi, ela me mandou ao mercado. Quando regressei, o menino já não estava e nessa noite ouvi batidas nesta parede.”

    “Ouvi o menino gritar e ela ameaçou-me para que me calasse.”


    “Por que é que não denunciou isto antes?”, perguntou o juiz.

    Jacinta começou a chorar: “Porque sou uma velha pobre e tonta, porque tive medo, porque pensei que ninguém me acreditaria.”


    “Porquê? Porque sou uma cobarde que deixou morrer um menino inocente.”

    Nesse momento ouviram-se passos apressados nas escadas. Don Sebastián tinha chegado. Alguém lhe tinha dado a notícia no seu negócio.


    Chegou ao segundo andar a correr. O seu rosto estava vermelho do esforço. Os seus olhos procuravam respostas.

    “O que se passa?”, exigiu. “Disseram-me que encontraram…”


    Não terminou a frase porque viu o buraco na parede e viu o que havia dentro.

    “Não”, sussurrou. “Não, não, não.”


    Aproximou-se cambaleando, caiu de joelhos em frente ao pequeno corpo. “Panchito!”, gemeu. “Meu filho, meu menino.”

    Estendeu a mão para tocar o menino, mas o Doutor Castañeda deteve-o gentilmente.


    “Don Sebastián”, disse com voz suave, “lamento muito a sua perda, mas não pode tocar o corpo ainda. É prova.”

    “Prova?”, repetiu Don Sebastián sem compreender. “Prova de quê?”


    “De assassinato”, respondeu o Juiz Herrera.

    Don Sebastián levantou o olhar. Os seus olhos percorreram os rostos de todos os presentes. A confusão na sua expressão foi dando lugar à compreensão. E a compreensão deu lugar ao horror.


    “Quem? Porquê?”, perguntou com voz quebrada. “Quem fez isto ao meu filho?”

    Ninguém respondeu, mas todos os olhares se voltaram para a mesma pessoa.


    Don Sebastián seguiu esses olhares e encontrou-se a olhar para a sua esposa.

    “Hortensia”, disse, a sua voz mal era audível. “Diz-me que não é verdade. Diz-me que não foste tu.”


    Hortensia olhou-o diretamente nos olhos e, nesse momento, algo nela se quebrou. Ou talvez era que simplesmente deixou de fingir.

    “Era ele ou eu?”, disse com voz plana. “Esse menino arruinava tudo. A sua presença, a sua existência mesma era um insulto, um lembrete constante da tua primeira esposa.”


    “Eu não podia ser feliz com ele. Nós não podíamos ser felizes.”

    Don Sebastián olhava-a como se nunca antes a tivesse visto.


    “Fechaste-o”, disse lentamente, como se estivesse a tentar compreender uma língua estrangeira. “Fechaste-o na escuridão e deixaste-o morrer.”


    “Precisava que desaparecesse”, continuou Hortensia. Agora que tinha começado a falar, as palavras saíam sem controlo.

    “Pensei em deixá-lo num orfanato, em enviá-lo com alguma família para longe, mas tu tê-lo-ias procurado. Sempre o terias procurado.”


    “Esta era a única maneira.”

    “A única maneira?”, repetiu Don Sebastián. A sua voz começava a subir de tom. “A única maneira era emparedar vivo um menino de 7 anos? O meu filho?”


    Levantou-se de repente. Por um momento, pareceu que ia atirar-se sobre ela. Don Eugenio e Wenceslao tiveram que o segurar.

    “Deixaste-o morrer!”, rugiu Don Sebastián. “Enquanto eu estava em Puebla à procura de dinheiro para te dar uma boa vida, tu estavas aqui a matar o meu filho e depois recebeste-me com um beijo.”


    “Consolaste-me quando te disse que o procuraria. Dormiste na minha cama sabendo que o meu filho estava morto na parede.”

    Hortensia não respondeu. O seu rosto tinha-se tornado pétreo como se já não estivesse ali, como se a sua mente tivesse ido para um lugar onde as acusações não podiam alcançá-la.


    “Senhora Hortensia Villalobos de Montes de Oca”, disse o Juiz Herrera com voz solene, “fica detida pelo assassinato de Francisco Montes de Oca Ríos. Será transferida para a prisão de Belén, onde permanecerá até que se celebre o julgamento.”


    Wenceslao aproximou-se com algemas. Hortensia estendeu as mãos sem resistir, sem dizer nada.

    Enquanto a levavam para as escadas, virou-se uma última vez. Olhou para o pequeno corpo no buraco da parede e nos seus olhos verdes não havia remorso, não havia culpa, só havia esse vazio, esse espaço onde deveria haver humanidade e não havia nada.


    A casa da Calle de las Damas número 32 converteu-se num espetáculo macabro. Os vizinhos amontoavam-se à porta a tentar ver algo.

    Os vendedores ambulantes faziam o seu negócio vendendo tamales e água fresca aos curiosos. Os meninos do bairro espreitavam com olhos grandes, sem compreender completamente o que tinha acontecido, mas sentindo o horror no ar.


    O Doutor Castañeda supervisionou pessoalmente a extração do corpo. Fizeram-no com todo o cuidado possível, como se o menino ainda pudesse sentir dor.

    Don Sebastián observava tudo de um canto. Já não chorava, já não gritava, só olhava com olhos vazios enquanto tiravam o pequeno corpo do seu filho dessa tumba de adobe.


    Jacinta também observava, rezava em voz baixa. Os seus lábios moviam-se constantemente, repetindo as mesmas palavras uma e outra vez. “Perdão, perdão, perdão.”


    Puseram o corpo do menino numa maca coberta com um lençol branco. Baixaram-no com cuidado pelas escadas.

    Quando saíram para o pátio, o sol da tarde caía sobre o lençol branco. As buganvílias balançavam suavemente com a brisa. A fonte continuava a fazer barulho. Tudo continuava igual como se nada tivesse acontecido, como se um menino não tivesse morrido a gritar por ajuda nessa mesma casa.


    Tiraram o corpo para a rua. A multidão afastou-se em silêncio. Alguns benzeram-se. As mulheres limpavam as lágrimas. Os homens tiravam os chapéus.

    Subiram a maca para um carro fúnebre. Don Sebastián caminhou atrás como um autómato, subiu para o carro, sentou-se junto ao pequeno corpo do seu filho.


    “Perdoa-me”, sussurrava. “Perdoa-me, meu filho, por não te ter protegido, por não ter visto, por ter trazido essa mulher para a nossa casa.”


    O carro afastou-se lentamente pelas ruas empedradas do centro e com ele se foi Don Sebastián, o homem que tinha sido, o pai que tinha falhado com o seu filho da maneira mais terrível e imaginável.


    A notícia apareceu em todos os jornais da capital. O El Imparcial de 2 de novembro de 1909 publicou na primeira página:

    “Horrendo crime descoberto no centro da capital. Madrasta emparedou vivo menino de 7 anos. O pequeno Francisco Montes de Oca, reportado como desaparecido há 15 meses, foi encontrado morto num muro da sua própria casa. A sua madrasta, Doña Hortensia Villalobos, confessou ser a autora do crime. A sociedade capitalina encontra-se comovida perante a crueldade inaudita deste ato.”


    O Monitor Republicano foi mais explícito: “A monstruosa madrasta da Calle de las Damas. Emparedamento como método de assassinato. O caso que horroriza o México. Os detalhes do achado são tão perturbadores que esta redação considera prudente omitir os mais gráficos. Basta dizer que o menino Francisco passou os seus últimos dias na mais absoluta escuridão, a chamar por um pai que não podia ouvi-lo, enquanto a sua madrasta vivia a sua vida normal do outro lado da parede.”


    O El Nacional adotou um tom mais moralista: “Até onde pode ir a maldade feminina? O caso de Hortensia Villalobos recorda-nos que sob a aparência de uma dama educada pode esconder-se um coração de pedra. Este crime obriga-nos a refletir sobre a instituição do casamento e a proteção das crianças em famílias reconstituídas.”


    O julgamento começou a 15 de janeiro de 1910. Realizou-se no Palácio da Justiça da Calle Corregidora. O juiz encarregado foi o Licenciado Alfonso Herrera, o mesmo que tinha estado presente no achado do corpo.


    A sala estava apinhada. Havia jornalistas de todos os jornais da cidade. Havia curiosos que tinham chegado cedo para conseguir um lugar. Havia mulheres do bairro que vinham ver como a justiça castigava quem tinha cometido o imperdoável.


    Hortensia entrou na sala escoltada por dois guardas. Vestia de preto como sempre, mas agora a sua roupa estava amarrotada. O seu cabelo, antes perfeitamente penteado, mostrava madeixas grisalhas sem pintar.

    O seu rosto tinha emagrecido, mas os seus olhos, os seus olhos verdes continuavam a ter essa mesma dureza.


    Sentou-se no banco dos réus sem olhar para ninguém, sem procurar compaixão, sem mostrar arrependimento.

    O procurador foi Don Rodrigo Santoña, um homem de 45 anos, conhecido pela sua eloquência. Apresentou o caso com precisão cirúrgica.


    “Senhores”, começou. “O caso que nos ocupa não é simplesmente um assassinato, é algo muito mais obscuro. É o assassinato premeditado de um menino indefeso, executado da maneira mais cruel que a mente humana pode conceber.”


    Descreveu os factos passo a passo. Como Hortensia tinha esperado que Don Sebastián se fosse. Como tinha afastado Jacinta de casa. Como tinha fechado o menino.


    “Segundo o relatório do Doutor Castañeda”, continuou o procurador. “O menino Francisco morreu lentamente. Pode ter demorado entre três e cinco dias. Três a cinco dias de agonia, de sede, de fome, de terror.”


    “Três a cinco dias a chamar pelo pai, a chamar pela sua mãe morta, a chamar por qualquer um que pudesse ouvi-lo.”

    A sala estava em silêncio absoluto. Algumas mulheres choravam em silêncio.


    “E enquanto este menino morria”, o procurador elevou a voz. “A acusada vivia a sua vida normal, cozinhava, limpava, bordava. E quando o seu esposo regressou da viagem, recebeu-o com um beijo.”


    “Consolou-o quando ele chorou pelo seu filho desaparecido. Abraçou-o à noite enquanto o pequeno corpo de Panchito se decompunha do outro lado da parede.”

    O procurador voltou-se para Hortensia. “Como é que alguém pode fazer algo assim?”, perguntou. “Como é que alguém pode viver sabendo que um menino agoniza a poucos metros de distância?”


    “A resposta é simples e aterradora. Só pode fazê-lo alguém que carece por completo de humanidade.”

    Chamou testemunhas. Primeiro declarou Jacinta. A pobre mulher mal conseguia falar entre soluços. Contou tudo.


    Como tinha ouvido o menino, como Hortensia a tinha ameaçado, como viveu 15 meses com esse segredo que a estava a matar por dentro.

    “Por que é que não denunciou isto de imediato?”, perguntou o advogado de defesa de Hortensia, um homem chamado Licenciado Eusebio Gómez.


    “Porque sou uma velha pobre”, respondeu Jacinta. “Porque tive medo, porque pensei que ninguém me acreditaria e porque sou uma cobarde.”


    “Então não tem provas reais?”, pressionou o advogado. “Apenas a sua palavra contra a da minha cliente.”

    “Tenho isto.” Jacinta levantou-se, subiu a manga do seu vestido, mostrando o seu braço. Havia marcas.


    Marcas velhas de dedos que se tinham cravado com força. “Na noite em que tentei abrir a porta”, disse Jacinta, “ela agarrou-me assim, deixou-me estas marcas, tive-as durante semanas e cada vez que as via recordava que havia um menino a morrer e eu não fazia nada.”


    Depois declarou Doña Gertrudis. Falou do odor que tinha sentido, de como Hortensia tinha mentido dizendo que era um rato morto, de como o menino tinha deixado de brincar no pátio justamente quando Don Sebastián se foi viajar.


    “E a senhora não suspeitou de nada?”, perguntou o procurador.

    “Suspeitei”, admitiu Doña Gertrudis. “Mas, como acusar alguém sem provas? Como dizer que uma senhora respeitável matou um menino? Ter-me-iam chamado louca.”


    Declarou Fulgencio Campos. O pedreiro descreveu o momento da descoberta, a parede falsa, o pequeno corpo encolhido, as marcas de arranhões nos adobes.


    “Era como se tivesse tentado sair”, disse Fulgencio com voz quebrada, “como se tivesse arranhado e arranhado até que já não teve forças.”


    Declarou o Doutor Castañeda. Apresentou o seu relatório forense completo.

    “O menino Francisco Montes de Oca Ríos”, leu com voz profissional. “Tinha 7 anos de idade no momento da sua morte. Pesava aproximadamente 19 kg, media 1 m e 12 cm.”


    “A causa de morte foi desidratação severa combinada com asfixia progressiva por falta de ventilação.”

    Fez uma pausa, depois continuou com voz menos firme.


    “A análise das unhas do menino mostra restos de adobe e cal. As pontas dos dedos apresentavam feridas que sugerem que tentou arranhar a parede durante um período prolongado. No estômago não foram encontrados restos de comida nem água. O menino morreu sozinho, aterrorizado e em agonia.”


    Houve um murmúrio na sala. Várias mulheres soluçavam abertamente.

    Por último, declarou Don Sebastián. Tinha envelhecido anos em apenas uns meses. O seu cabelo era completamente branco.


    Caminhava curvado. As suas mãos tremiam constantemente.

    “Alguma vez notou a senhora algum comportamento estranho na sua esposa em relação ao menino?”, perguntou o procurador.


    “Agora que penso nisso”, respondeu Don Sebastián com voz quebrada. “Havia sinais, pequenas coisas que não vi ou que não quis ver. Como ela sempre encontrava desculpas para que Panchito não comesse connosco. Como sempre dizia que o menino estava a dormir quando eu perguntava por ele.”


    “Como… como me convenceu a fazer essa viagem a Puebla justamente nesse momento.” Cobriu o rosto com as mãos.

    “Ela planeou tudo”, disse entre lágrimas. “Esperou pelo momento perfeito, quando eu não estivesse, quando pudesse fazê-lo sem testemunhas. E eu… eu permiti. Deixei o meu filho sozinho com a sua assassina.”


    “Don Sebastián”, disse o procurador com gentileza, “o senhor não é culpado disto. O senhor confiava na sua esposa.”

    “Devia tê-lo protegido”, soluçou Don Sebastián. “Era o meu filho. A minha única responsabilidade era protegê-lo e falhei.”


    Durante todo o julgamento, Hortensia permaneceu em silêncio. Escutava os testemunhos sem reagir, sem se defender, sem mostrar emoção alguma.

    Quando finalmente lhe coube falar, o Juiz Herrera perguntou-lhe diretamente: “Senhora Hortensia Villalobos, o que tem a dizer em sua defesa?”


    Ela levantou-se lentamente, olhou para o juiz, depois percorreu com o olhar toda a sala.

    “Não me arrependo”, disse com voz clara e firme. Um murmúrio de horror percorreu a sala.


    “Esse menino arruinava a minha vida”, continuou. “A sua mera existência era um insulto, um lembrete constante de que eu era a segunda opção, de que nunca seria a verdadeira senhora dessa casa enquanto ele estivesse ali.”


    “Fiz o que tinha que fazer.”

    “O que tinha que fazer?”, repetiu o juiz incrédulo. “Emparedar vivo um menino de 7 anos?”


    “Era ele ou eu?”, respondeu Hortensia, “e escolhi sobreviver.”


    O julgamento durou três semanas, mas o veredito estava claro desde o princípio. A 11 de fevereiro de 1910, o Juiz Herrera leu a sentença.

    “Declaramos a acusada Hortensia Villalobos Santa María culpada de assassinato premeditado em primeiro grau”, declarou. “Dadas as circunstâncias particularmente atrozes do crime, a ausência total de remorso da acusada e a natureza indefesa da vítima, este tribunal sentencia a acusada a 30 anos de prisão na cadeia de Belén.”


    Hortensia escutou a sentença sem reagir. Não chorou, não protestou, simplesmente assentiu como se estivesse à espera exatamente disso.

    Mas o castigo legal não foi tudo o que recebeu. Na cadeia de Belén, Hortensia foi marcada como o pior que uma mulher podia ser: uma assassina de crianças.


    As outras presas, muitas delas mães separadas dos seus próprios filhos, tratavam-na com um desprezo absoluto, cuspiam-lhe ao passar, negavam-lhe comida quando podiam, batiam-lhe nos pátios. Os guardas olhavam para o outro lado.

    “Aqui não proteges quem mata crianças”, diziam.


    Hortensia sobreviveu 7 anos nessas condições, 7 anos de isolamento, de violência, de desprezo absoluto.

    A 11 de março de 1917, foi encontrada morta na sua cela. O relatório oficial disse que tinha sido uma paragem cardíaca, mas as presas contavam outra história.


    Diziam que as companheiras de cela se tinham cansado dela, que uma noite a tinham asfixiado com uma almofada, que a tinham feito sentir o que se sente morrer sem poder respirar. Ninguém investigou, ninguém perguntou.


    O corpo de Hortensia Villalobos foi enterrado na vala comum do cemitério municipal, sem nome, sem lápide, sem ninguém que a chorasse.


    Don Sebastián nunca se recuperou. Fechou o seu negócio, vendeu a casa da Calle de las Damas, não conseguiu continuar a viver ali. Cada parede lhe recordava o seu filho.


    Mudou-se para uma casa pequena na colónia San Rafael. Viveu ali sozinho durante 5 anos. Bebia, quase não comia. Passava os dias a olhar pela janela.


    Os seus amigos tentaram ajudá-lo, mas ele tinha morrido no dia em que encontraram Panchito. O seu corpo simplesmente demorou 5 anos a dar-se conta.


    Morreu a 20 de abril de 1914. De cirrose segundo o certificado médico, de coração partido, segundo quem o conhecia.

    Foi enterrado no cemitério de Dolores, na mesma sepultura onde descansava a sua primeira esposa, Doña María del Carmen, e junto a eles enterraram os restos de Panchito.


    Na lápide familiar lê-se: “Família Montes de Oca Ríos. María del Carmen Ríos de Montes de Oca. 1875-1905. Sebastián Montes de Oca. 1865-1914. Francisco Montes de Oca Ríos. 1901-1908. Finalmente juntos em paz.”


    Jacinta viveu até aos 82 anos. Nunca conseguiu perdoar-se por não ter falado antes.

    Levava sempre consigo uma pequena imagem da Virgem de Guadalupe, a mesma imagem que tinha estado no quarto de Panchito.


    Passou os seus últimos anos num asilo para idosos administrado por religiosas. Falava pouco, mas as freiras diziam que à noite a ouviam chorar e sussurrar sempre o mesmo nome. “Menino Francisco, perdão, menino Francisco.”


    Morreu em 1931. As suas últimas palavras foram: “Já vou, Panchito, já vou pedir-te perdão.”


    A casa da Calle de las Damas teve vários donos depois da tragédia, mas nenhum durava muito tempo.

    Diziam que se ouviam ruídos, batidas nas paredes, choros de menino, especialmente no segundo andar, no corredor onde tinha estado a despensa.


    As famílias mudavam-se depois de poucas semanas assustadas, dizendo que não podiam dormir, que sentiam uma presença, que os seus próprios filhos tinham pesadelos com um menino que pedia ajuda.


    Por volta de 1930, a casa estava abandonada. Ninguém queria viver ali, nem sequer alugá-la.

    Em 1952, a casa foi demolida. No seu lugar foi construído um edifício de apartamentos, mas antes de construir, o dono mandou chamar um sacerdote para benzer o terreno.


    E a rua, a rua onde Panchito tinha vivido e onde tinha morrido. Essa rua mudou de nome.

    Alguns dizem que foi decisão da câmara municipal, outros dizem que foram os vizinhos quem pediram a mudança. A realidade é que ninguém queria viver numa rua marcada por semelhante tragédia.


    E assim lentamente o nome de Calle de las Damas foi desaparecendo dos mapas e no seu lugar apareceu outro nome: Calle del Niño Perdido (Rua do Menino Perdido).


    Um nome que persiste até hoje no centro da Cidade do México. Uma rua que leva o nome de um menino que se perdeu dentro da sua própria casa.

    Um menino que ninguém pôde encontrar porque estava oculto, onde ninguém pensou procurar.


    Os velhos do bairro ainda contam a história, transmitem-na aos seus filhos e netos, não como uma lenda de terror, mas como um aviso.

    “Cuidem dos vossos filhos”, dizem, “porque o perigo nem sempre vem de fora. Às vezes está na mesma casa, na pessoa em quem mais confiam.”


    E quando passam por essa rua, ainda se benzem, ainda sussurram uma oração pelo menino perdido que nunca deixou de procurar a saída.


    Este caso deixou marcas profundas na sociedade mexicana do início do século XX. Levou a mudanças nas leis de proteção infantil, a maior escrutínio em casos de crianças desaparecidas, à criação de protocolos para investigar dentro das casas das famílias quando um menor desaparecia.


    Mas também deixou algo mais obscuro. Uma pergunta que nunca foi respondida completamente.

    Quantas outras crianças desaparecidas acabaram nas paredes das suas próprias casas? Quantos outros Panchitos morreram a chamar pelos seus pais enquanto os seus assassinos viviam tranquilamente do outro lado do muro?


    Porque a história de Panchito só foi descoberta por acidente, por uma remodelação casual. Se Don Sebastián nunca tivesse decidido derrubar essa parede, o menino continuaria ali e Hortensia teria morrido como uma viúva respeitável, levando o seu segredo para a sepultura.


    Em quantas casas antigas do centro do México há paredes que nunca foram derrubadas? Quantos segredos continuam ocultos atrás do adobe e da cal?


    Hoje, mais de um século depois, a Calle del Niño Perdido continua ali. É uma rua comercial do centro histórico, cheia de lojas e escritórios, cheia de vida.


    Mas se caminharem por ali ao anoitecer, quando as lojas fecham e as ruas se esvaziam, alguns dizem que ainda podem escutar algo. Um choro suave, quase impercetível. O choro de um menino que chama pelo pai.


    Não é uma lenda urbana, não é um conto para assustar turistas, é o eco de uma tragédia real, de um horror que realmente aconteceu, de um menino que realmente morreu pedindo ajuda que nunca chegou.


    A história de Francisco Montes de Oca Ríos. O menino perdido, não perdido nas ruas da cidade, mas perdido nas paredes da sua própria casa, tão perto e tão longe ao mesmo tempo.


    Esta história recorda-nos que o horror mais profundo não vem de fantasmas nem demónios, vem da capacidade humana para a crueldade.

    Vem de corações tão frios que podem escutar o choro de um menino e não sentir nada.


    Recorda-nos também que as crianças são as mais vulneráveis, que dependem completamente dos adultos que as rodeiam e que quando esses adultos falham, as consequências são irreversíveis.


    Quantas crianças hoje vivem em perigo dentro das suas próprias casas? Quantas gritam sem que ninguém as escute? Quantos Panchitos ainda estão à espera que alguém os encontre?


    A resposta é demasiados e isso é o mais aterrador de tudo.


    Obrigado por nos acompanharem neste percurso por um dos casos mais dilacerantes da história da Cidade do México.

    Se esta história vos impactou, partilhem-na, porque recordar é a primeira forma de prevenir. Não se esqueçam de subscrever o canal, ativar as notificações e deixar nos comentários a vossa reflexão sobre este caso.


    Conheciam esta história? Na vossa cidade há ruas com nomes que escondem tragédias semelhantes? O que pensam sobre a sentença que Hortensia recebeu? Foi suficiente ou devia ter sido mais severa?

  • Carluxo humilha o próprio pai e Bolsonaro vira piada nas redes: o vídeo que incendiou a internet

    Na política brasileira, as crises raramente avisam quando vão chegar. Elas surgem, crescem e explodem diante dos olhos de milhões, impulsionadas por curtidas, compartilhamentos e comentários ácidos. Foi exatamente assim que uma postagem de Carlos Bolsonaro, conhecido nas redes como Carluxo, transformou-se em um terremoto digital que atingiu em cheio o próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e reacendeu uma velha guerra virtual que parecia adormecida.

    Tudo começou com um vídeo aparentemente simples. Uma gravação curta, linguagem direta e tom que misturava ironia e indignação. Para alguns, tratava-se de mais uma manifestação política; para outros, um recado atravessado, público demais, íntimo demais. Em questão de horas, usuários começaram a interpretar o conteúdo como uma exposição desnecessária do ex-presidente, algo que soava menos como defesa e mais como humilhação involuntária.

    As redes sociais não perdoam ambiguidades. Quando um filho fala do pai em público, ainda mais sendo ambos figuras centrais da política nacional, cada palavra vira lupa, cada silêncio vira suspeita. No vídeo, Carluxo abordava temas sensíveis, relembrava episódios controversos e fazia referências que muitos internautas interpretaram como indiretas desconfortáveis. Bastou isso para que a máquina dos memes entrasse em ação.

    Em minutos, Bolsonaro deixou de ser apenas assunto político e virou personagem de piada. Montagens, vídeos editados e frases sarcásticas começaram a circular com velocidade impressionante. O tom variava entre deboche e crítica feroz. Para os adversários, era o prato cheio; para apoiadores mais fiéis, um constrangimento difícil de defender.

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    O mais curioso é que a postagem não atacava diretamente o ex-presidente. Pelo contrário, havia ali uma tentativa de contextualizar fatos e responder a críticas antigas. Mas, no ambiente explosivo das redes, a intenção raramente importa mais do que a interpretação coletiva. E a interpretação que ganhou força foi a de que Carluxo havia ido longe demais, lavando roupa suja em praça pública.

    Especialistas em comunicação política apontaram que o episódio ilustra um erro clássico: subestimar o poder do recorte. Um vídeo pode ser compartilhado fora de contexto, frases podem ser isoladas e transformadas em armas narrativas. Foi o que aconteceu. Trechos específicos passaram a circular sem o restante da explicação, alimentando a ideia de que Bolsonaro estava sendo ridicularizado pelo próprio filho.

    Enquanto isso, o silêncio do ex-presidente só aumentava a curiosidade. Não houve resposta imediata, nem defesa pública contundente. Para muitos, esse silêncio soou como confirmação do desconforto. Para outros, foi apenas uma estratégia de evitar alimentar ainda mais o fogo. Seja como for, a ausência de reação virou mais um combustível para piadas e especulações.

    Nos bastidores, comentava-se sobre possíveis tensões familiares. Nada confirmado, tudo baseado em fontes anônimas e suposições. Mas a internet não precisa de provas para criar histórias. Bastam indícios, insinuações e um público disposto a acreditar. A narrativa de um pai exposto pelo filho ganhou força e se espalhou como verdade absoluta em diversos círculos digitais.

    A oposição aproveitou o momento. Políticos, influenciadores e comentaristas críticos a Bolsonaro compartilharam o vídeo com legendas irônicas, sugerindo que o maior crítico do ex-presidente agora estava dentro de casa. Hashtags surgiram, subiram aos trending topics e consolidaram o episódio como um dos assuntos mais comentados do dia.

    Por outro lado, apoiadores tentaram reagir. Alguns defenderam Carluxo, afirmando que o vídeo havia sido mal interpretado. Outros preferiram culpar a mídia e os adversários políticos pela distorção da mensagem. Houve também quem pedisse que assuntos familiares fossem resolvidos longe das redes, numa tentativa tardia de apaziguar o clima.

    O episódio reacendeu um debate maior: até que ponto a exposição constante nas redes sociais cobra seu preço? A família Bolsonaro construiu grande parte de sua força política no ambiente digital, falando diretamente com o público, sem filtros. Essa estratégia, que tantas vezes funcionou, mostrou agora seu lado mais perigoso: quando algo sai do controle, não há assessoria que consiga conter a avalanche.

    Analistas lembram que a linha entre o pessoal e o político ficou borrada há muito tempo. Quando filhos ocupam cargos públicos, quando opiniões são compartilhadas em perfis oficiais e quando a família se transforma em marca política, qualquer gesto íntimo vira ato público. Foi exatamente essa confusão que tornou o vídeo de Carluxo tão explosivo.

    Carlos Bolsonaro, o “Carluxo”, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro pode  ser candidato ao Senado pelo Amapá. A notícia foi dada pela revista Fórum  nesta terça-feira (4/11). De acordo com a revista, inicialmente,

    Com o passar dos dias, o assunto continuou rendendo. Programas de televisão comentaram o caso, colunistas escreveram análises e o vídeo seguiu circulando, mesmo após tentativas de mudar o foco. Bolsonaro, mais uma vez, virou piada para uns e vítima para outros, dependendo do ponto de vista.

    No fim das contas, o episódio deixou uma lição clara sobre o poder e o risco das redes sociais. Em um ambiente onde tudo é amplificado, um único post pode redefinir narrativas, expor fragilidades e transformar líderes em alvos de humor coletivo. Para Carluxo e Bolsonaro, ficou o alerta: na internet, até o que parece defesa pode soar como ataque.

    E enquanto novas polêmicas surgem para disputar a atenção do público, esse capítulo entra para a longa lista de momentos em que a política brasileira mostrou que, no palco digital, o drama familiar pode ser tão impactante quanto qualquer discurso oficial.

  • Rosa de Tabasco: Escrava que envenenou a água dos criados e saiu da casa em silêncio.

    Rosa de Tabasco: Escrava que envenenou a água dos criados e saiu da casa em silêncio.

    Na fazenda San Cristóbal, perto do rio Grijalva, em Tabasco, o calor pegajoso do meio-dia envolvia os canaviais como um cobertor húmido.

    Era o ano de 1787 e sob o sol implacável trabalhavam dezenas de escravos africanos, cujas costas brilhavam de suor enquanto cortavam a cana com machetes enferrujados.

    Entre eles estava Rosa, uma mulher de 30 anos, cuja pele escura como a noite contrastava com a brancura dos seus olhos, sempre alerta, sempre a observar.

    Rosa tinha chegado ao México há 15 anos, acorrentada no ventre de um navio negreiro que partiu das costas de Angola.

    Recordava o cheiro a morte, os gritos abafados dos que não sobreviveram à travessia, o sabor salgado do mar misturado com lágrimas.

    Foi comprada no porto de Veracruz por 300 pesos, um preço alto que refletia a sua juventude e a sua força.

    Don Sebastián Urdaneta, fazendeiro espanhol de origem basca, levou-a para a sua propriedade em Tabasco, onde cultivava cana-de-açúcar e cacau.

    Nos primeiros anos, Rosa manteve-se em silêncio. Aprendeu espanhol rapidamente, ouvindo as conversas dos patrões e repetindo as palavras na escuridão da sua cabana.

    Trabalhava na casa grande, limpando os pisos de mármore importado de Espanha, lavando a roupa fina de Doña Catalina e preparando refeições na cozinha junto a outras escravas.

    Observava tudo: quem entrava, quem saía, onde guardavam as chaves, que segredos sussurravam atrás das portas fechadas.

    Don Sebastián era um homem corpulento, de bochechas avermelhadas pelo brandy que bebia todas as noites. Tratava os seus escravos com a crueldade de quem considera outros seres humanos como gado.

    Os chicotes eram frequentes, as rações de comida escassas, e qualquer sinal de rebeldia era castigado com o tronco ou pior.

    Rosa tinha visto companheiros morrerem de infeções após uma tareia. Tinha ouvido os choros de mulheres violadas por capatazes espanhóis.

    Tinha sentido a dor de ver crianças separadas das suas mães para serem vendidas noutros lugares. Mas Rosa não era como as outras.

    Enquanto outros rezavam aos santos católicos, que os padres os obrigavam a adorar, ela guardava na sua memória os ensinamentos da sua avó em África.

    Conhecia as plantas, as suas propriedades curativas e também as venenosas.

    Em Tabasco, terra generosa e selvagem, encontrou ervas semelhantes às da sua terra natal. O estramónio crescia selvagem perto do rio, com as suas flores brancas como sinos que escondiam um veneno mortal.

    A cicuta aparecia entre os matagais esquecidos e a Adelfa, com as suas belas flores rosadas, adornava o jardim de Doña Catalina sem que ninguém soubesse que cada parte daquela planta era letal.

    Rosa começou a recolher estas plantas durante os seus escassos momentos livres, secava-as cuidadosamente debaixo do seu catre, moía-as em pó fino usando duas pedras que tinha encontrado junto ao rio.

    Guardava o veneno em pequenos sacos de pano que escondia na bainha do seu vestido esfarrapado.

    Ninguém suspeitava de nada. Uma escrava negra que limpava pisos e lavava roupa não representava ameaça alguma para os patrões brancos que se julgavam invencíveis.

    O ponto de rutura chegou numa tarde de junho, quando Rosa testemunhou algo que quebrou o último vestígio de resignação na sua alma.

    Tomás, um jovem escravo de 16 anos, recém-chegado de Cuba, tinha cometido o erro de olhar diretamente nos olhos de Don Sebastián.

    O fazendeiro, bêbado e furioso por problemas com os preços do açúcar, ordenou que o açoitassem publicamente.

    Rosa teve de presenciar como as costas do rapaz se abriam em sulcos sangrentos sob o chicote do capataz Núñez, um mestiço cruel que desfrutava do seu pequeno poder.

    Tomás não gritou, não chorou, apenas cerrou os dentes até perder os sentidos. Morreu três dias depois com febre e as feridas infetadas com larvas.

    Essa noite, Rosa tomou a sua decisão. Não seria uma morte rápida nem uma rebelião aberta que terminaria com a sua captura e execução. Seria algo mais subtil, mais devastador.

    Mataria o coração da casa grande, os serviçais mestiços e crioulos que sustentavam o sistema, os que se julgavam superiores aos escravos africanos, os que executavam as ordens cruéis com sorrisos servis.

    Rosa elaborou o seu plano com a paciência de quem aprendeu a esperar. Na casa grande trabalhavam oito serviçais, além dos escravos: o mordomo Fernández, três criadas mestiças, dois moços de cavalariça, o cozinheiro pessoal de Don Sebastián e a governanta Doña Gertrudis.

    Estes ocupavam uma posição intermédia na hierarquia colonial, superiores aos escravos, mas inferiores aos espanhóis. Comiam melhor, dormiam em quartos dentro da casa, recebiam um pequeno salário e desprezavam os africanos com um ódio que tentava ocultar a sua própria vulnerabilidade.

    Durante semanas, Rosa estudou as suas rotinas. Os serviçais bebiam água fresca de uma bilha de cerâmica que se mantinha na despensa, separada da água que os patrões bebiam, que vinha de um poço especial.

    A bilha era reabastecida todas as manhãs com água da cisterna principal. Rosa tinha acesso à despensa quando limpava à tarde. Era o momento perfeito.

    O veneno que tinha preparado era uma mistura letal: pó de sementes de estramónio, folhas secas de cicuta moída e seiva concentrada de Adelfa.

    Em pequenas doses causava tonturas e náuseas. Na quantidade que Rosa planeava usar, provocaria convulsões, paralisia e morte em questão de horas.

    O mais importante era que os sintomas se assemelhavam a cólera ou disenteria, doenças comuns no clima tropical de Tabasco.

    Rosa escolheu uma sexta-feira à tarde. Don Sebastián e Doña Catalina tinham viajado para Villahermosa para assistir a uma celebração em casa do governador e não regressariam antes de domingo.

    O capataz Núñez estava nos campos a supervisionar a colheita. A casa grande ficava ao cuidado dos serviçais e dos escravos domésticos.

    Quando o sol começava a descer, tingindo o céu de laranja e púrpura, Rosa entrou na despensa com o seu balde e panos de limpeza.

    O seu coração batia forte, mas as suas mãos não tremiam. Tirou o pequeno saco de pano da bainha do seu vestido, despejou todo o conteúdo na bilha de água e misturou com uma concha de madeira.

    O pó dissolveu-se completamente invisível. A água mantinha a sua aparência cristalina e inocente.

    Rosa saiu da despensa e continuou com as suas tarefas como se nada tivesse acontecido. Limpou o salão principal, sacudiu os móveis esculpidos que vinham de Espanha, varreu os ladrilhos até que brilhassem.

    O seu rosto permanecia sereno, impenetrável. Quando a criada mestiça Lucía passou por ela e lhe ordenou com tom desdenhoso que limpasse também as escadas, Rosa assentiu sem dizer palavra.

    O jantar dos serviçais era servido às 7 da noite. Rosa escutava da cozinha as vozes animadas, as risadas, o som de pratos e talheres.

    O mordomo Fernández contava piadas vulgares que faziam as criadas rir. O cozinheiro queixava-se do calor. Todos beberam água da bilha envenenada.

    Rosa continuou a trabalhar em silêncio, lavando tachos na cozinha auxiliar, onde os escravos preparavam a sua própria comida escassa.

    Não demorou muito até que começassem os primeiros sintomas. Por volta das 8:30, Rosa ouviu alguém vomitar no pátio traseiro. Depois vieram os gritos.

    Fernández gritava pedindo ajuda enquanto o seu corpo se contorcia em convulsões. As criadas começaram a cair uma após a outra com os olhos esbugalhados e espuma a sair das suas bocas.

    Os gemidos de agonia encheram a casa grande. Rosa observava das sombras com expressão inescrutável. Outros escravos corriam assustados sem saber o que fazer.

    Alguém foi buscar o curandeiro da aldeia, mas este vivia a três léguas de distância e chegaria demasiado tarde.

    Um por um, os serviçais da casa grande morreram entre convulsões e delírios. Os seus corpos ficaram espalhados pela sala de jantar, pelo pátio, pelos quartos onde tinham tentado rastejar à procura de ajuda que nunca chegou.

    Quando a noite caiu completamente e a lua iluminava os canaviais com a sua luz prateada, a fazenda San Cristóbal ficou envolta num silêncio profundo e aterrador. Os únicos sons eram o canto dos grilos e o sussurro do vento entre as palmeiras.

    Rosa caminhou lentamente pelos salões vazios, observando os corpos imóveis. Não sentiu remorso. Sentiu, pela primeira vez em 15 anos, algo parecido com a justiça.

    Os escravos que testemunharam a tragédia guardaram silêncio. Sabiam que Rosa era responsável. Liam-no nos seus olhos, mas nenhum falou.

    Existia entre eles um código não escrito, uma lealdade forjada no sofrimento partilhado.

    Quando o capataz Núñez chegou ao amanhecer e encontrou a cena, o seu rosto empalideceu. Interrogou todos, mas ninguém sabia de nada. “Doença”, disseram, “castigo de Deus, má sorte.”

    O curandeiro, que finalmente chegou, examinou os corpos e declarou que tinha sido cólera.

    Don Sebastián e Doña Catalina regressaram no domingo para encontrar a sua casa convertida num túmulo. O fazendeiro estava furioso e assustado. Oito serviçais mortos numa noite.

    Ordenou que os corpos fossem enterrados rapidamente para evitar mais contágios. Mandou trazer água benta e um sacerdote que rezou missa por uma semana.

    Rosa continuou com as suas tarefas diárias como sempre. Limpava, lavava, obedecia a ordens, mas agora havia algo diferente no seu olhar, uma escuridão profunda que fazia com que até Don Sebastián evitasse encontrar os seus olhos.

    A casa grande nunca mais voltou a ser a mesma. Os novos serviçais que chegaram para substituir os mortos sentiam um peso estranho no ambiente, como se as paredes guardassem segredos terríveis.

    Durante semanas, Rosa esperou. Esperou a acusação, o castigo, o chicote ou a forca, mas não chegou nada.

    A versão oficial era doença e ninguém se atrevia a contradizê-la. Os espanhóis não queriam admitir que uma escrava negra pudesse ter burlado a sua vigilância e cometido tal ato. Era mais fácil, mais seguro para o seu orgulho, acreditar numa epidemia.

    Mas Rosa sabia que a sua vingança mal começava. Tinha provado o sabor do poder, a capacidade de tomar controlo sobre o seu destino, ainda que fosse através da morte.

    À noite, enquanto os outros escravos dormiam exaustos, ela olhava as estrelas através da janela partida da sua cabana e planeava.

    Tinha demonstrado que os opressores não eram invencíveis, que uma mulher africana, sem armas nem educação, podia fazer tremer os alicerces de uma casa espanhola.

    As semanas converteram-se em meses. A fazenda San Cristóbal funcionava com dificuldade. Don Sebastián bebia mais do que nunca, atormentado por pesadelos onde via os rostos convulsionados dos seus serviçais mortos.

    Doña Catalina adoeceu dos nervos e passava os dias fechada no seu quarto a rezar o terço.

    Os escravos trabalhavam nos campos sob o chicote do capataz Núñez, mas havia algo diferente no ar, uma tensão que não existia antes.

    Rosa sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém suspeitaria. A morte simultânea de oito pessoas era demasiado conveniente para ser completamente ignorada.

    Havia rumores entre os escravos e os trabalhadores livres da aldeia. Falava-se de bruxaria africana, de maldições, de vinganças sobrenaturais.

    Rosa escutava estes rumores com um sorriso interno, que acreditassem no que quisessem. A verdade era mais simples e mais terrível. Ela tinha usado conhecimento, paciência e as plantas que a terra generosa de Tabasco lhe tinha proporcionado.

    Uma noite, enquanto servia o jantar aos novos serviçais que tinham chegado de Veracruz, Rosa sentiu o olhar do novo mordomo, um homem jovem chamado Rodrigo.

    Era diferente de Fernández, mais calado, mais observador. Tinha-a visto a recolher ervas perto do rio na semana anterior e agora olhava-a com uma mistura de curiosidade e medo.

    Rosa soube nesse momento que o seu tempo na fazenda San Cristóbal estava a chegar ao fim.

    Nessa mesma noite, depois de todos adormecerem, Rosa empacotou os seus poucos pertences num saco de pano. Levava uma faca roubada da cozinha, alguma comida seca e as sementes das plantas venenosas que tinha guardado cuidadosamente.

    Tirou o vestido de escrava e vestiu roupas escuras que tinha cosido em segredo durante meses. Saiu da sua cabana sem fazer ruído, cruzou o pátio onde anos atrás tinha visto Tomás morrer e dirigiu-se para os canaviais.

    A lua estava oculta atrás de nuvens espessas e a escuridão era quase total. Rosa conhecia cada trilho, cada árvore, cada pedra daquela terra que tinha sido a sua prisão durante 15 anos.

    Caminhou para sul, em direção à selva densa onde os espanhóis não se aventuravam, onde se dizia que viviam comunidades de escravos cimarrones (fugidos) que tinham escapado e construído as suas próprias aldeias livres.

    Atrás dela, a fazenda San Cristóbal dormia num silêncio quebrado apenas pelo canto dos grilos.

    Na casa grande, os novos serviçais descansavam sem saber que uma mulher africana acabava de quebrar as cadeias invisíveis da sua escravatura. Don Sebastián ressonava na sua cama, alheio a que a sua propriedade mais perigosa acabava de desaparecer na noite.

    Rosa caminhou durante horas, guiando-se pelas estrelas quando as nuvens se abriam e pelo seu instinto quando tudo estava escuro. Os seus pés descalços conheciam a textura da terra.

    Podiam distinguir entre lama e pedra, entre erva e raízes. O som do rio Grijalva guiou-a para leste, onde sabia que havia uma passagem pouco vigiada.

    Cruzou a água até à cintura, sentindo a corrente fria contra a sua pele, e emergiu do outro lado, encharcada, mas livre.

    Quando amanheceu, Rosa estava a várias léguas da fazenda. Tinha-se embrenhado na selva, onde as árvores cresciam tão juntas que mal deixavam passar a luz do sol.

    Escutava o grito dos macacos uivadores, o canto de aves exóticas, o rumor constante de insetos. Este era um mundo diferente, selvagem e perigoso, mas também cheio de possibilidades.

    Durante três dias caminhou sem descanso, alimentando-se de frutas silvestres e água dos riachos. Sabia que Don Sebastián mandaria homens procurá-la quando descobrissem a sua ausência, mas, por essa altura, ela estaria demasiado longe.

    Os capatazes espanhóis não conheciam a selva como ela. Não sabiam ler os sinais que as árvores e as plantas ofereciam.

    Ao quarto dia, exausta e com os pés a sangrar, Rosa encontrou o que procurava. Num claro escondido entre colinas cobertas de vegetação, havia uma aldeia de escravos cimarrones.

    Eram uns 30 homens, mulheres e crianças africanos e afrodescendentes que tinham escapado de diferentes fazendas e minas.

    Viviam em cabanas construídas com ramos e folhas de palmeira. Cultivavam pequenas parcelas de milho e mandioca. Caçavam e pescavam para sobreviver.

    Os cimarrones receberam-na com cautela. Uma mulher que viajava sozinha pela selva era invulgar.

    O líder da comunidade, um homem alto chamado Domingo, que tinha escapado de uma mina de prata em Zacatecas anos atrás, interrogou-a.

    Rosa contou a sua história sem mencionar o envenenamento. Disse que tinha fugido depois de o patrão tentar violá-la, uma história comum e credível.

    Domingo aceitou-a na comunidade com uma condição: devia demonstrar a sua utilidade. Rosa não teve problema com isto.

    Mostrou o seu conhecimento de plantas medicinais, curou uma criança que sofria de febre. Ensinou às mulheres como preparar remédios para diversas doenças.

    Em breve, ganhou o respeito de todos e tornou-se a curandeira oficial da aldeia, mas Rosa guardava segredos.

    À noite, quando todos dormiam, continuava a cultivar as plantas venenosas que tinha trazido consigo. Semeava-as num canto oculto do bosque, cuidava delas com devoção.

    Sabia que algum dia poderiam ser necessárias de novo. A liberdade que tinha encontrado na aldeia cimarrona era preciosa, mas frágil.

    Os espanhóis organizavam expedições periódicas para capturar escravos fugitivos e era apenas uma questão de tempo até que encontrassem aquele refúgio.

    Os meses passaram e Rosa integrou-se completamente na vida da comunidade. Aprendeu a caçar com armadilhas, a tecer cestos, a preparar refeições com ingredientes da selva.

    Fez amizade com outras mulheres que partilhavam histórias semelhantes de sofrimento e sobrevivência.

    Houve momentos de alegria, celebrações com tambores africanos que ressoavam na noite, danças que conectavam todos com memórias ancestrais de terras distantes que a maioria nunca mais voltaria a ver.

    Mas a paz não duraria para sempre. Uma manhã de dezembro, um jovem que tinha ido caçar regressou a correr com notícias terríveis.

    Tinha visto homens armados a cavalo a explorar a selva perto do rio. Eram caçadores de escravos com cães e armas de fogo.

    A aldeia entrou em pânico. Domingo organizou rapidamente uma evacuação. Cada família devia levar apenas o essencial e dispersar-se em diferentes direções.

    Encontrariam um novo lugar para se reunirem nas montanhas do norte, um ponto combinado de antemão para emergências como esta.

    Rosa empacotou os seus pertences, incluindo as plantas venenosas secas que tinha guardado cuidadosamente. Enquanto os outros corriam para a selva, ela ficou para trás um momento, observando as cabanas que tinham sido o seu lar durante quase um ano.

    Sentiu uma mistura de tristeza e raiva. Os espanhóis nunca os deixariam em paz. Nunca aceitariam que os africanos pudessem viver livres e dignos.

    Nesse momento, Rosa tomou outra decisão. Não fugiria com os outros. Esperaria pelos caçadores de escravos e dar-lhes-ia uma receção que nunca esqueceriam.

    Disse a Domingo o seu plano e o homem tentou dissuadi-la, mas Rosa foi inflexível.

    Alguém tinha que atrasar os perseguidores para dar tempo às famílias de escapar e ela sabia exatamente como fazê-lo.

    Domingo finalmente aceitou, consciente de que discutir com Rosa era inútil quando ela tomava uma decisão. Deu-lhe um abraço forte, consciente de que provavelmente nunca a voltaria a ver, e foi-se com os outros para as montanhas.

    Rosa ficou sozinha na aldeia vazia, rodeada de silêncio e do cheiro a fumo das fogueiras que acabavam de se apagar.

    Trabalhou rapidamente, pegou na sua coleção de venenos e preparou uma armadilha. Os caçadores de escravos, depois de caminharem horas sob o sol tropical, estariam sedentos.

    Rosa preparou um tacho grande com água fresca do riacho próximo e adicionou-lhe uma dose mortal dos seus pós. Colocou o tacho no centro da aldeia, juntamente com várias conchas de madeira.

    Parecia um gesto de boas-vindas, água fresca para viajantes cansados. Depois, escondeu-se na selva num ponto alto de onde podia observar sem ser vista.

    Esperou sob o sol que castigava sem piedade, escutando os sons da selva, o zumbido de insetos, o chamado distante de aves, o estalar de ramos.

    Não demorou muito até que aparecessem. Eram seis homens a cavalo, todos armados com mosquetes e espadas. Levavam cães atados com correntes, animais ferozes, treinados para rastrear o cheiro dos escravos fugitivos.

    O líder era um espanhol de barba negra e chapéu largo. Os outros eram mestiços e mulatos, homens que tinham escolhido ganhar a vida caçando outros do seu próprio sangue.

    Entraram na aldeia deserta com precaução, olhando à sua volta com desconfiança. O líder gritou ordens em espanhol, mandando os seus homens revistar as cabanas.

    Encontraram a aldeia vazia, mas com sinais de evacuação recente. As fogueiras ainda estavam quentes. Havia comida a meio de preparar.

    Então, um dos homens viu o tacho de água no centro da praça, aproximou-se, meteu a concha e bebeu profundamente.

    Os outros seguiram-no, sedentos após a longa cavalgada. A água estava fresca e limpa, uma bênção no calor sufocante. Beberam todos, até o líder espanhol que desconfiava de tudo.

    Rosa observava do seu esconderijo contando os minutos. O veneno atuaria mais devagar desta vez porque tinha usado uma dose menor distribuída em mais água, mas seria igualmente eficaz.

    Esperou pacientemente, imóvel como uma estátua, enquanto os caçadores de escravos discutiam em que direção continuar a busca.

    Meia hora depois, começaram os sintomas. O primeiro homem a beber foi o primeiro a cair, dobrando-se sobre si mesmo com as mãos no estômago.

    Os outros olharam-no confusos até que começaram a sentir as mesmas cãibras. O líder espanhol gritou que tinham sido envenenados, mas já era demasiado tarde.

    Um por um, caíram no chão, contorcendo-se violentamente. Os cavalos relinchavam assustados. Os cães uivavam. O caos apoderou-se da aldeia deserta.

    Rosa emergiu do seu esconderijo e caminhou lentamente para o centro da praça, observando a cena com olhos frios.

    Os homens que tinham vindo capturá-la e aos seus agora contorciam-se em agonia, os seus corpos a traí-los da mesma maneira que eles tinham traído a sua própria humanidade.

    O líder espanhol viu-a aproximar-se. Tentou levantar o seu mosquete, mas as suas mãos tremiam demasiado.

    Os seus olhos encontraram-se com os de Rosa e, nesse momento, compreendeu. Tentou falar, mas apenas saiu espuma da sua boca.

    Rosa ajoelhou-se junto dele e falou-lhe em espanhol perfeito com uma voz tranquila e clara: “O meu nome é Rosa de Tabasco e não sou tua propriedade.”

    Foram as últimas palavras que o homem ouviu antes que as convulsões finais o levassem.

    Rosa ficou ali, observando como a vida abandonava os corpos dos seis caçadores. Não sentiu prazer nem dor, apenas uma determinação fria e absoluta.

    Tinha escolhido o seu caminho e segui-lo-ia até ao fim.

    Quando teve a certeza de que todos estavam mortos, Rosa libertou os cavalos e os cães. Os animais fugiram aterrorizados para a selva.

    Depois, pegou nas armas dos homens mortos: os mosquetes, as espadas, os sacos de pólvora. Seriam úteis para a comunidade cimarrona quando a encontrasse de novo.

    Antes de ir embora, Rosa fez algo mais. Pegou num carvão de uma fogueira e escreveu na parede da cabana maior, em letras grandes e claras: “Rosa de Tabasco esteve aqui. Que tremam os opressores.”

    Era uma mensagem de desafio, uma declaração de guerra. Sabia que quando outros espanhóis encontrassem os corpos e lessem essas palavras, o seu nome se tornaria lenda.

    Seria procurada por toda a região. Haveria recompensas pela sua captura viva ou morta, mas isso já não lhe importava. Tinha cruzado uma linha que não tinha retorno.

    Rosa carregou as armas e partiu para as montanhas, seguindo os sinais que Domingo tinha deixado para que os membros dispersos da comunidade pudessem encontrar-se.

    Caminhou durante dias, atravessando rios, escalando colinas, escondendo-se de patrulhas espanholas que agora percorriam a selva com renovada fúria após a descoberta dos corpos.

    Finalmente, no alto de uma montanha coberta de nevoeiro, encontrou os cimarrones. Tinham estabelecido um novo acampamento numa caverna profunda, oculta pela vegetação densa.

    Quando Rosa apareceu carregando as armas dos caçadores mortos, foi recebida com uma mistura de temor e admiração. Todos tinham ouvido rumores do que ela tinha feito.

    As histórias viajavam rápido entre as comunidades de escravos fugitivos. Domingo recebeu-a de braços abertos, mas também com preocupação nos olhos.

    “Desencadeaste uma tempestade”, disse-lhe. “Os espanhóis virão com mais homens, com mais armas. Perseguir-nos-ão sem descanso.”

    Rosa assentiu: “Eu sei, mas já não podemos viver como ratos escondendo-nos em buracos. É tempo de lutar.”

    As suas palavras dividiram a comunidade. Alguns, especialmente os mais velhos e as mães com crianças pequenas, queriam continuar a fugir, procurando lugares cada vez mais remotos onde os espanhóis não pudessem encontrá-los.

    Outros, principalmente os jovens, que tinham conhecido apenas a escravatura e ansiavam por vingança, apoiavam Rosa.

    Durante semanas debateu-se o futuro da comunidade cimarrona. Rosa não pressionava, não impunha a sua vontade, simplesmente partilhava o seu conhecimento.

    Ensinava a outros como identificar plantas venenosas, como preparar armadilhas, como usar o terreno a seu favor. Tornou-se não só curandeira, mas também estratega, uma líder nascida da necessidade e da resistência.

    As notícias do exterior chegavam através de escravos recém-fugidos que encontravam o caminho para a montanha.

    Contavam que em toda a região de Tabasco se falava de Rosa, a envenenadora, a bruxa africana que tinha matado mais de uma dúzia de espanhóis e seus serviçais.

    As autoridades coloniais ofereciam uma recompensa enorme pela sua captura. Os sacerdotes mencionavam-na nos seus sermões como exemplo de maldade demoníaca. Os patrões espanhóis duplicavam as suas guardas e vigilância.

    Mas entre os escravos que continuavam nas fazendas e minas, Rosa tinha-se tornado outra coisa: um símbolo de resistência, uma prova de que os africanos não eram animais indefesos, mas sim seres humanos capazes de lutar pela sua liberdade e dignidade.

    Sussurravam-se canções sobre ela à noite, versos em espanhol misturados com línguas africanas que mantinham vivas as memórias de terras ancestrais.

    Com o passar dos meses, mais escravos fugitivos chegavam à montanha. A comunidade cresceu de 30 para mais de 100 pessoas.

    Organizaram-se melhor, estabeleceram turnos de guarda, construíram fortificações primitivas, mas eficazes. Rosa ensinou-lhes tudo o que sabia sobre sobrevivência e defesa.

    Chegou o dia inevitável em que uma grande expedição espanhola, mais de 30 soldados bem armados, descobriu a localização do acampamento cimarrón.

    Era fevereiro de 1789, quase 2 anos desde que Rosa tinha envenenado a água na fazenda San Cristóbal.

    Os espanhóis atacaram ao amanhecer, confiantes na sua superioridade numérica e de armamento, mas Rosa e os cimarrones estavam preparados.

    Tinham construído armadilhas em todos os trilhos que conduziam ao acampamento. Fossos cobertos com ramos, estacas envenenadas ocultas na vegetação, grandes pedras que podiam ser roladas do alto.

    Quando os soldados avançaram, caíram nas armadilhas uma e outra vez. Os gritos de dor ressoavam na montanha.

    Rosa e um grupo de atiradores emboscados, armados com os mosquetes roubados, disparavam de posições elevadas. Não eram tão bons como os soldados espanhóis treinados, mas o terreno jogava a seu favor.

    Os espanhóis tentaram retirar-se, mas descobriram que as suas rotas de fuga também estavam bloqueadas ou cheias de armadilhas. A batalha durou horas.

    O sol subiu no céu, convertendo a montanha num forno enquanto o cheiro a pólvora e sangue enchia o ar.

    Os cimarrones perderam 11 pessoas, incluindo mulheres e crianças que foram atingidas por balas perdidas. Mas os espanhóis perderam mais do dobro e finalmente retiraram-se em completa desordem, deixando para trás feridos e mortos.

    Foi uma vitória, mas Rosa sabia que era temporária. Os espanhóis voltariam com mais homens, talvez com canhões. A montanha já não era segura.

    Essa noite, sob uma lua cheia que iluminava os corpos dos caídos, a comunidade cimarrona tomou uma decisão coletiva.

    Dividir-se-iam em grupos pequenos e dispersar-se-iam por toda a região. Alguns iriam para norte, para as montanhas de Chiapas, outros para sul, para as selvas da Guatemala.

    Seria mais difícil para os espanhóis persegui-los se não estivessem todos juntos.

    Rosa decidiu ir para oeste, em direção às costas do Golfo do México. Tinha um plano que vinha a arquitetar há meses.

    Queria chegar aos portos onde chegavam os navios negreiros, onde os escravos recém-trazidos de África eram vendidos. Queria interromper esse comércio maldito, libertar tantos quantos pudesse, ensinar-lhes a lutar e resistir.

    10 pessoas escolheram ir com ela, todos jovens e determinados. Entre eles estava um rapaz de 18 anos chamado Gabriel, nascido na fazenda, mas com espírito rebelde.

    Admirava Rosa com devoção quase religiosa e tinha aprendido com ela tudo o que podia sobre plantas, armadilhas e estratégia.

    O grupo partiu numa noite sem lua, deixando para trás a montanha que tinha sido o seu lar temporário. Viajaram durante semanas, movendo-se apenas de noite, escondendo-se durante o dia.

    Rosa guiava usando as estrelas e a sua memória dos mapas que tinha visto na Casa Grande anos atrás.

    Era uma viagem perigosa, atravessando territórios controlados por espanhóis, evitando caminhos principais, cruzando rios e pântanos.

    Finalmente, chegaram aos arredores de Villahermosa, o principal porto de Tabasco. Era uma cidade pequena, mas importante para o comércio de escravos e mercadorias.

    Do seu esconderijo nos manguezais que rodeavam a cidade, Rosa e o seu grupo observaram durante dias, estudando os padrões dos guardas, identificando onde se mantinham os escravos antes de serem vendidos.

    Descobriram que os africanos recém-chegados eram mantidos num armazém perto do porto, acorrentados e vigiados por dois guardas espanhóis e vários mastins.

    Rosa elaborou um plano audaz. Atacariam de noite, matariam os guardas em silêncio, libertariam os escravos e desapareceriam antes que alguém se apercebesse.

    Mas havia um problema. Os cães, os mastins, detetariam qualquer presença estranha e alarmariam toda a cidade com os seus latidos.

    Rosa precisava de os eliminar primeiro e sabia exatamente como fazê-lo.

    Preparou pedaços de carne impregnados com veneno de estramónio, suficiente para matar um cão grande em minutos, mas que atuaria como sedativo poderoso primeiro.

    A noite escolhida foi um sábado, quando os guardas estariam meio bêbados depois de receberem o seu pagamento semanal.

    Rosa e Gabriel aproximaram-se do armazém pela parte traseira, movendo-se como sombras entre as caixas e barris que enchiam o porto.

    Os cães começaram a rosnar, mas então Rosa lançou os pedaços de carne envenenada. Os animais, famintos como sempre estavam, devoraram a carne imediatamente.

    Em questão de minutos, os cães começaram a cambalear. Os seus rosnidos converteram-se em gemidos fracos antes de colapsarem completamente.

    Rosa e Gabriel aproximaram-se da porta do armazém, onde os dois guardas jogavam cartas à luz de uma lamparina a óleo.

    Estavam tão concentrados no seu jogo que não notaram as figuras escuras que se aproximavam até que foi demasiado tarde.

    Rosa degolou o primeiro guarda com a faca que sempre levava. Gabriel, embora nunca tivesse matado ninguém, conseguiu esfaquear o segundo guarda no peito.

    Os homens morreram rapidamente com pouco ruído. Rosa pegou nas chaves dos guardas e abriu a porta do armazém.

    Dentro havia 22 africanos, 16 homens e seis mulheres, todos jovens e aterrorizados. Tinham acabado de chegar há três dias num navio negreiro de Cuba e ainda estavam desorientados, muitos doentes pela travessia.

    Estavam acorrentados às paredes, em condições deploráveis, rodeados dos seus próprios excrementos.

    Rosa falou-lhes em espanhol primeiro, depois tentou em vários dialetos africanos que recordava. Alguns a entenderam.

    Explicou-lhes rapidamente que estavam a ser libertados, que deviam segui-la em silêncio se quisessem viver. Usou as chaves para quebrar as cadeias.

    Alguns africanos choravam, outros olhavam com desconfiança, sem poder acreditar que isto estivesse realmente a acontecer.

    O grupo completo, agora mais de 30 pessoas, escapou do porto movendo-se por becos escuros.

    Rosa guiou-os para os manguezais, onde o resto do seu grupo esperava com provisões roubadas: água, tortilhas duras, alguma carne seca.

    Os africanos libertados comeram e beberam desesperadamente enquanto Rosa explicava a situação.

    Nem todos escolheriam ficar com ela. Alguns quereriam tentar regressar a África ou procurar outras opções, mas pelo menos agora tinham a oportunidade de escolher.

    Quando a aurora iluminou o céu, já estavam a várias léguas de Villahermosa, embrenhando-se de novo na selva profunda.

    Atrás deles, a cidade despertava com a descoberta dos guardas mortos e os escravos desaparecidos. Os sinos de alarme ressoavam. Os soldados mobilizavam-se, mas era demasiado tarde.

    A lenda de Rosa de Tabasco cresceu ainda mais. Agora não só era a envenenadora que matava opressores, mas também a libertadora que resgatava escravos recém-chegados.

    Os espanhóis aumentaram a recompensa pela sua captura para 1000 pesos, uma fortuna que tentaria qualquer um. Patrulhas especiais foram criadas especificamente para a caçar, mas Rosa estava sempre um passo à frente.

    Conhecia a terra, conhecia o seu povo. Estabeleceu uma rede de refúgios secretos por toda a região, lugares onde os escravos fugitivos podiam esconder-se temporariamente antes de seguir o seu caminho.

    Ensinou a outros os seus conhecimentos sobre venenos e medicina, criando um exército silencioso de resistência.

    Durante mais três anos, Rosa continuou a sua guerra pessoal contra a escravatura em Tabasco. Envenenou poços em fazendas cruéis. Libertou dezenas de escravos mais. Emboscou caravanas que transportavam africanos recém-comprados.

    Cada ação era calculada, estratégica, desenhada para causar o máximo dano ao sistema esclavagista com o mínimo risco para o seu povo.

    Mas até Rosa era humana e os humanos cometem erros. Na primavera de 1792, o seu grupo foi traído por um escravo que preferiu a recompensa espanhola sobre a liberdade.

    Os soldados cercaram o acampamento temporário onde Rosa descansava com 20 dos seus seguidores. Era uma emboscada perfeita, executada com precisão militar.

    A batalha foi feroz, mas desigual. Os cimarrones lutaram com valentia, mas estavam superados em número três para um.

    Um por um caíram sob as balas e baionetas espanholas. Gabriel morreu protegendo Rosa, recebendo três tiros no peito enquanto empurrava a sua líder para a selva.

    Rosa correu, mas uma bala atravessou-lhe o ombro esquerdo, fazendo-a cair. Os soldados cercaram-na, os seus mosquetes apontando para a sua cabeça.

    O comandante da expedição, um capitão espanhol chamado Velázquez, aproximou-se lentamente. Tinha perseguido Rosa durante anos. Tinha perdido amigos e homens por causa desta mulher africana. Agora, finalmente, a tinha.

    “Rosa de Tabasco”, disse com um sorriso cruel. “Por fim te encontramos.”

    Rosa cuspiu sangue e olhou-o com olhos desafiantes. Mesmo ferida e capturada não mostrava medo.

    “O meu nome é apenas Rosa”, disse com voz firme. “Tabasco é apenas o lugar onde vocês me escravizaram, mas nunca me possuíram realmente.”

    Levaram-na acorrentada de volta a Villahermosa. Durante a viagem, que durou 4 dias, Rosa não falou nem comeu.

    Permaneceu em silêncio, conservando as suas forças, observando os soldados que a guardavam. Olhavam-na com uma mistura de ódio e respeito.

    Esta mulher tinha causado mais problemas do que rebeliões inteiras de escravos. Tinha desafiado a ordem colonial de maneiras que ninguém tinha imaginado possível.

    Em Villahermosa, Rosa foi trancada na prisão colonial, uma estrutura de pedra húmida e escura, onde os criminosos esperavam julgamento e execução.

    As autoridades não sabiam o que fazer com ela. Era legalmente uma escrava, propriedade de Don Sebastián Urdaneta, mas os seus crimes eram tão graves que não podia ser tratada como uma escrava comum que tentou fugir.

    Tinha matado mais de 20 espanhóis e mestiços, tinha roubado propriedade, tinha incitado à rebelião. O governador de Tabasco ordenou um julgamento público.

    Queria fazer de Rosa um exemplo, mostrar a todos os escravos da região o que acontecia com quem desafiava a ordem estabelecida.

    O julgamento realizou-se na praça principal de Villahermosa, com centenas de pessoas a observar: espanhóis curiosos, mestiços temerosos, escravos que olhavam em silêncio, sabendo que qualquer demonstração de simpatia seria castigada.

    Rosa foi apresentada perante o juiz, um homem velho chamado Carvajal, que tinha servido na Real Audiencia por 30 anos. Leu as acusações em voz alta: assassinato múltiplo, roubo, incitação à rebelião, bruxaria. Cada acusação levava pena de morte.

    O juiz perguntou se Rosa tinha algo a dizer em sua defesa. Ela pôs-se de pé, as suas cadeias a tilintar, e falou com uma voz clara que chegou a todos os cantos da praça.

    “Não tenho defesa porque não reconheço a autoridade desta corte. Vocês trouxeram-me de África acorrentada como animal. Roubaram a minha liberdade, a minha dignidade, a minha vida.”

    “Tudo o que fiz foi recuperar o que vocês me tiraram. Se isso é crime, então sou culpada. Mas lembrem-se disto: por cada Rosa que matarem, nascerão 10 mais.”

    “A semente da liberdade, uma vez plantada, não pode ser arrancada.”

    As suas palavras causaram um silêncio absoluto na praça. Alguns escravos choravam em silêncio. Os espanhóis olhavam incomodados, confrontados com verdades que preferiam ignorar.

    O juiz, visivelmente perturbado, pronunciou a sentença rapidamente: Rosa seria enforcada em três dias na mesma praça, como exemplo para todos.

    Durante os três dias que esperou a sua execução, Rosa recebeu visitas inesperadas. Vários sacerdotes tentaram convertê-la, fazê-la confessar os seus pecados e aceitar Cristo antes de morrer.

    Rosa rejeitou todos. “Se o vosso Deus permite a escravatura”, disse-lhes, “então não é um Deus digno de adoração.”

    Na noite antes da sua execução, um homem visitou a sua cela. Era Don Sebastián Urdaneta, o seu antigo patrão.

    Tinha envelhecido consideravelmente nos 5 anos desde que Rosa escapou. A sua fazenda nunca se recuperou completamente do envenenamento inicial e os constantes ataques de cimarrones tinham reduzido a sua fortuna.

    Tinha vindo a Villahermosa especificamente para ver Rosa antes que morresse. Olharam-se em silêncio por longo tempo.

    Finalmente, Don Sebastián falou: “Porque é que o fizeste? Tratávamos-te bem? Dávamos-te de comer? Um lugar para dormir?”

    Rosa riu amargamente. “Bem? Roubaram-me da minha terra. Venderam-me como gado. Tiraram-me o meu nome, a minha língua, a minha vida. E o senhor pergunta, porquê, Don Sebastián?”

    Não tinha resposta. Saiu da cela curvado, parecendo de repente muito mais velho do que era.

    Rosa viu-o partir sem emoção. Esse homem representava todo um sistema, uma forma de pensar que considerava outros seres humanos como propriedade.

    A sua incompreensão era o exemplo perfeito da cegueira moral que sustentava a escravatura.

    O dia da execução amanheceu nublado. Uma multidão reuniu-se na praça. Todos queriam ver o fim da famosa Rosa de Tabasco.

    Os espanhóis esperavam ver humilhação e arrependimento. Os escravos esperavam algo mais, sem saber exatamente o quê.

    Rosa foi levada para a plataforma onde estava a forca. As suas feridas tinham sarado apenas parcialmente e caminhava com dificuldade, mas mantinha a cabeça erguida.

    Não demonstrou medo quando o carrasco lhe colocou a corda à volta do pescoço. Olhou para a multidão, os seus olhos procurando entre os rostos até encontrar outros rostos africanos, outros escravos.

    Falou em voz alta, em espanhol, para que todos entendessem, mas a sua mensagem era para eles.

    “Não se esqueçam de quem são, não se esqueçam de onde vêm. Somos mais do que eles dizem que somos. Somos humanos, dignos, livres em espírito, embora os nossos corpos estejam acorrentados.”

    “Lutem, resistam, não deixem que morram as memórias dos nossos antepassados. Algum dia, talvez não na nossa vida, mas algum dia as cadeias cairão.”

    O governador ordenou ao carrasco que procedesse. O alçapão abriu-se.

    Mas nesse exato momento, algo extraordinário aconteceu. Um dos escravos na multidão gritou um cântico em língua africana, um cântico de despedida que se usava na sua terra para honrar os guerreiros caídos.

    Outro escravo se juntou, depois outro. Em breve, dezenas de vozes africanas se elevavam em cântico, desafiando os soldados que gritavam ordens de silêncio.

    Rosa escutou esse cântico enquanto a vida abandonava o seu corpo. Um sorriso desenhou-se nos seus lábios. Tinha ganho.

    Não a batalha física, não a luta pela sua própria vida, mas tinha plantado sementes que cresceriam na terra fértil do desejo de liberdade.

    O seu nome seria recordado, a sua história seria contada em sussurros entre os escravos, passando de geração em geração.

    Quando o corpo de Rosa finalmente ficou imóvel, os soldados espanhóis dispersaram a multidão violentamente, mas o dano já estava feito.

    Nas semanas seguintes, houve um aumento dramático nas tentativas de fuga. Mais escravos desapareciam para a selva. Mais fazendas reportavam sabotagens e atos de resistência passiva.

    As autoridades coloniais tentaram suprimir a história de Rosa, proibindo falar dela sob pena de castigo. Mas as histórias têm vida própria.

    Entre os escravos de Tabasco e mais além, Rosa converteu-se em lenda, em símbolo, em inspiração.

    Contava-se que o seu espírito vagueava pelas plantações, protegendo os escravos, que as plantas venenosas que tinha usado continuavam a crescer em lugares secretos, prontas para serem encontradas por quem delas necessitasse.

    Don Sebastián Urdaneta morreu dois anos depois, arruinado e atormentado por pesadelos. A sua fazenda foi vendida a outro espanhol que durou apenas 3 anos antes de também a abandonar, incapaz de controlar escravos cada vez mais rebeldes que sussurravam o nome de Rosa à noite.

    A escravatura no México continuaria oficialmente até 1829, quase 40 anos após a morte de Rosa.

    Mas as sementes de resistência que ela e outros como ela plantaram, eventualmente floresceriam em abolição.

    Cada ato de desafio, cada recusa em aceitar a desumanização, cada história de resistência contribuiu para o longo processo de reconhecer que nenhum ser humano pode ser propriedade de outro.

    Hoje, poucos conhecem o nome de Rosa de Tabasco. Não há monumentos, não há placas comemorativas. A história oficial espanhola minimizou ou ignorou completamente a sua existência.

    Mas nas comunidades afrodescendentes de Tabasco e mais além, a sua memória vive. Conta-se a sua história em reuniões familiares.

    Honra-se a sua valentia em canções e poemas orais que nunca foram escritos.

    Rosa demonstrou que mesmo uma só pessoa, sem poder, sem armas sofisticadas, sem educação formal, pode desafiar sistemas de opressão que parecem invencíveis.

    A sua arma era o conhecimento ancestral de plantas. A sua estratégia era a paciência e a observação. A sua força era a recusa absoluta em aceitar a sua própria desumanização.

    Nas noites quentes de Tabasco, quando o vento sopra entre os canaviais, que ainda crescem onde outrora esteve a fazenda San Cristóbal, alguns dizem que podem ouvir um sussurro entre as folhas.

    É o espírito de Rosa, contam, lembrando a todos que a dignidade humana não pode ser comprada, vendida ou destruída. Só pode ser temporariamente oprimida, esperando o momento de florescer de novo.

    A história de Rosa de Tabasco não é apenas vingança ou violência, é sobre a luta fundamental por ser reconhecido como humano, por manter a dignidade face a um sistema desenhado para a destruir.

    É sobre usar a inteligência e o conhecimento como ferramentas de libertação. É sobre plantar sementes de liberdade, mesmo sabendo que talvez não viverás para ver a árvore completamente crescida.

    E assim, embora o seu corpo tenha sido enterrado numa sepultura sem nome no cemitério de Villahermosa, embora o seu nome tenha sido apagado dos registos oficiais, embora os espanhóis tenham tentado esquecê-la, Rosa de Tabasco vive.

    Vive em cada ato de resistência contra a injustiça, em cada recusa em aceitar a opressão, em cada coração que se nega a ser escravizado, independentemente das cadeias físicas que o prendam.

    O seu legado é simples, mas poderoso: Somos mais do que as nossas circunstâncias. Somos mais fortes do que os nossos opressores acreditam e a liberdade é um direito que vale qualquer preço.

    Rosa pagou esse preço com a sua vida, mas ao fazê-lo comprou algo muito mais valioso: a inspiração, para que outros continuassem a luta até que as cadeias finalmente caíssem para sempre.

  • EXTRA! TRUMP REVOGA LEI CONTRA XANDÃO! ACABOU! BOLSONARISTAS SE DESESPERAM E VIRAM CHACOTA AO VIVO!

    EXTRA! TRUMP REVOGA LEI CONTRA XANDÃO! ACABOU! BOLSONARISTAS SE DESESPERAM E VIRAM CHACOTA AO VIVO!

    EXTRA! TRUMP REVOGA LEI CONTRA XANDÃO! ACABOU! BOLSONARISTAS SE DESESPERAM E VIRAM CHACOTA AO VIVO!

    In an unexpected and dramatic move, the United States has revoked the Magnitsky sanctions against Brazilian Minister Alexandre de Moraes and his wife, Viviane Moraes, setting off a political earthquake that has left the country’s far-right in complete disarray. The decision has been seen as a major blow to those who had long believed that the U.S. sanctions would act as a tool for political leverage against the current Brazilian administration.

    The Magnitsky sanctions, which had targeted both the Minister and his wife for alleged human rights violations, were widely viewed as part of an effort to punish those associated with the Brazilian government’s actions against political dissidents and opposition leaders. However, the recent revocation of these sanctions has left many supporters of the Bolsonaro family and the far-right factions in Brazil bewildered and scrambling to make sense of the situation.

    For months, pro-Bolsonaro voices had rallied behind the idea that the U.S. would continue to pressure Brazil by enforcing these sanctions, and even speculated that they would lead to the eventual downfall of Minister Moraes. There was talk of the Brazilian Congress being forced to change laws, and even that Moraes would be forced out of office. Yet, the outcome has been anything but what they had expected.

    In an unusual reaction that highlighted the magnitude of the political setback, several prominent figures from the far-right, including Eduardo Bolsonaro, publicly voiced their dissatisfaction with the revocation. Paulo Figueiredo, another key figure in the Bolsonaro political movement, also reacted with a mix of disbelief and frustration, denouncing the change as a betrayal by the international community. This reaction was compounded by the announcement of a joint statement from both Eduardo Bolsonaro and Figueiredo, signaling their deep discontent with the sudden turn of events.

    Retirada de Moraes da Magnitsky enfraquece plano de Eduardo Bolsonaro |  Todas as Notícias | NN1

    The revocation of the sanctions, which comes after five months of intense political pressure, has left Bolsonaro’s supporters at a loss. Many had been preparing for more political conflict, assuming the sanctions would escalate and lead to even greater challenges for the government. Instead, the move has caught them off guard and now, they must contend with the reality that the far-right’s predictions have crumbled.

    The reaction from some of the most outspoken political commentators was equally dramatic. One commentator, a staunch pro-Bolsonaro supporter, lamented that the decision would weaken Brazil’s political stance internationally. He claimed that Brazil’s internal political instability, compounded by the lack of a unified political response, had contributed to the failure of these sanctions to achieve their intended purpose. In his words, the lack of internal cohesion and strategic support from key international players like the United States had doomed their efforts.

    One of the most surprising aspects of the situation was the tone of the reactions from figures such as Dudu Bananinha, a Bolsonaro supporter who had long predicted that the sanctions would bring about the downfall of the Moraes family. However, instead of celebrating a major victory, Dudu Bananinha found himself at a loss for words, as the sanctions were lifted, and his previous prophecies about the country’s demise failed to materialize. This left him questioning his earlier statements and forced him to reconsider the political landscape he had once championed.

    The situation has also caused a ripple effect across the broader political landscape. Some supporters of the left have seized upon the revocation as a victory, applauding the fact that the far-right’s political gambit had been thwarted. Ironically, some progressive voices in Brazil now find themselves inadvertently grateful for the U.S. intervention, acknowledging that it played a significant role in keeping Bolsonaro and his allies at bay.

    Despite this apparent win for the left, the fallout from the sanctions’ revocation is far from over. The political forces supporting the Bolsonaro family are not likely to simply accept this defeat. There will likely be more attempts to rally support for the far-right agenda, with some figures even suggesting that this revocation is part of a larger, more sinister plan to undermine Brazil’s political stability from within.

    As the dust begins to settle, it is clear that this latest development has opened a new chapter in Brazilian politics. The far-right will have to confront the reality that their efforts to manipulate international politics have not panned out as expected, and they will need to recalibrate their strategy moving forward. The path ahead remains uncertain, but one thing is clear: the battle for Brazil’s future is far from over.

    Now, with political tensions simmering and both sides regrouping, it remains to be seen what will happen next. Will the far-right continue to challenge the status quo, or will they finally recognize the limitations of their strategies? Only time will tell.

    For those following the twists and turns of this dramatic saga, one thing is certain: the political landscape in Brazil is anything but predictable. As the situation unfolds, all eyes will remain on the future of the country’s democracy, and the political forces vying for power in the wake of this monumental development.

  • O senador segregacionista americano que engravidou sua funcionária negra

    O senador segregacionista americano que engravidou sua funcionária negra

    Um homem passou 50 anos a lutar contra os direitos dos negros. Foi senador dos Estados Unidos, candidato presidencial. O rosto da segregação na América.

    Falou durante 24 horas seguidas para bloquear uma lei de direitos civis. Lutou contra a integração das escolas. Lutou contra o casamento inter-racial.

    Cada direito que os afro-americanos tentaram obter, ele bloqueou durante meio século, mas tinha um segredo. Tinha uma filha negra.

    O nome dela era Essie Mae. A mãe era uma empregada doméstica adolescente. O pai era Strom Thurmond, o mesmo homem que se tornaria o símbolo da supremacia branca, o mesmo homem que lutaria contra a sua própria raça durante décadas.

    Essie Mae cresceu sabendo quem era o seu pai, mas nunca pôde dizê-lo porque ele era branco, ela era negra e no Sul isso era impossível.

    Como é que o líder do movimento segregacionista teve uma filha com uma empregada negra? Como é que um homem podia visitar a sua filha em segredo enquanto atacava os negros em público?

    Como é que viveu com essa contradição durante décadas? E porque é que ela protegeu um homem que nunca a protegeu?

    Esta é a história da maior hipocrisia da política americana. A história que começou em 1925, quando uma menina de 15 anos trabalhava na casa errada, e terminou sendo o segredo que ninguém imaginou que existia.

    Carolina do Sul, Estados Unidos, 1925. O Sul Profundo, 59 anos após o fim da escravatura. Mas a segregação continuava a ser lei.

    Os negros e os brancos viviam em mundos separados: escolas separadas, restaurantes separados, casas de banho separadas, fontes de água separadas e, sobretudo, proibição absoluta de relações entre raças.

    As leis antimiscigenação puniam o casamento inter-racial com prisão. A sociedade sulista considerava qualquer relação entre um homem branco e uma mulher negra como uma abominação.

    Mas isso não significava que não acontecesse. Acontecia o tempo todo em segredo, na escuridão, longe dos olhares públicos.

    Em Edgefield, Carolina do Sul, vivia a família Thurmond, uma família proeminente, respeitada, branca. John William Thurmond era advogado e político. A sua esposa Elenor administrava a casa e o seu filho James Strom Thurmond, de 22 anos, acabava de se formar na universidade.

    Era um jovem promissor, inteligente, ambicioso, com toda uma carreira política pela frente.

    A família Thurmond tinha empregados domésticos, como todas as famílias brancas proeminentes do Sul. Uma dessas empregadas era Carrie Butler. Tinha 15 anos. Era negra, era pequena, calada.

    Fazia o seu trabalho sem chamar a atenção. Limpava a casa, lavava a roupa, servia a comida e vivia sob o mesmo teto que a família Thurmond.

    Carrie Butler chegou a trabalhar na casa da família Thurmond quando tinha 14 anos. A sua família era pobre, precisavam do dinheiro.

    As opções para uma menina negra na Carolina do Sul em 1925 eram limitadas. Podia trabalhar nos campos de algodão sob o sol escaldante ou podia trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família branca. A segunda opção era melhor.

    Havia teto, comida, um salário pequeno mas regular. Carrie escolheu essa opção. Ou melhor, a sua família escolheu-a por ela.

    Aos 14 anos, Carrie começou a limpar a casa dos Thurmond, a lavar a sua roupa, a servir a sua comida, a viver sob o seu teto.

    Strom Thurmond tinha 22 anos, alto, atlético, tinha sido atleta na universidade, acabava de se formar com um diploma em horticultura.

    Mas a agricultura não era a sua verdadeira ambição. Queria ser advogado, queria ser político como o seu pai. A família Thurmond era respeitada em Edgefield. O seu pai tinha sido procurador do condado. O seu apelido tinha peso.

    Strom tinha todas as vantagens que um jovem branco do Sul podia ter em 1925, e Carrie não tinha nenhuma.

    Não está claro exatamente quando começou. As fontes não o dizem. Carrie nunca falou publicamente sobre isso. Strom nunca o admitiu em vida.

    Mas, em algum momento de 1925, Strom Thurmond e Carrie Butler começaram uma relação. Ele tinha 22 anos, ela tinha 15. Ele era o filho da família, ela era a empregada, ele era branco, ela era negra.

    Ele era livre de fazer o que quisesse. Ela não tinha opções reais.

    Na Carolina do Sul, em 1925, uma empregada doméstica negra de 15 anos não podia dizer que não ao filho de 22 anos dos seus patrões. Essa é a natureza do poder. Essa é a natureza do Sul Profundo.

    Não importa se houve afeto, não importa se houve palavras suaves, o poder entre eles era tão desigual que a palavra consentimento não tinha significado real.

    Carrie ficou grávida. Tinha 15 anos, talvez 16. Os registos não são claros sobre a sua data de nascimento exata, mas era uma adolescente, uma menina, e estava grávida do filho dos seus patrões.

    No Sul de 1925, isso era um escândalo catastrófico. Não para Strom, para Carrie.

    As leis antimiscigenação proibiam as relações entre brancos e negros, mas essas leis aplicavam-se principalmente quando um homem negro se relacionava com uma mulher branca.

    Quando era ao contrário, quando um homem branco se relacionava com uma mulher negra, as leis olhavam para o outro lado. A mulher negra carregava com a vergonha, com o castigo social, com as consequências. O homem branco continuava com a sua vida.

    A família Thurmond tinha que proteger a sua reputação. Strom tinha ambições políticas. Um filho ilegítimo com uma empregada negra adolescente destruiria essas ambições antes que começassem. Então, tomaram medidas.

    Carrie foi enviada para longe antes que a gravidez fosse visível. Foi enviada para viver com familiares noutro condado, longe de Edgefield, longe de olhares curiosos, longe de perguntas incómodas.

    Carrie deu à luz a 12 de outubro de 1925. Teve uma menina, chamaram-na Essie Mae. A bebé era de pele clara, muito clara. Tinha traços que qualquer um poderia reconhecer. Tinha o rosto dos Thurmond, mas ninguém diria isso em voz alta. Não no Sul, não em 1925.

    Carrie regressou a Edgefield com a sua bebé, mas não podia ficar. Não podia criar a sua filha ali. Toda a gente saberia, toda a gente suspeitaria. Os Thurmond não podiam permitir isso.

    Então, quando Essie Mae tinha 6 meses, Carrie tomou uma decisão. Ou talvez a decisão foi tomada por ela.

    Enviou a sua bebé para longe, para a Pensilvânia, para viver com a sua irmã Mary e o seu cunhado John Henry Washington.

    Essie Mae cresceria no Norte, longe da Carolina do Sul, longe dos Thurmond, longe do seu pai. Carrie ficou no Sul, trabalhou, enviou dinheiro quando podia, visitou quando podia, mas a sua filha cresceu sem ela.

    Essie Mae Washington cresceu em Coatesville, Pensilvânia, uma cidade industrial a 40 milhas da Filadélfia. O seu tio John Henry trabalhava numa fábrica de aço. A sua tia Mary criou-a como se fosse a sua própria filha.

    Essie Mae acreditava que Mary era a sua mãe. Acreditava que John Henry era o seu pai. Acreditava que tinha uma vida normal. Uma menina negra numa família trabalhadora do Norte. Ia à escola. Jogava com outras crianças.

    Não sabia nada sobre a Carolina do Sul. Não sabia nada sobre os Thurmond. Não sabia quem era realmente o seu pai. Viveu os primeiros 13 anos da sua vida sem saber a verdade.

    Entretanto, Strom Thurmond construía a sua carreira. Tornou-se professor, depois advogado. Começou a envolver-se na política. Permanecia solteiro, focado completamente na sua ascensão política.

    Uma vida respeitável, uma vida pública. Strom nunca mencionou Carrie, nunca mencionou Essie Mae. Ninguém em Edgefield falava disso. Se alguns suspeitavam, guardavam silêncio. Assim funcionava o Sul.

    Os segredos eram mantidos, especialmente os segredos que envolviam famílias proeminentes, especialmente os segredos que envolviam homens brancos e mulheres negras. Esses segredos eram enterrados profundamente e permaneciam enterrados durante décadas.

    Em 1938, quando Essie Mae tinha 13 anos, tudo mudou. O seu pai, John Henry Washington, desapareceu da sua vida. Os seus pais divorciaram-se. Mary nunca explicou porquê. Essie Mae aprendeu a não fazer perguntas. Na família de Mary, menos perguntas era sempre melhor.

    Mas nesse verão, uma mulher alta e elegante chegou de visita. Mary apresentou-a como a Tia Carrie. Essie Mae ficou hipnotizada. Havia algo naquela mulher, algo magnético. Seguia-a por toda a casa.

    Observava cada movimento, cada gesto. Sentia uma conexão que não podia explicar, uma atração inexplicável por essa estranha que diziam ser sua tia.

    Um dia, Carrie e Mary estavam a falar na cozinha. Essie Mae ouviu do corredor. Não queria interromper, mas ouviu o seu nome. Ouviu Carrie chorar. Ouviu Mary dizer que já era tempo. Tempo de quê? Essie Mae não sabia.

    Depois, Mary chamou Essie Mae, disse-lhe para se sentar. Tinha algo para lhe dizer, algo importante. Mary pegou na mão de Essie Mae, olhou para Carrie e depois disse as palavras que mudariam tudo: Carrie não era sua tia. Carrie era a sua mãe. Mary não era sua mãe. Mary era sua tia.

    Tudo o que Essie Mae tinha acreditado durante 13 anos era mentira. A sua vida inteira, mentira.

    Essie Mae não sabia o que dizer, não sabia o que sentir. Olhou para Carrie, a mulher alta e elegante que tinha admirado. Essa era a sua mãe, a sua verdadeira mãe, a mulher que a tinha dado à luz, a mulher que a tinha enviado para longe quando era bebé.

    Essie Mae tinha 1000 perguntas, mas só fez uma, a mais importante: Se Carrie era a sua mãe, quem era o seu pai?

    Carrie olhou para Mary. Mary assentiu e Carrie disse um nome. Um nome que Essie Mae não conhecia. Um nome que ainda não significava nada para ela: Strom Thurmond.

    Esse era o nome do seu pai. Um homem que vivia na Carolina do Sul. Um homem que Essie Mae nunca tinha conhecido. Um homem que, segundo Carrie, não podia reconhecê-la publicamente, nunca poderia reconhecê-la porque ele era branco e ela era negra e no Sul isso era impossível.

    Três anos se passaram depois que Essie Mae descobriu a verdade. Três anos a processar a informação. Três anos a saber que o seu pai era um homem branco na Carolina do Sul, um homem que não podia reconhecê-la, um homem cujo nome ela agora conhecia, mas cujo rosto nunca tinha visto.

    Em 1941, Carrie ficou doente. Não era nada grave, mas foi suficiente para que Essie Mae, agora com 16 anos, viajasse para o Sul para cuidar dela. Era a sua primeira vez na Carolina do Sul, a sua primeira vez no lugar onde tinha nascido.

    E Carrie tinha planos, planos que tinha estado a adiar durante 16 anos. Era hora de Essie Mae conhecer o seu pai.

    Carrie arranjou o encontro em segredo. Não podia ser na casa dos Thurmond. Não podia ser em público. Tinha que ser num lugar privado, num lugar onde ninguém os visse.

    Carrie e Essie Mae dirigiram até um edifício branco de um só andar, um escritório de advogados. O letreiro dizia “Thurmond and Thurmond Advogados”.

    Essie Mae pensou que o seu pai era o motorista de algum advogado importante. Não entendia porque é que estavam ali. Entraram no edifício.

    Carrie guiou-a por um corredor até um escritório grande. Estantes cheias de livros de leis do chão ao teto, diplomas nas paredes, documentos legais sobre a secretária. E depois, ele entrou.

    Strom Thurmond tinha 38 anos, alto, de cabelo escuro, vestido com um fato impecável. Olhou para Carrie durante um longo momento. Depois olhou para Essie Mae.

    Olhou-a fixamente, estudando o seu rosto, os seus traços, procurando algo familiar, procurando-se a si mesmo nela.

    Finalmente, falou. Disse a Carrie que tinha uma filha linda.

    Essie Mae não podia falar, estava paralisada. Carrie sorriu, virou-se para Essie Mae e disse as palavras que a menina tinha estado à espera de ouvir: “Essie Mae, conhece o teu pai.”

    Essie Mae não conseguiu dizer uma única palavra. Strom também não parecia saber o que dizer.

    Então, fez o que sabia fazer. Começou a falar sobre história, sobre o selo do estado da Carolina do Sul, sobre a educação, sobre coisas seguras, coisas que não requeriam falar da verdade, da sua relação, dos 16 anos que tinham passado.

    A conversa foi breve, desconfortável, cheia de silêncios pesados. Strom não a abraçou, não lhe pegou na mão, não fez nenhum gesto de afeto paternal.

    Só falou, só a olhou e depois o encontro terminou. Carrie e Essie Mae dirigiram de volta em silêncio.

    Essie Mae tinha conhecido o seu pai, mas não se sentia como uma reunião entre pai e filha. Sentia-se como uma reunião de negócios, fria, formal, distante.

    Essa seria a natureza da sua relação durante os seguintes 62 anos. Distante, secreta, cheia de limites que nunca se podiam cruzar.

    Depois desse encontro, Strom começou a enviar dinheiro. Não muito, mas regularmente. Carrie recebia-o e enviava-o para a Pensilvânia para Essie Mae.

    Quando Essie Mae terminou o ensino secundário, queria ir para a universidade, mas a sua família não tinha dinheiro. Carrie contactou Strom. Strom aceitou pagar.

    Em 1947, Essie Mae inscreveu-se no South Carolina State College, uma universidade historicamente negra em Orangeburg, Carolina do Sul.

    Strom pagou a propina completa, mas com uma condição implícita: Ninguém podia saber. Ninguém podia saber que Strom Thurmond estava a pagar a educação de uma estudante negra. Ninguém podia saber porquê.

    Enquanto Essie Mae estudava numa universidade para negros, Strom Thurmond ascendia na política. Em 1947, tornou-se governador da Carolina do Sul. Tinha 44 anos. Era jovem, carismático, ambicioso.

    E começou a construir a sua reputação como defensor dos direitos dos estados, defensor da segregação, defensor da separação das raças.

    Nos seus discursos falava sobre a importância de manter a pureza racial, sobre o perigo da integração, sobre a necessidade de manter os brancos e os negros separados.

    Tudo isto enquanto a sua filha negra estudava numa universidade a apenas 100 milhas de distância, uma universidade que ele visitava regularmente.

    Strom ia ao South Carolina State College frequentemente. Chegava na sua limusina governamental, a limusina do governador, preta, brilhante, impossível de ignorar.

    Os estudantes viam-no chegar, viam-no entrar no escritório do presidente da universidade. Passava tempo ali, depois saía, às vezes sentava-se no pátio central com Essie Mae à vista de todos.

    Conversavam. Ele perguntava-lhe sobre as suas aulas, sobre os seus planos, dava-lhe dinheiro, notas dobradas que lhe passava discretamente.

    Os outros estudantes viam-no, sabiam ou suspeitavam, mas ninguém dizia nada. Ninguém se atrevia a acusar o governador da Carolina do Sul de ter uma filha negra. Isso era impossível, impensável. E no entanto, todos o viam, todos o sabiam.

    Em 1948, Strom Thurmond tomou a decisão que definiria a sua carreira. Os Estados Unidos estavam a mudar. O presidente Harry Truman tinha ordenado a dessegregação das forças armadas, tinha proposto leis de direitos civis.

    Os democratas do Sul estavam furiosos. Viam isto como um ataque à sua forma de vida, como uma traição aos valores do Sul.

    Strom Thurmond liderou a rebelião. Na convenção democrata de 1948, os democratas do Sul abandonaram o salão em protesto.

    Formaram o seu próprio partido, o Partido dos Direitos dos Estados, os Dixiecrats, e nomearam Strom Thurmond como o seu candidato presidencial.

    Strom fez campanha numa plataforma completamente segregacionista. Prometeu manter a separação das raças. Prometeu lutar contra a integração. Prometeu proteger o Sul branco do que ele chamava a tirania do governo federal.

    Viajou por todo o Sul dando discursos apaixonados. Falava sobre a pureza racial, sobre o direito dos estados de manterem as suas próprias leis, sobre o perigo de permitir que os negros e os brancos se misturassem.

    E em cada discurso, em cada comício, em cada evento de campanha, havia uma verdade que ninguém conhecia. O homem que lutava contra o casamento inter-racial tinha uma filha de uma relação inter-racial.

    O homem que falava sobre manter as raças separadas tinha sangue misto na sua própria família. A hipocrisia era total e era invisível.

    Strom não ganhou a presidência, mas ganhou quatro estados: Louisiana, Mississippi, Alabama e Carolina do Sul. Um milhão de votos.

    Foi uma das candidaturas de terceiros partidos mais bem-sucedidas na história americana e solidificou a sua reputação como o líder do movimento segregacionista, como o defensor do Sul branco, como o inimigo dos direitos civis.

    Mas enquanto celebrava o seu sucesso eleitoral, Essie Mae continuava a estudar no South Carolina State College. Continuava a receber o seu dinheiro, continuava a ser o seu segredo.

    O segredo que ele protegia mais do que qualquer outra coisa, mais do que a sua reputação, mais do que a sua carreira. Porque revelar esse segredo destruiria tudo o que tinha construído.

    Em 1948, Essie Mae conheceu Julius Williams, um estudante de direito. Apaixonaram-se, casaram-se. Em 1949, tiveram o seu primeiro filho.

    Essie Mae deixou a universidade para criar a sua família. Mudou-se, continuou com a sua vida, mas Strom continuava a enviar dinheiro, continuava a visitá-la quando podia, quando ninguém olhava, quando podia fazê-lo em privado. A relação continuou distante, secreta, cheia de limites, mas continuou durante décadas.

    Em 1954, Strom Thurmond foi eleito para o Senado dos Estados Unidos. Fê-lo como candidato independente, escrevendo o seu nome no boletim de voto, um feito sem precedentes.

    Tornou-se senador e durante os seguintes 49 anos se tornaria a voz mais proeminente contra os direitos civis em todos os Estados Unidos.

    O homem que mais lutou para manter a segregação, o homem que mais resistiu a cada avanço que os afro-americanos tentaram alcançar.

    E durante todo esse tempo teve uma filha negra que guardava o seu segredo, uma filha que o protegia, uma filha que escolheu o silêncio sobre a verdade, porque essa era a única opção que lhe tinham dado.

    Como senador dos Estados Unidos, Strom Thurmond tornou-se o inimigo mais visível dos direitos civis. Não era apenas mais um político segregacionista, era o líder, o mais vocal, o mais inflexível, o mais disposto a lutar até ao fim para manter a separação das raças.

    E enquanto ele lutava no Senado, Essie Mae vivia a sua vida em silêncio, criando os seus filhos, trabalhando como professora, visitando o seu pai em segredo quando podia, guardando o segredo que poderia destruir tudo o que ele tinha construído.

    Em 1957, o Senado debateu a lei de direitos civis, uma lei modesta que procurava proteger o direito de voto dos afro-americanos, uma lei que muitos consideravam o primeiro passo para a igualdade real.

    Strom Thurmond viu a lei como uma ameaça, como o princípio do fim do Sul que conhecia. Decidiu fazer algo que ninguém tinha feito antes. Decidiu falar até que não pudesse falar mais.

    A 28 de agosto de 1957, Strom Thurmond começou um filibuster. Um filibuster é um discurso longo projetado para atrasar ou bloquear uma votação. Mas o que Strom fez nesse dia superou tudo o anterior.

    Falou durante 24 horas e 18 minutos sem parar, sem se sentar, sem descanso. Estabeleceu um recorde que permanece até hoje.

    Durante essas 24 horas, Strom falou sobre a Constituição, sobre os direitos dos Estados, sobre a tirania do governo federal, sobre o perigo de forçar a integração.

    Leu as leis eleitorais de cada estado, leu a Declaração de Independência, leu tudo o que pôde para preencher o tempo, para atrasar a votação, para mostrar a sua absoluta oposição a qualquer lei que desse direitos aos negros.

    Enquanto falava, Essie Mae estava em Los Angeles a criar os seus quatro filhos, a trabalhar no distrito escolar, a viver como uma mulher negra na América, uma mulher que enfrentava a discriminação todos os dias, uma mulher cujos filhos enfrentavam as mesmas barreiras que Strom lutava para manter.

    E o seu pai era o homem no Senado a falar durante 24 horas para se certificar de que essas barreiras permaneciam.

    A lei passou de qualquer forma. O filibuster de Strom não a deteve, mas estabeleceu-o como um herói para os segregacionistas, como um homem disposto a sacrificar tudo pelos seus princípios, como o último defensor do Sul branco.

    Os jornais do Sul elogiaram-no. Os eleitores adoraram-no. Tornou-se uma lenda e ninguém sabia que tinha uma filha negra.

    Ninguém sabia que a mulher cuja educação tinha pago era a mesma mulher cuja raça ele desprezava publicamente. Ninguém sabia a verdade, exceto Essie Mae, e ela guardava silêncio.

    Durante as décadas de 1950 e 1960, ocasionalmente Essie Mae tentava falar com Strom sobre o racismo, sobre a segregação, sobre as leis que mantinham os negros como cidadãos de segunda classe.

    Mas Strom desviava a conversa. Não queria discutir política com ela. Não queria ouvir as suas queixas sobre as instalações segregadas, sobre as escolas separadas, sobre a injustiça que ela enfrentava todos os dias.

    Ele era o seu pai, mas também era o arquiteto dessa injustiça e não ia mudar, não por ela, não por ninguém.

    Em 1964, o marido de Essie Mae, Julius Williams, morreu. Essie Mae ficou viúva com quatro filhos. Mudou-se para Los Angeles.

    Completou a sua educação universitária. Obteve uma licenciatura em 1969. Depois um mestrado em educação na Universidade do Sul da Califórnia.

    Trabalhou como professora no distrito escolar de Los Angeles durante 30 anos, de 1967 a 1997. Durante todo esse tempo, Strom continuou a ser senador.

    Continuou a enviar dinheiro quando ela precisava. Continuou a visitá-la quando podia em Washington D.C., no seu escritório do Senado. Essie Mae ia visitá-lo.

    Os guardas de segurança conheciam-na. Sabiam que o senador tinha uma visitante regular, uma mulher negra que vinha vê-lo em privado, mas nunca perguntavam, nunca diziam nada. No Sul, alguns rumores eram melhor deixá-los como rumores.

    Em 1976, Strom fez algo invulgar. Nomeou Matthew Jotta Perry, um homem negro, para um cargo judicial federal. Foi o primeiro senador sulista a nomear um afro-americano para um cargo judicial federal.

    Os media elogiaram-no. Disseram que Strom estava a mudar, que estava a deixar para trás o seu passado segregacionista, mas havia um detalhe que ninguém sabia.

    Matthew Jotta Perry tinha saído brevemente com Essie Mae em 1947 no South Carolina State College, pouco antes de ela conhecer o seu marido.

    Essie Mae acreditava que a sua influência tinha importado, que as suas conversas privadas com o seu pai durante anos tinham tido efeito, que finalmente estava a começar a ver os negros como pessoas, como cidadãos, como iguais.

    Talvez tivesse razão, talvez não, mas Strom nunca o admitiu publicamente.

    Com os anos, Strom moderou algumas das suas posições. Deixou de falar tão abertamente sobre segregação. Contratou pessoal negro no seu escritório. Começou a votar a favor de algumas leis de direitos civis.

    Os críticos diziam que era apenas política, que a Carolina do Sul estava a mudar, que tinha que se adaptar para continuar a ser eleito.

    Os defensores diziam que tinha crescido, que tinha aprendido, que tinha mudado de opinião.

    Essie Mae queria acreditar que ela tinha influenciado essa mudança, que as suas conversas em privado tinham importado, que de alguma forma a sua existência tinha feito uma diferença, mas nunca poderia sabê-lo com certeza porque Strom nunca o disse.

    Nunca admitiu que tinha uma filha negra, nunca reconheceu o conflito entre a sua vida pública e a sua vida privada, nunca explicou como podia amar a sua filha enquanto lutava contra a sua raça.

    Os anos passaram. Strom continuou a ser reeleito uma e outra vez. Tornou-se o senador mais velho da história dos Estados Unidos.

    Serviu até aos 100 anos, 50 anos no total, meio século no Senado. E durante todo esse tempo, Essie Mae guardou o segredo.

    Os seus filhos sabiam, a sua família sabia. Alguns amigos próximos sabiam, mas o público não sabia. Os media não sabiam, a história não sabia.

    Essie Mae protegeu o seu pai, protegeu-o da vergonha, da exposição, do escândalo que destruiria o seu legado.

    Protegeu-o, talvez por lealdade, talvez por amor, talvez porque ele tinha sido o seu pai da única maneira que pôde ser: em segredo, à distância, mas presente de alguma forma, enviando dinheiro, visitando quando podia, sendo parte da sua vida da única maneira que o Sul permitia.

    Em junho de 2003, Strom Thurmond morreu. Tinha 100 anos. Tinha vivido um século completo.

    Os jornais publicaram obituários longos. Falaram da sua longa carreira, do seu recorde de filibuster, da sua evolução de segregacionista ardente a senador moderado.

    Falaram do seu serviço militar na Segunda Guerra Mundial, dos seus quatro filhos legítimos com a sua esposa, do seu legado complicado, mas não falaram de Essie Mae porque ninguém sabia. O segredo tinha sobrevivido.

    Durante 78 anos, o segredo tinha permanecido enterrado e com Strom morto parecia que morreria com ele. Mas os filhos de Essie Mae tinham outros planos.

    Tinham crescido com o segredo. Tinham visto a sua mãe proteger um homem que nunca a reconheceu publicamente. Tinham visto a hipocrisia e pensavam que já era suficiente.

    Já era hora de o mundo saber a verdade. Era hora de Essie Mae reclamar o seu lugar na história. Era hora de o legado de Strom Thurmond incluir toda a verdade, não apenas a parte que ele queria que o mundo visse.

    Seis meses após a morte de Strom Thurmond, Essie Mae Washington Williams convocou uma conferência de imprensa. Era dezembro de 2003.

    Essie Mae tinha 78 anos. Tinha guardado o segredo durante toda a sua vida. 78 anos de silêncio. 78 anos a proteger um homem que nunca a reconheceu publicamente. 78 anos a viver como um segredo. Mas já não mais.

    Os seus filhos tinham-na convencido. Era hora de dizer a verdade. Não por dinheiro. A família Thurmond não lhe devia nada legalmente. O estatuto de limitações tinha expirado há décadas.

    Era por algo mais importante: por legitimidade, por reconhecimento, pelo seu lugar na história, por reclamar a sua identidade como a filha de Strom Thurmond.

    A conferência de imprensa foi transmitida ao vivo por todas as cadeias de notícias. Essie Mae sentou-se em frente às câmaras tranquila, digna, direta.

    Disse as palavras que mudariam tudo: Strom Thurmond era o seu pai. Carrie Butler, uma empregada doméstica de 15 anos, era a sua mãe.

    Tinha nascido em outubro de 1925. Tinha conhecido o seu pai em 1941. Ele tinha pago a sua educação, tinha enviado dinheiro durante décadas, tinha-a visitado em privado, tinha sido parte da sua vida, mas nunca a tinha reconhecido publicamente.

    Nunca lhe tinha dado o seu apelido, nunca a tinha chamado sua filha em frente a ninguém e ela tinha aceitado isso porque essa era a única opção que lhe tinham dado. Mas agora ele estava morto e ela queria que o mundo soubesse a verdade.

    Os media explodiram. A história foi manchete em todos os jornais, em todas as cadeias de televisão, em todos os sites de notícias.

    O senador segregacionista tinha uma filha negra. O homem que tinha lutado contra os direitos civis durante 50 anos tinha uma filha de uma relação inter-racial.

    O homem que tinha estabelecido o recorde de filibuster falando contra uma lei de direitos civis, tinha pago a educação da sua filha negra em segredo. A hipocrisia era total, era inegável, era escandalosa.

    Essie Mae tinha provas, tinha documentos, tinha registos dos pagamentos, tinha testemunhas que a tinham visto com Strom durante décadas, tinha uma história completa e verificável.

    A família Thurmond poderia ter negado. Poderiam ter dito que Essie Mae mentia, que procurava atenção, que queria dinheiro, mas não o fizeram.

    Dois dias depois da conferência de imprensa, a família Thurmond emitiu um comunicado. Confirmavam que Essie Mae Washington Williams era a filha de Strom Thurmond.

    Reconheciam a paternidade, davam-lhe as boas-vindas à família. A família do senador, os seus quatro filhos legítimos, aceitaram que tinham uma meia-irmã, uma meia-irmã que tinha existido nas sombras durante 78 anos.

    Uma meia-irmã que agora reclamava o seu lugar legítimo na família Thurmond.

    Em 2004, o estado da Carolina do Sul adicionou o nome de Essie Mae à lista de filhos de Thurmond no monumento do senador nos terrenos do Capitólio estadual. O seu nome foi gravado em pedra junto aos nomes dos seus meio-irmãos. Oficialmente, publicamente, para sempre.

    Em 2005, Essie Mae publicou as suas memórias. O livro intitulou-se Dear Senator: A Memoir by the Daughter of Strom Thurmond (Querido Senador: Uma Memória da Filha de Strom Thurmond). O livro foi nomeado para o National Book Award, foi nomeado para o prémio Pulitzer.

    Essie Mae contou toda a história: a sua infância na Pensilvânia, o momento em que descobriu quem era a sua mãe, o primeiro encontro com o seu pai, os anos de segredo, as visitas privadas, o dinheiro enviado em envelopes, as conversas sobre racismo que o seu pai nunca quis ter. Tudo estava ali nas suas próprias palavras.

    O livro revelou detalhes que muitos acharam perturbadores. Essie Mae escreveu que nunca tinha querido fazer mal ao seu pai, que tinha sido sensível ao seu bem-estar, à sua carreira, à sua família na Carolina do Sul, que por isso tinha guardado silêncio.

    Mas também escreveu sobre a contradição, sobre como o seu pai podia visitá-la em privado enquanto lutava contra a sua raça em público, sobre como podia pagar a sua educação enquanto bloqueava leis que teriam dado educação igual a outras crianças negras, sobre como podia ser o seu pai em segredo, mas o inimigo da sua raça em público.

    Essie Mae nunca resolveu essa contradição. Não podia porque não fazia sentido, nunca fez.

    No livro, Essie Mae também escreveu sobre algo mais. Escreveu que acreditava que tinha tido impacto no seu pai, que as suas conversas privadas tinham influenciado as suas decisões, que quando ele começou a moderar as suas posições nas décadas de 70 e 80, foi parcialmente por causa dela.

    Por conhecê-la, por vê-la como uma pessoa, como sua filha, não apenas como uma mulher negra.

    Alguns historiadores acreditam que Essie Mae tinha razão, que Strom mudou, embora lentamente, porque tinha uma conexão pessoal com a comunidade que tinha passado décadas a atacar.

    Outros acreditam que foi apenas política, que a Carolina do Sul estava a mudar e Strom mudou com ela para se manter relevante.

    A verdade provavelmente está num ponto intermédio, mas nunca o saberemos com certeza, porque Strom nunca o disse. Morreu sem admitir nada publicamente.

    Essie Mae viveu 10 anos mais depois de revelar o seu segredo. Morreu a 4 de fevereiro de 2013. Tinha 87 anos.

    Os seus obituários descreveram-na como professora, como autora, como a filha secreta de Strom Thurmond, como a mulher que finalmente revelou uma das hipocrisias mais grandes da política americana.

    Viveu o suficiente para ver o seu nome no monumento do seu pai, para ver a sua história reconhecida, para reclamar a sua identidade, para ter paz.

    Durante a entrevista de 2003 perguntaram-lhe porque tinha esperado tanto, porque tinha guardado o segredo durante 78 anos. Essie Mae respondeu simplesmente:

    “Nunca quis fazer-lhe mal, nunca quis destruir a sua carreira. Nunca quis causar problemas à sua família. Fui sensível ao seu bem-estar, mesmo quando ele não foi sensível ao meu, mesmo quando ele lutou contra os direitos de pessoas como ela.”

    “Mesmo quando ele estabeleceu recordes falando para negar direitos à sua própria raça, ela protegeu-o até que ele morreu e só então se permitiu reclamar a sua verdade.”

    A história de Essie Mae Washington Williams é a história dos segredos do Sul, das relações que existiam, mas não podiam ser reconhecidas, dos filhos que nasciam, mas não podiam levar o apelido dos seus pais.

    Das famílias divididas por linhas de cor que a sociedade impunha, mas que a biologia ignorava.

    É a história de uma mulher que viveu toda a sua vida como um segredo, que protegeu um homem que nunca a protegeu, que amou um pai que nunca pôde amá-la publicamente e que finalmente aos 78 anos decidiu que merecia ser mais do que um segredo, merecia ser reconhecida, merecia o seu lugar na história e reclamou-o não com ira, não com vingança, mas com dignidade, com graça e com a simples declaração de que ela era a filha de Strom Thurmond e que o mundo tinha o direito de o saber.

  • O Mistério Mais Macabro da História de Querétaro (1836) — Vicente Robles e Guadalupe Estrada

    O Mistério Mais Macabro da História de Querétaro (1836) — Vicente Robles e Guadalupe Estrada

    O silêncio que cobre a praça de armas de Querétaro durante as primeiras horas da madrugada parece um manto protetor. No entanto, os documentos arquivados na biblioteca municipal sugerem que esta quietude esconde segredos que ninguém quis desenterrar em quase dois séculos.

    A história que estamos prestes a narrar permaneceu oculta em registos paroquiais, em cartas pessoais e arquivos judiciais incompletos.

    Até que, em 1962, um grupo de historiadores encontrou, durante a restauração do antigo convento da Santa Cruz, uma série de documentos guardados num compartimento secreto numa das paredes do claustro.

    Estes papéis continham registos detalhados sobre um dos casos mais perturbadores na história de Querétaro: a misteriosa relação entre Vicente Robles e Guadalupe Estrada e os sucessos inexplicáveis que ocorreram na sua residência entre janeiro e outubro de 1836.

    A casa dos Robles Estrada situava-se no que hoje conhecemos como o bairro de la Cruz, a menos de 200 m da Plaza de Armas.

    Era uma construção colonial de dois andares, com um pátio central e quartos que se abriam para corredores interiores.

    Uma habitação típica da aristocracia mexicana pós-independência, com soalhos de terracota e muros de pedra tão grossos que, segundo os testemunhos da época, nem os gritos mais desesperados conseguiam atravessá-los.

    Vicente Robles provinha de uma família com alguma influência na política regional. Nascido em 182, tinha recebido educação na Cidade do México e regressado a Querétaro para administrar as propriedades familiares após a morte do seu pai.

    Os registos comerciais da Câmara Municipal indicam que possuía terras no que hoje é o município de El Marqués, além de participar ativamente na compra e venda de têxteis, que nessa época representava uma das principais atividades económicas da região.

    Por sua vez, Guadalupe Estrada, segundo consta nos registos batismais da paróquia de Santiago, nasceu em 1810 numa família de comerciantes de origem espanhola estabelecida em Querétaro desde finais do século anterior.

    Os documentos descrevem-na como uma mulher de compleição magra, cabelo escuro e modos reservados.

    Um detalhe que aparece recorrentemente nas descrições de quem a conheceu era a sua voz sussurrante, mas firme, como se guardasse sempre um segredo que estivesse prestes a revelar.

    O casamento entre Vicente e Guadalupe celebrou-se em 1828, quando ele tinha 26 anos e ela 18.

    A cerimónia, segundo os registos paroquiais, foi discreta apesar da posição social de ambas as famílias, o que chamou a atenção de alguns membros da sociedade queretana.

    Uma carta encontrada entre os documentos do convento, escrita por Ana María Septién, uma prima distante dos Robles, menciona: “A união celebrou-se com tanta pressa e tão pouco fausto, que muitos de nós nos perguntamos se haveria alguma razão oculta para tal apressamento.”

    Os primeiros anos do casamento pareceram decorrer sem incidentes notáveis. Vicente continuou com os seus negócios, expandindo-os para a mineração na Sierra Gorda queretana, o que implicava ausências prolongadas da casa familiar.

    Guadalupe, por sua vez, assumiu o papel que se esperava de uma mulher da sua posição: dirigia os criados, participava discretamente em atividades de beneficência e assistia à missa na igreja de Santo Domingo, localizada a poucos minutos a pé da sua residência.

    As aparências, contudo, começaram a desmoronar-se nos primeiros dias de 1836.

    A 1 de janeiro, segundo consta no diário pessoal de Josefa Vergara, uma vizinha que residia a menos de 50 metros da casa dos Robles Estrada, os gritos vindos da casa acordaram metade da rua. Eram vozes masculinas, mas também se ouvia o choro de uma mulher.

    Ninguém saiu para ver o que estava a acontecer. Em Querétaro, todos aprendemos a não interferir em assuntos alheios.

    Este incidente coincide com o regresso de Vicente após uma ausência de quase 3 meses nas minas de Xichú. O que parecia uma simples disputa doméstica, logo se revelaria como o início de uma espiral de acontecimentos que culminariam no que algumas testemunhas definiram como uma manifestação do mal que habita nos homens.

    Em meados de janeiro, Vicente contratou dois criados adicionais, Ramón Osorio, um homem de cerca de 40 anos vindo de Celaya, e María Refugio Hernández, uma cozinheira originária de San Juan del Río.

    Este dado, aparentemente trivial, aparece nos registos municipais porque ambos os criados tiveram de se registar oficialmente ao mudar de residência.

    O invulgar, segundo assinalam os documentos recuperados, é que a ambos foram atribuídos quartos na cave da casa, um espaço normalmente reservado para armazenamento devido à humidade e falta de ventilação.

    A 23 de janeiro, o padre Miguel Hidalgo y Costilla (não confundir com o iniciador da independência, mas sim um sacerdote local que partilhava o nome com o herói nacional) registou no seu diário de atividades paroquiais:

    “Visitei a casa dos Robles Estrada atendendo a um pedido urgente da senhora Guadalupe. Encontrei-a visivelmente alterada, com olheiras pronunciadas e um tremor nas mãos que tentava dissimular.”

    “Pediu-me que benzesse a casa e especificamente a porta que conduz à cave. Enquanto realizava a bênção, notei que o senhor Vicente observava do corredor superior com expressão impassível.”

    “Quando terminei e perguntei se podia ser útil em algo mais, a senhora Guadalupe olhou brevemente para o marido antes de negar com a cabeça e agradecer-me em voz apenas audível.” Esta é a primeira referência documentada ao que parecia ser um crescente temor por parte de Guadalupe.

    Durante as semanas seguintes, segundo os registos de compras da família conservados pelo seu mordomo Javier López, a casa começou a ser abastecida de forma invulgar.

    Compraram grandes quantidades de sal, azeite para lamparinas e, particularmente, ferrolhos e cadeados adquiridos na ferraria de Francisco Veraza na rua de Paster.

    A 3 de fevereiro, o médico Alberto Septién, possivelmente relacionado com a prima de Vicente mencionada anteriormente, foi chamado à casa Robles Estrada.

    O seu registo de visitas, recuperado entre os papéis do convento, indica sucintamente: “Assisti a senhora Estrada por insónia severa e nervosismo. Receitei tintura de valeriana e sugeri repouso absoluto.”

    “A paciente mencionou ruídos noturnos que a impediam de dormir. Ao solicitar examinar a fonte de tais ruídos, presumivelmente a cave, o senhor Robles recusou, assegurando que se tratava de roedores que já estavam a ser exterminados.”

    Durante o mês de fevereiro, os vizinhos começaram a notar padrões estranhos na casa. Juana Yturbide, cuja residência partilhava um muro com a parte de trás da propriedade dos Robles Estrada, declarou anos depois numa entrevista para um censo local:

    “Cada noite, exatamente às 11, as luzes da casa apagavam-se todas de uma vez. Às 12 em ponto ouvia-se o arrastar de algo pesado pelo chão. À 1 da manhã, um golpe seco, como se algo ou alguém caísse de certa altura, e depois silêncio absoluto até ao amanhecer.”

    O clima de tensão dentro da casa tornou-se evidente para o pessoal de serviço. María de la Luz Ortega, uma das criadas mais antigas, solicitou a sua saída no final de fevereiro, citando problemas de saúde.

    Contudo, numa carta enviada à sua irmã em Tequisquiapan, recuperada pelos historiadores em 1965 no arquivo familiar dos descendentes Ortega, escreveu:

    “Não posso continuar naquela casa. Há algo na cave que o Senhor alimenta todas as noites. A senhora chora em silêncio, fechada no seu quarto. Os novos criados não falam com ninguém e têm a chave da cave.”

    “Ontem vi o senhor Vicente sair de lá com as mãos manchadas de uma cor escura. Quando me viu, limitou-se a sorrir e a pedir-me que preparasse água quente para se lavar. O cheiro que emanava dele não era deste mundo.”

    No início de março, Vicente Robles contratou quatro trabalhadores de San Juan del Río para realizar o que denominou “Reformas” na cave da casa.

    Estes homens permaneceram alojados numa pensão próxima durante duas semanas enquanto realizavam trabalhos que, segundo os registos de pagamento encontrados, incluíam reforço de muros, instalação de sistemas de drenagem e construção de divisões internas.

    O invulgar destes trabalhos, tal como assinala uma nota do historiador que analisou os documentos em 1962, é que foram realizados em total segredo.

    Os trabalhadores entravam antes do amanhecer e saíam depois do anoitecer e tinham proibição de falar sobre a natureza do seu trabalho.

    Nenhum destes quatro homens regressou jamais a San Juan del Río. Segundo consta no registo civil dessa localidade, as suas famílias reportaram-nos como desaparecidos no final de março, mas as autoridades da época não iniciaram qualquer investigação.

    A 17 de março, Guadalupe Estrada visitou o seu confessor, o padre Javier Alegría, na Igreja de Santa Rosa de Viterbo. O sacerdote deixou registo deste encontro nas suas notas pessoais, embora sem revelar o conteúdo específico da confissão, protegido pelo segredo sacramental. Contudo, escreveu:

    “A senhora E. fez-me hoje uma consulta que me deixou profundamente perturbado. Perguntou-me se é possível que um ser humano perca a sua alma sem morrer.”

    “Respondi-lhe que, segundo os ensinamentos da Igreja, a alma só abandona o corpo no momento da morte. A sua pergunta seguinte gelou-me o sangue: ‘E se o que volta a ocupar esse corpo vazio não for a alma original?’”

    “Ao despedir-se, entregou-me um pequeno relicário com um cacho do seu próprio cabelo, pedindo-me que o guardasse como prova de que alguma vez fui quem digo ser.”

    Durante a segunda quinzena de março, a atividade na casa Robles Estrada intensificou-se. Segundo os registos comerciais, Vicente realizou compras invulgares: grandes quantidades de ervas aromáticas como alecrim, tomilho e louro, cinco espelhos de grande tamanho importados de França e 12 candelabros de prata.

    Os rumores na pequena sociedade queretana sugeriam que os Robles Estrada estavam a preparar algum tipo de celebração ou evento social importante.

    A 1 de abril, contudo, ocorreu um sucesso que alteraria definitivamente o curso dos acontecimentos. O registo policial de Querétaro, preservado nos arquivos municipais, contém um relatório assinado pelo oficial Agustín Rivera:

    “Dirigimo-nos à residência Robles Estrada em resposta a gritos reportados pelos vizinhos. Ao chegar, o senhor Robles recebeu-nos à porta, completamente vestido apesar da hora (3 da madrugada), explicando que a sua esposa tinha tido um pesadelo particularmente vívido.”

    “Solicitamos ver a senhora Estrada para confirmar o seu bem-estar. O senhor Robles recusou inicialmente, alegando que ela estava a dormir após tomar um calmante. Perante a nossa insistência, acedeu.”

    “A senhora Estrada apareceu no alto da escada, vestida com uma camisa de dormir branca, visivelmente pálida, mas aparentemente ilesa. Confirmou a versão do marido com voz monótona e sem qualquer emoção, mantendo o olhar fixo num ponto sobre as nossas cabeças.”

    “Ao retirarmo-nos, o criado Ramón Osorio acompanhou-nos à porta e, quando estávamos prestes a sair, murmurou algo que não consegui entender completamente, mas que soou como: ‘Essa não é ela.’”

    “Ao pedir-lhe que esclarecesse, negou ter dito nada e fechou a porta rapidamente.” A este incidente seguiu-se um período de aparente calma.

    Durante quase três semanas, a casa Robles Estrada não gerou comentários nem registos particulares.

    Esta calma, contudo, seria interrompida a 22 de abril, quando o Dr. Alberto Septién foi novamente chamado à residência. Desta vez, com caráter urgente.

    O relatório médico recuperado dos arquivos do hospital de San Juan de Dios descreve: “Assisti a senhora Estrada por um quadro de desnutrição severa e desidratação. Segundo o senhor Robles, a sua esposa tinha-se recusado a ingerir alimentos durante 5 dias, alegando que a comida ‘tinha sabor a terra de cemitério’.”

    “Ao examiná-la, notei vários aspetos preocupantes: marcas de ligaduras nos pulsos e tornozelos que o senhor Robles atribuiu a medidas de contenção durante episódios de histeria, pupilas extremamente dilatadas que mal reagiam à luz e uma temperatura corporal notavelmente baixa.”

    “O mais perturbador foi o seu comportamento. Permanecia completamente imóvel, exceto quando ouvia ruídos provenientes da cave, momento em que girava a cabeça para a porta com uma rapidez antinatural e sorria brevemente.”

    “Recomendei a sua transferência imediata para o hospital, mas o senhor Robles recusou categoricamente, assegurando que podia providenciar os cuidados necessários em casa.”

    O Dr. Septién, preocupado com o estado de Guadalupe, realizou uma visita não anunciada três dias depois, a 25 de abril. No seu diário pessoal escreveu:

    “Negaram-me o acesso à casa. O criado Ramón informou-me que o senhor Robles tinha levado a sua esposa para a quinta da família em El Marqués para que recuperasse com ar fresco.”

    “Enquanto falávamos à porta, notei que as janelas do andar superior estavam cobertas com panos escuros. Mais perturbador ainda: estou certo de ter visto o rosto de Guadalupe a observar-me de uma fenda nas cortinas do segundo andar, contradizendo diretamente o que o criado acabara de me dizer.”

    O Dr. Septién levou as suas preocupações às autoridades locais, mas como não tinha provas concretas de maus-tratos ou perigo iminente e dada a posição social de Vicente Robles, não foi tomada qualquer ação oficial.

    Contudo, segundo consta numa carta dirigida ao seu colega na Cidade do México, o Dr. Septién começou a manter um registo detalhado de tudo o que estava relacionado com o caso.

    Maio de 1836 marcou um ponto de inflexão na história dos Robles Estrada. A princípio do mês, Vicente anunciou uma viagem de negócios às minas de Xichú, que duraria aproximadamente duas semanas.

    Segundo os registos da Pensão El Mesón del Sol nessa localidade, Vicente efetivamente registou-se a 6 de maio e permaneceu lá até ao dia 16.

    Durante a sua ausência, ocorreram vários incidentes na casa de Querétaro. A 8 de maio, a criada María Refugio Hernández dirigiu-se à paróquia de Santiago em estado de grande agitação. O registo do pároco indica:

    “A mulher solicitou confissão urgente. Estava tão alterada que mal conseguia articular palavras coerentes. Entre soluços, mencionou que ‘a senhora caminha à noite colada ao teto como uma aranha’ e que ‘a cave está cheia de marcas que mudam de forma’.”

    “Administrei-lhe os sacramentos e ofereci-lhe refúgio nas dependências paroquiais. Mas recusou, dizendo que ‘ele saberia se eu não regressasse’. Ao perguntar-lhe a quem se referia, visto que o senhor Robles estava de viagem, respondeu: ‘Ao que vive debaixo da casa.’”

    A 11 de maio, três vizinhos reportaram ter ouvido cânticos ou rezas numa língua desconhecida vindos da casa Robles Estrada à meia-noite.

    Juana Yturbide, a vizinha cuja casa partilhava muro com a propriedade, declarou posteriormente: “Não era latim nem náuatle nem nenhuma língua que eu jamais tenha ouvido. Parecia como se várias vozes cantassem em uníssono, mas todas com o mesmo timbre, como se uma única pessoa estivesse a produzir um coro completo.”

    A 14 de maio, um pequeno incêndio deflagrou no pátio traseiro da casa. Os vizinhos acorreram para ajudar, mas encontraram as portas fechadas. O fogo extinguiu-se por si só após consumir o que, segundo as testemunhas, pareciam ser grandes quantidades de papéis ou documentos.

    No dia seguinte, um aguaceiro invulgarmente intenso para essa época do ano inundou parcialmente as ruas do centro de Querétaro.

    A água que se infiltrou nas caves de várias casas, incluindo a dos Robles Estrada, arrastou para a rua o que alguns descreveriam como pequenos objetos brancos semelhantes a fragmentos de osso. Estes foram recolhidos e enterrados no cemitério da igreja por ordem do pároco, sem maior investigação.

    Vicente Robles regressou a Querétaro a 17 de maio, um dia depois do previsto. Segundo o testemunho de Felipe Nieto, o cocheiro que o transportou de Xichú, o Senhor estava invulgarmente silencioso durante toda a viagem e levava consigo uma caixa de madeira escura com inscrições que não pareciam em espanhol.

    “Quando passamos junto ao cemitério, nos arredores da cidade, ordenou parar a carruagem e permaneceu vários minutos a observar os túmulos com expressão indecifrável. Ao reiniciar a marcha, murmurou algo que soou como: ‘Em breve estaremos completos.’”

    A última semana de maio trouxe uma aparente normalização à casa Robles Estrada. Vicente retomou as suas atividades comerciais habituais e Guadalupe foi vista a assistir à missa na igreja de Santo Domingo.

    Contudo, os testemunhos coincidem em que parecia mover-se mecanicamente e não interagia com ninguém.

    O Dr. Septién, que continuava preocupado com o seu bem-estar, tentou aproximar-se dela à saída da igreja no domingo, dia 29, mas, segundo escreveu no seu diário:

    “Mal me viu, Guadalupe virou-se bruscamente e caminhou em direção contrária com passo acelerado. Segui-a a uma distância prudencial, notando que não se dirigia à sua casa, mas sim para o cemitério.”

    “Lá, perdi-a de vista entre os túmulos, só para a encontrar minutos depois, ajoelhada em frente a uma sepultura sem lápide nem identificação.”

    “Ao aperceber-se da minha presença, levantou-se e olhou-me diretamente pela primeira vez em semanas. Os seus olhos, antes de um castanho quente, agora pareciam quase pretos, sem qualquer expressão.”

    “Então, falou com uma voz que não parecia a sua: ‘Doutor, conhece o cheiro da carne quando apodrece lentamente? É quase doce ao princípio.’”

    “Antes que eu pudesse responder, apareceu Vicente como que do nada, agarrando-a firmemente pelo braço e desculpando-se pelo estado confusional da sua esposa devido a febres intermitentes.”

    “Enquanto se afastavam, Guadalupe girou a cabeça completamente para trás, num ângulo impossível para a anatomia humana, e sorriu de uma maneira que ainda povoa os meus pesadelos.”

    Junho começou com um período de intenso calor em Querétaro, invulgar mesmo para essa época do ano. O registo meteorológico do convento da Santa Cruz anotou temperaturas excecionalmente altas durante a primeira quinzena.

    Coincidindo com esta onda de calor, aumentaram os relatos de odores nauseabundos nas ruas próximas à casa Robles Estrada.

    José María Soto, inspetor sanitário municipal, realizou uma visita oficial a 8 de junho e deixou registo: “Após receber múltiplas queixas sobre miasmas fétidos, inspecionei a zona adjacente à residência Robles Estrada.”

    “O odor, semelhante ao de matéria orgânica em decomposição, parecia emanar dos respiradouros da cave. O senhor Robles atribuiu o problema a um derrame acidental de conservas e azeites armazenados, explicação que aceitei provisoriamente.”

    “Contudo, notei que o criado Ramón Osorio, presente durante a inspeção, mostrava sinais evidentes de deterioração física: extrema palidez, tremores constantes e uma ferida a supurar no pescoço que tentava ocultar com um lenço.”

    “Quando mencionei que talvez precisasse de atenção médica, o senhor Robles respondeu que já estava a ser tratado por uma afecção hereditária.”

    Em meados de junho, María Refugio Hernández, a cozinheira contratada em janeiro, desapareceu sem deixar rasto.

    Vicente Robles reportou a sua ausência às autoridades a 17 de junho, sugerindo que teria regressado à sua terra natal sem aviso prévio, possivelmente levando consigo alguns objetos de prata.

    No registo policial figura esta denúncia, mas não há evidência de que tenha sido realizada uma investigação exaustiva.

    A única pessoa que expressou dúvidas sobre esta versão foi o padre Alegría da igreja de Santa Rosa, que nas suas notas pessoais escreveu:

    “A história do senhor Robles não concorda com o que María Refugio me confessou semanas atrás. Ela temia pela sua vida e jurou que jamais abandonaria a casa voluntariamente, porque o que habita na cave a encontraria onde quer que fosse.”

    “Comuniquei as minhas suspeitas ao oficial Rivera, mas ele lembrou-me que não pode agir baseando-se no que ouviu sob segredo de confissão.”

    Curiosamente, no dia antes do seu desaparecimento, María Refugio tinha visitado Josefa Vergara, a vizinha que tinha registado no seu diário os gritos ouvidos em janeiro.

    A senhora Vergara, numa declaração tomada anos depois, recordaria: “María chegou à minha porta encharcada em suor, apesar da hora matinal. Traia consigo um pequeno pacote embrulhado em tecido que me entregou, pedindo-me que o guardasse e só o abrisse se algo lhe acontecesse. Em caso contrário, devia devolvê-lo à sua irmã em San Juan del Río.”

    “Quando lhe perguntei o que estava a acontecer, só disse: ‘A senhora já não é a senhora e o que quer que agora habite o seu corpo tem fome.’ Foi-se antes que eu pudesse interrogá-la mais.”

    “No dia seguinte, quando soube do seu desaparecimento, decidi abrir o pacote. Continha um diário com capas de couro e um cacho de cabelo preto atado com uma fita vermelha.”

    “O diário estava escrito numa mistura de espanhol e o que parecia náuatle. As únicas palavras que consegui entender claramente foram: ‘O que dorme debaixo da casa acorda todas as noites.’”

    Este diário, juntamente com o cacho de cabelo, foram entregues ao Dr. Septién, que confirmou que a caligrafia coincidia com amostras de escrita de Guadalupe Estrada que tinha visto durante as suas visitas médicas.

    O médico tentou mais uma vez que as autoridades interviessem, mas novamente encontrou resistência devido à posição social de Vicente.

    A 27 de junho, o carpinteiro Felipe Urquiza recebeu uma encomenda urgente de Vicente Robles: a construção de três caixões de tamanho adulto.

    Segundo consta na ordem de trabalho: “Três caixões funerários em madeira de cedro, sem ornamentação exterior, com reforços interiores de metal nos bordos e tampa. Solicito entrega imediata e máxima discrição.”

    Urquiza, intrigado por este pedido invulgar, perguntou a Robles sobre o seu propósito. A resposta, segundo registou posteriormente no seu livro de encomendas, foi: “Requero-os para transportar relíquias familiares para a cripta de El Marqués. A forma é meramente prática, não têm uso funerário real.”

    Os caixões foram entregues na casa Robles Estrada na noite de 29 de junho. O aprendiz de Urquiza, Joaquín Mendoza, que ajudou a transportá-los, declarou anos depois:

    “Chegamos depois das 9 da noite, como o senhor Robles tinha solicitado especificamente. Recebeu-nos o criado Ramón, que parecia doente e mal conseguia manter-se de pé. Indicou-nos que deixássemos os caixões no corredor que conduzia à cave.”

    “Enquanto os colocávamos, ouvi claramente um som de arranhões vindo do piso inferior, como se alguém ou algo arranhasse as paredes por dentro.”

    “Quando mencionei o ruído, Ramón murmurou: ‘É só a madeira velha a contrair-se com o frio da noite.’ Mas estava um calor sufocante mesmo àquela hora.”

    Os últimos dias de junho trouxeram novos incidentes perturbadores. Na noite de 30, múltiplos vizinhos reportaram ter ouvido um grito feminino prolongado que pareceu durar vários minutos sem necessidade de tomar fôlego, vindo da casa.

    Quando o oficial Rivera acorreu para investigar, Vicente Robles explicou que a sua esposa tinha sofrido outro dos seus episódios nervosos após encontrar um morcego no seu quarto.

    O oficial solicitou ver Guadalupe, mas foi informado que o médico lhe tinha administrado um forte sedativo e não podia ser incomodada.

    Julho de 1836 começou com um sucesso que alteraria definitivamente o rumo dos acontecimentos. Na manhã de 2 de julho, o Dr. Alberto Septién foi encontrado morto no seu consultório.

    Segundo o relatório oficial, havia falecido por causas naturais, possivelmente um ataque cardíaco.

    Contudo, o assistente do doutor, Miguel Dorantes, insistiu que havia sinais de luta no consultório e que faltavam documentos específicos: todos os relacionados com a família Robles Estrada.

    As autoridades mais uma vez desconsideraram estas alegações, atribuindo-as ao estado de choque do jovem Dorantes.

    O que não ficou registado oficialmente, mas foi documentado pelo padre Alegría nas suas notas pessoais, é que na noite anterior à sua morte, o Dr. Septién tinha visitado a igreja de Santa Rosa para lhe entregar um pacote selado com a instrução de o abrir só se algo lhe acontecesse.

    O pacote continha todos os seus apontamentos sobre o caso Robles Estrada e uma carta pessoal em que expressava:

    “Estou convencido de que Vicente Robles cometeu atos indescritíveis na cave da sua casa. O que não consigo explicar e o que me atormenta dia e noite é a transformação em Guadalupe.”

    “Da última vez que a vi, não restava nada da mulher que conheci, os seus movimentos, a sua voz, até a forma como olha. Tudo sugere que o que agora habita esse corpo não é humano, ou pelo menos não é a mesma alma.”

    “Amanhã confrontarei Vicente com as minhas descobertas. Se está a ler esta carta, padre, é porque os meus temores eram fundados.”

    A primeira semana de julho coincidiu com celebrações religiosas em Querétaro, o que significou procissões noturnas que passavam perto da casa Robles Estrada.

    Francisca Torres, uma das participantes na procissão de 5 de julho, declarou posteriormente: “Quando passamos em frente à casa, todas as velas se apagaram simultaneamente, apesar de não haver vento.”

    “Nesse momento de escuridão, vários de nós vimos claramente três rostos a observar-nos da janela da cave. O detalhe perturbador é que a janela era demasiado pequena para que três pessoas pudessem espreitar juntas desse modo. Parecia como se apenas as caras sem corpos estivessem coladas ao vidro.”

    A 8 de julho, Vicente Robles anunciou que se mudaria com a sua esposa para a quinta da família em El Marqués para que Guadalupe beneficiasse do ar campestre.

    Segundo os registos comerciais, antes de partir realizou uma série de compras invulgares: grandes quantidades de sal, mais seis espelhos, 12 cadeados novos e, o mais estranho, 50 m de correntes de ferro grosso.

    O criado Ramón Osorio ficou encarregado da casa durante a ausência dos Robles Estrada. Os vizinhos notaram que mantinha todas as cortinas fechadas e só saía ao anoitecer para comprar provisões.

    A 12 de julho, o padeiro Sebastián Correa, que fazia entregas matinais na zona, reportou ter visto Ramón a cavar no pátio traseiro antes do amanhecer. Quando foi interrogado dias depois, Ramón explicou que estava simplesmente a plantar ervas medicinais por encomenda da senhora Guadalupe.

    A 18 de julho, o padre pároco da Igreja de El Pueblito, nos arredores de Querétaro, registou uma visita invulgar:

    “Hoje apresentou-se na paróquia um homem que se identificou como Vicente Robles. Solicitou uma bênção especial para a sua esposa, que, segundo explicou, sofria de uma afecção espiritual grave.”

    “Pediu-me que fosse à sua quinta nessa mesma noite, insistindo em que devia ser depois do pôr do sol, porque a luz do dia agravava os sintomas. Recusei educadamente, explicando que não realizo visitas noturnas, e sugeri que trouxesse a sua esposa à igreja ou que acordássemos uma visita matinal.”

    “A sua reação foi perturbadora: um sorriso completamente desprovido de emoção e a frase: ‘Então deveremos encontrar outra solução, padre. Ela tem muita fome.’”

    No final de julho, começaram a circular rumores sobre luzes e sons estranhos vindos da quinta Robles em El Marqués. José Cruz, um camponês que trabalhava em terrenos adjacentes, informou as autoridades:

    “Cada noite, há uma semana, ouvem-se cânticos em algum tipo de língua antiga. Não é espanhol, nem latim nem nenhum dialeto indígena que eu conheça. E as luzes não são de velas nem lamparinas. Têm uma cor esverdeada doentia que parece mover-se como se estivesse viva.”

    A noite de 31 de julho, uma forte tempestade assolou a região de Querétaro. Segundo os registos meteorológicos do convento, foi a mais intensa em 50 anos, com relâmpagos contínuos que iluminavam o céu como se fosse de dia.

    Nessa mesma noite, a quinta Robles em El Marqués incendiou-se. Para quando os vizinhos puderam chegar, o fogo tinha consumido grande parte da estrutura.

    Entre os escombros foram encontrados três corpos carbonizados, inicialmente identificados como Vicente Robles, Guadalupe Estrada e um criado não identificado. O relatório oficial concluiu que um raio tinha provocado o incêndio.

    Contudo, várias testemunhas afirmaram que o fogo tinha começado por dentro, especificamente pela cave da quinta.

    Martín Orozco, um dos primeiros a chegar, declarou: “As chamas eram de uma cor estranha, quase azulada em algumas partes, e juraria pela minha alma que, antes que o telhado colapsasse, vi uma figura feminina de pé no meio do fogo, completamente ilesa, olhando para o céu com os braços estendidos.”

    Os restos foram trasladados para Querétaro e enterrados no panteão familiar dos Robles a 3 de agosto. A cerimónia foi breve e contou com pouca assistência, principalmente empregados e alguns sócios comerciais de Vicente.

    O que ninguém sabia então era que a história dos Robles Estrada estava longe de terminar.

    A 6 de agosto, Ramón Osorio foi encontrado morto na cave da casa de Querétaro. O corpo apresentava um estado de desnutrição severa e múltiplas lacerações autoinfligidas nos braços e peito.

    Junto ao cadáver foi encontrado um diário com entradas que remontavam a janeiro, quando começou a trabalhar para a família. As últimas páginas estavam cheias de desenhos repetitivos, de círculos concêntricos e uma frase escrita uma e outra vez: “Vêm de regresso, os três vêm de regresso.”

    A casa ficou oficialmente desabitada e, como Vicente não tinha herdeiros diretos, passou para as mãos de um primo distante residente em Espanha.

    Durante os meses seguintes, ninguém viveu na propriedade, mas os vizinhos reportaram regularmente sons e luzes vindos do interior, especialmente da cave.

    Em dezembro de 1836, 5 meses depois do incêndio da quinta, ocorreu um incidente que reavivou todos os temores. Mariano Rivas, um comerciante de Guanajuato, estava hospedado numa pensão de Querétaro quando, segundo o seu testemunho, acordou à meia-noite ao sentir uma presença no seu quarto:

    “Era uma mulher de pé junto à minha cama. Ao princípio pensei que era uma criada ou talvez uma mulher de vida licenciosa que se tinha enganado de quarto.”

    “Mas quando a luz da lua iluminou o seu rosto, vi que tinha a pele acinzentada e os olhos completamente pretos, sem esclerótica nem pupila.”

    “Sorriu-me, mostrando dentes demasiado longos e afiados e disse: ‘O meu marido envia-te cumprimentos de El Marqués.’ Então notei que o seu vestido estava chamuscado e exalava cheiro a carne queimada. Gritei e ela simplesmente se dissolveu nas sombras.”

    O perturbador do testemunho de Rivas, que não tinha qualquer conexão com os Robles Estrada nem conhecia a sua história, é que descreveu Guadalupe com detalhes que coincidiam perfeitamente com a sua aparência, detalhes que não poderia ter conhecido.

    Em janeiro de 1837, exatamente um ano depois dos primeiros incidentes, três famílias distintas reportaram ter visto Vicente e Guadalupe a caminhar juntos pelas ruas de Querétaro em plena noite.

    Quando as autoridades assinalaram que era impossível, pois ambos tinham falecido no incêndio, um dos testemunhos, Francisco Luna, respondeu:

    “Sei perfeitamente o que vi. Era Vicente Robles, sem dúvida. Conhecíamo-nos desde crianças, mas havia algo de errado na sua forma de se mover, como se alguém estivesse a manipular o seu corpo por dentro.”

    “E ela, a mulher ao seu lado, tinha o rosto de Guadalupe Estrada, mas os seus olhos, os seus olhos eram como poços sem fundo.”

    No início de fevereiro, a casa foi finalmente vendida a um comerciante da Cidade do México, Antonio Sánchez, que planeava convertê-la numa pensão. Os trabalhos de renovação começaram a 15 de fevereiro.

    Três dias depois, os cinco pedreiros contratados para reformar a cave desapareceram sem deixar rasto.

    As suas ferramentas ficaram abandonadas junto a um muro parcialmente derrubado, atrás do qual, segundo o relatório policial, se encontrou uma câmara oculta contendo três caixões de cedro vazios com as tampas destruídas por dentro, como se algo tivesse saído deles com grande violência.

    A notícia deste macabro achado, juntamente com os desaparecimentos, levou Antonio Sánchez a abandonar os seus planos e regressar à Cidade do México, deixando a propriedade novamente desabitada.

    Durante os meses seguintes, os avistamentos de Vicente e Guadalupe multiplicaram-se, sempre de noite, sempre juntos e sempre com esse algo de errado na sua maneira de se mover e olhar.

    O mais inquietante é que, segundo vários testemunhos, pareciam estar à procura de algo ou de alguém.

    A 3 de julho de 1837, quase um ano depois do incêndio da quinta, Juan Dorantes, irmão do assistente do falecido Dr. Septién, foi encontrado morto em circunstâncias estranhas.

    O seu corpo apareceu num beco perto da casa Robles Estrada com marcas no pescoço que sugeriam estrangulamento.

    O relatório do médico que examinou o cadáver mencionava: “Além das marcas de estrangulamento, o corpo apresenta uma expressão de terror extremo. Mais perturbador ainda: os olhos foram extraídos cirurgicamente e no seu lugar foram inseridos pequenos espelhos.”

    Este assassinato causou comoção na pequena comunidade. Juan Dorantes tinha estado a investigar a morte do Dr. Septién, convencido de que tinha sido assassinado para encobrir o que tinha descoberto sobre os Robles Estrada.

    A sua morte, com essa macabra assinatura dos espelhos nas órbitas oculares, parecia confirmar as suas suspeitas.

    Em meados de julho, o padre Alegría, que tinha recebido as confidências tanto do doutor Septién como de María Refugio Hernández, adoeceu gravemente.

    Segundo os registos do hospital: “O paciente apresenta sintomas que não correspondem a nenhuma doença conhecida. Febre extremamente alta que não responde a tratamentos, pele que se desprende em grandes fragmentos e períodos de lucidez em que fala numa língua desconhecida.”

    No seu leito de morte, a 7 de agosto, o padre Alegría solicitou a presença de um notário e ditou um testemunho que seria selado e só poderia ser aberto 50 anos após o seu falecimento:

    “O que ocorreu na casa Robles Estrada não foi um crime comum. Vicente Robles encontrou algo durante as suas escavações nas minas de Xichú, algo que deveria ter permanecido enterrado.”

    “Os documentos que o doutor Septién me entregou incluíam cópias de cartas que Vicente enviou a ocultistas na Europa perguntando sobre rituais para transferir essências vitais de um recipiente para outro. Creio que tentou algum tipo de ritual profano que correu terrivelmente mal.”

    “O que quer que tenha invocado não se limitou a possuir a sua esposa. Tomou algo muito mais fundamental, a sua identidade, a sua essência, e agora procura completar o que quer que Vicente tenha iniciado.”

    O padre Alegría faleceu horas depois de ditar este testemunho. Durante o velório, vários assistentes reportaram ter visto brevemente um casal a observar do fundo da igreja, um homem alto com roupa formal e uma mulher de cabelo escuro com um vestido branco.

    Quando alguém tentou aproximar-se, simplesmente já não estavam lá.

    No final de agosto, a casa Robles Estrada foi adquirida pela Câmara Municipal de Querétaro com a intenção de a demolir e construir um pequeno mercado no seu lugar. Os trabalhos começaram a 2 de setembro.

    Ao derrubar completamente as paredes da cave, os trabalhadores descobriram algo que não figurou em nenhum relatório oficial: uma câmara selada mais profunda que a própria cave, com paredes cobertas de inscrições numa língua desconhecida e um poço central que parecia descer muito mais além do que a luz podia alcançar.

    Três trabalhadores desceram para explorar o poço. Só um regressou, em estado de choque e completamente mudo. Permaneceu assim até à sua morte 15 anos depois, mas no seu leito de morte finalmente falou:

    “Eles continuam lá em baixo, os três, à espera, e algum dia, quando os espelhos se alinharem corretamente, voltarão.”

    A casa foi finalmente demolida por completo em outubro de 1837. O poço foi selado com betão e pedra e sobre o terreno foi construído efetivamente um pequeno mercado que funcionou durante décadas.

    Curiosamente, a cada 31 de julho, aniversário do incêndio na quinta de El Marqués, os comerciantes do mercado reportavam sistematicamente cheiros estranhos a emanar do chão, especialmente na zona central, mesmo sobre onde teria estado o poço.

    Em 1962, durante obras de renovação nessa área, agora convertida numa praça pública, os trabalhadores romperam acidentalmente o selo de betão.

    Segundo consta no relatório municipal, ao perfurar a laje foi libertada uma bolsa de gás que causou tonturas e alucinações nos trabalhadores.

    Três deles reportaram ter visto simultaneamente um casal vestido com roupas do século passado a emergir do buraco.

    O mais afetado, Ernesto Álvarez, insistiu que a mulher lhe tinha sussurrado ao ouvido: “Por fim, livres. Agora, precisamos de novos corpos.”

    O achado do compartimento secreto no convento da Santa Cruz nesse mesmo ano, contendo todos os documentos relacionados com o caso Robles Estrada, pareceu ser demasiada coincidência para alguns.

    O historiador que catalogou os papéis, Dr. Manuel Septién, descendente distante do médico que assistiu Guadalupe, escreveu nas suas notas privadas:

    “A história dos Robles Estrada representa um dos casos mais inquietantes que estudei. Os documentos sugerem que algo verdadeiramente inexplicável ocorreu naquela casa.”

    “Mais perturbador ainda: desde que comecei a estudar estes papéis, tenho tido sonhos recorrentes em que uma mulher com olhos completamente pretos me observa do pé da cama, sussurrando numa língua que não compreendo, mas que de algum modo entendo perfeitamente.”

    O Dr. Septién abandonou abruptamente a sua investigação em dezembro de 1962, mudou-se para Espanha e nunca regressou ao México. Os documentos foram arquivados novamente, desta vez na biblioteca municipal, onde permaneceram praticamente esquecidos.

    O que muito poucos sabem é que ocasionalmente visitantes da atual Plaza de Armas de Querétaro, especialmente durante as noites de lua cheia de julho, reportam ver um casal a caminhar lentamente à volta da fonte central, um homem alto com roupa formal antiquada e uma mulher de cabelo escuro com um vestido branco.

    Alguns até asseguram que, se os observares o tempo suficiente, os seus rostos ocasionalmente se desvanecem, revelando brevemente algo inumano por baixo.

    E mais inquietante ainda, nos registos policiais de Querétaro dos últimos 100 anos existe um padrão que ninguém investigou oficialmente.

    A cada 31 de julho, aniversário do incêndio, pelo menos uma pessoa desaparece sem deixar rasto na zona central da cidade.

    A última entrada dos seus diários ou a última mensagem aos seus entes queridos costuma mencionar um elegante casal da época que os convidou a conhecer um lugar histórico da cidade.

    O que quer que Vicente Robles despertou naquelas minas, o que quer que tentou controlar mediante rituais na sua cave, o que quer que agora habita nos corpos que alguma vez pertenceram a Vicente e Guadalupe, continua lá à espera, faminto, paciente.

    E se alguma noite, enquanto caminhas pelo centro histórico de Querétaro, um elegante casal vestido de forma ligeiramente antiquada te sorrir e convidar a conhecer um lugar com muita história, lembra-te desta narração e corre em direção contrária.

  • ELA FERVENTAVA ESCRAVOS EM CALDEIRÕES DE AÇÚCAR – O Banho de Sangue da CasaGrande de Pernambuco 1846

    ELA FERVENTAVA ESCRAVOS EM CALDEIRÕES DE AÇÚCAR – O Banho de Sangue da CasaGrande de Pernambuco 1846

    O vapor subia denso dos três enormes caldeirões de cobre dispostos em fileira no engenho da fazenda Santa Rita em Pernambuco. Era uma manhã de março de 1846 e o cheiro adocicado do caldo de cana fervendo se misturava com outro odor que nenhum ser humano deveria reconhecer. O cheiro de carne humana sendo cozida viva.

    Dentro do caldeirão do meio, um homem de aproximadamente 30 anos se debatia em agonia. Seus gritos abafados pelo borbulhar violento do líquido espesso, que o engolia lentamente. Seus braços tentavam desesperadamente se agarrar às bordas de cobre escaldante, mas a cada movimento afundava mais no melado fervente que grudava em sua pele como cola incandescente.

    Em pé, observando a cena com uma expressão de satisfação fria, estava dona Mariana Cavalcante de Albuquerque, senhora de 38 anos. proprietária de 240 escravos e herdeira de uma das maiores fortunas açucareiras de Pernambuco. Seus olhos claros acompanhavam cada movimento do moribundo, com a mesma atenção que dedicaria a observar o ponto correto do açúcar cristalizado.

    “Está vendo, João?”, disse ela ao feitor que estava ao seu lado, tremendo visivelmente. “É assim que se trata, em subordinação. Deixa ele cozinhar mais 5 minutos. Quero que todos os outros vejam o que acontece com quem ousa me desafiar. O escravo no caldeirão havia parado de gritar. Seu corpo, agora parcialmente submerso no caldo fervente, ainda se contraía em espasmos involuntários, enquanto a vida escapava dele.

    Ao redor dos caldeirões, forçados a assistir sob ameaça de chicote, outros 20 escravos presenciavam horror em silêncio absoluto. Alguns choravam baixinho, outros mantinham os olhos fixos no chão, mas todos entendiam perfeitamente a mensagem. Na fazenda Santa Rita, dona Mariana havia transformado os instrumentos de produção de açúcar em instrumentos de tortura e morte.

    Esta não seria a única vítima dos caldeirões de dona Mariana. Entre março e agosto de 1846, pelo menos sete escravos morreriam fervidos vivos nos caldeirões do engenho da fazenda Santa Rita, num dos casos mais brutais de violência senhorial já documentados na história da escravidão brasileira.

    Mas como uma mulher da elite pernambucana, educada em conventos e casada com um dos homens mais respeitados da província, transformou-se numa assassina tão cruel que até mesmo outros senhores de escravos ficaram horrorizados. Para entender esta descida ao inferno, precisamos voltar alguns anos e conhecer a mulher por trás dos crimes. Mariana Cavalcante nasceu em 1808, filha primogênita do coronel Joaquim Cavalcante de Albuquerque, dono de três engenhos e mais de 400 escravos na zona da mata pernambucana.

    Diferente de muitas mulheres de sua época, Mariana foi criada para administrar propriedades. Seu pai, que não teve filhos homens que sobrevivessem à infância, decidiu educar a filha nos negócios da família. Desde os 12 anos, Mariana acompanhava o pai nas inspeções aos engenhos, aprendendo cada detalhe da produção açucareira e, principalmente, dos métodos de controle sobre a mão de obra escrava. O coronel Joaquim era conhecido por sua brutalidade.

    Nos engenhos Cavalcante, a disciplina era mantida através de castigos públicos, marcações a ferro quente e um sistema de vigilância que mantinha os escravos em constante estado de terror. Mariana absorveu essas práticas desde criança, mas com uma diferença crucial. Enquanto seu pai via a violência como ferramenta necessária para manter a produção, ela parecia encontrar nela uma satisfação pessoal e perturbadora.

    Escravos que trabalharam nos engenhos do coronel durante a juventude de Mariana relatariam anos depois que a menina frequentemente pedia para assistir aos castigos e que aos 14 anos já sugeria punições mais severas para infrações menores. Em 1828, aos 20 anos, Mariana casou-se com Dr. Antônio Rodrigues da Silva, médico formado em Coimbra e filho de uma família tradicional de Olinda.

    O casamento consolidou a posição social de ambas as famílias e trouxe para Mariana um dote impressionante. A fazenda Santa Rita, com 1200 ha de terra, uma casa grande de dois andares, capela própria e 240 escravos. Dr. Antônio, homem gentil e dedicado à medicina, passava a maior parte do tempo em Recife atendendo pacientes. Isso deixava Mariana como administradora de fato da fazenda.

    posição que ela abraçou com um zelo obsessivo e cada vez mais sinistro. Será que o marido médico sabia o que estava acontecendo em sua própria fazenda? Como uma mulher da alta sociedade pernambucana conseguiu esconder seus crimes por tanto tempo? Se essa história está te deixando perturbado, deixe seu like para que mais pessoas conheçam essa verdade histórica que tentaram apagar dos livros.

    E se você quer entender como chegamos a este ponto de horror, continue assistindo, porque o pior ainda está por vir. Os primeiros anos de Mariana, como senhora da fazenda Santa Rita, foram marcados por uma administração eficiente, mas progressivamente mais cruel. Ela implementou um sistema de cotas de produção individuais para cada escravo, com punições severas para quem não atingisse as metas.

    Diferente de outros engenhos da região, onde as punições seguiam um padrão relativamente previsível de chicotadas e tronco, na fazenda Santa Rita as penalidades eram criativas e aterrorizantes. Mariana desenvolveu um catálogo pessoal de torturas que incluía pendurar escravos pelos polegares durante horas, aplicar pimenta em feridas abertas, forçar trabalho sob sol escaldante sem água e sua especialidade mais temida, as sessões de reflexão, trancados em um porão sem ventilação, onde a temperatura chegava a níveis insuportáveis.

    A transformação de Mariana de uma senhora cruel em uma assassina serial começou após um incidente em janeiro de 1846. Benedito, um escravo de 35 anos que trabalhava como mestre açucareiro, cometeu o que Mariana considerou uma ofensa imperdoável. Ele ousou corrigi-la publicamente sobre o ponto do açúcar.

    Durante uma inspeção ao engenho, Mariana ordenou que o fogo sob um dos caldeirões fosse aumentado. Benedito, com 20 anos de experiência na produção açucareira, respeitosamente sugeriu que aquela temperatura queimaria o açúcar e arruinaria o lote inteiro. Ele estava tecnicamente correto, mas para Mariana aquilo foi uma afronta intolerável à sua autoridade.

    “Quem é o senhor aqui, Benedito?”, perguntou ela com uma voz perigosamente calma. Eu sim, respondeu o escravo, abaixando imediatamente os olhos. E quem decide como fazer o açúcar nesta fazenda? Assim a decide tudo murmurou Benedito, percebendo tarde demais seu erro. Mariana ordenou que Benedito fosse chicoteado ali mesmo na frente de todos os trabalhadores do engenho.

    Mas durante a punição, algo mudou em sua expressão. Enquanto observava o feitor João aplicar as chibatadas, seus olhos se fixaram nos caldeirões, fervendo atrás do escravo castigado. Uma ideia começou a tomar forma em sua mente. Uma ideia tão terrível que até mesmo ela hesitou por um momento antes de verbalizá-la. Pare”, ordenou ela após 10 chicotadas.

    O feitor João parou confuso. Era incomum interromper uma punição no meio. Mariana se aproximou de Benedito, que estava sangrando e ofegante, amarrado ao poste. “Você acha que sabe mais de açúcar do que eu, Benedito?”, perguntou ela, sua voz estranhamente suave. Então, vamos fazer um teste. Vamos ver se você consegue identificar o ponto correto do açúcar por dentro dele.

    O que aconteceu a seguir horrorizou até mesmo o feitor João, um homem acostumado a presenciar brutalidades diárias. Mariana ordenou que Benedito fosse desamarrado e levado até o caldeirão do meio, onde o caldo de cana fervia a aproximadamente 110ºC. Coloca a mão dele dentro”, ordenou friamente.

    “Sim, ele vai se queimar grave”, ousou protestar João. “Eu não pedi sua opinião, pedi que cumprisse minha ordem”, retrucou Mariana. João, temendo por sua própria posição, forçou a mão direita de Benedito para dentro do caldo fervente. O escravo gritou em agonia enquanto a pele de sua mão começava a se descolar da carne.

    Mariana manteve a mão dele submersa por 5 segundos antes de ordenar que soltassem. Benedito caiu de joelhos, chorando e segurando a mão destruída. Da próxima vez que você pensar em me contrariar”, disse Mariana, “bre-se de como o açúcar quente se sente na pele. Agora volte ao trabalho.” Mas Benedito não conseguiu voltar ao trabalho.

    A mão ferida infeccionou rapidamente e em três dias ele estava com febre alta e delirando. Mariana, longe de demonstrar qualquer remorço, via a situação como um inconveniente. Um escravo doente não produzia e ela havia pago R$ 800.000 Ris por aquele investimento. Quando ficou claro que Benedito não se recuperaria para trabalhar adequadamente, ela tomou uma decisão que revelaria a verdadeira profundidade de sua maldade.

    “Se ele não serve mais para trabalhar, que pelo menos sirva de exemplo”, declarou ela ao feitor João na manhã de 15 de março de 1846. A decisão estava tomada. Benedito seria a primeira vítima dos caldeirões. Mariana ordenou que todos os escravos do engenho, cerca de 80 pessoas, fossem reunidos ao redor das fornalhas. Benedito foi arrastado, febril e mal conseguindo ficar em pé até a beira do caldeirão central.

    Estava tão fraco que nem tentou resistir quando dois feitores o seguraram pelos braços. Prestem atenção”, anunciou Mariana em voz alta, posicionando-se em um pequeno tablado de onde podia ser vista por todos. “Vocês estão prestes a ver o que acontece com quem me desafia.” Benedito achou que sabia mais que eu sobre fazer açúcar.

    Agora ele vai aprender o preço da arrogância. O que se seguiu foi tão brutal que vários escravos desmaiaram e tiveram que ser reanimados à força para continuar assistindo. Benedito foi literalmente jogado dentro do caldeirão de caldo fervente. Seus gritos foram ensurdecedores, ecoando por toda a fazenda e chegando até a casa grande, onde algumas escravas domésticas começaram a rezar em voz baixa.

    O corpo de Benedito se debateu violentamente nos primeiros segundos. suas mãos tentando se agarrar às bordas de cobre super aquecidas, apenas para escorregar de volta para o líquido mortal. A densidade do caldo de cana impedia que ele afundasse completamente, mantendo-o em uma agonia prolongada na superfície do líquido fervente. Você consegue imaginar o horror presenciado por aquelas pessoas forçadas a assistir? Como uma sociedade permitiu que isso acontecesse? Se você está tão impactado quanto eu ao pesquisar essa história, inscreva-se no canal e ative o

    sininho, porque precisamos trazer à luz essas verdades que tentaram apagar da nossa história. E, infelizmente, Benedito foi apenas a primeira vítima. Continue assistindo para descobrir como dona Mariana transformou os caldeirões de açúcar em seu método preferido de assassinato. Benedito levou aproximadamente 5 minutos para morrer.

    5 minutos de agonia inimaginável enquanto o caldo de cana a 110ºC cozinhava sua carne. Quando seus movimentos finalmente cessaram, Mariana ordenou que o corpo fosse deixado no caldeirão até o final do dia para que todos vejam e lembrem. O cadáver de Benedito permaneceu boiando no melado por 8 horas, enquanto os outros escravos eram forçados a continuar trabalhando normalmente ao redor dos caldeirões.

    Aquela visão horrível foi deliberadamente mantida por Mariana como um lembrete permanente de seu poder absoluto sobre a vida e a morte de seus cativos. A morte de Benedito deveria ter sido investigada pelas autoridades. Em teoria, senhores de escravos tinham responsabilidades legais sobre a preservação da vida de suas propriedades.

    E assassinatos flagrantes poderiam resultar em processos, pelo menos nos casos mais extremos. Mas a fazenda Santa Rita estava localizada em uma área rural isolada a mais de 30 km de Recife. E Mariana havia cultivado cuidadosamente relacionamentos com autoridades locais através de doações generosas à igreja e favores políticos a juízes e delegados da região.

    Ninguém viria investigar o que acontecia dentro de sua propriedade e ela sabia disso perfeitamente. O que Mariana não esperava era o efeito psicológico que o primeiro assassinato teria sobre ela mesma. Nos dias seguintes a morte de Benedito, ela se mostrou estranhamente eufórica. Escravas domésticas relatariam depois que a cantarolava enquanto caminhava pela casa algo que nunca faziam antes.

    Ela visitava o engenho três ou quatro vezes por dia, sempre parando para observar os caldeirões com uma expressão que os trabalhadores descreveram como faminta. Mariana havia descoberto algo perturbador sobre si mesma. Ela gostava de matar, mais especificamente, ela gostava do poder absoluto de decidir quem viveria e quem morreria de forma aterrorizante. A segunda vítima foi escolhida apenas duas semanas depois.

    Francisca, uma escrava de 28 anos que trabalhava na Casa Grande como mucama pessoal de Mariana, cometeu o erro de derrubar uma jarra de porcelana importada enquanto arrumava o quarto da senhora. A jarra se estilhaçou em dezenas de pedaços no chão de madeira. Era um objeto caro, mas facilmente substituível para alguém da fortuna de Mariana.

    No entanto, a reação da senhora foi desproporcional a ponto de revelar que o objeto quebrado era apenas uma desculpa para satisfazer um desejo sombrio que vinha crescendo dentro dela desde a morte de Benedito. “Você sabe quanto custou essa jarra, Francisca?”, perguntou Mariana com uma calma aterradora.

    “Perdão, senh foi sem querer”, choramingou a escrava, já de joelhos, tentando juntar os cacos. Custou R$ 50.000. “Você acha que vale R$ 50.000 ré?” Francisca não sabia o que responder. Qualquer coisa que dissesse seria usada contra ela. “Eu também não acho que você vale tanto”, continuou Mariana.

    Mas vamos descobrir quanto você realmente vale. Talvez derretida você vale alguma coisa. O terror no rosto de Francisca foi instantâneo. Ela havia ouvido o que acontecera com Benedito. Todos na fazenda haviam ouvido. Sim. Ah, por favor, eu trabalho direito. Nunca dei problema, implorou. Mas Mariana já havia tomado sua decisão.

    Naquela mesma tarde, Francisca foi levada ao engenho. Diferente de Benedito, que estava debilitado pela infecção, Francisca estava em plena saúde e força. Ela lutou desesperadamente quando percebeu o que estava prestes a acontecer. Foram necessários quatro homens para dominá-la e arrastá-la até o caldeirão. Mariana, no entanto, havia refinado seu método.

    Ao invés de jogar Francisca completamente dentro do caldo fervente, ela ordenou que a escrava fosse lentamente baixada dentro do caldeirão, começando pelos pés. A ideia era prolongar a agonia e tornar o espetáculo mais impactante para os observadores forçados. Os gritos de Francisca, quando seus pés tocaram o caldo fervente, foram tão altos que espantaram pássaros em um raio de quilômetros.

    Centímetro por centímetro, seu corpo foi submerso no líquido mortal enquanto Mariana observava, com uma expressão que testemunhas descreveram como êxtase. O processo durou quase 15 minutos. 15 minutos durante os quais Francisca experimentou uma dor que desafia qualquer descrição. Quando seu corpo finalmente foi completamente submerso e seus gritos cessaram, Mariana parecia quase decepcionada que o espetáculo tivesse terminado.

    Ela ordenou que o corpo permanecesse no caldeirão durante toda a noite e que tochas fossem acesas ao redor para que todos pudessem ver o que acontecera mesmo na escuridão. Era uma mensagem clara. Ninguém estava seguro e nenhuma infração era pequena demais para merecer a morte mais horrível imaginável. Nas semanas seguintes, Mariana desenvolveu um padrão perturbador.

    A cada 10 ou 15 dias, ela encontrava alguma justificativa para condenar outro escravo aos caldeirões. Em abril de 1846, foi a vez de Miguel, um jovem de 19 anos acusado de roubar farinha da dispensa. Ele foi fervido vivo no caldeirão da esquerda, enquanto seus pais eram forçados a assistir da primeira fileira de espectadores.

    Em maio, Joaquina, uma escrava de 45 anos, morreu da mesma forma após ter sido pega, ensinando outras escravas a ler, usando uma velha bíblia. Mariana via a alfabetização de escravos como uma ameaça perigosa à ordem estabelecida. Em junho, foram duas vítimas em um único dia. André e Paulo, dois irmãos de 23 e 25 anos, foram acusados de planejar fuga.

    Não havia qualquer evidência real dessa acusação, mas isso não importava. Mariana ordenou que ambos fossem fervidos simultaneamente em caldeirões diferentes, forçando os outros escravos a escolher qual dos irmãos assistir morrer. Era uma crueldade psicológica adicional, cuidadosamente calculada para quebrar qualquer resquício de solidariedade ou resistência entre os cativos.

     

    Os gritos dos dois irmãos se misturavam em uma sinfonia de horror que ecoou pela fazenda durante os longos minutos de suas agonias. Sete vidas humanas exterminadas da forma mais brutal possível. Sete pessoas que tinham sonhos, famílias, esperanças, reduzidas a exemplos de terror para satisfazer a sede de poder de uma única mulher.

    Se essa história te revolta tanto quanto deveria revoltar, compartilhe este vídeo para que mais pessoas conheçam a verdade sobre o que realmente aconteceu nos engenhos de açúcar do Brasil. E se você está se perguntando como ela foi finalmente parada, continue assistindo, porque a justiça, mesmo tardia, estava prestes a alcançá-la. O reinado de terror de Mariana Cavalcante na fazenda Santa Rita poderia ter continuado indefinidamente se não fosse por uma combinação de fatores que finalmente trouxeram seus crimes à luz pública. O primeiro desses fatores foi a chegada de um novo vigário à paróquia

    local em julho de 1846. Padre Antônio Ferreira, um jovem sacerdote de apenas 28 anos, recém-ordenado em Olinda, assumiu a capela de Santo Antônio, que servia a região onde ficava a fazenda Santa Rita. Diferente de seu predecessor, um padre idoso que mantinha relações cordiais com os grandes fazendeiros e evitava fazer perguntas inconvenientes, Padre Antônio levava muito a sério seu dever pastoral de cuidar de todas as almas de sua paróquia, incluindo as almas escravizadas. Em sua primeira semana na paróquia, Padre Antônio começou a ouvir

    rumores perturbadores sobre a fazenda Santa Rita. Escravos de fazendas vizinhas que às vezes se encontravam nos domingos quando eram levados à missa, sussurravam histórias aterrorizantes sobre pessoas sendo fervidas vivas em caldeirões de açúcar. Inicialmente, o padre achou que fossem exageros ou lendas distorcidas.

    Afinal, mesmo considerando a brutalidade conhecida do sistema escravista, aquilo parecia extremo demais até para os padrões da época, mas as histórias persistiam e sempre com detalhes consistentes demais para serem mera fantasia. O padre decidiu investigar pessoalmente. Em uma manhã de agosto, ele apareceu sem aviso prévio na fazenda Santa Rita, usando como pretexto uma visita pastoral de rotina.

    Mariana o recebeu com toda a cordialidade que uma senhora da alta sociedade dispensaria a um representante da igreja. Ofereceu-lhe café, doces e uma conversa amável sobre assuntos religiosos. Mas quando o padre pediu para visitar a capela da fazenda e de lá dar uma bênção aos trabalhadores do engenho, a expressão de Mariana mudou visivelmente.

    “Padre, os escravos estão muito ocupados agora com a moagem”, tentou dissuadi-lo. “Talvez em outro momento, minha filha”, respondeu o padre com firmeza respeitosa. “A bênção de Deus não pode esperar pela conveniência dos negócios. Vamos até lá agora.” Relutantemente, Mariana acompanhou o vigário até o engenho. O que padre Antônio viu lá o marcaria pelo resto de sua vida.

    Os escravos que trabalhavam ao redor dos caldeirões pareciam mais espectros do que seres humanos. Seus rostos exibiam uma expressão de terror tão profundo que transcendia o medo normal de punições. Alguns tremiam visivelmente ao se aproximar dos caldeirões, mesmo quando estavam apenas fazendo seu trabalho rotineiro. Mas o que realmente chamou a atenção do padre foram as manchas.

    As bordas dos três caldeirões principais apresentavam manchas escuras que claramente não eram resíduos normais de produção de açúcar. Ele conhecia o processo de fabricação açucareira e aquelas manchas tinham uma aparência e distribuição diferentes. Quando o padre Antônio perguntou sobre elas, o feitor João gaguejou uma explicação confusa sobre acidentes durante a limpeza. A tensão no ar era palpável.

    Mariana interveio rapidamente, conduzindo o padre para longe dos caldeirões, sob o pretexto de mostrar-lhe outras instalações da fazenda. Mas padre Antônio não era tolo. Ele notou como os escravos evitavam olhar diretamente para Mariana, como se desviassem de suas proximidades sempre que possível, e, principalmente, como uma das escravas mais velhas, fez discretamente o sinal da cruz quando Mariana se aproximou dos caldeirões.

    Aquilo não era o medo normal que escravos demonstravam diante de senhores severos. Era algo mais profundo, mais visal. Era o medo de alguém que havia presenciado o inimaginável. Após deixar a fazenda, o padre foi diretamente ao juiz municipal de Recife, Dr. José Maria Vanderlei, e relatou suas suspeitas. Infelizmente, Dr.

    Vanderley era amigo pessoal do marido de Mariana, Dr. Antônio Rodriguez. Ele ouviu as preocupações do padre com paciência simulada, mas deixou claro que não abriria uma investigação formal baseada apenas em impressões e rumores. Padre, disse o juiz condescendentemente. Dona Mariana é uma das senhoras mais respeitadas de Pernambuco.

    Sua família contribui generosamente para a igreja e para o desenvolvimento da província. Não posso manchar sua reputação baseando-me em fofocas de escravos que, como o senhor sabe, frequentemente inventam histórias para causar problemas a seus senhores. Frustrado, mas não derrotado, Padre Antônio adotou outra estratégia.

    Ele começou a fazer visitas regulares às fazendas da região, sempre incluindo a fazenda Santa Rita em seu circuito. Sua persistência eventualmente criou oportunidades para conversas privadas com alguns escravos, particularmente durante confissões. Foi em uma dessas confissões, no final de agosto de 1846, que uma escrava chamada Rosa finalmente contou toda a verdade.

    Entre lágrimas, ela descreveu em detalhes horríveis as sete execuções que havia presenciado nos caldeirões. Revelou os nomes das vítimas, as datas aproximadas e as circunstâncias de cada morte. Rosa estava arriscando sua própria vida ao falar, mas não conseguia mais carregar o peso daquele segredo. Padre, soluçou ela, nós estamos no inferno. Assim, é o próprio demônio. Se o Senhor não fizer alguma coisa, todos nós vamos morrer queimados naqueles caldeirões.

    Armado agora com testemunho detalhado, Padre Antônio foi além das autoridades locais. Ele viajou até Recife e conseguiu uma audiência com o presidente da província de Pernambuco, Xichorro da Gama, um político reformista que havia chegado ao cargo recentemente com ideias relativamente progressistas sobre a necessidade de regulamentar melhor o tratamento de escravos.

    O presidente, alarmado pelo relato do padre e consciente de que escândalos de crueldade extrema estavam começando a alimentar o crescente movimento abolicionista, ordenou uma investigação oficial. Em 2 de setembro de 1846, uma comitiva oficial chegou sem aviso à fazenda Santa Rita. incluía o próprio presidente da província, dois juízes, um delegado, um médico legista e padre Antônio.

    Mariana tentou manter sua compostura, mas a presença de tantas autoridades de alto escalão deixou claro que não se tratava de uma visita de cortesia. A comitiva foi diretamente ao engenho, onde o médico legista examinou os caldeirões. Suas conclusões foram devastadoras. As manchas nas bordas dos caldeirões eram consistentes com gordura humana carbonizada e havia resíduos orgânicos no fundo dos recipientes que definitivamente não provinham da produção de açúcar.

    Mas a evidência mais condenatória veio dos próprios escravos. Quando o presidente da província garantiu publicamente que ninguém seria punido por dizer a verdade, uma após outra, quase 50 pessoas prestaram depoimentos consistentes sobre os sete assassinatos. Descreveram as vítimas, os métodos, as datas e, principalmente, confirmaram que dona Mariana havia pessoalmente ordenado e supervisionado cada execução.

    O peso acumulado de tantos testemunhos era irrefutável. Mariana Cavalcante foi formalmente presa em 3 de setembro de 1846, tornando-se uma das raras mulheres da elite brasileira a enfrentar acusações criminais sérias durante o período imperial. O que vocês acham que aconteceu com dona Mariana? Será que a justiça da época conseguiu puni-la adequadamente por crimes tão ediondos? Se você quer saber o desfecho completo desta história, ative o sininho para não perder nossos próximos vídeos. sobre casos reais da escravidão brasileira.

    E continue assistindo, porque o julgamento reservaria surpresas que revelariam ainda mais sobre como funcionava a justiça no Brasil escravocrata. O julgamento de Mariana Cavalcante de Albuquerque começou em janeiro de 1847 no Tribunal da Relação de Pernambuco, o mais alto tribunal da província. Foi um dos processos mais comentados e controversos do Brasil imperial.

    De um lado, havia a evidência esmagadora de pelo menos sete assassinatos brutais, testemunha por dezenas de pessoas e confirmados por exame pericial dos caldeirões. Do outro lado, havia uma mulher da mais alta elite pernambucana, com conexões políticas poderosas e recursos financeiros praticamente ilimitados para sua defesa.

    A estratégia de defesa de Mariana foi surpreendentemente cínica e reveladora das dinâmicas de poder da época. Seus advogados, os melhores que o dinheiro poderia comprar, não negaram que os escravos haviam morrido nos caldeirões. Ao invés disso, argumentaram que, como propriedade legal de Mariana, os escravos estavam sujeitos à sua autoridade absoluta dentro dos limites de sua fazenda.

    citaram precedentes legais onde senhores haviam sido absolvidos de acusações de crueldade extrema, baseando-se no princípio de que a lei não deveria interferir na administração privada de propriedades. O promotor público, Dr. Manuel de Carvalho, combateu essa argumentação com vigor raro para a época. Ele argumentou que mesmo dentro do sistema escravista havia limites civilizatórios que não poderiam ser ultrapassados sem transformar senhores em monstros e o próprio sistema em uma barbárie insustentável.

    Se permitirmos que proprietários literalmente ferventem seres humanos vivos, argumentou o promotor em seu discurso final, estaremos declarando ao mundo civilizado que o Brasil é uma nação de selvagens sem lei ou moral. O julgamento durou três meses e atraiu atenção nacional e até internacional. Jornais do Rio de Janeiro, Bahia e até de Portugal cobriram o caso extensivamente.

    Abolicionistas usaram o julgamento como exemplo da brutalidade inerente ao sistema escravista. Enquanto defensores da escravidão argumentavam que Mariana era uma exceção aberrante e não representativa dos senhores em geral. A tensão era tão alta que o tribunal precisou de proteção policial reforçada durante as audiências.

    Em abril de 1847, o veredito foi anunciado. Mariana Cavalcante foi considerada culpada de homicídio qualificado em sete casos. A sentença foi prisão perpétua com trabalhos forçados, uma punição extraordinariamente severa para uma mulher de sua classe social. No entanto, a história não terminou aí.

    Através de recursos legais financiados por sua família, a sentença foi reduzida em 1849 para 20 anos de prisão. Em 1852, após apenas 5 anos de encarceramento, Mariana foi libertada mediante pagamento de uma multa substancial e baseando-se em laudos médicos que a declaravam incapacitada mentalmente para representar perigo à sociedade. Mariana viveu seus últimos anos em um convento em Olinda, tecnicamente em reclusão religiosa, mas na prática desfrutando de acomodações confortáveis financiadas pela fortuna familiar.

    Ela morreu em 1859, aos 51 anos, de causas naturais. Nunca expressou publicamente qualquer remorço pelos seus crimes. A fazenda Santa Rita foi vendida pela família e os caldeirões que serviram como instrumentos de morte foram destruídos e fundidos. O novo proprietário construiu uma capela no local exato onde ficavam os caldeirões dedicada a São Miguel Arcanjo, em uma tentativa de purificar o espaço do mal que ali ocorrera.

     

    Os escravos sobreviventes da fazenda Santa Rita foram dispersos, vendidos para outras propriedades da região. Muitos carregaram o trauma do que presenciaram pelo resto de suas vidas. Rosa, a escrava que primeiro revelou a verdade a padre Antônio, conseguiu comprar sua liberdade anos depois e viveu até a idade avançada, dedicando-se a ajudar outros escravos fugidos através de redes clandestinas.

    Ela sempre acreditou sua coragem ao padre, que acreditou em sua palavra quando isso poderia ter custado tudo. Padre Antônio Ferreira continuou seu trabalho pastoral em Pernambuco por mais 40 anos. tornando-se conhecido como um defensor vocal de tratamento mais humano aos escravos. Ele usou o caso Mariana Cavalcante em seus sermões como exemplo de como a escravidão corrompia não apenas os escravizados, mas também os escravizadores, transformando pessoas em monstros.

    Suas posições progressivas eventualmente lhe causaram problemas com autoridades eclesiásticas mais conservadoras, mas ele nunca recuou de suas convicções. O caso de Mariana Cavalcante teve impacto duradouro na discussão sobre escravidão no Brasil. Ele forneceu munição poderosa para abolicionistas que podiam apontar para um caso concreto, documentado e julgado de brutalidade extrema.

    Defensores da escravidão, por sua vez, foram forçados a admitir que o sistema permitia abusos horrendos e que alguma forma de regulamentação era necessária, mesmo que apenas para preservar a respeitabilidade da instituição. Documentos históricos sobre o caso estão preservados no arquivo público de Pernambuco, incluindo os autos do processo judicial, depoimentos de testemunhas e perícias técnicas dos caldeirões.

    Historiadores modernos que estudaram esses documentos confirmam a autenticidade e a natureza sistemática dos crimes de Mariana. O caso é frequentemente citado em estudos acadêmicos sobre a escravidão brasileira como exemplo extremo, mas não único, da violência senhorial que era possível dentro do sistema escravocrata.

    A história de Mariana Cavalcante e seus caldeirões de morte nos força a confrontar verdades desconfortáveis sobre nosso passado. Ela revela como o poder absoluto de um ser humano sobre outro pode transformar até mesmo pessoas educadas. e socialmente respeitadas em assassinos sádicos. mostra como sistemas de opressão institucionalizada criam condições onde o mal pode florescer não apenas impunimente, mas até certo ponto legalmente.

    E nos lembra que por trás das estatísticas e números impessoais da história da escravidão, havia pessoas reais que sofreram de formas que desafiam nossa capacidade de compreender. Sete vidas exterminadas nos caldeirões de açúcar da fazenda Santa Rita. Sete pessoas cujos nomes foram Benedito, Francisca, Miguel, Joaquina, André, Paulo e mais uma, cujo nome se perdeu nos registros, mas cujo sofrimento foi igualmente real.

    Eles morreram de uma das formas mais agonizantes e imagináveis, não em batalha ou por doença, mas pela vontade deliberada de uma única pessoa que tinha poder absoluto sobre suas existências. Esta história não foi inventada ou exagerada. Ela aconteceu, foi documentada, investigada e julgada. Os caldeirões eram reais, as vítimas eram reais, o horror era real e a capacidade do sistema escravista de permitir e até certo ponto, proteger tais atrocidades também era terrivelmente real.

    Lembrar dessas histórias não é exercício de revanchismo ou vitimização. É reconhecer a verdade histórica em toda a sua brutalidade, honrar a memória daqueles que sofreram e entender as raízes profundas de injustiças que ainda ecoam em nossa sociedade contemporânea. Se essa história te impactou, compartilhe para que mais pessoas conheçam a verdade sobre o que realmente aconteceu nos Engenhos de Açúcar do Brasil colonial e imperial.

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    A história de Mariana Cavalcante e seus caldeirões de morte é um lembrete sombrio de que o esquecimento do passado nos condena a repetir seus erros. Que as sete vítimas dos caldeirões de açúcar de Pernambuco descansem em paz, suas histórias finalmente contadas e suas memórias preservadas para que nunca sejam esquecidas. M.

  • BOMBA NA CPMI: SORAYA DESTRÓI SERGIO MORO E PROVA OMISSÃO DE BOLSONARO E RANDOLFE DESMATELA A FARSA!

    BOMBA NA CPMI: SORAYA DESTRÓI SERGIO MORO E PROVA OMISSÃO DE BOLSONARO E RANDOLFE DESMATELA A FARSA!

    MORAES DETONA A FARSA DE BOLSONARISTAS NA CPMI: SORAYA DESTRUÍ SERGIO MORO E EXPÕE A OMISSÃO DE BOLSONARO NA MAIOR DERROTA POLÍTICA!

     

    A CPMI que ocorre em Brasília tem sido palco de momentos tensos e revelações explosivas. Na última sessão, o ministro Alexandre de Moraes e a deputada Soraya, uma das principais vozes de oposição, deram um verdadeiro show de destreza política ao expor a omissão do ex-presidente Jair Bolsonaro e à corrupção de figuras chave do governo passado, como Sergio Moro.

    A DENÚNCIA DE SORAYA: SÉRIE DE MENTIRAS E OMISSÕES

    João Cezar de Castro Rocha – Seminário | Uniandrade

    O embate na CPMI atingiu seu auge quando Soraya se lançou contra o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. A deputada não hesitou ao acusar o ex-juiz de mentir repetidamente durante sua intervenção na comissão, afirmando que as declarações de Moro estavam repletas de inconsistências e omissões. Soraya pediu, inclusive, que o deputado fosse preso por conta das suas declarações mentirosas, o que gerou uma grande comoção na comissão e reacendeu a discussão sobre a credibilidade de Moro, figura central na operação Lava Jato.

    Com firmeza, Soraya afirmou que a tentativa de Moro de se apresentar como uma vítima de perseguição era uma farsa, e que sua atuação durante o governo Bolsonaro foi marcada por omissões graves que colocaram a justiça e a democracia brasileira em risco. A deputada ainda criticou duramente as ações do ex-ministro, destacando que, apesar de ocupar uma posição privilegiada, ele se mostrou omisso ao não tomar providências contra os esquemas de corrupção no governo Bolsonaro.

    O IMPACTO DE BOLSONARO: OMISSÃO E FALTA DE CORAGEM POLÍTICA

     

    Em meio a uma série de revelações, a figura de Jair Bolsonaro também foi duramente criticada por Soraya. A deputada questionou a postura de Bolsonaro durante os momentos críticos da gestão, especialmente em relação à Polícia Federal e às investigações sobre corrupção que assolaram seu governo. Segundo Soraya, Bolsonaro foi conivente com diversas ações ilícitas, ao ponto de não agir para proteger a integridade das investigações.

    O ex-presidente foi descrito por Soraya como alguém que, quando confrontado com questões de corrupção em seu governo, optou por se omitir e, em muitos casos, até apoiar as ações de figuras corruptas. A fala de Soraya gerou revolta entre os bolsonaristas, mas também foi vista como um divisor de águas para aqueles que ainda acreditam na capacidade de mudança da política brasileira.

    A FARSA DO GOVERNO BOLSONARO: A CONEXÃO ENTRE A INTERFERÊNCIA POLÍTICA E A FRAUDE

    Bolsonaro tem papel de 'causar explosão' para permitir ação 'reparadora' de  militares, diz antropólogo - BBC News Brasil

    Ao longo de sua fala, Soraya não poupou críticas à maneira como o governo Bolsonaro lidou com os esquemas de corrupção, em especial quando se trata da interferência política nas investigações. A deputada destacou uma gravação crucial em que o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, revela a pressão do governo para interferir na independência da Polícia Federal.

    O fato de Moro ter admitido que não poderia seguir com o compromisso de garantir a autonomia da PF devido à interferência política foi uma das provas mais contundentes apresentadas por Soraya para demonstrar a corrupção institucionalizada durante o governo Bolsonaro. A exposição dessa fala trouxe à tona não apenas a fraqueza de Moro, mas também a fragilidade de todo o sistema de justiça brasileiro durante a gestão bolsonarista.

    EXPOSIÇÃO DE UMA REDE DE FRAUDE E CORRUPÇÃO: O PAPEL DE GUIMARÃES

     

    A CPMI também revelou outras falcatruas que foram manipuladas por pessoas chave dentro do governo. A ligação de Alexandre Guimarães com os esquemas fraudulentos dentro do INSS foi uma das maiores descobertas dessa investigação. Segundo os depoimentos, Guimarães não apenas participou de esquemas ilegais, como também utilizou seu cargo para criar um sistema paralelo de corrupção, envolvendo documentos falsificados e manipulação de contratos para beneficiar aliados políticos.

    A atuação de Guimarães em conjunto com figuras como José Carlos Oliveira e outros integrantes do governo de Bolsonaro reforça a tese de que o governo não só falhou em combater a corrupção, mas ativamente ajudou a perpetuar um sistema de fraude e suborno dentro das instituições públicas. Essa revelação deixou claro que, para muitos, a luta contra a corrupção foi apenas uma fachada, e que o que realmente aconteceu nos bastidores foi um jogo de poder em que a impunidade reinou.

    A DERROTA POLÍTICA DE HUGO MOTA E A INCOMPETÊNCIA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

     

    O episódio na CPMI também expôs a fragilidade do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, que foi incapaz de costurar uma aliança sólida dentro de sua própria casa. A tentativa de algumas figuras políticas de evitar a cassação de figuras como Carla Zambelli e de proteger outros membros da base bolsonarista foi um fracasso retumbante.

    Mota, que já vinha sendo criticado pela sua gestão à frente da Câmara, se viu diante de uma derrota política histórica. Sua incapacidade de garantir a votação necessária para salvar os aliados de Bolsonaro, como Zambelli, e sua falha em articular uma base de apoio no Congresso geraram uma série de críticas e colocaram sua liderança em risco.

    CONCLUSÃO: A LUTA PELA JUSTIÇA E A MORALIDADE NO BRASIL

    Entrevista exclusiva: Sergio Moro afirma que apresentará ao STF provas  contra Bolsonaro | VEJA

    O que se desenha no cenário político brasileiro, a partir das revelações feitas na CPMI, é um retrato de uma era de corrupção, desinformação e manipulação política. A atuação do STF, liderada por Alexandre de Moraes, foi fundamental para garantir que a justiça fosse feita, e que figuras como Carla Zambelli, cujas ações criminosas estavam ameaçando a integridade do sistema democrático, fossem finalmente responsabilizadas.

    A intervenção de Soraya, a denúncia de Guimarães e a exposição das falhas de Bolsonaro e seus aliados revelam a verdadeira face de uma administração que se envolveu profundamente com esquemas corruptos, sem qualquer remorso ou preocupação com as consequências de suas ações. Para muitos brasileiros, é hora de virar essa página e garantir que a justiça prevaleça.

    Enquanto isso, a luta pela verdade e pela moralidade pública continua, com figuras como Soraya, que ousam expor a corrupção, sendo vitais para garantir que o Brasil caminhe em direção a um futuro mais justo e ético. O caminho não será fácil, mas a CPMI e as ações judiciais são passos importantes para desmantelar a rede de corrupção que ainda assola o país.