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  • Bastidores do Poder: Filhos de Bolsonaro, o PL da Dosimetria e o Xadrez Secreto que Pode Levar Tarcísio a 2026

    Bastidores do Poder: Filhos de Bolsonaro, o PL da Dosimetria e o Xadrez Secreto que Pode Levar Tarcísio a 2026

    Nos corredores silenciosos do Congresso Nacional, onde decisões são tomadas longe das câmeras e dos discursos inflamados, um novo capítulo da política brasileira começa a se desenhar. Não se trata apenas de um projeto de lei, nem apenas de uma candidatura futura. Trata-se de um enredo complexo que envolve os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, o controverso PL da Dosimetria e a possível candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República em 2026. Um jogo de poder, ambições e sobrevivência política.

    Desde que deixou o Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro passou a atuar mais nos bastidores do que nos palanques. Mas seus filhos — politicamente ativos, experientes no embate público e atentos ao humor da base conservadora — continuaram ocupando espaço central no debate nacional. Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, cada um à sua maneira, tornaram-se peças fundamentais na articulação de narrativas, alianças e estratégias que miram o futuro do bolsonarismo.

    O PL da Dosimetria, apresentado como uma proposta técnica para ajustar critérios de aplicação de penas, rapidamente ganhou contornos políticos. Para críticos, o projeto abre brechas perigosas; para defensores, trata-se de um avanço necessário para garantir proporcionalidade e segurança jurídica. O fato é que, ao cair no radar da opinião pública, o projeto passou a ser associado diretamente ao clã Bolsonaro, reacendendo debates acalorados nas redes sociais e no Congresso.

    Nos bastidores, aliados relatam que o PL se transformou em moeda de negociação. Parlamentares que antes evitavam associação direta ao bolsonarismo passaram a enxergar no projeto uma oportunidade de diálogo. Os filhos de Bolsonaro, experientes no uso das redes e na mobilização de apoiadores, atuaram como pontes entre o discurso público e as conversas reservadas. Nada era dito abertamente, mas tudo era calculado.

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    É nesse contexto que o nome de Tarcísio de Freitas ganha força. Governador de São Paulo, ex-ministro e figura vista como mais técnica e menos ideológica, Tarcísio surge como um possível herdeiro político capaz de ampliar o alcance do campo conservador. Para parte da direita, ele representa uma alternativa viável: alguém que mantém vínculos com Bolsonaro, mas dialoga com o centro e com setores do mercado.

    Fontes próximas às articulações afirmam que os filhos de Bolsonaro enxergam em Tarcísio uma candidatura estratégica. Não seria uma repetição do passado, mas uma evolução. A ideia seria preservar a base bolsonarista enquanto se constrói uma imagem de estabilidade e competência administrativa. O PL da Dosimetria, nesse cenário, funcionaria como um teste de força e lealdade no Congresso.

    As reuniões acontecem longe dos holofotes. Salas discretas, jantares reservados, mensagens criptografadas. Cada movimento é analisado com cuidado. Os filhos de Bolsonaro sabem que 2026 começa agora, e que erros cometidos no presente podem custar caro no futuro. Ao mesmo tempo, precisam lidar com resistências internas, disputas de ego e desconfianças antigas.

    Tarcísio, por sua vez, mantém o discurso público focado na gestão estadual. Fala de obras, investimentos e resultados. Mas nos bastidores, segundo relatos, escuta com atenção as análises políticas que chegam de Brasília. Ele sabe que seu nome circula, que expectativas são criadas e que qualquer gesto pode ser interpretado como sinal de ambição presidencial.

    O PL da Dosimetria segue tramitando, enfrentando críticas e recebendo emendas. Cada votação, cada parecer, é acompanhado de perto. Para os filhos de Bolsonaro, o projeto se tornou símbolo de resistência e capacidade de articulação. Para adversários, é mais um capítulo de uma disputa maior pelo controle da narrativa política.

    Analistas políticos observam que o bolsonarismo passa por um processo de reorganização. Sem o poder formal da Presidência, precisa reinventar suas estratégias. A aposta em Tarcísio de Freitas indicaria uma tentativa de ampliar alianças e suavizar arestas, sem perder a identidade que mobiliza milhões de eleitores.

    Clã Bolsonaro deve sair do PL se Tarcísio se filiar ao partido, diz Eduardo  – CartaCapital

    O clima é de expectativa. Ninguém anuncia nada oficialmente, mas todos se movimentam. Os filhos de Bolsonaro continuam ativos nas redes, testando discursos e medindo reações. O PL da Dosimetria avança lentamente, mas com impacto simbólico crescente. E Tarcísio permanece no centro desse tabuleiro silencioso, observado por aliados e adversários.

    Se 2026 ainda parece distante, nos bastidores do poder ele já começou. E como toda boa história política brasileira, mistura ambição, estratégia, tensão e reviravoltas. O desfecho ainda é incerto, mas uma coisa é clara: o jogo está em andamento, e cada peça movida hoje pode definir o futuro do país amanhã.

  • 🔥CAOS! DUDU CHORA MUITO, Saory DESCOBRE NAMORADA E ENCURRALA SOBRE VERDADE; Mesquita CIÚMES

    🔥CAOS! DUDU CHORA MUITO, Saory DESCOBRE NAMORADA E ENCURRALA SOBRE VERDADE; Mesquita CIÚMES

    O que era para ser uma noite de celebração e paz se transformou em um verdadeiro campo de batalha emocional e de revelações na reta final do reality show rural. Após um luxuoso Jantar de Gala, onde os peões do Top 7 foram homenageados com recados emocionantes de amigos e familiares, a tranquilidade foi totalmente desfeita. Entre lágrimas copiosas e demonstrações de afeto, vieram à tona ciúmes, questionamentos sobre fidelidade e a descoberta de uma suposta “namorada” secreta, criando um caos que promete mudar os rumos do relacionamento de dois casais.

    Prepare a pipoca, pois você está prestes a mergulhar nos detalhes exclusivos e em ordem cronológica de tudo o que aconteceu na madrugada que abalou a sede.

    O Jantar de Gala e a Chuva de Emoções

    A produção do programa preparou um evento especial para os finalistas, celebrando a trajetória deles. Com looks de gala – Dudu Camargo, inclusive, chamou a atenção com um terno que remetia a Silvio Santos, mas completou o visual com uma inusitada chuteira rosa –, os participantes puderam interagir e, o mais importante, rever momentos marcantes do jogo.

    A emoção atingiu o pico quando o telão exibiu um compilado dos melhores momentos, incluindo os carinhos trocados entre Duda e Matheus, e o famoso “selinho” de Saory em Will. Em seguida, a produção reservou o momento mais aguardado: vídeos de até um minuto enviados por familiares e amigos.

    O primeiro a receber sua homenagem foi Mesquita, que assistiu aos pais, avô e seu melhor amigo, que, em tom de brincadeira, o proibiu de aparecer antes do dia 19. A surpresa foi total para Duda, que revelou não conhecer Otávio Mesquita, pai do peão. Na sequência, Saory, emocionada, recebeu mensagens de força e resiliência, inclusive de parentes que estavam na Itália.

    Dudu Camargo tenta se reaproximar de Silvio Santos

    Valério, gaúcho de Lajeado (RS), chorou ao ver amigos e familiares, que o encheram de orgulho por ter resistido no jogo, mesmo após ter manifestado desejo de eliminação. Duda também não conteve as lágrimas. Um dos recados mais tocantes que ela recebeu foi de uma familiar, que reconheceu e elogiou a transformação da peoa enquanto mulher, afirmando que, independentemente do resultado, ela já podia se considerar vitoriosa.

    Até mesmo Fabiano, considerado por muitos uma das maiores “plantas” do reality, desabou. Ele não conteve o soluço ao receber o carinho da esposa, Salete, da influenciadora Viih Tube, e de seus pais, que pediram para ele se manter firme. Kent também se emocionou com o apoio de sua família, incluindo o pai e a avó.

    Dudu Desaba e a Chegada da “Namorada”

    Se os outros peões se emocionaram, Dudu Camargo protagonizou o momento de maior entrega e choro da noite. Durão durante praticamente toda a temporada, ele se permitiu um momento de profunda vulnerabilidade. A voz embargada e as lágrimas incontroláveis vieram em dobro.

    O peão não segurou a emoção ao ver seu pai, que nunca havia aparecido na televisão. Mas a polêmica da madrugada girou em torno de outra aparição: a de Suyane, com quem Dudu trabalhou na TV Meio Norte. A mensagem de apoio da jornalista o deixou extremamente mexido.

    O motivo da confusão é que, fora do reality, a apresentadora Suyane havia decidido expor publicamente o relacionamento sério com Dudu, inclusive planejando ter filhos com ele. A história de amor teria começado quando Dudu desembarcou em Teresina, Piauí, para trabalhar na emissora, após sua saída turbulenta do SBT. Em uma entrevista concedida antes do confinamento, em setembro, Suyane não só confirmou o namoro como também revelou o planejamento de uma vida a dois.

    “O Dudu entrou na minha vida de uma forma muito especial. Eu e ele temos uma afinidade muito grande. Eu não gosto de falar da minha vida pessoal, mas a verdade é que temos algo mais íntimo. Recentemente demonstrei para ele a minha vontade de ter outro filho. Ele disse que tinha muita vontade de ser pai. Nós até planejamos um filho juntos e chegamos a ir ao médico,” disse Suyane à época.

    Essa revelação, que circulou fora da sede, se tornou o grande ponto de interrogação quando a imagem de Suyane apareceu no telão, especialmente porque Dudu e Saory, dentro do jogo, também estavam trocando carinhos e até cogitando a possibilidade de ter filhos juntos, replicando o mesmo plano que ele supostamente tinha com Suyane.

    O Confronto de Saory: “É Namorada?”

    A tensão era palpável, e Saory não demorou a confrontar Dudu. Incomodada com a aparição da colega de trabalho do peão, ela o encurralou para obter esclarecimentos.

    “Quem é Suyane?”, questionou Saory diretamente.

    Dudu, ainda muito emotivo, tentou se defender. Ele explicou que ela era uma apresentadora da outra emissora que o apoiou muito durante uma fase difícil. “Eu trabalhava diariamente com ela. Acho que a família que mandou o contato dela. O vídeo da Suyane foi essencial porque me deu apoio de um povo que me abraçou quando todo mundo estava contra mim. Por trás desse vídeo tem umas 50 pessoas envolvidas,” argumentou ele.

    Saory, porém, seguiu exigindo mais detalhes. Ela não se convenceu com a justificativa da amizade e apoio e insistiu na questão central: “Responde, senão vou ficar muito chateada. É namorada?”.

    Rayane Figliuzzi processa Saory Cardoso após ser chamada de “mulher de  traficante” em A Fazenda 17 - JETSS

    Dudu, visivelmente desconfortável, tentou adiar a conversa: “Não, Saori, daqui a pouco a gente resolve”. A situação só se tornou mais estranha quando Fabiano tentou intervir, pedindo para Saory aliviar a pressão. O fato é que Saory beijou Kate pouco tempo depois, adicionando uma nova camada de complicação ao triângulo amoroso em potencial.

    Mesquita e a Crise de Ciúmes Inesperada

    Enquanto o drama de Dudu e Saory se desenrolava, Mesquita, um dos protagonistas do casal Duda e Mesquita, também explodiu em ciúmes. O compilado de vídeos exibido pela produção, que mostrava os beijos trocados entre Duda e Matheus no passado, gerou uma crise de insegurança no peão.

    Mesquita reclamou com Duda sobre a diferença no tratamento. Ele se sentiu menosprezado por ter recebido apenas “selinho, selinho”, enquanto com Matheus era “vrá, quantos você tava lá comendo”.

    “Você falando selinho, selinho e com o outro ‘vrá,’ quantos você tava lá comendo”, disse Mesquita, expressando sua chateação. Ele chegou a demonstrar preocupação com a sua imagem pública e o futuro do relacionamento fora da casa: “Assim como você se preocupa com a sua imagem, eu também tenho que me preocupar com a minha, ainda mais se formos manter nossos planos lá fora.”

    Duda tentou acalmar a situação, mas reconheceu a razão na queixa do parceiro. “Entendi, e faz sentido você ter tentado agir com ele de uma forma e tá agindo de outra. Foi nesse sentido que eu fiquei chateado de ter visto que foi diferente. É ciúme que chama, né?”, respondeu Duda, que rapidamente tentou mudar de assunto.

    A Revelação Secreta de Saory

    Para apimentar ainda mais a crise entre Duda e Mesquita, Saory fez uma revelação lateral chocante. Conversando com Duda, ela contou que conseguiu ver as cenas mais íntimas do casal, gravadas pela edição do Record Plus, nos monitores atrás dos espelhos da academia.

    “Ontem na academia tava você na cama com zoom. Aí eu tive a ideia de como era a imagem, porque a gente não tinha ideia, né?”, disse Saory, referindo-se aos momentos de intimidade entre Duda e Mesquita. A peoa confirmou que as câmeras davam “muito zoom na cama”, o que deu a ela uma visão privilegiada de tudo o que estava acontecendo, algo que os próprios protagonistas não tinham ideia.

    O Reality Além dos Muros

    A madrugada provou que a reta final do reality é, na verdade, a hora em que o mundo de “dentro” colide com o mundo de “fora”, trazendo à tona segredos, planos antigos e a fragilidade dos laços formados sob pressão. Dudu, o durão, desabou e enfrentou o fantasma de um relacionamento que ele escondeu (ou não sabia que era público). Mesquita, o apaixonado, viu sua insegurança se manifestar em ciúmes públicos.

    Com o reality se encaminhando para o final, fica a pergunta: O relacionamento entre Dudu e Saory vai sobreviver à revelação da namorada ‘secreta’? E os planos de Mesquita e Duda se sustentarão diante da crise de ciúmes e da preocupação com a imagem? Acompanhe o desenrolar dessas e de outras histórias exclusivas aqui no Pessoas & Fofocas!

  • A CARTA DO XEQUE-MATE: Zanin Aciona Dino e o Judiciário Prepara a “Jaula” para Deputados Bolsonaristas e o Centrão

    A CARTA DO XEQUE-MATE: Zanin Aciona Dino e o Judiciário Prepara a “Jaula” para Deputados Bolsonaristas e o Centrão

    A CARTA DO XEQUE-MATE: Zanin Aciona Dino e o Judiciário Prepara a “Jaula” para Deputados Bolsonaristas e o Centrão

    A convergência de um boicote internacional devastador ao agronegócio e a iminente condenação de parlamentares por corrupção cria um cenário de pânico sem precedentes no Congresso. Entenda como o Judiciário e o mercado estão desmantelando o poder do Centrão, expondo a fragilidade de quem ousou desafiar a autonomia do STF.

    STF: Moraes, Dino e Zanin votam pela manutenção de prisão de Bolsonaro -  Diário de Prudente


    I. A Ilusão da Força: O Congresso Contra o Clima e o Mercado

    A política brasileira opera em ciclos de bravatas e recuos, mas a última semana marcou o fim de um desses ciclos para a ala conservadora do Congresso. A euforia da direita e do Centrão, ao derrubar os vetos do Presidente Lula ao polêmico projeto de lei que flexibiliza a legislação ambiental — o chamado “PL da Devastação” —, durou pouco. A ação, vista como um ato de força e uma retaliação direta ao Executivo (especialmente após a insatisfação com as indicações ao STF), revelou-se um mega tiro no pé com consequências mais severas do que qualquer derrota interna no Plenário.

    A aritmética do Congresso é inegável: a esquerda detém apenas cerca de 100 a 120 parlamentares, contra mais de 400 da direita. Esta maioria esmagadora confere um poder de veto e obstrução que o Centrão tem explorado. No entanto, ao usar este poder para aprovar medidas que enfraquecem a proteção ambiental, esses parlamentares colidiram não com o Planalto, mas com forças globais que não admitem negociação: o mercado internacional e o Judiciário.

    II. O Boicote Silencioso: A Devastação que Virou Crise Econômica

    A primeira e mais dolorosa “notícia” para o Centrão veio dos gigantes comerciais: China e União Europeia. Estes dois blocos são os principais destinos da soja e de outros produtos do agronegócio brasileiro. A resposta à “Lei da Devastação” não foi diplomática; foi econômica.

    O Governo Chinês, que já havia bloqueado 69 mil toneladas de soja por excesso de agrotóxicos proibidos — um volume pequeno, mas um aviso claro — escalou o tom. Tanto a China quanto a UE comunicaram aos bastidores do Congresso a decisão de não mais comprar produtos agrícolas originados de áreas recém-devastadas ou de terras que eram floresta.

    2.1. O Fim da Impunidade no Rastreamento

    A desculpa de que é impossível rastrear a origem da soja é uma falácia que não mais convence os parceiros comerciais. A tecnologia moderna permite, via análise de DNA do grão e comparação de imagens de satélite (cruzando dados de anos anteriores com o presente), identificar se uma plantação surgiu em um local que era bioma nativo. A UE e a China não apenas estão dispostas a usar essas ferramentas, mas sinalizaram que a insistência do Brasil em “enfiar goela abaixo” produtos de áreas irregulares resultará no bloqueio de grandes volumes de commodities.

    Este movimento é duplamente catastrófico. Historicamente, a China havia reduzido a compra de soja dos EUA após a guerra comercial de Trump, favorecendo o Brasil. Ao aprovar medidas que desconsideram o clima, o Congresso está, na prática, fechando a principal porta comercial do agronegócio no momento em que a China ensaia reabrir o mercado americano.

    A pressão sobre os parlamentares agora não vem do Governo Lula, mas diretamente dos empresários do agro, que veem seus lucros bilionários ameaçados. A jogada do Executivo, neste contexto, é de mestre: expor o Centrão não como um adversário político, mas como um inimigo direto do interesse econômico nacional e do próprio empresariado. A imagem de “fraco” que a oposição tenta colar em Lula é desmentida por uma estratégia que deixa o sistema global punir a miopia do Congresso.

    III. A Celeridade Implacável do STF: O Efeito Zanin-Dino

    Se a pressão econômica é o porrete que atinge o bolso do Centrão, a Justiça é o machado que corta as cabeças políticas. A notícia que reverberou como uma bomba em Brasília foi a articulação do Ministro Cristiano Zanin Martins no Supremo Tribunal Federal (STF).

    Zanin, como relator de um processo crucial, acionou o Ministro Flávio Dino, Presidente da Primeira Turma do STF, solicitando urgência na marcação do julgamento de três parlamentares bolsonaristas – Josimar Maranhãozinho (PL), Pastor Gil (PL) e Bosco Costa (PL). Todos são acusados de participação em um mega esquema de corrupção, incluindo desvio de emendas parlamentares da área da Saúde e verbas da Covid.

    3.1. O Caso Josimar Maranhãozinho: Caixas de Dinheiro e Provas Irrefutáveis

    O caso de Josimar Maranhãozinho, ex-vice-líder do Governo Bolsonaro, é a ponta mais visível e podre do iceberg. As investigações da Polícia Federal (PF), autorizadas pelo STF (pelo então Ministro Ricardo Lewandowski, com Zanin assumindo a relatoria), conseguiram provas irrefutáveis.

    A PF filmou o deputado no seu escritório com caixas de dinheiro roubado, contando e manuseando propina. A acusação é de corrupção passiva: ele teria cobrado R$ 1,6 milhão em propina para liberar uma emenda de R$ 6,67 milhões para um município maranhense. O processo é robusto, com imagens e filmagens que desvendam a máquina de corrupção.

    3.2. A Urgência Fatal: Inelegibilidade e a Data da Prisão

    O pedido de urgência de Zanin não é aleatório; é estratégico. O objetivo é garantir que a condenação dos réus transite em julgado antes do próximo ciclo eleitoral. Se condenados e com o trânsito em julgado, esses parlamentares serão declarados fichas sujas e, portanto, inelegíveis para a reeleição.

    O cálculo do Judiciário é frio: mesmo que o Centrão e o atual presidente da Câmara usem manobras regimentais para segurar os deputados no mandato (como tentaram fazer com Zambelli e Eduardo Bolsonaro), a inelegibilidade impede que eles se candidatem novamente. O destino final já está traçado: no dia 1º de fevereiro de 2027, quando o mandato se encerra, esses políticos perderão o foro privilegiado. A expectativa é que a Polícia Federal bata à porta para cumprir os mandados de prisão de crimes já julgados e condenados. A “jaula” se torna uma certeza.

    IV. O Efeito Dominó do ‘Bolsolan’ e a Luta pelo Fundo Partidário

    Bolsonaro pede que STF reconsidere impedimento de Dino e Zanin

    A ação contra Josimar e seus colegas é vista como o primeiro grande movimento do Judiciário no que está sendo chamado nos bastidores de “Bolsolan”: a série de investigações e ações penais decorrentes do uso e desvio do orçamento secreto e emendas parlamentares.

    O pânico é justificado. Outros casos mais complexos, que envolvem parlamentares diretamente ligados à cúpula do Centrão – braços direitos de Arthur Lira, Hugo Mota, Rodrigo Pacheco e Davi Alcolumbre – estão na fila. A perspectiva de ver colegas presos e inegígeis cria um medo palpável e um incentivo perverso: a delação premiada.

    As investigações da PF já alcançaram indivíduos ligados à lavagem de dinheiro de facções criminosas, com alguns presos já sinalizando a intenção de colaborar com a Justiça. O temor é que as delações cheguem aos chefes do Congresso.

    4.1. A Guerra Pelo Ouro dos Partidos

    O risco de prisão e inelegibilidade não é o único fator de desestabilização. O controle dos partidos políticos se tornou um campo de batalha interno. Partidos como o PL, o Progressistas (PP) e o União Brasil movimentam cifras astronômicas: o PL, por exemplo, pode receber mais de R$ 1 bilhão em fundos eleitorais em anos de eleição.

    O controle desse dinheiro confere poder absoluto de decisão: quais deputados receberão apoio financeiro para se reelegerem e quais serão abandonados. Com o cerco judicial se fechando sobre líderes como Ciro Nogueira (PP) e Luciano Bivar/Antônio de Rueda (União Brasil), grupos internos dos partidos estão se degladiando para assumir o comando e, consequentemente, a administração desses fundos bilionários. A desgraça do colega se torna a oportunidade de ouro.

    V. O Silêncio Estratégico de Lula: “Deixa Rolar”

    A reação do Presidente Lula a todo este cenário de caos tem sido notavelmente minimalista. A estratégia adotada é o “deixa rolar”. Lula evitou confrontos diretos, não interveio na autonomia da PF ou do STF e permitiu que a crise fosse cozinhada pelas próprias forças que a direita criou: a pressão do mercado global e a celeridade do Judiciário.

    Ao permitir que o boicote econômico fustigue o agronegócio e que a Justiça avance sobre os deputados corruptos, Lula expõe a fragilidade da oposição sem gastar seu próprio capital político. As retaliações do Congresso, como a derrubada de vetos, não atingem o Planalto, mas sim os interesses de seus próprios financiadores.

    A mensagem de Brasília é clara: o tempo da impunidade, garantida pela blindagem política, está acabando. O Centrão e a direita que apostaram na força numérica do Congresso estão agora encurralados por uma estratégia de múltiplas frentes, que os coloca em risco de prisão, inelegibilidade e falência econômica. O pânico é generalizado e o cenário de 2027 já está sendo desenhado: a jaula está pronta.

  • BRASIL EM CHAMAS: AS RUAS SE LEVANTAM CONTRA O CONGRESSO DA DIREITA, O INIMIGO DECLARADO DO POVO

    BRASIL EM CHAMAS: AS RUAS SE LEVANTAM CONTRA O CONGRESSO DA DIREITA, O INIMIGO DECLARADO DO POVO

    O Brasil não dormiu naquela noite. Algo havia mudado no ar, algo pesado e elétrico, impossível de ignorar. Desde as primeiras horas da manhã, as ruas começaram a se encher de vozes, passos apressados, cartazes improvisados e olhares determinados. Não era uma manifestação comum. Era um grito coletivo acumulado por anos de frustração, traição e abandono. O povo havia decidido falar — e falar alto.

    Durante décadas, o Congresso Nacional se apresentou como a casa da democracia. Mas para milhões de brasileiros, essa narrativa se transformou em uma mentira cruel. Aos olhos do povo, o Congresso da direita deixou de representar a nação e passou a servir interesses privados, elites econômicas e grupos que lucram com a desigualdade. O resultado foi explosivo: um divórcio definitivo entre o povo e seus supostos representantes.

    As ruas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e tantas outras cidades se tornaram palcos de uma revolta organizada, consciente e profundamente política. Não se tratava apenas de protestar contra uma lei ou um político específico. O alvo era claro: um sistema legislativo que legisla contra o povo e protege os privilégios de poucos.

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    Maria, professora da rede pública há 22 anos, segurava um cartaz simples, escrito à mão: “Trabalhamos até morrer para sustentar vocês”. Ao seu lado, João, entregador de aplicativo, dizia que nunca havia participado de um protesto antes. “Mas agora não dá mais. Eles decidem nossas vidas sem nunca pisar onde a gente pisa”, afirmou, com a voz embargada. Essas histórias se multiplicavam a cada esquina.

    O estopim foi mais um pacote de medidas aprovado às pressas pelo Congresso, cortando direitos sociais, enfraquecendo sindicatos, precarizando o trabalho e protegendo grandes empresários e bancos. Tudo isso enquanto salários parlamentares permaneciam intocáveis, benefícios eram mantidos e escândalos de corrupção se acumulavam sem punição real. A mensagem era clara: sacrifícios para o povo, conforto para a elite política.

    A direita no Congresso tentou, como sempre, controlar a narrativa. Chamou os manifestantes de “radicais”, “desinformados” e até “inimigos da democracia”. Mas as imagens falavam por si. Famílias inteiras nas ruas, trabalhadores, estudantes, aposentados, professores, enfermeiros. Gente comum, cansada de ser ignorada. A tentativa de deslegitimar o movimento apenas alimentou ainda mais a revolta.

    O medo começou a mudar de lado. Dentro do Congresso, parlamentares passaram a evitar aparições públicas. Grades foram reforçadas, seguranças aumentados, sessões esvaziadas. Enquanto isso, do lado de fora, o povo ocupava espaços que sempre lhe foram negados. A praça virou tribuna. O megafone virou microfone. A rua virou parlamento popular.

    Historicamente, o Brasil sempre viveu momentos em que as ruas foram mais lúcidas que as instituições. E mais uma vez, a consciência popular se mostrou à frente de um Congresso envelhecido, distante e surdo. As palavras de ordem não pediam caos, pediam justiça. Não clamavam por ódio, mas por dignidade. Era uma revolta com direção, não uma explosão sem sentido.

    Os discursos improvisados revelavam um alto nível de politização. Falava-se de orçamento público, de captura do Estado, de lobby empresarial, de concentração de renda. O povo entendia exatamente o que estava em jogo. Ao contrário do que a direita gosta de repetir, o brasileiro não é ignorante. Ignorante é um Congresso que subestima a inteligência popular.

    A mídia tradicional tentou minimizar os atos, reduzir números, mudar o foco. Mas nas redes sociais, a verdade se espalhava em tempo real. Vídeos, relatos, transmissões ao vivo mostravam a dimensão real da mobilização. Não era um evento isolado. Era um movimento nacional, orgânico, impossível de ser controlado por uma única liderança. E isso assustava profundamente o Congresso da direita.

    Fernanda - 🚨ALERTA! PF sob ataque do Congresso Inimigo do Povo! O  relatório de Derrite sobre o Projeto Anti Facções é um verdadeiro presente  para o crime organizado. O texto de Derrite,

    O ponto central da revolta era simples: o Congresso governa contra o povo. Quando vota contra o trabalhador, contra o pobre, contra a educação e a saúde públicas, ele deixa de ser representante e passa a ser inimigo. E o povo, finalmente, começou a chamar as coisas pelo nome.

    O professor José Fernandes, que acompanhava os protestos de perto, resumiu a situação com precisão: “Não estamos vendo apenas manifestações. Estamos vendo um despertar político. O povo percebeu que a democracia não termina no voto e que representantes podem — e devem — ser pressionados”.

    A história mostra que nenhum sistema injusto se sustenta quando perde legitimidade popular. O Congresso da direita enfrenta agora sua maior crise: a crise de confiança. Sem o apoio do povo, resta apenas a força institucional, que cedo ou tarde se revela insuficiente. As ruas já deixaram claro que não aceitarão mais decisões tomadas a portas fechadas.

    O futuro ainda é incerto, mas uma coisa é inegável: o Brasil não é mais o mesmo. Algo foi quebrado — ou talvez reconstruído. A passividade deu lugar à ação. O silêncio virou grito. E o Congresso da direita terá que escolher entre ouvir o povo ou enfrentar uma resistência cada vez maior.

    As ruas falaram. E quando o povo fala em uníssono, a história escuta.

     

  • INCRIVEL! O POVO TOMA AS RUAS E PROTESTA CONTRA CONGRESSO E A LADROAGEM PRA SOLTAR BOLSONARO!!!

    INCRIVEL! O POVO TOMA AS RUAS E PROTESTA CONTRA CONGRESSO E A LADROAGEM PRA SOLTAR BOLSONARO!!!

    Em um momento de profunda polarização, a sociedade brasileira testemunha o ressurgimento de um fenômeno que há tempos não se via com tamanha intensidade: a mobilização em massa em protestos que tomaram as principais capitais do país. De Belo Horizonte ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Brasília, milhares de cidadãos voltaram às ruas, expressando um misto de insatisfação com o status quo político e a defesa de pautas ideológicas altamente sensíveis. O cenário é de efervescência, onde a opinião pública, munida de um sentimento de que “o gigante acordou”, confronta de maneira veemente as instituições e decisões tomadas no topo do poder.

    O epicentro desta nova onda de manifestações é o descontentamento com o Congresso Nacional. A pauta dos manifestantes é multifacetada, mas converge para uma crítica robusta à atuação de parlamentares e a projetos de lei que, segundo os ativistas, representam uma “retirada de direitos” do povo brasileiro. Em meio a cânticos e palavras de ordem, a rejeição a figuras proeminentes do Legislativo, como o Deputado Hugo Mota e o Senador Davi Alcolumbre, ecoa nas praças, denunciando o que parte da população enxerga como uma agenda política que se desenrola “na calada da noite”, sem a devida transparência ou consideração pelos interesses populares.

    O Clamor das Ruas Contra o Legislativo

    Apesar do curto prazo de convocação, os protestos conseguiram uma adesão significativa, refletindo a rapidez com que a base de oposição se articula em momentos de crise. Um dos focos de maior tensão é a crítica às recentes alterações na legislação penal, especialmente a chamada “dosimetria”, que foi interpretada pela base bolsonarista como um movimento para favorecer a redução de penas e até mesmo a anistia para figuras políticas específicas. A bandeira de “Sem Anistia”, carregada por setores da juventude e de trabalhadores, transformou-se em um grito unificado, visando não apenas o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas também a responsabilização de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes e Flávio Dino, este último frequentemente citado devido ao seu papel como relator em questões envolvendo o Orçamento Secreto.

    Bolsonarismo perdeu protagonismo no debate e quer criar tumulto para  monopolizar atenções' - BBC News Brasil

    Os manifestantes defendem a tese de que o Congresso se tornou um “inimigo do povo”, uma instituição desconectada das necessidades e dos desejos da maioria. Este profundo descontentamento aponta para uma crise de representatividade que precisa ser endereçada. A urgência desta pauta é tamanha que, mesmo às vésperas de feriados tradicionais, os ativistas se mantêm mobilizados, reiterando que não aceitarão passivamente o que consideram retrocessos. A pressão é clara: se necessário, a mobilização se intensificará, alcançando inclusive a capital federal, Brasília, com o objetivo de reverter decisões consideradas injustas ou prejudiciais à nação.


    Derrotas e Vitórias no Palco Global: O Fim do Cerco Diplomático

    Paralelamente à turbulência doméstica, o Brasil tem sido palco de movimentações diplomáticas que geraram ondas de choque no cenário político. A revogação das sanções da Lei Magnitsky contra o Ministro do STF, Alexandre de Moraes, e sua esposa, representa um marco. O que parecia impossível para muitos observadores e líderes da oposição—que se vangloriavam da permanência das restrições—tornou-se realidade em tempo recorde sob a gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    A agilidade com que o governo brasileiro conseguiu reverter as sanções, em um diálogo que envolveu diretamente a Casa Branca e, surpreendentemente, o ex-presidente americano Donald Trump, evidenciou a capacidade de articulação e o peso diplomático da atual administração. Lideranças da oposição, que antes desdenhavam da possibilidade, foram forçadas a lidar com o que chamaram de “humilhação”. A vitória diplomática foi utilizada como um potente instrumento político, reforçando a imagem do Presidente Lula como um “vencedor” e um negociador astuto no xadrez global.

    Essa reviravolta não apenas restaurou a liberdade de trânsito internacional das figuras afetadas, mas também serviu para desmoralizar publicamente a base de oposição, que havia apostado no isolamento internacional do Ministro Moraes. O resultado reforçou a narrativa de que, no jogo de poder, a estratégia e a resiliência superam a retórica inflamada. A citação bíblica sobre a colheita obrigatória—o plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória—foi usada para descrever o momento da oposição, que agora “colhe” as consequências de ter subestimado a capacidade de resposta do atual governo e seus aliados.


    A Crítica ao Modelo de Privatização: O Caso Enel em São Paulo

    A turbulência política se estende também ao debate sobre a gestão de serviços essenciais. A crise no fornecimento de energia no estado de São Paulo, marcada por extensos blackouts que afetaram centenas de milhares de residências, reacendeu a crítica contundente ao modelo de privatização adotado no passado. O caso da concessionária Enel tornou-se um símbolo da falha desse modelo.

    Relatórios indicam que a Enel gastou significativamente menos do que o previsto pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para garantir a qualidade da distribuição. A busca incessante pelo lucro, segundo os críticos, levou a um tratamento de segunda classe para o consumidor brasileiro. O contraste é gritante: enquanto no Brasil o tempo de espera para o restabelecimento da energia após um incidente pode ser dez vezes maior, a matriz da empresa na Itália demonstra uma eficiência muito superior.

    Para os setores que se opõem à direita, a privatização da antiga Eletropaulo foi um erro que comprometeu a infraestrutura vital do estado. A crise de energia serve como um argumento poderoso para a defesa de uma gestão estatal ou, no mínimo, um controle regulatório muito mais rígido, garantindo que o serviço público não seja sacrificado em nome da maximização dos lucros corporativos. A forma como a população foi desassistida durante a crise foi apontada como um sintoma da maneira “vergonhosa” como a política de direita trata a população no que tange a serviços básicos.


    Liderança, Histórico e o Fio da Memória

    A análise política do momento é invariavelmente conduzida por meio de um contraste profundo entre os perfis de liderança. De um lado, o estilo pragmático, articulado e resiliente do atual presidente; de outro, a retórica polarizadora e a postura menos estratégica do ex-presidente. Essa comparação vai além da performance recente e mergulha na história.

    Um episódio histórico, relembrado com fervor, ilustra a longevidade e a paciência estratégica de Lula. A história de como ele interveio para socorrer o empresário Silvio Santos de uma iminente prisão devido ao rombo financeiro do Banco Pan-Americano, em um evento que data de anos atrás, foi resgatada como prova de um cálculo político de longo prazo. A resiliência de esperar “50 anos” para usar este fato em um debate público demonstrou, para os analistas, um “gênio” político capaz de articular o passado com o presente para consolidar sua imagem e influência.

    Lula tem 40% de reprovação e 38% de aprovação entre deputados, mostra  Genial/Quaest - PlatôBR

    Em contrapartida, a análise crítica da oposição se concentra na falta de profundidade intelectual e na incapacidade de articular frases coerentes do ex-presidente. A comparação, por mais dura que seja, é colocada em termos de capacidade de diálogo e visão de mundo. Argumenta-se que a diplomacia e a inteligência política do atual presidente o colocam em um patamar superior, permitindo-lhe reverter situações globais que a gestão anterior não conseguiu nem sequer contestar.

    O triunfo de Lula na reversão da Lei Magnitsky é apresentado como a prova de que, até mesmo figuras internacionais como Donald Trump, que inicialmente apoiaram o ex-presidente brasileiro, acabaram reconhecendo a superioridade estratégica e a capacidade de ser um “vencedor” no cenário global. A conclusão é que o ex-presidente, ao cair “na conversa de uma mula”, acabou isolado, enquanto o atual líder demonstrou ser um negociador astuto e um líder com respaldo internacional.


    Conclusão: O Cenário de Confronto Permanente

    O Brasil vive um Natal político atípico, marcado por protestos nas ruas, vitórias diplomáticas inegáveis e um confronto ideológico que não dá trégua. O cenário é complexo: de um lado, a insatisfação popular com o Congresso se traduz em uma onda de manifestações; de outro, a diplomacia do governo celebra uma vitória que desmontou uma das maiores armas políticas da oposição.

    O país está dividido entre aqueles que veem no atual governo um líder vitorioso e estratégico, capaz de se impor no plano internacional e de resolver crises domésticas (como a da privatização de energia), e aqueles que veem nele a continuidade de um desastre anunciado, lutando desesperadamente para manter seus direitos e sua visão de nação. A história, como demonstram os fatos do passado e do presente, é contada pelos vencedores e, no atual tabuleiro, a capacidade de articular, negociar e resistir define quem prevalece.

  • EXCLUSIVO: O Xeque-Mate na Presidência de Hugo Mota – Os Bastidores Sombrios da Queda Articulada por Lira, PT e PL

    EXCLUSIVO: O Xeque-Mate na Presidência de Hugo Mota – Os Bastidores Sombrios da Queda Articulada por Lira, PT e PL

    EXCLUSIVO: O Xeque-Mate na Presidência de Hugo Mota – Os Bastidores Sombrios da Queda Articulada por Lira, PT e PL

    A derrocada de um poder frágil: como a inabilidade política e as traições internas transformaram o Presidente da Câmara em um “zumbi” burocrático, pavimentando o caminho para um cenário de caos e redefinição de forças no Congresso Nacional. A aliança insólita que vai depor Hugo Mota e a vingança fria de Arthur Lira.

    Para Hugo Motta, segurança pública está em 'metástase'


    O Fio da Navalha do Poder: A Improbabilidade de Concluir o Mandato

    Nos corredores abafados da Câmara dos Deputados, onde o poder se negocia em sussurros e os destinos são selados com apertos de mão silenciosos, uma certeza ecoa: Hugo Mota vai cair. É, na avaliação de analistas políticos e de fontes internas de altíssimo escalão, pouquíssimo provável que o atual Presidente da Câmara dos Deputados consiga terminar seu mandato. Sua autoridade se dissolveu, seu capital político evaporou e sua permanência se tornou um estorvo para as principais forças que governam (ou desgovernam) o Congresso.

    A razão para o iminente colapso de Mota reside em uma articulação explosiva e inédita nos bastidores: o Partido dos Trabalhadores (PT), legenda que comanda o Executivo, e o Partido Liberal (PL), a sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro, uniram forças em um pacto surpreendente. O objetivo é único e direto: retirar Hugo Mota da presidência da Casa.

    Esta coalizão improvável é o sintoma mais claro de que Mota rompeu com as lideranças dos dois partidos mais influentes do país. Em Brasília, romper com a base e a oposição ao mesmo tempo é o equivalente a uma sentença de morte política. Mas se a aliança PT-PL é a arma, a pressão exercida por Arthur Lira é o gatilho, a força motriz que transformou a instabilidade de Mota em uma crise terminal.

    A Vingança Fria de Arthur Lira: Críticas, Descontrole e a Pá de Cal

    Arthur Lira, o antecessor e padrinho político de Mota, transformou-se em seu algoz mais implacável. Nos bastidores, as críticas de Lira a Hugo Mota são descritas como “pesadas”. O tom é de escárnio e desprezo pela inabilidade do sucessor: Mota, diz Lira, “não tem pulso”, “não controla a Câmara dos Deputados”.

    O ponto de inflexão, a derrota mais simbólica e mais dolorosa, que serviu como a “pá de cal” no destino de Hugo Mota, foi a votação para a cassação do mandato do deputado Glauber Braga. Na opinião de Lira e de aliados, a derrota expôs ao país a verdade nua e crua: Mota não tem controle sobre a Câmara, não tem controle sobre absolutamente nada. Ele se tornou uma figura decorativa sem capacidade de entregar resultados, nem mesmo para seus próprios aliados.

    Curiosamente, Lira não é imune à pressão. Ele próprio está acuado devido à operação da Polícia Federal sobre o escândalo do orçamento secreto, que alcançou sua ex-assessora, MariaÂela Fialec. Esta pressão externa sobre Lira, contudo, não amoleceu sua posição; pelo contrário, reverberou em Mota. Para Lira, um presidente fraco como Mota representa um risco, não uma solução, diante da crise institucional que se desenha.

    Hugo Mota, em um ato de desespero e tentativa de aceno, chegou a marcar uma reunião de emergência com as lideranças e soltar uma nota pública de apoio à ex-assessora de Lira. Esforços tardios e fúteis. Na linguagem ríspida dos bastidores, para Hugo Mota, “a vaca já foi pro brejo”.

    Lira, que já teve um “bate-boca público” com Mota, agora articula silenciosamente para derrubá-lo. Aliados de Mota têm a percepção clara, trazida por fontes como Thiago Prado, do O Globo, de que Lira quer o posto de presidente da Câmara de volta. Diante de uma situação delicada no Senado, onde suas pesquisas são “muito incertas” sobre uma das vagas, Lira pode estar reconsiderando a estratégia. O caminho pode ser desistir do Senado e disputar a Câmara de novo em 2026, visando ser presidente da Casa em 2027. Para isso, precisa que Mota saia do caminho.

    A Aliança Improvável e a Derrota de Eduardo Bolsonaro

    O plano para a deposição de Mota não é um ato isolado, mas uma “sequência de eventos” meticulosamente orquestrada, conforme revelado por Andreza Matais, do Metrópoles. E o primeiro ato dessa sequência foi, ironicamente, salvar Eduardo Bolsonaro.

    A derrota de Mota começou com sua tentativa de cassar o mandato do deputado Eduardo Bolsonaro. Hugo Mota, não querendo arcar com o ônus político de uma cassação direta, tentou adotar uma “manobra regimental”: cassar Eduardo por faltas, alegando sua ausência no Brasil enquanto estava nos Estados Unidos.

    Contudo, para que o mandato fosse cassado por faltas, a assinatura de toda a Mesa Diretora da Câmara era necessária. De seus sete membros, dois se recusaram a assinar: Elmar Nascimento e Altineu Côrtes. O recuo foi imediato e humilhante. A recusa em assinar não apenas salvou Eduardo Bolsonaro, mas serviu como o primeiro sinal público, indiscutível, de que Hugo Mota não controla a Câmara dos Deputados.

    Segundo a articulação, depois de mostrarem a Mota que ele não detém o controle sequer para punir um membro da oposição, a Câmara se organizaria para derrubá-lo, reforçando a união entre PT e PL. O motivo é claro: Hugo Mota rompeu com a liderança de ambos, tornando sua situação “completamente insustentável”. Ele não tem base de apoio.

    O Motim de Glauber Braga: Violência e Desmoralização Completa

    A situação de Mota já era frágil por conta de “seguidos motins” – tanto o da oposição no início dos trabalhos quanto o de Glauber Braga. O episódio de Glauber, contudo, foi o pior.

    Diante do confronto, Hugo Mota não demonstrou “pulso” com a oposição. Sua reação foi descrita como “horrível”: em vez de negociar e conversar com um único deputado, ele encerrou a transmissão da TV Câmara e colocou a Polícia Legislativa contra Glauber. Foi uma situação de “extrema violência”, que acabou atingindo jornalistas e desgastando ainda mais sua imagem.

    O que era um problema de disciplina interna, transformou-se em uma desmoralização estratégica. Fontes como Caio Junqueira, da CNN Brasil, revelaram que Mota atuou diretamente com Lira para a cassação de Glauber. Mas ele foi fragorosamente derrotado pelo próprio Governo, que se articulou “de última hora”. A derrota teve um significado profundo: o Governo (Executivo) descobriu que não precisa negociar os votos diretamente com Mota; há uma possibilidade de negociar “no varejo”, individualmente, com cada deputado.

    A mensagem é cristalina: o Governo pode simplesmente passar por cima do Hugo Mota. A vitória de Glauber contra Mota na votação foi simbólica e provou que Mota “já não tem mais controle de absolutamente nada e não pode mais ajudar o governo.”

    Amadorismo ou Traição? O Plano Desastroso de Mota

    Hugo Motta tenta consolidar apoio de último partido na próxima semana

    O ápice da inabilidade política de Mota ocorreu na mesma sessão em que pautou a votação de Glauber. Ele só o fez porque, segundo informações de bastidores, tentava acenar simultaneamente para todas as forças em conflito, numa espécie de “master plan” que deu catastróficamente errado.

    Mota teria tido uma conversa com ministros do STF onde se comprometeu a pautar a cassação de Carla Zambelli, visando agradar a Corte e a esquerda. Em troca, pautaria a cassação de Glauber (para Lira e a oposição) e o PL da Dosimetria (o “preço do Flávio”, buscando o apoio do Centrão, PP e União Brasil para promover Tarcísio como candidato).

    Os resultados do seu triplo movimento foram um desastre completo:

      Carla Zambelli não foi cassada: Desagradou o STF.

      Glauber Braga não foi cassado: Desagradou a oposição e, principalmente, Arthur Lira.

      O PL da Dosimetria foi pautado sem articulação suficiente: Não diminuiu a pressão sobre a candidatura de Bolsonaro e não melhorou a situação de Tarcísio.

    A tragédia política é que ele foi derrotado em todas as frentes. Ele foi para a votação do Glauber sem a garantia dos votos ou foi traiçoeiramente abandonado por quem lhe prometeu apoio. Não importa se foi amadorismo ou traição, o resultado é o mesmo: ele é fraco e não tem controle.

    O quadro é aterrador: Mota não tem mais apoio no Legislativo (traído pelas lideranças), no Executivo (que agora negocia no varejo) e nem no Judiciário (que não viu seu aceno ser cumprido).

    O Zumbi da Presidência: O Desespero Final

    Diante do cerco de Lira, que nos bastidores o critica por ser “fraco” e “sem pulso” (segundo Igor Gadeira e Andréia Sadi), Mota tentou desesperadamente reagir. Após o bate-boca com Lira, ele veio a público e fez um ataque indireto: “A presidência da Câmara dos Deputados não pode ser usada para conveniências pessoais”, e muito menos como “mecanismo de revanchismo”. Uma crítica direta a Lira, cujo interesse era pessoalmente caçar o desafeto Glauber Braga.

    Mas o desespero logo o fez recuar. Depois da operação da Polícia Federal atingir a ex-assessora de Lira, Mota tentou “distensionar” as relações. Emitiu a nota de apoio a Maria Fialec e marcou a reunião de emergência. A intenção era tentar criar uma “resposta conjunta e institucional contra o judiciário”, numa leitura de que a operação deflagrada por Flávio Dino atuou em conjunto com o Executivo para retaliar o Congresso.

    Tudo isso, contudo, é visto como a agonia de um poder em extinção. Mota já não é presidente. “Ele é um ex-presidente da Câmara em atividade”, um “zumbi”, um “cadáver político”. Ele pode, sim, permanecer simbolicamente ou burocraticamente na cadeira, abrindo e encerrando sessões, assinando papelada, mas de fato, ele já não é nada.

    A desmoralização é completa. O Governo, ciente de sua fragilidade, continuará a negociar “no varejo” ao longo de 2026, ignorando o comando formal da Casa. O destino de Hugo Mota é o de uma figura política que perdeu sua estrutura, sua bagagem e seu tamanho para aguentar tamanha pressão.

    Hugo Mota não vai cair. A verdade, como se diz nos corredores que o assistem, é que Mota já caiu como presidente da Câmara. Resta saber a data final em que o cadáver político será removido do plenário.

  • DOMINGÃO DA PRESSÃO: RUAS EM CHAMAS, POVO CONTRA PENAS MENORES AO BOZO E A “RENÚNCIA” ILEGAL QUE ABALOU BRASÍLIA

    DOMINGÃO DA PRESSÃO: RUAS EM CHAMAS, POVO CONTRA PENAS MENORES AO BOZO E A “RENÚNCIA” ILEGAL QUE ABALOU BRASÍLIA

    O domingo amanheceu diferente. Antes mesmo do sol ganhar força, já se ouviam passos apressados, vozes firmes e o barulho metálico de grades sendo montadas. O país acordou em estado de alerta para o que ficaria conhecido como o Domingão da Pressão, um dia em que o povo decidiu ocupar as ruas para protestar contra a possibilidade de penas menores ao Bozo e para exigir respostas imediatas diante de mais um capítulo controverso da política nacional: a suposta “renúncia” de Zambelli, apontada por juristas como ilegal desde a primeira linha.

    Em São Paulo, a Avenida Paulista virou um corredor humano. Famílias, trabalhadores, estudantes e aposentados se misturavam sob bandeiras do Brasil, faixas improvisadas e cartazes escritos à mão. “Sem anistia”, “Justiça não se negocia” e “Lei vale para todos” eram algumas das mensagens mais repetidas. O clima não era de festa; era de cobrança. A cada grito entoado em coro, sentia-se que havia algo maior do que um protesto comum: havia a sensação de que aquele domingo seria decisivo.

    No Rio de Janeiro, a Cinelândia ficou pequena. Lideranças de movimentos sociais subiram em carros de som e lembraram episódios recentes que ainda ardem na memória coletiva. Discursos se alternavam entre indignação e apelos à legalidade. “Penas menores não são justiça, são privilégio”, dizia uma professora aposentada, com a voz trêmula, enquanto segurava um cartaz com fotos de episódios que, segundo ela, “não podem ser esquecidos”. A multidão respondia com aplausos e vaias, dependendo do alvo citado.

    Brasília, como era de se esperar, concentrou a tensão máxima. Grades reforçadas, policiamento ostensivo e helicópteros sobrevoando a Esplanada dos Ministérios davam o tom do dia. Mesmo assim, manifestantes conseguiram se aproximar do Congresso, transformando o gramado em um mar de gente. Ali, o debate ganhou contornos ainda mais sérios, pois a pauta principal não era apenas simbólica: tratava-se de decisões judiciais e políticas que podem redefinir os limites da responsabilidade penal no país.

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    O centro da revolta popular era a discussão sobre penas menores ao Bozo. Para muitos manifestantes, a simples possibilidade de abrandamento soava como afronta. Advogados presentes explicavam, em linguagem acessível, que a lei prevê critérios claros e que flexibilizações sem base sólida criam precedentes perigosos. “Hoje é ele, amanhã pode ser qualquer um com poder suficiente”, alertava um jovem jurista, cercado por curiosos que gravavam tudo com o celular.

    Enquanto as ruas ferviam, uma notícia caiu como gasolina no fogo: Zambelli teria anunciado uma “renúncia”. Em poucos minutos, redes sociais explodiram. Mas a euforia inicial deu lugar à desconfiança quando especialistas começaram a apontar falhas graves no ato. Segundo análises preliminares, o procedimento não respeitaria requisitos legais básicos, levantando a hipótese de nulidade. “Renúncia não é postagem em rede social, nem manobra política”, escreveu um constitucionalista famoso, cujo comentário viralizou.

    Nos bastidores de Brasília, assessores corriam. Parlamentares evitavam entrevistas longas e repetiam frases ensaiadas. Alguns tentavam minimizar o impacto, outros atacavam os protestos, chamando-os de exagerados. A resposta veio rápida das ruas: vaias, palavras de ordem e novos cartazes, agora mencionando diretamente a “renúncia ilegal”. O povo parecia decidido a não aceitar explicações vagas.

    Histórias pessoais davam rosto à multidão. Maria Lúcia, enfermeira de 42 anos, viajou a noite inteira do interior de Minas para estar ali. “Eu não sou de partido nenhum”, disse. “Sou de justiça. Quando vejo tentativa de aliviar pena e renúncia mal explicada, eu venho pra rua.” Ao lado dela, João Pedro, estudante de direito, distribuía panfletos com trechos da Constituição. “Informação é nossa arma”, repetia.

    À medida que a tarde avançava, o clima oscilava entre tensão e catarse. Em algumas cidades, pequenos confrontos verbais surgiram, rapidamente contidos por organizadores do ato. A orientação era clara: protesto pacífico, mensagem firme. Mesmo assim, a pressão era palpável. Cada buzina, cada sirene distante, parecia amplificar a sensação de que algo poderia mudar a qualquer momento.

    DOMINGÃO DA PRESSÃO! ATOS: POVO NAS RUAS CONTRA PENAS MENORES A BOZO! ZAMBELLI  FAZ "RENUNCIA" ILEGAL - YouTube

    Analistas políticos começaram a chamar o dia de divisor de águas. Em programas especiais, comentavam que a combinação de protestos massivos contra penas menores e a polêmica da renúncia colocava o sistema sob teste. “A democracia se mede na capacidade de ouvir as ruas e respeitar a lei”, disse um comentarista. “Hoje, as ruas falaram alto.”

    No início da noite, líderes dos atos divulgaram uma carta aberta. O documento exigia transparência total sobre qualquer decisão envolvendo o Bozo, rejeitava penas menores sem fundamentação sólida e cobrava esclarecimentos imediatos sobre a situação de Zambelli. A carta foi lida em coro em várias capitais, arrancando aplausos emocionados. Muitos choravam; outros filmavam, conscientes de que estavam registrando um momento histórico.

    Dentro dos prédios oficiais, o silêncio era ensurdecedor. Nenhum pronunciamento definitivo, nenhuma explicação clara. Apenas notas frias e promessas de “análise”. Para quem estava na rua, isso soava insuficiente. “Chega de empurrar com a barriga”, gritava a multidão. O Domingão da Pressão não terminaria ali; ele deixaria marcas.

    Quando a noite caiu, as pessoas começaram a se dispersar lentamente, exaustas, mas com a sensação de dever cumprido. Nas redes, imagens do dia dominavam os feeds: drones mostrando multidões, close-ups de cartazes, vídeos de discursos inflamados. A narrativa já estava formada: o povo foi às ruas para dizer basta.

    O que vem depois ainda é incerto. Juristas prometem aprofundar a análise da “renúncia” e possíveis consequências legais. O debate sobre penas menores seguirá intenso, agora sob os holofotes de uma população vigilante. Uma coisa, porém, ficou clara neste Domingão da Pressão: quando a justiça parece ameaçada, o povo brasileiro sabe se levantar.

    E, como repetiam muitos cartazes ao final do dia, “a história está sendo escrita agora”. Quem quiser entender cada detalhe, cada bastidor e cada impacto desse domingo que parou o país, precisa acompanhar os próximos capítulos. Porque a pressão começou — e não dá sinais de que vai diminuir tão cedo.

  • “Estou sozinha e grávida” — fazendeiro viúvo disse: “Chega, a partir de hoje você é minha esposa”

    “Estou sozinha e grávida” — fazendeiro viúvo disse: “Chega, a partir de hoje você é minha esposa”

    Bem-vindos mais uma vez ao Contos de Época, onde as histórias de amor verdadeiro e segundas oportunidades ganham vida. Hoje trago para vocês um relato que nos transporta ao ano de 1888, aos caminhos empoirados do recôncavo baiano, onde uma jovem enfrentou o abandono mais cruel em seu momento de maior vulnerabilidade.

    Mas quando tudo parecia perdido, quando a solidão e a vergonha ameaçavam destruí-la, um homem honrado lhe ofereceu algo que ela nunca esperou: dignidade, proteção e a promessa de um novo começo. Esta é a história de Clarice, uma mulher que descobriu que o amor verdadeiro não sempre chega de onde esperamos, mas de onde mais precisamos.

    Se você gosta de histórias de amor e redenção, não esqueça de se inscrever no canal Contos de Época. Publicamos novos relatos todos os dias. Deixe seu like se esta história tocar seu coração e conte nos comentários de onde você nos ouve e em que momento do dia nos acompanha. O sol de Abril caía sobre a pequena vila de Santo Amaro da Purificação, com uma luz dourada que fazia brilhar os telhados de barro vermelho e as paredes caiadas dos sobrados coloniais.

    Era uma tarde tranquila de 1888 e na pequena casa ao final da rua das flores, Clarice Almeida terminava de bordar os últimos detalhes de uma toalha de altar encomendada pela igreja de Nossa Senhora da Purificação. Seus dedos se moviam com a precisão que só anos de prática podem dar, e seus olhos verdes se concentravam em cada ponto com a dedicação que a havia tornado uma das rendeiras mais requisitadas de toda a região.

    A almofada de Bilros descansava em seu colo, os fios de linho irlandês entrelaçando-se em padrões delicados que pareciam surgir como por magia sob suas mãos hábeis. Clarice tinha 23 anos e um semblante de traços delicados, emoldurado por cabelos castanhos ondulados que levava presos em um coque simples, preso com pentes de tartaruga que haviam sido de sua mãe.

    Não era uma beleza deslumbrante daquelas que viravam cabeças nas procissões, mas havia nela uma doçura natural, uma bondade que transparecia em seu olhar e na forma gentil como sorria. Sua pele clara, ligeiramente rosada pelo calor da tarde baiana, contrastava com o vestido azul marinho de algodão que usava, simples, mas impecavelmente limpo e bem cuidado.

    Era órfan desde os 15 anos, quando a febre amarela havia devastado a região, levando seus pais com poucos dias de diferença. Meu pai, Joaquim Almeida, era carpinteiro naval no porto de Cachoeira e sua mãe, dona Inês, bordadeira como ela. Desde então, Clarice havia vivido com sua tia Benedita, irmã mais velha de seu pai, que a havia acolhido com amor maternal, e lhe ensinara os segredos das rendas de Bilro, que as mulheres portuguesas do recôncavo guardavam como tesouro.

    Tia Benedita havia morrido há um ano e meio, deixando Clarice verdadeiramente sozinha no mundo. A perda havia sido devastadora. Benedita era tudo o que lhe restava de família, sua única conexão com o passado, seu único refúgio. Durante meses, Clarice havia chorado sua ausência cada noite, aferrando-se às memórias, como a um salvavidas que a impedisse de afundar no oceano de solidão que a cercava. A pequena casa onde vivia era alugada ao Senr.

    Gonçalves, dono de uma venda na praça, e o aluguel consumia boa parte do que ganhava com suas rendas e bordados. Clariss trabalhava desde antes do amanhecer até bem entrar à noite. Seus dedos sempre ocupados, sua almofada de birros nunca descansando. Era difícil, exaustivo, mas ao menos era dela. Ao menos tinha um propósito.

    Ao menos não dependia da caridade alheia. E então havia chegado Fernando. Dr. Fernando Augusto Ribeiro era o filho do comendador Augusto Ribeiro, um dos comerciantes mais prósperos da Bahia, exportador de açúcar e fumo para a Europa. Aos 29 anos, Fernando era um homem de aparência distinta, cabelos louros, que herdara da mãe francesa, olhos claros e porte refinado.

    havia estudado direito em Recife e retornado a Santo Amaro havia 2 anos, trazendo consigo os modos polidos da capital e uma reputação de homem culto e promissor. Havia conhecido Clarice na Igreja de Nossa Senhora da Purificação numa missa dominical há 8 meses. Ela estava entregando ao padre Sebastião uma toalha de altar que havia bordado como promessa.

    E Fernando, que assistia a missa ao lado de sua mãe, dona Eugênia, havia ficado impressionado com a delicadeza do trabalho. Aproximara-se após a missa, apresentara-se com cortesia impecável e perguntara se ela aceitaria fazer o enxoval completo para sua irmã mais nova, que se casaria em breve. Clarice não podia acreditar. Um homem de sua posição, filho do comendador, interessado em seu trabalho. Mas Fernando não parara por aí.

    Voltara à casa dela para discutir os detalhes do enxoval. Depois voltara para ver o progresso, depois apenas para conversar. sempre acompanhado por um escravo, sempre respeitoso, sempre dentro dos limites da propriedade. Lentamente, o que começara como uma relação de cliente e artesã transformara-se em algo mais.

    Fernando falava com ela sobre poesia, sobre os livros que lia, sobre suas ambições de se tornar promotor público. Trazia-lhe pequenos presentes, um livro de poemas, uma caixa de bombons de cacau da fazenda Vitória, um lenço de seda que, segundo ele, combinaria perfeitamente com seus olhos verdes. Clarice havia se enamorado.

    Como não se enamorar? Fernando representava tudo o que ela havia perdido, segurança, companhia, a promessa de não estar mais sozinha. Representava um futuro que ia além da solidão de sua pequena casa, além das noites intermináveis de trabalho, além da incerteza de cada mês ao tentar juntar dinheiro suficiente para o aluguel.

    Quando Fernando lhe pedira em casamento seis meses atrás, numa tarde chuvosa de outubro, Clarice havia chorado de alegria. Ele se ajoelhara diante dela, segurara suas mãos calejadas pelo trabalho e dissera: “Clarice, sei que não tenho fortuna para lhe oferecer como outros homens de minha posição poderiam ter, mas tenho um coração que bate somente por você.

    quer me fazer o homem mais feliz desta província e aceitar ser minha esposa? Ela havia aceitado com o coração transbordando. O noivado fora anunciado na igreja, embora de forma discreta. Dona Eugênia, mãe de Fernando, não estivera presente, alegando uma indisposição, mas Fernando assegurara a Clarice que sua mãe apenas precisava de tempo para se acostumar com a ideia.

    O comendador tampouco havia aparecido, mas Fernando explicara que ele estava viajando a negócios em Salvador. A cerimônia estava marcada para o final de maio, em apenas cinco semanas. Clarice já havia começado a costurar seu próprio vestido de noiva.

    Um trabalho delicado em linho branco, com rendas de birro que ela mesma fazia. Cada ponto uma oração de gratidão e esperança. E então, três meses atrás havia acontecido algo que mudaria tudo. Fora numa noite quente de janeiro, após a festa de São Sebastião, na fazenda do Sampaio, vizinhos do Comendador.

    Fernando havia insistido que Clarice o acompanhasse, dizendo que era hora de ela começar a ser apresentada à sociedade como sua futura esposa. A festa havia sido magnífica, com lanternas japonesas iluminando os jardins, músicos tocando modinhas e valsas, mesas fartas com iguarias, vatapá, moqueca, cocadas, bolos de tapioca.

    Clarice sentira-se deslocada entre as senhoras de vestidos de seda francesa e joias cintilantes. Mas Fernando permanecera ao seu lado a noite toda, atencioso e orgulhoso. Haviam bebido champanhe, trazido da Europa. Haviam dançado sob as estrelas, haviam rido. Quando a festa terminara, já passava da meia-noite. Fernando oferecera-se para acompanhá-la até em casa em sua charrete.

    A noite estava morna, perfumada pelo cheiro de jasmim e pelos ventos que vinham da baía de todos os santos. A lua cheia iluminava os canaviais que se estendiam ao longo da estrada. Ao chegarem à casa de Clarice, Fernando descera da charrete e ajudara-a a descer, mas não soltar a sua mão. Seus olhos claros brilhavam sob a luz da lua e havia algo diferente em seu olhar, algo intenso que Clarice nunca vira antes.

    “Clarice”, ele murmurara, puxando-a para mais perto. “Faltam apenas alguns meses para sermos marido e mulher. Alguns meses que parecem uma eternidade quando estou ao seu lado. Ela sentira o coração acelerar, sentira o calor subir por suas faces. Fernando, não devemos. Já somos prometidos um ao outro. Ele continuara. Sua voz rouca persuas.

    Diante de Deus e dos homens, não há nada de errado em antecedermos o que em breve será nosso direito, nosso dever sagrado como esposos. Clarice, ingênua e apaixonada, acreditara nele. Acreditara porque queria acreditar, porque precisava acreditar, porque Fernando era seu futuro, sua salvação, sua única esperança de não morrer sozinha e esquecida como tantas mulheres sem família que ela conhecera.

    Naquela noite, sob a luz da lua baiana, Clarice havia se entregado a ele. Havia cruzado a linha que a sociedade traçava entre as mulheres respeitáveis e as outras, mas fizera-o com amor, com confiança, convencida de que estavam unidos para sempre. Agora, três meses depois, Clarice sabia que estava grávida. Os sinais eram inconfundíveis, as náuseas que a assaltavam todas as manhãs, obrigando-a a correr para o quintal para vomitar as escondidas, o atraso de seu ciclo menstrual já na terceira lua, a sensibilidade em seus seios que doíam ao

    menor toque, a tontura súbita que a acometera ontem na feira, fazendo-a quase desmaiar diante da barraca de frutas de seu Matias, havia contado a Fernando Há duas semanas, num domingo após a missa. Esperara que ele se alegrasse, que adelantasse a cerimônia. Em vez disso, ele empalidecera como se tivesse visto um fantasma.

    Seus olhos claros, normalmente tão calorosos, haviam ficado frios, distantes. “Tem certeza?”, ele perguntara. E havia medo em sua voz. Sim”. Clarice respondera, confusa com sua reação. “Mas, Fernando, isso é maravilhoso. Vamos ser pais. Podemos casar já na próxima semana?” E não. Ele a interrompera bruscamente.

    “Não conte a ninguém. Ninguém pode saber. Espere até depois do casamento.” Claro, embora algo na reação de Fernando a deixasse inquieta, uma pontada de medo que ela tentava sufocar. Ele não viera visitá-la desde então. Enviara mensagens através de seu escravo Tobias, dizendo que estava ocupado com assuntos urgentes do comendador, que viajara a Salvador, que retornaria em breve. Mas hoje, finalmente, ele estava vindo.

    Tobias aparecera pela manhã com um bilhete. Preciso falar contigo. Irei à tua casa às 5 horas sozinho, Fernando. Clarice olhou para o relógio de parede que havia sido de tia Benedita. Eram 4:45. Seu coração batia acelerado, uma mistura de ansiedade e esperança. Talvez Fernando viesse para adelantar a data do casamento.

    Talvez quisesse finalmente apresentá-la formalmente à sua família. Talvez a porta se abriu sem que ela precisasse atender e Fernando entrou. Mas não era o Fernando que ela conhecia. Este homem que entrava em sua casa tinha o rosto tenso, pálido, suor na testa. Apesar da brisa fresca da tarde.

    Suas mãos tremiam ligeiramente e ele evitava olhá-la diretamente nos olhos. Fernando Clarice disse, deixando a almofada de birros de lado e levantando-se. Que bom que você preciso falar com você. Ele a interrompeu, fechando a porta atrás de si, com força excessiva. O tom de sua voz fez algo gelado percorrer a espinha de Clarice. Ela sentiu as pernas fraquearem, mas permaneceu de pé, as mãos entrelaçadas à frente do corpo numa tentativa de esconder o tremor.

    Estou ouvindo ela disse, sua voz mais firme do que esperava. Fernando caminhou até a janela, olhando para a rua sem realmente ver. O silêncio se alongou, pesado, sufocante como o ar antes de uma tempestade tropical. “Meu pai,” Ele começou finalmente, ainda sem olhá-la, arranjou meu casamento com outra mulher. As palavras caíram sobre Clarice como um jarro de água fria.

    Ela piscou confusa, não podia ter ouvido direito. O quê? Fernando finalmente se virou para encará-la, e em seus olhos ela viu algo que a fez sentir náuseas mais fortes que aquelas da gravidez. Culpa, medo e, pior que tudo, covardia. a filha do Barão de São Francisco. Ele continuou, as palavras saindo apressadas agora, como se quanto mais rápido falasse, menos dolorosas elas se tornassem.

    O barão é o maior produtor de açúcar do recôncavo. Meu pai leva meses negociando esta aliança. A fusão dos negócios, as terras, os engenhos é um império, Clarice. Eu não sabia nada até a semana passada, quando meu pai me chamou a Salvador e me apresentou o contrato. Clarice sentiu o chão se mover sob seus pés. Mas nós estamos prometidos”, ela disse, sua voz quebrando.

    “Vamos nos casar em cinco semanas. Há anúncio na igreja. Ah, eu sei.” Fernando a interrompeu, passando as mãos pelo cabelo louro num gesto de frustração. “Eu sei, mas meu pai é inflexível. diz que este casamento é essencial para o futuro da família, que é meu dever, que se eu recusar, ele me deserdará completamente.

    Perderei tudo, Clarice. Tudo e eu? A voz de Clarice subiu, a dor transformando-se em algo mais agudo, mais desesperado. O que acontece comigo? Com as promessas que você me fez? Fernando recuou um passo como se temesse que ela o tocasse. Eu eu vou providenciar dinheiro o suficiente para que você possa se estabelecer em Salvador ou em Recife. Começar uma nova vida.

    Ninguém lá conhecerá sua história. Clarice olhou para ele com uma mistura de descrença e horror crescentes. Dinheiro. Você acha que dinheiro resolve isto? É o melhor que posso fazer. Ele murmurou, e até sua voz parecia menor agora, encolhida. E então Clarice se lembrou. O bebê, o filho que crescia dentro dela, o filho deste homem que agora a olhava, como se ela fosse um problema inconveniente a ser resolvido com algumas moedas de ouro.

    “Fernando”, ela disse, sua voz mais firme agora, alimentada pela necessidade de proteger aquela vida minúscula. Estou grávida. Você se lembra? Estou esperando seu filho. O rosto de Fernando contorceu-se em algo entre horror e pânico. Ele deu mais um passo para trás, como se ela fosse contagiosa. Você não pode ter esse bebê.

    As palavras pairaram no ar, obscenas em sua crueldade casual. O quê? Clarice sussurrou. Você precisa se livrar dele. Fernando disse sua voz baixa, mas firme agora, tomando uma decisão. Existem mulheres que sabem fazer essas coisas, parteiras que que resolvem esses problemas. Eu pagarei. Pagarei bem para que seja feito com segurança. Clarice sentiu Billy subir em sua garganta.

    Instintivamente, suas mãos foram para o ventre ainda plano, protegendo. Você está me pedindo para matar nosso filho? Não é um filho ainda, Fernando respondeu rapidamente. É apenas É apenas um problema que pode ser resolvido. Clarice, seja sensata. Como você vai criar uma criança sozinha, sem marido, sem família, sem meios? O bebê terá uma vida miserável. E você será completamente ostracizada pela sociedade.

    A sociedade que você tanto preza, Clarice disse. E havia amargura em sua voz agora, uma dureza que ela não sabia que possuía. A sociedade que é mais importante para você do que eu, do que nosso filho. Fernando apertou os lábios. Não torne isso mais difícil do que já é para você. Clariss respondeu: “Não torne isso mais difícil para você”.

    Ele tirou uma bolsa de couro do bolsinho interno de seu palitó e a colocou sobre a mesa ao lado da almofada de Bilrus. O som das moedas de ouro batendo contra a madeira ecoou obscenamente alto na pequena sala. Há ouro suficiente aqui para você viver confortavelmente por um ano?”, ele disse, “Talvez dois, se for cuidadosa, use para pagar pela pela solução e depois use para recomeçar em outro lugar onde ninguém a conheça.

    ” Clarice olhou para a bolsa como se fosse uma serpente venenosa. “Saia da minha casa!” Fernando piscou surpreso. Clarice, seja razoável. Saia! Ela gritou e a força em sua voz o fez recuar. saia da minha casa agora, antes que eu esqueça que fui criada para ser uma senhora e jogue essa bolsa em seu rosto.

    Fernando a olhou por um longo momento e Clarice viu passar em seus olhos um lampejo de algo que poderia ter sido arrependimento. Mas então ele endureceu a expressão, pegou a bolsa da mesa, deixou-a cair no chão aos pés dela e saiu sem olhar para trás. A porta se fechou e Clarice ficou sozinha. Por um longo momento, ela apenas ficou de pé, olhando fixamente para a porta fechada, incapaz de processar o que havia acabado de acontecer.

    Então, suas pernas cederam e ela caiu de joelhos no chão de tábuas, um soluço rasgando sua garganta. Chorou. Chorou como não chorava desde a morte de tia Benedita. chorou pela ingenuidade que a havia feito acreditar que um homem como Fernando Ribeiro pudesse realmente amá-la. Chorou pelo futuro que havia imaginado e que agora jazia em pedaços a seus pés, como porcelana quebrada.

    Chorou pela criança inocente que crescia em seu ventre, já condenada pela sociedade antes mesmo de nascer. Quando as lágrimas finalmente cessaram, a noite havia caído sobre Santo Amaro. Clarice ficou sentada no chão, abraçando os joelhos, olhando para a bolsa de ouro que Fernando havia deixado. Podia ouvi-la, as moedas te lintando suavemente cada vez que a brisa da noite entrava pela janela.

    O preço de seu silêncio, o preço de sua dor, o preço de uma vida. Ela pensou na sugestão de Fernando, nas mulheres que sabiam fazer essas coisas. Conhecia uma, na verdade, tia Eduarda, que morava na beira do rio, numa cabana isolada, diziam que ela tinha conhecimento de ervas, de chás, que podiam resolver problemas de moças em apuros.

    Mas enquanto Clarice pensava nisso, suas mãos inconscientemente se moveram para cobrir seu ventre. dentro dela, tão pequeno que ainda não podia ser visto, havia uma vida, seu filho, parte dela. Como poderia? Não. Não importava o que Fernando dissesse, não importava o que a sociedade pensasse. Ela não faria isso, não podia. Lentamente, Clarice se levantou.

    Seus olhos caíram sobre a almofada de Bilros, sobre a toalha de altar, que estava quase terminada. Quanto tempo ainda teria antes que sua barriga começasse a aparecer? Dois meses, três? precisava trabalhar, precisava economizar cada centavo, porque quando a verdade se tornasse impossível de esconder, perderia tudo. Nos dias que se seguiram, Clarice tentou manter uma aparência de normalidade.

    Acordava antes do amanhecer, trabalhava em suas rendas, entregava encomendas, mas já podia sentir as mudanças, as olhadas suspeitas de dona Mariquinha, sua vizinha, quando vomitava no quintal pela manhã, os olhares especulativos de algumas senhoras na igreja no domingo. E então, duas semanas depois da conversa com Fernando, a bomba explodiu. Dona Eli, a rendeira viúva que havia sido amiga de tia Benedita e a única verdadeira amiga que Clarice tinha, apareceu em sua porta numa manhã de sábado, o rosto grave.

    “Clarice”, ela disse, “sem preâmbulos. Preciso te contar algo. É sobre Fernando Ribeiro. O estômago de Clarice se contraiu. O que foi?” Ele se casou ontem em Salvador com a filha do Barão de São Francisco. Foi uma cerimônia enorme na Catedral Basílica com o arcebispo e toda a alta sociedade baiana. E já estão espalhando, Clarice.

    Estão dizendo que você tentou forçá-lo a um casamento usando artimanhas que quando não conseguiu espalhou mentiras sobre ele. Clarice sentiu o mundo girar. Fernando não apenas a abandonara, ele estava destruindo sua reputação, garantindo que ninguém acreditasse em sua versão da história. Tem mais. Dona Eulália continuou pegando as mãos de Clarice.

    O padre Sebastião anunciou ontem após a missa que teu noivado com Fernando foi dissolvido por incompatibilidade de circunstâncias e pediu que os fiéis rezassem por tua redenção de caminhos equivocados. Clarice fechou os olhos. A igreja, o padre Sebastião, que ela conhecia desde criança, que havia batizado ela e seus pais até ele se voltara contra ela. Há mais uma coisa, dona Eulália disse, e sua voz estava cheia de dor. O Senr.

    Gonçalves passou aqui mais cedo. Disse que está despejando você. Deu prazo de uma semana para que desocupe a casa. disse que não pode manter em suas propriedades alguém de moral questionável. Foi o golpe final. Clarice sentiu seus joelhos cederem, mas dona Eulália assegurou. Vem comigo. A mulher mais velha disse firmemente. Vem ficar na minha casa.

    Não é grande, mas há espaço para você. Clarice queria agradecer, queria aceitar, mas as palavras não saíam. Apenas acenou com a cabeça lágrimas silenciosas rolando por suas faces. Naquela semana, Clarice mudou-se para a pequena casa de dona Eulália, levando apenas sua almofada de Brus, algumas roupas e os poucos pertences que havia herdado de sua família.

    A bolsa de ouro de Fernando permaneceu escondida sob uma tábua solta do chão de sua antiga casa. Ela não queria aquele dinheiro, não queria nada que viesse dele, mas a mudança de casa não deteve os rumores. Eles se espalharam pela vila como fogo em canvial seco. Clarice, a costureira órfã que havia seduzido o Dr.

    Fernando Ribeiro, filho do comendador, tentando prendê-lo num casamento. Clarice, que havia inventado mentiras quando ele, homem honrado que era, percebera sua verdadeira natureza e terminara o noivado. As encomendas secaram. As senhoras da sociedade, que antes encomendavam seus enxovais e toalhas, agora cruzavam a rua quando haviam. Na igreja, no domingo seguinte, um círculo de vazio se formou ao seu redor no banco.

    Ninguém se sentava perto dela, ninguém a cumprimentava. Após a missa, quando Clarice se aproximou para falar com o padre Sebastião sobre uma toalha de altar que ele havia encomendado, o padre a olhou com frieza. “Senhorita Almeida”, ele disse, sua voz ecoando no adro da igreja. Seria mais apropriado que a senhorita buscasse primeiro a penitência por seus pecados antes de buscar trabalho na casa de Deus. A igreja não precisa mais de seus serviços. Foi como um tapa na cara.

    Clarice sentiu todas as pessoas ao redor olhando, sussurrando, julgando. Sentiu a vergonha queimar suas faces, descer por seu pescoço. Mas mais forte que a vergonha era a raiva, uma raiva justa que borbulhava em seu peito. Meus pecados, padre, ela ouviu se dizer. Sua voz tremendo, mas clara. O pecado de acreditar nas promessas de um homem, o pecado de amar alguém que jurou me amar de volta.

    O padre Sebastião franziu o senho. A senhorita esquece seu lugar. Vá agora, antes que eu precise pedir que a removam. Clarice saiu da igreja de cabeça erguida, mas assim que virou a esquina, longe dos olhares, desmoronou contra uma parede, soluçando. Estava sozinha, completamente sozinha, sem família, sem amigos além de dona Eulália, sem trabalho, sem reputação.

    Em três meses, talvez quatro, sua barriga começaria a crescer. E então até dona Eulália, por mais bondosa que fosse, teria que pedir que ela fosse embora para proteger sua própria reputação. Naquela noite, Clarice caminhou até a beira do rio Paraguaçu, que cortava Santo Amaro com suas águas escuras e profundas.

    A lua estava cheia, refletindo na superfície como prata líquida. Era bonito, pacífico, seria tão fácil. Apenas alguns passos para dentro da água, deixar que a correnteza a levasse. Acabar com a dor, com a vergonha, com o medo do futuro. Seu filho nunca nasceria para sofrer o estigma de ser bastardo.

    Ela nunca teria que ver nos olhos das pessoas o julgamento, o desdém. Clarice deu um passo em direção à água, depois outro. A água fria lambeu seus tornozelos, molhando a barra de sua saia. Mais um passo e estava até os joelhos. Menina, o que você pensa que está fazendo? A voz grave e preocupada a fez parar.

    Clarice se virou e viu uma mulher negra, robusta, de idade indefinida, parada na margem. Usava um turbante vermelho e um vestido simples de chita. Seus olhos, mesmo na escuridão, brilhavam com uma intensidade que parecia ver através dela. “Saia daí agora”, a mulher ordenou. Sua voz deixando claro que não era um pedido. Clarice obedeceu automaticamente, saindo da água com as pernas trêmulas.

    A mulher a observou, depois suspirou profundamente. “Nhá, Josefa!”, ela se apresentou. E você deve ser a moça de quem todos estão falando, Clarice Almeida. Clarice acenou com a cabeça, incapaz de falar. Venha. Josefa disse, pegando seu braço com firmeza surpreendente: “Vou te fazer um chá e você vai me contar tudo e depois vamos ver o que pode ser feito”.

    E assim, na pequena cabana de Nhá Josefa, antiga escrava liberta, que agora ganhava a vida como cozinheira e quituteira, Clarice contou tudo. Falou pela primeira vez sobre Fernando, sobre as promessas, sobre a noite de janeiro, sobre o bebê, sobre o abandono. Nhá, Josa, ouviu tudo em silêncio, seus olhos sábios nunca deixando o rosto de Clarice. Quando ela terminou, a mulher mais velha suspirou.

    Ess menino de cabelo amarelo vai ter o que merece mais cedo ou mais tarde. Ela disse, o que fazemos de ruim volta para nós. Sempre volta. Mas agora o que importa é você e essa criança. Você tem dinheiro? Clarice hesitou, depois acenou que sim. Há uma bolsa que ele deixou, mas eu não quero besteira. A Josefa a interrompeu.

    É o mínimo que ele devia fazer. Você vai precisar desse dinheiro. Mas não pode ficar aqui, menina. As línguas venenosas dessa vila vão te destruir antes mesmo do bebê nascer. Eu sei. Clarice sussurrou. Mas para onde eu vou? Minha Josefa ficou em silêncio por um longo momento, pensando. Então seus olhos se iluminaram. Tem um lugar, ela disse lentamente.

    Mais para o interior, o engenho São Teodoro pertence ao coronel Teodoro Vasques de Albuquerque. Ele é viúvo, tem uma menina pequena. Dizem que ele libertou todos os escravos dele antes mesmo da lei Áurea. É um homem justo pelo que ouvi. Talvez, talvez ele precise de alguém para cuidar da casa, para ensinar a menina a fazer rendas e bordados.

    Senhoras sempre precisam aprender essas artes. Era uma esperança frágil, mas era uma esperança. Clar-se a ela como um náufrago, a um pedaço de madeira. “Você acha que ele me aceitaria?”, ela perguntou, “Sabendo, sabendo da minha situação?” Homens do interior não ligam tanto para fofocas da vilaha Josefa disse. E se você for apresentada por alguém de confiança, deixa comigo. Tenho uma prima que trabalha lá na cozinha.

    Vou mandar uma carta com você. Nos três dias seguintes, Clarice se preparou, reuniu seus poucos pertences, despediu-se de dona Eulália com promessas de escrever, foi buscar a maldita bolsa de ouro que Fernando deixara. E numa manhã de maio, com sete meses de gravidez ainda não visível sob suas roupas largas, Clarice Almeida subiu numa carroça que a levaria pelo interior do recôncavo em direção ao Engenho São Teodoro, em direção ao desconhecido, em direção, embora ela ainda não soubesse, ao homem que mudaria sua vida para sempre. Se você está gostando desta história,

    não esqueça de se inscrever no Contos de Época e ativar o sininho para não perder nenhum capítulo. Deixe seu like e comente o que você está achando da história de Clarice até agora. Seguimos. A carroça chacoalhava pelos caminhos de terra vermelha que cortavam o interior do recôncavo baiano, levantando nuvens de poeira que o vento da manhã dispersava sobre os canaviais intermináveis.

    Clarice segurava-se firme na lateral de madeira, sentindo cada solavanco reverberar em seu corpo já cansado. Ao seu lado, o carroceiro, seu Damião, um homem negro de cabelos brancos e rosto marcado pelo sol, mantinha silêncio respeitoso, apenas assobiando baixinho uma modinha enquanto guiava os bois. haviam partido de Santo Amaro ao raiar do dia, quando a névoa ainda cobria o rio Paraguaçu como um sudário de algodão.

    Agora, duas horas depois, o sol já queimava alto no céu azul intenso, sem uma nuvem sequer para oferecer alívio. Maio era assim no recôncavo, quente, seco, poeirento, aguardando as chuvas de junho que trariam vida nova aos canaviais. Clarice ajeitou o chale sobre os ombros, mais por hábito que por necessidade, no calor escaldante. Levava consigo apenas uma trouxa de roupas, sua preciosa almofada de burros cuidadosamente envolta em pano de algodão, e a carta de recomendação de Iná Josefa para sua prima, tia Rosa, que trabalhava no Engenho São Teodoro. A bolsa de ouro de Fernando estava escondida numa bolsinha de couro presa à

    cintura sob as camadas de saias. Eram 30 moedas de ouro. O preço de Judas, pensara Clarice amargamente ao contá-las. À medida que se afastavam de Santo Amaro, Clarice sentia um misto de alívio e terror. Alívio por deixar para trás os olhares julgadores, os sussurros maldosos, a humilhação constante, terror pelo desconhecido que a ruardava.

    E se o coronel Teodoro não a aceitasse? E se tia Rosa não conseguisse convencê-lo? Para onde iria então com três meses de gravidez e uma reputação destruída? Ali na frente, moça seu Damião apontou com o queixo para uma elevação no horizonte. Já dá para ver as chaminéis do engenho. O São Teodoro é um dos maiores da região.

    Dizem que o coronel é homem justo, que libertou seus cativos antes mesmo da princesa assinar a lei. Coisa rara por essas bandas. Clarice assentiu, tentando enxergar através da poeira. Aos poucos, conforme se aproximavam, a paisagem se revelou. O engenho São Teodoro era de fato impressionante. A casa grande erguia-se no topo de uma colina suave, um casarão colonial de dois andares, paredes caiadas de branco imaculado, janelas altas com venezianas azuis, telhado de barro vermelho.

    Uma varanda ampla cercava toda a frente da construção, sustentada por colunas grossas de pedra. Ao redor do casarão estendia-se um complexo impressionante. Amoenda a vapor com sua chaminé de tijolos, a casa de purgar, onde o açúcar era refinado, os depósitos, a capela com sua torre cineira, as antigas cenzalas agora transformadas em casas para os trabalhadores livres, e além, até onde a vista alcançava, os canaviais ondulando sob o vento como um mar verde dourado.

    Mas o que mais chamou a atenção de Clarice foi o jardim. Mesmo de longe podia ver a profusão de cores, hibiscos vermelhos, jasmins brancos, rosezeiras que certamente haviam sido trazidas da Europa, palmeiras imperiais ladeando a alameda de entrada. Alguém cuidava daquele jardim com amor.

    Alguém que, apesar de viver num engenho, valorizava a beleza. O coronel mandou plantar esse jardim todo depois que a esposa morreu. Seu Damião comentou como se lesse seus pensamentos. Dizem que era o lugar favorito de dona Amélia, que Deus a tenha. Morreu de tísica, coitada, 3 anos já. O coronel nunca mais foi o mesmo. A carroça seguiu pela alameda de entrada, ladeada pelas palmeiras imperiais, que se erguiam como sentinelas verdes.

    Trabalhadores nos canaviais ao redor paravam para observar a passagem, rostos negros e mulatos brilhando de suor o sol inclemente. Clarice notou que todos pareciam bem alimentados, suas roupas remendadas, mas limpas. tão diferente das histórias que ouvia sobre outros engenhos, onde exescravos trabalhavam em condições apenas marginalmente melhores que na época do cativeiro.

    A carroça parou em frente a uma escadaria de pedra que levava à varanda principal. Clarice desceu com ajuda de seu Damião, suas pernas trêmulas após horas de viagem. mal havia recuperado o equilíbrio quando uma porta lateral se abriu e uma mulher negra, alta e robusta, de idade, que poderia ser 50 ou 70 anos, emergiu secando as mãos num avental branco.

    Nhá Josefa mandou avisar que você vinha. A mulher disse, sem preâmblos, seus olhos examinando Clarice de cima a baixo, com a precisão de quem avalia mercadoria no mercado. Sou Rosa, cozinheira daqui, prima da Josefa. Muito prazer, dona Rosa. Clarice fez uma reverência respeitosa. Sou Clarice Almeida. Sua prima foi muito bondosa em Sei tudo.

    Rosa a interrompeu, não indicadamente, mas de forma que deixava claro que não havia tempo para formalidades excessivas. Josefa me escreveu: “Sei da sua situação. Sei do menino de cabelo amarelo que te prometeu casamento e depois fugiu como rato. Sei do bebê que você carrega”. Clarice sentiu o sangue drenar de seu rosto.

    Eu Calma, menina, Rosa disse, sua voz suavizando um pouco. Não estou julgando. Já vi muita coisa nessa vida, coisas piores que uma moça enganada por homem sem palavra. Mas preciso que você entenda uma coisa. O coronel não sabe, ninguém aqui sabe por enquanto. Eu não tenho intenção de mentir, Clarice disse rapidamente. Se o coronel perguntar, ele não vai perguntar.

    Rosa disse firmemente. Homens nunca perguntam essas coisas. O que precisamos é encontrar uma posição para você aqui, algo que justifique sua presença. Você sabe fazer rendas, bordados? Sim, sorra. Aprendi com minha tia, que aprendeu com mulheres portuguesas. Rosa a sentiu satisfeita. Bom, assim Helena precisa aprender essas artes. Tem 8 anos já e não sabe fazer nenhum ponto direito.

    A falecida dona Amélia ia começar a ensiná-la, mas enfim. Você pode ser a professora dela, ensinar rendas, bordados, boas maneiras de senhora. Em troca tem casa, comida e um pequeno salário. Era mais do que Clarissa esperava, muito mais. “Eu aceitaria com gratidão”, ela disse, sentindo lágrimas picar em seus olhos. “Mas e quando? Quando meu estado ficar visível?” Rosa olhou para a barriga ainda plana de Clarice, escondida sob as camadas de saias. Estamos em maio, tem três meses.

    Você disse? Sim. Então, mais dois, três meses até começar a aparecer de verdade. Tempo suficiente para você provar seu valor aqui. Tempo suficiente para o coronel ver que você é trabalhadora, honesta, boa com a menina. Aí, quando chegar a hora, a gente vê o que fazer. Não era um plano, era apenas um adiamento do inevitável.

    Mas Clarice não estava em posição de escolher. “Obrigada”, ela sussurrou. “Não me agradeça ainda”, Rosa disse sec. “Vem, vou te mostrar seu quarto e depois te levar para conhecer a Sinzinha”. O quarto que Rosa mostrou a Clarice ficava no segundo andar do casarão, num corredor de quartos de hóspedes que claramente não eram usados há anos.

    Era pequeno, mas limpo, com uma cama de ferro, uma cômoda, uma cadeira e uma janela que dava para os jardins. Simples, mas infinitamente melhor que o canto apertado que ocupava na casa de dona Eulália. Descanse um pouco, Rosa instruiu. Lave a poeira da viagem. Depois do almoço te levo para conhecer a menina.

    O coronel está nos canaviais, só volta no fim da tarde. Quando Rosa saiu, Clarice finalmente permitiu se desmoronar na cama. Seu corpo inteiro doía da viagem, mas mais que isso, sua alma doía. Doía de tudo que havia perdido, de tudo que nunca teria. chorou silenciosamente, o rosto enterrado no travesseiro que cheirava a alfazema, até que o cansaço a venceu e ela caiu num sono agitado. Acordou com batidas suaves na porta.

    A luz que entrava pela janela havia mudado de ângulo. Devia ser meio da tarde. Clarice se levantou apressadamente, alisou a saia amarrotada, prendeu os cabelos que haviam se soltado durante o sono. “Entre!”, ela chamou. Rosa abriu a porta, trazendo uma bacia de água fresca e toalhas limpas para você se refrescar.

    Depois desce paraa sala de costura. É no final do corredor à esquerda. Assimzinha te espera lá. Clarice se lavou rapidamente, trocou o vestido empoeirado da viagem por outro azul escuro com gola branca que havia sido de tia Benedita. prendeu os cabelos em um coque severo, beliscou as bochechas para trazer um pouco de cor e desceu.

    A sala de costura era um cômodo luminoso, com janelas amplas que davam para o jardim, mas o que realmente a definiu foram os detalhes. Uma poltrona de leitura perto da janela, uma estante com livros, uma grande mesa de trabalho coberta com tecidos, linhas, agulhas. E numa cadeira pequena, sentada, muito ereta, com as mãos cruzadas no colo, estava uma menina, Helena Vasques de Albuquer, que tinha 8 anos, mas parecia mais nova, pequena e delicada como uma boneca de porcelana.

    Cabelos louros e lisos caíam por suas costas, presos apenas por uma fita azul. Olhos azuis do mesmo tom do céu da Baia observavam Clarice com uma mistura de curiosidade e apreensão. Usava um vestido rosa claro, impecavelmente limpo, mas claramente feito por mãos menos habilidosas. As costuras eram irregulares, o acabamento descuidado. “Helena”, Rosa disse suavemente, entrando atrás de Clarice.

    “Esta é a senhorita Clarice Almeida. Ela vai te ensinar a fazer rendas e bordados, como sua mamãe fazia. A menina piscou e Clarice viu seus olhos se encherem de lágrimas antes que ela as piscasse de volta. Como mamãe? Ela repetiu. Sua voz tão suave que mal se ouvia. Clarice sentiu seu coração apertar. reconhecia aquela dor nos olhos da criança, a dor da perda, da ausência que nunca se preenche completamente.

    Ela mesma conhecia bem aquela dor. “Sim”, Clarice disse, ajoelhando-se para ficar na altura dos olhos da menina. “Ouvi dizer que sua mamãe era muito talentosa com a agulha. Gostaria de aprender? Assim, você pode fazer coisas bonitas como ela fazia”.

    Helena a estudou por um longo momento, aqueles olhos azuis parecendo ver muito além da superfície. Então, lentamente acenou que sim. Bom, Clarissu, então vamos começar. Você trouxe sua almofada de Bilros? A menina pareceu confusa. O que é isso? Clarice sentiu um aperto. Dona Amélia não havia tido tempo de ensinar sua filha antes de morrer. É uma almofada especial que usamos para fazer rendas, mas não se preocupe, vou ensinar tudo desde o começo.

    Hoje, que tal começarmos com algo mais simples? Um bordado básico? Nas horas que se seguiram, Clarissa ensinou Helena os pontos básicos de bordado. A menina era atenta, concentrada, seus dedos pequenos lutando para dominar a agulha. Cometia erros, ficava frustrada, mas não desistia. E lentamente, muito lentamente, começou a falar.

    falou sobre sua mãe, sobre como ela costumava costurar naquela mesma sala cantando baixinho, sobre como seu pai ficara silencioso após a morte dela, como ele trabalhava do amanhecer ao anoitecer nos canaviais, como parecia estar sempre ausente, mesmo quando presente, sobre como era solitária naquela casa grande, com apenas Rosa e os outros empregados para companhia.

    E Clarice ouviu, realmente ouviu, reconhecendo em cada palavra a solidão que ela mesma conhecia tão bem. Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, havia um entendimento tácito entre elas, duas almas solitárias que se reconheciam. “Senrita Clarice?” Helena perguntou quando começavam a guardar os materiais. “Sim, querida.

    Você vai ficar, não vai embora como a outra professora? Clarice sentiu um nó na garganta. “Vou ficar o máximo que puder”, ela prometeu e rezou para que fosse verdade. Foi então que ouviram passos pesados no corredor, passos de botas masculinas, firmes, decididos. Helena se impertigou imediatamente, suas mãos indo nervosamente para alisar a saia. “É papai”, ela sussurrou.

    A porta se abriu e, pela primeira vez Clarice viu o coronel Teodoro Vasques de Albuquerque. Ele era alto, devia ter mais de seis palmos com ombros largos de quem trabalha à terra. Apesar dos 42 anos, mantinha-se esguio e forte, cabelos escuros com fios prateados nas têmporas, curtos e ligeiramente despendeados.

    Olhos castanho escuros, profundos, que transmitiam inteligência e algo mais. Cansaço, talvez tristeza antiga. Usava roupas de trabalho, calças de brm, camisa branca com mangas arregaçadas, mostrando antebraços musculosos bronzeados pelo sol, botas de couro gastas. Não era bonito no sentido convencional, mas havia algo em sua presença que prendia a atenção.

    Porte aristocrático, mas sem arrogância, autoridade natural, mas temperada com algo que parecia bondade. Seus olhos foram primeiro para a filha Helena”, ele disse, e sua voz era grave, educada, mas havia nela uma distância que Clarice percebeu que a menina também sentia pelo modo como ela se encolheu ligeiramente. “Papai”, Helena respondeu baixinho.

    Só então os olhos do coronel se voltaram para Clarice. Ela se levantou rapidamente, alisando a saia num gesto nervoso. “Senhor”, ela fez uma reverência. Rosa apareceu na porta como se tivesse estado esperando do lado de fora. Coronel, esta é a senrita Clarice Almeida, a rendeira que comentei ontem, se lembra? Para ensinar assim. Os olhos de Teodoro estudaram Clarice por um momento que pareceu se estender por uma eternidade.

    Ela forçou-se a manter o olhar firme, a não demonstrar o nervosismo que roía seu estômago. “Senorita Almeida”, ele finalmente disse, inclinando a cabeça numa cortesia formal. Rosa mencionou que a senhora vem de Santo Amaro? Sim, senhor. E tenho experiência com ensino.

    Clarice hesitou apenas uma fração de segundo. Ensinei algumas meninas em Santo Amar o Senhor. Rendas de birro, bordados finos, trabalhos em linho. Não era exatamente mentira. Ela havia ensinado à filha de dona Eulália alguns pontos básicos. Teodoro a sentiu lentamente. Helena, ele se dirigiu à filha. O que acha da senhorita Clarice? A menina piscou claramente surpresa que sua opinião fosse solicitada.

    Ela é gentil, papai, e sabe muito sobre bordados. Ela hesitou, depois continuou numa torrente de palavras. E ela não grita quando erro, nem fica impaciente como a outra professora. E ela diz que vou aprender a fazer rendas como mamãe fazia. E entendo. Teodoro a interrompeu suavemente e havia o fantasma de um sorriso em seus lábios.

    Então olhou para Clarice novamente. Parece que a senhora causou boa impressão, senrita Almeida. Rosa já lhe explicou os termos. Sim, senhor. Então, bem-vinda ao Engenho São Teodoro. Espero que sua estadia seja proveitosa. Era uma formalidade, Clarice sabia, mas havia nelas uma cortesia genuína que a surpreendeu.

    Ele não fizera perguntas invasivas sobre seu passado, não questionara porque uma rendeira de Santo Amaro viria trabalhar num engenho isolado. simplesmente aceitara a presença dela baseado na recomendação de Rosa e na aprovação de sua filha. “Obrigada, senhor”, Clarice disse, “O alívio em sua voz era genuíno.” Teodoro acenou brevemente e saiu, seus passos pesados ecoando pelo corredor.

    Mas antes de sair completamente, Clarice o ouviu dizer algo a rosa no corredor. Sua voz baixa, mas ainda audível. Ela parece muito jovem e frágil. Certifique-se de que não trabalha demais e que se alimenta adequadamente. Palavras simples, mas que revelavam uma bondade que Clarice não esperava encontrar.

    Não depois de Fernando, não depois de toda a crueldade que experimentara. Aquela noite, durante o jantar servido na cozinha, o coronel jantava sozinho na sala de jantar formal, Clarice conheceu o resto da pequena equipe do engenho. Além de Rosa, havia Benedito, o capataz, um homem mulato de 40 anos, músculos marcados pelo trabalho pesado que gerenciava os trabalhadores nos canaviais.

    Havia Joaquina, jovem negra de 16 anos, que ajudava na limpeza da casa. E havia Zé do Carmo, velho negro de cabelos brancos, que cuidava dos cavalos e da manutenção geral. Todos a trataram com cortesia cautelosa, curiosos sobre a moça branca de Santo Amaro, que viera ensinar assim ainha. Clarice respondeu às perguntas que faziam sobre sua cidade, sobre seu trabalho com rendas, mas desviou hábilmente de qualquer coisa mais pessoal.

    Apenas Rosa, quando as ajudava a lavar a louça após o jantar, disse baixinho: “Você se saiu bem hoje. A menina gostou de você e o coronel?” Bem, ele é homem de poucas palavras, mas quando ele diz que confia em alguém, é verdade. Ele não confia em mim. Clarice corrigiu suavemente. Ele mal me conhece. Não, Rosa concordou, mas ele confia em mim e eu confio na minha prima.

    E Josefa confia em você. É uma corrente, entende? Aqui no Engenho, a confiança funciona assim. Clar sentiu sentindo o peso da responsabilidade. Não podia decepcionar aquela gente. Não podia provar que a confiança depositada nela era equivocada. Os dias que se seguiram estabeleceram uma rotina. Clarice acordava com o canto dos galos, quando o céu ainda estava tingido de rosa.

    Tomava café na cozinha com rosa, café forte e escuro, tapioca com coco, frutas colhidas do pomar. Depois subia para a sala de costura onde Helena a esperava, sempre pontual, sempre ansiosa para aprender. As manhãs eram dedicadas às lições. Clarice ensinou Helena primeiro os pontos básicos de bordado, ponto cheio, ponto atrás, ponto de aste.

    A menina absorvia tudo como esponja seca absorve água, seus dedos pequenos ganhando destreza a cada dia. E enquanto bordavam, conversavam. Helena falava sobre sua mãe, sobre as histórias que ela contava, sobre como cantava enquanto costurava. falava sobre seu pai, sobre como ele havia mudado após a morte de dona Amélia, tornando-se mais silencioso, mais distante.

    “Às vezes, a menina confessou numa manhã, sinto que ele se esqueceu de mim, que está tão ocupado com o trabalho que não percebe que estou aqui.” Clarice sentiu o coração apertar. Ele não se esqueceu de você, querida. Mas a dor de perder alguém que amamos às vezes faz as pessoas se fecharem.

    É a maneira delas de protegerem o coração. É assim que você se sente? Helena perguntou com a franqueza das crianças. Você também perdeu alguém que amava? Clarice hesitou, depois assentiu lentamente. Sim, perdi meus pais quando era mais velha que você, mas ainda jovem. E perdi minha tia, que me criou há pouco tempo. E você se fechou também? Por um tempo, sim.

    Mas então percebi que me fechar só fazia a dor piorar, que às vezes abrir o coração novamente, mesmo com medo, é a única maneira de seguir em frente. Helena pensou sobre isso, seus dedos continuando a bordar mecanicamente. “Vou dizer isso ao papai”, ela declarou finalmente. “Talvez, Clarice sugeriu suavemente.

    Você possa apenas mostrar a ele. Às vezes as ações falam mais alto que as palavras. Nas tardes, quando o calor ficava insuportável, faziam uma pausa. Helena ia descansar em seu quarto e Clarice trabalhava em suas próprias rendas, pois Rosa lhe dera permissão para aceitar encomendas particulares e manter o dinheiro.

     

    Algumas das fazendas vizinhas, ao saberem que havia uma rendeira talentosa no São Teodoro, começaram a encomendar toalhas de altar. enxovais, toalhas de mesa. Clarice trabalhava febrilmente nessas peças, sabendo que precisava economizar cada centavo, porque mais cedo ou mais tarde teria que deixar aquele lugar e quando deixasse precisaria ter recursos suficientes para sobreviver até até o quê? Até o bebê nascer e depois.

    Ela não permitia que esses pensamentos a consumissem durante o dia, mas à noite, sozinha em seu quarto, eles a assaltavam sem piedade. Sua barriga começava a arredondar muito sutilmente, ainda invisível sob as roupas largas, mas ela sabia. Sentia o bebê, uma presença constante, um lembrete vivo de seu pecado aos olhos da sociedade.

    Às vezes, no escuro da noite, Clarice colocava as mãos sobre a barriga e chorava silenciosamente. Chorava por Fernando, não porque o amava ainda. Aquele amor havia morrido na noite em que ele a abandonara, mas por tudo que ele representara, segurança, futuro, um lugar na sociedade. Chorava pelo bebê que crescia dentro dela, pela vida difícil que a criança enfrentaria, e chorava por si mesma pela ingenuidade que a levara até ali.

    pela manhã, enxugava as lágrimas, vestia-se, prendia os cabelos e descia para mais um dia de trabalho, mais um dia de fingir que tudo estava bem, mais um dia de viver uma mentira por omissão. Foi numa tarde de final de maio, três semanas após sua chegada ao engenho, que tudo quase desmoronou.

    Clarissa estava na sala de costura com Helena, ensinando-a a fazer rendas de Bilru pela primeira vez. A menina estava fascinada, observando como os birros dançavam entre os dedos de Clarice, os fios se entrelaçando em padrões delicados. “É como mágica”, Helena sussurrou maravilhada. Clarice riu. Não é mágica, querida, é prática. Anos e anos de prática. Mas você vai aprender.

    Já está se saindo tão bem com os bordados. Foi então que ouviram vozes no andar de baixo, vozes femininas, agudas, aristocráticas. Rosa apareceu na porta, o rosto tenso. Visitas. A esposa do coronel Leôcio Sampaio e a filha dela querem conhecer a nova professora da Sinhazinha. Clarice sentiu o estômago afundar.

    Visitas da sociedade. Senhoras que fariam perguntas, que a examinariam. que poderiam reconhecê-la se tivessem conexões em Santo Amaro, mas não havia escolha. Recusar-se a recebê-las seria uma ofensa grave. “Vou descer”, ela disse, alisando a saia, verificando se o cabelo estava no lugar. Na sala de visitas, duas mulheres esperavam.

    Dona Margarida Sampaio era uma senhora de 50 e poucos anos, robusta, vestida em seda cinza escura, apropriada para uma viúva. Clarice depois saberia que ela havia perdido um filho anos atrás e ainda guardava luto. Tinha um rosto bondoso, olhos castanhos inteligentes e um porte que falava de anos de experiência, gerenciando uma grande propriedade.

    Sua filha, Carolina, era alguns anos mais velha que Clarice, talvez 26 ou 27. Bonita de uma forma convencional, cabelos negros presos em tranças elaboradas, vestido verde esmeralda, que certamente viera de Salvador ou mesmo da Europa. Seus olhos, porém, eram frios, calculistas, examinando Clarice da cabeça aos pés com o tipo de olhar que avalia e julga em segundos.

    Senrita Almeida. Dona Margarida se levantou estendendo a mão. Que prazer conhecê-la, finalmente. Rosa nos falou de você. Clarice fez uma reverência respeitosa. O prazer é meu, senhora. Senhorita Carolina. A jovem disse com um aceno de cabeça mínimo, mal tocando os dedos de Clarice quando ela estendeu a mão. Sentaram-se e Rosa serviu café e sequilhos. A conversa começou de forma cort.

    Perguntas sobre como Clarice estava se adaptando ao engenho, como Helena progredia nas lições. Mas então Carolina, com a sutileza de uma cobra prestes a dar o bote, perguntou: “E de onde você disse que veio, senhorita Almeida?” Santo Amaro? Sim, senhorita. Interessante. Tenho primas lá.

    As irmãs Tavares conhece? Clarice? sentiu o suor frio escorrer por suas costas. As irmãs Tavares eram justamente aquelas que haviam liderado o ostracismo contra ela na igreja. Conheço de vista, senhorita. Santo Amaro não é uma vila grande. E sua família? Seus pais falecidos, senhorita, há anos. Que tragédia.

    Dona Margarida interveio e havia genuína compaixão em sua voz. E não tem outros parentes? Não, senhora. Era só eu e minha tia, que também faleceu recentemente. “Então deve ter sido muito difícil para você”, a senhora disse suavemente, “ficar completamente sozinha”. Havia algo no tom de dona Margarida que fez Clarice olhar para ela mais atentamente.

    E no olhar que a mulher mais velha lhe dirigiu, Clarice viu compreensão. Não julgamento, mas compreensão, como se ela soubesse, ou ao menos suspeitasse que havia mais na história de Clarice do que estava sendo dito. “Foi difícil, sim, senhora”, Clarice admitiu baixinho. Carolina, porém, não estava satisfeita. E por que deixar Santo Amaro para vir trabalhar num engenho tão isolado? Certamente haveria mais oportunidades numa vila maior. A armadilha estava armada.

    Se Clarice dissesse que queria fugir de rumores, estaria admitindo que havia rumores. Se dissesse que precisava do trabalho, soaria suspeito. Por que uma rendeira talentosa precisaria ir tão longe? Foi dona Margarida quem a salvou. Carolina, que pergunta indiscreta. A senorita Almeida não deve satisfação das suas escolhas de vida a ninguém.

    Se ela escolheu vir trabalhar aqui, certamente teve suas razões e essas razões são assunto dela. Carolina ficou vermelha, mas recuou. Claro, mamãe. Não quis ofender. O resto da visita passou em segurança, embora Clarice sentisse os olhos de Carolina sobre ela, especulativos, suspeitosos.

    Quando as senhoras finalmente partiram, Clarice subiu para seu quarto e permitiu-se tremer. Aquela noite, Rosa bateu à sua porta. “Não se preocupe com a menina Sampaio”, ela disse sem preâmbulos. Ela é invejosa desde que nasceu e tem interesse no coronel. Sempre teve, desde antes da morte de dona Amélia, se quer saber a verdade. Por isso não gosta de nenhuma mulher que apareça aqui.

    Ela suspeita de mim, Clarice disse baixinho. Ela suspeita de todo mundo. Rosa respondeu. Mas dona Margarida não é assim. Aquela senhora tem coração bom e olho clínico também. Se ela desconfiou de algo, não vai espalhar. Não é do tipo. Clarice queria acreditar nisso. Precisava acreditar. Mas naquela noite, pela primeira vez em semanas, os pesadelos voltaram.

    Sonhou com Fernando com seu casamento na catedral de Salvador. Sonhou com as irmãs Tavares apontando dedos acusadores. Sonhou com sua barriga crescendo e crescendo até que todos pudessem ver. até que não houvesse mais como esconder. Acordou em suor frio, as mãos protetoras sobre o ventre que começava a arredondar.

    Quanto tempo mais teria? Junho estava chegando. Julho viria em seguida. Em agosto certamente não conseguiria mais esconder. E então o quê? Clarice não tinha resposta. Apenas o medo constante e corrosivo de que tudo que havia conseguido construir ali, a frágil segurança, a amizade de Helena, o respeito dos empregados, seria destruído quando a verdade viesse à tona, porque a verdade sempre vinha à tona. Era apenas uma questão de tempo.

    Junho chegou ao recôncavo, trazendo consigo as primeiras chuvas da estação. Eram chuvas tropicais, violentas e súbitas, que caíam do céu cinzento como cortinas d’água, encharcando os canaviais e transformando as estradas de terra em rios de lama vermelha. E depois passavam tão rapidamente quanto vinham, deixando o ar perfumado e lavado, o sol rompendo entre as nuvens dispersas, como se nada houvesse acontecido.

    Clarice estava no Engenho São Teodoro há seis semanas e naquele tempo havia acontecido algo que ela não esperava. Começara a sentir-se em casa. Era estranho, quase perturbador, como aquele lugar, tão diferente de tudo que conhecera em Santo Amaro, havia se tornado seu refúgio. Talvez fosse a rotina reconfortante. Acordar com o canto dos galos, tomar café com rosa na cozinha cheirosa, subir para a sala de costura onde Helena a esperava com ansiedade mal contida, as tardes tranquilas, trabalhando em suas rendas, enquanto ouvia o zum distante da

    moenda a vapor, ou talvez fosse as pessoas. Rosa com sua sabedoria prática e sua proteção discreta. Benedito, que sempre a cumprimentava com respeito quando havia nos jardins. Joaquina, que começara a lhe pedir conselhos sobre bordados para seu próprio enxoval, a menina estava prometida a um rapaz de uma fazenda vizinha. E Helena.

    Ah, Helena! A menina havia florescido nas últimas semanas como uma flor que finalmente recebe sol após longa sombra. Seus olhos azuis, antes tão tristes, agora brilhavam com curiosidade e alegria. Ela ria, um som cristalino e puro que ecoava pela casa grande, fazendo até Rosa sorrir.

    E falava incessantemente, compensando anos de silêncio, contando histórias, fazendo perguntas, compartilhando sonhos. Quando eu crescer, ela declarara numa manhã enquanto lutava com um ponto particularmente difícil. Quero fazer rendas tão bonitas quanto as suas, senorita Clarice, e vou fazer um vestido inteiro de renda para meu casamento como as princesas da Europa.

    Clarice rira, mas seu riso tinha um toque de melancolia, porque sabia que não estaria ali para ver Helena crescer, para vê-la se tornar a jovem dama. que prometia ser. Em poucas semanas, talvez dois meses no máximo, sua barriga estaria grande demais para esconder e então teria que partir. A gravidez avançava inexoravelmente.

    Clarice estava agora com 4 meses e meio. Sua cintura havia engrossado o suficiente para que ela tivesse que ajustar suas saias, soltando costuras e adicionando painéis de tecido. Seus seios estavam maiores, mais sensíveis. E pela manhã, as náuseas ainda a assaltavam ocasionalmente, embora não tão violentamente quanto antes. Ela havia começado a sentir o bebê se mover.

    Pequenos tremores no início, como borboletas batendo asas dentro dela. Agora eram chutes definitivos, principalmente à noite quando se deitava. Uma vida crescendo, florescendo, completamente alheia ao escândalo que sua existência causaria. Clarice mantinha suas roupas cada vez mais largas, usava chales mesmo no calor e rezava para que ninguém notasse.

    Rosa sabia, é claro, e Clarice suspeitava que tia Josefa, em suas cartas ocasionais, mantinha Rosa informada sobre quanto tempo Clarice ainda poderia manter o segredo. Mas os outros, o coronel Teodoro Vasques de Albuquerque, permanecia um enigma para Clarice. seis semanas que estivera ali, ela o vira apenas em momentos breves e formais. Ele trabalhava nos canaviais desde o amanhecer até o anoitecer, supervisionando pessoalmente a colheita, verificando a qualidade do açúcar na casa de Purgar, negociando com compradores que vinham de Salvador. Quando estava em casa, jantava sozinho

    em seu escritório, revisando livros de contabilidade, escrevendo cartas comerciais. Raramente via a Helena, apenas para desejar-lhe boa noite quando a menina já estava de camisola, pronta para dormir. E nesses momentos, Clarice via a dor em seus olhos, a maneira como ele olhava para a filha, como se visse através dela para alguém que não estava mais ali. Ele se parece tanto com mamãe.

    Helena havia sussurrado uma noite após seu pai sair de seu quarto. Papai diz que tem os olhos dela, o cabelo dela. Acha que por isso ele não consegue me olhar muito tempo? Porque dói demais. Clarice abraçara a menina sem palavras para confortar aquela dor tão profunda e tão injusta.

    Mas nas últimas semanas algo começara a mudar. Pequenas coisas quase imperceptíveis. Teodoro começara a jantar na sala de jantar ao invés de se trancar no escritório. Não falava muito, mas estava presente. E às vezes Clarice o via parado na porta da sala de costura, observando Helena trabalhar em seus bordados, um olhar indecifravo, normalmente austero.

    Uma vez ele havia entrado na sala quando Helena estava mostrando orgulhosamente a Clarice uma toalha de mão que havia terminado. Seu primeiro trabalho completo. Papai, olha! A menina exclamara. Fiz sozinha. Bem, quase sozinha. A senrita Clarice me ajudou com os cantos, mas o resto foi tudo eu. Teodoro pegara a toalha, examinando os pontos cuidadosamente. Está muito bem feito, ele dissera finalmente.

    E havia surpresa genuína em sua voz. Sua mãe ficaria orgulhosa. Helena brilhara como o sol e Clarice, observando a cena, sentira algo apertar em seu peito. Aquele homem amava sua filha desesperadamente. Isso era óbvio em cada olhar, em cada palavra cuidadosa. Mas a dor da perda o havia fechado. Transformara-o numa versão diminuída de si mesmo. Não era diferente de Helena percebera Clarice.

    pai e filha, ambos presos em prisões separadas de luto, incapazes de alcançar um ao outro através das barras de sua dor. Foi numa tarde de sexta-feira, quando nuvens pesadas se acumulavam no horizonte, prometendo tempestade, que tudo mudou.

    Clarissa estava na sala de costura com Helena, trabalhando numa toalha de altar encomendada pela capela do engenho. A menina estava do outro lado da mesa praticando rendas de birro. Seus dedos ainda eram desajeitados com os birros, mas ela persistia com determinação admirável. “Senhorita Clarice”, Helena perguntou de repente. “Você já amou alguém?” A pergunta pegou Clarice desprevenida.

    Ela olhou para a menina, viu seus olhos azuis fixos nela com curiosidade inocente. Por que pergunta isso, querida? Helena deu de ombros. Rosa estava contando para Joaquina ontem que o rapaz dela, o Bastião, veio pedir a mão dela ao pai e elas estavam falando sobre amor, sobre como saber quando é amor verdadeiro.

    E eu fiquei pensando, como é que a gente sabe? Clarice pousou sua almofada de Bilros, considerando cuidadosamente suas palavras. “Eu pensei que sabia”, ela disse finalmente. “Pensei que amava alguém, mas descobri que o que sentia era era mais necessidade que amor. Necessidade de não estar sozinha, de ter alguém, não é a mesma coisa.” “E amor verdadeiro, como é amor verdadeiro?” Clarice disse lentamente: “É quando você quer o bem da pessoa, mesmo que isso não inclua você.

    É quando você aceita a pessoa com todas as suas falhas. É quando ela hesitou. É quando você escolhe amar todos os dias, mesmo quando é difícil, como papai e mamãe. Helena disse com convicção. Rosa diz que eles se amavam muito, que papai nunca olhou para outra mulher depois que conheceu mamãe. Deve ter sido um amor muito especial. É por isso que ele está tão triste. A menina continuou sua voz ficando pequena.

    Porque amor verdadeiro não desaparece só porque a pessoa morre. E às vezes eu fico com raiva da mamãe por ter ido embora e deixado o papai tão sozinho. Mas então me sinto mal por estar com raiva. Porque ela não escolheu morrer. Escolheu. Clarice se levantou e foi até Helena, ajoelhando-se ao lado de sua cadeira.

    Não, querida, sua mãe não escolheu e você tem todo o direito de sentir raiva e tristeza. e qualquer coisa que sinta. Mas sabe o que eu acho? Acho que sua mãe ficaria triste de ver você e seu pai tão fechados na dor. Acho que ela gostaria que vocês vivessem, que fossem felizes, que se amassem um ao outro. Helena abraçou Clarice repentinamente com força. Eu te amo, senhorita Clarice.

    Ela sussurrou. Você me faz lembrar dela, sabia? Não no jeito de parecer, mas no jeito de fazer eu me sentir segura. Clarice sentiu lágrimas queimar em seus olhos. Abraçou a menina de volta, inalando o cheiro de sabonete de rosa em seus cabelos louros. “Eu também te amo, Helena”, ela sussurrou de volta. Mais do que você imagina. E era verdade.

    Em seis semanas, aquela menina havia preenchido um espaço no coração de Clarice, que ela nem sabia que existia. Helena não era filha dela, nunca seria. Mas o amor que sentia era tão real, tão profundo quanto qualquer amor maternal poderia ser. Foi nesse momento que a tempestade chegou. Começou com um vento súbito que fez as janelas baterem e as cortinas voarem.

    Depois vieram os raios, iluminando o céu escuro com luz branca e cegante. E então a chuva, não em gotas, mas em torrentes, como se os céus tivessem se aberto completamente. Helena correu para a janela fascinada. Olha como está forte. Clarice se juntou a ela, observando a chuva transformar o mundo exterior num borrão cinzento.

    Os jardins desapareceram sob o dilúvio. Os canaviais, ao longe eram apenas sombras indistintas. Era bonito e aterrorizante ao mesmo tempo. Então, ouviram gritos lá embaixo, vozes masculinas, urgentes, assustadas. Clarice e Helena correram para o corredor e desceram as escadas.

    Na entrada principal, Benedito estava encharcado até os ossos, água escorrendo de suas roupas e formando poças no chão de mármore. Rosa estava com ele, seu rosto grave. “O que aconteceu?”, Clarice perguntou. Benedito olhou para ela e havia pânico real em seus olhos. É o coronel. O muro de contenção do reservatório rachou com a chuva.

    Ele foi verificar sozinho, mandou o resto de nós voltar, mas faz meia hora e ele não volta. E o rio está subindo rápido com essa chuva toda. Meu Deus! Rosa murmurou. Helena agarrou a mão de Clarice, seus olhos arregalados de medo. Papai, nós vamos lá. Clarice se ouviu dizer antes mesmo de pensar. Onde fica o reservatório? Moça, você não pode ir com esse tempo. Benedito protestou.

    É perigoso. E deixar o coronel lá sozinho. Enquanto perdemos tempo discutindo, ele pode estar ferido. Pode estar. Ela não terminou a frase não na frente de Helena. Onde fica? Benedito hesitou, depois suspirou. Nos fundos da propriedade, perto do rio. Mas eu vou. Você, Rosa interrompeu. Vai reunir os outros homens e ir pelo caminho principal com lanternas e cordas.

    A senorita Clarice pode cortar pelo jardim e chegar mais rápido. Ela é menor, mais leve, e dois grupos procurando é melhor que um. Não era lógica sensata e todos sabiam. Mas Rosa olhou diretamente para Clarice e havia algo em seus olhos que dizia: “Eu sei porque você está fazendo isso. Eu sei que você ama esse homem, mesmo que não tenha percebido ainda.

    ” E Clarice percebeu que era verdade. Em algum momento nas últimas semanas, entre vislumbres dele no jantar, entre as raras ocasiões em que trocavam palavras corteses, entre as histórias que Helena contava sobre ele, Clarice havia começado a amá-lo. Não como amara Fernando, aquele amor fora desesperado, necessitado, construído sobre areia. Isto era diferente.

    Era respeito, admiração, uma ternura suave que crescera sem que ela percebesse. “Me mostre o caminho”, ela disse a Benedito. 5 minutos depois, Clarice estava correndo sob a chuva torrencial, completamente encharcada, seu vestido pesado de água grudando em suas pernas. Benedito havia indicado a direção antes de ir reunir os outros.

    através do jardim, passando pelo pomar, seguindo o muro de pedra até o reservatório. A chuva era tão forte que Clarice mal conseguia enxergar a poucos metros à frente. Seus pés escorregavam na grama molhada, galhos de árvores fustigavam seu rosto. Mas ela continuou impulsionada por um medo visceral que não conseguia nomear. Finalmente viu o reservatório. Era uma grande estrutura de pedra.

    construída para coletar água da chuva para a irrigação. E sim, um longo rasgão corria pelo muro de contenção, água jorrando através dele como de uma ferida aberta. Coronel! Ela gritou, sua voz mal audível sobre o rugido da chuva e do rio próximo. Coronel Teodoro! Nada, apenas o som da tempestade. Clarice se aproximou do muro, olhando ao redor desesperadamente, e então o viu.

    Teodoro estava no pé da estrutura, meio escondido por pedras caídas. estava consciente, mas claramente ferido. Uma viga de madeira havia caído sobre sua perna, prendendo-o. Tentava se libertar, mas a viga era pesada demais e a água subia ao seu redor rapidamente, já chegando à sua cintura. Coronel! Clariss gritou correndo até ele.

    Ele levantou a cabeça surpresa estampada em seu rosto ensanguentado. Um corte na testa sangrava profusamente, o sangue misturando-se com a água da chuva. Senrita Almeida, o que você não deveria estar aqui. É perigoso. Clarissou-o, ajoelhando-se na água já alta e tentando levantar a viga. Não se mexeu. Ajude-me, ela gritou. Empurre enquanto eu levanto.

    Juntos tensionaram contra a viga. Os músculos de Clarice gritavam de esforço, seu vestido encharcado, tornando cada movimento mais difícil. Mas finalmente, finalmente a viga se mexeu o suficiente para que Teodoro pudesse puxar a perna para fora. Ele gemeu de dor, mas conseguiu ficar de pé, apoiando-se pesadamente em Clarice. “Minha perna”, ele ofegou. “Acho que está quebrada.

    ” “Precisamos sair daqui”, Clarice disse, olhando ao redor. A água continuava subindo. Em breve, aquela área inteira estaria inundada. Consegue andar se eu apoiar? Vou ter que conseguir”, ele disse através de dentes cerrados. Lentamente, dolorosamente, começaram a se mover. Teodoro era pesado, muito mais pesado que Clarice, e cada passo era agonia para ele.

    Mas ela aguentou, colocando o braço dele sobre seus ombros, sua própria mão segurando firme sua cintura, meio carregando, meio arrastando ele para longe do reservatório. Haviam percorrido talvez 50 m quando Teodoro tropeçou. Ambos caíram na lama, Clarice debaixo dele. Por um momento, ficaram assim, ofegantes, exaustos. “Desculpe”, ele murmurou. “Não consigo minha perna.

    ” “Não importa”, Clarice disse, tentando se levantar. “Vamos tentar de novo. Benedito está vindo com os outros, só precisamos chegar.” Foi então que sentiu uma dor aguda, repentina, atravessando seu abdômen como uma faca. Clarice ofegou suas mãos indo instintivamente para a barriga. Não, não agora, por favor, Deus, não agora, senorita Almeida. A voz de Teodoro estava tensa de preocupação.

    Está ferida? Não. Ela mentiu, lutando contra a dor. Estou bem. Vamos. Precisamos continuar. Mas ao se levantar, sentiu algo quente escorrer por suas pernas. Olhou para baixo e viu, mesmo na pouca luz e através da chuva, o vermelho diluindo-se na água e na lama. Sangue. O mundo começou a girar.

    Clarice ouviu Teodoro gritar seu nome como se viesse de muito longe. Sentiu braços fortes assegurando antes que caísse completamente e então tudo ficou preto. Quando despertou, estava seca e quente. Não na chuva, não na lama. Estava numa cama macia, coberta por lençóis de linho que cheiravam a alfazema. Luz suave de Lampião iluminava o quarto.

    Não seu quarto, percebeu confusamente, mas um muito maior, mais luxuoso. Virou a cabeça e viu Rosa sentada numa cadeira ao lado da cama, tricotando. Quando a mulher mais velha percebeu que Clarice estava acordada, colocou o tricô de lado imediatamente. “Bem-vinda de volta”, ela disse suavemente. Você nos deu um susto terrível. O quê? Onde? A voz de Clarice saiu rouca.

    Você está no quarto de hóspedes principal. Benedito e os outros homens os encontraram. Trouxeram você e o coronel de volta. Isso foi às 6 horas. 6 horas. Clarice tentou sentar-se e imediatamente sentiu a dor em seu abdômen. Suas mãos foram para a barriga. O bebê ainda está lá. Rosa disse gentilmente: “Tia Mariana, a parteira da fazenda Sampaio, veio examinar você.

    Disse que você teve um sangramento por causa do esforço, mas que o bebê está firme. Você precisa de repouso absoluto por pelo menos uma semana.” Nada de se levantar, nada de trabalhar. Lágrimas de alívio escorreram pelo rosto de Clarice. O bebê estava bem, apesar de tudo, estava bem. “E o coronel?”, ela perguntou. Rosa ficou séria, perna quebrada. Tia Mariana a imobilizou.

    Ele vai ficar semanas sem andar direito e tem um corte feio na testa que vai deixar cicatriz, mas está vivo, graças a você. Ele sabe. Clarice sussurrou. Sobre o bebê. Rosa hesitou e aquela hesitação disse tudo. Quando tia Mariana te examinou, o coronel estava no quarto ao lado. Ele insistiu em saber seu estado, já que você havia desmaiado tentando salvá-lo. Tia Mariana teve que contar.

    Não havia escolha. Clarice fechou os olhos. Então era isso, estava acabado. Assim que pudesse andar teria que partir, deixar Helena, deixar este lugar que se tornara seu lar, deixar Ele quer falar com você. Rosa disse. Quando você estiver pronta. Disse que é importante. Eu sei o que ele vai dizer. Clarice murmurou.

    Que preciso ir embora, que uma mulher na minha condição não pode ficar aqui. Não pode ensinar sua filha. Talvez, Rosa disse, mas havia algo em sua voz que Clarice não conseguia decifrar. Ou talvez não. O coronel é um homem justo e você salvou a vida dele, menina. Isso conta para alguma coisa. Dois dias se passaram antes que Clarice estivesse forte o suficiente para receber visitas além de Rosa.

    Helena vinha à porta três vezes ao dia, mas Rosa não a deixava entrar. dizendo que Clarice precisava descansar. Clarice podia ouvir a voz da menina, ansiosa, preocupada, implorando para ver sua professora. Partia o coração de Clarice e não poder confortá-la. Na terceira manhã, Rosa entrou com um vestido limpo.

    Arrume-se, ela disse. O coronel vem vê-la dentro de uma hora. Clarice sentiu o estômago apertar de nervosismo, mas a sentiu, deixando Rosa ajudá-la a se vestir, pentear seus cabelos, tornar-se apresentável. Quando Teodoro entrou, mancando pesadamente, apoiado em muletas que Benedito havia improvisado, Clarice estava sentada numa poltrona perto da janela, as mãos cruzadas no colo para esconder o tremor.

    Ele parecia exausto, círculos escuros sob, uma bandagem branca na testa, onde o corte havia sido, mas estava limpo, barbeado, vestido apropriadamente, apesar da perna enfaixada. Sentou-se com dificuldade na cadeira oposta à dela, as muletas apoiadas contra a parede. Por um longo momento, apenas se olharam. Foi Teodoro quem falou primeiro.

    Você salvou minha vida, ele disse sem preâmbulos. Arriscou a sua própria e a do Ele hesitou, a da criança que carrega para me salvar. Por quê? Clarice não esperava a pergunta. Eu não pensei, senhor. Apenas sabia que precisava ajudar. Rosa me contou. Ele continuou como se ela não tivesse falado. Contou sobre Santo Amaro, sobre o homem que a prometeu casamento e depois a abandonou quando descobriu que estava grávida.

    sobre como a sociedade virou as costas para você, sobre como perdeu tudo. Vergonha queimou o rosto de Clarice. Ela baixou os olhos, incapaz de suportar seu olhar. Senrita Almeida, Clarice, olhe para mim, por favor. Relutantemente, ela levantou os olhos.

    Não há vergonha no que aconteceu com você, Teodoro disse firmemente. A vergonha é toda do homem que a enganou. que quebrou suas promessas. Você foi vítima, não pecadora. Lágrimas queimaram os olhos de Clarice. A sociedade não vê assim, Senhor. Eu não sou a sociedade, ele disse. E então, para a surpresa completa de Clarice, ele se inclinou para a frente, ignorando a dor óbvia que o movimento causava.

    Clarice, nas últimas semanas observei você com minha filha. Vi como ela floresceu sob seus cuidados, como voltou a sorrir, a rir. Vi você transformar uma menina triste e fechada na criança alegre que ela deveria ser. E anteontem vi você arriscar sua vida e a de seu bebê para salvar a minha. Ele fez uma pausa, parecendo escolher cuidadosamente suas próximas palavras.

    Sou viúvo há 3 anos. Nesse tempo, tornei-me uma sombra de quem era. Trabalhava para não pensar, para não sentir. Negligenciei minha filha porque vê-la doía demais. Ela se parece tanto com sua mãe, mas você você me mostrou que ainda há vida a ser vivida, que ainda há alegria a ser encontrada, mesmo em meio à dor.

     

    Clarice não sabia onde aquilo ia dar, mas seu coração batia tão forte que ela tinha certeza que ele podia ouvi-lo. “Você está sozinha?”, Teodoro disse: “Sem família, sem futuro certo, com uma criança para criar numa sociedade que a julgará cruelmente. Eu estou sozinho também, afogando-me em luto e trabalho com uma filha que precisa de uma mãe.” Ele fez uma pausa e quando falou novamente, sua voz era firme, decidida. “Case-se comigo, Clarice.

    ” O mundo parou. Clarice olhou para ele chocada demais para processar as palavras. Eu sei ele continuou rapidamente. Que não nos conhecemos bem. Eu sei que você não me ama. Como poderia? Mas posso oferecer a você o que precisa. Proteção, respeitabilidade, um lar para você e seu bebê. E você pode oferecer a mim o que preciso.

    Uma mãe para Helena, companhia. um propósito além do trabalho. Senhor, eu, Clarice começou, mas as palavras se perderam. Pense nisso ele disse, levantando-se com esforço. Não precisa responder agora. Mas Clariss, entenda, não é caridade. É uma proposta mutuamente benéfica. Você me salvou.

    Deixe-me salvar você de volta. E com isso ele pegou suas muletas e saiu, deixando Clarice sozinha, com pensamentos que rodopeiavam como folhas num vendaval. A noite caiu sobre o engenho São Teodoro como um manto de veludo negro salpicado de estrelas. Clarissona perto da janela, olhando sem ver para os jardins banhados pelo luar.

    A proposta de Teodoro ecoava em sua mente cada palavra gravada em sua memória, como se tivesse sido esculpida em pedra. Case-se comigo, Clarice. Três palavras simples que mudavam tudo. Rosa havia trazido o jantar numa bandeja, caldo de galinha com inhame, pão fresco, doce de coco. Mas Clarice mal havia tocado.

    Como poderia comer quando seu mundo inteiro havia virado de cabeça para baixo? Era uma solução. Seria tola em não reconhecer isso. Casada com o coronel Teodoro Vasques de Albuquerque, ela teria tudo que perdera: respeitabilidade, segurança, um lar. Seu bebê nasceria legítimo aos olhos da sociedade, carregaria um nome respeitado.

    E Helena, Helena teria a mãe que tanto precisava. Mas seria justo, justo com Teodoro, que merecia mais que um casamento de conveniência com uma mulher arruinada? Justo com Helena, que merecia uma mãe verdadeira, não uma impostora? Justo consigo mesma condenar-se a um casamento sem amor por pura necessidade, exceto que não era completamente sem amor, era.

    Clarice podia se enganar sobre muitas coisas, mas não sobre o que sentia quando pensava em Teodoro. Respeito. Sim, gratidão, certamente, mas também aquele aperto no peito quando o via de longe nos canaviais, aquele calor quando seus olhos se encontravam brevemente no corredor, aquela sensação de segurança quando ele falara com ela, firme e gentil.

    Não era o amor desesperado e necessitado que sentira por Fernando. Era algo mais profundo, mais sólido, como a diferença entre areia movediça e rocha firme. Mas Teodoro não a amava. Havia sido honesto sobre isso. A proposta era prática, uma solução mutuamente benéfica. Ele ainda amava a sua falecida esposa. Qualquer um podia ver isso no modo como evitava entrar na sala de costura.

    que havia sido dela, no modo como seus olhos ficavam distantes quando Helena mencionava a mãe. Clarissa estava tão perdida em pensamentos que não ouviu a batida suave na porta. Apenas quando Rosa entrou trazendo chá fresco, ela se sobressaltou. Não dormiu nada, não é? Rosa disse, não como pergunta, mas como constatação.

    Colocou a bandeja numa mesinha e serviu o chá forte, perfumado com capim santo, adoçado com rapadura. Beba, vai ajudar a acalmar. Clarice obedeceu, sentindo o líquido quente descendo por sua garganta. Rosa, ela disse finalmente, o que você faria no meu lugar? A mulher mais velha sentou-se na outra cadeira. suas mãos calejadas, segurando sua própria xícara de chá. Eu suspirou. Menina, eu fui escrava até três anos atrás.

    Nasci escrava, cresci escrava, pensei que morreria escrava. Não tinha escolhas, não tinha nada que fosse meu, nem meu próprio corpo. Então, quando o coronel nos libertou, antes mesmo da princesa assinar aquela lei, sabe o que foi? Foi como nascer de novo. Ela fez uma pausa bebendo seu chá. O coronel é um homem bom, não perfeito.

    Nenhum homem é, mas bom, justo. Quando a febre levou meu filho anos atrás, ainda no tempo do cativeiro, ele chamou médico de Salvador. Pagou do próprio bolso, não adiantou. Meu menino se foi igual, mas ele tentou. Quantos senhores fariam isso? Clarice sentiu lágrimas queimar em seus olhos.

    Não sabia que Rosa havia perdido um filho. O que estou dizendo? Rosa continuou. É que aquele homem ali honra suas palavras. Se ele diz que vai cuidar de você e do seu bebê, vai. Se diz que vai dar nome e proteção, vai dar. A pergunta não é se você pode confiar nele, é se você consegue viver num casamento sem paixão.

    Mas havia paixão no seu casamento? Clarice perguntou suavemente. Rosa sorriu, um sorriso triste, mas doce. Havia. Meu Jeremias, que Deus o tenha, era um homem de fogo. Me amou desde o dia que me viu, com 15 anos, nova na fazenda. brigou com o feitor para poder casar comigo e quando a febre o levou 10 anos atrás, pensei que morreria também de dor.

    Ela limpou os olhos com o avental. Mas sabe o que aprendi? Que amor de paixão queima forte e rápido. Amor de respeito, de parceria, de escolha diária. Esse cresce devagar, mas dura. E às vezes, menina, o segundo tipo de amor é mais forte que o primeiro. Clarice pensou sobre isso enquanto Rosa saía silenciosamente. Amor que cresce devagar.

    Amor construído sobre fundação sólida, ao invés de paixão tempestuosa. Seria possível? Ela e Teodoro poderiam construir algo real, algo verdadeiro, mesmo começando de um arranjo prático? Só havia um jeito de descobrir. Na manhã seguinte, quando Rosa veio verificar como ela estava, Clariss: “Diga ao coronel que aceito.

    Aceito me casar com ele. Se Rosa ficou surpresa, não demonstrou. Apenas a sentiu, um pequeno sorriso tocando seus lábios. Vou avisar. Ele vai querer falar com você. Teodoro veio uma hora depois, ainda mancando, mas sem as muletas desta vez, apenas uma bengala de madeira escura.

    Sentou-se com cuidado e Clarice percebeu que ele estava nervoso. Suas mãos apertavam o cabo da bengala com força desnecessária. Rosa disse que você aceita. Ele começou. Sim. Clarice confirmou, mantendo sua voz firme. Mas tenho condições. Ele ergueu uma sobrancelha surpreso. Condições? Sim. Clarissou fundo.

    Primeira, Helena precisa saber a verdade sobre o bebê, sobre tudo. Não quero começar nossa vida familiar com mentiras. Teodoro assentiu lentamente. Concordo. E segunda, segunda, este casamento pode começar como arranjo, mas eu gostaria, gostaria de tentar fazer dele algo real. Com tempo, se você estiver disposto. Algo mudou na expressão de Teodoro. Seus olhos, normalmente tão guardados, se suavizaram.

    Eu também gostaria disso, ele disse baixinho. Minha primeira esposa, Amélia, eu a amei profundamente. Quando a perdi, pensei que nunca mais sentiria nada além de dor. Mas você, você trouxe vida de volta a esta casa, trouxe alegria de volta à minha filha e eu gostaria de ter a chance de conhecê-la melhor, de construir algo verdadeiro entre nós.

    Então, estamos de acordo. Clarice disse. sentindo algo quente e esperançoso florescer em seu peito. “Estamos”, Teodoro confirmou. Hesitou, depois estendeu a mão. “Parceiros.” Clarice colocou sua mão na dele. Sua palma era calejada do trabalho, grande o suficiente para envolver completamente a dela. “Parceiros?”, ela concordou.

    Naquela tarde, Rosa ajudou Clarice a descer para a sala de estar, onde Helena aguardava. claramente confusa sobre porque havia sido chamada. A menina correu para Clarice assim que a viu. Senhorita Clarice, está melhor? Rosa não me deixava vê-la e eu estava tão preocupada. E Estou bem, querida. Clarice a interrompeu gentilmente, sentando-se no sofá e puxando Helena para sentar-se ao seu lado.

    Teodoro sentou-se na poltrona oposta, sua perna enfaixada estendida. Helena, ele começou, sua voz séria, mas gentil. Precisamos conversar com você sobre algo importante. A menina olhou de um para o outro, seus olhos azuis arregalados. Estou em apuros? Não, meu amor, Clarice disse rapidamente. Não é nada disso.

    É que seu pai e eu temos novidades para você. Vamos nos casar, Teodoro disse sem rodeios. A senhorita Clarice concordou em ser minha esposa e sua mãe. Helena piscou, depois piscou de novo. Seu rosto passou por uma série de expressões, surpresa, confusão e, então, para a alegria de Clarice, pura e radiante felicidade. “Sério?”, ela quase gritou.

    “Sério mesmo?” “Sério?”, Clarice confirmou, sorrindo. “Mas isso é maravilhoso!”, Helena, exclamou, jogando os braços ao redor do pescoço de Clarice. É a melhor notícia do mundo inteiro. Você vai morar aqui para sempre. Vai ser minha mãe de verdade. Teodoro limpou a garganta. Helena, há mais uma coisa que você precisa saber.

    A menina se afastou de Clarice, ainda sorrindo. O que, papai? A senhorita Clarice. Clarice está esperando um bebê. Você vai ter um irmãozinho ou irmãzinha? Helena processou isso por um momento. Como a prima Luía teve, ela ficou com a barriga grande e depois nasceu o bebê Tomás? Exatamente assim. Teodoro confirmou. Para a surpresa de ambos os adultos, Helena apenas encolheu os ombros.

    Está bem. Vou gostar de ter um irmãozinho. Posso ensinar ele a abordar quando crescer? Clarice riu, lágrimas de alívio nos olhos. Pode sim, querida. Mas Helena, Teodoro continuou claramente determinado a ser completamente honesto. Precisa entender que algumas pessoas podem dizer coisas maldosas sobre isso.

    Podem dizer que o bebê que não é apropriado. Você precisa estar preparada. Helena franziu semo pensativa, depois olhou diretamente para o pai com uma seriedade além de seus 8 anos. Papai, uma vez você me disse que o que as pessoas dizem importa menos que o que sabemos ser verdade em nossos corações. Isso ainda vale? Teodoro piscou claramente pego de surpresa.

    Sim, sim, ainda vale. Então não me importo com o que as pessoas dizem, Helena declarou. Vou ter uma mãe e um irmãozinho, é tudo que importa. E com a simplicidade das crianças, ela havia aceito completamente aquilo que a sociedade adulta acharia escandaloso. Os preparativos para o casamento começaram imediatamente.

    Teodoro queria casar o mais rápido possível, parcialmente para estabelecer a legitimidade do bebê, parcialmente porque, como ele disse, sem rodeios, não vejo sentido em adiar o inevitável, mas primeiro precisavam da aprovação da igreja. O padre Sebastião foi convocado ao engenho três dias depois.

    Era um homem de seus 60 anos, cabelos brancos, rosto marcado pelo sol inclemente do recôncavo. Havia sido padre em Santo Amaro por décadas, antes de ser transferido para a pequena capela do distrito, onde ficava o engenho. Quando Rosa o conduziu ao escritório de Teodoro, onde Clarice esperava nervosamente, o padre a reconheceu imediatamente.

    Senhorita Almeida”, ele disse, “avia surpresa genuína em sua voz. Não esperava encontrá-la aqui. Padre Clarice fez uma reverência, seu estômago apertado. Teodoro gesticulou para as cadeiras. Padre Sebastião, obrigado por vir. Como deve imaginar, preciso discutir um assunto delicado com o senhor.

    O padre sentou-se, seus olhos indo de Teodoro para Clarice com crescente compreensão. Imagino que sim. Desejo me casar com a senrita Almeida, Teodoro disse diretamente. O mais rápido possível. Preciso que o senhor realize a cerimônia. O padre Sebastião juntou as pontas dos dedos, sua expressão cuidadosamente neutra.

    Coronel, com todo respeito, estou ciente da situação da senhorita. Há rumores mesmo aqui, longe de Santo Amaro. Rumores, Teodoro disse friamente, de um homem sem honra que a abandonou após prometer casamento. Rumores de uma sociedade cruel que preferiu julgar a vítima ao invés do perpetrador. Ainda assim, o padre começou.

    A igreja tem certas a igreja, Teodoro o interrompeu, sua voz ganhando um tom de aço. Ensina misericórdia, ensina perdão. Ensina que Cristo himself defendeu a mulher apanhada em adultério, dizendo: “Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”. Ou o Senhor discorda dos ensinamentos de Cristo? O padre ficou vermelho. Claro que não discordo, mas então o senhor realizará o casamento, Teodoro disse.

    E não era um pedido. Ou preciso lembrar o senhor de que esta capela foi construída com recursos da minha família, que o salário do senhor venha em parte das doações deste engenho, que a reforma do telhado no ano passado foi paga do meu bolso. Clarissa engasgou, chocada com a dureza. Teodoro. Mas o coronel ergueu a mão, seus olhos nunca deixando o padre. Não estou ameaçando, padre, estou lembrando.

    Nunca pedi nada em troca da minha generosidade para com a igreja, mas agora estou pedindo. Uma cerimônia simples, discreta, é tudo que quero. O padre Sebastião ficou em silêncio por um longo momento. Quando falou, sua voz era mais suave. E o bebê será meu filho, Teodoro disse firmemente.

    Em todos os aspectos que importam, levará meu nome, terá minha proteção, meu amor. O padre olhou para Clarice. E você, minha filha, está certa disso? Não está sendo coagida? Não, padre, Clarice disse, encontrando sua voz. Estou certa. O coronel me ofereceu bondade quando o mundo me mostrou crueldade. Ofereceu honra quando fui deshonrada. Ele é um homem bom e serei afortunada em ser sua esposa.

    Algo mudou na expressão do padre. Talvez fosse a sinceridade em sua voz. Talvez fosse a firmeza com que Teodoro a defendera. Ou talvez, pensou Clarice, fosse simplesmente que até padres podem ter momentos de compaixão verdadeira. Muito bem, ele disse. Finalmente, realizarei a cerimônia, mas haverá condições.

    Clarice deve fazer confissão, deve demonstrar arrependimento verdadeiro. Arrependimento por quê? Teodoro perguntou perigosamente. Por ter confiado, por ter amado? Arrependimento? O padre disse cuidadosamente, por relações fora do sacramento do matrimônio. São as regras da igreja, coronel, não minhas. Clarice colocou a mão no braço de Teodoro, sentindo atenção em seus músculos.

    Está bem”, ela disse baixinho. “Farei a confissão.” Teodoro olhou para ela e ela viu protesto em seus olhos, mas assentiu lentamente. A confissão foi no dia seguinte, na pequena capela do engenho. Era uma construção linda, paredes caiadas de branco, teto abobado, pintado com cenas bíblicas desbotadas, um altar de madeira entalhada, imagens de santos em seus nichos, cheirava a incenso e cera de vela.

    Clarice ajoelhou-se no confessionário, suas mãos tremendo enquanto fazia o sinal da cruz. Perdoe-me, padre, porque pequei. Contou tudo. Fernando, as promessas, a noite de janeiro, a gravidez, o abandono. E sim, disse que lamentava. Lamentava ter sido ingênua, lamentava ter confiado. Lamentava ter entregado algo tão precioso a alguém tão indigno, mas não lamentava o bebê.

    Isso ela se recusou a dizer. O padre Sebastião deu-lhe sua penitência, três rosários, doação para os pobres e a promessa de ser esposa fiel e virtuosa. Clarice aceitou tudo. Quando saiu da capela, Teodoro a esperava sob a sombra de um jambeiro. Aproximou-se mancando, apoiando-se na bengala. Está bem? Ele perguntou. Estou, ela disse. E era verdade. Sentia-se leve.

    como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. “O padre marcou a cerimônia para sábado próximo.” Teodoro disse: “Será pequena, apenas família próxima e pessoas do engenho. Espero que esteja bem.” “Está perfeito,” Clarice disse. Ele hesitou depois. Há algo que preciso lhe dar. Do bolso de sua camisa, tirou um pequeno estojo de veludo.

    Abriu, revelando um anel, ouro simples, desgastado pelo tempo, com uma pequena esmeralda encrustada. “Era de minha avó”, ele explicou. “E depois de minha mãe? Amélia nunca usou. Ela tinha as próprias joias de família, mas eu gostaria, se você aceitar, que fosse seu. Clarice olhou para o anel, sentindo emoção apertar sua garganta. É lindo.

    Posso? Teodoro perguntou, tirando o anel do estojo. Ela estendeu a mão e ele deslizou o anel em seu dedo. Ficou perfeito, como se tivesse sido feito para ela. “Obrigada”, ela sussurrou. Não. Ele disse suavemente. Obrigado a você por me dar uma segunda chance de ter uma família. Nos dias que se seguiram, o engenho fervilhava de preparativos.

    Rosa comandava tudo com eficiência militar, limpando a capela, preparando o banquete, organizando flores dos jardins. Joaquina e outras mulheres do engenho costuravam toalhas novas para as mesas. Benedito e os homens preparavam porcos para assar, montavam tendas nos jardins para acomodar os convidados e Clarice, com ajuda de Rosa e Helena, trabalhava em seu vestido de noiva.

    Não seria branco. Ela não tinha esse direito e ambas sabiam disso. Em vez disso, era azul celeste, a cor do céu da Baia, feito de algodão fino com sobreposição de organza. A saia era simples, mas elegante, e o corpete, ah, o corpete era a obra prima.

    Clarice bordara a mão cada centímetro dele, flores tropicais em fios de seda, hibiscos, jasmins rosas. Helena a havia ajudado, seus pontinhos infantis misturados aos profissionais de Clarice, tornando o vestido ainda mais especial. É o vestido mais bonito do mundo,” Helena” declarou quando ficou pronto. “Você vai ser a noiva mais linda”.

    Mas enquanto os preparativos avançavam, Clarice sabia que nem tudo seria fácil. As notícias se espalharam, é claro. No recôncavo, novidades viajavam mais rápido que cavalos. Duas noites antes do casamento, houve visitantes. Dona Margarida Sampaio chegou com sua filha Carolina.

    Mas ao contrário da visita anterior, desta vez não havia cortesia fingida nos olhos de Carolina. Coronel, Carolina disse assim que foram recebidos na sala de visitas. Certamente o senhor não vai realmente se casar com ela. Teodoro, que estava de pé perto da lareira, endireitou-se com minha noiva, a senrita Almeida? Sim, vou. No sábado. Mas ela está grávida.

    Carolina exclamou como se Teodoro não soubesse. Grávida de outro homem é um escândalo. O único escândalo, Teodoro disse friamente. Foi o modo como ela foi tratada pelo homem que a enganou e pela sociedade que a julgou. Carolina. Dona Margarida interveio suavemente. Talvez devêssemos não, mamãe. A jovem a interrompeu.

    Alguém precisa fazer o coronel ver razão. Ele está jogando fora sua reputação, o nome de sua família, tudo. E por quê? Por uma uma cuidado, Teodoro disse. E havia perigo real em sua voz. Muito cuidado com a próxima palavra que escolher. Clarice, que estava sentada quieta no sofá, levantou-se. Talvez eu deva me retirar. Não. Teodoro disse firmemente.

    Você fica. Esta é sua casa agora. Estas pessoas são nossas visitantes. Dona Margarida levantou-se também, colocando a mão no braço da filha. Coronel, peço desculpas pelo comportamento de Carolina. Ela está preocupada com sua felicidade. Está preocupada, Teodoro disse, seus olhos indo para Carolina, porque tinha esperanças de se tornar senhora deste engenho.

    Esperanças que nunca foram correspondidas, nem encorajadas. Carolina ficou branca, depois vermelha. Como ousa? Ouso, Teodoro disse, porque é minha casa e minha vida. E escolhi compartilhá-la com Clarice. Se isso ofende, as portas estão abertas para sua saída. Foi dona Margarida quem salvou a situação. Soltou um suspiro longo, depois olhou diretamente para Clarice.

    Senrita Almeida, posso falar francamente? Por favor, Clarice disse, sua voz mais firme do que se sentia. Vi muita coisa em minha vida. Perdi um filho. Criei esta aqui sozinha depois que meu marido morreu. Sei como a sociedade pode ser cruel, especialmente com mulheres. E sei também quando um homem está fazendo a escolha certa. Ela olhou para Teodoro. O coronel é meu vizinho há 20 anos.

    Viu casar-se com Amélia, viu sofrer quando ela morreu e nestes últimos três anos viu definhar como planta sem sol. Mas estas últimas semanas, desde que a senhorita chegou, vi vida retornar aos olhos dele. Vi Helena feliz novamente. Voltou-se para Clarice. Então, senhorita, seja bem-vinda à família e saiba que tem pelo menos uma aliada entre a sociedade local.

    Estendeu a mão e Clarice a apertou, sentindo lágrimas queimar em seus olhos. Mamãe! Carolina protestou. Chega, Carolina. Dona Margarida disse firmemente: “Vamos para casa e você vai pensar muito sobre gentileza e compaixão”. Quando partiram, Teodoro se aproximou de Clarice. “Sinto muito por isso. Não precisa pedir desculpas”, Clarice disse. Ela não disse nada que eu não esperasse ouvir.

    Ainda assim, ele disse, pegando sua mão, a que usava o anel de esmeralda. Você não merece ser tratada assim e prometo, enquanto eu viver, ninguém a tratará com desrespeito em minha presença. Era uma promessa feroz, quase violenta em sua intensidade.

    E Clarice percebeu que Teodoro Vasques de Albuquerque era um homem que mantinha suas promessas. Sábado amanheceu claro e dourado. Clarice acordou com borboletas no estômago, nervosismo misturado com algo que poderia ser esperança. Rosa a ajudou a se vestir, prendendo cada botão do vestido azul celeste, arrumando seus cabelos em tranças elaboradas, entrelaçadas com flores de jasmim do jardim.

    Não havia vé, outra concessão à sua situação, mas havia uma pequena coroa de flores que Helena insistira em fazer. Está linda! Helena disse, seus olhos brilhando. Papai vai achar que você é uma princesa! A cerimônia foi ao meio-dia, quando o sol estava alto, mas a brisa do mar trazia alívio do calor. A capela estava cheia, não da alta sociedade do recôncavo, mas dos trabalhadores do engenho, dos vizinhos próximos, das pessoas simples que conheciam Teodoro como homem justo.

    Benedito a conduziu até o altar, fazendo o papel de pai que ela não tinha. Suas mãos tremiam enquanto caminhava pelo corredor estreito, mas então viu Teodoro esperando. Ele usava seu melhor terno, preto, formal, com colete de seda cinza. Havia barbeado, penteado seus cabelos, parecia imponente, aristocrático, mas o que prendeu Clarice foram seus olhos.

    Neles ela viu não julgamento, não piedade, mas algo que poderia com o tempo transformar-se em amor. A cerimônia foi breve. O padre Sebastião conduziu os votos tradicionais. Teodoro respondeu com voz firme: “Clarice, com voz tremendo apenas ligeiramente. Aceita este homem como seu legítimo esposo para amá-lo e respeitá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte o separe.

    Aceito.” Aceita esta mulher como sua legítima esposa para amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte o separe? Aceito. Trocaram anéis. O dela já estava em seu dedo, mas Teodoro havia encomendado um para si, ouro simples e forte.

    Depois o padre disse: “Pelo poder que me foi conferido pela Santa Igreja, eu os declaro marido e mulher. O que Deus uniu não separe o homem. E então Teodoro se inclinou e a beijou. Foi casto, breve, respeitoso, mas suficiente para fazer o coração de Clarice acelerar. Quando se viraram para os convidados, havia aplausos e gritos de alegria. Helena correu para abraçá-los.

    Rosa chorava discretamente. Benedito sorria amplamente e lá fora, nas árvores do jardim, os pássaros cantavam como se celebrassem. Também a festa que se seguiu foi alegre e barulhenta. Mesas montadas nos jardins gemiam sob o peso da comida. Porco assado, galinha ensopada, farofa, pirão, arroz de coco, cocadas, bolos de tapioca. Havia música.

    Violeiros tocando modinhas, lundos, até alguns batuques discretos que faziam os mais velhos sorrirem com nostalgia. Clarice e Teodoro se sentaram à mesa principal, recebendo os cumprimentos dos convidados. A maioria foi gentil, sincera. Alguns foram cautelosos, mas educados, e alguns, muito poucos, foram frios, mas não importava.

    Porque quando Clarice olhou ao redor, viu alegria genuína nos rostos das pessoas. Viu Helena radiante dançando com Joaquina. Viu Rosa distribuindo comida com satisfação maternal. Viu trabalhadores do engenho celebrando com seus patrões como família, não como servos. E viu Teodoro ao seu lado, seu marido agora, olhando para ela com algo que poderia, apenas poderia ser o começo de algo precioso.

    Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de laranja e rosa e dourado, Teodoro ofereceu sua mão. “Dançamos?” Clarice aceitou, deixando-se ser guiada para o espaço improvisado de dança. Seus movimentos eram cuidadosos. A perna dele ainda não estava completamente curada, mas enquanto dançavam lentamente sob o céu em chamas, Clarice sentiu pela primeira vez em meses que talvez, apenas talvez, tudo ficaria bem. Feliz? Teodoro perguntou baixinho. Sim, Clarice respondeu.

    Estou feliz. E era verdade. Contra todas as probabilidades, contra tudo que a sociedade dizia, ela era feliz. tinha um marido honrado, uma filha amorosa, um lar e a promessa de um futuro que, embora incerto, era cheio de possibilidades. Quando a noite caiu completamente e as estrelas emergiram, brilhando como diamantes em veludo negro, Clarice olhou para cima e fez uma prece silenciosa de gratidão.

    E em algum lugar, ela gostava de pensar, almas bondosas sorriam. tia Benedita, seus pais, talvez até dona Amélia, que certamente estaria feliz de ver sua filha amada novamente. A jornada estava apenas começando, mas pela primeira vez, desde que Fernando a abandonara, Clarice não tinha medo do futuro.

    O casamento foi realizado, mas como será a vida de casados? O amor verdadeiro florescerá? Não perca a próxima cena da história. Deixe seu like, inscreva-se e comente o que achou desta cerimônia emocionante. Os primeiros dias de casamento foram estranhos e delicados, como aprender a dançar uma música que nenhum dos dois conhecia completamente.

    Clarice mudou-se para o quarto principal do casarão, o antigo quarto de Teodoro e Amélia. Era amplo e luminoso, com janelas altas que davam para os jardins, uma cama enorme de jacarandá entalhado, cômodas de madeira nobre e um grande espelho em moldura dourada. Havia ainda vestígios de Amélia, um pente de prata na penteadeira, um chale de seda dobrado sobre uma cadeira, um livro de poesias em francês na mesinha de cabeceira.

    Na primeira noite, Clarice ficou parada no centro do quarto, incerta. Teodoro entrou mancando, sua bengala batendo no chão de tábuas e percebeu sua hesitação. As coisas de Amélia, ele disse baixinho. Deveria tê-las removido. Foi insensível da minha parte. Não, Clarice disse rapidamente.

    Ela foi sua esposa, mãe de Helena, tem todo o direito de estar aqui. Teodoro a olhou por um longo momento. Você é generosa demais. Não sou, Clarice respondeu honestamente. Apenas sei que não estou tentando substituí-la. Estou tentando ser algo diferente, algo meu. Algo mudou na expressão de Teodoro. Ele se aproximou lentamente até ficar diante dela.

    “Obrigado”, disse suavemente por entender isso. Houve um momento de tensão, ambos conscientes da cama grande atrás deles, das expectativas que vinham com o casamento. “Mas então Teodoro deu um passo atrás. Minha perna ainda está doendo, ele disse. E Clarice percebeu que era uma desculpa gentil. E você está grávida, cansada da celebração.

    Podemos podemos tomar nosso tempo. Não há pressa. Alívio e algo que poderia ser decepção se misturaram no peito de Clarice. “Obrigada”, ela sussurrou. Naquela noite dormiram em lados opostos da grande cama um abismo de lençóis de linho entre eles. Mas era um começo. Os dias estabeleceram uma nova rotina.

    Clarice acordava cedo, como sempre, mas agora encontrava Teodoro já vestido tomando café na sala de jantar. Comiam juntos. Ele lia correspondências, ela bordava em silêncio o companheiro. Depois ele ia para os canaviais e ela para a sala de costura com Helena. As tardes eram dedicadas a aprender a gerenciar a casa. Rosa a ensinou os segredos da cozinha baiana, como fazer vatapá que não talha o ponto certo da cocada, o tempero perfeito para a moqueca.

    Ensinou-a também a lidar com os empregados, com os fornecedores, com as mil pequenas decisões que uma senhora de engenho precisava tomar. “Você está se saindo bem?” Rosa disse uma tarde enquanto revisavam as contas da semana. “Dona Amélia levou meses para aprender tudo isso. Você está pegando em semanas.

    ” Tive uma boa professora”, Clarice respondeu com um sorriso. As noites eram o momento mais íntimo. Após o jantar, quando Helena já estava dormindo, Clarice e Teodoro se sentavam na biblioteca, ele em sua poltrona favorita de couro, ela no sofá próximo e conversavam sobre tudo e nada, sobre os livros que ele lia, sobre as rendas que ela fazia, sobre o engenho, sobre política, sobre o mundo em transformação ao redor deles.

    A abolição vai mudar tudo”, Teodoro disse numa dessas noites, olhando para o fogo na lareira. Alguns engenhos já estão falindo. Sem mão de obra escrava não conseguem competir. Mas eu acho, espero que seja uma mudança necessária, uma dívida que esta nação precisa pagar. Você libertou seus escravos antes da lei. Clarice comentou.

    Rosa me contou porê. Ele ficou em silêncio por um longo momento, porque olhava para eles e via pessoas, não propriedade, pessoas com sonhos, medos, famílias. Como eu poderia continuar mantendo-os em cativeiro e ainda me olhar no espelho? Era nesses momentos que Clarice sentia coração se expandir.

    Este homem que a sociedade via apenas como fazendeiro austero, tinha profundidade que poucos percebiam. E lentamente, noite após noite, o abismo na cama foi diminuindo. Primeiro acordavam mais próximos, o calor dos corpos buscando um ao outro inconscientemente durante o sono. Depois começaram a se desejar boa noite com beijos castos na bochecha.

    Depois, beijos nos lábios, breves, mas cheios de promessas. Foi numa noite de lua cheia, duas semanas após o casamento, que tudo mudou. Clarice estava grávida de seis meses agora. Sua barriga era redonda e óbvia, o bebê chutando constantemente. Ela estava na cama, vestida em sua camisola de algodão, lendo a luz do lampião. Quando Teodoro entrou, ele parou na porta, olhando para ela, e havia algo diferente em seus olhos, algo quente e suave.

    “Posso?”, ele perguntou, apontando para a cadeira ao lado da cama. Claro. Ele sentou-se, seus olhos indo para a barriga arredondada dela. Posso, posso sentir? Clarice sentiu calor subir por suas bochechas, mas a sentiu. Pegou a mão dele e a colocou sobre sua barriga, exatamente onde o bebê estava chutando. Teodoro o ofegou quando sentiu o movimento. “Ele é forte”, disse maravilhado.

    “Ou ela”, Clarice corrigiu com um sorriso. “Ou ela, ele concordou. Seus olhos encontraram os dela. Clarice, eu sei que este casamento começou como arranjo, mas eu gostaria, se você estiver disposta, gostaria de tentar fazer dele algo mais. O coração de Clarice acelerou. Eu também gostaria. Bises, posso beijá-la? Ele perguntou sua voz rouca.

    De verdade? Em resposta, Clarice puxou-o para mais perto. O beijo foi diferente dos outros, não casto, não breve. Era profundo, explorando, cheio de promessas e possibilidades. Quando se separaram, ambos estavam sem fôlego. Clarice! Teodoro sussurrou contra seus lábios. Você está grávida? Não quero machucá-la ou ao bebê. Não vai, ela assegurou, puxando-o de volta.

    Rosa disse que é seguro se formos cuidadosos. E foram cuidados. Deodoro. Tratou-a como porcelana preciosa, cada toque reverente, cada beijo adorador. E quando finalmente se tornaram marido e mulher em todos os sentidos, foi com ternura e respeito que fez Clarice chorar. Depois, deitados entrelaçados, Teodoro acariciava seus cabelos.

    Não me arrependo”, ele disse suavemente. “De nada. Você trouxe luz de volta à minha vida e você me salvou.” Clarice respondeu: “Quando eu não tinha esperança, você me ofereceu tudo.” Dormiram juntos pela primeira vez, sem abismos, sem barreiras. E Clarice sentiu pela primeira vez que talvez, apenas talvez este casamento pudesse se tornar o que ela ousara sonhar.

    Os meses seguintes passaram em felicidade crescente. A barriga de Clarice crescia e com ela o amor entre ela e Teodoro. Ele tornara-se atencioso ao extremo, insistindo que ela descansasse, trazendo-lhe travesseiros extras, lendo para ela a noite, quando estava cansada demais para segurar o próprio livro. Helena estava encantada com a perspectiva de ser irmã mais velha.

    Passava horas conversando com a barriga de Clarice, contando histórias ao bebê ainda não nascido, cantando canções de ninar que Rosa lhe ensinara. Você acha que ele vai gostar de mim?”, ela perguntou preocupada uma tarde. “Ela vai amar você?” Clarice corrigiu gentilmente. Como eu amo! E era verdade.

    Clarice amava Helena como se fosse sua própria filha. E Helena, que nunca havia chamado Clarice de mãe antes do casamento, agora o fazia naturalmente, sem pensar. Foi em agosto, quando o calor do recôncavo estava no auge e as chuvas haviam cessado temporariamente que as contrações começaram. Clarice estava na sala de costura com Helena quando sentiu a primeira.

    Não era exatamente dor, mas um aperto, uma tensão que percorria seu abdômen como uma onda. parou de bordar esperando. Senhorita mãe Helena corrigiu-se. Está bem? Estou. Clarice começou, mas então veio outra contração mais forte. Na verdade, querida, acho que você deveria chamar Rosa. Helena correu para buscar a cozinheira. Rosa chegou, tomou uma olhada em Clarice e imediatamente assumiu o controle.

    Joaquina, mande Benedito buscar tia Mariana imediatamente e mande alguém avisar o coronel nos canaviais. As próximas horas foram um borrão. Clarice foi levada para o quarto, onde Rosa e Joaquina a ajudaram a se deitar. As contrações ficavam mais fortes, mais frequentes. Ela tentava ser corajosa, mas o medo a consumia.

    E se algo desse errado? E se perdesse o bebê? E seodoro apareceu suado do trabalho e da cavalgada apressada de volta. Ajoelhou-se ao lado da cama, pegando sua mão. “Estou aqui”, ele disse firmemente. “Não vou a lugar nenhum. Tia Mariana chegou uma hora depois, uma mulher negra de seus 50 anos, ex-escrava que havia aprendido as artes de parteira com sua própria mãe, que por sua vez aprendera com a mãe dela numa linhagem que se estendia de volta à África.

    Suas mãos eram firmes e gentis quando examinou Clarice. “Tudo está bem”, ela anunciou. “Mas vai demorar ainda? Primeiro os bebês sempre demoram. Senhor coronel, o senhor precisa sair. Parto não é lugar para homens.” “Não.” Teodoro disse teimosamente: “Fico! Tia Mariana ergueu uma sobrancelha, mas não discutiu. Então, fique longe do caminho e seja útil. Segure a mão dela quando precisar. A tarde deu lugar à noite.

    A dor ficava mais intensa a cada hora. Clarice gritava durante as contrações piores, apertando a mão de Teodoro com força suficiente para machucar. Mas ele nunca reclamou, nunca se afastou, apenas ficou ali murmurando encorajamentos. limpando seu rosto com pano úmido, sendo a âncora que ela precisava. “Não consigo.

    ” Clarice chorou em certo ponto. “Não consigo mais.” “Pode sim, Teodoro” disse firmemente. Você é a mulher mais forte que conheço. Salvou minha vida durante uma tempestade. Enfrentou toda a sociedade de cabeça erguida. Pode fazer isso? E ela podia, tinha que poder. Foi quando o relógio marcava meia-noite que tia Mariana finalmente disse: “Está na hora.

    Na próxima contração quero que empurre com toda sua força.” Clarice empurrou e empurrou. empurrou-o até achar que se partiria ao meio. E então, de repente houve alívio e um choro forte, indignado, vivo. É um menino, tia Mariana anunciou erguendo a criança. Um menino lindo e saudável.

    Clarice desmoronou de volta nos travesseiros, exausta, mas exultante. Tia Mariana limpou o bebê rapidamente, cortou o cordão, envolveu-o em panos limpos e então o colocou nos braços de Clarice. Ele era perfeito, pequeno, mas robusto, com tufos de cabelo escuro, pele rosada, mãos minúsculas que se agarravam ao ar. Seus olhos, impossíveis de dizer a cor ainda, piscavam na luz do lampião.

    “Olá, meu amor”, Clarice sussurrou, lágrimas escorrendo por seu rosto. “Olá, meu filho.” Teodoro estava ao lado dela, olhando para o bebê com expressão de puro assombro. “Posso?”, Ele perguntou hesitante. Clarice transferiu o bebê para os braços de Teodoro com cuidado e viu algo quebrar em seu marido, quebrar e se reconstruir em algo novo.

    Lágrimas corriam abertamente por seu rosto enquanto olhava para a criança. “Bem-vindo, pequeno”, ele murmurou. “Bem-vindo à nossa família.” “Como vamos chamá-lo?”, Clarice perguntou. Haviam discutido nomes, mas nunca decidido definitivamente. Teodoro olhou para ela, depois para o bebê, depois de volta para ela.

    Joaquim, ele disse, Joaquim Teodoro de Albuquerque, se você concordar. Joaquim era o nome do seu pai, não era? Clarice sentiu nova onda de lágrimas. Que ele se lembrasse desse detalhe, que quisesse honrar sua família. Sim, ela sussurrou. É perfeito. Os dias que se seguiram ao nascimento foram de alegria e adaptação. Joaquim era um bebê bom.

    chorava quando tinha fome ou estava molhado, mas geralmente era calmo. Clarice amamentava-o, maravilhada com a sensação, com o instinto que tomava conta dela. Helena estava apaixonada pelo irmão mais novo. Passava horas sentada ao lado do berço cantando para ele, fazendo caretas para fazê-lo sorrir.

    E quando Joaquinha agarrava o dedo com sua mãozinha minúscula, Helena brilhava de orgulho. “Ele me conhece”, ela declarava. “Ele sabe que sou a irmã dele.” Teodoro era um pai devotado. Levantava-se de noite quando Joaquim chorava, trocava fraldas sem reclamar, embalava o bebê quando Clarissa estava cansada demais.

    E quando segurava o menino, havia tal ternura em seus olhos que ninguém jamais questionaria que aquele era seu filho em todos os sentidos que importavam. O batizado foi marcado para quando Joaquim tivesse um mês. Seria uma celebração grande. Teodoro insistira nisso. Queria que todos vissem, que todos soubessem que este era seu filho legítimo e amado.

    Mas dois dias antes do batizado, houve visitantes inesperados. Clarice estava na sala de estar amamentando Joaquim quando Rosa apareceu na porta com expressão grave. Tem gente aqui para ver o coronel”, ela disse, “do santo Amaro, o comendador Ribeiro e o filho dele.” Clarice sentiu o sangue gelar nas veias.

    “Fernando, Fernando estava ali. Onde estão?”, ela perguntou sua voz surpreendentemente firme. “Sala de visitas. O coronel foi recebê-los. Disse para você ficar aqui.” Mas Clarice não podia ficar. Não. Quando Fernando estava em sua casa. falando com seu marido, terminou de amamentar Joaquim rapidamente, passou-o para a rosa, ajeitou o vestido e desceu. Parou na porta da sala de visitas.

    Fernando estava lá, elegante como sempre, em terno cinza, chapéu na mão, mas havia algo diferente nele. Parecia mais velho, cansado e infeliz. Ao lado dele estava um homem mais velho que só poderia ser o comendador. Cabelos grisalhos, bigode espesso, porte aristocrático. E Teodoro estava de pé diante deles, seus braços cruzados, expressão fria como gelo.

    “Simplesmente queremos vê-la”, o comendador estava dizendo. “Assegurar-nos de que está bem tratada. Minha esposa, Teodoro disse, ênfase deliberada na palavra, está perfeitamente bem obrigado e não vejo razão para que precisem assegurar-se de nada. Foi então que Fernando a viu na porta. Seu rosto empalideceu. Clarice, todos se viraram.

    Deodoro moveu-se imediatamente para o lado dela, seu braço indo protetoramente ao redor de sua cintura. Senhorita, senhora de Albuquerque. Fernando corrigiu-se e havia dor em sua voz. Você está bem? Estou perfeitamente bem, Clarice disse, sua voz fria. Obrigada pela preocupação, Dr. Ribeiro, embora tarde demais. O comendador limpou a garganta.

    Senhora, vim porque tomei conhecimento da situação, de como meu filho a tratou. e vim oferecer compensação, apoio financeiro para a criança. “Não preciso de sua compensação”, Clarice disse firmemente. “Meu filho tem pai, um pai que o ama e o reconhece. Um pai que é mais homem do que seu filho jamais será.” Fernando recuou como se tivesse sido esbofeteado.

    Clarice, eu, desculpa, sei que não significa nada agora, mas me arrependo. Todos os dias me arrependo. Seu arrependimento, Teodoro disse friamente. Não interessa. O que interessa é que minha esposa e meu filho estão bem, felizes e não precisam de vocês. Sugiro que partam agora, por favor.

    Fernando disse, ignorando o pai que tentava puxá-lo em direção à porta. Só quero vê-lo, ver o bebê uma vez. Não, Clarice disse. Você perdeu esse direito quando me abandonou. Joaquim é filho de Teodoro. Apenas de Teodoro. Joaquim, Fernando, repetiu, o nome saindo como um gemido. Você deu a ele o nome do seu pai. Dei Clarice confirmou. nome do meu marido, Joaquim Teodoro de Albuquerque. Ele vai crescer sabendo quem é seu pai e não é você.

    Fernando fechou os olhos, lágrimas escapando. Meu casamento, a mulher do Barão, foi anulado dois meses depois da cerimônia. Ela me traía com outro e agora estou sozinho. E você? E eu estou feliz. Clarice terminou. Tenho marido que me ama, filhos que me amam. Uma vida boa. Tudo que você me tirou, Deus me devolveu multiplicado. Então, vá, Fernando, vá e não volte.

    O comendador finalmente conseguiu arrastar o filho para a saída. Teodoro os acompanhou até a porta principal, certificando-se de que partiam. Quando voltou, encontrou Clarice tremendo. Puxou-a para seus braços imediatamente. Está bem? Quer que eu vá atrás deles? que os impeça de não. Clarice disse, enterrando o rosto em seu peito.

    Não, só me abrace. E ele abraçou forte e firme até que o tremor passasse. Naquela noite, depois que Joaquim estava dormindo e Helena também, Clarice e Teodoro se deitaram juntos na grande cama. Estava com medo. Ela admitiu na escuridão. Medo de que vê-lo de novo fizesse tudo voltar. A dor, a vergonha, tudo. E voltou? Teodoro perguntou suavemente.

    Não Clarice disse surpresa ao perceber que era verdade. Olhei para ele e não senti nada, nem amor, nem ódio, apenas nada, como olhar para um estranho. Porque ele é um estranho, Teodoro disse, você não é mais a mulher que ele conheceu. Você cresceu, ficou mais forte e ele ele hesitou. Ele perdeu tudo que poderia ter tido.

    Clarice se virou para encará-lo na penumbra. Você me ama de verdade? Amo! Teodoro disse sem hesitação. Não sei quando aconteceu. Talvez quando você arriscou sua vida para salvar a minha. Talvez quando vi você com Helena pela primeira vez trazendo alegria de volta aos olhos dela. Talvez foi crescendo lentamente sem eu perceber.

    Mas sim, Clarice. Amo você profundamente. Eu também te amo. Ela sussurrou. Amo você e Helena e Joaquim e esta vida que construímos juntos. Ele a beijou então profundo e longo. E quando fizeram amor naquela noite, foi diferente de todas as outras vezes. Foi uma celebração, uma afirmação, um compromisso renovado.

    O batizado de Joaquim foi no domingo seguinte. A capela estava lotada. Todo o engenho presente, fazendeiros vizinhos, até algumas famílias de Santo Amaro que haviam feito a viagem. Joaquim usava o vestido de batizado que Clarice havia passado meses bordando. Linho branco com rendas delicadas, cada ponto feito com amor.

    Era tão lindo que várias senhoras comentaram que deveria ser guardado como herança de família. Dona Margarida e o coronel Leôcio foram os padrinhos. Escolha estratégica de Teodoro para mostrar à sociedade que famílias respeitadas apoiavam o casamento. Seguraram Joaquim durante a cerimônia, prometendo guiá-lo na fé. Quando o padre Sebastião derramou água benta na cabeça de Joaquim, o bebê não chorou, apenas piscou, seus olhos escuros focando no rosto do padre, como se entendesse a solenidade do momento.

    Joaquim Teodoro de Albuquerque. O padre entonou: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E estava feito. Aos olhos de Deus e dos homens, Joaquim era legítimo, reconhecido, abençoado. A festa, após o batizado, foi gloriosa.

    Mesas gemendo sob comida, música enchendo o ar, crianças correndo pelos jardins. E no centro de tudo, Clarice e Teodoro, com Joaquim nos braços, Helena ao lado, uma família verdadeira. Carolina Sampaio apareceu brevemente, cumprimentou friamente e partiu cedo, mas não importava, porque a maioria das pessoas estava ali celebrando genuinamente, aceitando esta família não convencional, que havia nascido da dor, mas florescera no amor.

    Quando a noite caiu e os convidados começaram a partir, Teodoro encontrou Clarice na varanda embalando Joaquim, que havia acabado de adormecer. Feliz?”, ele perguntou, repetindo a pergunta que fizera no dia do casamento. “Mais feliz do que jamais imaginei ser possível”, Clarice respondeu honestamente.

    Helena apareceu sonolenta, arrastando sua boneca. “Posso dormir com vocês hoje?”, ela perguntou. “Como fazíamos quando eu era pequena e mamãe Amélia ainda estava aqui?” Clarice e Teodoro trocaram um olhar. Depois Clarice sorriu. Claro, querida. Vamos todos dormir juntos, uma família. Naquela noite, na grande cama de Jacarandá, quatro pessoas dormiram abraçadas.

    Teodoro com um braço ao redor de Clarice, outro segurando Helena. Clarice com Joaquim no berço ao lado da cama, um braço estendido para tocar levemente a criança. Helena, aninhada entre eles, finalmente completa, finalmente em paz. E se Amélia podia ver do céu, Clarice gostava de pensar que ela sorria porque sua filha era amada. Seu marido havia encontrado felicidade novamente e a família continuava.

    Do lado de fora, o recôncavo dormia sob estrelas brilhantes. Os canaviais sussurravam na brisa noturna e dentro do engenho São Teodoro, onde uma vez houvera apenas dor e perda, agora havia amor, esperança e a promessa de futuros ainda mais brilhantes. Os anos passaram como páginas virando num livro bem amado, cada uma preciosa, cada uma deixando sua marca.

    Joaquim cresceu forte e saudável, um menino alegre, de riso fácil e curiosidade insaciável. Aos dois anos, já corria atrás de Helena por toda a casa grande, seus passinhos desajeitados, fazendo Rosa rir e avisar para tomarem cuidado. Tinha os cabelos escuros de Clarice, mas os olhos, ah, os olhos eram castanho escuros como os de Teodoro, e aquilo era uma fonte constante de alegria secreta para ambos, como se o destino estivesse dizendo que este menino realmente pertencia àquela família.

    E então veio Maria Amélia. Dois anos após o nascimento de Joaquim, numa tarde chuvosa de abril, Clarice deu à luz uma menina. Foi um parto mais fácil que o primeiro. Tia Mariana disse que sempre era assim com o segundo filho. A bebê nasceu chorando forte, já demonstrando a personalidade vibrante que definiria sua vida. Quando Teodoro a viu pela primeira vez, lágrimas escorreram por seu rosto.

    “Ela se parece com ela”, ele sussurrou. “Com Amélia, os mesmos olhos, o mesmo cabelo. Clarice pegou sua mão, apertando-a. Quer que chamemos de outro nome?” “Não, Teodoro” disse firmemente. Quero honrá-la. Quero que nossa filha carregue o nome dela e saiba que foi amada por duas mães, uma que partiu cedo demais e outra que chegou quando mais precisávamos.

    Então batizaram a menina de Maria Amélia de Albuquerque. Helena estava encantada de ter uma irmãzinha e Joaquim, com seus dois anos, olhava para o bebê com fascínio confuso, tocando suas mãozinhas minúsculas com dedos exploradores. A vida no engenho São Teodoro floresceu sob a administração conjunta de Teodoro e Clarice.

    O engenho prosperou mesmo enquanto outros lutavam na transição pós abolição. Teodoro tratava os trabalhadores livres com respeito e pagava salários justos e, em troca, recebia lealdade e trabalho árduo. Clarice implementou mudanças próprias, estabeleceu uma escola pequena no engenho, onde os filhos dos trabalhadores aprendiam a ler, escrever e fazer contas.

    Rosa era a professora usando as habilidades que havia aprendido secretamente anos atrás, quando ainda era escrava. Educação, Clarice dizia, é a verdadeira libertação. E aos sábados reunia as meninas do engenho e das fazendas vizinhas na sala de costura, ensinando-as as artes de rendeira que sua própria tia lhe ensinara.

    Algumas dessas meninas viriam a se tornar rendeiras talentosas, sustentando suas famílias com o ofício. Mas nem tudo eram dias ensolarados. Houve desafios. Em 1891, uma seca terrível atingiu o recôncavo. Os canaviais murcharam sob o sol impiedoso. O rio baixou a níveis perigosos. Famílias passavam fome. Teodoro abriu os armazéns do engenho, distribuindo comida aos necessitados, mesmo sabendo que isso significava prejuízo.

    Clarice organizou as mulheres para fazer roupas e cobertores, preparar remédios de ervas. Não podemos assistir pessoas sofrerem quando temos meios de ajudar, Teodoro disse quando alguns vizinhos fazendeiros o criticaram por sua generosidade excessiva. A seca passou eventualmente e aqueles que o engenho havia ajudado nunca esqueceram.

    Em 1894 veio Pedro, outro menino nascido com os pulmões fortes e vontade férrea. Era o mais parecido com Teodoro, não apenas na aparência, mas no temperamento. Sério mesmo, bebê, observador, ponderado. Com três filhos agora, a casa grande estava constantemente cheia de vida. Risos, choros, brigas infantis, reconciliações.

    Helena, agora com 14 anos, era uma segunda mãe para os menores, cuidando deles com dedicação que fazia o coração de Clarice transbordar de orgulho. “Você vai ser uma mãe maravilhosa algum dia”, Clarice disse uma vez, observando Helena embalar Maria Amélia para dormir. Helena sorriu, um sorriso que não era mais de criança, mas de jovem mulher.

    “Aprendi com a melhor mãe”, ela respondeu simplesmente. E Clarice chorou porque Helena nunca, nenhuma vez fizera distinção entre ela e Amélia. Ambas eram suas mães, ambas amadas igualmente. Os anos 1890 trouxeram mudanças para o Brasil. A monarquia caiu. A República foi proclamada. Notícias chegavam pelo telégrafo de tumultos em Salvador, de mudanças no governo, de nova constituição.

    “O mundo está mudando”, Teodoro dizia lendo os jornais na biblioteca, “e precisamos mudar com ele.” investiu em modernização do engenho, uma nova moenda a vapor, mais eficiente, técnicas agrícolas importadas da Luisiana e mais controverso, começou a processar o açúcar em estágios mais avançados antes de exportar, agregando valor. Nem todos os vizinhos aprovavam.

    Está esquecendo as tradições, alguns diziam. Mas Teodoro estava certo. O engenho prosperou quando outros estagnaram. E Clarice também mudava. Não era mais a moça assustada que chegara grávida e desesperada. Era senhora de engenho, respeitada, admirada. Quando falava nas reuniões de senhoras da região, era ouvida. Quando organizava bazares beneficentes, eram sucessos absolutos.

    Até Carolina Sampaio eventualmente engoliu seu orgulho e veio pedir conselhos sobre como administrar a própria fazenda após a morte do pai. “Você sempre foi mais forte que eu imaginava”, Carolina admitiu numa tarde de chá. “Perdoe meu comportamento de anos atrás. Era inveja pura e simples. Clarice aceitou o pedido de desculpas com graça, porque sabia que guardar rancor apenas envenenaria sua própria felicidade.

    Em 1898, Helena se casou. O noivo era Antônio Carlos Barreto, filho de um comerciante de Salvador. Bom moço, educado, apaixonado por Helena desde que a vira numa missa na capital. O casamento foi na capela do engenho. Uma cerimônia linda, com flores enchendo cada canto, música preenchendo o ar. E foi Clarice quem fez o vestido de noiva de Helena.

    Meses de trabalho, cada ponto uma oração de amor, renda de birro cobrindo o corpete, pérolas minúsculas costuradas à mão, uma caludda que fluía como água. Quando Helena desceu o corredor de braço com Teodoro, não havia olho seco na capela. E quando Teodoro a entregou a Antônio, sussurrando algo ao ouvido do genro que fez o jovem assentir solenemente, Clarice viu finalmente a paz completa no rosto de seu marido.

    Ele havia cumprido sua promessa a Amélia. Havia criado a filha deles com amor. Vira a tornar-se uma mulher linda e gentil. Dera ar em casamento a um homem bom. Ela teria ficado orgulhosa. Clarice sussurrou para ele enquanto dançavam na festa. Eu sei. Teodoro respondeu, puxando-a mais perto. E você também deveria estar.

    Helena é tanto sua filha quanto minha, em todos os sentidos que importam. Um ano depois, Helena deu à luz o primeiro neto, um menino que chamaram de Teodoro Júnior. Ver Teodoro segurar aquele bebê, ver a continuação da linhagem foi um dos momentos mais felizes da vida de Clarice. Joaquim cresceu forte e determinado.

    Aos 8 anos, declarou que queria ser médico, como aquele doutor que veio de Salvador quando Maria Amélia ficou doente. explicou. Quero ajudar pessoas. Clarice e Teodoro trocaram olhares, médico, a profissão que Fernando havia pretendido, mas nunca verdadeiramente honrado. E agora seu filho, não de sangue de Fernando, mas em todos os outros sentidos, queria seguir esse caminho.

    Então, vamos garantir que você receba a melhor educação possível, Teodoro prometeu e cumpriu. Quando Joaquim completou 16 anos, foi enviado para estudar em Salvador, depois em Recife, finalmente na faculdade de medicina. As cartas que mandava para casa eram cheias de entusiasmo, de descobertas, de determinação. Maria Amélia revelou-se uma força da natureza.

    Linda como a mãe, impetuosa como o pai, com vontade de ferro toda sua, recusou-se a ser confinada aos papéis tradicionais femininos. Queria aprender a administração do engenho. Queria entender números e negócios. Deixe-a. Clarice aconselhou quando Teodoro expressou preocupação. O mundo está mudando. Nossas filhas precisam estar preparadas. Pedro era o mais sossegado dos três, mas também o mais observador.

    Amava a terra, os canaviais, os ritmos da natureza. “Vou cuidar do engenho quando crescer”, ele declarou aos 10 anos. “Vou fazer com que continue prosperando”. E Teodoro sorriu, sabendo que havia pelo menos um filho que seguiria seus passos. Os anos 1900 trouxeram mais mudanças. Eletricidade chegou ao recôncavo. Estradas melhoraram. Salvador crescia, modernizava-se.

    O mundo ficava menor, mais conectado. Mas também havia sombras, notícias de guerra na Europa, tensões políticas no Brasil, doenças que os médicos ainda não sabiam curar completamente. Em 1903, Rosa adoeceu. Pneumonia, disseram os médicos. Estava velha. seu corpo cansado de décadas de trabalho árduo. Clarice cuidou dela pessoalmente, sentando-se à cabeceira dia e noite, segurando sua mão.

    “Você foi mais que amiga”, Clarice sussurrou. “Foi mãe, irmã, tudo. Não sei o que faria sem você.” Rosa sorriu fracamente. Você ficaria bem. Sempre foi mais forte do que pensava. Mas me prometa uma coisa e continue, continue ensinando as meninas, continue cuidando das pessoas daqui.

    Continue sendo a luz que trouxe a este lugar. Prometo. Rosa morreu pacificamente três dias depois, cercada pela família do engenho que a amava. foi enterrada no pequeno cemitério ao lado da capela, com uma cerimônia que celebrou sua vida, sua força, seu legado. E Clarice manteve sua promessa, expandiu a escola, adicionou mais turmas.

    Começou um programa onde mulheres jovens podiam aprender não apenas costura, mas também administração básica, como ler contratos, como gerenciar dinheiro. Independência, ela dizia às alunas, vem de conhecimento. Ninguém pode tirar de vocês o que sabem. Em 1907, Joaquim retornou formado médico. Foi uma celebração enorme, o primeiro médico da família de Albuquerque. Estabeleceu consultório em Salvador, mas vinha ao engenho regularmente para atender os trabalhadores e suas famílias gratuitamente. Aprendi com vocês. Ele disse aos pais.

    Que privilégio vem com responsabilidade que aqueles que têm mais devem ajudar os que têm menos. Teodoro e Clarice choraram de orgulho. Em 1910, Maria Amélia chocou a sociedade casando-se com um professor, não fazendeiro, não comerciante, mas um professor de escola pública.

    Ele é o homem mais inteligente e bondoso que conheço. Ela defendeu quando algumas senhoras criticaram. E vou me casar com ele, mesmo que toda a Bahia desaprove. Clarice e Teodoro não desaprovaram. apoiaram completamente porque haviam criado seus filhos para seguir o coração, não as convenções sociais. Pedro assumiu papel cada vez maior na administração do engenho.

    Tinha talento natural para agricultura, para negócios. Sob sua orientação, o engenho diversificou, adicionando criação de gado, plantação de cacau, até uma pequena fábrica de rapadura. Em 1913, 25 anos após o casamento, Teodoro e Clarice celebraram suas bodas de prata. A festa foi grandiosa. Filhos, netos, amigos, trabalhadores do engenho, fazendeiros vizinhos, todos vieram celebrar. A capela foi decorada com flores brancas e prata.

    As mesas estavam carregadas com as comidas tradicionais do recôncavo. Música encheu o ar. Agora, não apenas violões e tambores, mas uma pequena orquestra trazida de Salvador. Helena veio com seus três filhos, Joaquim com sua noiva, uma professora inteligente e doce. Maria Amélia grávida de seu primeiro filho.

    Pedro com planos para expandir ainda mais o engenho. Mas o momento mais emocionante veio quando, no meio da celebração, houve uma comoção na entrada. Então, para choque de todos, apareceu um homem de cabelos grisalhos, curvado pelos anos, apoiado numa bengala. Fernando, um silêncio caiu sobre a festa. Todos sabiam a história.

    Havia se tornado lenda local, o amor que nascera da dor, a redenção que seguira. Teodoro deu um passo à frente, protetor, mas Clarice colocou a mão em seu braço. “Deixe-me”, ela disse suavemente. Aproximou-se de Fernando. Ele parecia ter envelhecido décadas em 25 anos.

    Seu rosto estava marcado, seus olhos vazios de tudo, exceto arrependimento. “Clarice”, ele disse, sua voz rouca. Eu não tinha direito de vir, eu sei, mas precisava, precisava ver, ver se você estava feliz. Clarice olhou para ele. Este homem que uma vez fora tudo, que depois fora nada e sentiu apenas compaixão. Estou feliz, Fernando, ela disse gentilmente. Muito feliz.

    Tenho marido maravilhoso, filhos abençoados, netos lindos, uma vida cheia de amor e propósito. Tudo que você me tirou, Deus me devolveu multiplicado. Fernando fechou os olhos, lágrimas escapando. Eu perdi tudo. Meu casamento ruiu. Meu pai me repudiou quando minhas indiscrições se tornaram públicas. Estou sozinho, pobre, sem nada. Sinto muito”, Clarice disse, e era sincera. “Mas isso foi suas escolhas, não meu problema. Eu sei.

    Eu só queria que você soubesse que me arrependo. Todos os dias me arrependo.” Clarsa sentiu. Aceito suas desculpas e o perdoo. Fernando, não por você, mas por mim, porque guardar raiva só envenenaria minha própria felicidade. Mas perdoar não significa esquecer, não significa que você tem lugar em minha vida.

    Então, vá, vá em paz, mas vá. Fernando a olhou uma última vez, depois a sentiu, virou-se para partir, mas Clarice o chamou de volta. Espere. Ela gesticulou para Joaquim, que estava observando tudo com olhos arregalados. Joaquim, vem aqui. O jovem médico se aproximou, alto e forte, a imagem da dignidade. Fernando Clarice disse claramente para que todos ouvissem.

    Este é meu filho, Joaquim Teodoro de Albuquerque, médico formado, homem de honra, filho do melhor pai que uma criança poderia ter. Fernando olhou para Joaquim e algo quebrou em seu rosto, porque ali estava tudo que ele poderia ter tido, tudo que jogara fora. Senhor, Joaquim disse com cortesia fria. Minha mãe teve a gentileza de perdoá-lo.

    Eu também, mas sugiro que parta agora, antes de perturbar ainda mais esta celebração. E todos observaram em silêncio, enquanto sua figura curvada desaparecia pela Alameda. Então, Teodoro estava ali puxando Clarice para seus braços. “Você está bem?” Estou”, ela disse, “Era verdade. Ver Fernando novamente não havia trazido dor, não havia trazido raiva, apenas confirmação de que ela havia feito as escolhas certas, que sua vida era exatamente como deveria ser.

    ” A festa continuou com alegria renovada e quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de dourado e rosa, Teodoro levou Clarice para o banco no jardim, o mesmo banco onde haviam passado tantas tardes nos anos anteriores. “25 anos”, ele disse pegando sua mão. “25 anos desde que fiz a melhor decisão da minha vida.” “Casar-se comigo?”, Clarice perguntou com um sorriso.

    Casar-me com você? Ele confirmou. Você transformou minha vida, Clarice. Trouxe-me de volta da escuridão. Deu-me não apenas um filho, mas três. Não apenas uma esposa, mas uma parceira, amiga, amor. Você tornou este engenho não apenas um lugar de trabalho, mas um lar. Você me salvou”, Clarice disse suavemente. “Quando eu estava perdida, sozinha, grávida e sem esperança, você estendeu a mão.

    Ofereceu-me dignidade quando o mundo me oferecia apenas vergonha. Deu-me amor quando eu achava que nunca mais seria amada.” “Lembra?” Teodoro? Disse, “daquela noite na tempestade, quando você veio me salvar? Lembro. Lembra do que eu disse depois quando propus casamento? Clarice fechou os olhos à memória clara, como se fosse ontem.

    Você disse: “Você me ofereceu tudo que eu precisava, uma segunda oportunidade, um propósito, amor. Deixe-me salvar você de volta.” E deixou, Teodoro disse, puxando-a mais perto. E em 25 anos construímos algo lindo, uma família, um legado, amor que vai além de nós, que continua em nossos filhos e netos. Sentaram em silêncio por um momento, observando o sol descer sobre os canaviais que haviam testemunhado tanto: dor e alegria, perda e ganho, morte e vida.

    Você se arrepende?”, Clarice perguntou de repente. “De ter casado comigo, de ter assumido Joaquim como seu.” Teodoro a olhou como se ela tivesse enlouquecido. Arrepender, Clarice. Estes 25 anos foram os mais felizes da minha vida. Amei Amélia. sempre amarei a memória dela, mas você me ensinou que o coração pode amar mais de uma vez, de formas diferentes, mas igualmente profundas.

    Joaquim é meu filho em todos os sentidos que importam e eu escolheria você. Escolheria esta vida mil vezes de novo. Lágrimas escorriam pelo rosto de Clarice. “Agora eu também”, ela sussurrou, “mil vezes.” Ele a beijou então sob o céu em chamas, cercados pelo som de música e riso de sua família, celebrando dentro da casa.

    E aquele beijo continha tudo, gratidão, amor, promessas cumpridas e ainda a cumprir. Quando se separaram, Clarice apoiou a cabeça em seu ombro. Estou cansada, ela admitiu. Estes anos foram bons, mas longos e às vezes sinto o peso deles. Eu também, Teodoro admitiu. Mas olhe o que construímos. Olhe o que deixaremos para trás.

    Uma família forte, uma terra próspera, pessoas educadas e livres, um legado de bondade. Acha que seremos lembrados? Clarice perguntou. Quando formos, acha que as pessoas se lembrarão de nós? As pessoas certas vão, Teodoro disse, os que ajudamos, os que amamos, e nossos filhos vão se lembrar e contar aos filhos deles.

    A história de como amor verdadeiro nasce às vezes das circunstâncias mais improváveis. Como segundas chances, são dádivas preciosas. Como escolha é mais forte que destino. Do interior da casa ouviram Helena chamando. Mamãe, papai, venham. Vamos fazer o brinde. Teodoro se levantou, estendendo a mão para Clarice. Ela aceitou, deixando-se ser puxada de pé.

    Juntos caminharam de volta para a casa cheia de luz e amor e família. Na sala principal, todos estavam reunidos, filhos, netos, amigos. Helena ergueu uma taça de champanhe. Um brinde, ela começou, sua voz emocionada, aos melhores pais que uma filha poderia ter.

    Vocês nos ensinaram que família não é apenas sangue, é amor, escolha, compromisso. Que segundas chances são presentes divinos? Que bondade é mais importante que convenção, que amor verdadeiro conquista tudo. Aos meus pais, Joaquim juntou-se, erguendo sua própria taça, que me ensinaram que honra não vem de nascimento, mas de caráter.

    Que ser homem significa proteger os fracos, defender os injustiçados, amar incondicionalmente. A mamãe e papai, Maria Amélia gritou, que me ensinaram que mulheres podem ser fortes, que podemos escolher nossos próprios caminhos, que amor não conhece limites. Aos melhores avós, os netos gritaram em couro e então todos, família, amigos, trabalhadores, ergueram suas taças.

    A Teodoro e Clarice, 25 anos de amor e luz, Clarice e Teodoro se olharam, mãos entrelaçadas e beberam. E naquele momento, cercados por todos que amavam, sabiam que suas vidas haviam valido a pena, que cada dificuldade, cada dor, cada desafio havia levado a isto, a este momento perfeito de alegria completa.

    A noite avançou, a música tocou, as pessoas dançaram, histórias foram contadas e recontadas. E quando finalmente todos partiram ou se recolheram, Clarice e Teodoro ficaram sozinhos mais uma vez na grande cama de Jacarandá, onde haviam dormido por 25 anos, onde haviam concebido filhos, compartilhado sonhos, consolado medos, celebrado alegrias.

    Eles se deitaram juntos. Estou sozinha e grávida. Clarice citou suavemente as palavras que haviam começado tudo. Mas você disse: “Chega”. Teodoro completou, puxando-a para seus braços. A partir de hoje você será minha esposa e nunca mais estará sozinha. “E nunca estive?” Clarice sussurrou. Desde aquele dia, nunca mais estive sozinha.

    Dormiram assim entrelaçados, enquanto o recôncavo descansava sob estrelas eternas. Os canaviais sussurravam suas canções antigas. O engenho respirava vivo e próspero. E dentro daquele quarto, dois corações batiam em sincronia perfeita. dois corações que haviam encontrado um ao outro quando mais precisavam, que haviam construído algo lindo das cinzas da dor.

    Porque às vezes as maiores bênçãos vêm quando menos esperamos e o amor verdadeiro não se mede pelas circunstâncias de seu começo, mas pela força de sua permanência. E no final, o que importa não é como a jornada começou, mas onde terminou. em amor, em alegria, em legado que continua através das gerações.

    Esta foi a história de Clarice e Teodoro, de dor transformada em beleza, de desespero florescendo em esperança, de escolhas que mudaram destinos. E em algum lugar, em algum lugar além do que podemos ver, almas bondosas sorriem. Tia Benedita, orgulhosa, Amélia, em paz, sabendo que sua família está completa.

    E talvez até Fernando, finalmente encontrando perdão e desejando que aqueles que ele prejudicou encontrem toda a felicidade que ele nunca pôde. O sol nasceria amanhã sobre o engenho São Teodoro, como nascera por 25 anos, e a vida continuaria. uma geração após a outra, carregando consigo as lições aprendidas, o amor compartilhado, o legado construído. Porque no fim isto é tudo que qualquer um de nós pode esperar, ser lembrado com amor, ter vivido com propósito, ter feito diferença nas vidas que tocamos.

    E Clarice e Teodoro haviam feito exatamente isso. Obrigado por acompanhar esta jornada emocionante de Clarice e Teodoro através de contos de época. Se esta história tocou seu coração, deixe seu like, compartilhe e nos conte nos comentários qual foi seu momento favorito.

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  • EDUARDO BOLSONARO FOGE DOS EUA APÓS TRUMP CANCELAR MAGNITSKY!! INTERPOL VAI PRENDÊ-LO!!!

    EDUARDO BOLSONARO FOGE DOS EUA APÓS TRUMP CANCELAR MAGNITSKY!! INTERPOL VAI PRENDÊ-LO!!!

    O Alarme Toca: A Anulação das Sanções e o Pânico Político

    A notícia que ecoou de Washington, D.C., na última semana, não foi apenas um revés diplomático, mas um verdadeiro sismo político que atingiu o núcleo do bolsonarismo: o governo dos Estados Unidos decidiu anular as sanções da Lei Magnitsky impostas anteriormente ao Ministro Alexandre de Moraes e sua esposa. Para quem acompanha de perto os movimentos do xadrez geopolítico, esta “bomba” não causou surpresa, mas para o grupo político que apostava na pressão externa como tábua de salvação, o impacto foi de um nocaute imediato.

    A suspensão da Lei Magnitsky contra o ministro representa uma derrota inequívoca e a normalização total das relações entre Brasil e Estados Unidos. A melhor parte desta reviravolta, no entanto, reside no fato de que o Brasil, sob a atual administração, não cedeu absolutamente nada em troca.

    A articulação desta derrota vinha sendo cozinhada há dias. Conforme foi sinalizado pela imprensa especializada em política, havia um movimento de “amaciar” a base de apoiadores, preparando-os para a perda iminente. Essa estratégia se fazia necessária para evitar a desmobilização completa do grupo diante da inevitável reversão de política externa americana. O que se viu, contudo, foi o oposto do que a ala mais radical da oposição esperava.

    Alexandre de Moraes: inimigo de bolsonaristas já foi alvo da esquerda

    Os Estados Unidos, ao tirarem as sanções, dão o próximo passo esperado: a re-concessão de vistos a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras figuras públicas que tiveram seus documentos retirados anteriormente. As relações entre os dois países voltam a ficar plenamente normalizadas, marcando o fim de um período de tensões diplomáticas e interferências diretas na política interna brasileira.

    O Mito da Negociação e a Força da Soberania

    A narrativa da oposição, muitas vezes veiculada por setores da imprensa e líderes políticos, pregava que era preciso “ceder” ou “se humilhar” diante do ex-presidente americano para conseguir vitórias diplomáticas. A lógica era a de que “com Trump se negocia assim: você tem que deixar ele anunciar uma vitória lá para o povo dele, tem que se humilhar”. Figuras proeminentes chegaram a ser aplaudidas por defenderem essa tese em veículos de comunicação.

    A realidade, no entanto, desmentiu essa visão. Ninguém que se submeteu a essa lógica obteve ganhos substanciais. A administração brasileira, por sua vez, bateu o pé. O ex-presidente americano havia imposto tarifas ao Brasil, o que, ironicamente, resultou em inflação de produtos essenciais – como carne e café – em seu próprio país. Isso teve um impacto direto em sua popularidade, que despencou drasticamente.

    A revogação das sanções e das tarifas não foi, portanto, uma recompensa por submissão, mas uma manobra tática para tentar reverter uma crise econômica interna. O governo brasileiro ofereceu apenas a “oportunidade” de remover os preços inflacionados através da retirada das tarifas. A Lei Magnitsky foi o recuo final. O Brasil não fez qualquer concessão. A negociação se resumiu a um sorriso e à normalização das relações. Nem mesmo um “obrigado” formal foi necessário para consolidar o ganho diplomático.

    Essa postura firme desmantelou a tese de que é preciso se submeter a grandes potências e demonstrou que a defesa da soberania e dos interesses nacionais pode, sim, ser a melhor estratégia diplomática.

    O Lamento de Eduardo Bolsonaro: Contradição e Isolamento Geopolítico

    PT vai questionar nomeação de Eduardo Bolsonaro como líder da minoria -  PlatôBR

    A reação da ala radical da oposição foi imediata e cheia de melancolia, liderada pela “nota pública” de Eduardo Bolsonaro. O deputado utilizou as redes sociais para expressar seu “pesar” diante da decisão do governo americano. O texto, escrito em tom de lamento e desilusão, lamentava que a sociedade brasileira não tivesse “conseguido construir a unidade política necessária para enfrentar seus próprios problemas estruturais”.

    A nota pública de Eduardo Bolsonaro, no entanto, revela uma profunda contradição. Enquanto ele fala em “agravamento da situação atual”, a realidade é que o Brasil tem, agora, relações mais sólidas e normais com os Estados Unidos. Seu foco estava visivelmente voltado para a defesa dos “interesses estratégicos dos americanos”, como ele mesmo citou, pouco se importando com a normalização das relações para o Brasil. Em essência, ele lamentava a derrota de uma causa pessoal e ideológica, não a pátria.

    Este lamento ganha contornos ainda mais dramáticos quando analisamos os recentes movimentos internacionais do deputado. Ele buscou abrigo e apoio em uma série de viagens a países e líderes internacionais, alguns deles rotulados como autocratas. Após a decisão americana, ele foi para Israel, depois para o Catar, além de ter tido encontros anteriores com líderes de El Salvador e Hungria.

    A pergunta que fica é: por que essa peregrinação internacional? Por que a busca por figuras políticas que se alinham à sua ideologia, em vez de retornar ao seu mandato? E, mais intrigante, por que ele não está mais nos Estados Unidos?

    Surgem especulações sobre sua situação migratória. Um visto de turismo comum permite, em geral, que se permaneça até 180 dias por ano no país. Após sucessivas entradas e saídas, o limite de permanência de seis meses diretos pode ter sido atingido. Se esse for o caso, ele está impedido de retornar legalmente por um período de tempo equivalente. O que era para ser uma plataforma política internacional se tornou um exílio autoimposto, e a impossibilidade de retornar aos EUA após o revés da Magnitsky intensifica o sentimento de isolamento.

    O Caos Interno e a Admissão de Derrota

    O reflexo da derrota Magnitsky no Brasil foi um sentimento de caos e desespero entre os apoiadores mais fervorosos. Prints de grupos de mensagens em aplicativos, como Telegram e WhatsApp, mostram o clima de desânimo. Frases como “Putz, é o fim do Brasil”, “já era para nós, agora acabou” e “podem apagar a luz aí” ilustram a percepção de que a última esperança externa se desvaneceu.

    Houve, inclusive, a admissão da derrota política. Um dos apoiadores chegou a escrever que “Os caras estão mais fortes agora. Têm Executivo e o Judiciário nas mãos. Vamos ficar quietos porque a esquerda ganhou”. O reconhecimento de que o grupo político opositor consolidou seu poder após a eleição marca um momento de capitulação, pelo menos no campo da retórica virtual.

    Até mesmo figuras tidas como aliadas na imprensa, que veicularam ameaças e narrativas pró-sanções no passado, acabaram, involuntariamente, contribuindo para o cenário atual. As matérias que davam conta de que o Barroso seria o próximo a ser sancionado, por exemplo, acabaram por acovardar o ministro, que antecipou sua saída do STF. Isso abriu a vaga para a indicação de um novo ministro alinhado com o atual governo, o que foi encarado como um efeito colateral positivo para a atual administração e um tiro no próprio pé da oposição.

    O que se desenha é a implosão de um projeto político que dependia da desestabilização interna e do apoio externo para se sustentar. Com o apoio externo evaporado, a estrutura interna começa a ruir.

    O Fim do Mandato e a Espada de Dâmocles da Interpol

    O “chororô” de Eduardo Bolsonaro não é apenas um lamento ideológico, mas um prenúncio de um problema legal muito mais sério. Fontes indicam que a cassação de seu mandato por faltas na Câmara dos Deputados é iminente, já tendo sido notificado pelo deputado Hugo Mota.

    A cassação por faltas, se concretizada, terá uma consequência legal direta e devastadora: a emissão de um mandado de prisão e, consequentemente, a inclusão do nome de Eduardo Bolsonaro na lista da Interpol.

    É neste ponto que sua peregrinação internacional se torna insustentável. Países como Catar, Israel ou El Salvador, que o deputado buscou em suas viagens, raramente desafiam uma ordem de prisão internacional emitida pela Interpol. Se a ordem for emitida, sua prisão é quase inevitável, seguida pelo processo de extradição para o Brasil.

    O desespero de Eduardo Bolsonaro é, portanto, totalmente compreensível. Ele corre o risco de ser extraditado, seguindo o mesmo caminho que pode ser trilhado por outros aliados, como Carla Zambelli e Ramagem. O destino final seria o confinamento, a mesma situação enfrentada atualmente por seu pai, Jair Messias Bolsonaro.

    Jair Bolsonaro, aliás, também não vive seus melhores dias. O ex-presidente, preso, tem reclamado de “solidão”, uma solidão agravada pela falta de visitas frequentes, incluindo a de sua própria esposa, Michelle Bolsonaro, que, apesar da proximidade logística de sua residência com o local de detenção, tem evitado os encontros. Seu desejo de ser transferido para um hospital, buscando um tratamento mais privilegiado com visitas ilimitadas, foi frustrado.

    O cenário é de completo desmantelamento: derrota diplomática, isolamento internacional, caos interno na base e a iminência de sanções legais que podem culminar na prisão e extradição de líderes-chave. O que se presencia é a implosão de um movimento, marcando um dos dias mais significativos na política recente brasileira. O cerco se fecha, e a realidade, sem a proteção da Magnitsky, mostra-se cada vez mais dura.

  • MANIFESTAÇÕES COMEÇAM! “BANANA” DESAPARECE, ESPOSA VIRA ESCUDO E LEI MAGNITSKY EXPÕE UM SUPOSTO GOLPE DE MALAS MILIONÁRIAS

    MANIFESTAÇÕES COMEÇAM! “BANANA” DESAPARECE, ESPOSA VIRA ESCUDO E LEI MAGNITSKY EXPÕE UM SUPOSTO GOLPE DE MALAS MILIONÁRIAS

    As primeiras faixas surgiram ainda de madrugada, penduradas em viadutos e paradas de ônibus, como se alguém tivesse planejado cada detalhe para que a cidade acordasse diferente. “Onde está a banana?”, dizia uma delas, em letras vermelhas, quase zombando do caos que viria a seguir. Poucas horas depois, as ruas já estavam tomadas. As manifestações começaram de forma espontânea, mas rapidamente ganharam corpo, voz e um alvo claro: o enigmático desaparecimento de “Banana”, um apelido conhecido nos corredores do poder, e a súbita exposição pública de sua esposa, colocada como escudo humano em meio a uma tempestade política sem precedentes.

    O sumiço de Banana não foi apenas físico. Ele desapareceu das agendas oficiais, dos eventos públicos e até das redes sociais. Assessores alegaram “problemas de saúde”, enquanto aliados cochichavam sobre viagens urgentes e compromissos inadiáveis no exterior. A população, no entanto, não comprou a versão oficial. Em um país já cansado de explicações mal costuradas, o silêncio virou combustível. Cada hora sem resposta aumentava o volume dos gritos nas ruas.

    No centro da controvérsia está uma mala. Ou melhor, várias malas. Segundo documentos vazados por uma fonte anônima, mas descrita como “alguém que cansou de carregar peso sozinho”, haveria um esquema de estelionato internacional envolvendo transferências em dinheiro vivo, transportado em malas diplomáticas e rotas pouco convencionais. As cifras são nebulosas, mas os valores citados chegam a números capazes de financiar campanhas, comprar silêncios e mudar destinos políticos inteiros.

    É aqui que a Lei Magnitsky entra em cena como um fantasma que assombra corruptos ao redor do mundo. Criada para punir indivíduos envolvidos em corrupção grave e violações de direitos humanos, a legislação internacional passou a ser mencionada em relatórios preliminares e conversas reservadas entre diplomatas. O simples fato de seu nome circular nos bastidores foi suficiente para causar pânico. Contas poderiam ser bloqueadas, vistos cancelados e patrimônios congelados. Para quem sempre acreditou estar acima da lei, a ideia de sanções internacionais soa como sentença.

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    Enquanto Banana some do mapa, sua esposa surge em entrevistas cuidadosamente ensaiadas. Vestida de cores neutras, discurso calculado e olhar tenso, ela nega qualquer irregularidade e diz ser vítima de perseguição política. “Estão usando minha família como bucha de canhão”, declarou, em uma frase que rapidamente viralizou. Para muitos, no entanto, a sensação foi oposta: ela teria sido colocada propositalmente na linha de frente, como um amortecedor para absorver o impacto enquanto o verdadeiro alvo ganhava tempo para reorganizar suas defesas.

    As manifestações cresceram não apenas em número, mas em diversidade. Jovens, idosos, trabalhadores e até antigos eleitores do grupo político de Banana passaram a caminhar lado a lado. Cartazes improvisados misturavam humor ácido e indignação real. “Sem banana, mas cheios de caroço”, dizia um. Outro ia direto ao ponto: “Malas cheias, país vazio”. A polícia acompanhava à distância, evitando confrontos diretos, ciente de que qualquer faísca poderia incendiar ainda mais o cenário.

    Nos bastidores do poder, o clima é de desconfiança absoluta. Aliados evitam falar ao telefone, reuniões são canceladas em cima da hora e antigos amigos fingem não se conhecer. Um assessor, sob condição de anonimato, revelou que a palavra de ordem é ganhar tempo. “Cada dia fora do radar é uma vitória”, teria dito um estrategista, resumindo a lógica de quem aposta no cansaço popular. O problema é que, desta vez, o cansaço parece ter mudado de lado.

    Vamos rir um pouco, nós merecemos nesta sexta-feira um pouquinho de diversão do Bobo da Corte da extrema-direita paga-pau de americano!! E tem gente que acredita... Oh god, save Brazil!!😩🤣🤣🤣

    Especialistas em política internacional ouvidos pela reportagem afirmam que a simples ameaça de aplicação da Lei Magnitsky já é suficiente para provocar rupturas internas. “Quando o risco deixa de ser apenas local e passa a envolver sanções globais, ninguém quer ficar por perto”, explica um analista. Empresas cortam laços, antigos financiadores recuam e o isolamento se torna uma realidade palpável. É nesse contexto que o desaparecimento de Banana ganha contornos ainda mais suspeitos.

    A narrativa oficial insiste em negar qualquer relação entre as malas, o sumiço e a esposa exposta. No entanto, contradições surgem a cada nova declaração. Datas não batem, viagens são desmentidas por registros e documentos aparecem como peças de um quebra-cabeça desconfortável. A imprensa independente, impulsionada pela pressão popular, intensificou investigações e promete novas revelações nos próximos dias.

    Para muitos manifestantes, o caso já ultrapassou a figura de Banana. Ele se tornou símbolo de um sistema que some quando cobrado e empurra outros para a frente quando acuado. “Não é sobre uma pessoa, é sobre o método”, gritava uma mulher ao megafone, enquanto a multidão respondia em coro. A sensação geral é de que algo grande está prestes a ruir, e ninguém quer ficar de fora quando isso acontecer.

    A esposa, agora figura central involuntária, vive um dilema público. Cada aparição gera mais perguntas do que respostas. Há quem a veja como cúmplice silenciosa, há quem a considere apenas mais uma peça sacrificável no tabuleiro do poder. O fato é que sua imagem passou a representar o desespero de um grupo político encurralado, tentando humanizar um escândalo que cresce em proporções internacionais.

    Nos corredores diplomáticos, o nome do país começa a ser sussurrado com cautela. Relatórios preliminares circulam, reuniões discretas acontecem e a possibilidade de sanções deixa de ser abstrata. A Lei Magnitsky, antes distante, agora parece uma sombra projetada sobre cada movimento. Para os envolvidos, não se trata mais de vencer uma narrativa local, mas de sobreviver a um julgamento global.

    À medida que a noite cai, as manifestações não cessam. Velas são acesas, nomes são gritados e a pergunta inicial continua ecoando: onde está a banana? A ausência virou presença constante, lembrando a todos que o silêncio também comunica. E comunica medo, culpa ou cálculo frio.

    Seja qual for o desfecho, uma coisa é certa: a combinação de ruas cheias, documentos vazados e a ameaça da Lei Magnitsky criou um ponto de não retorno. O país assiste, dividido entre a esperança de justiça e o receio de mais um escândalo varrido para debaixo do tapete. Desta vez, porém, o tapete parece pequeno demais para esconder tantas malas.

    E enquanto o poder tenta ganhar tempo, o relógio das ruas avança implacável. Cada passo dos manifestantes marca um segundo a menos para explicações vagas. A história ainda está sendo escrita, mas já deixou claro que ninguém desaparece para sempre — principalmente quando o mundo inteiro começa a procurar.