O grito cortou o ar antes mesmo de Larissa colocar o pé dentro da mansão. A porta pesada de madeira se abriu e um homem apareceu. Eduardo tinha olheiras profundas marcando um rosto bonito, mas exausto.

— Você deve ser a Larissa. Entra, por favor. Desculpa o barulho. É o meu filho.
Outro grito, mais alto, um som puro de angústia, ecoou pelo corredor de mármore. Eduardo fechou os olhos por um segundo, derrotado. — Ele está tendo um dia ruim.
Larissa entrou, segurando sua bolsa com força. O que ela viu na sala de estar a fez parar. Um menino, não devia ter mais de 7 anos, jogava tudo o que encontrava pela frente. Almofadas de veludo, livros de capa dura, o controle remoto. Seus olhos estavam arregalados, a boca aberta em gritos sem palavras. Apenas sons. Sons de um desespero que nenhuma criança deveria sentir.
Uma mulher de jaleco branco tentava se aproximar dele, mas mantinha uma distância segura. — Lucas, respira fundo. Inspira. Um, dois, três. — A voz dela era técnica, fria.
O menino pegou um vaso pesado de plantas. — Lucas, não! — A mulher recuou, a irritação estampada no rosto. — Eduardo, isso não está funcionando. Você precisa considerar a medicação mais forte. Eu já falei.
Eduardo passou a mão pelo cabelo, desesperado. — Renata, ele tem sete anos. Eu não vou entupir meu filho de remédio tarja preta. — Então o que você quer? Deixar ele se machucar?
Eduardo tentou se aproximar. — Lucas, filho, por favor…
O menino não ouvia. Ele estava preso em seu próprio mundo de caos. Foi quando Larissa agiu. Ela não pensou, apenas sentiu. Ignorando os adultos, ela caminhou até o meio da sala, sentou-se no chão frio e pegou uma revista da mesa de centro. Arrancou uma página em branco, tirou uma caneta simples do bolso do avental e começou a desenhar.
O grito de Lucas continuou por alguns segundos, mas então, diminuiu. O som de algo sendo riscado no papel chamou sua atenção. Ele olhou para aquela mulher estranha sentada no chão da sua sala, desenhando tranquilamente no meio da tempestade.
Renata abriu a boca para repreendê-la, mas Eduardo levantou a mão, pedindo silêncio.
Lucas largou o vaso. Caminhou devagar até Larissa. Ficou em pé, a respiração ainda acelerada, observando. Larissa não olhou para ele. Continuou desenhando. O menino, vencido pela curiosidade, sentou ao lado dela.
Larissa terminou. Era simples. Um menino e uma menina sentados lado a lado. Nada mais. Ela colocou o papel no chão, empurrando-o suavemente na direção dele. Lucas pegou o papel com mãos trêmulas. Olhou fixamente. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Então, ele levantou de repente e saiu correndo para o quarto, abraçado ao papel.
A porta bateu no andar de cima. O silêncio que restou na sala era pesado.
— Como você fez isso? — Eduardo perguntou, a voz falha. — Eu não sei — Larissa respondeu, levantando-se. — Só desenhei.
Renata bufou, pegando sua bolsa de marca. — Sério, Eduardo? Você trouxe uma faxineira que acha que pode fazer o meu trabalho? Crianças com traumas sérios precisam de ciência, não de rabiscos.
Ela saiu, batendo a porta com força. Eduardo suspirou, virando-se para Larissa. — Desculpa por isso. A Renata é… protetora. O Lucas parou de falar há dois anos, depois de sofrer bullying pesado na escola. Desde então, nenhum tratamento funcionou. Ele vive trancado naquele quarto. Desenhar é a única coisa que ele faz.
Larissa sentiu um aperto no peito. — Eu vou começar a limpeza, senhor Eduardo.
As semanas seguintes foram uma dança silenciosa de cura. Larissa limpava a casa, mas sua verdadeira missão estava nos intervalos.
No segundo dia, Lucas a esperava com um desenho de um coração partido ao meio. Larissa sentou-se e desenhou curativos, costurando as metades. Lucas sorriu — um sorriso pequeno, enferrujado pelo desuso.
No terceiro dia, ele trouxe uma nuvem negra com raios. Larissa desenhou um guarda-chuva e um arco-íris. Lucas a abraçou.
No quarto dia, Eduardo, observando da porta da cozinha, viu seu filho, que não interagia com ninguém, rindo silenciosamente enquanto coloria ao lado da faxineira. Pela primeira vez em dois anos, Eduardo sentiu esperança.
Mas a esperança é frágil quando a inveja está por perto.
Renata percebeu a mudança. Viu como Lucas corria para Larissa e a ignorava. Viu como Eduardo olhava para a faxineira com gratidão e algo mais… admiração.
— Eduardo, precisamos conversar — Renata disse certo dia, fechando a porta do escritório. — Você leu os artigos sobre dependência emocional em crianças traumatizadas? O que essa moça está fazendo é perigoso. Ela está criando um vínculo não profissional. O Lucas vai parar de buscar a fala real e se acomodar nesses desenhos. E quando ela for embora? Ele vai colapsar.
A semente do medo foi plantada. Eduardo, um pai aterrorizado de errar novamente, vacilou.
— O que você sugere? — Afaste-a do Lucas. Deixe-a apenas limpar.
Eduardo obedeceu. Pediu a Larissa que se afastasse. Larissa, com o coração doendo, obedeceu. Quando Lucas vinha com um desenho, ela dizia gentilmente: “Agora não, querido, preciso trabalhar”.
O resultado foi catastrófico. Lucas regrediu. Voltou a quebrar coisas, parou de comer, o olhar ficou vazio.
— Viu? — disse Renata, triunfante sobre a desgraça. — É a abstinência da dependência. Isso prova que ela era tóxica para ele. Você precisa demiti-la, Eduardo. Pelo bem do seu filho.
E Eduardo, cego pelo medo e pela confiança na autoridade médica de Renata, cometeu o maior erro de sua vida.
— Larissa… eu sinto muito. Não preciso mais dos seus serviços.
Larissa não argumentou. Ela tinha orgulho, mesmo na dor. Mas pediu para se despedir. No quarto, Lucas chorou silenciosamente enquanto ela dizia adeus. Ele lhe entregou um último desenho: os dois de mãos dadas e um sol brilhante, com a escrita trêmula: “Não vai”.
Larissa saiu da mansão com o coração em pedaços, deixando para trás o menino que amava como um filho e o homem que começava a amar como mulher.
A vida de Larissa, que já era difícil, tornou-se um inferno.
Renata não se contentou em tirá-la da casa de Eduardo. Ela queria garantir que Larissa nunca mais voltasse. A psicóloga ligou para agências, para ex-patrões, inventando histórias de que Larissa tinha “comportamento inadequado” e tentava seduzir os patrões.
Larissa perdeu o emprego na casa de Dona Vera. Perdeu entrevistas. As portas se fecharam.
Para piorar, sua avó, Dona Conceição, sofreu um colapso. Diabetes descompensada. Internação de emergência. O hospital particular exigia um depósito que Larissa não tinha. Ela vendeu a TV, o sofá, as roupas. Não foi suficiente.
— Se não pagar até amanhã, teremos que transferi-la para a rede pública, e no estado dela, a espera pode ser fatal — disse a assistente social.
Larissa sentou-se na calçada do hospital e chorou. Ela não tinha dinheiro, não tinha trabalho, e sua avó estava morrendo.
Enquanto isso, na mansão, o silêncio era ensurdecedor. Lucas definhava.
Numa madrugada insone, Eduardo entrou no quarto do filho. O menino dormia agitado. Eduardo viu uma ponta de papel sob o travesseiro. Com cuidado, ele puxou.
Não era um papel. Era uma pilha.
Eduardo sentou-se no chão do corredor e começou a ver. Eram dezenas de desenhos. A história de Lucas e Larissa. O coração costurado. O guarda-chuva na tempestade. E um desenho que Eduardo nunca tinha visto: Larissa, Eduardo e Lucas de mãos dadas, com a legenda: “Minha Família”.
Mas o que quebrou Eduardo foi um detalhe. Em todos os desenhos, Lucas desenhava Larissa com um coração gigante e brilhante no peito. Ele via a alma dela.
Eduardo chorou. Chorou de vergonha. De culpa. Ele havia trocado aquele amor puro pela frieza técnica de Renata.
Na manhã seguinte, Eduardo começou a investigar. Ligou para as referências de Larissa. Descobriu as ligações de Renata. Descobriu a sabotagem. A fúria tomou conta dele.
Quando Renata chegou, sorridente, Eduardo a esperava na porta. — Saia da minha casa e nunca mais volte. Eu sei o que você fez. Vou denunciá-la ao conselho de ética. Você destruiu a vida de uma inocente por ciúmes.
Renata tentou argumentar, chorou, declarou seu amor doentio por ele, mas Eduardo bateu a porta na cara dela.
Eduardo pegou Lucas e dirigiu como um louco até o endereço de Larissa na periferia. A casa estava vazia. Uma vizinha informou que ela tinha sido despejada e voltado para o interior, para Santa Rita do Passa Quatro, onde a mãe estava internada no hospital local.
Eduardo dirigiu quatro horas sem parar. Lucas, no banco de trás, segurava seus desenhos como um escudo.
Encontraram Larissa saindo pelos fundos de um restaurante simples, onde lavava pratos. Ela estava magra, pálida, os olhos fundos de cansaço.
Quando ela viu Eduardo, não houve sorriso. Houve raiva. — O que você quer aqui? Veio ver o que sobrou de mim?
— Larissa, eu… — Você acreditou nela, Eduardo! Você me tirou do Lucas sem nem me perguntar a verdade. Eu perdi tudo. Minha avó está morrendo e eu não tenho um centavo!
Eduardo tentou falar, oferecer dinheiro, mas ela gritou que não queria a pena dele.
Foi Lucas quem salvou o dia. Ele saiu do carro e correu. Abraçou as pernas de Larissa com tanta força que quase a derrubou. Larissa olhou para baixo, viu o rosto do menino banhado em lágrimas e sua armadura se desfez. Ela caiu de joelhos e o abraçou.
— Eu senti tanto a sua falta… — ela sussurrou.
Eduardo se ajoelhou ao lado deles. — Eu fui um covarde, Larissa. Tive medo de amar você. Tive medo de ser feliz. Mas estou aqui para implorar uma segunda chance. Não por mim, mas por nós. Eu paguei o hospital da sua avó. Transferi ela para o melhor quarto. Não é caridade. É o mínimo que eu posso fazer depois de destruir sua vida.
Larissa olhou nos olhos dele. Viu arrependimento genuíno. — Eu não sei se posso confiar em você de novo. — Eu vou passar o resto da minha vida provando que você pode.
Larissa voltou para São Paulo. Não como faxineira, mas contratada oficialmente como cuidadora terapêutica de Lucas, com carteira assinada e um contrato que garantia que Eduardo pagaria sua faculdade de Pedagogia.
A confiança foi reconstruída tijolo por tijolo. Eduardo cumpriu a promessa. Estava lá todos os dias. Levava-a para a faculdade, cuidava de Dona Conceição.
O momento da virada aconteceu no tribunal do Conselho de Psicologia. Larissa e Eduardo testemunharam contra Renata. A ex-terapeuta perdeu sua licença permanentemente. Ao sair do tribunal, Larissa sentiu um peso sair de seus ombros. A justiça fora feita.
Meses depois, Eduardo foi convidado para um jantar de negócios importante. Um investidor bilionário. Ele levou Larissa. Quando o investidor fez comentários elitistas sobre a origem humilde dela, Eduardo levantou-se, pegou a mão de Larissa e disse: — Prefiro perder seu dinheiro a perder o respeito pela mulher que eu amo.
Naquela noite, no carro, Larissa o beijou. Um beijo de verdade. De perdão e futuro.
O casamento aconteceu no jardim da mansão. Simples, íntimo. Dona Conceição, recuperada, estava na primeira fila, chorando de orgulho.
Lucas, agora com 9 anos, entrou carregando as alianças. Ele estava nervoso. Quando chegou ao altar, entregou as alianças para o pai, mas não saiu. Ele tirou um papel do bolso e olhou para Larissa.
O jardim ficou em silêncio. Lucas respirou fundo, segurou o microfone e, pela primeira vez em anos, sua voz ecoou, rouca e trêmula, mas clara:
— Eu… amo… vocês.
Larissa desabou em lágrimas. Eduardo abraçou os dois. Não havia um olho seco na festa.
Quatro anos depois.
Larissa se formou como a melhor aluna da turma de Pedagogia. Abriu sua própria clínica, a “Casa dos Desenhos”, especializada em terapia artística para crianças com traumas. A agenda estava lotada.
Na mansão, que agora era um lar cheio de luz e brinquedos, a família estava no jardim. Eduardo preparava o churrasco. Dona Conceição cochilava na sombra. Lucas, agora um adolescente talentoso, desenhava em seu caderno.
Correndo pela grama, havia dois novos membros da família: a pequena Júlia, de 3 anos, e o bebê Jonas, engatinhando atrás da bola.
Larissa sentou-se ao lado de Eduardo, observando a cena. — Você imaginou que chegaríamos aqui? — ela perguntou. Eduardo beijou a testa dela. — Eu não imaginava. Mas agradeço todos os dias por ter tido a coragem de ir te buscar naquele restaurante.
Lucas levantou o caderno e mostrou o desenho novo. Eram todos eles, sob um sol gigante. E embaixo, a legenda que definia tudo: “A família que o amor desenhou”.
Eles sorriram. A vida não era perfeita, mas era deles. E era colorida.