A Escrava Que Matou Seu Dono e Libertou 40 Pessoas no Maranhão – 1867

Ninguém na fazenda Santo Antônio, nas terras do interior do Maranhão, imaginava que aquela mulher de 32 anos, que trabalhava nos campos de algodão desde o amanhecer, guardava nas mãos calejadas o destino de 40 pessoas e a sentença de morte do coronel Joaquim Tavares da Silva. Mas antes de entender como uma noite de junho de 1867 mudaria para sempre a história daquela região, é preciso voltar ao começo.


Quando Joana ainda acreditava que obediência significava sobrevivência. Era o ano de 1852 quando Joana chegou à fazenda Santo Antônio. Tinha apenas 17 anos e vinha de uma propriedade menor em Caxias, vendida junto com sua mãe após a morte do antigo Senhor. A fazenda de Joaquim Tavares era uma das maiores produtoras de algodão do Maranhão, com mais de 200 escravizados trabalhando em campos que se estendiam até onde a vista alcançava.
A casa grande construída em estilo colonial português, dominava a paisagem como um gigante de pedra e cal, testemunha silenciosa de todo o sofrimento que acontecia dentro de seus limites. Joaquim Tavares da Silva tinha 43 anos quando Joana chegou. Era um homem corpulento, de bigode espesso e olhos pequenos que pareciam avaliar cada pessoa como se fossem animais em uma feira.
Herdeiro de uma fortuna construída nas costas de seus escravizados, ele governava suas terras com punho de ferro e chicote sempre à mão. Sua esposa, dona Mariana, era uma mulher franzina que passava os dias bordando na varanda, olhos baixos, fingindo não ver as marcas nas costas das mulheres que serviam na Casa Grande. Os primeiros anos de Joana na fazenda foram de um sofrimento silencioso.
Trabalhava de sol a sol nos campos, colhendo algodão até seus dedos sangrarem, carregando cestos pesados sob o calor escaldante do sertão maranhense. Dormia numa cenzala apertada com outras 20 mulheres, onde o cheiro de suor e medo se misturava ao aroma azedo da comida racionada. Sua mãe, Benedita, tinha sido separada dela e mandada para trabalhar na casa grande.
Joana só havia aos domingos, quando tinham permissão para um breve encontro depois da missa obrigatória. Mas foi em 1855 que a vida de Joana mudou de forma irreversível. Numa tarde de março, quando voltava do rio com um balde d’água, o coronel a interceptou no caminho. Não houve palavras, não houve piedade. Aos 20 anos, Joana descobriu que seu corpo não era seu, que sua vontade não importava, que ela era propriedade em todos os sentidos, que essa palavra maldita poderia significar.
E aquilo se repetiu uma vez, duas, dezenas de vezes ao longo dos anos seguintes, sempre no mesmo galpão de ferramentas, sempre com o mesmo olhar gélido do coronel, sempre com a mesma certeza de que ninguém a ajudaria. Em janeiro de 1857, Joana deu à luz uma menina de pele clara, a chamou de Maria e tentou esconder a criança do olhar do coronel, sabendo que ele jamais reconheceria a paternidade.
Mas as outras escravizadas sabiam, dona Mariana sabia e, principalmente o feitor Damião sabia. Damião era um homem liberto, mulato, que servia ao coronel com uma crueldade que superava a dos brancos. Como se quisesse provar sua lealdade através da violência, ele comandava os castigos com prazer mórbido. E Joana, por gerar uma filha do patrão, tornou-se alvo de seu ódio especial.
Os anos seguintes foram uma sucessão de humilhações calculadas. Damião fazia questão de dar a Joana as tarefas mais pesadas, de acordá-la antes das outras, de reduzir sua ração de comida. Quando Maria completou 3 anos em 1860, o feitor começou a ameaçar vender a menina. Bastarda não serve para nada aqui”, dizia ele, cuspindo no chão.
Joana trabalhava em silêncio, mas dentro dela algo estava mudando. O medo estava sendo lentamente substituído por uma raiva fria, paciente, que crescia como as plantas de algodão nos campos. Foi em 1863 que Joana conheceu Tomás. Ele tinha vindo de uma fazenda no Piauí, comprado pelo coronel para trabalhar como carpinteiro.
Era um homem alto, de ombros largos, com cicatrizes nas costas, que contavam histórias que ele preferia não repetir. Tomás tinha 35 anos e já tinha visto três tentativas de fuga terminarem em morte, mas ao contrário dos outros, ele não tinha desistido da liberdade. Ele apenas tinha aprendido a esperar o momento certo. Joana e Tomás começaram a se encontrar às escondidas depois que todos dormiam.
Conversavam em sussurros na sombra da cenzala, compartilhando não apenas afeto, mas algo mais perigoso, esperança. Tomás falava de quilombos que existiam nas matas do Maranhão, de comunidades de fugitivos que viviam livres. Falava da lei Eusébio de Queiroz, de 1850, que tinha acabado com o tráfico de africanos e das mudanças que estavam acontecendo no país.
“As coisas estão mudando, Joana”, ele dizia. “Um dia vamos ser livres”. Mas enquanto conversavam de liberdade, a violência na fazenda só aumentava. Em 1864, o coronel mandou açoitar publicamente um jovem de 16 anos. que tinha roubado um pedaço de carne seca. 50 chibatadas que deixaram as costas do rapaz em carne viva.
Três dias depois, ele morreu de infecção. Ninguém chorou em público, mas todos guardaram aquela morte na memória. Joana segurou a mão de Maria, que já tinha 7 anos, e sussurrou: “Um dia, filha, isso tudo vai acabar”. O ano de 1866 trouxe mudanças ao Brasil. A guerra do Paraguai estava no auge e o império precisava de soldados. Muitos escravizados foram prometidos ao Forria se lutassem na guerra.
Da fazenda Santo Antônio, oito homens foram enviados, incluindo um primo de Tomás. Isso deixou a propriedade com menos braços para trabalhar, o que significava jornadas ainda mais longas para os que ficaram. O coronel não diminuiu as cotas de produção, apenas aumentou os castigos para quem não conseguia cumpri-las. Foi nesse período que a mãe de Joana, Benedita, adoeceu.
Depois de 40 anos de trabalho, seu corpo simplesmente desistiu. Ela passou três semanas definhando numa esteira na cenzala, pedindo água que raramente chegava. Joana implorou ao coronel que chamasse um médico, ajoelhou-se diante dele com lágrimas nos olhos. Por favor, senhor, ela vai morrer. O coronel olhou para ela com indiferença e disse apenas: “Negra velha não tem conserto.
Quando morrer, joga no cemitério dos pretos”. Benedita morreu numa madrugada de agosto de 1866, chamando pelo nome de Joana. Tinha 52 anos. Algo quebrou dentro de Joana naquela noite. Não foi uma ruptura barulhenta, mas uma fratura silenciosa e definitiva. Enquanto ajudava a carregar o corpo da mãe para o cemitério sem lápides no fundo da propriedade, ela tomou uma decisão. Não fugiria.
Não esperaria a lei dos brancos. Ela faria justiça com as próprias mãos, acontecesse o que acontecesse, e levaria consigo todos que quisessem a liberdade. Nos meses seguintes, Joana começou a conversar discretamente com outros escravizados, primeiro com Tomás, que imediatamente entendeu o que ela estava planejando.


Depois com Jerônimo, um homem de 40 anos que trabalhava na casa grande e conhecia cada canto da propriedade, com Catarina, uma cozinheira que tinha acesso às facas da cozinha, com Pedro, um jovem de 22 anos que trabalhava na estrebaria e sabia onde o coronel guardava as armas. Um por um, Joana reuniu 40 pessoas dispostas a arriscar tudo por liberdade.
O plano era simples, mas exigia coragem que beirava o suicídio. Esperariam uma noite sem lua quando a escuridão fosse completa. Tomás e Pedro entrariam na casa grande pela porta dos fundos e tomariam as armas. Jerônimo garantiria que as portas estivessem destrancadas. Catarina deixaria as facas prontas. E Joana, ela mesma, entraria no quarto do coronel.
Não haveria fuga antes da justiça. Primeiro ela cobraria por sua mãe, por Maria, por cada dia de sofrimento. Depois todos fugiriam para as matas em direção a um quilombo que Tomás conhecia há três dias de caminhada. A noite escolhida foi 15 de junho de 1867. Era uma sexta-feira sem lua, com nuvens pesadas que bloqueavam até as estrelas.
O coronel tinha bebido mais que o costume durante o jantar, comemorando um bom preço conseguido pela safra de algodão. Dona Mariana tinha se recolhido cedo, com dor de cabeça. O feitor Damião dormia em sua casa a 50 m da Casagre. Era o momento. Às 2as da madrugada, 40 pessoas começaram a se mover nas sombras.
Pedro e Tomás entraram na casa grande, seus passos silenciosos como os de Predadores noturnos. Encontraram a sala de armas destrancada, exatamente como Jerônimo tinha prometido. Pegaram dois mosquetes, três facões e uma pistola antiga. Distribuíram as armas entre os homens mais fortes. As mulheres pegaram as facas da cozinha que Catarina tinha separado.
Todos se moviam em silêncio absoluto, comunicando-se apenas com olhares. Joana subiu às escadas da Casa Grande sozinha. Em suas mãos carregava uma faca grande de cozinha. Seu coração batia tão forte que ela temia que o som acordasse toda a casa, mas seus passos não vacilaram. 15 anos de humilhação, 15 anos de dor, 15 anos de raiva concentrada em cada passo daquelas escadas de madeira que rangiam baixinho sob seus pés descalços.
Ela conhecia o caminho, tinha sido forçada a percorrê-lo tantas vezes. A porta do quarto do coronel estava entreaberta. Ela podia ouvir a respiração pesada dele, o cheiro de cachaça impregnado no ar. Por um momento, apenas um momento breve, Joana hesitou, não por piedade, mas pela magnitude do que estava prestes a fazer.
Depois daquele momento, não haveria volta. Ela seria caçada. provavelmente morta, talvez torturada. Mas então pensou em Maria dormindo na cenzala. Pensou em sua mãe, apodrecendo num túmulo sem nome. Pensou em todas as mulheres que ainda viriam, que ainda sofreriam se nada mudasse. Ela entrou no quarto. O coronel acordou com a faca já no pescoço.
Seus olhos se arregalaram ao ver Joana sobre ele. E pela primeira vez em sua vida, Joaquim Tavares da Silva sentiu medo real. Você, ele começou a dizer, mas Joana não o deixou terminar. Por minha mãe”, ela disse sua voz firme e baixa, “por minha filha, por mim”. E então, com uma força que vinha de anos de raiva acumulada, ela fez o que tinha vindo fazer.
O coronel tentou gritar, mas o som morreu em sua garganta junto com ele. Levou menos de um minuto. Quando terminou, Joana estava coberta de sangue, mas suas mãos não tremiam mais. O grito de dona Mariana rasgou à noite. Ela tinha acordado com o barulho e visto a cena. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Catarina entrou no quarto e assegurou.
Não vamos te matar, Catarina disse. Mas você vai ficar quieta elas amarraram a senhora da casa em uma cadeira e a amordaçaram. Dona Mariana chorava, mas havia nos olhos dela algo além do medo. Talvez fosse alívio. Ninguém nunca saberia. O feitor Damião acordou com o barulho e saiu correndo de sua casa, mas foi recebido por Tomás e Pedro.
Ele tentou lutar, gritou por ajuda, mas estava sozinho. Os dois homens o dominaram rapidamente e o amarraram. Você vai provar do seu próprio veneno”, Tomás disse, pegando o chicote que o feitor sempre carregava. Damião recebeu 20 chibatadas, uma para cada pessoa que ele tinha torturado ao longo dos anos.
Depois eles o deixaram amarrado em sua própria casa, vivo, mas humilhado. Enquanto isso, na casa grande, os 40 libertados trabalhavam rapidamente. Pegaram comida, roupas, alguns objetos de valor que poderiam trocar no caminho. Libertaram os cavalos, levaram dois deles. Joana foi até a Senzala buscar Maria, que acordou assustada. Mamãe, o que aconteceu? A menina tinha 10 anos e olhava para o sangue na roupa da mãe com olhos arregalados.
Estamos indo embora, minha filha, Joana disse, ajoelhando-se diante dela. Estamos indo ser livres. Às 4 da madrugada, quando o céu ainda era negro como Breu, 41 pessoas deixaram a fazenda Santo Antônio. Joana liderava o grupo com Maria ao seu lado e Tomás fechando a retaguarda. Eles sabiam que teriam poucas horas de vantagem quando o sol nascesse, quando os outros escravizados descobrissem o que tinha acontecido.
Quando alguém viesse da cidade, a caçada começaria. Mas por aquelas poucas horas eles eram livres. Caminharam pela mata fechada, seguindo trilhas que só Tomás conhecia. Algumas pessoas carregavam crianças pequenas, outras ajudavam os mais velhos. Ninguém reclamava. O cansaço era nada comparado à liberdade. Ao amanhecer, quando pararam para descansar perto de um riacho, Joana olhou para trás pela última vez.
Podia ver a fumaça subindo ao longe, vinda da fazenda. Alguém tinha descoberto. A caçada tinha começado. Os próximos três dias foram os mais difíceis da vida de todos. Caminhavam durante a noite, escondiam-se durante o dia, comiam frutas silvestres e raízes que Tomás conhecia. As crianças choravam de fome e cansaço, mas os adultos faziam o possível para mantê-las quietas.
sabiam que capitães do mato já deviam estar em seu encalço com cães e armas. A cada barulho na mata, todos se encolhiam esperando o pior. No segundo dia, ouviram cavalos. O grupo inteiro se escondeu numa grota mal respirando, enquanto três homens passavam a menos de 20 m. Eram caçadores de escravos com cães que farejavam o ar.
Por um milagre, ou talvez porque o riacho próximo confundiu o faro dos animais, eles passaram direto, mas foi por pouco. Duas horas depois, quando o grupo voltou a se mover, encontraram sinais de que não estavam sozinhos nas matas, pegadas, restos de fogueira. Podia ser outro grupo de fugitivos ou podia ser uma armadilha.
Foi na tarde do terceiro dia que chegaram ao quilombo. Chamava-se Lagoa da Pedra e ficava escondido no meio de uma região pantanosa, cercado por mata tão densa que era quase impenetrável. Duas sentinelas os interceptaram antes que vissem o povoado, homens armados com lanças e facões que surgiram das árvores como fantasmas.
Tomás se adiantou e falou uma senha que tinha aprendido anos atrás. As sentinelas se entreolharam, avaliaram o grupo exausto e, finalmente, acenaram para que o seguem. O quilombo de Lagoa da Pedra abrigava cerca de 120 pessoas. Viviam em casas simples de pau a pique. Cultivavam mandioca e milho, caçavam e pescavam.
Tinham uma escola onde as crianças aprendiam a ler, uma enfermaria, até uma pequena capela. Era uma comunidade completa, escondida do mundo, governada por regras próprias. O líder era um homem chamado Nicolau, com mais de 60 anos, que tinha fugido ainda jovem de uma fazenda em Codó. Quando Nicolau ouviu a história de Joana, ele a olhou por um longo momento antes de falar: “Você sabe que agora você é a mulher mais procurada do Maranhão, não sabe?” Joana assentiu.
Mataram escravos que fugiram. Mataram escravos que roubaram. Mas mataram o Senhor, isso é diferente. Vão caçar você até o fim dos tempos. Joana encontrou os olhos deles sem medo. Então que cassem. Pelo menos morri como gente livre. O grupo foi aceito no quilombo. Nos meses seguintes, eles se integraram à comunidade.
Joana aprendeu a plantar mandioca. Maria começou a frequentar a escola. Tomás se tornou um dos caçadores do quilombo usando as habilidades que tinha desenvolvido ao longo dos anos. Lentamente, as feridas começaram a cicatrizar. Não as físicas, essas sempre estiveram lá, mas as da alma. Enquanto isso, no mundo lá fora, a morte do coronel Joaquim Tavares se tornou um escândalo.
Os jornais de São Luís falaram da revolta sangrenta durante semanas. As autoridades ofereceram uma recompensa enorme pela captura de Joana, viva ou morta. Capitães do mato vasculharam as matas por meses, mas nunca encontraram lagoa da pedra. O quilombo estava bem escondido demais. protegido pelo conhecimento do terreno e pela solidariedade de outros escravizados, que mesmo nas fazendas, desviavam os caçadores para direções erradas.
A fazenda Santo Antônio nunca se recuperou completamente. Dona Mariana vendeu a propriedade seis meses depois e voltou para Portugal, levando consigo apenas as roupas e algumas joias. Os novos donos tentaram recomeçar a produção, mas os escravizados que tinham ficado trabalhavam devagar, sabotavam ferramentas, incendiavam pequenas áreas de plantação.
A história de Joana tinha se espalhado e com ela uma centelha de esperança e rebeldia. O feitor Damião nunca mais foi o mesmo. As cicatrizes em suas costas serviam como lembrete constante de que os oprimidos podiam revidar. Ele deixou o Maranhão poucos meses depois dos eventos, dizendo que ia tentar a vida no Rio de Janeiro.
Ninguém sentiu sua falta. Os anos passaram. Em 1871, a lei do ventre livre foi promulgada, declarando livres todos os filhos de escravizadas nascidos a partir daquela data. Em 1885, a lei dos sexagenários libertou os escravizados com mais de 60 anos. E finalmente, em 13 de maio de 1888, a lei áurea aboliu completamente a escravidão no Brasil.
Quando a notícia chegou ao quilombo de Lagoa da Pedra, houve celebração durante três dias. Joana tinha 53 anos quando a abolição finalmente veio. Sua filha Maria já era adulta, tinha se casado com um jovem do quilombo e dado a Joana dois netos. Tomás estava ao seu lado, cabelos agrzalhados, mas olhos ainda vivos. Dos 40 que tinham fugido naquela noite de junho de 1867, 34 ainda estavam vivos.
Tinham construído vidas, famílias, uma comunidade. Alguns dos libertos decidiram deixar o quilombo depois da abolição, curiosos para ver como era o mundo lá fora, agora que eram livres por lei. Mas muitos ficaram, incluindo Joana. Eu já sou livre há 21 anos. Ela disse quando alguém perguntou se voltaria para ver a velha fazenda.


Não preciso de papel dizendo isso. Joana viveu até 1903, quando morreu aos 68 anos. Cercada por filhos, netos e bisnetos. Foi enterrada no cemitério do quilombo sob uma árvore grande com uma cruz de madeira que levava seu nome completo. Joana Maria da Silva. Não era o nome que lhe tinha sido dado ao nascer, mas o nome que ela havia escolhido para si mesma, o nome de uma mulher livre.
A história de Joana se tornou lenda nas comunidades quilombolas do Maranhão. Contam que nas noites sem lua ainda se pode ouvir o eco de 40 pés descalços correndo pela mata em direção à liberdade. Contam que a fazenda Santo Antônio, que mudou de mãos várias vezes ao longo dos anos, nunca prosperou de verdade depois daquela noite.
E contam sempre em sussurros que existiram muitas joanas, mulheres e homens que disseram não, que pegaram em armas, que se recusaram a morrer de joelhos. A morte do coronel Joaquim Tavares da Silva não mudou as leis do império, não acabou com a escravidão sozinha, mas mostrou para todos que tinham coragem de ver que os escravizados não eram propriedades passivas, eram pessoas com limites para o sofrimento que podiam suportar, com coragem para lutar quando não havia mais nada a perder, com sede de justiça que nenhum chicote podia apagar. Hoje poucos
conhecem o nome de Joana. Os livros de história raramente mencionam as revoltas individuais, preferindo falar das leis e dos abolicionistas famosos. Mas comunidades quilombolas, que ainda existem no Maranhão, em Minas Gerais, na Bahia e por todo o Brasil, as histórias são passadas de geração em geração. Histórias de resistência, de coragem, de pessoas que preferiram morrer livres, a viver acorrentadas.
E talvez seja assim que deva ser, porque a história de Joana não pertence aos livros, pertence ao povo, aos descendentes daqueles que sofreram, lutaram e venceram. pertence a cada pessoa que, diante da injustiça, escolhe resistir. Pertence a todos nós que acreditamos que a liberdade vale qualquer preço, até o mais alto.
Naquela noite de 15 de junho de 1867, quando Joana subiu as escadas da casa grande com uma faca na mão e justiça no coração, ela não estava apenas matando seu algóz, estava declarando ao mundo que sua vida tinha valor, que sua dor tinha limite, que sua liberdade não era negociável. e 40 pessoas a seguiram para fora daquela fazenda maldita, rumo a uma vida que eles mesmos construiriam com as próprias mãos.
Essa é a história que merece ser contada. Não apenas a violência daquela noite, mas os 21 anos de liberdade que vieram depois. Não apenas a morte de um opressor, mas a vida de uma comunidade que floresceu apesar de tudo. Não apenas o ato de uma mulher, mas a coragem de 40 pessoas que decidiram que já era o suficiente. Porque no final a história de Joana é a história de todos nós.
É a história de cada vez que alguém disse não, de cada vez que alguém escolheu lutar, de cada vez que a justiça, mesmo imperfeita e sangrenta, prevaleceu sobre a opressão. E essa história, como todas as histórias de resistência, nunca termina realmente. Ela vive em cada pessoa que se recusa a aceitar a injustiça, em cada comunidade que se organiza para proteger os seus, em cada ato de coragem contra a tirania.
A revolta de Joana ecoou pelo Maranhão em 1867, mas seus ecos ressoam hoje, lembrando-nos de que a liberdade não é dada, é conquistada. [Música] ไป

Related Posts

Our Privacy policy

https://abc24times.com - © 2025 News