Na manhã de 23 de agosto de 1856, no Engenho Santana em Ipojuca, Pernambuco, o ar estava denso e quente, carregado com o cheiro adocicado da cana queimada, misturado ao suor dezenas de corpos que trabalhavam sob o sol impiedoso do Recôncavo. Era um dia de celebração. O coronel Antônio Cavalcante de Albuquerque completava 58 anos e mais de 40 convidados haviam chegado de engenhos vizinhos vindos de Sirinhaem, Cabo de Santo Agostinho e até mesmo do Recife. Senhores de engenho trajando seus melhores paletós de linho branco,
capitães do mato com suas botas de couro reluzente, autoridades locais exibindo condecorações imperiais. Todos reunidos na varanda ampla da Casagrande, brindando com vinho do Porto, rindo alto, celebrando mais um ano de prosperidade, construída sobre o sangue e o sofrimento de 346 almas escravizadas.
Ninguém notou a mulher silenciosa que observava de longe, parada próxima aos currais dos animais, seus olhos fixos na celebração com uma intensidade que fazia o ar ao seu redor parecer vibrar. Seu nome era Domingas. tinha 32 anos, pele negra que o sol havia tornado ainda mais escura, mãos calejadas de quem trabalhava com cordas e ferramentas desde criança, e uma postura estranhamente ereta para alguém que carregava correntes invisíveis há mais de duas décadas.

Ela era responsável pelos currais, pelo manejo dos bois, cavalos e mulas, e, principalmente, pelo controle de pragas que ameaçavam as plantações. Era considerada valiosa, eficiente, obediente. Mas naquela manhã, enquanto os senhores brindavam e riam, Dominguas não estava pensando em currais ou animais. estava contando.
17 colmeias estrategicamente posicionadas ao redor da casa grande, cada uma contendo milhares de abelhas africanas, a espécie mais agressiva e territorial que existia nas terras brasileiras. Insetos que haviam chegado junto com os navios negreiros, tão ferozes quanto os açoites que rasgavam costas humanas. 5 meses de preparação silenciosa.
5 meses identificando colônias selvagens nas matas próximas, estudando seus padrões, suas rotas, seus comportamentos. Cco meses capturando rainhas, uma por uma, usando técnicas ancestrais que sua mãe lhe havia ensinado em segredo quando ela ainda era menina, antes de ser vendida e separada para sempre. Domingas não era apenas uma escrava que cuidava de animais.
Ela era filha de Iakem, uma sacerdotisa yorubá, capturada na costa da mina, uma mulher que conhecia os segredos dos insetos, que falava com abelhas como se fossem suas filhas, que podia acalmar ou enfurecer colmeias inteiras com combinações específicas de fumaça, sons guturais e gestos precisos.
conhecimentos transmitidos através de gerações, práticas sagradas que conectavam o mundo visível ao invisível, que transformavam a natureza em aliada. Durante anos, Domingas manteve esse conhecimento trancado dentro de si, escondido como se esconde uma arma mortal, esperando, sempre esperando, até que não precisou mais esperar. O sol subia no céu.
Os convidados começavam a se servir no grande banquete preparado na varanda. Leitão assado, galinhas recheadas, frutas tropicais, bolos de goma, doces de goiaba. A música de uma viola enchia o ar. Domingas respirou fundo. Seus dedos acariciaram a pequena bolsa de couro amarrada à cintura, onde guardava os últimos preparativos. Ervas secas que produziam fumaça específica, um apito minúsculo feito de osso, e 17 pequenos trapos embebidos em uma mistura que ela havia preparado durante meses. Suor de cavalo misturado com seiva de cajoeiro e sangue
menstrual. Um cheiro que as abelhas africanas reconheciam como ameaça territorial absoluta. Ela começou a caminhar. Ninguém prestou atenção. Uma escrava circulando pelos fundos da propriedade não era nada incomum. Domingues tinha permissão para estar em qualquer lugar relacionado aos animais. Ela moveu-se com propósito, visitando cada colmeia escondida atrás do galinheiro, sob o beiral do armazém de ferramentas, entre as tábuas do curral de porcos, na base da torre do sino, escondidas em cestos de palha,
camufladas em troncos ocos, estrategicamente posicionados. Cada caixa havia sido preparada com cuidado. Cada tampa estava presa apenas por um único prego que podia ser removido com um puxão firme. Ela trabalhou rápido, não podia errar, não podia hesitar. Em cada colmeia, antes de preparar a abertura, ela acendeu um pequeno feixe das ervas especiais, produziu a fumaça específica, murmurou as palavras que sua mãe lhe havia ensinado.
Não eram palavras em português, eram sons guturais em yorubá, uma língua que o coronel havia proibido sob pena de chicotadas, mas que continuava viva na garganta de Dominguas, como brasas escondidas sob cinzas. As abelhas responderam. Ela podia sentir a agitação aumentando dentro das caixas, o zumbido crescendo em frequência, em intensidade, em raiva.
Depois de preparar a 17ª e última colmeia, Domingas retornou ao ponto central que havia escolhido meses antes, uma pequena elevação de terra próxima aos currais, de onde tinha visão completa da Casa Grande e de todas as posições das colmeias. Ela podia ver os convidados rindo, podia ver o coronel no centro da mesa principal, seu rosto vermelho de vinho e satisfação, gesticulando amplamente enquanto contava alguma história que fazia os outros senhores gargalharem.
Podia ver o feitor Sebastião Ferreira, o homem que havia segurado seu filho enquanto o coronel ordenava a castração, agora servindo cachaça e sorrindo como se nada tivesse acontecido. Domingueas fechou os olhos por um momento, respirou fundo, permitiu que a memória viesse, porque ela precisava lembrar, precisava sentir de novo, precisava alimentar a frieza necessária para o que estava prestes a fazer.
Março de 1856, 5 meses atrás, um tempo que parecia ter durado séculos inteiros. Antes daquele dia maldito, Domingas tinha razões para acordar todas as manhãs. Tinha seu filho, Mateus, um menino de 12 anos, com olhos curiosos e inteligência afiada demais para sua própria segurança.
O pai da criança havia sido vendido para uma fazenda de café em São Paulo quando Mateus tinha apenas 3 anos. Domingas nunca mais o viu, nunca soube se ainda estava vivo, mas tinha o menino e o menino era tudo. Mateus trabalhava nas moendas, um serviço perigoso, onde meninos perdiam dedos e às vezes mãos inteiras quando distraídos por um segundo. Mas ele era cuidadoso, esperto, observador, demais.
Ele fazia perguntas, queria entender como as coisas funcionavam, porque o açúcar era tão valioso? Porque alguns homens podiam comprar outros, porque Deus permitia tanta dor. Dominguas tentava silenciá-lo, tentava ensinar-lhe que a sobrevivência exigia silêncio, que curiosidade era perigosa, que perguntas podiam matar.
Mas Mateus não conseguia parar. Ele havia encontrado um livro, um velho catecismo esquecido no armazém, e sozinho, observando as letras, começou a decifrar palavras. Depois tentou ensinar outros meninos escravizados. Reunia-os à noite nos fundos da cenzala, riscava letras na terra com gravetos. Sussurrava sons de vogais e consoantes.
Acreditava que conhecimento era liberdade. Acreditava que se todos soubessem ler, poderiam ler as leis, entender seus direitos, exigir justiça. Era uma crença linda e fatalmente ingênua. O feitor Sebastião descobriu, informou o coronel. E o coronel Antônio Cavalcante de Albuquerque era um homem que acreditava em exemplos.
acreditava que a ordem precisava ser mantida através do terror absoluto. Um escravo que sabia ler era um escravo que podia escrever passes falsos de liberdade, forjar documentos, organizar fugas, incitar rebeliões. Era uma ameaça que precisava ser eliminada de forma tão brutal que nenhum outro jamais ousasse repetir.
Na manhã de 17 de março, o coronel ordenou que todos os escravizados fossem reunidos no pátio central. 346 pessoas arrancadas de suas funções, alinhadas sob o sol, forçadas a testemunhar. Mateus foi arrastado para o centro. O menino não chorava. olhava para a mãe com olhos que tentavam ser corajosos, mas traíam terror absoluto.
Domingueas tentou correr para ele, foi derrubada por dois capatazes. Tentou gritar, uma mão cobriu sua boca, foi forçada a ficar de joelhos, segura por braços que eram como garras de ferro, enquanto o coronel explicava, com voz calma e didática, exatamente o que acontecia com escravos que esqueciam seu lugar. Um menino que aprende a ler”, disse o coronel caminhando ao redor de Mateus como um professor dando uma aula.
É um menino que aprende a pensar e um escravo que pensa é um escravo que se rebela. Mas há uma solução, uma solução que nossos ancestrais portugueses aprenderam com os mouros. Se cortarmos a fonte da rebelião pela raiz, se removermos a capacidade de gerar mais pensadores, criamos não apenas uma punição, mas uma prevenção. Domingues entendeu antes mesmo de ver a lâmina.
Entendeu e sentiu algo dentro dela se despedaçar em fragmentos tão pequenos que jamais poderiam ser remontados. Eles castraram Mateus ali mesmo no pátio sob o sol na frente de todos. Usaram uma faca de açueiro. Não havia anestesia, não havia piedade.
O menino gritou até sua voz se quebrar, gritou até seus pulmões não terem mais ar. Gritou até o som se transformar em um silvo fino e agonizante que perfurou os ouvidos de Domingas como agulhas em brasa. Ela foi forçada a segurar o corpo, convulsionando do filho enquanto ele sangrava. foi a olhar nos olhos dele enquanto a vida esvaía, foi forçada a ouvir o coronel explicando que o menino seria poupado, que viveria, que serviria como exemplo permanente do que acontecia com escravos, que ousavam educar-se.
Mas Mateus não sobreviveu, o sangramento não parou. Em menos de uma hora, o menino estava frio nos braços da mãe. Seus olhos abertos olhavam para o céu, como se procurassem respostas que nunca viriam. Sua última palavra, sussurrada tão baixo que apenas domingas ouviu foi mãe. Naquele momento, enquanto segurava o corpo sem vida de seu único filho, algo fundamental morreu dentro de domingas.
a parte dela que ainda tinha esperança, a parte que ainda acreditava em sobrevivência através da obediência, a parte que ainda era humana da forma como os opressores definiam humanidade. E algo novo nasceu, algo frio como a morte, algo paciente como a terra, algo absolutamente implacável. Domingas não chorou no funeral, não gritou, não se debateu, enterrou o filho em silêncio numa cova rasa no cemitério dos escravos, marcada apenas com uma cruz de madeira tosca.
Os outros escravizados esperavam que ela desmoronasse. Esperavam lamentações, desespero, talvez até tentativa de suicídio, algo comum entre mães que perdiam filhos de forma tão brutal. Mas Domingas simplesmente voltou ao trabalho no dia seguinte voltou a cuidar dos currais, voltou a alimentar os animais, voltou a consertar cercas. Parecia ter aceitado, parecia ter se conformado.
Os feitores ficaram satisfeitos. O coronel comentou que ela era uma negra forte, que havia entendido a lição. Ela ouvia tudo em silêncio, com rosto neutro, com olhos vazios. Mas por dentro, Domingas estava ocupada. Sua mente trabalhava constantemente, repassando memórias da infância, das lições que sua mãe lhe havia ensinado antes de serem separadas.
E Yakeme havia sido trazida de Oió, no território que os brancos chamavam de costa da mina. Lá ela era a sacerdotisa de Oxumaré, a divindade que governava os ciclos, as transformações, as pontes entre o céu e a terra, mas também era iniciada nos mistérios de Agbig B, os conhecimentos secretos sobre insetos, especialmente abelhas. As abelhas são guerreiras.
Sua mãe costumava sussurrar nas noites em que conseguiam ficar juntas antes da separação. Elas protegem sua rainha com a própria vida. Uma abelha sozinha não é nada. Mas milhares juntas, organizadas com propósito único, podem derrubar gigantes, podem matar touros, podem destruir exércitos inteiros.
Sua mãe lhe havia ensinado os sons, os gestos, as fumaças específicas. feitas de combinações secretas de ervas, como identificar rainhas, como capturá-las sem ser atacada, como mover colmeias inteiras de um lugar para outro, como acalmar abelhas furiosas e, principalmente, embora sua mãe sempre avisasse que este conhecimento era perigoso, que só deveria ser usado em último caso.
Como enfurecer abelhas pacíficas, como direcionar sua raiva, como transformá-las de produtoras de mel em armas mortais. Nunca use isto por vingança. E Akem havia avisado, segurando o rosto da filha com ambas as mãos. Os espíritos cobram preço por violência ritualística. Use apenas se não houver outro caminho. Use apenas se a justiça dos homens for impossível.
Use apenas se você estiver disposta a pagar o preço. Dominguas estava disposta. O preço não importava mais. Não, quando o que havia de mais precioso já havia sido arrancado dela. Ela começou na mesma semana. Primeiro observou o terreno do engenho com olhos novos, não mais como escrava que cuidava de animais, mas como estrategista planejando uma guerra.
Identificou os melhores pontos para posicionar colmeias, locais próximos à Casagrande, mas não tão óbvios que despertassem suspeitas. estudou os ventos dominantes. Notou que as brisas da manhã vinham sempre do leste, empurrando o ar em direção à varanda onde os senhores costumavam tomar café. Observou os horários em que havia mais movimento de pessoas, mais concentração de alvos.
Depois começou a procurar colmeias selvagens. Pernambuco estava cheio delas. As abelhas africanas haviam se espalhado pelas matas desde que os primeiros navios negreiros trouxeram colmeias nos porões. Uma ironia que não escapava a domingas. As próprias abelhas eram escravizadas, arrancadas de suas terras, forçadas a produzir melcer senhores.
E agora ela iria libertá-las para um propósito maior. Encontrar as colmeias não era difícil. Domingues tinha permissão para circular pelas matas próximas quando precisava buscar ervas medicinais para os animais doentes. O difícil era capturar as rainhas sem ser morta no processo. Abelhas africanas não perdoavam invasões, atacavam em massa, perseguiam intrusos por quilômetros, ferroavam até matar.
Mas Domingas conhecia os segredos. Esperava o final da tarde, quando as abelhas estavam menos agressivas. Usava fumaça de folhas de goiabeira misturadas com alecm silvestre, uma combinação que as deixava tontas e confusas. Aproximava-se devagar, murmurando os sons que sua mãe lhe havia ensinado.
Sons que imitavam o ronronar específico da rainha, comunicando-se com suas operárias. Localizava a rainha, sempre maior, sempre no centro, sempre cercada por um secto de abelhas leais. Capturava-a delicadamente em uma pequena caixa de madeira forrada com cera de abelha e pólen. Uma vez capturada a rainha, as operárias seguiam. Domingues preparava caixas especiais, não muito diferentes das colmeias domésticas que alguns senhores mantinham para a produção de mel, mas com modificações sutis, tampas que podiam ser abertas rapidamente, pequenos furos estratégicos que permitiam que os cheiros de fora entrassem, mantendo as abelhas sempre
alertas e vigilantes. posicionamento que garantia que quando as caixas fossem abertas, as abelhas voariam diretamente em direção à Casa Grande. Levou meses, 5 meses inteiros de trabalho silencioso e paciente, uma colmeia por semana, às vezes duas quando conseguia tempo extra.
Ela as escondia em locais estratégicos, sempre disfarçadas, uma sob uma pilha de lenha, outra dentro de um barril vazio no armazém, outra pendurada no telhado do estábulo, camuflada como um ninho de João de Barro. Outra enterrada parcialmente no chão, coberta com palha, apenas pequenas aberturas permitindo que as abelhas entrassem e saíssem. Ninguém suspeitou.
Por que suspeitariam? Domingas sempre havia trabalhado com animais, sempre havia resolvido problemas de pragas. Se ela estava circulando pela propriedade com caixas e ferramentas, era apenas mais um dia de trabalho. Se ela estava queimando ervas estranhas, era para afastar mosquitos.
Se ela estava murmurando coisas incompreensíveis, era apenas uma negra supersticiosa falando sozinha. Durante esses cinco meses, Domingas também estudou seus alvos. Cada pessoa que havia participado direta ou indiretamente da morte de Mateus. O coronel obviamente era o primeiro, mas havia outros.
o feitor Sebastião, que havia segurado o menino, os dois capatazes, que haviam segurado Domingas, forçando-a a assistir, o capitão do mato José Rodrigues, que havia sugerido a castração como método de punição mais eficiente que chicotadas. Padre Inácio, que havia recusado enterrar Mateus em solo consagrado, dizendo que escravos rebeldes não mereciam bênçãos cristãs. Todos eles seriam punidos, todos eles pagariam. Mas Domingas era inteligente.
Sabia que não poderia simplesmente atacá-los individualmente. Precisava de um evento, uma ocasião onde todos estivessem reunidos, onde a confusão fosse máxima, onde a fuga fosse possível. e principalmente onde o terror fosse absoluto e público, servindo de exemplo, da mesma forma que a morte de Mateus havia sido um exemplo.
Quando soube que o coronel planejava uma grande celebração para seu aniversário em agosto, com dezenas de convidados de engenhos vizinhos, Dominga soube que os deuses haviam lhe dado a oportunidade perfeita. A semana antes do ataque foi de preparação final. Domingas verificou cada colmeia, garantindo que as rainhas estavam saudáveis, que as operárias estavam numerosas, que as colônias estavam agressivas o suficiente.
Preparou as ervas especiais que usaria para a fumaça final, uma combinação específica que sua mãe havia chamado de o sopro da guerra, feita de tabaco selvagem, pimenta malagueta seca, folhas de genipapo e casca de cajoeiro. Quando queimada e soprada em direção a uma colmeia, essa fumaça criava um efeito específico nas abelhas.
Eliminava todos os feromônios calmantes, ativava apenas os feromônios de alarme e transformava até as operárias mais dóceis em guerreiras frenéticas. Ela também preparou os trapos embebidos. Cada um foi cuidadosamente encharcado na mistura de suor de cavalo, seiva de cajoeiro e seu próprio sangue menstrual.
Para as abelhas africanas, aquele cheiro era um sinal específico, território invadido por predador grande. Ativa instintos primitivos de defesa da colmeia. Qualquer coisa marcada com aquele cheiro seria atacada sem hesitação, sem piedade, até que a ameaça fosse eliminada. Domingas planejava marcar os principais alvos. Não todos, seria impossível, mas o coronel definitivamente, o feitor Sebastião, o capitão do mato, José Rodriguez.
Se conseguisse esfregar os trapos em suas roupas, mesmo discretamente, as abelhas os perseguiriam com prioridade, ignorando outros alvos, focando neles até a morte. Na noite anterior ao ataque, Domingas não dormiu. Ficou sentada no canto de sua cabana na senzala, olhando para o pequeno altar que havia montado, uma pedra lisa, onde colocara uma vela de cebo, alguns grãos de milho, uma concha com água.
Era uma oferenda simples para Oxumarê, pedindo força, pedindo justiça, pedindo que os espíritos de sua mãe e de seu filho testemunhassem o que ela estava prestes a fazer. Mateus, ela sussurrou no escuro, sua voz quebrando pela primeira vez em meses. Amanhã, meu filho, amanhã você terá justiça. Amanhã eles saberão que sua vida tinha valor, que você não morreu em vão, que há consequências. Sempre há consequências. Ela não rezou para o Deus cristão.
Aquele Deus dos brancos que abençoava navios negreiros e justificava escravidão com versículos bíblicos não teria lugar em sua vingança. Ela invocou os orixás de sua mãe, os espíritos ancestrais de seu povo, as forças que governavam a natureza e a justiça primordial.
Quando o sol começou a nascer, Domingas se levantou, vestiu sua roupa mais simples, uma saia de algodão grosso e uma blusa surrada, e saiu para seu último dia como escrava obediente. A manhã de 23 de agosto começou como qualquer outra. Os escravizados acordaram antes do amanhecer, marcharam para os canaviais, começaram o trabalho brutal que destruía corpos e almas.
Os feitores circulavam com chicotes, gritando ordens, aplicando castigos por qualquer lentidão percebida. A Casa Grande acordou tarde, como sempre, com as pedindo café na cama e os senhores discutindo negócios e política. Mas à medida que a manhã avançava, o movimento aumentou. Carruagens começaram a chegar, cavalos trazendo visitantes.
Um grupo de capitães do mato veio de Recife. Dois senhores de engenho vizinhos trouxeram suas famílias inteiras. Autoridades locais apareceram, um juiz, um escrivão, até um representante da província. Todos vestidos em suas melhores roupas, todos trazendo presentes, todos prontos para uma celebração memorável.
Por volta das 10 horas da manhã, a varanda casa grande estava repleta. Mesas haviam sido montadas, cobertas com toalhas de linho branco importado. Comida era trazida pelas escravas da cozinha, pratos após pratos de iguarias que haviam levado dias para preparar. Vinho do Porto era servido em taças de cristal.
Champanhe francês era aberto com estalos festivos. O coronel circulava entre os convidados, recebendo cumprimentos, contando histórias de suas façanhas, vangloriando-se de sua propriedade bem administrada. Dominguas observava tudo de longe. Ela havia posicionado-se próxima aos currais, onde tinha visão completa da varanda. Contou os convidados. 43 pessoas.
11 eram alvos principais, os que haviam participado diretamente da morte de Mateus. Os outros eram senhores de engenho, feitores de outras propriedades, autoridades cúmplices do sistema, que permitia atrocidades. Não eram inocentes. Ninguém naquela varanda era inocente. Ela esperou até que todos estivessem servidos, todos com copos na mão, todos distraídos pela comida e pela conversa. esperou até o momento exato em que o coronel pediu silêncio para fazer um brinde.
Meus amigos, sua voz ecoou pela propriedade. Agradeço a todos por estarem presentes neste dia especial. 58 anos de vida, 30 anos administrando este engenho. Anos de prosperidade, de ordem, de civilização trazida a estas terras bárbaras. Brindemos ao império, à prosperidade e à continuação de nossa forma de vida. Copos se ergueram, vozes gritaram saúde em couro, risos ecoaram.
Dominguas começou a se mover. Ela caminhou com propósito, mas sem pressa aparente. Primeira colmeia atrás do galinheiro. Puxou o único prego que segurava a tampa. Acendeu um feixe das ervas especiais. A fumaça subiu densa e aromática. Domingas soprou em direção à colmeia, murmurando sons guturais, ativando o instinto de guerra nas abelhas.
O zumbido dentro da caixa aumentou imediatamente, subindo de tom, ficando furioso. Ela não abriu a tampa ainda. Precisava preparar todas primeiro. Segunda colmeia, sob o beiral do armazém. Mesmo processo, a fumaça, os sons, o zumbido crescendo. Terceira colmeia, entre as tábuas do curral de porcos. Quarta colmeia, na base da torre do sino. Quinta, sexta, sétima.
Domingas moveu-se como uma sombra, visitando cada posição estratégica. Seu coração batia forte, mas suas mãos estavam firmes. Não havia espaço para erro, não havia espaço para hesitação. Cada movimento era preciso. Cada momento calculado. Oitava colmeia, nona, 10ª. A celebração na varanda continuava.
Ninguém prestava atenção. Por que prestariam? Uma escrava fazendo trabalho de escrava não era digno de nota. 11ª 12ª 13ª. O coronel estava contando uma história sobre como havia domado uma rebelião de escravos anos atrás, enforcando os três líderes e deixando os corpos pendurados por dias como aviso.
Os convidados ouviam fascinados, alguns fazendo perguntas sobre técnicas de controle, outros compartilhando suas próprias histórias de punições eficientes. 14ª 15ª. Domingas estava quase terminando. Faltavam apenas duas. Ela podia sentir a energia no ar mudando. Podia sentir as abelhas respondendo ao chamado ancestral, preparando-se para a guerra.
17 coloumeias, milhares de abelhas, talvez 100.000 insetos, talvez mais. Cada uma pronta para defender, pronta para atacar, pronta para matar. 16ª colmeia preparada. Domingas foi até a última. Esta estava escondida numa cesta de palha grande, posicionada estrategicamente perto da escada que levava a varanda. Era a mais importante. Esta colmeia seria aberta primeiro.

Seria a que iniciaria o ataque, seria a que daria o tom para todas as outras. Ela preparou a fumaça, soprou, murmurou as palavras. O zumbido explodiu em volume, tão alto que Domingas teve certeza de que alguém ouviria. Mas a música da viola e as risadas na varanda abafam tudo. Estava na hora.
Domingueas voltou ao ponto central que havia escolhido. Verificou que tinha visão de todas as 17 colmeias. Verificou a direção do vento. Perfeito, vindo do leste, empurrando em direção à varanda. Verificou que os escravizados estavam todos nos canaviais distantes, longe do perigo que estava prestes a desencadear.
Ela tirou da bolsa de couro os trapos embebidos. Tinha conseguido preparar cinco. Cinco alvos principais seriam marcados. Tinha que ser rápido, tinha que ser discreto, tinha que ser agora. Dominguas aproximou-se da Casa Grande, usando o caminho dos fundos, o caminho que as escravas usavam para trazer comida da cozinha.
subiu à escada de serviço na confusão da celebração, com escravas circulando constantemente, trazendo pratos e removendo outros, ninguém notou mais uma figura entrando. Ela identificou o primeiro alvo. O coronel estava de pé, de costas para ela, gesticulando amplamente enquanto terminava sua história.
Domingas aproximou-se como se fosse pegar uma bandeja vazia da mesa próxima, passou por trás dele, num movimento rápido e discreto, esfregou um dos trapos na parte de trás de seu palitó, deixando uma mancha pequena e imperceptível. O cheiro era forte para ela, mas os humanos normais mal o notariam. As abelhas, porém, o detectariam a metros de distância. Primeiro alvo marcado. Ela moveu-se rapidamente. Segundo alvo, feitor Sebastião.
Ele estava sentado enchendo o copo de cachaça. Dominguas passou como se estivesse recolhendo pratos, esbarrou nele acidentalmente, pediu desculpas com voz baixa e, naquele contato de um segundo, esfregou outro trapo em seu ombro. Segundo alvo marcado. Terceiro alvo, capitão do mato José Rodriguez. Ele estava na beira da varanda fumando um charuto.
Dominguas aproximou-se oferecendo uma bandeja com doces. Ele pegou um sem nem olhar para ela. Naquele momento de distração, ela tocou as costas de sua camisa com o terceiro trapo. Terceiro alvo marcado, quarto e quinto alvos. eram dois capatazes que estavam juntos conversando próximos à mesa de bebidas.
Domingueas aproximou-se para limpar copos vazios. Esfregou trapos em ambos numa sequência rápida, um na manga da camisa, outro no cinto. Cinco alvos marcados. Ninguém havia notado nada. Ela era invisível, apenas mais uma escrava, servindo senhores, apenas mais uma sombra sem importância. Dominguas desceu à escada de serviço, retornou ao ponto de observação próximo aos currais.
Seu coração agora batia tão forte que ela podia ouvir o sangue rugindo em seus ouvidos. Estava tremendo, não de medo, de antecipação. Ela respirou fundo três vezes, olhou para o céu. Era quase meio-dia. O sol estava no ponto mais alto. O calor era intenso, perfeito. Abelhas ficavam mais agressivas no calor. Domingueas tirou da bolsa o apito de osso.
Era pequeno, não maior que seu dedo mindinho, feito do osso do fêmor de uma galinha que ela havia sacrificado especialmente para esse propósito. Quando soprado de forma específica, produzia um som de frequência muito alta, quase inaudível para ouvidos humanos, mas que as abelhas reconheciam como chamado de emergência. Ela soprou uma vez, longo e agudo.
O som viajou pelo ar como uma onda invisível. Domingas começou a cantar baixo, gutural nas palavras da língua de sua mãe. Não eram palavras aleatórias, era um cântico específico, um chamado às guerreiras aladas, uma invocação de Agbigb, o espírito dos enxames de combate.
Agbon L ogund de guerreiras da floresta ergam-se. Olorumn tojuô, os deuses testemunham. Einiotá, sangue será derramado. Ogum de a guerra chegou. Ela cantou e começou a andar. Primeira colmeia, a da cesta de palha perto da escada. Domingas puxou a tampa completamente. O efeito foi instantâneo e aterrorizante. Centenas de abelhas explodiram da caixa como uma nuvem negra e furiosa. O zumbido era ensurdecedor.
Elas não dispersaram aleatoriamente. Voaram diretamente para cima em direção à varanda, guiadas pelo vento e pelo cheiro dos trapos que marcavam os alvos. Dominguas não parou. Segunda colmeia arrancou a tampa. Mais centenas de abelhas juntaram-se à nuvem. Terceira, colmeia, quarta, quinta. Os gritos começaram. Na varanda, alguém soltou um grito agudo: Abelhas.
Abelhas. Mas não eram apenas abelhas. Era um exército, um tsunami negro e zumbindo que se movia com propósito terrível. Sexta colmeia aberta. Sétima, oitava. O pânico explodiu na celebração. Pessoas começaram a correr, copos caíram, mesas viraram, cadeiras foram derrubadas, mas não havia para onde correr. As abelhas estavam em todos os lugares. Uma nuvem espessa que envolvia a varanda inteira.
Nona colmeia 10ª 11ª. Os primeiros gritos de dor verdadeira começaram. Não eram mais gritos de surpresa ou medo, eram gritos de agonia. Abelhas africanas não picam uma vez e morrem como abelhas europeias. Elas picam múltiplas vezes e atacam em grupos. 10 abelhas podem tornar um ponto do corpo insuportável. 50 podem causar choque, 100 podem matar.
12ª colmeia 13ª. Domingas trabalhava metodicamente, abrindo cada caixa, liberando cada exército, adicionando mais e mais soldados à guerra. Ela mesma estava sendo atacada. Suas mãos, braços e rosto começavam a acumular ferroadas, mas a dor não importava. Ela havia se untado com uma mistura específica de folhas de tabaco e mel atração das abelhas, e, além disso, já não se importava com o próprio corpo. Se morresse ali, tudo bem, contanto que eles morressem também. 14ª colmeia. 15ª.
Na varanda o caos era absoluto. Pessoas se jogavam no chão, rolavam tentando esmagar as abelhas. Outros corriam cegamente, esbarrando em móveis, caindo das escadas. As abelhas perseguiam especialmente os cinco alvos marcados. O coronel estava no centro de uma nuvem particularmente densa, girando feito louco, tentando espantar insetos que eram tantos que cobriam sua cabeça e pescoço como uma máscara viva.
Tirem isso de mim. Tirem isso de mim. Sua voz era aguda, quebrada pelo terror. O feitor Sebastião havia caído de joelhos, as mãos cobrindo o rosto em vão. Abelhas cobriam suas mãos, suas orelhas, seu pescoço. Ele urrava. 16ª colmeia aberta. Dominguas foi até a última, a 17ª.
puxou a tampa com um movimento final e decisivo. A última onda de abelhas juntou-se às outras e agora o número de insetos no ar era tão grande que escurecia parcialmente a luz do sol. Parecia uma tempestade negra viva, zumbindo com uma frequência que fazia os ossos vibrarem. Domingas retornou ao ponto de observação, ficou ali imóvel observando.
Ela viu o coronel Antônio Cavalcante de Albuquerque cambalear para trás, seu rosto tão inchado por ferroadas que seus olhos já não abriam mais. viu-o tropeçar na borda da varanda e cair, rolando escada abaixo, abelhas perseguindo cada movimento.
Ele tentou levantar uma vez, duas vezes, na terceira tentativa não conseguiu mais. ficou de bruços no chão, espasmos sacudindo seu corpo enquanto abelhas continuavam perfurando sua pele com veneno acumulado. Ela viu o feitor Sebastião arrastar-se em direção ao poço de água, desesperado, provavelmente pensando que poderia mergulhar e escapar. Não chegou nem na metade do caminho. Colapsou, convulsões violentas tomando conta dele.
Espuma saía de sua boca. As ferroadas em seu pescoço eram tantas que a pele havia se transformado numa massa vermelha e inchada. Ela viu o capitão do mato José Rodrigues, tentar entrar na casa grande, batendo desesperadamente na porta. Mas as portas haviam sido trancadas por dentro.
Os escravos domésticos, mais inteligentes que seus senhores, haviam selado todas as entradas. Assim que as abelhas apareceram, José socou a porta, gritou, implorou. As abelhas o cobriam das costas aos pés. Ele finalmente desistiu e correu cegamente em direção às árvores. 10 m depois, tropeçou e caiu. Não se levantou mais. Os dois capatazes que ela havia marcado também estavam caídos, um deles ainda se mexendo fracamente, o outro completamente imóvel.
Mas não eram apenas os cinco marcados que morriam. A quantidade de abelhas era tão grande que qualquer um na varanda estava sendo atacado brutalmente. Um senhor de engenho idoso, gordo demais para correr rápido, havia sido derrubado próximo à mesa principal. Abelhas cobriam sua barriga exposta, ferroando através da camisa de linho.
Ele já não gritava mais, apenas emitia um som fraco e agonizante. Uma senhora havia conseguido chegar até a carruagem estacionada perto da Casa Grande. Tentou entrar, mas as abelhas a seguiram para dentro. Seus gritos vindos do interior da carruagem eram abafados, mas desesperados.
Um jovem, provavelmente filho de algum senhor de engenho, estava correndo em círculos no pátio, já completamente desorientado. Seu rosto estava desfigurado por inchaço. Ele corria sem direção, esbarrando em árvores, cambaleando. Finalmente entrou na área dos currais e caiu dentro do cercado dos porcos. Os animais, assustados pelo caos, o pisotearam enquanto ele tentava inutilmente se levantar.
Domingas observa tudo sem expressão, sem piedade, sem satisfação, também apenas um vazio profundo e absoluto. Isso não trazia Mateus de volta. Isso não apagava a imagem dele morrendo em seus braços, mas era justiça. Justiça feia, brutal, visal. A única justiça possível num mundo que não oferecia tribunais para escravos, que não reconhecia a sua humanidade, que não punia senhores por atrocidades.
Os gritos continuaram por quase 15 minutos, depois começaram a diminuir. Alguns porque as pessoas haviam morrido, outros porque haviam conseguido fugir para longe o suficiente que as abelhas desistiam da perseguição. Mas a maioria dos que estavam na varanda no momento do ataque não teve essa sorte.
Quando o caos finalmente começou a diminuir, quando as abelhas, satisfeitas ou exaustas, começaram a dispersar, Domingas contou os corpos visíveis. 11 pessoas definitivamente mortas, espalhadas pelo pátio e pela varanda. várias outras imóveis, mas possivelmente ainda vivas, e muitas que haviam fugido, mas certamente carregavam centenas de ferroadas. O coronel estava morto.
Seu corpo no chão, próximo à escada, já começava a inchar de forma grotesca. Dominguas caminhou até ele, ficou parada, olhando para baixo. Esse homem havia arrancado tudo dela e agora estava reduzido a um cadáver inchado e patético. Ela cuspiu no corpo. Por Mateus, disse em voz baixa, por meu filho. Por todas as crianças que você destruiu. Por todas as mães que você forçou a enterrar seus filhos. Ela virou-se, olhou ao redor.
O engenho estava silencioso agora, exceto pelos gemidos distantes de feridos. Alguns escravos domésticos começavam a aparecer cautelosamente, verificando se era seguro. Seus olhos encontraram domingas. Havia reconhecimento naqueles olhares, havia compreensão. Eles sabiam.
Talvez não entendessem completamente como ela havia feito, mas sabiam que havia sido ela. E nos olhos deles, Domingas não viu condenação. Viu algo que não esperava ver. viu admiração, respeito e uma centelha de esperança. Uma mulher escravizada, idosa, que trabalhava na cozinha há 40 anos, aproximou-se lentamente, olhou para Domingas, depois olhou para o corpo do coronel e então fez algo extraordinário.
Ela se curvou em reverência. Que os orixás te protejam, sussurrou. Você fez o que nenhum de nós teve coragem de fazer. Outros escravos começaram a aparecer dos canaviais distantes, onde haviam ouvido os gritos, mas não entendiam o que acontecia. das censalas, onde alguns doentes e velhos demais para trabalhar haviam permanecido.
Todos paravam e olhavam para a destruição, para os corpos dos senhores e feitores, para Domingas, parada no meio do caos, como uma profetisa de vingança. Domingue sabia que tinha pouco tempo. Em breve, alguém iria à cidade buscar autoridades. Haveria investigação. Haveria punição coletiva, provavelmente, mas naquele momento, naquela hora específica, o engenho pertencia aos escravizados.
“Fujam”, Dominguas disse em voz alta, olhando para os rostos ao seu redor. Peguem o que puderem carregar, comida, ferramentas, armas e fujam. Procurem os quilombos nas matas. Hoje, enquanto eles estão mortos ou agonizando, enquanto não há quem nos persiga, fujam. Houve um momento de hesitação. Décadas de condicionamento não desapareciam num instante. Fugir significava ser caçado.
Significava açoite, se capturado, significava morte, possivelmente, mas também significava chance, liberdade, vida. Um homem jovem foi o primeiro. Ele correu para a cozinha, saiu carregando um saco de farinha e um facão. Depois uma família inteira, pai, mãe, três crianças. Depois mais e mais. Em menos de 30 minutos, quase metade dos 346 escravizados do engenho Santana estava fugindo em diferentes direções, alguns em grupos, outros sozinhos.
Levavam comida roubada da casa grande, ferramentas dos armazéns, cavalos dos estábulos. Era um êxodo, uma libertação violenta e caótica. Domingas observou por um momento, depois virou-se e começou a caminhar em direção às matas ao leste. Não correu, caminhou com dignidade, com propósito. Ela não tinha ilusões de que escaparia permanentemente. Sabia que haveria caçada.
Sabia que seu rosto seria descrito em cartazes, que capitães do mato a procurariam, que haveria recompensa por sua captura. Mas naquele momento, enquanto caminhava livremente pela primeira vez em mais de 20 anos, Domingas permitiu-se sentir algo que havia esquecido existir. Paz. As notícias do Massacre do Engenho Santana se espalharam pela província de Pernambuco como fogo em capim seco.
Os primeiros relatos eram confusos, contraditórios, quase impossíveis de acreditar. abelhas, um ataque coordenado de insetos. Parecia loucura. Mas quando as autoridades finalmente chegaram ao engenho, na tarde do dia seguinte encontraram uma cena que confirmava cada detalhe horroroso. 11 mortos.
O coronel Antônio Cavalcante de Albuquerque, sua esposa dona Margarida, que havia morrido ao tentar socorrê-lo, o feitor Sebastião Ferreira, os dois capatazes Joaquim e Pedro, o capitão do mato José Rodrigues, três senhores de engenho visitantes e dois jovens filhos de proprietários vizinhos. Mais de 30 feridos gravemente, alguns com sequelas permanentes, cegueira causada por ferroadas nos olhos, surdez por ferroadas nos ouvidos, desfiguração facial que nunca se recuperaria completamente e mais de 150 escravos fugidos. Era um desastre de proporções
históricas, não apenas pela quantidade de mortos entre a elite local, mas pelo que representava um ataque planejado, executado por uma mulher escravizada, bem-sucedido de forma aterrorizante. O juiz, que conduziu a investigação inicial, Dr. Feliciano Torres, era um homem meticuloso. Ele entrevistou sobreviventes e examinou a cena.
tentou reconstruir exatamente o que havia acontecido. Encontrou as caixas vazias de colmeias escondidas em diversos pontos da propriedade. Encontrou restos das ervas especiais que Dominguas havia usado. Encontrou os trapos com manchas estranhas, cujo cheiro forte ainda persistia mesmo dias depois.
Escravos que haviam permanecido na propriedade, principalmente os muito velhos ou muito doentes para fugir, foram interrogados brutalmente. Alguns falaram, contaram sobre Dominguas, sobre seu filho morto, sobre como ela havia mudado depois da tragédia. Contaram sobre vê-la circular com caixas misteriosas, sobre ouvi-la murmurar em línguas estranhas, sobre notarem seu comportamento silencioso e intenso nas semanas antes do ataque.
O relatório oficial foi devastador. Ao rebelião escrava premeditado e executado com brutalidade calculada. A escrava conhecida como Dominguas utilizou conhecimentos de feitiçaria africana para manipular insetos e causar massacre de cidadãos respeitáveis. Recomenda-se busca intensiva e punição exemplar. Cartazes foram distribuídos por toda a província.
Procura-se Domingas, escrava fugida, aproximadamente 32 anos, altura média, compleição forte, acusada de assassinato múltiplo através de feitiçaria. Recompensa: R$ 500.000 réis viva, R.000 réis morta. Era uma quantia extraordinária, equivalente ao preço de cinco escravos saudáveis. A recompensa atraiu dezenas de capitães do mato, caçadores de recompensa e até alguns escravos que traíam os seus por dinheiro. A caçada durou três meses.
Dominguas era esperta, conhecia as matas, sabia viver da terra, movia-se constantemente, nunca permanecendo em um lugar por mais de dois dias. Evitava estradas, evitava povoados, evitava qualquer lugar onde pudesse ser reconhecida. Comia frutas selvagens, pescava em riachos, caçava pequenos animais com armadilhas improvisadas.
Várias vezes quase foi capturada. Uma vez, um grupo de capitães do mato passou tão perto de onde ela estava escondida que ela pôde ouvir suas conversas. Outra vez cães de caça farejar sua trilha e ela teve que atravessar um rio rápido e perigoso para despistar. sobreviveu por pura força de vontade e inteligência.
Mas em novembro de 1856, três meses após o massacre, a sorte de Dominguas acabou. Ela estava se aproximando da região de Palmares, onde sabia que havia quilombos escondidos nas matas densas. Estava exausta, desnutrida, coberta de picadas de insetos, feridas de espinhos e arranhos de galhos. precisava de abrigo, precisava de aliados, estava tão perto.
Mas um grupo de escravos, capturados recentemente, sendo transportados de Recife para um engenho no interior, haviu cruzando uma estrada durante a madrugada. Um deles, um homem amargurado que havia sido separado de sua família e culpava rebeldes por tornarem a repressão mais brutal. gritou para os guardas. É ela, a mulher das abelhas.
É Domingas. Dominguas correu, mas estava fraca demais. Os capitães do mato a alcançaram em menos de 15 minutos. Ela lutou, arranhou, mordeu, chutou. Conseguiu ferir dois deles antes de ser finalmente dominada. Suas mãos amarradas atrás das costas, uma corrente pesada colocada em seu pescoço.
“Finalmente”, disse o líder do grupo, “munado Bernardo Silva, famoso por sua brutalidade, a bruxa das abelhas. Valeu a perseguição. R.000 réis, rapazes. Vamos ficar ricos. Dominguas foi arrastada de volta a Ipojuca. A notícia de sua captura espalhou-se rapidamente. Quando chegaram ao centro da cidade, no dia 17 de novembro, uma multidão já aguardava: senhores de engenho, feitores, autoridades e até escravos, alguns trazidos à força para testemunhar o que acontecia com rebeldes.
Dominguas foi acorrentada a um poste no centro da praça principal. Estava suja, machucada, desnutrida, mas mantinha a cabeça erguida. Seus olhos não mostravam medo, não mostravam arrependimento, mostravam apenas uma frieza dura e inabalável. O juiz Feliciano Torres veio pessoalmente conduzir o julgamento sumário.
Não havia advogado de defesa, não havia testemunhas a favor, era apenas uma formalidade. Domingas, ele disse, lendo de um documento oficial, você é acusada de assassinato múltiplo, rebelião escrava, uso de feitiçaria e destruição de propriedade. Como responde a essas acusações? Dominguas olhou para ele em silêncio, depois olhou para a multidão, depois falou sua voz rouca, mas clara: “Vocês tiraram meu filho, castraram e mataram uma criança inocente e esperam que eu não responda.
Esperam que eu simplesmente aceite? Não há justiça para nós neste mundo de vocês. Então fizemos nossa própria justiça e faria tudo de novo. Um murmúrio correu pela multidão. Alguns gritos de raiva, alguns de choque. Como ela usava falar assim? O juiz bateu o martelo. Sentença de morte por enforcamento, a ser executada imediatamente. A forca foi erguida na mesma praça, na mesma hora. Domingas foi arrastada até ela.
Tentaram colocar um capuz sobre sua cabeça. Era tradição para poupar o condenado da visão da multidão. Ela recusou. Quero ver seus rostos disse. Quero que vejam o meu. Quero que se lembrem. Que se lembrem de que fizemos. Que se lembrem de que podemos fazer. A corda foi colocada em seu pescoço. O carrasco verificou o nó. estava pronto.

Dominguas olhou para o céu uma última vez. Era tarde de novembro, o sol baixo tingindo as nuvens de laranja e vermelho. Ela pensou em Mateus, pensou em sua mãe Iem, que provavelmente estava morta há anos, mas cujos ensinamentos haviam tornado aquela vingança possível. pensou nos 150 escravos que haviam fugido.
Alguns certamente haviam sido recapturados, mas outros, ela esperava, haviam alcançado os quilombos. Haviam encontrado liberdade. “Por Mateus”, ela sussurrou, “Por todos nós.” O carrasco puxou a alavanca. O corpo de Domingas foi deixado pendurado na praça por três dias, como aviso. Depois foi cortado e jogado em uma cova comum, sem marcação, sem ritual, sem dignidade. Mas sua história não morreu com ela.
Nos anos seguintes, o massacre do Engenho Santana tornou-se lenda. A história da mulher que comandou abelhas para vingar seu filho foi contada e recontada em cenzalas por todo o Nordeste. Cada versão adicionava detalhes, algumas vezes exagerados, algumas vezes alterados. Em algumas versões, Domingas não havia sido capturada, havia se transformado em uma nuvem de abelhas e desaparecido nas matas.
Em outras, ela havia voltado dos mortos para assombrar senhores de engenho cruéis. O medo que a história inspirava era real. Senhores de engenho começaram a destruir colmeias em suas propriedades, mesmo as domésticas que produziam mel. Escravos que sabiam trabalhar com abelhas eram vigiados com suspeita. Apicultores foram proibidos de ensinar técnicas para escravizados.
Mas entre os escravizados, a história de Domingas tornou-se símbolo de resistência, prova de que mesmo os mais oprimidos podiam lutar de volta, que inteligência e conhecimento ancestral podiam ser armas tão poderosas quanto espadas, que havia consequências para a crueldade, mesmo quando a lei não as oferecia.
Documentos oficiais da época registram um aumento significativo em incidentes com insetos. em propriedades escravistas nos anos após 1856. Alguns eram acidentais, outros provavelmente não. O conhecimento que Dominguas havia demonstrado manipulação de insetos como armas havia plantado uma semente de possibilidade em outras mentes desesperadas.
Em 1858, dois anos após o massacre, um engenho na Bahia sofreu ataque similar, embora menor em escala. Em 1860, uma fazenda em São Paulo reportou ataque coordenado de vespas que matou um feitor especialmente brutal. Não havia provas concretas de envolvimento humano nesses casos, mas as suspeitas persistiam. A história de Domingas também influenciou debates sobre escravidão nos círculos intelectuais.
Abolicionistas usavam o massacre como exemplo dos perigos de um sistema que acumulava rancor e vingança. “Quando negamos justiça”, escreveu um jornalista abolicionista em 1862, “cri criamos nossos próprios carrascos”. O engenho Santana não foi destruído por abelhas, foi destruído por décadas de crueldade que finalmente encontraram um canal de retribuição.
Os descendentes do coronel cavalcante de Albuquerque reconstruíram o engenho, mas nunca recuperaram o prestígio. A propriedade foi vendida em 1870, poucos anos antes da abolição final. Dizem que nenhum escravo aceitava trabalhar lá sem resistência. Dizem que o lugar era assombrado não por fantasmas, mas por memórias que recusavam-se a morrer.
A cova de Dominguas, embora não marcada, eventualmente foi localizada por alguns libertos após a abolição em 1888. Eles colocaram uma pedra simples com uma inscrição em iorubá. Iogum, mãe guerreira. Hoje, mais de um século depois, a história de Dominguas permanece viva em Pernambuco.
É contada em rodas de capoeira, em terreiros de candomblé, em reuniões de movimentos negros. Foi documentada por historiadores que reconhecem sua importância como ato de resistência escrava. Antropólogos estudaram as técnicas de manipulação de abelhas que ela teria usado, muitas delas confirmadas como possíveis por conhecimentos ancestrais africanos de apicultura. O Engenho Santana não existe mais.
Suas ruínas foram engolidas pela mata. Mas no local onde ficava a Casagre, onde 11 pessoas morreram numa manhã de agosto de 1856, ainda há colmeias selvagens. Abelhas africanas fazem seus ninhos nas árvores antigas, produzem mel que ninguém ousa colher. Locais dizem que se você passar por lá em silêncio, especialmente em dias de agosto, pode ouvir um zumbido que parece carregar vozes.
Vozes de vingança, vozes de justiça, vozes de mães que perderam filhos e decidiram que não morreriam caladas. A história de Domingas nos ensina lições profundas sobre resistência, sobre os limites da opressão, sobre o preço da crueldade. Ela nos lembra que sistemas de injustiça carregam dentro de si as sementes de sua própria destruição.
que conhecimento ancestral é poder, que mesmo os mais invisíveis e oprimidos têm capacidade de mudar história, mas principalmente nos lembra que toda criança tem valor, que toda mãe tem direito de proteger seus filhos e que quando negamos isso, quando pisoteamos a humanidade de pessoas, criamos forças que eventualmente nos destróem.
Mateus morreu sem ver justiça nos tribunais dos homens, mas sua mãe garantiu que ele não morreu em vão. 11 vidas pagaram por uma e todo um sistema de opressão foi forçado a reconhecer, mesmo que brevemente, que havia limites para o que podiam fazer sem consequências. Esta é a história de Dominguas, a escrava que transformou em chames em armas e arrasou um engenho inteiro, uma mulher que não pediu piedade, não pediu perdão, não pediu nada além do que já havia sido tirado dela.
Ela apenas cobrou o preço e o preço foi pago em sangue, veneno e terror. Que sua memória continue viva, que sua coragem continue inspirando, que Mateus, onde quer que esteja, saiba que foi amado, foi vingado e nunca, jamais foi esquecido.