Atenção, bem-vindo a este percurso por um dos casos mais inquietantes registrados na história de Curitiba. Antes de iniciar, convido-o a deixar nos comentários de onde está nos assistindo e a hora exata em que escuta esta narração. Interessa-nos saber até quais lugares e em quais momentos do dia ou da noite chegam estes relatos documentados.
Foi durante o rigoroso inverno de 1876 que a província do Paraná testemunhou um dos casos mais perturbadores já documentados em seus registros oficiais. Na região de Curitiba, então, uma modesta capital provincial com pouco mais de 15.000 habitantes. A família Ribá ocupava uma posição de relativo prestígio.
Residiam em uma ampla propriedade situada a aproximadamente 6 km do centro urbano, na direção da Serra do Mar, em uma área conhecida como caminho do Itupava, importante rota que ligava o planalto curitibano ao litoral. A casa principal, construída em madeira de araucária com alicerces de pedra, destacava-se na paisagem por sua imponência discreta, cercada por extensos campos e pequenos capões de mata nativa.

A propriedade da família Ribas fora estabelecida por Antônio Ribas, patriarca e descendente de imigrantes portugueses que haviam prosperado no comércio de erva mate, principal produto de exportação da província naquele período. Os relatórios municipais indicavam que a residência havia sido construída por volta de 1852 e era considerada um símbolo da crescente prosperidade que a economia do mate proporcionava à região.
O caso que levou os Ribas aos registros oficiais da província começou a se desenhar quando Marta Ribas, esposa de Joaquim Ribas, filho mais velho de Antônio, deixou de comparecer as missas dominicais na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, atual Catedral Basílica, localizada no centro de Curitiba. Segundo os registros paroquiais consultados em 1963 pelo historiador Eduardo Oliveira, sua ausência foi notada inicialmente pelo padre Miguel Cordeiro, que após a terceira semana consecutiva, sem a presença de Marta, questionou Joaquim Ribas sobre o estado de saúde da esposa,
conforme consta em uma breve nota escrita pelo próprio padre em seus registros pessoais, posteriormente arquivado, na Cúria Metropolitana. A resposta de Joaquim teria sido evasiva. O Sr. Joaquim informou-me que sua esposa encontrava-se indisposta devido a uma enfermidade respiratória comum nesta estação.
Notei, contudo, um certo desconforto em sua expressão ao fornecer tal explicação”, escreveu o religioso. Este seria o primeiro de uma série de eventos que culminariam no que viria a ser conhecido como o caso Marta Ribas. É importante notar que Curitiba naquela época vivia um período de transformação. A economia baseada na erva mate impulsionava mudanças urbanas significativas e um lento processo de modernização.
O isolamento geográfico da capital paranaense, situada a quase 900 m de altitude no primeiro planalto paranaense, contribuía para a manutenção de certas tradições e comportamentos sociais que já começavam a se modificar em centros maiores como Rio de Janeiro e São Paulo. Neste contexto, a família Ribas era conhecida por sua adesão rigorosa aos valores conservadores e católicos da época.
mantendo uma postura de reserva nos assuntos domésticos que, segundo relatos da época, beirava o hermetismo. As correspondências entre membros da família Ribas e seus parentes em outras províncias localizadas em 1961, durante a organização do Arquivo Provincial, revelam uma estrutura familiar patriarcal rígida, onde o isolamento das mulheres era prática comum, sobretudo em casos de desconformidade com as expectativas sociais.
Após aproximadamente três meses da primeira ausência de Marta Ribas nas missas dominicais, o médico da família, Dr. Augusto Campos, registrou em seu caderno de anotações profissionais uma visita à propriedade dos Ribas. O documento encontrado entre os pertences de sua neta em 1968 contém observações intrigantes.
Fui chamado para atender a senora Marta Ribas, que segundo seu marido, apresentava sintomas de melancolia aguda. Ao chegar, fui informado por D. Helena, mãe de Joaquim, que não seria necessário examinar a paciente, pois esta já se encontrava em melhores condições. Insisti em vê-la, alegando questões de responsabilidade profissional, mas fui firmemente desencorajado.
Retornei à cidade com a incômoda sensação de que algo não estava sendo devidamente relatado”, escreveu o médico. Os relatórios da delegacia de Polícia de Curitiba, preservados nos arquivos do Museu Paranaense, não contém qualquer menção à família Ribas neste período específico, o que sugere que se havia algo incomum acontecendo na propriedade, permanecia estritamente no âmbito privado, como era costume na sociedade brasileira do século XIX.
A separação entre questões domésticas e autoridades públicas era bastante demarcada, especialmente quando se tratava de famílias influentes. A situação começou a ganhar contornos mais definidos quando, em outubro de 1876, uma das empregadas da casa dos Ribas, identificada nos registros apenas como Maria, procurou o padre Miguel Cordeiro após a missa, relatando preocupações sobre o estado de sua patroa.
Segundo o breve registro feito pelo pároco, a empregada mostrava-se visivelmente perturbada e mencionou que Martha Ribas estava sendo mantida em isolamento em um dos cômodos da casa, aparentemente contra sua vontade. O inverno paranaense daquele ano havia sido particularmente rigoroso, com temperaturas que, segundo os registros meteorológicos da época, mantidos pelo Instituto Agronômico do Paraná, chegaram a atingir marcas negativas incomuns mesmo para os padrões de Curitiba.
A geada severa prejudicava as plantações e intensificava o isolamento das propriedades rurais, tornando as estradas praticamente intransitáveis em certos trechos. Este cenário contribuía para que situações como a de Marta Ribas permanecessem invisíveis aos olhos da comunidade. Em novembro do mesmo ano, um fato curioso foi registrado nos livros de ocorrência da delegacia local.
Helena Ribas, sogra de Marta, compareceu à autoridade policial para denunciar o desaparecimento de objetos de valor da residência, sugerindo que uma das empregadas, coincidentemente a mesma Maria, que havia conversado com o padre, seria a responsável pelo furto. O delegado Francisco Monteiro registrou a queixa, mas observou em suas anotações pessoais encontradas décadas depois que a senora Ribas demonstrava mais incômodo com as supostas conversas da empregada com pessoas da cidade do que com os objetos supostamente subtraídos.
A empregada foi detida por dois dias, mas liberada por falta de provas. Alguns moradores da região, anos mais tarde, relatariam ao folclorista paranaense José Maria de Paula, que documentou tradições e histórias locais no início do século XX, ter observado movimentações incomuns na propriedade dos Ribas durante aquele período.
Segundo esses relatos colhidos por volta de 1910 e preservados em manuscritos no acervo da biblioteca pública do Paraná, carruagens chegavam à propriedade durante a noite e sons que lembravam lamentos podiam ser ouvidos à distância. Tais relatos, entretanto, carecem de comprovação oficial e podem ter sido influenciados pelos eventos que se seguiram.
O ponto crucial na documentação do caso ocorreu em dezembro de 1876, quando o Dr. Augusto Campos foi novamente chamado à propriedade dos Ribas, desta vez com urgência. Em seu registro profissional, ele anotou: “Fui convocado à residência dos Ribas para atestar o óbito da Senora Marta. Ao chegar, encontrei a família em aparente consternação. O Sr.
Joaquim informou-me que sua esposa havia falecido durante a noite após um agravamento súbito de sua condição melancólica. Solicitaram-me que atestasse, como causa mortes, uma febre tifoide, o que me recusei a fazer sem examinar adequadamente o corpo. após considerável resistência, permitiram meu acesso ao quarto onde jazia o corpo.
O que vi causou-me profunda inquietação. O cadáver apresentava sinais evidentes de desnutrição severa, com proeminências ósseas visíveis sob a pele. Notei também marcas nos pulsos e tornozelos compatíveis com contenção prolongada. A coloração da pele e outros sinais sugeriam morte por inanição, não por febre tifoide ou qualquer enfermidade infecciosa.
Registrei minhas observações de forma discreta e, alegando necessidade de consultar literatura médica específica, retirei-me, sem emitir o atestado solicitado. O registro de óbito de Marta Ribas, localizado nos arquivos da Igreja Matriz, indica que ela foi sepultada no dia 22 de dezembro de 1876, tendo como causa oficial da morte febre de origem indeterminada.
O documento apresenta a assinatura do padre Miguel Cordeiro, mas não contém o selo médico que normalmente acompanharia tais registros naquela época. Este detalhe, aparentemente insignificante, seria fundamental para os desdobramentos posteriores. Três dias após o sepultamento de Marta, o Dr. Campos enviou uma carta selada ao delegado Francisco Monteiro, cujo conteúdo permaneceu desconhecido por quase 80 anos até ser encontrada entre os documentos pessoais do delegado doados por seus descendentes ao arquivo público em 1955.
Na carta, o médico expressava suas suspeitas de que Martha Ribas havia sido vítima de maus tratos severos e prolongados, resultando em sua morte por desnutrição e debilidade física. Ele solicitava uma investigação discreta, considerando a posição social da família Ribas, mas enfatizava a gravidade do que havia testemunhado.
Os registros policiais indicam que o delegado Monteiro iniciou uma investigação preliminar, convocando o Dr. Campos para um depoimento formal no dia 27 de dezembro. Entretanto, conforme consta em uma breve nota no livro de ocorrências, o médico não compareceu à delegacia na data marcada. Um oficial enviado à sua residência foi informado por sua esposa que o Dr.
Campos havia partido repentinamente para o Rio de Janeiro, alegando uma emergência familiar. Não há registros de seu retorno a Curitiba. Na mesma semana, um incêndio atingiu um dos anexos da propriedade dos Ribas. destruindo o que, segundo relataram a polícia, seria apenas um depósito de materiais agrícolas.
O incêndio foi registrado como acidental, causado provavelmente por uma lamparina deixada acesa durante a noite. Nenhuma investigação adicional foi conduzida sobre o incidente. Em janeiro de 1877, menos de um mês após a morte de Marta, Joaquim Ribas anunciou sua intenção de mudar-se para o Rio Grande do Sul, onde, segundo informou aos conhecidos, assumiria a gestão de novos negócios familiares.
Os registros da paróquia de Nossa Senhora da Luz indicam que ele solicitou uma carta de recomendação ao padre Miguel, prática comum, quando membros da comunidade se transferiam para outras localidades. O documento foi emitido, mas uma cópia mantida nos arquivos paroquiais contém uma anotação marginal feita pelo padre que diz apenas concedido com reservas de consciência.
A propriedade dos Ribas foi vendida a uma família de imigrantes alemães recém-chegados à província, os Weber, que desconheciam completamente os eventos recentes. Segundo registros notariais preservados no Arquivo Público do Paraná, a transação foi concluída em tempo surpreendentemente curto, com um valor consideravelmente abaixo do mercado para propriedades de porte semelhante na região.
Os Weber relataram anos mais tarde terem encontrado um pequeno quarto no sótam da casa principal que apresentava características incomuns. As paredes haviam sido reforçadas com tábuas adicionais. A única janela estava pregada e coberta com placas de metal e a porta possuía travas apenas pelo lado externo.
O cômodo havia sido esvaziado de qualquer mobília, mas o açoalho apresentava marcas de arranhões e manchas escuras. Os novos proprietários optaram por demolir completamente o sótan durante reformas na casa, incorporando o espaço ao restante da estrutura. A história de Marta Ribas poderia ter-se perdido nos registros empoeirados dos arquivos provinciais.
não fosse o trabalho meticuloso de Eduardo Oliveira, historiador que em 1963, enquanto pesquisava a evolução da medicina legal no Paraná do século XIX, depou-se com as anotações do Dr. Augusto Campos. Intrigado com o caso, Oliveira dedicou-se a reunir fragmentos de informação dispersos em diferentes arquivos, reconstruindo gradualmente a narrativa dos eventos.
Em seu trabalho, Práticas de confinamento na província do Paraná, o caso Marta Ribas, publicado pelo Departamento de História da Universidade Federal do Paraná em 1965, Oliveira levantou a hipótese de que Marta teria sido submetida ao que na época era conhecido como tratamento de reclusão, prática não incomum para casos de supostos desequilíbrios mentais ou comportamentos considerados desviantes em mulheres de famílias tradicionais.
O trabalho de Oliveira, embora academicamente rigoroso, recebeu pouca atenção além dos círculos especializados. Sua pesquisa foi arquivada na Biblioteca Universitária e raramente consultada nas décadas seguintes, em 1968, quando tentou ampliar seu estudo buscando descendentes das famílias envolvidas. Para possíveis entrevistas, o historiador enfrentou resistências significativas.
Documentos que ele havia previamente consultado nos arquivos públicos foram repentinamente classificados como em restauração ou extraviados. Em suas anotações pessoais encontradas após sua morte em 1969, Oliveira mencionava ter recebido telefonemas anônimos, sugerindo que abandonasse aquela linha de pesquisa específica.
Há famílias em posições de influência na sociedade curitibana atual que não desejam ver certos capítulos do passado revisitados”, escreveu ele em seu diário. O historiador faleceu de causas naturais, um ataque cardíaco segundo o atestado médico, enquanto trabalhava em seu escritório na universidade.
Seus arquivos de pesquisa sobre o caso Ribas nunca foram localizados entre seus pertences. O antigo caminho do Itupava, onde se localizava a propriedade dos Ribas, foi gradualmente incorporado ao traçado urbano de Curitiba, conforme a cidade se expandia. A região atualmente corresponde aproximadamente aos bairros do Cajuru e Capão da Embuia, áreas densamente urbanizadas onde pouquíssimos vestígios do século XIX sobreviveram.
A casa da família Ribas, após passar por diversos proprietários ao longo das décadas, foi finalmente demolida em 1952 para dar lugar a um conjunto habitacional. Em 1966, durante as escavações para a construção dos alicerces de um dos edifícios, operários relataram ter encontrado o que parecia ser uma pequena caixa metálica enterrada a aproximadamente 2 m de profundidade.
Dentro dela, segundo o relatório do engenheiro responsável pela obra, havia um caderno com capa de couro severamente danificado pela humidade, contendo o que pareciam ser anotações em uma caligrafia feminina, além de mechas de cabelo e um pequeno medalhão de prata. Os itens foram entregues ao proprietário do terreno e nunca mais foram vistos ou documentados oficialmente.
Um dos operários envolvidos na escavação, entrevistado por um jornal local em 1967, afirmou que conseguiu ler algumas poucas linhas do caderno antes de entregá-lo. “Evam palavras desesperadas de alguém que implorava por ajuda”, declarou. A escrita tremia e ficava cada vez mais fraca nas últimas páginas, como se a pessoa estivesse perdendo as forças.
A reportagem foi publicada em uma pequena nota na sessão de curiosidades do jornal e não gerou repercussão. No início de 1968, um incêndio no depósito de arquivos do jornal destruiu todas as edições daquele período, incluindo a que continha a entrevista com o operário. O homem, identificado apenas como Pedro nos registros, mudou-se para o interior do estado logo após a publicação da matéria, e tentativas posteriores de localizá-lo não tiveram sucesso.
A história de Marta Ribas levanta questões perturbadoras sobre as práticas sociais aceitas no Brasil do século XIX e o silêncio institucional que frequentemente as envolvia. As evidências fragmentadas sugerem um caso de confinamento forçado e possível inanição. Práticas que, embora chocantes para os padrões contemporâneos, não eram incomuns na época para lidar com mulheres que, por razões diversas, eram consideradas problemáticas por suas famílias.
Os registros da Igreja matriz revelam um detalhe intrigante. Antes de seu casamento com Joaquim Ribas, Marta era conhecida como Marta Alves, filha de um comerciante de posses modestas da região de Morretes, no litoral paranaense. O casamento, realizado em 1874, representou uma ascensão social significativa para ela.
Especula-se, com base em comentários encontrados em correspondências da época, que a união teria sido arranjada como parte de acordos comerciais entre as famílias, prática comum no período. Nos arquivos da paróquia de Morretes, o historiador Oliveira encontrou registros que indicavam que Marta era conhecida em sua comunidade de origem por seu espírito independente e educação incomum para uma moça de sua condição.
Ela havia sido alfabetizada por um tio padre, algo relativamente raro para mulheres de sua classe social naquela época e demonstrava interesse por literatura e escrita. Tais características, embora admiráveis em contextos mais progressistas, poderiam ser vistas como problemáticas em ambientes conservadores, como o da família Ribas. As anotações do Dr.
Augusto Campos em data anterior ao episódio final mencionam brevemente uma consulta com Marta Ribas em maio de 1876, na qual ela teria manifestado sintomas que o médico classificou como melancolia leve, possivelmente decorrente de uma gravidez não concretizada. Este registro sugere que possíveis expectativas reprodutivas não atendidas poderiam estar entre os fatores que precederam seu confinamento.
Na Sociedade Brasileira do século XIX, a infertilidade feminina era frequentemente vista como motivo de deshonra e poderia justificar tratamentos extremos. Uma carta encontrada entre os pertences do padre Miguel Cordeiro, após sua morte, ocorrida em 1883, lança mais luz sobre os eventos. Endereçada ao bispo de São Paulo, mas aparentemente nunca enviada, a carta expressa preocupações profundas sobre práticas inaceitáveis, mesmo sob o manto da autoridade familiar que o padre suspeitava ocorrerem na residência dos Ribas.
Ele mencionava especificamente ter ouvido da empregada Maria que a senora Marta havia sido confinada por manifestar o desejo de retornar à casa de seus pais. Após desentendimentos graves com seu marido, o padre escreveu ainda: “Encontro-me em situação de extrema angústia moral, dividido entre meu dever de proteger uma alma sob meus cuidados espirituais e as limitações impostas pelas convenções sociais e pelo poder que certas famílias exercem sobre nossa comunidade.
Temo que, ao me silenciar, esteja sendo cúmplice de uma crueldade que clama aos céus por justiça. O fato de a carta nunca ter sido enviada sugere que o padre, apesar de suas inquietações morais, optou por não confrontar diretamente uma família influente como os Ribas. Após a venda da propriedade, Joaquim Ribas estabeleceu-se efetivamente no Rio Grande do Sul, conforme havia anunciado.
Registros municipais da cidade de Pelotas indicam sua presença como comerciante de produtos importados a partir de 1877. Em 1879, cerca de três anos após a morte de Marta, ele casou-se novamente com Luciana Schmid, filha de imigrantes alemães. O casal teve quatro filhos e os registros sugerem uma vida familiar aparentemente normal. Curiosamente, em seu testamento, redigido em 1910, pouco antes de sua morte aos 62 anos, Joaquim fez uma doação significativa para a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, especificamente para o tratamento de mulheres com enfermidades do espírito, como eram chamados os
transtornos mentais na época. O documento incluía a enigmática declaração de que o gesto visava espiar falhas do passado que pesam sobre minha consciência. Esta seria a única referência, ainda que indireta, que Joaquim jamais faria aos eventos ocorridos em Curitiba. Helena Ribas, mãe de Joaquim e sogra de Marta, permaneceu em Curitiba após a partida do filho, residindo com sua filha mais nova em uma casa no centro da cidade.
Os registros paroquiais indicam sua presença regular nas missas dominicais até 1895, quando seu nome desaparece abruptamente dos registros. Não foi localizada qualquer menção a sua morte ou sepultamento nos arquivos da igreja matriz ou no cemitério municipal, sugerindo que ela pode ter se mudado para outra localidade em seus últimos anos de vida.
A empregada Maria, que havia tentado alertar o padre sobre a situação de Marta, desaparece completamente dos registros após sua breve detenção por suposto furto. Não há documentação sobre seu paradeiro subsequente, o que não é incomum para pessoas de classes subalternas naquele período histórico, cuja existência raramente deixava marcas nos registros oficiais, a menos que entrassem em conflito com a lei. O Dr.
Augusto Campos, após sua partida repentina para o Rio de Janeiro, nunca mais retornou a Curitiba. pesquisas nos arquivos médicos da capital imperial não revelaram registro de sua atuação profissional lá, sugerindo que ele pode ter se estabelecido em outra província ou talvez até deixado o país. Sua esposa permaneceu em Curitiba por aproximadamente seis meses após sua partida, vendendo gradualmente seus bens antes de também deixar a cidade.
Segundo registros notariais da época, o destino final do casal permanece desconhecido. O professor Eduardo Oliveira, cuja pesquisa trouxe à luz os fragmentos do caso Marta Ribas, na década de 1960, foi lembrado por seus colegas da universidade como um historiador meticuloso e persistente. Em 1970, um ano após sua morte, a biblioteca departamental foi nomeada em sua homenagem, mas sua pesquisa sobre o caso Ribas recebeu pouca atenção acadêmica nas décadas seguintes.
Seu trabalho foi brevemente mencionado em algumas teses sobre a condição feminina no Brasil imperial, mas sem o aprofundamento que ele havia pretendido dar ao tema. Em 1967, um professor de antropologia da Universidade Federal do Paraná, Dr. Carlos Mendes, tentou retomar a pesquisa de Oliveira, buscando especialmente localizar o caderno supostamente encontrado durante as escavações no terreno da antiga propriedade dos Ribas.

Suas tentativas de contatar o proprietário do terreno à época da descoberta foram infrutíferas. O homem havia se mudado para São Paulo e não respondeu às correspondências enviadas. O projeto de pesquisa foi abandonado após alguns meses, quando Mendes aceitou uma posição em uma universidade norte-americana.
Nos anos 1980, durante reformas no prédio que abrigava o antigo arquivo municipal, trabalhadores encontraram entre o forro e o telhado, uma caixa contendo documentos diversos. que aparentemente haviam sido ocultados ali décadas antes. Entre eles estava um relatório policial não oficial escrito à mão pelo delegado Francisco Monteiro, datado de janeiro de 1877.
O texto, parcialmente deteriorado pela humidade fazia referência a uma investigação sobre a morte suspeita da senora R. E mencionava pressões recebidas das mais altas esferas provinciais. Para encerrar o caso sem maiores apurações, o delegado escrevia que havia decidido arquivar oficialmente o caso, mas manter registro particular de suas suspeitas para que a verdade, embora temporariamente silenciada, não se perca completamente.
Esse documento nunca foi formalmente incorporado aos arquivos públicos. Segundo relatos não confirmados, ele teria sido entregue a um pesquisador independente interessado na história de Curitiba, mas seu paradeiro atual é desconhecido. A existência desse relatório foi mencionada apenas em uma pequena nota de rodapé em um livro sobre a história da polícia paranaense, publicado em 1992, sem maiores detalhamentos, a região onde se localizava a propriedade dos ribas foi completamente transformada pela urbanização ao longo do século XX. Atualmente nada resta da
antiga casa ou de suas estruturas anexas. Moradores antigos da área, entrevistados informalmente em 2005 para um projeto de história oral do bairro, mencionaram vagamente histórias sobre uma casa mal assombrada que existia no local antes das construções modernas, mas sem qualquer conexão específica com a história de Marta Ribas.
Como é comum em narrativas populares, elementos sobrenaturais foram gradualmente incorporados às histórias, distanciando-as dos eventos reais que possivelmente lhes deram origem. Em 2002, durante a construção de uma nova linha de transporte coletivo que passaria próximo ao local da antiga propriedade, escavações revelaram fragmentos de estruturas de pedra que podem ter pertencido aos alicerces da casa original.
Nenhuma investigação arqueológica formal foi conduzida e os trabalhos de construção prosseguiram normalmente após o registro fotográfico dos achados arquivado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná. O caso de Marta Ribas permanece como um exemplo perturbador das dinâmicas sociais e familiares do Brasil do século XIX, especialmente no que diz respeito ao tratamento dispensado às mulheres.
A fragmentação das evidências e o silenciamento sistemático das vozes que tentaram trazer o caso à luz refletem os mecanismos de preservação do poder e da reputação das elites locais, que frequentemente sobrepujavam considerações de justiça ou humanidade. Os registros eclesiásticos da época, quando examinados em conjunto, revelam padrões similares de desaparecimento de mulheres de famílias abastadas, frequentemente explicados por doenças vagas ou mudanças repentinas para outras localidades. O caso de Marta destacou-se apenas pela existência de algumas vozes dissonantes,
o médico, o padre e a empregada, que mesmo timidamente questionaram a versão oficial apresentada pela família. Os anos foram passando e o caso foi sendo gradualmente esquecido pela memória coletiva de Curitiba. As gerações subsequentes ocupadas com o acelerado processo de modernização da cidade ao longo do século XX tinham pouco interesse pelas sombrias histórias do passado provincial.
A própria urbanização, que transformou completamente a paisagem do antigo caminho do Itupava, parecia empurrar essas memórias cada vez mais para o esquecimento. Em 1998, uma estudante de mestrado em história da Universidade Federal do Paraná, Ana Cláudia Ferreira, interessou-se pelo caso ao encontrar uma breve menção em um artigo acadêmico sobre práticas de controle social no Brasil imperial.
Tentando retomar a pesquisa de Eduardo Oliveira, ela descobriu que grande parte do material original coletado por ele estava perdida ou inacessível. A tese inacabada de Oliveira, armazenada nos arquivos universitários, continha apenas esboços preliminares de sua investigação, sem as evidências documentais que ele havia mencionado em suas anotações pessoais. Ana Cláudia visitou o local onde ficava a antiga propriedade dos Ribas.
Agora um conjunto de quadras residenciais densamente ocupadas, buscando qualquer vestígio ou memória local. Os moradores mais antigos não tinham conhecimento da história e as transformações urbanas haviam apagado qualquer marco físico que pudesse conectar o presente àqueles eventos distantes. Sua pesquisa, embora publicada em uma revista acadêmica especializada em 2000, não conseguiu adicionar elementos substancialmente novos ao que já havia sido documentado por Oliveira décadas antes.
Um elemento particularmente intrigante do caso é o destino dos documentos pessoais de Marta Ribas. Não foram encontrados em arquivos públicos ou familiares quaisquer cartas, diários ou outros registros escritos de sua própria autoria, com exceção do misterioso caderno supostamente encontrado durante as escavações em 1966.
Aência desses materiais sugere um esforço deliberado de apagamento de sua voz e memória, prática não incomum quando se tratava de casos que poderiam manchar a reputação de famílias influentes. Em 2010, durante a digitalização do acervo da biblioteca pública do Paraná, um funcionário encontrou entre as páginas de um exemplar raro de Iracema, de José de Alencar, um pequeno envelope amarelecido contendo um fragmento de carta.
O papel, visivelmente antigo e frágil, continha algumas linhas escritas em caligrafia feminina datadas de outubro de 1876. A assinatura parcialmente legível sugeria tratar-se de Marta R. O texto, embora breve, era perturbador. Não posso mais suportar este confinamento. Se esta carta chegar a alguém, por favor, busque ajuda.
Estou sendo mantida contra a minha vontade no sótam de nossa casa. Minha saúde deteriora rapidamente devido à falta de alimentação adequada. Emo pelo pior. O fragmento foi encaminhado ao Departamento de História da Universidade para a análise, mas especialistas não conseguiram verificar sua autenticidade de forma conclusiva.
O papel e a tinta eram compatíveis com os utilizados no período, mas não havia como estabelecer com certeza que a autora fosse de fato Martha Ribas. O documento foi catalogado como possível evidência histórica. e arquivado, sendo raramente mencionado em pesquisas subsequentes sobre o caso. Em 2012, uma descoberta fortuita lançou nova luz sobre os eventos.
Durante a restauração da antiga igreja matriz de Curitiba, operários encontraram, sob o assoalho de um dos confessionários, um pequeno pacote cuidadosamente embalado em cera, contendo um caderno de anotações pertencente ao padre Miguel Cordeiro. O conteúdo, preservado das intemperes pela proteção improvisada, revelava detalhes perturbadores sobre o caso Ribas, que o sacerdote aparentemente nunca se sentiu seguro para tornar públicos durante sua vida.
Nas entradas datadas de novembro e dezembro de 1876, o padre descrevia em detalhes as conversas que teve com a empregada Maria, que lhe relatava o progressivo enfraquecimento físico de sua patroa, mantida em um quarto no sótam da casa. Segundo os relatos, Marta recebia apenas uma refeição mínima por dia, geralmente constituída de pão e água, e era privada de qualquer contato com o mundo exterior.
Maria, que ocasionalmente conseguia levar-lhe um pouco mais de comida escondida, temia por sua própria segurança, relatando ao padre que Helena Ribas, a sogra, a observava constantemente e havia ameaçado demiti-la caso falasse sobre a situação com qualquer pessoa da cidade. O padre escreveu: “A pobre moça relata que sua patroa, antes vivaz e de aparência saudável, agora não é mais que uma sombra.
Seus cabelos caem em tufos, seus olhos estão encovados e ela mal consegue levantar-se do catre onde passa seus dias. Quando questionei a criada sobre o motivo de tal tratamento, ela mencionou ter ouvido discussões acaloradas entre o Sr. Joaquim e sua esposa, nas quais a senhora Marta manifestava o desejo de retornar à casa de seus pais e acusava o marido de infidelidade com uma senhora da sociedade curitibana.
Tais acusações, segundo a criada, enfureceram tanto o Sr. Joaquim, que ele, com o apoio de sua mãe, decidiu pelo confinamento da esposa até que ela recuperasse o juízo. O padre relatava ainda próprio conflito moral. Encontro-me em situação de extrema angústia espiritual. Meu dever cristão impele-me a interceder pela senhora.
Marta, mas as convenções sociais e o poder da família Ribas na comunidade criam obstáculos quase intransponíveis. Tentei, em conversas particulares com o senhor Joaquim, após as missas indagar sutilmente sobre o estado de sua esposa, mas ele mantém-se irredutível em sua versão de que ela sofre de uma enfermidade melancólica e está recebendo os cuidados adequados em casa.
A entrada mais perturbadora, datada de 21 de dezembro de 1876, um dia antes do registro oficial de sepultamento de Marta, revelava: “Maria veio a mim em estado de profunda aflição, relatando que sua patroa havia falecido durante a noite. Segundo ela, a senora Marta vinha recusando-se a comer nos últimos dias como forma de protesto contra seu confinamento e seu já debilitado estado de saúde deteriorou-se rapidamente. A criada afirmou ter ouvido o Dr.
Campos questionar veementemente a versão apresentada pela família e recusar-se a atestar a causa da morte como natural. Temo pela segurança do bom doutor, que demonstrou coragem, onde eu apenas manifestei hesitação. O caderno do padre Miguel continha ainda uma última entrada relevante, datada de janeiro de 1877. Maria não compareceu mais à Igreja após sua libertação da detenção por suposto furto.
Soube, por meio de outra criada da família Sobral, que ela partiu apressadamente de Curitiba com destino a Paranaguá, onde pretendia embarcar em um navio mercante para o Rio de Janeiro. Acredito que seu testemunho sobre os eventos na Casa dos Ribas a colocou em perigo real. Quanto ao Dr. Campos, circulam rumores de que teria sido ameaçado diretamente pelo Sr.
Antônio Ribas, patriarca da família, que utilizou suas conexões políticas para silenciá-lo. Não sei se algum dia a verdade sobre o triste fim da Senora Marta virá a luz. Que Deus tenha misericórdia de sua alma e perdoe aqueles que falharam em protegê-la, incluindo este humilde servo. O caderno do padre foi entregue ao Arquivo da Cúria Metropolitana de Curitiba, onde permanece preservado, acessível apenas mediante autorização especial para fins de pesquisa acadêmica.
Seu conteúdo foi brevemente mencionado em um artigo publicado na revista de história da Universidade Federal do Paraná em 2013, mas não recebeu a atenção significativa que talvez merecesse. Possivelmente porque mesmo após tanto tempo, o caso ainda tocava em sensibilidades relacionadas a famílias tradicionais da cidade. Em 2014, durante uma pesquisa genealógica não relacionada ao caso, um historiador amador descobriu nos registros do porto de Santos a entrada datada de março de 1877 de um navio proveniente de Paranaguá com destino ao Rio de Janeiro. Entre os
passageiros listados estava uma Maria dos Santos, descrita como criada doméstica, 24 anos. solteira. Embora o sobrenome da empregada da família Ribas nunca tenha sido oficialmente registrado nos documentos disponíveis, a coincidência de nome, profissão e o período da viagem sugerem fortemente tratar-se da mesma pessoa.
Não foram encontrados registros subsequentes que permitissem rastrear seu destino na capital imperial. Pesquisas nos arquivos médicos do Rio de Janeiro, conduzidas em 2015 por uma equipe da Faculdade de Medicina da UFRJ, interessada na história da ética médica no Brasil imperial, não encontraram qualquer registro da atuação profissional do Dr.
Augusto Campos naquela cidade após sua saída de Curitiba. Entretanto, nos registros de passageiros de navios com destino à Europa, preservados no Arquivo Nacional, consta que um Augusto Campos, médico e esposa Elisa, embarcaram em abril de 1877 com destino a Lisboa. Não há evidências conclusivas de que se tratasse do mesmo médico envolvido no caso Ribas, mas as datas e circunstâncias tornam a hipótese plausível.
Quanto a Joaquim Ribas, sua vida em Pelotas no Rio Grande do Sul parece ter seguido um curso relativamente normal após sua mudança de Curitiba. Os registros comerciais e sociais da cidade mostram que ele prosperou como comerciante, estabelecendo uma casa importadora de produtos europeus que se tornou bastante conhecida na região. Sua segunda esposa, Luciana, era frequentemente mencionada nas colunas sociais locais.
como anfitriã de saraus e eventos beneficentes, sugerindo que a família havia conquistado uma posição respeitável na sociedade pelotense. Um detalhe intrigante foi descoberto em 2016, quando um pesquisador, analisando os registros da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, encontrou anexada ao documento de doação feita por Joaquim Ribas em seu testamento, uma carta pessoal endereçada ao diretor da instituição.
texto, Joaquim solicitava que parte de sua doação fosse utilizada especificamente para garantir tratamento digno e humano a mulheres internadas por alegados distúrbios mentais, assegurando-lhes alimentação adequada e condições salubres de acomodação. Ele acrescentava que tal pedido decorria de sua profunda convicção na necessidade de reformas nos métodos de tratamento atuais, frequentemente mais cruéis que a própria enfermidade que pretendem curar.
Embora não mencionasse diretamente sua primeira esposa, o texto sugere um possível arrependimento, ou, ao menos uma reflexão tardia sobre os eventos que levaram à morte de Marta. A história da família Ribas em Curitiba foi gradualmente apagada da memória coletiva da cidade. A propriedade onde ocorreram os eventos foi completamente transformada pela urbanização e mesmo o nome da família raramente é mencionado em livros sobre a história local.
Entretanto, em 2017, durante a organização do acervo de fotografias históricas do Museu Paranaense, foi encontrado um dagguerreótipo datado aproximadamente de 1875, mostrando um casal identificado no verso como Joaquim e Marta Ribas. A imagem de qualidade razoável, considerando sua idade, mostra um homem de feições austeras ao lado de uma jovem mulher de aparência frágil, cujo olhar parece evitar deliberadamente a câmera.
Esta seria a única imagem conhecida de Marta, permitindo finalmente que aquela que foi por tanto tempo apenas um nome em documentos empoeirados ganhasse um rosto. Em 2018, uma exposição temporária no Museu Paranaense sobre silenciamentos na história do Paraná incluiu um pequeno painel dedicado ao caso Marta Ribas.
A curadora da exposição, professora Luía Martins, recebeu várias mensagens anônimas sugerindo que o tema fosse removido, alegando imprecisões históricas e difamação de famílias tradicionais. Apesar das pressões, a exposição foi mantida, mas o interesse público foi limitado, atraindo principalmente estudantes universitários e pesquisadores.
Durante a preparação dessa exposição, um detalhe adicional veio à luz. Nos registros de batismo da paróquia de Morretes, cidade natal de Marta, consta que ela era alfabetizada e atuava ocasionalmente como professora particularciantes locais antes de seu casamento. Este fato reforça a imagem de uma mulher de intelecto ativo e relativa independência para os padrões da época.
características que podem ter contribuído para os conflitos em seu casamento com Joaquim Ribas. O historiador Ricardo Mendonça, em seu livro Silêncios e Sussurros Mulheres, no Paraná Provincial, publicado em 2020, dedicou um capítulo ao caso de Marta Ribas, analisando-o no contexto mais amplo das práticas de controle e silenciamento feminino no século XIX. Segundo Mendonça, o confinamento de mulheres em espaços domésticos, sob a legação de melancolia, histeria ou outros supostos distúrbios mentais, era uma estratégia relativamente comum para lidar com esposas que desafiavam as
expectativas de submissão absoluta. O caso de Marta Ribas destaca-se não pela excepcionalidade de seu tratamento, mas pela existência de registros fragmentários que permitiram que sua história não fosse completamente apagada, como aconteceu com inúmeras outras mulheres, cujos nomes e sofrimentos perderam-se na obscuridade da história.
Uma busca nos registros genealógicos conduzida em 2021 revelou que não há descendentes diretos vivos da linhagem Ribas de Curitiba. Os quatro filhos que Joaquim teve com sua segunda esposa em Pelotas seguiram caminhos diversos. Dois permaneceram no Rio Grande do Sul, um mudou-se para São Paulo e outro para o Rio de Janeiro. O sobrenome Ribas, embora ainda exista no Paraná, pertence a outras linhagens não diretamente relacionadas à família, envolvida no caso de 1876.
Em abril de 2022, durante obras de expansão da rede de água e esgoto na região do antigo caminho do Itupava, operários encontraram a aproximadamente 2 m de profundidade os restos do que parecia ser uma pequena estrutura de pedra. Arqueólogos do Instituto do Patrimônio Histórico foram chamados e identificaram os vestígios como possivelmente pertencentes à antiga propriedade dos ribas.
Entre os escombros foi encontrado um pequeno objeto metálico que, após limpeza e análise revelou-se ser um medalhão de prata gravado com as iniciais MA, possivelmente referentes a Marta Alves, nome de solteira de Marta Ribas. O item foi incorporado ao acervo do Museu Paranaense, catalogado como possivelmente relacionado ao caso Ribas.

O local da escavação, após o término das obras, foi marcado com uma pequena placa informativa, quase imperceptível na paisagem urbana atual, mencionando apenas que ali se situava uma propriedade histórica do século XIX. Não há qualquer referência aos eventos sombrios que possivelmente ocorreram no local, refletindo a persistente relutância em confrontar abertamente certos aspectos perturbadores do passado.
Os fragmentos do caderno supostamente pertencente à Marta, encontrado durante as escavações de 1966, nunca foram localizados. O engenheiro responsável pela obra na época, entrevistado em 2022, já idoso e com saúde frágil, recordava-se vagamente do episódio. Sim, encontramos uma caixa metálica com alguns papéis velhos, mas não dei muita importância. Entreguei tudo ao proprietário do terreno, como mandava o procedimento na época.
Lembro-me que havia um caderninho com escrita feminina, muito deteriorado pela humidade. As poucas palavras que consegui decifrar pareciam ser pedidos de ajuda, algo sobre estar presa e passar fome. Achei estranho, mas não era minha responsabilidade investigar essas coisas. O proprietário do terreno, à época já falecido, nunca registrou oficialmente o recebimento dos itens, e seus herdeiros, quando contatados, afirmaram desconhecer completamente o assunto.
O destino final do caderno de Marta, possivelmente o único registro direto de sua voz e experiência, permanece desconhecido. Em 2023, o departamento de história da Universidade Federal do Paraná estabeleceu o projeto Memórias Silenciadas, dedicado a recuperar e documentar histórias de pessoas marginalizadas ou apagadas dos registros oficiais da história paranaense.
O caso de Marta Ribas foi incluído como um dos estudos de caso iniciais, com o objetivo de reunir todos os fragmentos documentais disponíveis e realizar uma reconstrução histórica o mais completa possível das circunstâncias de sua vida e morte. O projeto ainda está em andamento, buscando novas evidências em arquivos públicos e privados, tanto no Brasil quanto em Portugal, onde podem existir registros relacionados à família Ribas e suas origens.
Uma linha de investigação particularmente promissora envolve os Arquivos Médicos de Lisboa, para onde possivelmente se dirigiu o Dr. Augusto Campos após deixar o Brasil. Pesquisadores esperam encontrar registros que possam confirmar sua presença na cidade e, idealmente, documentos pessoais ou profissionais nos quais ele possa ter registrado sua versão dos eventos ocorridos em Curitiba.
Até o momento, entretanto, essa busca não produziu resultados conclusivos. O interesse renovado pelo caso, embora principalmente acadêmico, tenha encontrado algumas resistências. Em 2023, quando um documentarista independente tentou obter autorização para filmar no arquivo da Cúria Metropolitana, especificamente o caderno do padre Miguel Cordeiro, o acesso foi negado sob a alegação de que tais documentos, por sua natureza sensível e pela impossibilidade de verificação completa de sua autenticidade não deveriam ser expostos em meios de comunicação de massa. O documentário acabou sendo
produzido sem esse material, utilizando apenas reconstruções baseadas nas transcrições disponíveis em trabalhos acadêmicos. A história de Marta Ribas, com todos os seus silêncios e lacunas, permanece como um perturbador lembrete das estruturas de poder e opressão que permeavam a sociedade brasileira do século XIX, particularmente em relação às mulheres.
O confinamento doméstico, a patologização de comportamentos considerados desviantes e o silenciamento sistemático de vozes dissidentes eram práticas comuns, frequentemente sancionadas por instituições religiosas, médicas e jurídicas. O fato de fragmentos dessa história terem sobrevivido ao longo de mais de um século, resistindo a múltiplas tentativas de apagamento, deve-se em grande parte à coragem individual de pessoas como o Dr.
Augusto Campos, o padre Miguel Cordeiro e a empregada Maria, que cada um à sua maneira e com as limitações de sua época, recusaram-se a aceitar completamente a versão oficial dos eventos e deixaram registros que permitiriam, décadas depois, que a voz silenciada de Marta encontrasse algum eco na história. Em seu diário pessoal, encontrado entre seus pertences após sua morte, o historiador Eduardo Oliveira escreveu em sua última entrada, datada de janeiro de 1969, poucos dias antes de seu falecimento.
A história de Marta Ribas é, em essência, a história de inúmeras mulheres cujos nomes jamais conheceremos. Mulheres confinadas em porões e sótanos, em hospitais psiquiátricos e conventos, cujas vozes foram sistematicamente silenciadas. Ao reconstruir, mesmo que parcialmente a trajetória de uma delas, talvez possamos oferecer um pequeno tributo a todas as outras, cujas histórias permanecem enterradas sob camadas de silêncio institucional e esquecimento deliberado.
Hoje, na movimentada região urbana, onde um dia se erguia a propriedade dos ribas, nada resta que lembre os eventos ocorridos há quase 150 anos. Os sons da cidade moderna, o tráfego intenso, as conversas apressadas, a música que escapa das janelas sobrepõe-se ao silêncio opressivo que um dia envolveu aquele espaço.
Entretanto, para aqueles que conhecem a história, é impossível passar pelo local sem imaginar os ecos distantes dos passos hesitantes de Marta pelo corredor que levava ao sótam, ou o som abafado de suas súplicas não atendidas. A pequena placa informativa instalada em 2022, quase escondida entre a vegetação ornamental de um canteiro público, é facilmente ignorada pelos transeuntes apressados.
Seu texto neutro não faz justiça à intensidade dos eventos que ali ocorreram, nem à luta silenciosa de uma mulher contra as estruturas de poder que determinaram seu destino. É como se, mesmo após tanto tempo, a sociedade ainda hesitasse em confrontar diretamente os aspectos mais sombrios de seu passado. Nos arquivos empoeirados, nas bibliotecas universitárias, nos registros digitalizados e nas memórias fragmentadas, a história de Marta Ribas continua a existir, resistindo ao esquecimento. Cada novo fragmento descoberto, cada nova pesquisa realizada
contribui para que sua voz, por tanto tempo silenciada, possa finalmente ser ouvida, ecoando através do tempo como um lembrete perturbador do que acontece quando o poder se sobrepõe à justiça e quando o silêncio se torna cúmplice da crueldade.
E assim, enquanto a cidade cresce e se transforma, enquanto novas gerações surgem desconhecendo os dramas do passado, algo do espírito de Marta permanece não como uma presença sobrenatural, mas como um lembrete da fragilidade e, simultaneamente, da força da memória humana. Sua história recuperada dos escombros do esquecimento, serve como um farol, iluminando os cantos escuros de nossa história coletiva, onde tantas outras vozes permanecem silenciadas, aguardando o momento em que seus ecos possam finalmente ser ouvidos. M.