
O sol de dezembro castigava sem piedade as terras secas de picos, quando Benedito Ferreira cravou a enchada na terra pela última vez naquela manhã. O suor escorria pelo seu rosto queimado pelo sertão, misturando-se com a poeira que grudava em sua pele como uma segunda camada de sofrimento. Precisava de água.
A sede era tanta que sua garganta parecia lixa. Por isso, decidiu cavar ali mesmo, atrás da casa abandonada dos Gois, onde a terra parecia mais úmida. mais promissora. A primeira enchadada foi fácil, a segunda também, na terceira algo estranho, um barulho diferente. Não era pedra. Benedito conhecia bem o som da enchada batendo em pedra.
Aquilo era oco. Cavou mais um pouco. Seus dedos trêmulos afastaram a terra solta e então viu, branco, liso, curvo, uma costela. Benedito recuou como se tivesse levado um coice de burro no peito. O coração disparou. As mãos começaram a tremer descontroladamente. Não era costela de boi, não era costela de cabra.
Era pequena demais para ser de cavalo. Era costela humana. Ele sabia porque já havia visto antes, durante a grande seca de 1858, quando os retirantes morriam pelo caminho e os urubus faziam festa, havia ajudado a enterrar dezenas de corpos naqueles tempos malditos. Mas por que havia um corpo enterrado ali atrás da casa dos Gois? A família havia desaparecido há três meses, simplesmente sumido do mapa como fumaça no vento. Ninguém sabia para onde tinham ido.
Ninguém se importava muito para falar a verdade. Os gois sempre foram estranhos, diferentes, perturbadores. Benedito olhou para a casa silenciosa. As janelas fechadas pareciam olhos mortos, observando cada movimento seu. A porta da frente estava entreaberta, balançando levemente com o vento quente do sertão, um rangido baixo e constante que gelava o sangue. Ele deveria ir embora.
Deveria esquecer o que viu. Deveria cavar seu poço em outro lugar e nunca mais voltar ali. Mas a curiosidade é um demônio teimoso. Benedito continuou cavando. A segunda costela apareceu logo em seguida. Depois uma terceira, um osso do braço, parte de uma coluna vertebral.
Cada nova descoberta era como um soco no estômago. Quantos corpos havia ali embaixo? O vaqueiro parou de cavar quando encontrou o crânio. Estava rachado na lateral direita. Uma fratura feia, profunda. Alguém havia batido naquela cabeça com muita força, com muita raiva. Benedito sentou na terra quente e olhou para os ossos espalhados ao redor do buraco.
Sua mente trabalhava devagar, tentando entender o que estava vendo. Os gois não tinham desaparecido. Os gois estavam mortos, enterrados ali atrás de sua própria casa, como animais. Mas quem os havia matado? E por quê? As histórias que circulavam pela região voltaram à sua memória como fantasmas indesejados. Histórias sussurradas nos cantos escuros das vendas.
Histórias que as mulheres contavam umas para as outras quando os maridos não estavam ouvindo. Histórias sobre dona Leopoldina e seus três filhos. Histórias sobre coisas que não deveriam acontecer entre mãe e filhos. histórias que faziam as pessoas benzerem-se e mudarem de assunto rapidamente.
Benedito sempre pensou que fossem apenas fofocas de gente sem o que fazer. Invenções de mentes pequenas, tentando explicar porque aquela família vivia tão isolada, tão fechada em si mesma. Agora, olhando para aqueles ossos branqueados pelo tempo e pelo sol, ele começava a pensar que talvez as histórias fossem verdade. Talvez os segredos dos goóis fossem escuros demais para a luz do dia. Talvez aqueles ossos guardassem uma verdade que ninguém estava preparado para ouvir.
O vento mudou de direção e trouxe um cheiro estranho, doce e azedo ao mesmo tempo. O cheiro da morte, que ainda não havia sido completamente lavada pela chuva e pelo tempo. Benedito cobriu rapidamente os ossos com terra e correu para sua mula. Precisava contar para alguém o que havia encontrado.
Precisava dividir aquele peso que agora carregava no peito como uma pedra. Mas enquanto cavalgava de volta para picos, uma pergunta martelava em sua cabeça sem parar. Se todos os gois estavam mortos e enterrados, quem os havia matado? E será que o assassino ainda estava por perto observando, esperando? A fazenda dos Gois ficava perdida entre as caingas, a três léguas de picos, uma propriedade que parecia ter sido esquecida por Deus e pelos homens.
As cercas de pedra se estendiam por léguas, delimitando terras áridas, onde apenas os mais resistentes mandacaros conseguiam sobreviver. Dona Leopoldina Gois era viúva há 15 anos. Seu marido, Trajano, havia morrido de uma febre misteriosa que o consumiu em apenas três dias.
Desde então, ela criava sozinha os três filhos, Estevão, Policarpo e Venâncio. Mas chamar aqueles homens de filhos era estranho. Estevão já passava dos 35 anos. Policarpo tinha 32. Venâncio, o caçula, beirava os 30. Homens feitos, com barba no rosto e força nos braços. Homens que deveriam ter suas próprias famílias, suas próprias terras. Em vez disso, viviam grudados nas saias da mãe, como crianças assustadas.
Dona Conceição, esposa do vendeiro Raimundo, lembrava bem da primeira vez que viu a família toda junta na cidade. Foi numa festa de São João há mais de 10 anos. Leopoldina chegou acompanhada dos três rapazes, todos vestidos com suas melhores roupas, mas havia algo errado na forma como eles se comportavam.
Os filhos não saíam de perto da mãe, nem por um segundo. Sussurravam no ouvido dela constantemente tocavam seu braço, sua mão, seus ombros, com uma intimidade que fazia as outras mulheres desviarem o olhar desconfortáveis. E Leopoldina, Leopoldina parecia gostar daquela atenção excessiva. Sorria de um jeito que gelava o sangue das pessoas, um sorriso que não chegava aos olhos.
O mais perturbador era como ela se mantinha jovem. Aos 50 e poucos anos, Leopoldina tinha a pele lisa de uma mulher de 30, os cabelos negros e brilhantes, sem um fio branco sequer, o corpo ainda firme e atraente. As outras mulheres da região, com a mesma idade, já estavam curvadas pelo trabalho pesado, com rugas fundas, marcando seus rostos castigados pelo sol.
Leopoldina parecia ter feito um pacto com o diabo para manter sua juventude. Padre Ambrósio da Igreja Matriz de Picos visitou a fazenda apenas uma vez, foi chamado para benzer a propriedade depois que começaram a circular rumores sobre coisas estranhas acontecendo por lá. O padre chegou numa tarde de terça-feira, quando o sol já começava a se pôr.
Leopoldina o recebeu na varanda vestida com um vestido azul que realçava seus olhos claros. estava sozinha. “Onde estão seus filhos?”, perguntou o padre. “Estão trabalhando na roça”, respondeu ela com aquele sorriso gelado. Mas enquanto conversavam, Ambrósio ouvia vozes vindas de dentro da casa. Vozes masculinas, risos baixos, sussurros, como se alguém estivesse escondido lá dentro observando. Leopoldina o convidou para entrar e benzer a casa.
O padre aceitou, mas assim que cruzou a porta, sentiu um arrepio subir pela espinha. Havia algo pesado no ar daquela casa, algo que cheirava a pecado e perdição. Na sala principal, quatro cadeiras dispostas em círculo, todas viradas para o centro, como se a família se sentasse ali para para o quê? Para conversar, para rezar, para fazer coisas que não deveriam ser feitas.
O padre benzeu a sala rapidamente e pediu para ver os quartos. Leopoldina hesitou, disse que os quartos estavam bagunçados, que seria melhor deixar para outro dia. Mas Ambrósio insistiu. Era seu dever abençoar toda a casa. Ela o levou até o corredor dos quartos. Três portas, uma para cada filho, imaginou o padre. Mas quando Leopoldina abriu a primeira porta, Ambrósio viu apenas uma cama.
Uma cama grande de casal, com lençóis amarrotados e um cheiro doce e enjoativo no ar. Esta é a cama do Estevão”, disse Leopoldina. “E onde ele dorme?”, perguntou o padre confuso. “Aqui”, respondeu ela, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O padre olhou para a cama novamente. Era grande demais para uma pessoa só.
E havia claramente sinais de que duas pessoas dormiam ali, duas pessoas que se mexiam muito durante a noite. A segunda porta revelou a mesma coisa: uma cama de casal, lençóis desarrumados, o mesmo cheiro doce e perturbador. A terceira porta estava trancada. Leopoldina disse que a chave havia se perdido há tempos. O padre não insistiu, já havia visto o suficiente.
Benzeu o corredor rapidamente e pediu para ir embora. Enquanto cavalgava de volta para a cidade, Ambrósio tentava entender o que havia presenciado. Três quartos, três camas de casal, uma mulher e três homens adultos vivendo sozinhos numa fazenda isolada. As peças do quebra-cabeças começavam a se encaixar de uma forma que o padre não queria aceitar. Naquela noite, ele rezou até o amanhecer.
Rezou para que suas suspeitas estivessem erradas. Rezou para que Deus perdoasse os pensamentos impuros que passavam por sua cabeça. Mas no fundo do coração, Ambrósio sabia que havia descoberto algo abominável, algo que mancharia para sempre sua fé na bondade humana. A partir daquele dia, sempre que alguém mencionava a família Gois, o padre fazia o sinal da cruz e murmurava uma oração, como se apenas pronunciar aquele nome fosse suficiente para atrair a maldição que pairava sobre aquela casa perdida no sertão. Uma maldição que logo se revelaria mais terrível do que
qualquer um poderia imaginar. Seu Raimundo acordou naquela segunda-feira de setembro com uma sensação estranha no peito. Algo estava diferente, mas ele não conseguia identificar o quê. Abriu sua venda, como sempre fazia, há 20 anos, organizou as mercadorias nas prateleiras e esperou pelos primeiros clientes. O dia passou devagar. Alguns vaqueiros compraram rapadura e cachaça.
Dona Sebastiana levou farinha e sal, o movimento normal de uma segunda-feira qualquer no interior do Piauí. Mas quando o sol começou a se pôr, Raimundo percebeu o que estava incomodando. Os goóis não tinham aparecido. Por 15 anos desde a morte do velho trajano, dona Leopoldina e seus filhos vinham à venda toda segunda-feira religiosamente.
Com sempre as mesmas coisas: farinha, feijão, rapadura, querosene para os lampiões, às vezes um pedaço de carne seca. Leopoldina pagava sempre à vista, com moedas de prata que tirava de uma bolsinha de couro amarrada na cintura. Nunca sorria, nunca conversava além do necessário.
Fazia suas compras e ia embora, seguida pelos três filhos como uma procissão sombria. Raimundo olhou para o calendário pregado na parede. Primeira segunda-feira de setembro. Os goóis deveriam ter aparecido. Talvez estejam doentes, pensou, ou ocupados com algum trabalho na fazenda. Mas uma voz pequena no fundo de sua mente sussurrava que algo estava errado, muito errado.
A segunda segunda-feira chegou. Raimundo acordou mais cedo, organizou a venda com cuidado especial e ficou esperando o dia inteiro. Nada. Dona Conceição, sua esposa, notou a preocupação do marido. “Por que você está tão nervoso?”, perguntou ela enquanto preparava o jantar. Os gois não vieram esta semana também, respondeu Raimundo, mexendo distraído no feijão do prato.
E daí? Talvez tenham viajado. Viajado para onde? Aquela gente não tem parente em lugar nenhum. Não tem amigo, não sai daquela fazenda nem para ir à missa. Conceição parou de comer e olhou para o marido. Em 25 anos de casamento, ela havia aprendido a confiar nos instintos dele. Raimundo tinha um sexto sentido para problemas.
Você acha que aconteceu alguma coisa? Não sei, mas vou descobrir. A terceira segunda-feira foi a gota d’água. Raimundo passou o dia inteiro olhando para a Baistrada que levava à fazenda dos Gois, esperando ver a figura de Leopoldina surgir no horizonte com seus três filhos atrás. Nada. Naquela noite ele não conseguiu dormir.
Ficou na rede da varanda, olhando as estrelas e tentando entender o que poderia ter acontecido com aquela família estranha. Bandoleiros. Era possível. A região estava infestada de cangaceiros que atacavam fazendas isoladas. Mas os gois não tinham fama de ricos. Viviam de forma simples, quase pobre. Doença também era possível, uma febre, uma peste qualquer que tivesse levado à família toda. Mas alguém teria vindo buscar ajuda na cidade. Alguém teria mandado recado.
A quarta segunda-feira chegou e passou em branco. Raimundo não aguentou mais. Vou até lá. anunciou para a esposa na terça-feira de manhã. Conceição tentou dissuadi-lo, disse que não era da conta deles, que os gois sempre foram esquisitos e talvez quisessem ficar sozinhos mesmo, mas Raimundo já havia tomado a decisão.
Celou seu cavalo e chamou dois vaqueiros da região, Benedito Ferreira e João Batista, homens corajosos, acostumados com os perigos do sertão. A cavalgada até a fazenda dos Gois levou 2 horas. O sol estava alto quando chegaram à propriedade. O primeiro sinal de que algo estava errado foi o silêncio. Nenhum barulho de animais, nenhum movimento nas janelas, nenhuma fumaça saindo da chaminé da cozinha.
A casa parecia morta. Raimundo desmontou e caminhou até a varanda. A porta da frente estava fechada, mas não trancada. Bateu algumas vezes. Dona Leopoldina, Estevão. Alguém em casa? Silêncio. Empurrou a porta devagar. Ela se abriu com um rangido longo e assombrado. O cheiro foi a primeira coisa que o atingiu. Não era cheiro de morte como ele esperava. Era pior.
Era cheiro de abandono, de comida estragada, de mofo e umidade. A sala principal estava arrumada de forma estranha. Quatro cadeiras dispostas em círculo perfeito. No centro, uma mancha escura no chão de terra batida. Uma mancha que parecia ter sido esfregada várias vezes, mas que ainda mostrava sinais de algo que havia sido derramado ali. Sangue.
Raimundo sentiu o estômago embrulhar. Chamou os dois vaqueiros que entraram na casa com cautela. Vasculharam todos os cômodos. Na cozinha, comida estragada sobre a mesa, pão coberto de mofo, leite azedo numa caneca, como se alguém tivesse parado de comer no meio da refeição e nunca mais voltado.
Nos quartos, roupas espalhadas, camas desarrumadas, sinais de que as pessoas haviam saído com pressa ou sido obrigadas a sair, mas não havia corpos, não havia sinais claros de violência além daquela mancha na sala. Os gois simplesmente haviam desaparecido. Benedito encontrou algo perturbador no quarto de Leopoldina. Uma caixa de madeira escondida embaixo da cama.
Dentro cartas, dezenas de cartas escritas à mão. Raimundo pegou uma e começou a ler. Suas mãos tremeram. Seu rosto empalideceu. “O que foi?”, perguntou João Batista. Raimundo não conseguiu responder, guardou as cartas rapidamente e saiu da casa quase correndo. Durante toda a cavalgada de volta, ele ficou em silêncio.
Benedito e João Batista tentaram conversar, mas Raimundo parecia estar em outro mundo. Só quando chegaram à cidade, ele finalmente falou: “Vamos procurar o delegado”. Aconteceu algo terrível naquela casa. Mas ele não contou o que havia lido nas cartas. Não contou sobre os segredos obscenos que descobrira. Alguns conhecimentos eram pesados demais para serem compartilhados.
Alguns segredos eram escuros demais para a luz do dia. Coronel Lindolfo Machado era um homem que conhecia a face da morte. Veterano da guerra do Paraguai. Havia visto soldados despedaçados por balas de canhão, corpos empilhados como lenha depois das batalhas sangrentas. Pensava que nada mais poderia chocar sua alma endurecida pela guerra. estava enganado.
Quando Raimundo bateu na porta de sua casa naquela terça-feira à tarde, o rosto do vendeiro estava pálido como cera de vela. As mãos tremiam enquanto contava sobre o desaparecimento dos gois e a mancha de sangue encontrada na sala. Lindolfo selou seu cavalo imediatamente. Como delegado de picos, era seu dever investigar qualquer crime na região, mas algo no jeito nervoso de Raimundo o deixava inquieto.
“O que você não está me contando?”, perguntou enquanto cavalgavam para a fazenda. Raimundo hesitou, olhou para os lados como se temesse que alguém pudesse ouvir. Encontrei umas cartas na casa, coronel. Cartas que que não deviam existir. Que tipo de cartas? Cartas de amor. E qual o problema nisso? Raimundo engoliu seco antes de responder.
Eram cartas dos filhos para a mãe, cartas de amor de verdade, cartas de de marido para esposa. Lindolfo puxou as rédeas do cavalo, parando no meio da estrada. Olhou fixamente para Raimundo, tentando processar o que havia acabado de ouvir. Você tem certeza do que está dizendo? Tenho, coronel. Li com meus próprios olhos. Coisas que não posso repetir nem para minha mulher.
Coisas que fazem o estômago revirar. O resto da cavalgada foi feito em silêncio. Lindolfo sentia uma mistura de nojo e curiosidade crescendo em seu peito. Em seus 40 anos de vida, havia presenciado muitas perversões humanas. Mas aquilo, aquilo era diferente. A fazenda dos Gois apareceu no horizonte como uma ferida aberta na paisagem.
A casa de taipa, que um dia fora branca, agora estava acinzentada pelo tempo e pelo abandono. As janelas fechadas pareciam olhos mortos, observando sua aproximação. Lindolfo entrou na casa com a experiência de quem já havia investigado dezenas de crimes, examinou a mancha de sangue na sala, mediu sua extensão, analisou os respingos nas paredes próximas. “Houve uma luta aqui”, murmurou para si mesmo.
“Uma luta violenta”. Raimundo o levou até o quarto de Leopoldina e mostrou onde havia encontrado as cartas. Lindolfo abriu a caixa de madeira e começou a ler. A primeira carta era de Estevão, o filho mais velho. Minha querida mãe e esposa, começava a carta. Lindolfo sentiu o estômago embrulhar, mas continuou lendo. Cada palavra era uma punhalada em sua consciência cristã.
Estevão escrevia sobre noites de paixão, sobre o amor proibido que sentia pela mulher que lhe deu a vida. descrevia momentos íntimos com detalhes que fariam um padre desmaiar de horror. A segunda carta era de Policarpo, mais contida, mas igualmente perturbadora. “Nossa união é sagrada aos olhos de Deus”, dizia ele.
“Você me ensinou que o amor verdadeiro não conhece barreiras, que entre nós não há pecado, apenas pureza”. A terceira carta de Venâncio era a mais explícita. Lindolfo teve que parar de ler várias vezes para controlar a náusea que subia pela garganta. “Você nos deu a vida, agora nos dá o amor”, escrevia o filho caçula. “Somos seus maridos, seus amantes, seus devotos.
Nossa família é especial, abençoada por forças que os outros não compreendem”. Lindolfo guardou as cartas rapidamente. Suas mãos tremiam não de medo, mas de revolta. Em toda sua experiência como soldado e delegado, nunca havia se deparado com algo tão abominável. Raimundo observava o rosto do coronel, tentando decifrar seus pensamentos.
O que vamos fazer, coronel? Lindolfo não respondeu imediatamente. Caminhou pela casa examinando cada cômodo com olhos de investigador. No quarto de Estevão encontrou mais evidências perturbadoras. Poupas femininas misturadas com roupas masculinas, um vestido azul que claramente pertencia à Leopoldina jogado sobre uma camisa de homem. Na cômoda, pentes de cabelo, perfumes, objetos pessoais de uma mulher dividindo espaço com navalhas de barbear e outros pertences masculinos.
Era como se duas pessoas vivessem ali como marido e mulher. O quarto de Policarpo revelou a mesma coisa e o de Venâncio também. Lindolfo começou a entender a dinâmica daquela família maldita. Leopoldina não era apenas mãe dos três homens, era esposa de todos eles. Dividia seu tempo, seu corpo, seu amor entre os próprios filhos.
Mas onde estavam agora e por havia tanto sangue na sala? A resposta veio quando Lindolfo encontrou a última carta. Estava escondida embaixo do colchão de Leopoldina, como se alguém tivesse tentado escondê-la às pressas. Era diferente das outras. Não era carta de amor, era uma declaração de guerra.
Meus três maridos começava a carta com a letra caprichada de Leopoldina. Chegou a hora de resolver nossa situação. Estou esperando um filho e preciso saber quem é o pai verdadeiro. Lindolfo sentiu o sangue gelar nas veias. Vocês vão lutar. Vão lutar até que apenas um reste vivo. O vencedor será meu único companheiro. O perdedor será esquecido para sempre.
A carta continuava com instruções detalhadas sobre como a luta deveria acontecer. na sala principal, com as cadeiras dispostas em círculo, lá no centro, assistindo, eles ao redor, lutando como gladiadores numa arena romana. O último parágrafo era o mais chocante de todos. Quem sobreviver terá meu amor eterno. Quem morrer será enterrado com honras no quintal. Nosso filho crescerá, sabendo quem é seu verdadeiro pai.
Lindolfo dobrou a carta com mãos trêmulas. Agora tudo fazia sentido. A mancha de sangue na sala. o desaparecimento da família, as cadeiras dispostas em círculo, os três irmãos haviam se matado numa luta fratricida, instigados pela própria mãe. Mas onde estava Leopoldina e onde estavam os corpos? Se você está acompanhando esta história perturbadora do sertão piau, se inscreva no canal para não perder os próximos capítulos.
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No sertão, os vizinhos sempre sabem mais do que aparentam, sempre veem coisas que preferem fingir que não viram. A primeira pessoa que procurou foi dona Sebastiana, uma viúva que morava numa pequena casa de taipa, a duas léguas da fazenda dos Gois. Mulher de 60 anos, mãe de sete filhos, conhecia todos os segredos da região como ninguém.
Quando Lindolfo bateu em sua porta numa manhã de quinta-feira, Sebastiana o recebeu com nervosismo. Suas mãos tremiam enquanto servia café numa xícara rachada. Dona Sebastiana, preciso que me conte tudo o que sabe sobre a família Gois. A mulher baixou os olhos, mexendo, distraída, na barra do vestido desbotado.

Coronel, tem certas coisas que uma pessoa cristã não deve falar. Estou investigando um possível crime. Preciso da verdade, por mais difícil que seja. Sebastiana suspirou fundo, como se estivesse se preparando para confessar um pecado mortal. Eu via coisas naquela casa, coronel. Coisas que me faziam rezar três Ave Marias antes de dormir.
Que tipo de coisas? À noite, quando o vento estava favorável, eu ouvia barulhos vindos de lá, gritos, gemidos. No começo, pensei que fossem animais sendo atacados por onças, mas depois depois percebi que eram vozes humanas. Lindolfo inclinou-se para a frente, prestando atenção em cada palavra, vozes de homem ou de mulher, dos dois. Mas era estranho, coronel.
Não eram gritos de dor, eram eram gemidos de prazer, como se estivessem fazendo coisas que que marido e mulher fazem na intimidade. O rosto de Sebastiana estava vermelho de vergonha, mas eram três homens e uma mulher. Como pode ser? Sebastiana fez o sinal da cruz antes de continuar.
Uma noite de lua cheia, há uns dois anos, eu não conseguia dormir por causa do calor. Saí para tomar um ar na varanda e vi luzes acesas na janela do quarto da dona Leopoldina. A janela estava aberta e eu conseguia ver lá dentro. Ela parou, as mãos tremendo violentamente. O que você viu, dona Sebastiana? Vi a dona Leopoldina. Estava Estava sem roupas e os três filhos ao redor dela também sem roupas.
Eles a tocavam como como se fosse uma mulher qualquer, não a mãe deles. Lindolfo sentiu o estômago revirar, mas manteve a compostura profissional. Tem certeza do que viu? Tenho, coronel. E não foi só uma vez. Várias noites eu via a mesma coisa. Às vezes era só um dos filhos com ela.
Às vezes eram os três juntos, como se como se ela fosse esposa de todos eles ao mesmo tempo. A segunda testemunha foi seu Antônio, vaqueiro experiente que conhecia a região como a palma da mão, homem de poucas palavras, mas quando falava era para dizer coisas importantes. Os rapazes gois vinham comprar gado de mim de vez em quando, contou Antônio enquanto consertava uma cela na varanda de sua casa.
sempre juntos, nunca separados, e sempre falavam da mãe de um jeito, de um jeito esquisito. Como assim esquisito? Não era amor de filho, coronel, era outra coisa. Uma vez o Estevão me disse que a mãe dele era a mulher mais bonita do mundo, que nenhuma outra mulher se comparava a ela, que ele preferia morrer a viver longe dela. Antônio cuspiu no chão, demonstrando nojo.
O Policarpo falava a mesma coisa. Dizia que Deus havia feito a mãe dele especialmente para eles, que era destino divino eles ficarem juntos para sempre. E o venâncio, esse era o pior de todos. Uma vez me perguntou se eu achava normal um homem se apaixonar pela própria mãe.
Disse que o amor verdadeiro não conhece barreiras, que se Deus não quisesse, não teria feito a mãe dele tão perfeita. Antônio balançou a cabeça desgostoso. Eu fingi que não entendia o que ele estava querendo dizer. Mas entendi, coronel, entendi muito bem. A terceira e mais importante testemunha foi padre Ambrósio. Lindolfo o encontrou na sacristia da igreja matriz, organizando os paramentos para a missa do domingo.
Padre, preciso que me conte sobre sua visita à fazenda dos Gois. O padre parou o que estava fazendo. Seu rosto empalideceu instantaneamente. Coronel, existem coisas que um homem de Deus não deve repetir. Estou investigando um crime grave. Sua cooperação é fundamental.
Ambrósio sentou-se numa cadeira de madeira, como se suas pernas não conseguissem mais sustentá-lo. Fui chamado para benzer aquela casa há três anos. Quando cheguei, senti imediatamente que havia algo errado. O ar estava pesado, carregado de de pecado. O padre fez uma pausa, reunindo coragem para continuar. A dona Leopoldina me recebeu sozinha, mas eu ouvia vozes masculinas dentro da casa.
Quando perguntei pelos filhos, ela disse que estavam trabalhando, mas as vozes vinham de dentro, não de fora. Lindolfo aguardou pacientemente. Ela me levou para conhecer os quartos. Coronel, eu vi coisas que mancharam minha alma para sempre. Camas de casal nos quartos dos filhos, roupas de mulher misturadas com roupas de homem, cheiro de intimidade no ar. A voz do padre estava quase inaudível, mas o pior foi quando vi a dona Leopoldina grávida.
Grávida? Sim, coronel. Barriga de uns 4 meses aos 50 anos de idade. E quando perguntei quem era o pai, ela sorriu de um jeito que gelou meu sangue e disse que todos os três filhos disputavam a paternidade. Padre Ambrósio cobriu o rosto com as mãos. Fugi daquela casa, coronel. Fugi como um covarde e rezei para que Deus castigasse aquela família amaldiçoada.
Lindolfo saiu da igreja com a cabeça pesada. As peças do quebra-cabeças começavam a se encaixar, formando um quadro mais terrível do que ele imaginara. Leopoldina havia engravidado de um dos filhos. Os três disputavam a paternidade. A tensão havia crescido até o ponto de ruptura e então ela havia organizado aquela luta macabra para resolver a questão de uma vez por todas.
Mas quem havia sobrevivido e onde estavam os corpos dos perdedores? A resposta estava enterrada em algum lugar daquela fazenda maldita. Lindolfo montou em seu cavalo e cavalgou de volta para lá, determinado a descobrir toda a verdade.
Por mais terrível que ela fosse, Benedito Ferreira não conseguia tirar da cabeça a imagem dos ossos que havia encontrado. Três dias se passaram desde que descobrira o primeiro esqueleto e o vaqueiro mal dormia. Toda vez que fechava os olhos, via aquele crânio rachado olhando para ele com suas órbitas vazias. Quando o coronel Lindolfo apareceu em sua casa numa manhã de sábado, pedindo para ser levado ao local da descoberta, Benedito sentiu um misto de alívio e terror.
Alívio porque finalmente alguém com autoridade iria investigar. Terror porque sabia que estava prestes a presenciar algo que mudaria sua vida para sempre. A cavalgada até a fazenda dos Gois foi tensa. Lindolfo cavalgava em silêncio, perdido em pensamentos sombrios. As revelações das testemunhas haviam pintado um quadro perturbador da família, mas ele precisava de provas concretas.
Chegaram à propriedade quando o sol estava no meio do céu, castigando a terra seca com seu calor implacável. Benedito levou o coronel até os fundos da casa, onde havia cavado o poço. Aqui, coronel, foi aqui que encontrei os primeiros ossos. Lindolfo desmontou e examinou o local. A terra estava revolvida, mostrando claramente onde Benedito havia cavado. Alguns ossos ainda eram visíveis na superfície.
Vamos cavar mais fundo. Preciso ver tudo. Os dois homens trabalharam sob o sol escaldante. A cada enchadada, novos horrores vinham à tona. Primeiro apareceram mais costelas, depois ossos dos braços, em seguida uma coluna vertebral quase completa. Lindolfo parou de cavar quando encontrou o segundo crânio, depois o terceiro.
Três homens adultos murmurou limpando o suor do rosto. Pelos tamanhos dos ossos todos na faixa dos 30 anos. Benedito engoliu seco. Sabia exatamente quem eram aqueles homens. continuaram cavando. O quarto esqueleto apareceu logo abaixo dos outros três. Era menor, mais delicado, claramente de uma mulher. Mas havia algo diferente neste último esqueleto.
Enquanto os ossos dos homens estavam espalhados, quebrados, mostrando sinais claros de violência, os ossos da mulher estavam organizados, preservados, como se alguém tivesse tomado cuidado especial ao enterrá-la. Lindolfo examinou cada osso com a meticulosidade de um investigador experiente. Sua experiência militar o havia ensinado a ler as marcas da morte nos corpos.
“Os três homens morreram de forma violenta, disse para Benedito. Veja estas fraturas nos crânios, golpes de instrumento cortante, provavelmente facas ou foic e a mulher?” Lindolfo examinou cuidadosamente o esqueleto feminino. Não havia sinais de violência, nenhuma fratura. Nenhuma marca de golpe.
Ela morreu depois dos outros, provavelmente de fome ou doença. Veja como os ossos estão preservados. Alguém a enterrou com cuidado, mas havia algo mais perturbador no fundo da cova. Um esqueleto minúsculo, ossos tão pequenos que quase passaram despercebidos. Lindolfo sentiu o estômago revirar quando percebeu o que estava vendo. “Um bebê”, sussurrou.
“Há um bebê enterrado aqui também.” Benedito recuou fazendo o sinal da cruz. A descoberta de uma criança morta tornava tudo ainda mais macabro. Lindolfo examinou os pequenos ossos com cuidado. Pela formação, era um bebê que havia nascido a termo, mas havia morrido logo após o nascimento, ou talvez antes mesmo de nascer. Estava enterrado ao lado da mulher. provavelmente era filho dela.
As peças do quebra-cabeças começaram a se encaixar na mente de Lindolfo. Ele lembrou das palavras do padre Ambrósio sobre Leopoldina estar grávida. lembrou da carta encontrada na casa, onde ela falava sobre descobrir quem era o pai verdadeiro de seu filho.
A história toda se desenrolou em sua mente como um pesadelo. Os três irmãos haviam se matado numa luta fratricida, instigados pela mãe, que queria saber qual deles era o pai de seu filho. Leopoldina havia assistido à carnificina, sentada numa das quatro cadeiras dispostas em círculo na sala. Depois da luta, ela ficara sozinha com os corpos dos filhos maridos.
Grávida, sem ninguém para ajudá-la, havia enlouquecido de dor e solidão. “Deve ter tentado sobreviver sozinha”, murmurou Lindolfo, “maais para si mesmo do que para Benedito. Mas sem os filhos para cuidar da fazenda, sem ninguém para buscar comida na cidade, ela morreu de fome, provavelmente, e o bebê nasceu morto ou morreu logo após o nascimento sem cuidados médicos.
” Lindolfo olhou para os cinco esqueletos espalhados no fundo da cova, uma família inteira destruída pela luxúria, pelo ciúme e pela loucura. Mas quem os havia enterrado? A resposta veio quando Benedito encontrou algo mais no fundo da cova, uma pavelha com cabo de madeira carcomido pelo tempo. “Ela tentou escondê-los”, disse Lindolfo pegando a ferramenta. Leopoldina arrastou os três filhos e depois depois se deitou junto com eles.
Como assim se deitou? Lindolfo examinou novamente a disposição dos ossos. Os três homens estavam no fundo da cova com sinais de cobertura apressada e superficial. A mulher estava por cima, mas numa posição estranha, como se tivesse se deitado ali voluntariamente em um abraço final com o filho morto. Ela cavou a própria cova para o bebê, pequena e rasa, e deitou-se ao lado dele.
Os corpos dos filhos ela deve ter apenas arrastado e tentado encobrir com o que conseguiu, antes que a fraqueza e a loucura a vencessem de vez. A imagem era tão perturbadora que Benedito teve que se afastar da cova. Imaginar aquela mulher louca de dor, tentando esconder o horror e depois se deitando para morrer ao lado dos filhos que havia instigado a se matarem. Era demais para sua mente simples processar.
Lindolfo continuou examinando os restos mortais. Havia algo mais que o incomodava. A posição dos esqueletos dos homens sugeria que eles não haviam sido simplesmente jogados na cova, tinham sido arrastados e alguns indícios mostravam que ela os havia tentado organizar dispostos lado a lado, como se Leopoldina tivesse querido que ficassem juntos mesmo na morte. “Ela os amava”, murmurou Lindolfo.
Mesmo depois de instigá-los a se matarem, ela ainda os amava. Era o amor mais doent destrutivo que ele já havia presenciado. Um amor que havia destruído uma família inteira e deixado apenas ossos branqueados como testemunho de sua existência. Lindolfo cobriu novamente a cova com terra. Alguns segredos eram pesados demais para serem revelados ao mundo, mas ele sabia que nunca conseguiria esquecer o que havia visto naquele buraco maldito.
A verdade sobre os gois estava finalmente descoberta e era mais terrível do que qualquer um poderia imaginar. Coronel Lindolfo passou três noites sem dormir depois de descobrir os esqueletos. Sua mente trabalhava incansavelmente, tentando reconstruir os últimos dias da família Gois. Cada detalhe que havia coletado durante a investigação se encaixava como peças de um quebra-cabeças macabro.
Na quarta noite, ele finalmente conseguiu montar o quadro completo daqueles últimos momentos de horror. Tudo começou quando Leopoldina descobriu que estava grávida novamente. Aos 52 anos, depois de 15 anos mantendo relações com os três filhos, seu corpo ainda era capaz de gerar vida. Mas de quem era aquela criança? A dúvida a consumia como fogo.
Durante semanas, ela observou os três homens que chamava de maridos, tentando descobrir qual deles havia plantado aquela semente em seu ventre. Estevão, o mais velho, sempre fora o mais possessivo. Desde a morte do pai, ele se considerava o verdadeiro dono da casa e da mãe. Dormia com ela quatro noites por semana, reclamando quando tinha que dividir a cama com os irmãos. Policarpo era o mais carinhoso.
Tratava Leopoldina como uma deusa, adorando cada centímetro de seu corpo como se fosse sagrado. Escrevia cartas de amor todos os dias, declarando que ela era sua razão de viver. Venâncio, o caçula, era o mais ardente. Jovem e vigoroso, procurava a mãe com uma fome insaciável.
Suas noites de amor eram as mais intensas, deixando Leopoldina exausta e satisfeita. Qual deles havia conseguido engravidá-la? A pergunta torturava Leopoldina dia e noite. Ela precisava saber, precisava ter certeza de quem era o pai verdadeiro de seu filho. Foi então que a ideia diabólica nasceu em sua mente corrompida.
Se os três disputavam seu amor com tanta paixão que lutassem por ele de verdade, que provassem sua devoção da única forma que importava. Com sangue, Leopoldina começou a plantar sementes de ciúme entre os filhos. Sussurrava no ouvido de Estevão que Policarpo a procurava mais vezes durante a noite. Contava para Policarpo que Venâncio falava mal dele pelas costas.
Dizia para Venâncio que os irmãos mais velhos planejavam expulsá-lo de casa. As tensões cresceram como uma tempestade se formando no horizonte. Os irmãos que antes viviam em harmonia doentia começaram a se olhar com desconfiança. Pequenas discussões se transformaram em brigas violentas. A casa, que antes era um ninho de amor proibido, se tornou um campo de batalha. Leopoldina observava tudo com satisfação perversa.
Sua barriga crescia a cada semana e com ela crescia também sua necessidade de saber a verdade. Foi numa noite de lua nova de setembro que ela finalmente revelou seu plano. Chamou os três filhos para a sala principal, mandou que dispusessem as quatro cadeiras em círculo, como faziam nas noites especiais quando planejavam suas orgias familiares. Mas desta vez seria diferente.
Meus queridos maridos disse ela, a voz doce como mel envenenado. Chegou a hora de resolvermos nossa situação. Os três homens a olhavam com adoração, sem suspeitar do que estava por vir. Estou carregando um filho de um de vocês. Preciso saber quem é o pai verdadeiro. Estevão se levantou imediatamente. É meu filho, mãe. Tenho certeza. Policarpo balançou a cabeça.
Não pode ser. O filho é meu. Sinto isso no coração. Venâncio. Ru com desprezo. Vocês dois são velhos e fracos. O filho só pode ser meu. Leopoldina sorriu satisfeita com a reação dos filhos. Já que não conseguem chegar a um acordo, vamos resolver isso de outra forma. Ela se levantou e caminhou até o centro do círculo. Vocês vão lutar.
vão lutar até que apenas um reste vivo. O vencedor será o pai do meu filho. O vencedor será meu único marido daqui para frente. Os três homens a olhavam em choque. Mãe, você não pode estar falando sério disse Estevan. Estou falando muito sério. Se realmente me amam, como dizem, vão provar isso lutando por mim. Leopoldina apontou para a mesa da cozinha, onde havia deixado três facas de açogueiro.
Peguem suas armas, que o mais forte vença. O que aconteceu a seguir foi uma carnificina que manchou para sempre aquela casa. Stevão pegou a primeira faca, seus olhos brilhando com uma mistura de amor e loucura. Policarpo hesitou, mas acabou pegando a segunda arma. Venâncio agarrou a terceira faca com determinação.
Leopoldina sentou-se em sua cadeira, as mãos acariciando a barriga. grávida e assistiu enquanto os três homens que havia criado e corrompido se preparavam para se destruírem mutuamente. A luta começou devagar. Nenhum dos irmãos queria realmente ferir os outros, mas Leopoldina os incitava com palavras venenosas.
Covarde gritava quando um deles hesitava. Se não tem coragem de lutar por mim, então não me merece. Gradualmente, a violência escalou. Estevão atacou primeiro, cortando o braço de Policarpo. Venâncio, revidou, cravando sua faca nas costas do irmão mais velho. Policarpo, sangrando e desesperado, golpeou Venâncio no peito. O sangue começou a se espalhar pelo chão de terra batida da sala.
Leopoldina assistia a tudo com os olhos brilhando de excitação doentia. via seus filhos maridos se matando por ela, e aquilo a enchia de um prazer perverso que nunca havia experimentado antes. A luta durou quase uma hora. Os três homens se feriram mutuamente, até que não conseguiam mais ficar de pé. Caíram no chão encharcado de sangue, agonizando, chamando pelo nome da mãe esposa, que os havia condenado à morte.
Leopoldina permaneceu sentada em sua cadeira até o último gemido se calar. Então, lentamente se levantou e caminhou entre os corpos dos filhos mortos. Nenhum havia vencido, todos haviam perdido. E ela, ela havia perdido tudo. Leopoldina ficou três dias sentada naquela cadeira, cercada pelos corpos dos filhos mortos. Não chorava, não gritava, apenas observava o sangue secar no chão de terra batida, tentando entender o que havia feito.

A realidade da situação demorou para penetrar em sua mente corrompida. Os três homens, que eram sua razão de viver, jaziam mortos a seus pés, mortos por sua causa, mortos por sua loucura. No quarto dia, a fome a obrigou a se levantar. caminhou pela casa como um fantasma, evitando olhar para a sala principal, onde os corpos começavam a exalar o cheiro doce e nauseiante da decomposição.
Tentou comer, mas a comida tinha gosto de cinzas. Tentou beber água, mas ela descia pela garganta como vidro moído. Seu corpo rejeitava tudo, como se soubesse que não merecia mais viver. Foi então que as dores começaram, dores no ventre, dores que cortavam como facas, lembrando-a constantemente da criança que carregava, o filho de um dos homens mortos, o filho que nunca saberia quem era seu pai verdadeiro.
Leopoldina entendeu que precisava fazer algo com os corpos antes que alguém viesse procurar pela família. Não podia deixar que descobrissem a verdade sobre o que havia acontecido naquela casa. Com uma força que não sabia de onde vinha, mas impulsionada pela urgência do desespero e da loucura, ela começou a arrastar os corpos para fora da casa.
Primeiro Estevão, depois Policarpo, por último Venâncio. Cada movimento era uma tortura, mas ela persistiu. Arrastou-os até os fundos da casa, no mesmo local onde, anos depois Benedito tentaria abrir um poço. Ali, com uma pavelha e as próprias mãos que sangravam e quebravam as unhas, ela conseguiu cobrir os corpos superficialmente, com terra solta, pedras e galhos secos, num esforço desesperado para ocultar a cena. As semanas seguintes foram um pesadelo de solidão e loucura.
Leopoldina vagava pela casa vazia, conversando com fantasmas, preparando comida para homens mortos, arrumando camas que nunca mais seriam ocupadas. Sua barriga continuava crescendo, lembrando-a constantemente do erro terrível que havia cometido. A criança se mexia dentro dela, inocente e alheia à tragédia que a cercava.
Foi numa noite de outubro que as dores do parto começaram. Dores que rasgavam seu corpo como garras de demônio, punindo-a pelos pecados que havia cometido. Leopoldina pariu sozinha no mesmo quarto onde havia concebido aquela criança com um dos filhos mortos.
Pariu na escuridão, sem ajuda, sem conforto, sem esperança. A criança nasceu morta, um menino pequeno e azul, que nunca respirou, nunca chorou, nunca abriu os olhos para ver o mundo corrompido em que havia sido concebido. Leopoldina segurou o filho morto contra o peito e finalmente chorou. Chorou por tudo que havia perdido. Chorou pela família que havia destruído. Chorou pela loucura que havia consumido sua alma.
Enterrou a criança numa cova pequena que conseguiu cavar com as próprias mãos ao lado dos filhos que havia tentado esconder. Agora, todos estavam juntos na morte, unidos pelo sangue e pelo pecado que os havia separado em vida. Depois disso, Leopoldina simplesmente se deitou na terra revolvida ao lado dos filhos e do neto, fechou os olhos e esperou a morte chegar. A morte veio devagar, como uma velha amiga que não tinha pressa.
Veio na forma de fome, de sede, de frio. Nas noites de inverno. Veio carregada de remorço e arrependimento. Quando o coronel Lindolfo descobriu os esqueletos meses depois, decidiu que alguns segredos eram pesados demais para serem revelados. Oficialmente, a família Gois havia desaparecido em circunstâncias misteriosas.
Os corpos foram transferidos para o cemitério de picos e enterrados como vítimas de bandoleiros. Lindolfo queimou todas as cartas encontradas na casa. Queimou as evidências do amor proibido que havia destruído uma família inteira. Algumas verdades eram escuras demais para a luz do dia, mas ele nunca conseguiu esquecer o que havia visto naquela cova maldita. Nunca conseguiu apagar de sua mente a imagem dos cinco esqueletos abraçados na morte.
Unidos pela tragédia que os havia separado em vida, a fazenda dos Gois foi abandonada. Ninguém quis comprá-la, mesmo sendo vendida por um preço muito baixo. As pessoas da região evitavam passar perto daquela propriedade, como se pudessem sentir o peso dos pecados que haviam sido cometidos ali. Anos se passaram, décadas, a casa de Taipa desmoronou lentamente, devorada pelo tempo e pelo mato, mas as histórias permaneceram.
sussurradas de geração em geração, como um aviso sobre os perigos do amor que ultrapassa os limites da natureza. Hoje, mais de 160 anos depois, as ruínas da fazenda dos Gois ainda existem na região de Picos. Os moradores locais contam que à noite ainda se ouvem vozes vindas daquelas pedras antigas. Vozes de uma mulher chamando pelos filhos que perdeu.
Vozes de homens respondendo a um amor que os destruiu. Dizem que Leopoldina ainda vaga por aquelas terras áridas, carregando nos braços o filho que nasceu morto, procurando pelos três homens que amou de forma errada e perdeu para sempre. Talvez seja apenas o vento passando pelas pedras.
Talvez seja a imaginação de pessoas simples tentando dar sentido a uma tragédia que desafia a compreensão humana. Ou talvez alguns pecados sejam grandes demais para serem perdoados, mesmo pela morte. A história dos irmãos Gois nos ensina que o amor, quando corrompido pela luxúria e pelo egoísmo, pode se tornar a força mais destrutiva do mundo.
nos ensina que alguns limites existem para proteger a humanidade de si mesma e nos ensina que no sertão árido do Piauí, onde o sol castiga sem piedade e a vida é dura como pedra, alguns segredos permanecem enterrados para sempre, guardados pela terra que testemunhou horrores que a mente humana prefere esquecer.
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