A Maldição de Sansão: O Escravo Gigante de 2,20m Que Quebrou a Coluna de 9 Feitores Antes dos 25

No coração do Brasil escravocrata de 1840, nas profundezas do recôncavo baiano, nasceu uma lenda que faria senhores de engenho tremerem e escravos sussurrarem esperança. Sansão não era apenas um homem, era uma força da natureza aprisionada em correntes de ferro.

Com 2,20 m de altura e músculos capazes de quebrar madeira com as mãos nuas, ele se tornaria o pesadelo de nove feitores antes de completar 25 anos, nove colunas vertebrais partidas, nove homens aleijados ou mortos. Esta não é uma história de vingança, é um registro brutal da resistência humana levada ao limite absoluto. Esta é uma das histórias mais perturbadoras e reais da escravidão no Brasil.

Se você quer conhecer a verdade que os livros escolares não contam, inscreva-se no canal agora e ative o sininho. Prepare-se, porque não há volta depois que você conhecer Sansão. Fazenda Santa Cruz, Recôncavo Baiano. Madrugada de 15 de março de 1840. O ar estava pesado com cheiro de cana queimada e suor humano na cenzala, aquele barracão de madeira podre, onde os escravos eram amontoados como gado, uma jovem de 17 anos chamada Benedita estava em trabalho de parto.

Sozinha, sem parteira, sem ajuda médica, sem compaixão. O dono da fazenda, coronel Joaquim da Fonseca Machado, havia deixado claro: escravos nasciam e morriam sem custos adicionais. Era economia rural, planejamento de safra, gestão de propriedade. Benedita era filha de africanos trazidos à força nas últimas levas do tráfico atlântico. Ela nunca conheceu liberdade, nasceu escrava, viveu escrava e naquela noite, enquanto seu corpo se rasgava para trazer outra vida ao mundo, sabia que seu filho seria escravo também.

O parto durou 8 horas. Ela mordeu um pedaço de madeira para não gritar. Gritos incomodavam os senhores, escravos que incomodavam apanhavam. Quando finalmente o bebê emergiu, caindo sobre a terra batida da cenzala, as mulheres mais velhas que assistiam em silêncio ficaram paralisadas. A criança era monstruosa, não no sentido de deformidade, mas de proporções.

Pesava quase 5,5 kg, mídia 68 cm, tamanho de uma criança de 6 meses. Seus membros eram grossos, suas mãos já cobriam a palma de Benedita. Uma das velhas escravas, tia Joaquina, pegou o bebê nos braços e sussurrou em ourubá antigo. Este é marcado pelos deuses. Outra cuspiu no chão e fez sinal da cruz. Este é amaldiçoado.

Benedita apenas chorou, segurando o filho contra o peito nu, sentindo peso impossível daquela criança que parecia carregar o destino nas costas. Vicente Cardoso era o feitor mor da fazenda Santa Cruz havia 23 anos. Português de Lisboa, tinha 52 anos, rosto marcado pela varíula, três dedos a menos na mão esquerda, perdidos em uma briga de taverna e uma reputação construída sobre sangue e terror.

Ele não era apenas cruel, era metodicamente brutal. Conhecia exatamente quantas chibatadas um homem suportava antes de desmaiar, quantos dias um escravo podia trabalhar sem água antes de colapsar, qual ângulo do chicote abria a carne mais profundamente. Quando soube do nascimento do bebê gigante, Vicente desceu até a Cenzala.

Não por curiosidade, mas por avaliação comercial. Ele examinou a criança como um fazendeiro examina um bezerro. Abriu sua boca para ver os dentes inexistentes, apalpou seus membros, pesou no braço, virou-se para Benedita e disse com frieza calculada: “Este vai valer ouro, mas se você deixá-lo morrer, eu tiro o prejuízo da sua pele”.

Benedita abaixou a cabeça. Não havia resposta possível. Vicente cuspiu no chão e saiu, já calculando quantos anos levaria para aquela criança estar apta ao trabalho pesado. A ordem foi clara. Benedita tinha 10 dias para se recuperar. Era generosidade rara. Normalmente, escravas voltavam ao Eito três dias após o parto, mas Vicente não era tolo. Um investimento daquele tamanho precisava sobreviver.

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No sétimo dia, porém, a ordem mudou. A safra estava atrasada. Todos os braços eram necessários. Benedita foi arrastada de volta ao canavial com bebê amarrado às costas com panos velhos. Ela cortava a cana sob sol de 40 graus enquanto Sansão, nome que as escravas já haviam dado ao menino, em referência ao gigante bíblico, mamava sangue misturado ao leite, porque as costas de sua mãe sangravam dos golpes de chicote que Vicente distribuía para estimular produtividade.

Os primeiros anos de sanção foram uma anomalia médica que desafiava qualquer conhecimento da época. Aos 2 anos, ele tinha o tamanho de uma criança de cinco. Aos quatro, era maior que meninos de 10. Aos 6 anos, media 1,40 m e pesava 50 kg de pura musculatura infantil. Seu crescimento não era apenas vertical, era uma explosão de massa corporal que consumia tudo que ele comia e ainda deixava seu corpo gritando por mais. A alimentação na cenzala era pensada para manter escravos vivos, não saudáveis.

Farinha de mandioca, feijão com bichos, sobras de carne estragada, água suja. Para uma criança normal era subnutrição crônica. Para Sansão era tortura diária. Ele tinha fome constante, devastadora, incontrolável. Comia cascas de árvores, mastigava raízes arrancadas do chão, caçava insetos, ratos, qualquer coisa com proteína. As outras crianças escravas tinham medo dele.

Viam aquele menino gigante devorando coisas que nem cachorros comiam e pensavam que ele era possuído. As dores do crescimento eram insuportáveis. Seus ossos se expandiam tão rapidamente que rasgavam músculos. Suas articulações inchavam todas as noites. Ele acordava gritando, suando, mordendo panos para não despertar a ira dos feitores.

Benedita tentava consolá-lo, mas o que uma mãe escrava podia fazer? Não havia remédios, não havia médicos, apenas dor e a certeza de que aquilo nunca terminaria. Tia Joaquina preparava chás de ervas que mal aliviavam o sofrimento. Ela dizia, Sansão que sua dor tinha propósito, que os orixás o estavam preparando para algo maior. Sansão, com 6 anos de idade, olhava para ela com olhos vazios e perguntava: “Para quê? Para morrer no eiito como todo mundo.

Sansão tinha 7 anos quando foi colocado para trabalhar oficialmente. Era lei não escrita nas fazendas. Criança que conseguia segurar ferramenta trabalhava. Ele foi levado ao curral para começar com tarefas leves, limpar estrumi, alimentar animais, carregar água. Mas Vicente Cardoso viu nele algo mais. Viu força, viu potencial, viu lucro.

No terceiro dia, Vicente ordenou que Sansão carregasse um saco de 50 kg de milho até o armazém. Eram 200 m de distância. Para um adulto era trabalho pesado. Para uma criança de 7 anos, mesmo uma criança do tamanho de Sansão era impossível. Sansão tentou, colocou o saco nos ombros, deu três passos e caiu. Vicente não disse nada, apenas esperou.

Sansão se levantou, carregou novamente, caminhou mais cinco passos, caiu. Vicente começou a contar em voz alta. Quando Sansão caiu pela quinta vez, o chicote veio, três golpes nas costas nuas. Sansão não chorou, levantou, carregou o saco e cambaleando, sangrando, terminou o trajeto. Vicente sorriu.

Ele havia quebrado homens adultos com menos. Aquele menino era diferente. Nos dias seguintes, os sacos ficaram mais pesados. 60 kg, 70, 80. Sansão caía menos a cada dia. Seu corpo se adaptava com velocidade assustadora. Aos 9 anos, ele carregava 100 kg sem cambalear. Aos 10, carregava mais peso que homens de 30. Vicente exibia-o para outros fazendeiros, como quem exibe cavalo de raça.

“Olhem só o que tenho”, ele dizia com orgulho proprietário. “Um negro que vale 10”. E Sansão em silêncio acumulava ódio. Tudo tem limite. Até a obediência de uma criança escravizada tem ponto de ruptura. Para Sansão, esse momento chegou aos 11 anos, em uma tarde de novembro de 1851, quando o sol parecia derreter a terra e o ar era tão quente que queimava os pulmões. Sansão estava no canavial cortando cana junto com os adultos.

Ele já media 1,60 m. tinha músculos definidos como os de um homem feito e trabalhava em ritmo que envergonhava escravos experientes. Mas naquele dia algo quebrou. Não foi o corpo, foi a mente. Ele simplesmente parou, largou o facão, ficou imóvel, olhando para o horizonte, como se pudesse ver além das plantações, além da fazenda, além daquela vida.

Vicente Cardoso estava a 20 m, viu a parada, sentiu a afronta, aproximou-se com o chicote já desenrolado. Volta ao trabalho, moleque. Sansão não se moveu, não respondeu, apenas continuou olhando para o nada. Vicente golpeou suas costas uma vez, duas, três, cinco, 10 vezes. A pele abriu, o sangue escorreu, mas Sansão não gritou.

Não correu, não obedeceu, apenas virou a cabeça lentamente e encarou Vicente com olhos que pareciam arder em chamas invisíveis. Vicente Cardoso, homem que havia chicoteado centenas de escravos, que havia visto homens morrerem sob seu chicote sem sentir remorço, recuou. Havia algo naquele olhar que não era humano. Era fúria concentrada de um animal selvagem prestes a atacar.

Era aviso de que a próxima chibatada seria a última. Vicente cuspiu no chão, xingou. Mas não golpeou novamente. Naquela noite, Sansão foi acorrentado pela primeira vez. Grilhões de ferro nos tornozelos, correntes tão pesadas que um homem adulto mal conseguia andar. Sansão as arrastou como se fossem feitas de palha. A cenzala inteira testemunhou.

Algo havia despertado naquele menino. Entre os 11 e os 17 anos, Sansão passou por uma transformação que médicos da época chamariam de impossível. Ele crescia 5 cm por ano, velocidade três vezes superior ao normal. Mas não era apenas altura, era massa muscular, densidade óssea, força bruta que parecia desafiar as leis da biologia humana.

Aos 13 anos, Sansão media 1,75 m. Aos 15, ultrapassou 1,95 m. Aos 17, atingiu 2,10 m. E aos 19 anos, sua altura final se estabeleceu 2,20 m de pura potência física. Seus ombros mediam 95 cm de largura. Seus braços eram mais grossos que as pernas de homens adultos. Suas mãos cobriam completamente um rosto humano.

Seu pescoço era uma coluna de músculo capaz de suportar peso que quebraria outros homens. Cada passo que dava fazia o chão tremer. Quando ele respirava fundo, seu peito se expandia como fleiro. As pessoas que o viam pela primeira vez ficavam paralisadas. Não era apenas o tamanho, era a proporção.

Sansão não tinha aparência deformada de quem sofria de gigantismo patológico. Seu rosto era normal, humano, bonito, até. Tinha os traços de sua mãe Benedita, olhos fundos e expressivos, nariz largo, lábios cheios. Mas quando se levantava completamente, quando ficava ereto e mostrava sua estatura completa, as pessoas sentiam medo primitivo.

Era a mesma sensação de estar diante de um leão, consciência instintiva de estar na presença de um predador superior. A força de sanção não era apenas impressionante, era aterrorizante. Existem registros documentados, anotações de fazendeiros e relatos de escravos que sobreviveram àquela época, descrevendo feitos que parecem exagerados, mas foram testemunhados por dezenas de pessoas.

Aos 15 anos, Sansão quebrou correntes que eram usadas para prender bois de mais de 500 kg. Simplesmente puxou até o metal ceder. Aos 16, levantou uma bigorna de ferreiro, objeto de 150 kg, com uma mão como se fosse saco de farinha. Aos 18, carregou sozinho um tronco de madeira que normalmente exigia seis homens.

Testemunhas relatam que ele partiu uma tábua de madeira maciça de 5 cm de espessura ao meio, usando apenas as mãos, como se estivesse rasgando papel. Mas a demonstração mais perturbadora de sua força aconteceu quando ele tinha 19 anos. Um boi de trabalho, animal de mais de 700 kg, ficou preso em uma vala durante uma tempestade. Oito homens tentaram tirá-lo usando cordas e alavancas. Falharam. Vicente ordenou que Sansão tentasse. Ele desceu até a vala.

Posicionou-se atrás do animal, colocou as mãos sob sua barriga e simplesmente levantou. O boi foi erguido da vala com as quatro patas fora do chão. Homens que viram aquilo ficaram em silêncio absoluto. Não era força humana, era outra coisa. Mas todo poder tem custo.

O corpo de Sansão, apesar de sua força monstruosa, estava sendo destruído por dentro. Aos 20 anos, ele já acumulava lesões que a lei ariam homens normais. Seus joelhos inchavam todas as noites. O peso de seu próprio corpo era castigo constante. Suas costas, cobertas de cicatrizes de chicote sobre chicote, formavam um mapa grotesco de dor acumulada. Seus pés sangravam dentro das botas que o coronel era obrigado a mandar fazer sob medida, porque nenhum calçado comum servia.

A dor era companheira constante. Dor nos ossos que cresceram rápido demais, dor nas articulações que sustentavam peso sobre humano, dor nas costas flageladas por anos de chicote, dor na alma de uma vida inteira de humilhação. Sansão nunca reclamava, não pedia remédios, não pedia descanso, apenas trabalhava, comia, dormia e trabalhava novamente.

máquina de carne e osso, tratado como equipamento agrícola que precisava funcionar até quebrar. Tia Joaquina, agora com mais de 60 anos, era a única que tentava cuidar dele. Ela preparava um guuentos de ervas para suas feridas, fazia chás para aliviar a dor. Rezava em Orubá, pedindo aos orixás que protegessem aquele menino que havia se tornado gigante. Sansão aceitava os cuidados em silêncio. Uma vez, tia Joaquina perguntou se a dor era muito forte.

Ele respondeu: “A dor do corpo eu aguento. É a dor de existir que me mata.” Sansão tinha 13 anos quando sua mãe morreu. Benedita, que nunca teve saúde forte, que trabalhou até três dias antes de Sansão nascer e voltou ao trabalho sete dias depois, que viveu toda sua vida carregando peso maior que seu corpo suportava, finalmente sucumbiu. Tuberculose.

A doença que matava escravos aos montes porque viviamados em censala sem ventilação. Comiam mal. trabalhavam até a exaustão. Ela morreu na cenzala à noite, torcindo sangue. Sansão estava ao lado dela, segurando sua mão, que parecia de criança perto da dele. Benedita tentou falar, mas só saía sangue de sua boca. Ela olhou para o filho, aquele gigante de 13 anos que ela havia parido sozinha na terra batida e tentou sorrir.

Sansão não chorou, não gritou, apenas segurou a mão dela até sentir o último aperto, até sentir o corpo ficar frio e rígido. No dia seguinte, Benedita foi enterrada em uma cova rasa nos fundos da fazenda, onde todos os escravos eram jogados, sem caixão, sem padre, sem lápide, apenas corpo enrolado em pano velho e coberto de terra. Sansão não foi autorizado a ir ao enterro, tinha trabalho a fazer.

Vicente Cardoso foi claro: “Negra morta não traz lucro. Você continua vivo e vai trabalhar. Naquela noite, Sansão quebrou três ferramentas com as mãos nuas. Vicente viu, mas não disse nada. Havia limites até para sua crueldade. Ou talvez fosse medo do que aquele menino gigante poderia fazer se fosse pressionado além da conta.

O coronel Joaquim da Fonseca Machado era homem de negócios. Antes de tudo, ele via Sansão não como ser humano, mas como ativo financeiro de valor extraordinário. Em 1857, quando Sansão tinha 17 anos, comerciantes de escravos vindos de Salvador ofereceram 15 contos de réis por ele, valor equivalente a 15 escravos adultos em condições normais de trabalho. O coronel recusou. Senhores de engenho vizinhos ofereceram mais.

Recusado. Até representantes de circos europeus que viajavam pelo Brasil buscando curiosidades humanas para exibir na Europa, ofereceram fortunas, todos recusados. Sansão valia mais trabalhando. Ele fazia em horas o que uma equipe de 10 homens levava dias para completar. Construção de açudes, derrubada de mata fechada, remoção de pedras gigantescas, transporte de carga impossível. Era força de trabalho multiplicada, investimento que se pagava todos os meses.

O coronel calculava em 5 anos, sanção já havia gerado lucro equivalente a 30 escravos. Em 10 anos seria 50. Por que vender? Mas havia outro motivo para não vender. Controle. Sansão era perigoso. O coronel sabia disso. Vicente sabia disso. Qualquer um com olhos via. Um escravo com aquela força, aquele tamanho, aquele olhar de ódio contido, era ameaça existencial ao sistema. Vendê-lo seria passar o problema para outro.

Mantê-lo era controlar a ameaça. E controlar sanção exigia vigilância constante, grilhões permanentes, isolamento social. Ele comia sozinho, dormia afastado dos outros escravos, trabalhava sem companhia, era prisioneiro dentro da prisão, escravo vigiado entre escravos. Vicente Cardoso odiava Sansão.

Não era apenas antipatia profissional de feitor por escravo rebelde. Era ódio visceral, primitivo, existencial. Vicente via em sanção tudo que temia. Um negro que não se curvava, que não implorava, que olhava brancos nos olhos sem baixar a cabeça. Era afronta a ordem natural das coisas, pelo menos a ordem que Vicente acreditava ser natural. Desde o incidente quando Sansão tinha 11 anos, aquela recusa silenciosa que fez Vicente recuar pela primeira vez na vida, o feitor havia transformado a existência do menino em experimento de crueldade. Não era apenas trabalho pesado, era

tortura planejada, metódica, científica. Vicente estudava sanção como entomologista estuda inseto, identificando vulnerabilidades, testando limites, procurando ponto de quebra. Ele começou com privação. Impedia que Sansão bebesse água durante horas, mesmo sob sol escaldante. Quando Sansão finalmente recebia permissão para beber, Vicente cronometrava 10 segundos.

Sansão bebia desesperadamente e Vicente puxava o balde antes que pudesse saciar a sede. Depois vinham as refeições. Vicente colocava comida na frente de Sansão e ordenava que esperasse uma hora, duas horas. Quando finalmente permitia que comece, Sansão devorava com mãos trêmulas e Vicente chutava o prato, espalhando comida na terra. Conduão, cachorro. Sansão comia.

A tortura física era constante, chicotearmento em feridas abertas, sal esfregado nas costas sangrando, trabalho sobido disposição ao sol até desmaiar. Vicente testava quantas horas Sansão aguentava sem dormir, quantos quilos podia carregar antes de colapsar, quantas chibatadas precisavam antes que gritasse? Sansão nunca gritou.

Aguentava tudo em silêncio, com aqueles olhos vazios que pareciam estar olhando para outro mundo. E isso enlouquecia Vicente mais ainda. Era tarde de novembro de 1858. Sansão tinha 18 anos e media 2,15 m. estava carregando vigas de madeira para a construção de um novo barracão.

Trabalho que exigia três homens, mas que Vicente ordenava que ele fizesse sozinho. Sansão obedecia mecanicamente, carregando troncos de 100 kg nos ombros, caminhando 200 m, depositando, voltando para pegar outro. Vicente estava bêbado. Era sexta-feira e ele havia começado a beber cachaça desde o meio-dia. Alcoolismo era epidemia entre feitores.

Profissão que exigia brutalidade constante cobrava preço psicológico. Vicente bebia para dormir, para esquecer os gritos que ouvia mesmo quando estava sozinho, para silenciar algo dentro dele que talvez fosse consciência. Quando bêbado, ficava mais cruel ainda. Ele começou a insultar sanção. Primeiro foram xingamentos comuns, preguiçoso, animal, coisa. Depois ficou pessoal.

Vicente começou a falar de Benedita. Disse que ela era que abriu as pernas para qualquer um, que Sansão provavelmente era filho de estupro. Nenhum negro normal faz um monstro desses. Que Benedita havia morrido feliz porque finalmente se livrou da vergonha de ter parido uma aberração.

Sansão continuou trabalhando, continuou carregando vigas. Sua expressão não mudou. Vicente se aproximou, cuspiu no rosto de Sansão. A saliva escorreu pela bochecha do gigante, que apenas piscou e continuou andando. Vicente ficou furioso com a falta de reação, pegou o chicote e golpeou as costas nuas de Sansão, costas cobertas de cicatrizes antigas e feridas abertas recentes.

O couro do chicote rasgou pele, expondo o músculo. Sangue escorreu quente pelas costas de Sansão. Ele parou, largou a viga que carregava. virou-se lentamente para Vicente e Vicente soube naquele momento, vendo aqueles olhos que finalmente mostravam emoção, ódio puro, concentrado, assassino, Vicente Cardoso soube que ia morrer.

Sansão não correu, não gritou, apenas caminhou até Vicente com passos medidos, deliberados. Vicente tentou recuar, tentou erguer o chicote, tentou gritar por ajuda. Não houve tempo. Mãos gigantescas agarraram os ombros do feitor e Sansão ergueu do chão como se fosse criança. Vicente chutou o ar, tentou se soltar, mas era como tentar escapar de armadilha de ferro. Sansão olhou nos olhos de Vicente.

Pela primeira vez em 18 anos de vida, Sansão falou com o branco sem ser perguntado. Agora você vai sentir sua voz era grave. Rouca de anos falando apenas o necessário. Vicente tentou gritar, mas Sansão apertou. Apertou os ombros com força que fez ossos começarem a ceder. Vicente sentiu as clavículas se partirem primeiro.

Dor lancinante que fez sua visão escurecer. Depois vieram as costelas. Sansão aumentou a pressão, abraçando Vicente como se fosse dar um abraço, mas era braço que matava. O som foi nauseiante. Craque, craque, craque. Osso se partindo um após o outro. Então veio pior, a coluna vertebral. Sansão mudou a pegada, segurou Vicente pela nuca e pela cintura e torceu.

O som foi como galho seco quebrando, mas amplificado, visceral. Vicente soltou o grito que não parecia humano. Era uivo de animal sendo destroçado. E então silêncio. Suas pernas pararam de se mexer. Seus braços ficaram moles. Ele não morreu, mas algo pior aconteceu. Ficou consciente, respirando, mas completamente paralisado do peito para baixo.

Sansão largou Vicente no chão como se fosse lixo. O feitor caiu de bruços na terra, gemendo, babando, tentando mover pernas que não respondiam mais. Urina escorreu entre suas pernas. Bexiga havia se soltado com trauma. Sansão olhou para ele sem expressão, limpou as mãos na calça e voltou para pegar outra viga. Continuou trabalhando como se nada tivesse acontecido.

Ao redor, escravos que testemunharam ficaram paralisados. Ninguém gritou, ninguém correu buscar ajuda, apenas assistiram em silêncio, enquanto Vicente Cardoso, o homem mais temido da fazenda, se contorcia no chão como verme esmagado. Vicente Cardoso sobreviveu, mas jamais andou novamente. Ficou paralisado da cintura para baixo, incontinente, dependente de cuidados constantes.

O coronel mandou-o para um Casebre nos fundos da fazenda, onde ele viveu mais de 17 anos, deitado em uma cama imunda, sendo cuidado por uma escrava velha que ele havia torturado durante anos. Alguns dizem que ela cuspia na comida dele, outros dizem que ela o deixava sujo na própria urina durante dias. Vicente morreu em 1875. Descaras infectadas que apodreceram sua carne até expor os ossos. Ninguém foi ao seu enterro.

Para sanção, a punição foi brutal, mas não fatal. O coronel enfrentava dilema impossível. A lei exigia execução pública de escravo que agredisse branco, mas sanção valia fortuna. Matar investimento daquele tamanho seria desperdício inaceitável. A solução foi castigo exemplar sem morte. Sansão foi amarrado ao tronco na praça central da fazenda.

200 chibatadas foram ordenadas, número suficiente para matar maioria dos homens. Antônio Gomes, novo feitor contratado às pressas, aplicou pessoalmente cada golpe. Ele era mulato livre, homem de 30 anos, conhecido por sua frieza e eficiência. Começou às 6 da manhã. O couro do chicote rasgava a pele de sanção, expondo músculos, atingindo ossos.

Sangue escorria formando poças no chão. Às 9 da manhã, 50 chibatadas. Sansão não havia gritado uma vez. Ao meio-dia, sem chibatadas, Sansão estava consciente, olhos abertos, fixos no horizonte. Às 3 da tarde, 150 chiatadas. As costas de Sansão eram massa de carne viva, onde não se via mais pele intacta. Às 6 da noite, 200 chibatadas completas.

Sansão ainda estava consciente. Antônio Gomes, suando com braço doendo, olhou para aquilo e sussurrou: “Isso não é humano.” Após sobreviver as 200 chibatadas, Sansão foi isolado completamente. Construíram para ele um calaboço de pedra no fundo da propriedade, celas sem janelas, onde era acorrentado pelos tornozelos, pulsos e pescoço.

Recebia uma refeição por dia jogada no chão. Não via sol, não ouvia vozes, apenas escuridão e correntes, mas mesmo assim era forçado a trabalhar. Todas as manhãs, um feitoro libertava temporariamente para tarefas impossíveis: derrubar árvores sozinho, carregar rochas de centenas de quilos, abrir valas profundas. Eram trabalhos projetados para matá-lo de exaustão.

Sansão não morria, apenas ficava mais forte. Antônio Gomes era diferente de Vicente. Não era cruel por prazer, era metódico. Durante meses, aplicou tortura psicológica sistemática. Acordava sanção em horários aleatórios, impedindo sono regular. oferecia comida e tirava antes que terminasse. Ameaçava a tia Joaquina constantemente.

Sansão não reagia, trabalhava mecanicamente, existia em estado quase catatônico. Antônio acreditava que havia vencido. Aconteceu em manhã de março de 1859, após chuva pesada. O chão estava lamacento. Antônio fiscalizava sanção carregando pedras quando seu pé escorregou. Caiu de costas vulnerável. Seus olhos encontraram os de Sansão a 3 m de distância. Terror puro o atravessou.

Tentou gritar, mas não houve tempo. Sansão cruzou a distância em dois passos, agarrou pelos ombros, ergueu do chão e torceu. O som da coluna quebrando euou pela fazenda. Antônio caiu paralisado da cintura para baixo. Sansão voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Entre 1860 e 1862, três feitores tentaram quebrar sanção. Todos falharam brutalmente.

Manuel Ribeiro, ex-militar veterano, tratou Sansão como inimigo de guerra com privação extrema. Durou 4 meses até virar as costas. Sansão pegou pela nuca e cintura, dobrou seu corpo até a coluna se partir. Manuel nunca mais andou. Sebastião Costa, conhecido como sete dedos, tentou veneno, doses pequenas de arsênico na comida esperando enfraquecê-lo gradualmente.

O corpo de Sansão parecia imune. Quando Sebastião percebeu o fracasso, tentou fugir. Sansão o perseguiu pelos canaviais, o encontrou escondido e quebrou sua coluna com golpe de joelho nas costas. Sebastião agonizou três dias antes de morrer. Damião Pereira, o mais jovem com 25 anos, tentou ganhar confiança de Sansão.

Oferecia favores, falava como iguais. Sansão nunca respondeu. Um dia, Damião tocou seu ombro para chamar atenção. Foi o último movimento voluntário de sua vida. Sansão girou, segurou pelas têmporas e torceu a cabeça enquanto segurava o corpo. O som foi nauseiante. Damião sobreviveu tetraplégico, incapaz de falar, alimentado por tubo durante 10 anos.

Por trás da força monstruosa havia homem que nunca conheceu paz. Sansão tinha 22 anos e ainda não sabia o que era dormir sem correntes, comer até saciar ou sentir toque que não fosse golpe. Sua vida era ciclo mecânico, acordar no calaboço escuro, trabalhar 16 horas, ser acorrentado novamente, receber comida no chão, dormir, repetir, sem conversas, sem amigos, sem nada que tornasse existência suportável. Os outros escravos o temiam, viam-no como monstro, como amaldiçoado. Ninguém se aproximava.

Tia Joaquina era a única exceção. Conseguia visitá-lo ocasionalmente, levando pequenos pedaços de comida ou panos limpos. Nessas visitas, Sansão falava pouco, sempre baixo, mas falava. Perguntava sobre Benedita. Queria saber se ela havia sido feliz, se o amou, se se arrependeu de tê-lo parido. Tia Joaquina mentia. Dizia que Benedita era forte, morreu em paz, estava orgulhosa.

Sansão nunca acreditou, mas fingia que sim. Todas as noites, Sansão acordava gritando. Sonhava com Benedita sendo chicoteada enquanto ele assistia sem poder fazer nada. Sonhava com crianças morrendo de fome nas cenzalas. Sonhava com campos infinitos de cana onde corria, mas nunca escapava. E sonhava com liberdade, conceito que não conseguia visualizar.

Como seria não ter correntes? Como seria escolher quando comer, dormir, falar? Liberdade era tão irreal quanto voar. Uma vez tia Joaquina perguntou se ele desejava fugir. Sansão riu. Sou um rouco que ela nunca tinha ouvido. Fugir para onde? Sou negro, gigante marcado. Onde eu for, alguém vai me reconhecer. Vão me caçar com cães e me matar. Pelo menos aqui eu sei o que esperar.

Dor eu conheço, liberdade, eu nem sei o que é. Tia Joaquina chorou porque sabia que ele estava certo. Em 1863, o coronel contratou Francisco Dias, o feitor mais cruel da Bahia. Ele estudou sanção por semanas, identificou que dor física não afetava mais, mas memória sim. Francisco descobriu onde Benedita estava enterrada. Desenterrou o corpo e profanou os ossos na frente de Sansão. Cuspiu neles, pisoteou-os, quebrou-os.

Sansão não reagiu. Francisco queimou as roupas que Benedita deixou. Sansão continuou trabalhando. Francisco percebeu que precisava atacar algo vivo. Ordenou que tia Joaquina fosse amarrada ao tronco e começou a chicoteá-la. A velha de 65 anos gritava enquanto sangue escorria. Sansão ficou paralisado. Francisco apontou pistola para tia Joaquina. Mais um passo e atiro nela.

Após 30 golpes, Francisco se aproximou confiante de Sansão. Agora você me obedece ou ela apanha toda semana. Sansão simplesmente puxou as correntes até quebrarem. O metal se partiu como gravetos. Francisco atirou. Bala no ombro. atirou novamente, bala no peito. Sansão não parou, agarrou Francisco pelas costelas e apertou. As 12 costelas quebraram perfurando pulmões.

Francisco morreu afogado no próprio sangue, consciente até o fim. Foi a primeira vez que Sansão o matou imediatamente. Não foi acidente, foi execução. Com Francisco morto e Sansão livre das correntes, a fazenda entrou em pânico. Capatazes armados cercaram-no, mantendo distância. rifos apontados, mas ninguém atirava. Ele já tinha duas balas no corpo e continuava de pé. Sansão não atacou mais ninguém.

Caminhou até tia Joaquina, cortou as cordas com as mãos e a carregou para cenzá-la. Depois sentou-se em frente e esperou sangrando. Os capatazes enviaram mensageiro urgente para buscar o coronel. O coronel chegou ao entardecer com seis homens armados e um médico. Olhou para Francisco, destroçado no pátio e sentiu medo.

Depois olhou para Sansão sangrando e viu indiferença. Ele não parecia se importar se viveria ou morreria. “Você matou o meu feitor”, o coronel disse. Sansão respondeu baixo. Eu não tenho futuro. Nunca tive. O médico examinou os ferimentos. Ambas balas haviam atravessado uma perfurando o pulmão. Limpou com água ardente, calutterizou com ferro quente, enfaixou. Sansão não reagiu à dor.

Durante três dias, Sansão ficou sentado. Não comeu, não bebeu, apenas sentou sangrando enquanto seu corpo curava ferimentos que deveriam tê-lo matado. Tia Joaquina sobreviveu. As escravas cuidaram dela. No sexto dia, ela foi até Sansão. Você precisa comer. Morrer de fome não é vingança, é apenas morte lenta. Sansão virou para ela. Eu só quero que acabe. Ela segurou sua mão.

Ainda não acabou. Cada dia que você vive é derrota deles. No sétimo dia, Sansão comeu. Em setembro de 1864, o coronel foi sozinho ao calabouso, onde Sansão estava novamente acorrentado. Preciso conversar homem para homem. Minha fazenda está morrendo sem feitor, sem controle. Em um ano estarei falido.

Sansão perguntou: “E por que eu me importaria?” O coronel respondeu: “Porque se eu falir, todos serão vendidos separadamente. Tia Joaquina será vendida e morrerá no transporte. Você será vendido para alguém pior.” O coronel então ofereceu: “Eu quero que você seja meu feitor.” Sansão ficou em silêncio.

Finalmente disse: “Não, eu não vou me tornar o que eu odeio. Não vou chicotear meus irmãos por migalhas. Prefiro apodrecer aqui.” Virou as costas. A conversa terminou. João Batista era mulato livre de 38 anos, ex-escravo, tinha família ainda escrava e precisava de dinheiro para comprá-los. Quando o coronel ofereceu pagamento suficiente, não pôde recusar. João pensou que poderia se conectar com Sansão, falar de igual para igual. Foi até o calaboço.

Meu nome é João Batista. Eu já fui escravo como você. Sansão o ignorou. João tentou por quatro meses com abordagem gentil. Sansão nunca respondeu. Para ele, João era traidor, negro livre, vendendo outros negros. João ficou frustrado, começou a falar mais alto, dar ordens duras, ameaçar.

Finalmente, em julho de 1864, pegou o chicote. Você vai me respeitar. Tentei ser gentil, mas você é animal. chicoteou Sansão com raiva. Sansão não reagiu. Exausto, João sentou sob a árvore e cochilou apenas 15 minutos. Quando acordou, Sansão estava ao lado dele. João tentou pegar a pistola. Não houve tempo.

Sansão agarrou sua cabeça e torceu. João caiu tetraplégico e mudo. Viveu mais 10 anos completamente paralisado, incapaz de fazer qualquer coisa além de piscar. Nove feitores, oito aleijados, um morto. A fazenda Santa Cruz tornou-se conhecida em todo o Brasil como fazenda do gigante assassino. Jornais abolicionistas usavam Sansão como exemplo da brutalidade escravocrata. Conservadores usavam-no como prova de que negros eram selvagens.

Ambos estavam errados. Sansão não era símbolo. Era apenas homem quebrado que reagia da única forma que conhecia. O coronel não conseguia mais contratar feitores. Ofereceu fortunas, terras, participação nos lucros. Ninguém aceitava. A fazenda entrou em declínio. Sem feitor. A disciplina frouxava, produtividade caía.

O coronel, agora com 63 anos, via seu império ruir por causa de um único homem. Pensava em soluções desesperadas, vender a fazenda, matar sanção e assumir prejuízo, libertá-lo secretamente. Nenhuma opção era boa. Era 1864 e o Brasil estava na guerra do Paraguai.

O império precisava de soldados e recrutava escravos com promessa de liberdade após o conflito. O coronel ouviu que o exército pagava bem por escravos fortes. Pensou em sanção. Um gigante de 2,20 m seria soldado valioso ou morreria rapidamente em combate. Era solução perfeita, lucro imediato e fim do pesadelo. Enviou carta para oficiais descrevendo sanção sem mencionar seu histórico violento. Mas antes da visita dos oficiais, algo aconteceu.

Tia Joaquina morreu, simplesmente dormiu e não acordou. Tinha 67 anos, corpo esgotado. Quando contaram a sanção, ele pediu para ver o corpo. Levarão-no até a cenzala acorrentado com seis guardas. Tia Joaquina estava deitada limpa, expressão serena. Sansão ajoelhou ao lado dela e ficou horas em silêncio. Finalmente tocou seu rosto, mão gigantesca cobrindo face pequena e então quebrou. Pela primeira vez desde criança, chorou, soluços profundos que sacudiram seu corpo inteiro.

Chorou pela mãe que morreu jovem, pelo pai que nunca conheceu, por tia Joaquina, por si mesmo. As escravas velhas começaram canto funeral em Yorubá. Sansão se juntou, voz grave misturando-se as delas. Quando se levantou, sussurrou: “Agora eu não tenho mais nada”. E homem sem nada perder é o mais perigoso de todos.

Os oficiais do exército imperial chegaram em outubro de 1864. Dois capitães e um tenente vieram avaliar Sansão. O coronel os levou até o pátio, onde Sansão trabalhava carregando pedras de 200 kg. Quando viram, ficaram paralisados. Por Deus, isso é um homem, o tenente murmurou. Aproximaram-se cautelosos.

Você, negro, qual o seu nome? Sansão os ignorou. Quando oficial fala, responde. O capitão gritou. Sansão largou a pedra, virou e olhou com olhar vazio. O capitão recuou involuntariamente. O coronel ordenou demonstração de força. Sansão ergueu carroça carregada, quase meia tonelada acima da cabeça e caminhou 10 passos. Os oficiais ficaram boqueabertos.

Com 10 homens assim, poderíamos virar canhões paraguaios”, o capitão disse calculando. Pediram mais demonstrações. Sansão quebrou tábua grossa com mãos, levantou bigorna com uma mão, arrancou o poste fincado no chão. A cada demonstração, os militares ficavam mais entusiasmados. “Quanto você quer por ele?” O coronel deu preço absurdo. Os militares concordaram imediatamente.

Documentos foram preparados. Dinheiro mudou de mãos. Sansão foi oficialmente vendido ao exército imperial. Ele assistiu em silêncio, sem expressão. Para ele não fazia diferença. Escravo do coronel ou do imperador, ainda era escravo. Naquela última noite, Sansão não dormiu. Ficou pensando 24 anos de vida, todos naquele lugar.

Cada pedra, cada árvore era memória de dor, mas era o único lar que conhecia. Partir. Parecia libertação, mas ele sabia que apenas mudaria local do cativeiro. Pensou em fugir, poderia quebrar correntes, correr para mata. Mas para onde? Era gigante negro em país escravocrata. Seria caçado, encontrado, morto. Não havia fuga, nunca houve. De manhã vieram buscá-lo.

Trouxeram correntes novas, mais pesadas. algemaram pulsos, tornozelos, colocaram coleira de ferro no pescoço conectada à corda longa segurada por soldado a cavalo. Era equipamento para animal perigoso. Antes de partir, Sansão pediu visitar túmulo de tia Joaquina. Os oficiais riram: “Escravo não faz pedidos”. Mas o coronel permitiu.

Sansão ajoelhou na cova fresca. Eu vou embora. Não sei se volto, não sei se quero. Os oficiais puxaram a corda, forçando a levantar. Ele passou pela censala onde nasceu, pelo tronco onde foi chicoteado, pelo pátio onde quebrou nove colunas e atravessou o portão. A viagem até Salvador levou cinco dias. Sansão caminhava acorrentado, puxado por cavalo.

Pessoas paravam para olhar, apontavam, sussurravam. A noite era trancado em celeiros. No quinto dia, chegaram a Salvador. Sansão viu o mar pela primeira vez, extensão infinita de água azul encontrando céu no horizonte. Era beleza que nunca imaginou existir. Por momento, esqueceu as correntes e apenas olhou.

Anda, gigante, oficial, gritou. Sansão se virou do mar e seguiu, mas aquela imagem ficou gravada. Lembrete-te de que mundo era maior que sua jaula. O navio militar estava ancorado no porto. Embarcação velha com cheiro de mofo e desespero. Centenas de homens, maioria escravos, sendo embarcados.

Muitos choravam, outros rezavam, alguns tentavam fugir e eram capturados. Sansão foi colocado no porão com outros 50 homens. Espaço apertado, ar sufocante, escuridão quase completa. Foi acorrentado à viga de ferro. Sua altura fazia com que precisasse ficar agachado. Teto era baixo demais. Por três dias, ficou naquela posição enquanto o navio era carregado. No terceiro dia, antes do navio partir, um padre subiu ao porão para dar bênção.

Homem velho de cabelos brancos caminhou entre os acorrentados aspergindo água benta. Quando chegou a sanção, parou, olhou para o gigante agachado e perguntou suavemente: “Qual seu nome, filho?” Sansão, ele respondeu: O padre assentiu como juiz de Israel, o homem de força divina. Sansão riu sem humor.

Não há nada de divino em mim, padre, apenas força inútil. O padre colocou mão em seu ombro. Toda força tem propósito, filho. Mesmo que você ainda não veja. E o abençoou. Foi o último ato de gentileza que Sansão receberia. O navio partiu ao amanhecer. No quinto dia de viagem, tempestade monstruosa atingiu a embarcação. No porão, acorrentados e presos, os homens entraram em pânico.

A água entrava por rachaduras. O navio balançava violentamente. Gritos de terror enchiam o ar. Alguns rezavam, outros vomitavam, outros choravam, sabendo que morreriam afogados como ratos. Sansão permanecia calmo. Observou água entrando. Calculou o tempo até afundarem, talvez 30 minutos. Pensou que era forma apropriada de morrer.

Afogado em escuridão, acorrentado, sem dignidade. Fechou os olhos e esperou, mas morte não veio. Contra todas as probabilidades, o navio sobreviveu. Dos 50 homens no porão, 12 morreram afogados ou esmagados. Sansão estava vivo novamente. Sempre sobrevivia quando morte parecia certa. O navio ficou a deriva três dias antes que embarcação portuguesa o rebocasse até Vitória. Ali descobriram que os danos eram extensos.

Reparos levariam meses. Os recrutas seriam mantidos em prisão militar temporária. Sansão foi transferido para prisão. Edifício de pedra no centro da cidade. Cela pequena, mas tinha janela. Pela primeira vez em anos, podia haver céu durante dia, lua e estrelas à noite. Essa pequena liberdade era luxo que nunca imaginou apreciar.

Um dos guardas, homem negro livre chamado Tobias, às vezes conversava com ele. Contava sobre movimento abolicionista crescendo, sobre escravos fugindo protegidos por redes, sobre mudanças lentas, mas inexoráveis. “Vai chegar o dia em que não haverá mais escravos no Brasil”, Tobias dizia. Sansão não acreditava.

Talvez não amanhã, mas vai acontecer”, Tobias insistia. Em janeiro de 1865, Sansão simplesmente desapareceu. A versão oficial dizia que morreu de febre e foi enterrado em vala comum, mas rumores contraditórios corriam. Abolicionistas o libertaram e enviaram para Quilombo. Ele enlouqueceu, quebrou correntes e matou guardas antes de ser abatido. Comerciantes ilegais o roubaram.

Padre falsificou documentos declarando morto e o escondeu em mosteiro. A verdade se perdeu no tempo. Registros dizem morte, lendas dizem libertação. Sansão tornou-se fantasma. O que sabemos é que Sansão deixou marca. Na fazenda Santa Cruz, que faliu em 1872, sua história continuou sendo contada. Diziam que em noites escuras, quando o vento soprava forte, podiam ouvir som de correntes sendo quebradas.

Era sanção, ainda lutando, ainda resistindo. Nos registros históricos da Bahia existem menções a escravo gigante de força extraordinária, que aleijou múltiplos feitores. Abolicionistas usavam sua história como exemplo de resistência. Conservadores usavam como propaganda contra abolição.

Quando a abolição chegou em 1888, 23 anos após desaparecimento de Sansão, escravos mais velhos disseram que ele tinha razão. Morrer livre era melhor que viver escravizado. Se realmente morreu naquela prisão em 1865, pelo menos morreu sabendo que havia resistido, que nunca se curvou completamente, que quebrou nove colunas de homens que tentaram quebrá-lo primeiro.

A história de Sansão não é fábula, é pedaço doloroso da história brasileira. Milhões foram escravizados por quase quatro séculos. Cada um tinha história, nome, resistência. Alguns fugiam, outros preservavam cultura em segredo. Outros, como Sansão, resistiam com violência, porque era a única linguagem que opressores entendiam. Não podemos julgar homem que viveu em inferno inimaginável.

Podemos apenas testemunhar sua dor e garantir que histórias como a dele não sejam esquecidas. Sansão passou 24 anos vivo, embora chamar aquilo de vida seja generosidade. Sua força não foi bênção, foi maldição. No final, desapareceu em mistério, que talvez seja misericórdia. Esta foi a história de Sansão, o gigante acorrentado.

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