Os ases alemães zombavam do P-51 Mustang — até que mais de 200 deles apareceram sobre Berlim
Os ases da Luftwaffe costumavam rir do P-51 Mustang, chamando-o de um caça medíocre e sem importância. Mas em 6 de março de 1944, 209 Mustangs surgiram nos céus de Berlim — e o riso cessou para sempre. Esta não é apenas a história de um avião extraordinário, mas também de um problema mortal que custava milhares de vidas americanas e ameaçava toda a estratégia aérea aliada.
No final de 1943, a Oitava Força Aérea dos EUA, baseada na Inglaterra, sofria perdas catastróficas durante as missões de bombardeio diurno sobre o Reich. A doutrina do “bombardeio estratégico de precisão”, defendida pelo chamado “máfia dos bombardeiros”, dependia da ideia de destruir a capacidade industrial da Alemanha com ataques profundos e precisos usando o famoso visor Norden. Mas essa estratégia falhava por causa do “vazio da morte”: o trecho do voo em que os bombardeiros ficavam sem escolta.

Os B-17 Flying Fortress e B-24 Liberator eram máquinas robustas, armadas com metralhadoras .50 e tripuladas por jovens corajosos. Mas, embora voassem em formações densas para criar campos de fogo defensivo, os alemães conheciam bem essas táticas. Os escoltas americanos, o P-47 Thunderbolt e o P-38 Lightning, eram potentes, mas tinham alcance curto; precisavam retornar antes de entrar profundamente na Alemanha. Quando eles viravam para casa, os bombardeiros ficavam sozinhos diante de ataques concentrados de esquadrões alemães, muitas vezes mais de cem caças por onda, mergulhando de frente com canhões a disparar.
As perdas eram devastadoras. Durante a “Semana Negra”, em outubro de 1943, 60 bombardeiros foram abatidos em um único dia — 600 homens mortos. Uma missão completa de 25 voos virou praticamente impossível de sobreviver. O moral despencou. A guerra aérea estava sendo perdida não por falta de coragem, mas por falta de alcance.
O P-51 Mustang, nessa época, não era considerado a solução. Construído originalmente a pedido britânico, era equipado com o motor Allison V-1710 — excelente em baixa altitude, mas fraco em altitudes elevadas, onde os bombardeiros operavam. A 25.000 ou 30.000 pés, o Mustang simplesmente não conseguia competir com os Bf 109 ou Fw 190. Assim, a aeronave foi relegada a teatros secundários, como China-Birmânia-Índia e missões de ataque ao solo.
Tudo mudou quando pilotos e engenheiros britânicos tiveram uma ideia ousada: colocar o motor Rolls-Royce Merlin, o mesmo do Spitfire, dentro da fuselagem aerodinâmica do Mustang. O Merlin, com seu supercompressor de dois estágios, era perfeito para combate em alta altitude. A adaptação exigiu grandes modificações — novos suportes, novo sistema de refrigeração, redesenho estrutural — mas o resultado foi revolucionário. O XP-51B, equipado com o Merlin, tornou-se quase 100 mph mais rápido a 30.000 pés do que o modelo Allison. De repente, o Mustang transformou-se em um caça rápido, ágil e dominante em grande altitude.

Com tanques externos descartáveis e um enorme tanque de 85 galões atrás do cockpit, o novo P-51B ganhou um alcance sem precedentes, ultrapassando 850 milhas de raio de combate — finalmente capaz de escoltar bombardeiros até Berlim e voltar. O “vazio da morte” estava prestes a desaparecer.
No fim de 1943, os primeiros Mustangs chegaram à Europa. A inteligência alemã subestimou-os grosseiramente, achando tratar-se apenas do antigo modelo medíocre. Hermann Göring acreditava que o domínio alemão no ar continuaria intacto. Mas em 6 de março de 1944, quando os P-47 tiveram de voltar por falta de combustível, os alemães viram algo impossível: centenas de Mustangs ainda lá em cima, ao lado dos bombardeiros, subindo e prontos para lutar.
A doutrina americana também tinha mudado: sob a nova liderança de Jimmy Doolittle, os caças receberam ordem de “caçar o inimigo” em vez de apenas proteger os bombardeiros. O resultado foi uma carnificina: naquele dia, embora os americanos tenham perdido 69 bombardeiros, a Luftwaffe perdeu dezenas de seus melhores pilotos — recursos impossíveis de repor.
Em 1944, o P-51D aperfeiçoou o design com canopy bolha para visão total, seis metralhadoras .50 confiáveis e a mira giroscópica K-14, que calculava automaticamente o avanço do tiro. Ele se tornou o predador perfeito.
À medida que D-Day se aproximava, a Luftwaffe entrava em colapso. A falta de combustível e instrutores reduzia a formação dos novos pilotos alemães a meras 50 ou 60 horas de voo. Eles eram lançados ao combate contra pilotos americanos muito melhor treinados — e eram abatidos em massa. Os Mustangs, agora com controle quase absoluto do céu, destruíam aeroportos, aviões no solo, locomotivas e infraestrutura. Não havia mais refúgio para a Luftwaffe: se voassem, morriam; se ficassem no solo, morriam também.
No outono de 1944, a força aérea alemã estava quebrada. O general Adolf Galland, vendo P-51s patrulhando livremente sobre Berlim, reconheceu: “A guerra está perdida”. Ao final, os pilotos de Mustang destruíram quase 5.000 aeronaves inimigas em combate aéreo e mais de 4.000 no solo — números surpreendentes conquistados em apenas 18 meses.
O P-51 Mustang não venceu a guerra sozinho, mas tornou possível a campanha de bombardeio estratégico e quebrou a espinha dorsal da Luftwaffe. Ele provou que era possível criar um caça rápido, manobrável e com alcance extraordinário — algo que muitos engenheiros diziam ser impossível.
E tornou-se, para sempre, um símbolo de inovação, coragem e cooperação entre Estados Unidos e Reino Unido.
