Para manter o “sangue puro”, três irmãos engravidaram todas as mulheres da própria família. A descoberta policial naquele vale isolado revelou uma dinastia de aberrações genéticas e um segredo abominável enterrado sob a terra.

Nas profundezas isoladas da Floresta da Turíngia, longe de qualquer estrada comercial e cercado por pinheiros que pareciam engolir o céu, existia um lugar que poucos ousavam nomear. Os habitantes locais chamavam-no de “O Vale de Ferro” (Eisernes Tal), uma bacia sombria espremida entre duas paredes íngremes de granito, onde até mesmo o eco parecia morrer antes de nascer.

Neste recanto esquecido do mundo, no final do século XIX, começou uma história tão macabra que, gerações depois, ainda era sussurrada apenas com a proteção da luz do dia.

Tudo começou com Ezekiel Schäfer, um ex-pregador que via o mundo exterior como um poço de pecado, corrompido pelo comércio e pela mistura de povos. Para preservar o que ele chamava de “pureza de sangue”, Ezekiel arrastou sua família para o isolamento total. Quando ele morreu, seu filho Johann assumiu o comando, e a doutrina se tornou lei: o sangue da família era sagrado e jamais deveria ser diluído por estranhos.

Dessa linhagem distorcida, nasceram três irmãos: Elias, Otto e Martin, filhos de Johann com sua própria prima. Eles cresceram no silêncio do vale, gigantes de ombros largos e olhos vazios, governados por sua mãe, a severa Matilde Schäfer.

Durante décadas, o vale permaneceu um mistério. Mas na primavera de 1918, o silêncio foi quebrado.

Elisabeth Schäfer, uma garota de apenas 16 anos, surgiu da floresta perto de Schmiedefeld. Sua aparência era a de um espectro: pele pálida como cinzas, roupas em farrapos e um olhar que transcendia a loucura. Ela foi levada ao Comissário Heinrich Schwarz, um veterano de guerra endurecido, na cidade de Ilmenau.

O que Elisabeth contou, em fragmentos febris, gelou o sangue do Comissário. Ela falava de “irmãos”, de “altar”, de “sangue puro” e de crianças que “dormiam no chão”. Schwarz, um homem que vira o pior da humanidade nas trincheiras, percebeu que algo abominável ocorria naquele vale. O relatório médico confirmou abusos inomináveis, desnutrição e deformidades genéticas.

Numa manhã fria de outubro, Schwarz e três jovens policiais marcharam para o Vale de Ferro. A entrada era uma garganta estreita entre rochas, tão apertada que a luz do sol parecia hesitar em entrar. Ao cruzarem o limiar, o som da floresta cessou. Não havia pássaros, nem vento. Apenas um silêncio pesado, denso como água.

No centro do vale, encontraram a fazenda. Sem fumaça, sem vida aparente, exceto por quatro figuras paradas na varanda: os três irmãos imensos e a matriarca, Matilde.

— Heinrich Schwarz, Polícia Real — anunciou o comissário. — Estou aqui para investigar o desaparecimento de uma jovem.

Matilde sorriu, um esgar frio sem alegria. — O que acontece aqui é vontade de Deus. Nosso sangue é puro. O de vocês é corrompido.

Schwarz forçou a entrada. O interior da casa cheirava a gordura velha, fumaça e algo adocicado e podre. Páginas da Bíblia cobriam as paredes, rabiscadas com frases insanas: “A pureza é a lei”, “O sangue é sagrado”. Mas foi atrás da casa principal, seguindo um caminho quase invisível, que o verdadeiro horror foi revelado.

Escondida na vegetação, havia uma cabana decrépita. Lá dentro, encontraram Patrizia (irmã de Matilde) e Luise (sobrinha e filha dos irmãos), mantidas como gado reprodutor. E ao redor delas, nas sombras, crianças. Muitas crianças. Deformadas, rastejando, frutos de gerações de incesto.

— Quantas? — perguntou Schwarz, a voz falhando.

Patrizia apontou para um pedaço de terra fofa atrás da cabana. — As que não puderam viver. Ali.

Schwarz cavou com as próprias mãos. Em minutos, encontrou pequenos ossos envoltos em panos. O vale não era uma casa; era um cemitério.

A prisão foi efetuada, mas não sem resistência espiritual. Enquanto eram levados, os irmãos uivaram — não como homens, mas como bestas feridas. Matilde apenas olhou para Schwarz e profetizou com voz suave: — Você acha que pode julgar Deus? Ele vai encontrá-lo quando você dormir. O mundo vai queimar, e a culpa será sua.

No dia seguinte, quando Schwarz retornou com reforços para recolher provas e transferir os prisioneiros restantes, encontrou o vale envolto em fumaça negra.

A casa ardia. No meio das chamas, imóveis, estavam os três irmãos. Eles não gritavam, não tentavam fugir. Apenas olhavam para os intrusos enquanto a pele derretia e a estrutura desabava sobre eles. Matilde foi encontrada morta a alguns metros, de joelhos, com uma Bíblia aberta em Isaías: “E os impuros serão exterminados do meio do povo.”

Schwarz ordenou que não apagassem o fogo. “Deixe o vale fazer sua própria limpeza”, disse ele.

O julgamento dos sobreviventes em 1919 foi um espetáculo de horror que chocou a Alemanha, mas os principais culpados já eram cinzas. O caso foi encerrado, os arquivos arquivados sob o número 3783. Schwarz morreu anos depois, assombrado, com um crucifixo carbonizado do vale encontrado em suas mãos.

Mas o mal não morre com o fogo. Ele apenas muda de forma.

Nas décadas seguintes, o Vale de Ferro tornou-se um lugar maldito. Durante o regime nazista e depois na Alemanha Oriental (DDR), a área foi marcada nos mapas como “instabilidade geológica”, uma desculpa conveniente para manter as pessoas longe.

Mas as pessoas sempre são curiosas.

Em 1938, Hans Fritsche, um estudante de geologia, entrou no vale zombando das lendas. Seu diário, encontrado mais tarde, descrevia uma “densidade estranha” no ar e vozes sussurrando “Bleib” (Fique). Hans fugiu, mas morreu na guerra um ano depois, mentalmente perturbado.

Nos anos 70, durante a construção de uma estrada florestal, trabalhadores encontraram ossos infantis nas cinzas. Um operário, Peter Klose, jurou ouvir crianças cantando à noite. Ele abandonou o trabalho e nunca mais foi visto. O projeto foi cancelado.

O vale foi esquecido pela burocracia, transformando-se em um ponto branco nos mapas, uma cicatriz na floresta que a natureza se recusava a curar.

A virada do milênio trouxe novas tecnologias e, com elas, novas vítimas. Em 1999, satélites detectaram uma anomalia térmica no local: o solo mantinha uma temperatura constante de 9°C, mesmo no inverno rigoroso, como se um incêndio invisível ardesse eternamente no subsolo.

Em 2001, o fotógrafo Matthias Krüger foi encontrado morto em seu apartamento após visitar o local. Sua câmera desapareceu, mas ele deixou um bilhete: “Eles são puros.”

Mas foi em maio de 2012 que a lenda cobrou seu preço mais alto.

Lukas Reuter e três outros estudantes da Universidade de Jena, armados com ceticismo e equipamentos de gravação, decidiram documentar o local. O que eles deixaram para trás foi apenas um rastro de terror fragmentado.

As gravações recuperadas mostravam a descida à loucura. O GPS falhou. A bússola girava sem parar. E então, o nevoeiro. Não um nevoeiro comum, mas algo que brotava do chão. Na última gravação de áudio de Nina, uma das estudantes, ouve-se o choro dela e uma voz ao fundo, rítmica, infantil e inumana cantando: “Rein… rein… rein…” (Puro… puro… puro…).

Eles nunca foram encontrados. Apenas um pedaço de madeira carbonizado com o nome “Schäfer” foi descoberto onde o acampamento deveria estar.

A história parecia destinada a se tornar apenas mais uma lenda da internet, até a chegada de Klara Weiß. Historiadora e descendente de um dos policiais que acompanharam Schwarz em 1918, Klara buscava respostas acadêmicas.

Em outubro de 2014, ela entrou no vale. Seu diário, encontrado posteriormente em seu carro abandonado na estrada florestal, narrava uma mudança física no ambiente. “As árvores parecem respirar”, escreveu ela.

Ela encontrou as fundações da casa. Cavou com as mãos e achou um crucifixo quente ao toque, cheirando a enxofre. Sua última anotação foi rabiscada com força, rasgando o papel: “Eu ouço crianças. Elas cantam meu nome. Eu voltei para casa.”

Semanas depois, avistamentos começaram. Moradores locais relatavam ver uma luz pálida pulsando no vale. Um vídeo granulado na internet mostrava uma silhueta feminina no meio das ruínas, cercada por sombras pequenas que pareciam crianças, todos olhando para a câmera.

Hoje, mais de 130 anos após o início da abominação dos Schäfer, o Vale de Ferro não existe oficialmente nos mapas turísticos. É uma zona de exclusão biológica e geológica cercada por cercas altas e avisos de perigo de morte.

Cientistas tentam explicar a temperatura constante do solo com teorias geotérmicas. Céticos falam de infrassom causando alucinações. Mas os habitantes dos vilarejos vizinhos, aqueles que conhecem a escuridão da Floresta da Turíngia, sabem a verdade.

Eles dizem que o fogo nunca se apagou realmente. Dizem que a família Schäfer não morreu, apenas transcendeu para algo que não precisa de corpo para existir.

Nas noites de inverno, quando a neve cobre o mundo e o silêncio é absoluto, se você chegar perto o suficiente da cerca de arame farpado, poderá ouvir. Não é o vento. Não é um animal. É um zumbido baixo, constante, um coro de vozes infantis que não envelhecem, repetindo a única verdade que conheceram, um convite eterno para aqueles que ousam escutar:

“Rein… Rein… Bleib… Bleib…” (Puro… Puro… Fique… Fique…)

E quem escuta esse chamado, diz a lenda, nunca mais consegue partir. O vale não é um lugar. É uma fome. E ele ainda está se alimentando.

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