A noite caiu pesada sobre BrasĂlia, mas o clima dentro do plenário era ainda mais denso do que o cĂ©u fechado lá fora. O Congresso fervilhava como um caldeirĂŁo prestes a transbordar, e cada corredor parecia carregar o eco de segredos mal contidos. Desde cedo, repĂłrteres, assessores e curiosos se acotovelavam para garantir um lugar privilegiado para testemunhar o que muitos acreditavam ser o fim da carreira polĂtica de Glauber Menezes — um dos parlamentares mais controversos, combativos e imprevisĂveis da atual legislatura.
Nos Ăşltimos meses, seu nome havia sido alvo de ataques, denĂşncias, debates inflamados e especulações intermináveis. A cassação parecia inevitável, quase um destino selado por pressões internas e externas. Analistas polĂticos apostavam que o placar seria esmagador, e bastidores davam como certa a sua queda. O rumor era de que atĂ© seus aliados mais prĂłximos já tinham se conformado com o desfecho: Glauber cairia, e cairia sozinho.
Mas nada em BrasĂlia Ă© tĂŁo simples quanto parece.
Pouco antes da sessão decisiva, um silêncio estranho tomou conta de parte do Legislativo. Deputados que, antes, falavam abertamente sobre sua disposição de votar pela cassação, agora conversavam em sussurros, trancados em salas, disputando telefonemas urgentes. A sensação era de que alguma coisa — algo grande — tinha acontecido nos bastidores.
Glauber, por sua vez, caminhava de um lado para o outro em seu gabinete. Não era medo que o dominava, mas um tipo peculiar de inquietação. Ele sabia que havia algo fora do lugar. Seus olhos escuros percorriam a sala, parando na porta toda vez que ouvia passos no corredor, esperando que alguém entrasse trazendo finalmente aquilo que ele mais precisava: uma chance.
Ă€s 19h42, ela chegou.
Dora Nogueira, sua assessora mais antiga e uma das poucas pessoas que realmente compreendiam sua mente inquieta, entrou no gabinete com o rosto pálido, mas os olhos brilhando como quem acaba de descobrir ouro.
— Aconteceu — disse ela, ofegante. — Eles mudaram.
Glauber nĂŁo precisou perguntar quem. No jogo polĂtico, “eles” sempre se referia ao bloco decisivo: aqueles que, sozinhos, poderiam sacramentar seu fim ou lhe dar uma sobrevida inesperada.
— Mudaram como? — ele perguntou, tentando manter a voz firme.
Dora respirou fundo.
— Não querem mais cassação. Estão falando em suspensão. Seis meses. E… parece que vai passar.
Glauber encarou a notĂcia como um soco no estĂ´mago — nĂŁo de dor, mas de surpresa. Ele nĂŁo acreditava facilmente. Já havia sido traĂdo, descartado e manipulado demais para confiar em mudanças repentinas. Mas Dora nĂŁo era alguĂ©m que se enganava com boatos. Se ela dizia, era porque havia algo concreto.
— Por quê? — ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela.

A resposta não veio imediatamente, mas o plenário, minutos depois, começou a fornecer suas pistas.
Assim que Glauber entrou no salão, o rumor se espalhou como fogo em palha seca. Câmeras giraram, microfones se estenderam, flashes se multiplicaram. Ele seguiu em silêncio, mas seu passo era firme — talvez mais firme do que nas últimas semanas. Algo havia mudado. E todos sabiam disso.
A sessĂŁo iniciou com discursos tensos. Alguns parlamentares exaltados recordavam episĂłdios polĂŞmicos envolvendo Glauber; outros, inesperadamente, pediam “proporcionalidade”, “cautela” e “bom senso institucional”. Esse Ăşltimo grupo chamava atenção, porque atĂ© o dia anterior, nenhum deles parecia disposto a oferecer-lhe uma saĂda.
O clima ficou ainda mais elétrico quando, às 21h14, um deputado até então opositor ferrenho levantou-se e fez um pronunciamento que virou instantaneamente trending topic:
— Não cabe a este Parlamento agir por impulso — disse, em tom teatral. — O que está em jogo não é apenas a conduta do deputado Glauber Menezes, mas a estabilidade deste plenário.
A frase foi como um clarão repentino. Jornalistas rapidamente começaram a especular: que estabilidade era essa? Que negociações estavam por trás dessa mudança brusca de roteiro?
Na polĂtica, ninguĂ©m vira o jogo por bondade. Isso todos sabiam. O mistĂ©rio sobre o que motivara a reviravolta sĂł fazia aumentar.
Do lado de fora, o pĂşblico que acompanhava pelas redes sociais reagia com choque, indignação, alĂvio, esperança — tudo ao mesmo tempo. Glauber era um nome que despertava emoções extremas: amavam-no ou odiavam-no, mas ninguĂ©m ficava indiferente.
Quando o presidente da Mesa finalmente colocou em votação o novo relatĂłrio — substituindo a cassação pela suspensĂŁo — o plenário parecia conter a respiração coletivamente. Glauber mantinha o rosto impassĂvel, mas seu coração batia como um tambor acelerado em seu peito.
Uma sequĂŞncia de votos sim, nĂŁo, sim, sim… O placar começou apertado, mas logo começou a pender de forma clara. Era quase impossĂvel acreditar: os mesmos parlamentares que, horas antes, ensaiavam discursos de despedida, agora erguiam a mĂŁo para mantĂŞ-lo no cargo.
Ă€s 22h03, o resultado foi anunciado:
Cassação enterrada. Suspensão de 6 meses aprovada. Glauber ficava — por um triz, mas ficava.
O plenário explodiu. Aplausos, vaias, gritos, comemorações e protestos se misturaram em uma cena de caos eletrizante. Glauber fechou os olhos por um instante — nĂŁo por cansaço, mas pela simples necessidade de absorver o impossĂvel.
A pergunta que dominou a imprensa naquela noite era simples: o que aconteceu?
Que articulação, chantagem, acordo ou revelação foi suficiente para virar o jogo?
Rumores começaram a circular imediatamente.
Alguns diziam que Glauber tinha informações explosivas sobre um grupo de parlamentares e que essas informações haviam sido “lembradas” nas últimas horas.
Outros afirmavam que havia interesses econĂ´micos gigantescos envolvidos e que sua cassação colocaria em risco negociações sensĂveis.
Havia ainda quem jurasse que Glauber tinha apoio popular muito maior do que seus opositores admitiam — e que tirá-lo agora seria politicamente suicida.

A verdade, como sempre na capital, desaparecia entre versões, versões das versões e mentiras cuidadosamente embaladas.
Glauber saiu do plenário como entrou: em silĂŞncio. Mas desta vez, o silĂŞncio era outro. NĂŁo era o silĂŞncio de quem teme cair — era o silĂŞncio de quem acaba de sobreviver a um terremoto polĂtico feroz e sabe que, na manhĂŁ seguinte, o mundo inteiro ainda estará tentando entender como a terra nĂŁo o engoliu.
Quando chegou ao lado de fora do prĂ©dio, foi recebido por uma multidĂŁo que misturava aplausos e crĂticas. Ele ergueu o rosto, respirou fundo e acenou brevemente. Depois, entrou no carro oficial sem dar declarações.
Dora o aguardava lá dentro.
— Você venceu — disse ela.
Ele respondeu apenas com um olhar firme.
— Não. — Sussurrou. — Eu apenas comprei tempo.
E ele sabia que, nos corredores implacáveis de BrasĂlia, tempo era a moeda mais cara de todas.