Maria do Recôncavo Que Ferveu o Coronel e Seus 3 Filhos em Óleo Fervente na Véspera de Natal

O sol do recôncavo batia como ferro quente sobre as telhas de barro. As cigarras cantavam o prenúncio da chuva, mas o chão rachado contava outra história, a da seca, da espera e da raiva acumulada. No meio daquele cenário parado no tempo, vivia Maria do Recôncavo, uma mulher de olhar fundo, mãos calejadas e um silêncio que incomodava até os cachorros do vilarejo.


Diziam que ela falava pouco, mas via demais, que seu olhar atravessava a carne e chegava no juízo dos homens, e que havia uma dor nela, antiga, enraizada, como se a alma tivesse sido arrancada e colocada de volta ao contrário. A pequena vila de Santo Amaro do Recôncavo, onde o tempo se media pelo sino da igreja e pelo cheiro do dendê, o nome de Maria era sussurrado com respeito e medo.
Uns a chamavam de santa, outros de maldita. Ninguém sabia de onde ela viera. Apenas que chegou uma noite de tempestade, com um saco de pano nas costas e um olhar que parecia carregar séculos. Por 8 anos, ela viveu em silêncio, costurando para as mulheres da vila. cuidando dos doentes, levando comida a quem passava fome.
Era uma presença quase invisível, até que apareceu o coronel Aristides Tavares, dono de metade das terras do Recôncavo, um homem que confundia poder com direito. Aristides era conhecido por três coisas: o dinheiro, o medo que espalhava e os três filhos, criados como príncipes em terra de escravos. A chegada dele marcou o início do fim de uma paz silenciosa.
Naquele tempo, o coronel controlava tudo, o comércio, o padre, o delegado e até os casamentos. Ninguém ousava contrariá-lo. Mas Maria, sem querer, ou talvez por destino, cruzou o caminho do homem errado. Tudo começou na véspera de São João, quando o coronel mandou chamar Maria para costurar um vestido de festa para sua esposa, dona Geralda.
A mulher estava doente, pálida, presa a uma cama. Maria chegou, fez o trabalho, recebeu um prato de comida e foi embora. Mas ao sair, um dos filhos do coronel, o mais novo Raul, riu dela com um riso de desdém que carregava o veneno do pai. “Uma mulher sozinha, tão bonita e sem dono, não é coisa boa”, disse ele. Maria não respondeu, só olhou.
Um olhar frio, como o de quem já viu a morte passar mais de uma vez. Nos meses seguintes, estranhos acontecimentos começaram a rondar a fazenda dos Tavares. O gado adoecia, o café secava antes de colher e a casa grande parecia tomada por um silêncio pesado. O coronel dizia que era feitiço e como todo homem que teme o que não entende, foi atrás de um culpado, chamou Maria.
Naquela noite, a lua cheia refletia no espelho d’água do engenho. O coronel a esperava com dois capangas. Disse que ela deveria confessar. Confessar o que nem ele sabia, mas precisava de um bode expiatório. Maria olhou para ele e disse com voz baixa: “O Senhor está cavando o próprio buraco, coronel, e quem cava demais acaba caindo dentro.
” Os homens riram, mas aquele riso nunca seria esquecido. Três dias depois, a esposa do coronel morreu e o que era superstição virou certeza. Ele jurou que Maria o havia amaldiçoado. Mandou queimar suas coisas, expulsá-la da vila, mas ninguém teve coragem de encostar nela. Diziam que o vento mudava de direção quando ela passava e que o fogo se apagava perto de seu corpo.
Maria foi embora sem olhar para trás. sumiu entre as plantações, deixando apenas o som de suas sandálias raspando na terra seca. O tempo passou, o coronel continuou seu reinado de ferro, agora sem a mulher e com os filhos, se tornando o reflexo do pai, arrogantes, cruéis e impunes. Mas em dezembro de 1948, algo começou a mudar.
Naquele ano, o recôncavo viveu uma seca sem igual. As colheitas morreram, os bois caíram e até o rio Paraguaçu parecia ter perdido a vontade de correr. O povo começou a dizer que era castigo, que a terra estava clamando justiça. Foi então que ela voltou. Na véspera de Natal, ninguém viu de onde veio. Apenas disseram que Maria apareceu de repente na feira com o mesmo saco de pano nas costas e um olhar sereno demais para quem trazia o peso do mundo. O povo se calou.


Alguns se benzeram, outros fugiram, e naquela mesma noite o destino resolveu acertar suas contas. A fazenda dos Tavares acordou em gritos. O vento soprou quente, como se o inferno tivesse subido pra terra. Os sinos da igreja tocaram fora de hora e o céu se encheu de nuvens negras. O que aconteceu lá dentro? Ninguém nunca soube direito.
Alguns dizem que ouviram risos, outros choros. E há quem jure que viu a silhueta de Maria parada diante da janela da casa grande, com o olhar fixo, como quem observa o fim de um ciclo. Quando o dia amanheceu, o coronel e seus três filhos estavam mortos. Não havia marcas de faca, nem tiro, nem luta. Mas o cheiro, o cheiro de óleo e de algo queimado pairava no ar. Maria sumiu de novo.
O povo dizia que ela tinha ido pro mar. O mesmo mar que banha o recôncavo, o mesmo que leva e traz as almas inquietas. Outros juravam que ela se transformara em vento e que ainda hoje, nas noites de dezembro, ele sopra quente, trazendo o cheiro de azeite e de vingança. Mas o que poucos sabiam era que havia um caderno escondido sob o açoalho da antiga casa dela, com páginas escritas em tinta desbotada, onde Maria contava sua versão, uma história de dor, injustiça e silêncio.
E o que ela escreveu ali mudaria para sempre o modo como aquele povo via o que aconteceu naquela véspera de Natal. O caderno de Maria foi encontrado anos depois, por acaso quando a antiga casa dela, uma tapera de barro e palha, foi derrubada por um vendaval. O novo dono do terreno, um pescador chamado João das Águas, achou o pequeno livro preso sob uma tábua, envolto num pedaço de tecido amarelado.
As páginas estavam úmidas, algumas ilegíveis, mas as palavras que restaram contavam uma história que o povo jamais imaginaria. Nasci no Engenho Santa Cruz, filha de escravos libertos, e aprendi cedo que o silêncio é mais seguro que a verdade. Começava o primeiro trecho. Maria cresceu entre os canaviais, ouvindo o barulho das moendas e o grito dos feitor.
Aos 13 anos, já sabia mais de ervas do que muitas curandeiras velhas. Foi sua mãe quem lhe ensinou os segredos da terra e o padre da paróquia quem lhe ensinou a ler. Ambos desapareceram no mesmo verão, um de febre, o outro levado por ordem do coronel Aristides, por falar demais. Sozinha no mundo, Maria foi trabalhar na Casa Grande, lavava roupas, cozinhava e dormia num quartinho nos fundos.
E foi ali, naquela casa, que o destino começou a costurar o fio da tragédia. O coronel era homem de palavra dura, olhar de predador e sede de poder. E os filhos reflexos mal acabados do pai. Maria cresceu sob a vigilância deles, sempre em silêncio, com o coração fechado. Mas o destino gosta de brincar com os fracos.
E um dia, quando ela já tinha 20 anos, foi chamada à sala principal. O coronel pediu que servisse o jantar. Havia convidados, risadas, o cheiro do vinho e da carne. Maria servia com cuidado, sem levantar os olhos, mas sentia. Sentia os olhares pesados, as palavras atravessadas. Aquela noite, ela entendeu que não era vista como pessoa, mas como coisa.
O que aconteceu depois? O caderno não diz com todas as letras, apenas uma frase escrita com letra trêmula. Naquela noite, o fogo entrou em mim e nunca mais saiu. Nos dias seguintes, Maria desapareceu da casa grande. Voltou apenas anos depois, já com outro olhar. Diziam que vivera na mata entre os terreiros. Aprendendo rezas antigas e curas que vinham dos tempos de Angola, voltou mais forte, mais quieta e com uma presença que fazia o ar mudar de cor.
E foi por isso que quando a esposa do coronel adoeceu, foi a ela que mandaram chamar. Mas o destino, mais uma vez estava esperando a hora certa de fechar o círculo. No caderno, Maria escrevia como se conversasse com alguém. O mal não nasce do nada. Ele é plantado como cana, regado de mentira. e colhido em silêncio.
Durante os dias em que cuidou de dona Geralda, Maria ouviu o que não devia. Descobriu segredos escondidos nas paredes da casa. Histórias que o coronel preferia deixar enterradas. Descobriu que o dinheiro dele vinha do tráfico de pessoas, da exploração e da morte. E entendeu que o poder naquela terra era uma máscara suja de sangue.
Quando a patroa morreu, Maria chorou sozinha. Mas não era só pela mulher, era por todas as outras que, como ela, foram caladas. O povo dizia que o espírito de Geralda não descansava. E Maria, em silêncio, começou a preparar algo. Nos meses seguintes, ela foi vista caminhando à noite, colhendo ervas, rezando em voz baixa, olhando para o céu.
Alguns diziam que estava enlouquecendo, outros que estava falando com Deus. Mas quem olhasse de perto veria o que Maria estava fazendo era esperar. Esperar o tempo certo, o tempo do retorno. E o tempo chegou. Era dezembro de 1948 e a seca castigava tudo. A casa grande estava decadente. O coronel envelhecido, vivia cercado dos filhos.
Três homens cruéis que herdaram o mesmo desprezo pelo povo. Raul, o mais novo, cuidava dos negócios do pai com a arrogância dos que nunca trabalharam. Josias, o do meio, era o mais violento, o que gostava de humilhar os outros. E o mais velho Bento era o mais perigoso de todos, o que sabia sorrir antes de destruir. Naquela véspera de Natal, os Tavares preparavam uma festa luxuosa, apesar da seca.
Mandaram vir comida de fora, vinho, música, fogos. Queriam provar ao povo que nada os atingia, mas o povo não apareceu. A vila estava estranhamente silenciosa. Os sinos não tocaram. O ar parecia pesado e um vento morno soprava do mangue. E então ela chegou. Maria, vestida de branco, com os cabelos soltos e o mesmo saco de pano nas costas, caminhou lentamente até o portão da fazenda, sem dizer uma palavra.
Os criados ficaram imóveis. Ninguém ousou impedir sua entrada. O coronel, ao vê-la, empalideceu, tentou rir, mas o som morreu na garganta. “Você voltou, mulher?”, perguntou ele com voz de quem tenta esconder o medo. Maria apenas assentiu. Voltei, coronel, para pagar o que ficou pendente. O que aconteceu nas horas seguintes, ninguém testemunhou diretamente.
G.

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