Author: kieungan8386

  • UMA ESCRAVA GRÁVIDA FOI JOGADA AO RIO… MAS O DUQUE QUE NUNCA MOSTROU PIEDADE MERGULHOU PARA SALVÁ-LA

    UMA ESCRAVA GRÁVIDA FOI JOGADA AO RIO… MAS O DUQUE QUE NUNCA MOSTROU PIEDADE MERGULHOU PARA SALVÁ-LA

    Joguem na no rio!” rugiu Gregor Velmont, o rosto contorcido em fúria. “Que se afogue com a bastarda que carrega!” Aana nem teve tempo de gritar. Mãos brutais a arremessaram da ponte. A água fria a engoliu como um abraço das trevas. E então, do alto da margem, uma voz cortou o ar como lâmina.

    Se ela perecer, vocês a seguirão. O duque Adriano Darmont acabava de mergulhar. Era o ano de 1789 nas terras coloniais do Brasil, onde os engenhos de açúcar dominavam a paisagem e a crueldade era moeda corrente. A fazenda Velmont erguia-se como um império de cana e sangue, seus canaviais intermináveis, alimentados pelo suor de centenas de almas escravizadas.

    Ali a liberdade era um sonho distante e a compaixão uma palavra desconhecida. Naquela manhã de setembro, o céu estava carregado de nuvens pesadas, como se pressentisse a tragédia que estava por vir. Aana Morel, aos 20 anos, caminhava em direção à Casa Grande, com passos lentos e cuidadosos.

    Suas mãos tremiam enquanto seguravam a cesta de roupas limpas. O ventre arredondado de 5 meses de gestação tornava cada movimento uma batalha silenciosa contra a dor e o medo. Ela não escolhera carregar aquela vida. A criança fora concebida em uma noite de horror, quando Gregor Vmont, o herdeiro arrogante da fazenda, a arrastara para os estábulos.

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    Desde então, a Iana vivia em um estado de pavor constante, sabendo que sua gravidez era tanto uma sentença quanto uma vergonha aos olhos daquele homem cruel. Gregor nunca assumira o que fizera. Pelo contrário, quando a barriga de Aana começou a crescer, ele a culpou publicamente, dizendo que ela seduzira outros escravizados. A mentira espalhou-se como fogo e Ana tornou-se alvo de desprezo até mesmo entre os seus. Ninguém acreditava nela, ninguém a defendia.

    Naquela manhã, enquanto cruzava o pátio em direção ao rio para lavar mais roupas, Aana sentiu o peso dos olhares. Gregor estava na varanda da Casagrande, cercado por outros jovens senhores que visitavam a fazenda. Ele a observava com um misto de repulsa e raiva, como se a simples existência dela fosse uma afronta pessoal. Olhem só”, disse Gregor em voz alta, o tom carregado de veneno.

    “A bastarda ainda ousa caminhar por aqui como se fosse gente.” Os homens ao redor riram, mas a manteve a cabeça baixa, acelerando o passo. O coração disparava no peito e ela apertou a cesta contra o corpo, como se aquilo pudesse protegê-la do que estava por vir. Mas Gregor não estava disposto a deixá-la em paz.

    Ele desceu as escadas da varanda com passos pesados, os olhos cinzentos fixos nela, como os de um predador. Aana sentiu o terror subir pela garganta quando percebeu que ele vinha em sua direção. “Pare aí”, ordenou Gregor, a voz cortante. Aana obedeceu, paralisada. O corpo inteiro tremia e ela instintivamente se encolheu, os ombros caindo para a frente como se pudesse desaparecer. Olhe para mim quando eu falar com você”, Gregor sibilou, agarrando-a pelo braço com força brutal.

    Aana ergueu os olhos e, pela primeira vez em meses, permitiu-se encará-lo. Seus olhos cor de mel, normalmente doces e gentis, estavam agora repletos de uma dor silenciosa que poderia partir qualquer coração que ainda tivesse humanidade, mas Gregor não tinha. Você acha que pode carregar essa bastarda e continuar vivendo aqui, envergonhando minha família? Ele apertou ainda mais o braço dela, os dedos cravando-se na pele.

    Você não passa de lixo e lixo precisa ser descartado. Antes que a pudesse processar as palavras, Gregor a arrastou pelo pátio. Ela tentou resistir, mas ele era forte demais. Os outros homens o seguiram rindo e fazendo comentários vulgares. Ninguém interferiu. Ninguém ousava desafiar o herdeiro Velmont. Eles a levaram até a ponte de madeira que cruzava o rio nos fundos da propriedade.

    A água corria rápida e escura, alimentada pelas chuvas recentes. A Iana sentia as pernas fraquejarem e o pânico a consumia por completo. “Por favor”, ela sussurrou, a voz quebrando. “Por favor, não. Cale a boca!”, Gregor rosnou, jogando-a contra a balaustrada da ponte. Foi então que uma voz grave ecuou pela margem.

    O que está acontecendo aqui? Todos se viraram. Do outro lado do rio, montado em um cavalo negro imponente, estava o duque Adriano Darmon. Ele observava a cena com olhos azuis gélidos, o rosto uma máscara de autoridade implacável. Mesmo à distância, sua presença irradiava poder e perigo.

    Gregor hesitou por um instante, mas logo recuperou a arrogância, apenas cuidando de um problema. Duque, nada que deva preocupá-lo. Adriano desceu do cavalo com movimentos medidos e caminhou até a ponte. Seus olhos percorreram a rapidamente, notando o ventre arredondado, as marcas nos pulsos, o terror estampado no rosto. Algo dentro dele se mexeu, uma fissura quase imperceptível em sua couraça de frieza. “Solte-a”, ordenou Adriano.

    A voz baixa e perigosa. Gregor soltou uma risada forçada. Com todo respeito, Duque, isso não é da sua conta. Ela é propriedade da minha família. E eu disse para soltá-la. A tensão no ar era palpável. Gregor apertou os dentes, a raiva fervendo dentro dele. Não suportava ser desafiado, especialmente por alguém cuja autoridade epsava a sua.

    Em um gesto impulsivo e desafiador, ele agarrou a Iana pelos ombros. Joguem-na rio,” rugiu Gregor, “o rosto contorcido em fúria. Que se afogue com a bastarda que carrega antes de qualquer reação, antes que Adriano pudesse atravessar a ponte. Mãos brutais arremessaram a Iana para fora da bala austrada. Ela nem teve tempo de gritar.

    O mundo girou em um segundo de terror absoluto e então a água gelada a engoliu. O impacto roubou-lhe o ar dos pulmões. A correnteza a puxou para baixo com força implacável e Aana lutou desesperadamente para subir à superfície. Mas o vestido encharcado pesava como chumbo, e o Charava, corpo grávido, já fragilizado, não conseguia vencer a força do rio.

    Ela afundava, as trevas a envolviam. E então, no último segundo, antes de perder a consciência, Aana sentiu braços fortes ao seu redor. Adriano Darmon, o duque temido que jamais demonstrara piedade por ninguém, havia mergulhado no rio. Antes de continuarmos com essa história que promete mexer com cada fibra do seu coração, quero fazer uma pausa para agradecer por você estar aqui.

    Sério, sua presença assistindo este vídeo é muito especial para mim. Cada visualização, cada minuto que você dedica a essa narrativa é o que me motiva a continuar trazendo essas histórias para vocês. Se você está gostando até agora, não se esqueça de se inscrever no canal e ativar o sininho para não perder nenhuma das próximas emoções que preparamos.

    Agora vamos voltar, porque o que está prestes a acontecer vai mudar tudo. Quando Adriano emergiu a superfície carregando a Iana nos braços, o silêncio na margem era absoluto. Todos os homens que segundos antes riam e zombavam agora estavam paralisados, boqueabertos diante da cena impossível.

    O duque, com água escorrendo pelos cabelos castanhos, caminhava pela margem com passos firmes, segurando a jovem inconsciente contra o peito. Seus olhos azuis, normalmente frios como gelo, ardiam com uma fúria controlada que fez Gregor recuar instintivamente. “Se ela perecer”, disse Adriano, “a voz baixa e letal vocês a seguirão. Todos vocês.” Não era uma ameaça vazia.

    Todos ali sabiam que o Duque Darmon era um homem de palavra e suas palavras tinham o peso de sentenças de morte. Gregor, pálido e tremendo de raiva impotente, não ousou responder. Apenas observou enquanto Adriano montava em seu cavalo, ainda segurando a Iana com cuidado quase reverente e galopava em direção às suas terras. Naquele momento, algo mudou.

    Uma rachadura se abriu no mundo rígido e cruel da colônia, e ninguém, nem mesmo o próprio duque, sabia até onde aquela fissura se estenderia. Aana despertou em um quarto que parecia pertencer a outro mundo. As paredes eram revestidas de madeira nobre e cortinas de veludo bordô filtravam a luz suave da tarde.

    O colchão sob seu corpo era macio, tão diferente da palha úmida e áspera a que estava acostumada, que por um momento, pensou estar sonhando. Mas a dor que latejavam em seus pulmões era real demais para ser ilusão. Ela tentou se sentar, mas uma mão firme e gentil a impediu. Aana virou a cabeça e encontrou os olhos de uma mulher idosa de pele parda e cabelos grisalhos presos em um coque.

    A mulher sorria com uma ternura que a Iana não via há anos. Devagar, menina, disse a senhora. A voz carregada de bondade, você quase não voltou. Seus pulmões ainda estão fracos. Onde? Onde estou? Aana sussurrou, a garganta arranhando. Nas terras do duque Darmon, ele a trouxe aqui depois de bem, depois do que aqueles homens fizeram, a Iana sentiu o coração disparar.

    O duque, ela se lembrava vagamente de braços fortes ao seu redor, de uma voz grave, ordenando que a salvassem. Mas por quê? Porque um homem como ele, conhecido por sua crueldade e indiferença, teria arriscado a própria vida por uma escravizada. O bebê. Aana levou as mãos ao ventre com pânico. Meu bebê está bem? A mulher apressou-se em tranquilizar lá, colocando a mão sobre a dela.

    O bebê está seguro. Você teve sorte, menina. Muita sorte. Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Aana. Não de tristeza, mas de um alívio avaçalador. Ela apertou o ventre com delicadeza, sentindo o movimento sutil da criança dentro dela. Viva! Ambas estavam vivas. A porta do quarto se abriu silenciosamente e a Iana sentiu o ar mudar. Ela virou a cabeça e o viu.

    Adriano Darmon estava parado na soleira, os ombros largos preenchendo o espaço, os olhos azuis fixos nela, com uma intensidade que fez o coração dela saltar. Ele não usava mais as roupas encharcadas. Agora vestia uma camisa branca impecável e calças escuras, os cabelos castanhos penteados para trás, revelando a cicatriz fina no maxilar.

    Por um longo momento, nenhum deles disse nada, apenas se olharam, como se estivessem tentando decifrar um enigma impossível. Como está se sentindo? Adriano finalmente perguntou. A voz mais suave do que Aana esperava. Eu eu estou bem, senhor”, ela respondeu baixinho, abaixando os olhos por instinto. “Olhe para mim”, ele disse, “Não como uma ordem, mas como um pedido.” A hesitou, mas lentamente ergueu os olhos novamente.

    Havia algo no olhar dele que a desconscertava. Não era piedade, nem desprezo. Era algo mais profundo, mais perturbador. Era como se ele estivesse vendo-a de verdade, não como uma propriedade, mas como uma pessoa. “Você não precisa me chamar de senhor aqui”, Adriano disse, surpreendendo até a si mesmo com as palavras. “Meu nome é Adriano.

    ” A mulher idosa ao lado da cama arregalou os olhos, mas não disse nada. Ana, por sua vez, sentiu o mundo girar. Nenhum nobre jamais havia permitido que ela usasse seu nome. Era impensável. Era perigoso. Eu não posso. Ela começou, mas Adriano a interrompeu. Pode e vai. Ele deu alguns passos em direção à cama, as mãos cruzadas nas costas.

    Você ficará aqui até se recuperar completamente. Ninguém a tocará. Ninguém a machucará. Isso é uma promessa. A Iana não sabia o que dizer. Parte dela queria acreditar. Mas anos de sofrimento haviam ensinado que promessas eram frágeis como vidro. Ainda assim, havia algo na voz dele, na forma como olhava para ela, que fazia uma pequena chama de esperança as acender em seu peito.

    “Por que o senhor? Por que você fez isso?”, ela perguntou, a voz trêmula. “Por que me salvou?” Adriano ficou em silêncio por um tempo que pareceu eterno. Ele desviou o olhar, fixando-o na janela, como se buscasse uma resposta que ele mesmo não entendia completamente, porque era o certo a fazer. Ele finalmente respondeu. Mas ambos sabiam que havia mais por trás daquelas palavras. Nos dias que se seguiram, Ana começou a se recuperar lentamente.

    O quarto que ocupava ficava em uma ala afastada da mansão principal, longe dos olhares curiosos dos outros empregados. A mulher idosa, que se apresentou como dona Beatriz, cuidava dela com dedicação maternal, trazendo sopas quentes, chás calmantes e histórias reconfortantes sobre sua própria juventude. Mas era Adriano quem mais intrigava a Iana.

    Ele visitava o quarto todos os dias, sempre ao cair da tarde, quando as sombras alongavam-se pelas paredes. Nunca ficava muito tempo, nunca dizia muito, mas sua presença era constante e estranhamente reconfortante. Em uma dessas visitas, Adriano trouxe um livro.

    Aana o observou com curiosidade enquanto ele se sentava em uma cadeira ao lado da cama. “Você sabe ler?”, ele perguntou. Aana a sentiu tímidamente. Minha mãe me ensinou quando eu era pequena. Antes de Ela não precisou terminar. Adriano entendeu antes de perder tudo. Então talvez goste disto. Ele estendeu o livro para ela. Era um volume de poesias francesas. A capa gasta pelo tempo, mas ainda bonita.

    Aana pegou o livro com mãos trêmulas, como se estivesse segurando um tesouro inestimável. E de certa forma estava. Ninguém nunca lhe dera um presente antes. Ninguém nunca se importara com o que ela gostava ou precisava. Obrigada!”, ela sussurrou, apertando o livro contra o peito. Adriano apenas a sentiu, mas algo em seu rosto amoleceu.

    Por um breve instante, a máscara de frieza caiu e Aana viu o homem por trás do título, um homem solitário, assombrado por fantasmas que ele jamais compartilharia. À noite, quando a Iana estava sozinha, ela abria o livro e lia os poemas à luz de velas. As palavras dançavam na página falando de amor, perda, esperança e redenção. E enquanto lia, ela se pegava pensando no duque, no homem que mergulhara em águas turbulentas por ela, no homem que a olhava como se estivesse tentando entender um mistério. Ela não deveria pensar nele daquela forma. sabia disso.

    Era perigoso, impossível, condenado desde o início. Mas o coração, descobriu Aana, não obedece a razão. Uma noite, enquanto caminhava pelos corredores silenciosos da mansão em busca de água, Aana ouviu vozes vindas do escritório do duque.

    A porta estava entreaberta e ela reconheceu a voz grave de Adriano, embora nunca o tivesse ouvido falar daquela forma antes. uma dor crua em seu tom, uma vulnerabilidade que ele jamais mostrara na presença dela. “Eu não consigo parar de pensar nela”, Adriano dizia. E Aana sentiu o coração parar. É como se como se algo dentro de mim tivesse acordado depois de anos adormecido.

    “Adriano, você precisa ter cuidado”, respondeu outra voz masculina, mais velha e ponderada. A sociedade não perdoará isso. Você é um duque. Ela é. Eu sei o que ela é. Adriano cortou a voz subitamente dura. E sei exatamente o que isso significa, mas pela primeira vez em anos sinto algo além de vazio. Aana recuou, o coração batendo descompassado. Ela não deveria ter ouvido aquilo.

    Não deveria saber que o duque, o homem temido e implacável, sentia algo por ela. Era perigoso demais para ambos. Mas enquanto voltava silenciosamente para o quarto, uma verdade innegável a atingiu. Ela também sentia algo por ele. No dia seguinte, Adriano apareceu no quarto mais cedo do que o habitual. Havia uma tensão em seus ombros, uma urgência em seus olhos azuis que a Iana não conseguia decifrar.

    Preciso lhe mostrar algo”, ele disse, estendendo a mão. A Iana hesitou apenas um segundo antes de colocá-la mão na dele. O toque foi elétrico, enviando uma onda de calor por todo o corpo dela. Adriano a ajudou a se levantar e a guiou pelos corredores da mansão até chegarem a uma porta trancada no buzitas e final de uma ala abandonada. Ele abriu a porta revelando um quarto pequeno, mas acolhedor.

    Havia um berço de madeira entalhada, um armário cheio de roupas minúsculas e brinquedos delicados espalhados sobre uma cômoda. “Este o quarto do meu filho, Adriano”, disse baixinho. A voz carregada de uma tristeza antiga. Ele nunca chegou a usá-lo. Nasceu e partiu no mesmo dia junto com minha esposa. Aana sentiu lágrimas picar em seus olhos.

    Ela olhou para Adriano e viu pela primeira vez a extensão completa de sua dor. Ele não era apenas o duque frio e cruel que todos temiam. Era um homem quebrado, tentando sobreviver em um mundo que não permitia fraquezas. Eu quero que você use este quarto. Adriano continuou olhando para ela, para o seu bebê.

    Quando chegar a hora, as palavras ficaram suspensas no ar entre eles, carregadas de um significado que ia muito além do gesto. Não era apenas generosidade, era uma declaração silenciosa de que ele havia, que a criança que ela carregava importava, que ambas mereciam mais do que o mundo cruel lhes oferecia. Por quê? Ana sussurrou, a voz quebrando. Por que está fazendo tudo isso por mim? Adriano deu um passo em direção a ela, tão perto que a Iana podia sentir o calor emanando de seu corpo.

    Ele ergueu a mão lentamente, como se tivesse medo de assustá-la, e tocou gentilmente seu rosto, os dedos traçando a linha de sua bochecha. Porque quando olho para você, ele disse, a voz rouca, vejo algo que pensei ter perdido para sempre. Aana fechou os olhos, permitindo-se, apenas por um momento, acreditar que aquilo era real, que um homem como ele poderia genuinamente se importar com alguém como ela. Mas a realidade, como sempre, veio bater à porta de forma brutal.

    Um grito ecoou pelos corredores da mansão, seguido de passos apressados. Dona Beatriz apareceu na soleira, o rosto pálido de pavor. “Duque, ela o fegou. Tem visitas na entrada. É o Barão Velmont e ele trouxe Gregor. Estão exigindo a devolução da escravizada. O salão principal da mansão Darmont era um espetáculo de opulência.

    Lustres de cristal pendiam do teto alto e tapetes persas cobriam o piso de mármore. Mas naquela tarde a beleza do ambiente contrastava violentamente com a tensão que pairava no ar, como uma tempestade prestes a desabar. Adriano desceu as escadas com passos medidos, cada movimento calculado para transmitir a autoridade absoluta.

    Seus olhos azuis estavam gélidos, a máscara de frieza firmemente no lugar. Atrás dele, escondida em uma alcova do segundo andar, aana observava tudo, o coração disparado, as mãos apertadas sobre o ventre, em um gesto instintivo de proteção. No centro do salão, o barão Velmont aguardava com uma postura rígida de indignação.

    Era um homem corpulento, de bigodes volumosos e rosto avermelhado pela idade e pelo excesso de vinho. Ao seu lado, Gregor exibia um sorriso arrogante, que não chegava aos olhos cinzentos, agora fixos nas escadas, como se estivesse caçando uma presa. Duque Dar monte o barão começou, a voz trovejante ecoando pelas paredes. Agradeço por nos receber, mas venho aqui em uma missão que não admite delongas.

    Minha propriedade foi tomada e exijo sua devolução imediata. Adriano desceu o último degrau e parou a alguns metros dos visitantes, as mãos cruzadas nas costas. Sua expressão não revelava nada. Propriedade, ele repetiu a palavra soando como uma lâmina desembanhada. Refere-se à jovem que seu filho tentou afogar.

    Gregor deu um passo à frente, o rosto contorcendo-se em fúria mal disfarçada. Ela é uma escravizada fugitiva e carrega uma bastarda que, cuidado com suas próximas palavras, Adriano cortou a voz baixa, mas carregada de perigo. Muito cuidado. O barão colocou a mão no ombro do filho em um gesto de advertência, mas seus próprios olhos faiscavam de raiva contida. Com todo respeito, Duque, isso é uma questão de propriedade legal.

    Aquela mulher pertence à minha família há anos. O Senhor não tem direito de retê-la. Direito Adriano murmurou quase para si mesmo. Então ergueu os olhos e o que havia neles fez até o barão recuar. Falaremos de direitos.

    Então, que direito tinha seu filho de jogar uma mulher grávida em um rio? Que direito tinha de tentar tirar duas vidas por puro capricho? Ela não é uma mulher. Gregor cuspiu perdendo a compostura. é uma escravizada, uma posse, e se eu decidi descartá-la, é meu direito fazer como bem entender. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Adriano deu um passo em direção a Gregor e algo em seu olhar fez o jovem empalidecer.

    Se você der mais um passo em direção a ela, Adriano disse: “Cada palavra pronunciada com precisão mortal, não haverá título, fortuna ou influência que o salve do que farei com você”. O barão interveio rapidamente, percebendo que a situação estava escapando do controle. Duque Darmon.

    Sei que o senhor é conhecido por sua justiça, mas precisa entender a posição delicada em que isso nos coloca. A sociedade espera que as leis sejam cumpridas. Se começarmos a permitir que escravizados fujam para as terras de nobres protetores, ela não fugiu. Adriano interrompeu. Foi jogada para a morte. Há uma diferença, uma diferença técnica que não mudará a percepção pública.

    O barão retrucou, recuperando parte de sua compostura. O Senhor sabe tão bem quanto eu, que proteger uma escravizada de outra família causará escândalo. Sua reputação, sua posição, tudo estará em risco. Adriano sabia que o Barão estava certo. Aquele gesto de misericórdia, aquele ato impulsivo de salvar a Iana, já havia plantado sementes de rumores por toda a região.

    Nobres coxixavam em salões, comerciantes especulavam nos mercados. A notícia se espalhava como fogo em palha seca, mas quando pensava em devolver a emgá-la de volta para aquelas mãos cruéis, algo dentro dele se revoltava com uma intensidade que o assustava. A lei disse: “Adriano lentamente pode ser interpretada de muitas formas.

    E como duque destas terras, cabe a mim decidir como aplicar lá. O Senhor está cometendo um erro.” O Barão disse, a voz agora carregada de ameaça velada, um erro que pode custar muito caro. Gregor, incapaz de conter-se mais, avançou. Ela é minha. Aquela bastarda é minha propriedade e a criança que carrega também.

    A confissão escapou antes que ele pudesse detê-la lá. O barão fechou os olhos brevemente, percebendo o erro fatal do filho. Adriano, por sua vez, sentiu uma fúria fria e calculista tomar conta de cada fibra de seu ser. “Então você admite”, Adriano disse, “A voz perigosamente calma, que a criança é sua.” E mesmo assim tentou assassiná-la. Gregor percebeu tarde demais o que havia dito.

    Sua arrogância transformou-se em pânico enquanto procurava uma forma de se retratar. Eu não, eu quis dizer. Saia da minha casa Adriano ordenou a voz ecoando pelo salão como um trovão. Agora, antes que eu me esqueça dos códigos de hospitalidade que nos separam dos animais, o barão, percebendo que haviam perdido, agarrou o braço do filho e o arrastou em direção à saída.

    Mas antes de cruzar a porta, virou-se uma última vez. Isto não terminou, Duque. A sociedade ouvirá sobre isso. E quando ouvirem, nem mesmo seu título o protegerá do julgamento que virá. Quando a porta se fechou atrás deles, Adriano permaneceu imóvel por um longo momento. Então, lentamente ergueu os olhos para a Alcova, onde sabia que Aana estava escondida.

    Ela desceu as escadas devagar, as pernas tremendo, o rosto banhado em lágrimas silenciosas. Quando chegou ao salão, mal conseguia ficar em pé. “Você não deveria ter feito isso.” Aana sussurrou, a voz quebrada. Você arriscou tudo por mim. Sua reputação, sua posição. Eles vão destruir você por minha causa.

    Adriano caminhou até ela e, pela primeira vez, desde que se conheceram, permitiu-se tocar seu rosto com ambas as mãos, segurando-a com uma ternura que contrastava violentamente com a dureza que mostrara momentos antes. Que destruam ele disse simplesmente: “Prefiro perder tudo do que entregar você para aqueles monstros.” As palavras ficaram suspensas entre eles, pesadas de significado. Aana sentiu o coração se partir e se reconstruir ao mesmo tempo. Ninguém jamais a defendera assim.

    Ninguém jamais a escolhera. Por que eu? Ela perguntou, as lágrimas correndo livremente agora. Por que arriscar tudo por alguém como eu? Adriano hesitou, lutando contra as palavras que queriam escapar. Mas então, em um momento de rendição completa, ele disse a verdade que vinha negando até para si mesmo.

    Porque quando olho para você, sinto-me vivo novamente. E isso, Aana, vale mais do que qualquer título ou fortuna. Era a primeira vez que ele dizia seu nome. O som dele em seus lábios fez algo dentro de Aana se desfazer completamente. Ela se deixou cair contra o peito dele e Adriano a envolveu em seus braços, segurando-a como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Mas o mundo ao redor deles não estava disposto a permitir aquela conexão impossível.

    Nos dias que se seguiram, os rumores explodiram como pólvora. A notícia de que o duque Darmon havia protegido uma escravizada, desafiando o outro nobre, espalhou-se por toda a colônia. Nos salões da nobreza, seu nome era pronunciado com escândalo e indignação. Nas ruas, o povo especulava sobre os verdadeiros motivos do duque. E então chegou a carta.

    Elvira Monteblan, a filha do Visconde, anunciava sua visita. Era uma mulher que Adriano conhecia desde a infância, alguém que sempre deixara claro suas intenções de se casar com ele. Bela, influente e implacável, Elvira era exatamente o tipo de aliança que a sociedade esperava dele. E ela vinha pessoalmente descobrir a verdade sobre os rumores.

    Estou curiosa para saber de que cidade ou estado vocês estão acompanhando essa história? Me conta nos comentários. É incrível imaginar como nossas histórias viajam e alcançam cantos tão diferentes do mundo. Mal posso esperar para descobrir até onde chegaremos juntos. Agora prepare-se, porque o que está prestes a acontecer vai abalar tudo.

    Quando eu vira a Monteblan chegou à mansão Darmon, foi como se uma tempestade elegante tivesse entrado pelas portas. Seus cabelos ruivos estavam presos em um penteado elaborado, e o vestido verde esmeralda que usava era uma demonstração clara de riqueza e poder, mas eram seus olhos verdes que mais chamavam atenção, afiados e calculistas, examinando cada detalhe ao seu redor.

    Adriano, ela disse, a voz doce como melvenado. Quanto tempo eu vira? Ele respondeu com um aceno formal. Não esperava sua visita. Ohó, mas eu simplesmente precisava vir”. Ela disse, ajustando as luvas brancas em um gesto habitual. Os rumores chegaram até minha família e eu disse ao meu pai que deveria haver algum mal entendido.

    Afinal, o homem que conheço jamais arriscaria sua posição por, bem, por alguém tão inferior. A provocação estava clara, mas Adriano manteve a compostura. Os rumores costumam ser exagerados. Então, é verdade que há uma escravizada vivendo em sua casa?”, Elvira perguntou diretamente, os olhos brilhando com uma curiosidade perigosa.

    “Há uma jovem sob minha proteção.” “Sim, proteção.” Elvira repetiu, saboreando a palavra. “Que termo interessante.” Naquele momento, como se o destino quisesse testar os limites da tensão, a Iana apareceu no topo das escadas. Ela vinha descendo distraída, carregando o livro de poesias que Adriano lhe dera quando percebeu a visita. Seus olhos encontraram os de Elvira e o mundo pareceu congelar.

    Elvira examinou a Iana da cabeça aos pés, notando o vestido simples, mas limpo, o ventre arredondado, os cabelos crespos soltos sobre os ombros. E então algo mudou em sua expressão. O que antes era apenas curiosidade transformou-se em algo muito mais perigoso, ciúme. Então esta é ela. Euvira disse. A voz baixa, mas carregada de veneno.

    A razão pela qual toda a sociedade está falando de você. Aana sentiu o sangue gelar nas veias. Ela deu um passo para trás, querendo desaparecer, mas Adriano falou antes que pudesse se mover. Aana é minha convidada e será tratada com respeito sob este teto. A declaração foi uma bomba silenciosa. Elvira virou-se para Adriano, os olhos arregalados em choque e fúria.

    “Convidada,” ela repetiu a voz subindo uma oitava. Adriano, você perdeu completamente o juízo. Sabe o que estão dizendo? Que você está envolvido com ela, que abandonou todo o senso de decoro e posição por uma escravizada grávida. O que a sociedade diz? Não me interessa. Deveria. Euvira explodiu, perdendo toda a compostura elegante.

    Você é um duque, tem responsabilidades, expectativas e eu, eu esperei anos por você. Anos? E agora descubro que está jogando tudo fora por por ela. A confissão ficou suspensa no ar. Aana sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ela finalmente entendeu. Elvira não estava ali apenas por escândalo social.

    estava ali porque amava Adriano, ou pelo menos amava a ideia dele. Eu vira a Adriano começou, mas ela o interrompeu. Não ela disse erguendo a mão. Não precisa dizer nada agora, mas saiba disso, Adriano. Se continuar por este caminho, não serei apenas eu quem perderá. Você perderá tudo. E quando isso acontecer, quando a sociedade virar as costas para você, quando sua família te repudiar, quando perceber o erro que cometeu, será tarde demais.

    Com essas palavras, Elvira virou-se e saiu do salão, seus passos ecoando como sentença final. Adriano ficou parado por um longo momento, os ombros tensos, o maxilar cerrado. Então, lentamente ergueu os olhos para Aana. Ela estava de pé no meio das escadas, o rosto banhado em lágrimas, o livro apertado contra o peito e nos olhos cor de mel. Adriano viu não apenas medo, mas uma decisão se formando.

    “Eu preciso ir embora”, Aana sussurrou, a voz quebrada. Antes que você perca tudo por minha causa. Não, Adriano, você ouviu o que ela disse. A sociedade vai destruir você, sua família, seus aliados, tudo que construiu, tudo será perdido por minha causa. Adriano subiu as escadas até ela, cada passo medido e deliberado.

    Quando finalmente ficou diante de Aana, segurou seu rosto com ambas as mãos. Então, que se perca”, ele disse, os olhos azuis ardendo com uma determinação que não admitia dúvidas. Porque pela primeira vez em anos tenho algo que vale a pena lutar para proteger.

    Mas enquanto se olhavam, nenhum dos dois percebeu a figura escondida nas sombras do corredor. Uma figura que havia escutado cada palavra e que agora sorria com um sorriso cheio de malícia e vingança. Eu vira Monteblan não estava disposta a aceitar a derrota.

    E se Adriano não abriria a mão da escravizada por vontade própria, ela encontraria outra forma de separá-los, uma forma definitiva e brutal, que não deixaria espaço para escolhas ou arrependimentos. A noite caiu sobre a mansão da Armon com um peso sinistro. A Iana estava deitada no quarto que Adriano preparara para ela, as mãos sobre o ventre, sentindo os movimentos do bebê.

    A criança estava inquieta, como se pressentisse a tempestade que se aproximava. Foi então que ouviu os gritos. Aana levantou-se rapidamente e correu até a janela. Lá fora, no pátio principal, tochas iluminavam dezenas de rostos furiosos, homens e mulheres da nobreza local, alguns que ela reconhecia dos jantares de gala, que costumava servir na fazenda Velmont.

    Outros completamente desconhecidos, mas todos compartilhavam a mesma expressão de indignação e repulsa. E à frente de todos, vestida em um elegante vestido roxo, estava Elvira Monte Blanck. Tragam a escravizada. A voz de Elvira cortou a noite como um chicote. Tragam essa criatura que ousa manchar a honra de um duque.

    Aana sentiu as pernas fraquejarem. Dona Beatriz entrou correndo no quarto, o rosto marcado pelo terror. Menina, você precisa se esconder. Eles vieram buscá-la. Onde está o duque? Ana perguntou, a voz trêmula, descendo para enfrentá-los. Mas são muitos, menina, muitos demais.

    No pátio, Adriano saiu da mansão com passos firmes, o rosto uma máscara de fúria contida. Seus olhos azuis varreram a multidão, parando em Euvira. Isto é uma invasão à minha propriedade, ele disse a voz baixa, mas carregada de autoridade. Todos vocês estão violando as leis que juraram defender. Não, Adriano Elvira retrucou, dando um passo à frente.

    Quem viola as leis é você, protegendo uma escravizada que não lhe pertence, desafiando a ordem natural da sociedade, manchando o nome de sua família por uma mulher que não vale nada. Murmúrios de concordância se espalharam pela multidão. Adriano percebeu queira tinha orquestrado aquilo com perfeição. Não era apenas um grupo de nobres indignados.

    Era um tribunal improvisado com a multidão como juízes e a Iana como condenada. Ela está sob minha proteção. Adriano declarou, e ninguém a tocará. Então você admite, Elvira triunfou, admite publicamente que escolhe uma escravizada sobre sua própria classe, sobre tudo que sua linhagem representa. Admito, Adriano respondeu sem hesitar, e faria de novo. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

    Ninguém esperava que o duque confirmasse os rumores tão abertamente. vira por um momento, pareceu genuinamente chocada, mas então recuperou-se e o sorriso que curvou seus lábios era pura malícia. Muito bem, se é assim que quer jogar, Adriano, então que todos aqui testemunhem sua queda.

    A partir deste momento, você não é mais bem-vindo nos salões da nobreza. Seus negócios serão boicotados, seus aliados afastados e quando estiver sozinho e arruinado, verá que sua escolha foi um erro fatal. Adriano deu um passo em direção a ela, os olhos ardendo. Ameaças não me assustam, vira. Já perdi tudo uma vez. Não tenho medo de perder novamente.

    Foi quando Gregor Velmont emergiu da multidão, cambaleando levemente, claramente embriagado. Seus olhos estavam injetados de ódio enquanto apontava para a mansão. Aquela mulher carrega meu filho! Ele gritou. E o duque quer roubá-lo de mim. Isso é rapto, é crime. A confissão pública detonou um caos imediato. Gritos de indignação misturaram-se a acusações. A multidão começou a avançar em direção à mansão.

    Adriano recuou, posicionando-se na entrada, bloqueando a passagem com o próprio corpo. “Quem ousar cruzar esta soleira”, ele disse, “a mão indo ao cabo da espada que trazia a cintura enfrentará as consequências.” Mas então uma voz suave cortou através do tumulto. Parem. Todos se viraram.

    No topo das escadas da entrada, iluminada pelas tochas, estava a Iana. Ela descia lentamente, cada passo custando-lhe um esforço visível. O rosto estava pálido, as mãos tremiam, mas seus olhos cor de mel brilhavam com uma determinação inabalável. Aana, não. Adriano começou, mas ela ergueu a mão pedindo silêncio. Eu não posso permitir que ele perca tudo por minha causa ela disse.

    A voz firme, apesar das lágrimas que corriam por seu rosto. Eu irei com vocês. Farei o que for necessário, mas por favor poupem-no. Não. Adriano rugiu correndo até ela e segurando-a pelos braços. Você não vai a lugar nenhum. Aana olhou para ele e naquele olhar havia tanto amor quanto desespero. “Eu preciso”, ela sussurrou.

    “Porque te amo demais para deixar que te destruam.” As palavras caíram como um raio. Adriano sentiu o mundo girar ao seu redor. Ela amava-o, apesar de tudo, apesar do abismo social entre eles, apesar do impossível, ela amava-o. E naquele momento, algo dentro dele se quebrou completamente. “Então, nos destruiremos juntos.

    ” Ele disse, puxando-a para seus braços. Porque não há mundo onde eu aceite viver sem você. Foi quando Aana soltou um grito de dor, dobrando-se sobre si mesma. Líquido, escorreu por suas pernas, manchando o chão de pedra. O bebê, ela o fegou. O bebê está chegando. O pânico tomou conta do pátio. A multidão recuou atônita.

    Elvira ficou paralisada, o triunfo morrendo em seus olhos. E Adriano, pela segunda vez desde que conhecera a Iana, sentiu verdadeiro medo. “Chamem o médico”, ele ordenou, carregando a nos braços. Agora, mas enquanto subia as escadas de volta para a mansão, uma voz cruel ecoou atrás dele.

    Se a criança nascer com vida, Gregor gritou, ela será minha propriedade por lei e você não poderá fazer nada para impedir. As horas que se seguiram foram as mais longas da vida de Adriano. Ele permaneceu do lado de fora do quarto, onde a Iana lutava para trazer a criança ao mundo. Os punhos cerrados, o coração martelando contra as costelas.

    Cada grito de dor que atravessava a porta era uma lâmina cravando-se em sua alma. Lá embaixo, a multidão esperava. Elvira, Gregor, os nobres, indignados, todos aguardando o desfecho daquela noite impossível. Alguns por curiosidade mórbida, outros por sede de justiça distorcida. Dona Beatriz entrava e saía do quarto trazendo toalhas e água quente, o rosto grave, mas gentil.

    Em um desses momentos, ela parou ao lado de Adriano e colocou a mão em seu ombro. Ela é forte do que mais forte do que imagina. Vai sobreviver. E se não sobreviver? Adriano sussurrou, a voz quebrando pela primeira vez. E se eu a perder como perdi? Ele não conseguiu terminar. As memórias da esposa e do filho vieram como uma avalanche.

    A sala de parto banhada em sangue, os gritos que cessaram abruptamente, o silêncio pesado que se seguiu tão final quanto a morte. Você não vai perder lá. Dona Beatriz disse com firmeza. Porque desta vez você está aqui, está lutando, está escolhendo o amor ao invés do medo. As palavras tocaram algo profundo em Adriano. Ela tinha razão.

    Quando sua esposa morrera, ele estava longe, resolvendo negócios que pareciam importantes na época. não estivera lá para segurá-la, para dizer que a amava, para lutar ao lado dela, mas agora era diferente. Agora ele estava presente. De repente, um choro ecoou do quarto. Um choro agudo, forte, vibrante de vida.

    Adriano quase derrubou a porta ao entrar. Lá dentro, a Iana estava deitada na cama, pálida e exausta, mas viva. E nos braços de dona Beatriz, envolto em um cobertor branco, um bebê chorava com toda a força de seus pequenos pulmões. É uma menina dona Beatriz anunciou, os olhos brilhando de lágrimas. Uma menina linda e saudável.

    Adriano caminhou até a cama como se estivesse em transe. Ana ergueu os olhos para ele e naquele olhar havia tanto alívio quanto medo. “Ela está viva”, Aana sussurrou. “Nossa filha está viva. A palavra nossa ecoou no coração de Adriano. Ele estendeu os braços e dona Beatriz colocou a criança neles com cuidado. Era tão pequena, tão frágil, mas perfeita. Tinha a pele morena de Aana e um tufo de cabelos escuros.

    Quando abriu os olhos pela primeira vez, eram grandes e curiosos. “Ela é perfeita”, Adriano murmurou completamente encantado. “Mas a realidade bateu a porta de forma brutal. Passos pesados ecoaram pelo corredor e Gregor invadiu o quarto, seguido por Elvira e vários outros nobres.” Está feito. Então, Gregor disse, os olhos fixos no bebê.

    A bastarda nasceu e agora, por lei, pertence a mim. Adriano virou-se lentamente, ainda segurando a criança contra o peito. Seus olhos azuis estavam tão frios que Gregor instintivamente recuou. Esta criança não pertence a ninguém além de sua mãe. Adriano disse: “Cada palavra medida e você não vai tocar lá.

    A lei está do meu lado”, Gregor insistiu, mas sua voz tremia. “A mãe é escravizada. A criança é minha propriedade por herança.” Foi então que uma voz idosa e compassiva ecoou da entrada do quarto. Na verdade, não é. Todos se viraram. Frei Maurício Valcour estava na soleira segurando um documento envelhecido. Seus olhos pardos eram gentis, mas firmes. Ana Morel nunca deveria ter sido escravizada.

    O Frei continuou entrando no quarto. Sua mãe era indígena livre, seu pai um comerciante francês. Quando ambos faleceram, a tutela dela foi roubada ilegalmente pela família Velmont. Tenho aqui os documentos que provam sua liberdade de nascimento. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Gregor ficou lívido.

    Eu vira a boca aberta e Adriano sentiu uma esperança feroz acender em seu peito. Isto é mentira, Gregor gritou. Documentos forjados são autênticos. Frei Maurício retrucou calmamente. Registrados nos arquivos da igreja. A Iana sempre foi livre, e uma mulher livre não pode ser propriedade, nem ela, nem sua filha. A verdade caiu sobre todos como um raio. Ana, deitada na cama começou a chorar, mas eram lágrimas de alívio avaçalador. Livre.

    Ela era livre, sempre fora. Adriano ajoelhou-se ao lado da cama, ainda segurando o bebê, os olhos brilhando de emoção. “Você ouviu?” Ele sussurrou para Aana. “Você é livre. Vocês duas são livres. Gregor, percebendo que perdera, recuou em direção à porta. Euvira o seguiu, mas antes de sair, lançou um último olhar para Adriano.

    Você escolheu sua ruína? Ela disse amargamente. Não, Adriano respondeu, olhando para Aana e a criança. Escolhi minha redenção. Nos meses que se seguiram, o escândalo gradualmente se dissipou. Alguns nobres viraram as costas para Adriano, mas outros, surpresos por sua coragem, tornaram-se aliados inesperados. A sociedade, sempre volúvel, encontrou novos escândalos para se ocupar.

    Adriano pediu a em casamento uma semana após o nascimento da menina. A cerimônia foi simples, realizada na capela da mansão, com poucos convidados, mas muito amor. A pequena Helena cresceu forte e saudável, cercada pelo amor de ambos os pais. Adriano descobriu que ser pai era a maior alegria que jamais experimentara, e cada sorriso da filha curava um pouco mais das feridas antigas. Aana florescia na liberdade.

    Sua força natural, antes sufocada pela escravidão, agora brilhava em tudo que fazia. Ela transformou parte da mansão em um refúgio para outras pessoas escravizadas que fugiam de senhores cruéis, trabalhando ao lado de Frei Maurício para devolver dignidade a quem havia perdido tudo.

    E Adriano, o homem que fora conhecido por sua frieza implacável, tornou-se exemplo de que até os corações mais endurecidos podem aprender a amar novamente. Numa tarde ensolarada, anos depois, Adriano observava a Iana brincar no jardim com Helena, agora uma menina vibrante de 5 anos. Dona Beatriz aproximou-se dele. Quem diria, Duque, que um mergulho em águas turbulentas mudaria tudo. Adriano sorriu, um sorriso genuíno e pleno.

    Às vezes, precisamos mergulhar nas profundezas para encontrar o que realmente vale a pena salvar. E assim o duque, que nunca mostrara piedade, descobriu que a verdadeira força não está em ser implacável, mas em ter coragem de escolher o amor, mesmo quando todo mundo se volta contra você, porque no final são essas escolhas corajosas que definem quem realmente somos.

    E assim terminamos essa jornada emocionante. Muito obrigado por ter acompanhado essa história até o final. Se você se emocionou com a trajetória de Aana e Adriano, não se esqueça de deixar seu like e se inscrever no canal para não perder as próximas histórias que preparamos com todo carinho para você. Nos vemos na próxima novela. Até breve.

    M.

  • Como um truque “estúpido” de um escravo matou 214 capitães do mato em 7 meses

    Como um truque “estúpido” de um escravo matou 214 capitães do mato em 7 meses

    Em 1848, um escravo chamado Joaquim criou uma armadilha tão simples que ninguém levou a sério. 7 meses depois, 214 capitães do mato estavam mortos. E o pior, eles mesmos se mataram. Se você gosta de histórias reais que parecem impossíveis, se inscreve no canal e deixe o like, porque aqui você vai encontrar relatos que os livros de história tentaram esconder.

    E me conta nos comentários de onde você está assistindo. Deixa eu te contar como tudo começou. Joaquim não era um escravo qualquer. Ele tinha sido capturado em Angola quando tinha apenas 12 anos e foi trazido pro Brasil, acorrentado num navio negreiro. A viagem durou 47 dias. 47 dias. trancado no porão de um navio, acorrentado no pescoço e nos pés, comendo uma vez por dia, vendo pessoas morrerem ao lado dele de doença, fome e desespero.

    Dos 312 africanos que entraram naquele navio, só 198 chegaram vivos no porto do Rio de Janeiro. Joaquim era um deles. Quando chegou na fazenda do coronel Mendes, no interior de Minas Gerais, ele viu algo que marcou sua vida para sempre. um capitão do mato chicoteando um homem até a morte, só porque ele tinha tentado fugir. O corpo ficou pendurado na árvore por três dias, como exemplo.

    Joaquim tinha 19 anos nessa época e jurou para si mesmo que um dia ia encontrar um jeito de acabar com aqueles homens, mas ele não tinha armas, não tinha força física para enfrentar homens armados até os dentes. O que ele tinha era algo que ninguém esperava, paciência e conhecimento sobre a floresta. Vou te explicar uma coisa sobre Joaquim que faz toda a diferença nessa história.

    Antes de ser capturado em Angola, ele tinha crescido numa aldeia chamada Embanza, no interior do país. O pai dele era caçador. Desde os 6 anos de idade, Joaquim aprendia a criar armadilhas para caçar animais. armadilhas de corda, de estaca, de buraco coberto, de laço.

    Ele sabia exatamente como fazer um animal seguir um caminho específico, como criar iscas que pareciam naturais, como esconder uma armadilha tão bem que nem o animal mais esperto conseguia perceber. Essas habilidades ficaram guardadas na memória dele durante todos aqueles anos de escravidão.

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    E agora, 7 anos depois de chegar no Brasil, ele finalmente ia usar esse conhecimento, mas não para caçar animais, para caçar homens. Agora vem a primeira coisa que você precisa entender sobre o que Joaquim fez. Ele percebeu uma falha fatal no sistema dos capitães do mato. A ganância. Esses homens eram pagos por cada escravo que capturavam vivo ou morto.

    Vivo valia mais, claro, porque o escravo podia ser devolvido pro dono e continuar trabalhando. Mas morto também dava dinheiro, desde que eles trouxessem alguma prova, tipo uma orelha ou um dedo. Era um sistema brutal que incentivava esses homens a serem cada vez mais violentos.

    E quanto mais escravos fugiam, mais dinheiro eles faziam. Então, Joaquim bolou o seguinte. Ele começou a espalhar um boato entre os escravos da região. Dizia que tinha descoberto uma rota secreta na floresta que levava direto pro quilombo mais protegido da área, um lugar chamado quilombo da Serra Negra, onde nenhum capitão do mato conseguia entrar porque era protegido por guerreiros armados e ficava no alto de um morro impossível de escalar, sem conhecer o caminho certo.

    Mas essa rota tinha uma marca especial que só os escravos conseguiam ver. Uma série de arranhões específicos nas árvores que formavam um padrão, três linhas horizontais, duas verticais, formando uma espécie de escada desenhada na casca da árvore. O truque, esse padrão, não existia. Joaquim inventou tudo, mas ele sabia que os capitães do mato tinham informantes entre os escravos, aqueles que trocavam informação por comida ou tratamento melhor.

    Tinha sempre um ou dois em cada fazenda. Homens e mulheres que estavam tão quebrados pelo sistema que faziam qualquer coisa para ter um dia de sofrimento a menos. Joaquim não julgava essas pessoas. Ele entendia, mas ele ia usar elas pro plano dele. Ele começou a contar a história da rota secreta pro escravo, certo, um homem chamado Damião, que todo mundo sabia que passava informação pro feitor em troca de cachaça.

    Joaquim fingiu que estava bêbado uma noite e contou para Damião, fazendo parecer que era um segredo enorme, que ele tinha descoberto aquelas marcas por acaso quando foi buscar lenha na floresta e que vários escravos de outras fazendas já tinham usado aquela rota para fugir com sucesso.

    Ele até inventou nomes de pessoas que tinham conseguido chegar no quilombo. Damião mordeu a isca completamente. No dia seguinte, ele foi direto pro feitor contar tudo. Feitor contou pro Coronel Mendes. O Coronel Mendes contou pros capitães do mato que ele contratava. E foi exatamente isso que Joaquim queria. Em menos de duas semanas, todos os capitães do mato da região sabiam sobre a rota secreta e as marcas nas árvores.

    Eles começaram a procurar por essas marcas em cada patrulha que faziam. Aqui é onde a história fica assustadora. Joaquim não parou por aí. Ele começou a segunda fase do plano. Durante meses, ele estudou cada trilha que os capitães do mato usavam para caçar escravos fugitivos. Toda vez que ele era mandado para trabalhar na roça mais distante, toda vez que ia buscar água no rio, toda vez que tinha qualquer desculpa para se aproximar da floresta, ele observava.

    Ele sabia onde eles acampavam, sabia por onde passavam, sabia até que horas eles costumavam fazer ronda. Ele memorizou cada árvore grande, cada pedra marcante, cada curva das trilhas. Joaquim tinha uma memória fotográfica. Uma vez que ele via um lugar, nunca mais esquecia. E ele usou isso a favor dele.

    Então, numa noite de lua nova, em março de 1848, Joaquim colocou o plano em ação. A lua nova era importante porque significava escuridão total. Ninguém ia conseguir ver ele trabalhando. Ele esperou até todo mundo na senzala estar dormindo. Esperou até os feitores terminarem a última ronda.

    E então, por volta das 2as da manhã, ele se arrastou para fora da cenzala, passou pelos guardas como uma sombra e entrou na floresta com ferramentas que ele tinha roubado aos poucos da fazenda durante meses. três facões velhos que tinham sido descartados, pedaços de corda feita de fibra de palmeira que ele mesmo tinha trançado escondido, estacas de madeira que ele tinha afiado usando pedra. Ele tinha escondido tudo isso num buraco na base de uma árvore específica, coberto com folhas e terra, esperando pelo momento certo. Joaquim passou aquela noite inteira trabalhando.

    Ele tinha planejado tudo nos mínimos detalhes. Primeiro, ele encontrou a trilha principal que os capitães do mato mais usavam. Uma trilha que cortava a floresta de leste a oeste e que levava direto para as fazendas da região. Ele escolheu 10 árvores ao longo dessa trilha. árvores grandes e velhas que chamavam atenção. E em cada uma dessas árvores, ele fez as marcas.

    Três linhas horizontais, duas verticais, a escada falsa. Ele usou o facão para cortar a casca das árvores, mas fez de um jeito que parecesse que as marcas tinham sido feitas com pressa, como se alguém tivesse passado correndo e marcado o caminho rapidamente. Tinha que parecer real. Tinha que parecer que escravos fugitivos realmente tinham feito aquilo.

    Mas aqui vem a parte genial. Joaquim não fez as armadilhas logo depois das marcas, onde qualquer pessoa esperaria. Ele fez as armadilhas uns 30 ou 40 m antes de cada árvore marcada. Por quê? Porque ele sabia que quando os capitães do mato vissem a marca na árvore, eles iam acelerar o passo, iam correr na direção da próxima marca, animados por estarem seguindo a trilha dos escravos fugitivos.

    E eles iam estar olhando pra frente, procurando a próxima árvore marcada, não olhando pro chão logo abaixo dos pés deles. Foi nisso que Joaquim contou. Na distração causada pela própria descoberta deles, ele cavou o primeiro buraco com as próprias mãos. A terra estava macia por causa das chuvas recentes, o que facilitou o trabalho.

    Ele cavou fundo, quase 2 m de profundidade, num formato afunilado, que ficava mais estreito conforme descia. No fundo, ele fcou seis estacas de madeira que ele tinha afiado até ficarem como lanças. Ele inclinou as estacas ligeiramente para cima, de forma que qualquer pessoa que caísse ali seria empalada em pelo menos duas ou três delas.

    Depois, ele cobriu o buraco com galhos finos arranjados numa espécie de grade frágil, cobriu os galhos com folhas secas e por cima das folhas ele jogou terra fresca e mais folhas, fazendo tudo parecer chão firme. Quando terminou, nem ele mesmo conseguia ver onde estava a armadilha. E ele sabia exatamente onde tinha cavado. Era perfeito. Ele repetiu o processo nove vezes naquela primeira noite, criando 10 armadilhas ao longo da trilha principal.

    Quando o sol começou a clarear, por volta das 5:30 da manhã, Joaquim voltou para Senzala, escondeu as ferramentas de novo no buraco da árvore, limpou a terra das mãos e dos pés num riacho próximo e se deitou na cama de palha dele, como se tivesse dormido a noite inteira. Duas horas depois, o sino tocava, acordando todo mundo pro trabalho.

    Joaquim se levantou com os outros, tomou a água com farinha que servia de café da manhã e foi trabalhar na lavoura de café. Como em qualquer outro dia, ninguém suspeitou de nada. Ninguém notou as olheiras, o cansaço, a terra ainda grudada debaixo das unhas dele. Três dias depois aconteceu a primeira morte. O capitão do mato se chamava Bento da Silva.

    Ele tinha 34 anos e trabalhava caçando escravos fugitivos há quase 12 anos. Era conhecido na região por ser particularmente cruel. tinha o hábito de cortar a orelha dos escravos que capturava, mesmo quando eles não resistiam, só para deixar uma marca que todo mundo pudesse ver. Naquele dia, Bento estava perseguindo um escravo que tinha fugido da fazenda vizinha.

    Ele tinha dois cães de caça com ele e estava seguindo o rastro pela floresta quando viu a primeira marca na árvore. Os três riscos horizontais, os dois verticais. Ele parou, olhou ao redor, sorriu. Ele tinha ouvido falar sobre aquelas marcas, sobre a tal rota secreta pro quilombo e agora ele tinha encontrado. Bento amarrou os cães numa árvore.

    Ele não queria que os latidos assustassem outros escravos que pudessem estar usando a rota. Ele queria pegar todo mundo de surpresa. Ele seguiu andando pela trilha, procurando pela próxima marca. quando viu a segunda árvore marcada uns 60 m à frente, ele acelerou o passo, depois começou a correr. Estava animado. Estava imaginando a recompensa que ia ganhar quando capturasse todos aqueles escravos fugitivos de uma vez.

    Estava tão focado na árvore marcada que não percebeu que o chão à frente dele parecia ligeiramente diferente. Não percebeu que as folhas estavam arranjadas de forma artificial. não percebeu nada até o momento em que pisou na armadilha e o chão cedeu embaixo dos pés dele. Bento caiu dois m. As estacas atravessaram o corpo dele em quatro lugares diferentes.

    Uma entrou pela coxa esquerda e saiu pelas costas. Duas perfuraram o abdômen e uma entrou pelo ombro direito. Ele não morreu na hora. ficou preso ali, empalado nas estacas, sentindo uma dor que nenhum ser humano deveria sentir. Ele tentou gritar, mas o sangue encheu a garganta dele. Tentou se mexer, mas cada movimento fazia as estacas rasgarem mais a carne.

    Os cães que ele tinha deixado amarrados começaram a latir ao longe, ouvindo os sons agônicos do dono. Mas ninguém veio. Ento levou quase uma hora para morrer, sozinho no fundo daquele buraco, olhando pro pequeno círculo de céu azul acima da cabeça dele. Encontraram o corpo dois dias depois.

    Os cães tinham conseguido se soltar e voltaram pra cidade latindo e agitados. Um grupo de quatro capitães do mato voltou pra floresta para procurar por Bento. Quando acharam ele, ficaram chocados. Nunca tinham visto nada parecido. Assumiram que tinha sido uma armadilha feita por escravos. fugitivos para se defender. A morte foi registrada como acidente durante patrulha.

    O delegado da cidade escreveu no relatório: “O capitão do Mato Bento da Silva faleceu em decorrência de queda em armadilha, possivelmente construída por negros fugitivos. Recomenda-se cautela redobrada nas patrulhas. E foi só isso. Ninguém imaginou que aquilo era só o começo. Ninguém imaginou que tinha um plano maior acontecendo. Joaquim soube da morte de Bento no mesmo dia em que encontraram o corpo. A notícia se espalhou rápido entre os escravos.

    Alguns ficaram com medo, achando que os capitães do mato iam ficar ainda mais violentos em retaliação. Mas Joaquim não demonstrou nenhuma reação. Continuou trabalhando normalmente, cortando cana, carregando sacos, obedecendo todas as ordens. Por dentro, porém, ele estava sentindo uma mistura estranha de satisfação e horror.

    Era a primeira vez que ele matava alguém, mesmo que indiretamente, mas quando lembrava da cena que tinha visto 7 anos atrás, do homem sendo chicoteado até a morte, do corpo pendurado na árvore, a satisfação vencia o horror. Um capitão do mato a menos significava menos sofrimento pro povo dele.

    significava justiça, do jeito que ela podia existir naquele mundo cruel. Uma semana depois, dois capitães do mato morreram do mesmo jeito. Eles estavam patrulhando juntos quando viram as marcas. Decidiram seguir a trilha. O primeiro caiu na armadilha. O segundo, ao ouvir o grito do parceiro, correu na direção do som, sem olhar pro chão, e caiu na armadilha seguinte, que ficava só alguns metros de distância.

    Ambos morreram antes de conseguir qualquer ajuda. Depois foi a vez de três capitães do mato de uma cidade vizinha. Eles tinham vindo especialmente para investigar as mortes estranhas e acabaram virando vítimas também. Depois mais cinco de uma vez porque estavam em grupo e o primeiro que caiu gritou, fazendo os outros correrem na direção do grito, sem pensar, caindo nas armadilhas seguintes como peças de dominó.

    Em 2 meses, 37 capitães do mato estavam mortos. A notícia começou a se espalhar pela província inteira. Jornais de Ouro Preto e do Rio de Janeiro publicaram artigos sobre as mortes misteriosas. Um jornal chamado A Sentinela do Império escreveu: “Uma série de tragédias tem assolado os homens do mato na região de Minas.

    Armadilhas mortais de origem desconhecida, t ceifado a vida de nossos bravos caçadores. As autoridades investigam se há uma organização criminosa por trás dos ataques. Era engraçado como eles chamavam os capitães do mato de bravos caçadores, como se fossem heróis, quando na verdade eram homens que ganhavam a vida torturando e matando pessoas escravizadas. Aqui é onde você precisa entender a genialidade do que Joaquim fez.

    Ele não estava apenas matando capitães do mar, ele estava usando o próprio sistema deles contra eles mesmos. Quanto mais capitães morriam, mais novos capitães eram contratados para substituir os mortos. O trabalho pagava bem, especialmente com tantas vagas abrindo. Então, sempre tinha homem desesperado por dinheiro disposto a arriscar.

    E esses novos capitães chegavam ansiosos para provar seu valor, para ganhar dinheiro rápido, para mostrar que eram melhores que aqueles que tinham morrido. Então, quando viam as marcas nas árvores, quando escutavam sobre a tal rota secreta do quilombo, eles corriam direto pras armadilhas. Era como um ciclo vicioso que se alimentava sozinho. Quanto mais homens morriam, mais homens vinham.

    Quanto mais homens vinham, mais morriam. E tinha mais. Os capitães do mato que sobreviviam, aqueles que tinham sorte suficiente para nunca encontrar as marcas ou que eram cautelosos demais para seguir a trilha, começaram a ficar paranoicos. Eles não sabiam onde estavam as armadilhas exatamente, não sabiam quantas eram.

    Não sabiam se aquela trilha era segura ou se o próximo passo seria o último. O medo se espalhou mais rápido que qualquer doença. Alguns começaram a andar tão devagar que ficavam horas para percorrer distâncias curtas, tornando muito mais fácil pros escravos fugirem sem serem pego. Outros começaram a atirar em qualquer coisa que se mexia na floresta, matando uns aos outros por engano em pelo menos três ocasiões diferentes.

    O capitão do mato chamado Francisco matou o próprio irmão assim, pensando que era um escravo fugitivo se escondendo atrás de uma árvore. Enquanto isso, Joaquim continuava seu trabalho silencioso. Toda a lua nova ele saía da cenzala e passava a noite criando mais armadilhas, expandindo a área coberta. Ele começou a fazer armadilhas em outras trilhas também, sempre colocando as marcas falsas nas árvores, sempre cavando os buracos nos lugares mais estratégicos. Ele desenvolveu um sistema quase industrial.

    Conseguia cavar um buraco completo, com estacas e cobertura em menos de 40 minutos. Numa noite boa, ele criava até oito armadilhas novas e ele começou a fazer variações também. Algumas armadilhas eram mais rasas, mas tinham mais estacas. Outras eram muito fundas e estreitas, fazendo a pessoa ficar presa lá embaixo sem conseguir subir.

    Ele até criou algumas armadilhas duplas, onde tinha uma armadilha falsa e óbvia, e quando a pessoa desviava dela, caía na armadilha real que estava do lado. Joaquim observava tudo de longe, continuando seu trabalho na fazenda como se nada tivesse acontecido. dia. Ele era o escravo perfeito, obediente, trabalhador, quieto, nunca reclamava, nunca questionava ordens, nunca causava problemas.

    O coronel Mendes até comentou uma vez com a esposa que Joaquim era um dos melhores escravos que eles tinham, sempre prestativo e confiável. Se ele soubesse que aquele mesmo homem era responsável pela morte de dezenas de capitães do mato, provavelmente teria um ataque do coração ali mesmo, mas ninguém suspeitava. Como poderiam? Joaquim era apenas mais um escravo entre centenas.

    Era invisível e ele usava essa invisibilidade como proteção. Os meses foram passando e o número de mortes só aumentava. Março, 37 mortos. Abril 41 mortos. Maio, 53 mortos. Junho, 38 mortos. As autoridades locais começaram a perceber que algo estava muito errado. 20 capitães do mato mortos em um mês já seria alarmante, mas 50, isso era uma catástrofe.

    O delegado de polícia da região, um homem chamado Capitão Augusto Ferreira da Cunha, decidiu que tinha que agir. Ele escreveu um relatório detalhado pro presidente da província, explicando a situação e pedindo reforços. dizia que claramente havia uma organização criminosa complexa operando na região, provavelmente liderada por algum escravo fugitivo experiente que tinha conhecimento militar.

    Ele estimava que pelo menos 20 a 30 pessoas estariam envolvidas na criação de tantas armadilhas. A resposta veio duas semanas depois. O presidente da província mandou um destacamento de 15 soldados do exército para investigar e resolver a situação. Eram soldados experientes, a maioria veteranos da guerra da cisplatina.

    Homens que tinham visto combate real, que sabiam como rastrear inimigos, que conheciam táticas militares. Eles chegaram na região com confiança total de que iam descobrir quem estava por trás das mortes e acabar com aquilo em questão de dias. O comandante do grupo, um sargento chamado Teodoro, até fez um discurso público na Praça da cidade, dizendo que os responsáveis seriam capturados e enforcados em menos de uma semana.

    Joaquim assistiu esse discurso de longe. Ele tinha sido mandado pra cidade pelo feitor para buscar suprimentos e estava na praça quando Teodoro falou. Ele olhou pro sargento nos olhos. Um homem branco, alto, forte, com uniforme impecável e uma espada na cintura. Um homem acostumado a dar ordens e ser obedecido.

    Um homem que provavelmente nunca tinha imaginado que pudesse ser derrotado por um escravo. Joaquim quase sorriu, mas se controlou. Ele sabia que precisava continuar invisível. Então abaixou os olhos, fingiu ser o escravo submisso que todos esperavam ver, e voltou pra fazenda com os sacos de farinha que tinha ido buscar.

    Os soldados começaram a investigação entrando na floresta em formação militar, com scouts avançados, checando cada trilha, cada árvore, cada pedaço de chão. Eles acharam as marcas nas árvores. Acharam até algumas armadilhas, porque Joaquim tinha deixado algumas mais óbvias de propósito, sabendo que seriam descobertas.

    Os soldados acharam aquilo e ficaram aliviados, pensando que tinham resolvido o problema. desmancharam cinco armadilhas numa tarde e reportaram pro sargento Teodoro, que tinha achado e destruído as armadilhas dos criminoso. Teodoro ficou satisfeito. Escreveu um relatório dizendo que a situação estava sob controle. Dois dias depois, oito soldados estavam mortos.

    Eles tinham entrado numa parte da floresta que achavam que estava segura numa trilha que parecia não ter marcas. Mas Joaquim tinha criado armadilhas ali também, sem marcas nas árvores, justamente para pegar quem estivesse procurando pelas marcas e evitando aquelas trilhas. Foi uma emboscada perfeita. Os soldados estavam andando em fila quando o primeiro caiu.

    Os outros correram para ajudar e mais três caíram. Os quatro restantes daquele grupo conseguiram voltar, mas um deles tinha ferimentos tão graves nos órgãos internos que morreu no dia seguinte. Dois outros ficaram aleijados permanentemente. Só um saiu sem ferimentos graves.

    O sargento Teodoro ficou furioso, mandou chamar reforços, mas 12 soldados foram enviados. E dessa vez Teodoro decidiu usar uma tática diferente. Se as armadilhas estavam escondidas no chão, ele ia queimar a floresta inteira. Ordenou que os soldados trouxessem pólvora e tochas. A ideia era simples, incendiar grandes áreas da mata. Forçar os responsáveis pelas armadilhas a saírem do esconderijo foi um plano desesperado e brutal que colocaria em risco não só os escravos fugitivos, mas também fazendeiros da região, cujas propriedades ficavam perto da floresta. Mas Teodoro não ligava. Ele só queria

    resolver aquele problema que tinha virado uma humilhação pessoal para ele. Joaquim soube do plano através da mesma escrava que trabalhava na Casagre, uma mulher chamada Rosa, que limpava os quartos e ouvia as conversas entre o coronel Mendes e os militares. Rosa contou discretamente para Joaquim o que estava sendo planejado.

    Joaquim ficou preocupado pela primeira vez desde que tinha começado tudo aquilo. Um incêndio poderia destruir tudo. poderia matar escravos inocentes que realmente viviam em quilombos na região. Poderia devastar a floresta inteira, acabando com a fonte de água e comida de muita gente. Ele precisava fazer alguma coisa. Foi aí que Joaquim tomou a decisão mais arriscada da vida dele.

    Em vez de parar, em vez de deixar os soldados queimarem a floresta, ele decidiu atacar de forma mais direta. Ele esperou até saber onde os soldados estavam acampados. num claro da floresta perto de um rio. E então, numa noite sem lua, ele se aproximou do acampamento. Tinha seis soldados de guarda e mais 15 dormindo em barracas.

    Joaquim não chegou perto o suficiente para ser visto. Ele ficou a uns 100 m de distância, escondido atrás de árvores grossas, e então fez algo simples, mas eficaz. começou a fazer barulhos. Bateu galhos contra árvores, imitou sons de animais, jogou pedras em direções diferentes. Os guardas ficaram alertas, acordaram os outros soldados, pegaram as armas e começaram a investigar.

    Joaquim foi recuando lentamente, fazendo barulhos em intervalos regulares, criando uma trilha sonora que os soldados seguiram. Ele os levou direto pra área da floresta, onde tinha criado as armadilhas mais mortais, um trecho onde tinha 12 armadilhas num espaço de apenas 50 m. Os soldados estavam focados em encontrar quem estava fazendo os barulhos.

    Estavam com as armas em punho, os olhos fixos na escuridão à frente e não estavam olhando pro chão. Cinco deles caíram em armadilhas em menos de 3 minutos. Os gritos ecoaram pela floresta. Os soldados restantes entraram em pânico, começaram a atirar para todos os lados, gritando ordens confusas uns pros outros. Três deles atiraram em companheiros por engano na confusão e na escuridão. Dois caíram em mais armadilhas, tentando recuar.

    No final, só quatro soldados conseguiram voltar para acampamento, e esses quatro estavam tão traumatizados que dois deles desertaram na manhã seguinte, fugindo de volta pra cidade e depois desaparecendo completamente. O sargento Teodoro percebeu que tinha perdido. Ele tinha chegado com 27 homens, agora tinha oito vivos. E desses oit, três estavam feridos demais para continuar lutando.

    Ele escreveu um último relatório pro presidente da província, dizendo que a situação estava além do controle dele, que precisavam de um batalhão inteiro para resolver aquilo, que havia uma força organizada e extremamente eficiente operando na região. Ele usou palavras como táticas avançadas e conhecimento militar superior.

    Nunca passou pela cabeça dele que podia ser o trabalho de uma pessoa só, muito menos de um escravo. Teodoro deixou a região uma semana depois, com os homens que sobraram, a notícia da derrota do exército se espalhou rapidamente. Os jornais publicaram artigos dramáticos sobre a misteriosa força rebelde que estava derrotando até soldados treinar.

    Alguns jornalistas começaram a especular que podia ser um movimento abolicionista secreto financiado por estrangeiros. Outros achavam que eram ex-soldados brasileiros que tinham se juntado aos escravos fugitivos. Ninguém chegou perto da verdade. No quinto mês do plano de Joaquim, aconteceu o evento que quase mudou tudo.

    Um grupo de 12 capitães do mato decidiu que ia acabar com aquilo de uma vez. eram homens de diferentes cidades que tinham se unido especificamente para essa missão. O líder deles era um homem chamado Sebastião Borges, conhecido em toda a província por ser o capitão do mato mais eficiente e mais cruel que existia. Ele tinha capturado pessoalmente mais de 400 escravos fugitivos ao longo de 15 anos de carreira. Era famoso por nunca desistir de uma caçada.

    Dizia que tinha um sexto sentido para encontrar escravos, que conseguia farejar um rastro melhor que qualquer cão. Sebastião e seu grupo entraram na floresta com cães farejadores, tochas, armas e até dinamite que tinham conseguido com contrabandistas. A ideia deles era simples, explodir todas as armadilhas que encontrassem e matar qualquer pessoa que cruzasse o caminho.

    Eles não iam investigar, não iam tentar capturar ninguém vivo. Era uma missão de extermínio. Sebastião tinha anunciado publicamente que ia trazer de volta as cabeças dos responsáveis pelas mortes, não importava quantos fossem. Joaquim soube disso através de Rosa. Três dias antes da caçada acontecer. Ela tinha ouvido o coronel Mendes conversando com Sebastião na sala de jantar, oferecendo uma recompensa extravesse o problema. Joaquim teve três dias para se preparar.

    Três dias que ele usou da forma mais inteligente possível. Em vez de criar mais armadilhas do mesmo tipo, ele decidiu fazer algo diferente, algo que levaria em conta que Sebastião e seu grupo estariam procurando especificamente por armadilhas de buraco no chão.

    Joaquim passou as três noites criando o maior campo minado que já tinha feito, mas dessa vez ele diversificou as armadilhas. Além dos buracos no chão, ele amarrou cordas finas entre as árvores na altura do pescoço, quase invisíveis na escuridão da floresta. Cordas feitas com fibras de palmeira trançadas que ele tinha preparado durante semanas. Essas cordas eram fortes o suficiente para derrubar um homem correndo, mas finas o suficiente para serem praticamente invisíveis mesmo de dia.

    Ele posicionou as cordas estrategicamente nos lugares onde sabia que pessoas correndo passariam, especialmente perto das árvores marcadas que atraíam atenção. Mas Joaquim não parou aí. Ele também espalhou pedras soltas nas trilhas, pedras que faziam barulho quando pisadas, criando uma espécie de sistema de alarme natural. Qualquer um que passasse por ali faria barulho.

    E esse barulho atrairia os outros do grupo que viriam correndo. E quando viessem correndo, caiririam nas armadilhas. Era um sistema em cascata, onde cada elemento levava ao próximo. Então Joaquim fez algo que mostrava o quanto ele tinha aprendido sobre psicologia humana nesses meses todos. Ele criou armadilhas falsas, buracos vazios sem estacas.

    apenas buracos fundos cobertos com folhas. A ideia era que quando os capitães do mato encontrassem essas armadilhas falsas, iam pensar que tinham descoberto o truque todo. Iam baixar a guarda, iam ficar confiantes e então iam tropeçar nas armadilhas reais. Logo à frente, Joaquim trabalhou 18 horas seguidas durante aquelas três noites. Quase não dormiu.

    Suas mãos sangravam de tanto cavar. Suas costas doíam de tanto se curvar, mas ele continuou porque sabia que essa era a hora da verdade. Se Sebastião e seu grupo conseguissem descobrir que era ele, se conseguissem rastrear as armadilhas até a origem, tudo acabaria, não só para ele, mas para todos os escravos da região, porque a retaliação seria brutal.

    Então, Joaquim trabalhou com uma intensidade que beirava a insanidade, criando um labirinto mortal de armadilhas interligadas numa área de aproximadamente 2 km². Quando terminou, até ele mesmo tinha dificuldade de lembrar onde estava cada armadilha. Ele teve que criar um mapa mental muito detalhado para não cair nas próprias armadilhas quando precisasse voltar ali.

    A caçada começou numa quinta-feira de manhã, 15 de julho de 1848. Sebastião e seus 11 homens entraram na floresta confiantes, gritando ameaças, dizendo que iam acabar com todos os escravos fugitivos da região, que iam queimar o quilombo inteiro. Os cães latiam ferozmente, as tochas iluminavam o caminho, mesmo sendo dia claro, porque Sebastião queria que todos vissem ele chegando. Queria causar terror. Eles marchavam em formação.

    Três linhas de quatro homens cada. Sebastião ia na frente comandando. Eles tinham mapas das áreas onde tinham acontecido mais mortes. Tinham estudado os padrões. Achavam que sabiam o que estavam procurando. Duas horas depois de entrarem na floresta, eles encontraram a primeira árvore marcada. Sebastião examinou as marcas com cuidado. Três linhas horizontais, duas verticais.

    A famosa escada. Ele sorriu. Finalmente tinham encontrado a tal rota secreta. Ele ordenou que os homens avançassem devagar, checando o chão a cada passo. Eles andaram uns 20 m e encontraram a primeira armadilha. Era uma das falsas que Joaquim tinha criado, um buraco fundo mais vazio. Sebastião riu alto, mandou dois homens descerem no buraco para verificar.

    Confirmaram que não tinha estacas, nada. Era só um buraco. Sebastião ficou decepcionado. Pensou que talvez as histórias sobre as armadilhas mortais fossem exageradas. que talvez os capitães do mato anteriores eram incompetentes que tinham caído em buracos simples. Ele ordenou que o grupo continuasse, mas agora com mais confiança. Eles achavam que sabiam como as armadilhas funcionavam.

    Era só olhar pro chão e evitar os buracos. Fácil. Eles aceleraram o ritmo e foi exatamente o que Joaquim tinha previsto. Sebastião estava na frente quando pisou nas pedras soltas que Joaquim tinha espalhado. O barulho ecoou pela floresta. Sebastião olhou para baixo confuso e nesse momento de distração, ele não viu a corda na altura do pescoço.

    Ele continuou andando e a corda pegou ele no pescoço com tanta força que o jogou para trás. Sebastião caiu de costas, batendo a cabeça numa pedra. Não morreu, mas ficou atordoado, meio consciente, sangrando da cabeça. Os homens atrás dele viram o líder cair e correram para ajudar. Três deles tropeçaram na mesma corda que tinha derrubado Sebastião.

    Um quarto desviou da corda, mas pisou numa armadilha real, caindo num buraco de 2 m de profundidade com seis estacas no fundo. As estacas perfuraram o corpo dele em cinco lugares. Ele morreu gritando. Os gritos fizeram os outros homens entrarem em pânico. Os cães começaram a latir descontroladamente. Dois homens tentaram pegar as armas, mas estavam tão nervosos que derrubaram as tochas, que caíram em folhas secas e começaram um pequeno incêndio.

    O fogo se espalhou rapidamente porque era julho, época seca, e a floresta estava cheia de folhas e galhos secos. O fogo forçou o grupo a recuar, mas ao recuar eles entraram numa área onde Joaquim tinha concentrado várias armadilhas próximas umas das outras. Era uma espécie de campo minado. O primeiro homem a recuar caiu numa armadilha.

    O segundo pulou pro lado para desviar e caiu em outra. O terceiro ficou paralisado de medo, sem saber para onde ir, e acabou sendo atingido por um galho em chamas que caiu de uma árvore, queimando o rosto e os braços dele severamente. Ele correu cegamente e caiu numa armadilha também. Em questão de 10 minutos, cinco homens estavam mortos.

    Três estavam gravemente feridos, incluindo Sebastião, que ainda estava seminconsciente no chão, e apenas quatro estavam ilesos, mas completamente apavorados. Os quatro que ainda podiam andar tentaram carregar os feridos, mas o fogo estava se espalhando rápido demais. Eles tiveram que tomar uma decisão horrível, abandonar os feridos para salvar as próprias vidas.

    Eles pegaram Sebastião porque ele era o líder e tinha que sobreviver para contar o que aconteceu. E deixaram os outros três feridos para trás. Esses três morreram, dois queimados pelo fogo e um que sangrou até morrer de ferimentos das estacas. Os quatro que fugiram carregando Sebastião, encontraram mais armadilhas no caminho de saída. Um deles caiu e morreu.

    Os três restantes, incluindo Sebastião, que estava começando a recuperar a consciência, finalmente conseguiram sair da floresta mais de 5 horas depois de terem entrado. O fogo que começou naquele dia queimou por três dias antes de ser controlado pela chuva. destruiu uma área grande da floresta, mas ironicamente acabou servindo aos propósitos de Joaquim de certa forma, porque destruiu muitas das armadilhas que ele tinha criado, eliminando evidências.

    E mais importante, o fogo traumatizou tantos sobreviventes que nenhum capitão do mato queria mais entrar naquela floresta. Começaram a circular histórias de que a mata estava amaldiçoada, que espíritos vingativos protegiam os escravos fugitivos, que qualquer um que entrasse lá estava destinado a morrer de forma horrível.

    Sebastião Borges sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo. A queda tinha causado danos cerebrais. Ele começou a ter convulsões frequentes e perda de memória. Teve que se aposentar como capitão do mato. Passou os últimos anos da vida dele numa cadeira babando, sendo cuidado pela irmã. Morreu 3 anos depois, em 1851.

    Os outros dois sobreviventes da caçada também abandonaram a profissão. Um virou agricultor, o outro se mudou para outra província, querendo ficar o mais longe possível daquela região. Agora, deixa eu te explicar o que aconteceu nos dois últimos meses dessa história. Júlio tinha terminado com o desastre da caçada de Sebastião.

    Agosto chegou e as mortes diminuíram um pouco, porque menos capitães do mato estavam dispostos a entrar na floresta. Mas ainda tinha alguns corajosos ou desesperados o suficiente. Mas 28 morreram em agosto. Setembro viu mais 31 mortes e então chegou outubro. E foi nesse mês que tudo mudou. As autoridades finalmente decidiram que tinham que fazer algo drástico.

    O presidente da província, Dom Pedro de Alcântara Cerqueira e Silva, emitiu um decreto, oferecendo uma recompensa enorme para qualquer um que descobrisse quem estava por trás das mortes. A recompensa era de cinco contos de réis, uma fortuna na época, o equivalente a 5 anos de salário de um trabalhador comum.

    Além do dinheiro, ofereciam terras, 50 alqueires de terra fértil para quem trouxesse informação que levasse a captura dos responsáveis. E a oferta mais tentadora de todas, liberdade completa e imediata para qualquer escravo que entregasse informação válida. Não só liberdade pro escravo, mas também pra família dele, esposa e filhos. Quando o decreto foi lido publicamente nas praças de todas as cidades da região, Joaquim estava lá.

    Ele tinha ido à cidade para buscar suprimentos de novo. Ele ouviu cada palavra do decreto, viu os olhares de outros escravos e soube que estava em perigo, porque cinco contos de réis, mais terras, mais liberdade, era uma oferta que nenhum escravo no mundo recusaria se tivesse informação real para dar.

    E Joaquim sabia que, apesar de ter sido muito cuidadoso, sempre existia a possibilidade de alguém ter visto algo, ter notado algo estranho, ter conectado os pontos. Foi exatamente o que aconteceu. Tinha um escravo na fazenda do coronel Mendes, chamado Miguel. Ele tinha 43 anos e trabalhava como ferreiro. Tinha uma filha de 16 anos chamada Benedita, que trabalhava como muerciante da cidade.

    Miguel amava a filha mais que tudo no mundo. era viúvo.