Ele pensou que ganharia gado no pôquer, mas recebeu uma jovem chinesa como pagamento. O que o fazendeiro solitário fez com ela naquela noite chocou a cidade e atraiu assassinos para sua porta.

Corbin Hayes sentou-se naquela mesa de pôquer, pensando que estava prestes a ganhar gado e terras. Em vez disso, ele ganhou uma garota chinesa de 17 anos cujos olhos continham mais fogo do que medo.

O velho fazendeiro olhou para o documento em suas mãos calejadas. Mas não era uma escritura de propriedade. Era a custódia de um ser humano. E naquele momento, tudo o que ele pensava saber sobre ganhar e perder desmoronou como poeira.

O salão esfumaçado havia caído em silêncio, exceto pelo estalo da lareira. Cinco homens ao redor da mesa de madeira gasta, e Corbin segurava a mão vencedora: Ases sobre Reis. Ele deveria estar comemorando. Deveria estar contando seu dinheiro. Mas Jiang, o comerciante chinês, empurrou um pedaço de papel em vez de moedas.

— Não me resta nada além disso — disse Jiang, sua voz pouco acima de um sussurro. — Minha sobrinha, Linmai. Ela é uma trabalhadora esforçada. Sabe cozinhar. Sabe limpar. Ela vale mais do que qualquer gado.

A garganta de Corbin secou. Ele viera ali para ganhar dinheiro suficiente para comprar gado reprodutor para seu rancho falido. Três anos de seca haviam matado a maior parte de seu rebanho, e aos 45 anos, ele estava ficando sem tempo para construir algo duradouro. Os outros homens na mesa se mexeram desconfortavelmente, suas cadeiras rangendo contra o chão de madeira.

— Eu não quero uma garota — disse Corbin, empurrando o papel de volta pela mesa. — Fique com sua família.

Mas as mãos de Jiang tremiam. — Não, por favor, senhor. Eu devo dinheiro a homens muito perigosos. Eles virão amanhã se eu não puder pagar. — Ele não terminou a frase, mas o significado pairou no ar como fumaça.

A porta do salão rangeu ao abrir, e uma jovem entrou. Ela se movia com propósito, seu cabelo escuro puxado para trás em uma trança simples e apertada, seu vestido simples, mas limpo, apesar da poeira da viagem. Aquela devia ser Linmai.

Ela olhou diretamente para Corbin, e ele viu algo inesperado em seus olhos amendoados e escuros. Não desespero ou súplica, mas uma força tranquila que o lembrava de cavalos selvagens logo antes de decidirem se corriam ou lutavam.

— Tio — disse ela em um inglês cuidadoso —, você não precisa fazer isso.

Jiang virou-se para ela com lágrimas nos olhos. — Linmai, não há outro jeito. Esses homens… eles vão machucar nós dois se eu não pagar o que devo.

Corbin estudou o rosto da garota. Ela entendia exatamente o que estava acontecendo. Mas não estava chorando ou implorando. Ela estava calculando, pensando em opções como uma jogadora de pôquer experiente. Havia inteligência por trás daqueles olhos e algo mais que ele não conseguia identificar.

— Aceite a aposta ou desista, Hayes — rosnou Flannery, o dono do salão. — Não temos a noite toda.

Corbin olhou para suas cartas novamente. Uma mão vencedora que poderia mudar tudo, mas não da maneira que ele esperava. Quando se sentou naquela noite, pensou em seu rancho vazio, sua casa vazia, sua vida vazia estendendo-se à sua frente. Sem esposa, sem filhos, sem legado para deixar.

Mas algo no olhar firme daquela garota o fez pausar. Ela o observava com a intensidade de alguém tentando ler seu caráter, não suas intenções. — O que exatamente você quer que eu faça com ela? — perguntou Corbin calmamente.

Os olhos de Jiang correram nervosamente pelo salão antes de se inclinar para a frente. — Ela é uma boa trabalhadora, senhor. Ela vai ajudar no seu rancho, cozinhar suas refeições, cuidar dos seus animais. Ela é forte, não como outras garotas que choram e reclamam. — Sua voz carregava o desespero de um homem sem outras opções.

Corbin sentiu o peso de todos os olhares na sala. — Eu crio gado, não administro um pensionato para moças — disse Corbin firmemente. — O que você está sugerindo não é correto.

— Então encontre um marido para ela — insistiu Jiang. — Ela tem 17 anos, idade suficiente para casar. Um bom marido que a trate bem. Apenas mantenha-a segura até lá.

Linmai deu um passo mais perto da mesa, as mãos entrelaçadas firmemente à frente. — Eu posso falar por mim mesma, tio. — Ela virou-se para Corbin, e ele foi atingido novamente por sua compostura. — Senhor, eu entendo que isso não é o que o senhor queria ganhar esta noite, mas meu tio fala a verdade sobre os homens perigosos. Eles estarão aqui amanhã, e não serão pacientes.

Corbin estudou o rosto dela cuidadosamente. Havia medo ali, mas era controlado, prático. Ela não estava implorando para que ele a salvasse. Ela estava apresentando fatos, deixando que ele fizesse sua própria escolha.

— Esses homens a quem seu tio deve dinheiro — disse Corbin lentamente. — De que tipo de dívida estamos falando?

Os ombros de Jiang caíram. — Dívidas de jogo e outras coisas. Tentei ajudar algumas famílias a pagar a passagem do velho país. Peguei dinheiro emprestado, mas as famílias… elas nunca chegaram. O dinheiro foi perdido, mas a dívida permanece.

A imagem estava ficando mais clara agora. Jiang não era apenas um jogador viciado. Era um homem que tentara ajudar outros e pagara o preço por isso. — Quanto ele deve? — perguntou Corbin. — Trezentos dólares — sussurrou Jiang.

O salão ficou em silêncio absoluto. Trezentos dólares era mais dinheiro do que a maioria dos homens via em dois anos. Era o suficiente para comprar um bom cavalo e sela, ou sementes para a safra de uma temporada inteira.

Corbin olhou para sua mão vencedora novamente, depois para a garota parada ao lado da mesa. Linmai o observava com uma expressão que ele não conseguia ler. Não esperança exatamente, mas algo mais complexo. Ela estava medindo-o.

— Você tem outra família? — Corbin perguntou a ela diretamente. — Não, senhor. Apenas meu tio. Meus pais morreram há três anos.

A declaração simples o atingiu com mais força do que ele esperava. Uma órfã, exatamente como ele fora. Sem família para protegê-la. Se ele se levantasse daquela mesa, o que aconteceria com ela?

Corbin colocou suas cartas viradas para baixo na mesa e olhou diretamente para Linmai. — Você entende o que está sendo proposto aqui? Seu tio quer passar seus cuidados para um completo estranho. Pelo que você sabe, eu poderia ser pior do que os homens a quem ele deve dinheiro.

Algo tremeluziu nos olhos dela. — O senhor é pior do que eles? A pergunta o pegou desprevenido. Ela estava virando o jogo, entrevistando-o em vez de suplicar. — Suponho que isso é algo que você teria que decidir por si mesma.

— Então deixe-me perguntar algo — disse Linmai, com a voz firme. — O senhor tem filhos?

A pergunta atingiu como um golpe físico. O maxilar de Corbin apertou e ele sentiu a dor familiar no peito que vinha sempre que alguém mencionava crianças. — Não, eu não tenho. — Porque escolheu não ter ou porque não pode?

Flannery mexeu-se desconfortavelmente. — Garota, isso não é da sua conta… Mas Corbin levantou a mão para silenciá-lo. Essa jovem estava fazendo as perguntas difíceis, as que importavam. — Porque não pudemos — disse ele calmamente. — Minha esposa e eu tentamos por anos antes de ela morrer. Nunca aconteceu.

Linmai assentiu lentamente, como se essa informação confirmasse algo que ela estava pensando. — Então o senhor entende o que significa querer algo que não pode ter. Sentir que sua vida não tem propósito.

As palavras doeram porque eram verdadeiras. Desde a morte de Abigail, cinco anos atrás, Corbin vivia no piloto automático. — Onde você quer chegar? — perguntou ele. — Meu ponto é que talvez nós dois precisemos de algo diferente do que planejamos. O senhor precisa de ajuda com seu rancho. Eu preciso de proteção contra homens perigosos. Talvez esse acordo possa beneficiar a ambos.

Jiang observava essa troca com esperança crescente e surpresa óbvia. Sua sobrinha estava negociando seu próprio futuro com a confiança de alguém com o dobro de sua idade.

— E você está disposta a fazer tudo isso por um homem que acabou de conhecer? — perguntou Corbin. Ela ficou quieta por um longo momento. — Estou disposta a trabalhar duro por alguém que me trate com respeito. Alguém que me veja como uma pessoa, não como propriedade.

Aí estava. A verdadeira negociação. Ela não estava pedindo apenas segurança. Ela estava pedindo dignidade. E, de alguma forma, ela havia adivinhado corretamente que Corbin poderia ser o tipo de homem que entenderia a diferença.

Corbin enfiou a mão no bolso do casaco e tirou uma carteira de couro gasta. Contou trezentos dólares em notas — dinheiro que ele vinha economizando para gado reprodutor. Os outros homens na mesa assistiram em silêncio atordoado enquanto ele colocava as notas na frente de Jiang.

— Eu não estou aceitando a posse da sua sobrinha — disse Corbin firmemente. — Mas vou pagar sua dívida. Ela pode vir trabalhar para mim, ganhar seu sustento, e quando estiver pronta para seguir em frente, estará livre para ir.

Jiang olhou para o dinheiro com lágrimas escorrendo pelo rosto. — Senhor, eu… eu não posso retribuir essa bondade. — Não estou fazendo isso por você — disse Corbin bruscamente. — Estou fazendo isso porque nenhuma pessoa deve ser tratada como gado.

Ele virou-se para Linmai. — Você entende o acordo? Você trabalha para mim. Eu forneço comida e abrigo. Quando quiser ir embora, você vai. Sem amarras.

Linmai pegou o documento que seu tio estava preparado para assinar e lentamente o rasgou ao meio. — Eu entendo, senhor, e aceito sua oferta.

Enquanto caminhavam em direção à porta do salão, Linmai tocou levemente o braço dele. — Sr. Hayes… por que o senhor realmente fez isso? O senhor poderia ter ido embora. Corbin pausou com a mão na maçaneta. Como ele poderia explicar que vê-la se defender com tanta dignidade o lembrara de Abigail? — Porque — disse ele finalmente — às vezes, fazer a coisa certa é a única escolha que permite que você durma à noite.


A cavalgada até o rancho de Corbin levou quase duas horas. Quando finalmente chegaram, Corbin sentiu uma pontada familiar de vergonha. O rancho parecia pior à noite do que durante o dia. Cercas precisando de reparos, ervas daninhas crescendo onde deveria haver plantações.

— Não é muito — disse ele. — Tem bons ossos — respondeu Linmai, estudando a estrutura. — Às vezes isso é o suficiente para construir.

Dentro da casa, a poeira cobria a maioria das superfícies. — Vou dormir no celeiro esta noite — disse Linmai. — Você vai dormir no quarto de hóspedes — disse Corbin firmemente. — Não é chique, mas tem uma cama de verdade e uma janela.

Ele a levou até um pequeno quarto que um dia fora destinado às crianças que ele e Abigail nunca tiveram. Linmai colocou sua pequena bolsa no chão e virou-se para encará-lo. — Sr. Hayes, quero ser clara sobre algo. Sou grata pelo que fez, mas não quero que pense que lhe devo algo além de trabalho honesto. — Eu não esperaria nada diferente. — Bom. Porque eu vi o que acontece com garotas na minha situação quando os homens pensam que lhes é devido mais do que trabalho. — Ela encontrou os olhos dele firmemente. — Eu preferiria arriscar com aqueles homens perigosos do que viver dessa maneira.

Corbin sentiu o rosto esquentar. — Eu não sou esse tipo de homem. — Eu acredito no senhor — disse ela simplesmente. — Mas queria dizer isso claramente para que não houvesse mal-entendidos depois.

Na manhã seguinte, Corbin acordou com o cheiro de pão fresco, algo que não sentia em sua cozinha há cinco anos. Encontrou Linmai já ocupada. — Bom dia — disse ela. — Tenho pensado sobre o seu rancho. Você tem boa terra, bom acesso à água, mas não está usando de forma eficiente. Por que cria apenas gado? Corbin sentou-se à mesa, surpreso. — Gado é o que eu conheço. — Mas gado precisa de muita grama, muita água. Na seca, eles morrem. Você precisa de diversidade. Galinhas põem ovos mesmo no tempo seco. Cabras dão leite e comem ervas daninhas que o gado não toca. Um jardim fornece comida mesmo quando o dinheiro é escasso.

Ela serviu-lhe um prato de ovos e pão fresco. Corbin deu uma mordida e quase gemeu de prazer. — Você aprendeu tudo isso criando patos com sua família? Algo mudou na expressão dela por um momento. — Sim, entre outras coisas.

Nas semanas seguintes, Corbin mal conseguia reconhecer sua própria propriedade. Sob a orientação de Linmai, eles repararam cercas, limparam o celeiro e plantaram uma horta. Pela primeira vez em anos, Corbin tinha uma razão para se levantar a cada manhã além da mera sobrevivência. Linmai trabalhava ao lado dele com uma energia contagiante, preenchendo os espaços vazios da casa com conversa e vida.

Mas havia sempre aquela sensação de que ela escondia algo.

Certa tarde, enquanto consertavam uma cerca, um cavaleiro aproximou-se. Corbin reconheceu o Xerife Thompson. — Tarde, Corbin — disse Thompson, desmontando. — Importa se conversarmos?

Corbin sentiu o estômago apertar. — Sobre o que é isso, Xerife? — Têm aparecido uns homens na cidade fazendo perguntas sobre uma garota chinesa. Disseram que ela pode estar viajando com um parente mais velho. Homens bem vestidos, bem armados. Carregando mandados federais.

O coração de Corbin parou. — Mandados para quê? — Assassinato.

Linmai, que estava trabalhando perto, ficou imóvel. Seu rosto empalideceu. — Parece que houve um incêndio na Califórnia há alguns anos — continuou o xerife. — Uma família chinesa morta, sua reivindicação de terra roubada. As autoridades lá finalmente conseguiram evidências suficientes para acusar os responsáveis. Eles acham que a garota pode ser uma testemunha.

Tudo fez sentido agora. A compostura de Linmai, sua inteligência, sua maneira cuidadosa de medir o caráter das pessoas. Ela não era apenas uma refugiada das dívidas de jogo do tio. Ela era uma testemunha do assassinato de seus pais.

— O que esses homens federais querem com ela? — perguntou Corbin. — Querem levá-la de volta à Califórnia para depor. O problema é que eles acham que ela pode fugir se souber que estão vindo. Então, estão tentando rastreá-la discretamente.

Linmai finalmente falou, a voz firme apesar do medo óbvio. — E os outros homens? Os que mataram meus pais? — Ainda procurando por você também, pelo que posso dizer — respondeu o xerife. — Provavelmente esperando silenciá-la antes que você possa depor.

O peso da situação caiu sobre eles. Linmai estava presa entre a lei que precisava dela e os assassinos que a queriam morta. — É sua escolha — disse Corbin a ela calmamente. — O que você decidir, eu apoiarei.

Linmai fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, Corbin viu a mesma determinação daquela primeira noite no salão. — Tenho fugido disso há três anos. Mas meus pais merecem justiça, e outras famílias merecem proteção contra esses homens.

Ela virou-se para Thompson. — Diga aos marechais federais que podem me encontrar aqui. Eu vou depor.

Mas enquanto o xerife se afastava, Corbin percebeu que a paz recém-encontrada estava prestes a ser destruída. Os homens que mataram os pais de Linmai ainda estavam lá fora, e eles fariam qualquer coisa para impedi-la de chegar àquele tribunal viva.

A verdadeira batalha pelo rancho — e por suas vidas — estava apenas começando.

Related Posts

Our Privacy policy

https://abc24times.com - © 2025 News