O forno já ia ser aceso quando ela viu a imagem no celular: a câmera escondida no caixão flagrou o filho se mexendo! O grito da mãe impediu a tragédia e desmascarou os assassinos.

— Por favor… parem a cremação agora! Apaga o fogo, pelo amor de Deus!

O grito de Marilda rasgou o silêncio solene da sala de cremação, ecoando pelas paredes frias como um trovão.

Minutos antes, o cenário era de pura desolação. — Ah, meu amor, por que você teve que partir desse jeito? Por quê? Você é tão novo, tão pequeno… Como eu vou suportar viver sem você, meu filho?

A voz de Marilda estava embargada, quebrada pela dor que nenhuma mãe deveria sentir. Suas mãos trêmulas acariciavam o rosto gelado do pequeno Henrique, de apenas 8 anos. Ele estava ali, deitado naquele caixão branco, vestido com sua roupa de super-herói favorita, imóvel. A pele pálida contrastava com o cetim brilhante.

Marilda caiu de joelhos, o corpo vencido. — O que eu fiz, meu Deus? Por que não levou a mim?

Tiago, seu marido e padrasto de Henrique, aproximou-se. Ele mantinha uma expressão de tristeza controlada, colocou a mão no ombro dela e sussurrou: — Você precisa ser forte, meu amor. O Henrique queria te ver bem. Vamos deixá-lo descansar.

Ricardo, o cerimonialista, anunciou com respeito que era hora do adeus final. Os convidados se despediram. Quando restaram apenas os mais íntimos, Tiago pressionou suavemente: — Vamos, amor. Eles precisam fechar o caixão.

Marilda levantou-se, trêmula. Ela olhou para o filho uma última vez. Mas, em vez de se afastar, ela abriu a bolsa. Com gestos rápidos e decididos, retirou uma pequena câmera moderna, conectada via wi-fi ao seu celular.

— O que é isso, Marilda? — Tiago perguntou, a tensão surgindo em sua voz. — Eu preciso ver ele até o último segundo. Vou colocar isso nas mãos dele. Quero ter certeza de que ele… de que ele vai ficar bem até o fim.

Tiago tentou argumentar, visivelmente desconfortável. — Isso é mórbido, amor. Deixe o menino ir. — Não! — Marilda foi firme. — A câmera vai com ele. Se você me ama, respeite isso.

Sem saída, Tiago concordou com um aceno seco. A câmera foi posicionada entre as mãos frias de Henrique, apontada para o rosto dele. A tampa foi fechada. O mundo de Marilda escureceu.

O caixão foi levado para a sala do forno crematório. Apenas Marilda, Tiago, Ricardo e Valéria — a governanta da família há anos — foram permitidos acompanhar.

Marilda segurava o celular como se fosse sua âncora na realidade. A tela mostrava o interior escuro do caixão, iluminado apenas pelo modo noturno da câmera. O rosto de Henrique estava sereno, imóvel.

— Podem iniciar — disse Tiago, apressado.

Ricardo caminhou até o painel de controle. O dedo dele pairou sobre o botão que acenderia as chamas.

Foi nesse momento que Marilda viu. Na tela do celular, a câmera tremeu. Não foi um tremor de transporte. A imagem girou. A lente, que focava o rosto, agora mostrava os pés. E então, um movimento brusco. Uma mão bateu na lente.

— Espera! — O grito dela parou o coração de todos. — O meu filho tá vivo! Ele se mexeu!

Tiago correu até ela, tentando tirar o celular de sua mão. — Amor, você está delirando! É o balanço do caixão! — Não foi balanço! Ele mexeu a mão! Abram agora!

Valéria, a governanta, tentou intervir com uma voz doce e falsa: — Dona Marilda, a senhora está em choque. Tome um calmante… — Ninguém toca em mim! — Marilda empurrou Tiago e correu até o caixão, puxando-o para longe da entrada do forno com uma força que ela não sabia que tinha. — Tirem meu filho daí!

Ricardo, percebendo a gravidade e a convicção da mãe, não hesitou. Chamou ajuda e destravou a tampa.

Tiago estava pálido. Valéria recuou para a porta, os olhos arregalados de terror.

A tampa foi levantada. E o impossível aconteceu. Henrique puxou o ar com força, tossindo, os olhos se abrindo em pânico. Ele estava vivo.

— Mãe… — a voz dele era um fio fraco.

O caos se instalou. Marilda chorava, abraçando o filho, gritando por médicos. Mas Henrique, com as poucas forças que tinha, agarrou o braço da mãe e olhou para Tiago e Valéria. — Não deixa eles chegarem perto… — ele sussurrou, mas no silêncio da sala, todos ouviram. — Eles… eles me deram o bombom. Eles queriam me matar.

Para entender o horror daquele momento, é preciso voltar algumas semanas. A vida de Marilda parecia perfeita. Herdeira de um império, viúva cedo, reencontrou o amor nos braços de Tiago, um homem que parecia ser o pai que Henrique nunca teve. E tinha Valéria, a governanta leal.

Mas era tudo uma mentira.

Numa tarde de domingo, enquanto Marilda e Henrique saíam, Valéria entrou no quarto do casal. Não para limpar, mas para beijar Tiago. — Até quando vamos esperar? — ela cobrou. — Aquela idiota não morre nunca. E o contrato pré-nupcial te deixa sem nada se vocês separarem. — Eu estou tentando — disse Tiago. — Mas ela é saudável. — O problema não é ela. É o menino — Valéria sorriu, um sorriso cruel. — Se o menino morre, a Marilda entra em depressão profunda. Ela vai assinar qualquer coisa, passar o controle da empresa para você. E aí… aí a gente descarta ela também.

O plano era macabro. Valéria conhecia uma mulher no subúrbio que preparava venenos indetectáveis. Um líquido que simulava doenças gástricas, enfraquecendo a vítima até a falência dos órgãos.

Começou com gotas no suco. Henrique passou a ter dores de estômago, enjoos. Os médicos não encontravam nada. “Virose”, diziam. “Intoxicação alimentar”.

Aos poucos, Henrique definhou. Marilda, desesperada, passava os dias no hospital ou cuidando dele, deixando a empresa nas mãos de Tiago — exatamente como eles queriam.

Mas o menino era forte. Ele resistia. — Precisamos acabar com isso — Valéria disse numa noite. — Amanhã. Uma dose maciça. 10 gotas num bombom. Ele morre, a gente convence a Marilda a cremar para não ter autópsia, e pronto.

Na manhã seguinte, Henrique acordou sentindo-se um pouco melhor. Foi até a cozinha e viu a cena que selaria seu destino: Tiago e Valéria se beijando. Ele ouviu a trama. — O moleque vai comer o bombom hoje e adeus.

Henrique tentou correr, tentou ligar para a mãe, mas Tiago foi mais rápido. Ele arrancou o telefone da mão do menino. — Você entendeu tudo errado, campeão. — Eu vi! Vocês são maus! Eu vou contar pra minha mãe!

Valéria entrou no quarto com o bombom na mão. — Come, Henrique. É para o seu bem. Eles o forçaram. O menino, aterrorizado e fraco, engoliu.

Minutos depois, as dores foram lancinantes. Henrique convulsionou. Seu corpo, num último esforço de defesa, entrou em um estado de catalepsia — um coma profundo que simulava a morte, com batimentos cardíacos quase imperceptíveis.

Quando Marilda chegou, Tiago chorava lágrimas de crocodilo sobre o corpo “sem vida” do enteado. O médico do serviço de emergência, enganado pela ausência de sinais vitais evidentes e pelo histórico de “doença misteriosa”, atestou o óbito.

E a pressa de Tiago pela cremação foi a cartada final. — Era o desejo dele, amor. Ele me disse que queria ser cinzas na natureza. Vamos fazer isso rápido para acabar com o sofrimento.

Mas eles subestimaram o instinto de uma mãe. E subestimaram a resistência de Henrique.

De volta ao crematório, a verdade explodiu como uma bomba.

— Eles me envenenaram! — Henrique gritou, apontando para o padrasto e a governanta. — Eles namoram! Eu vi!

Tiago tentou correr, empurrando Ricardo, mas o cerimonialista foi mais rápido e o derrubou com um soco. Valéria tentou fugir pela porta dos fundos, mas deu de cara com a polícia, que Ricardo havia acionado discretamente assim que a confusão começou.

Marilda, com o filho nos braços, olhou para o homem que amava. O homem que dormia ao seu lado. — Você… você ia queimar meu filho vivo?

Tiago, imobilizado no chão, riu. Uma risada insana de quem perdeu a máscara. — Ele ia morrer de qualquer jeito! Aquele veneno não falha! A culpa é sua, Marilda! Se você tivesse me dado o dinheiro, nada disso teria acontecido!

Valéria gritava algemada: — Foi ideia dele! Ele que queria a fortuna!

No hospital, os médicos confirmaram: Henrique havia expelido parte do veneno ao vomitar pouco antes de “morrer”, o que o salvou da dose letal, mas o deixou paralisado temporariamente. O calor da sala do forno ajudou a acelerar o metabolismo e acordá-lo. Foi um milagre.

Meses depois, Marilda e Henrique caminhavam por um parque. O menino estava saudável, corado, segurando um sorvete.

Tiago e Valéria foram condenados a mais de 30 anos de prisão por tentativa de homicídio qualificado, estelionato e formação de quadrilha. Na cadeia, apodreciam culpando um ao outro.

Marilda olhou para o filho correndo na grama. Ela nunca mais seria a mesma. A inocência havia morrido naquele crematório, mas algo mais forte havia nascido: uma vigilância eterna e uma gratidão imensurável.

Ela pegou o celular e olhou a última gravação daquela câmera. O momento em que a mãozinha de Henrique tocou a lente. Não foi sorte. Não foi coincidência. Foi o amor de mãe que colocou aquela câmera ali. E foi o amor que venceu a morte.

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