Existe uma dor que não se escreve com palavras. Existe uma ferida que não cicatriza com o tempo. Existe um homem que foi transformado em máquina e uma história que o Brasil tentou esquecer. O que você vai ouvir agora não é ficção, é memória, é sangue, é a verdade nua de um passado que ainda pulsa nas veias desta terra.
Um homem foi arrancado de sua aldeia na costa africana e atravessou o oceano acorrentado no porão de um navio negreiro. Ele sobreviveu à travessia, ele sobreviveu à febre, ele sobreviveu ao chicote. Mas o que fizeram com ele depois disso foi pior do que qualquer morte. transformaram seu corpo em instrumento, transformaram sua semente em mercadoria e obrigaram 50 mulheres a carregar dentro de si o fruto de uma violência que nenhum livro de história conseguiu descrever por completo.

Esta é a história de Geraldo, o escravo reprodutor, o semeador de lágrimas, o homem que plantou vida onde só existia dor, e das mulheres que carregaram nos ventres a esperança de um povo que se recusava a morrer. A fazenda São Sebastião das Águas Claras ficava encravada entre morros verdes e rios silenciosos no interior da província de Minas Gerais. Era o ano de 1847.
O café crescia nos terreiros como ouro escuro. O sol nascia vermelho sobre as montanhas e iluminava uma terra manchada de suor e sangue. O dono daquela imensidão de terras era o coronel Eusébio Mendes, um homem de barba grisalha e olhos frios como pedra de rio. Ele herdou a fazenda do pai e do pai herdou também a crueldade.
A casa grande tinha varanda larga e paredes caiadas de branco. Nos fundos da propriedade ficava a cenzala, um galpão comprido de paredes de adobe e telhado de sapê. Ali dormiam mais de 200 almas. Homens, mulheres e crianças que acordavam antes do sol e só descansavam quando a lua já estava alta no céu. O cheiro de terra molhada se misturava ao cheiro de suor e ao aroma amargo do café secando nos terreiros. As cigarras cantavam sem parar.
Os pássaros fugiam quando o feitor passava com o chicote enrolado na cintura. E no silêncio da noite era possível ouvir os cantos abafados que vinham da cenzala. Cantos de dor, cantos de saudade, cantos de uma terra distante que ninguém mais veria.
Se essa história já começou a te tocar por dentro, deixa teu like e comenta o que sentiu, porque isso ajuda essa memória a não ser apagada. Cada curtida é um grito contra o esquecimento. Cada comentário é uma vela acesa na escuridão do passado. Geraldo chegou à fazenda São Sebastião numa tarde de março. O céu estava cinzento e um vento frio descia das montanhas.
Ele veio amarrado numa corda junto com outros 12 homens. Todos tinham sido comprados num leilão em Vila Rica. Geraldo era diferente dos outros. Tinha o corpo alto e forte. Os ombros largos como tábuas de madeira, os braços grossos como troncos de árvore. A pele negra brilhava sob a luz fraca do entardecer. Ele tinha 23 anos. Nasceu numa aldeia próxima ao rio Zambese.
Seu nome verdadeiro era Garrid, que na língua de seu povo significava caçador. Ele era filho de um guerreiro e neto de um curandeiro. Conhecia os segredos das plantas, conhecia os caminhos das estrelas. Conhecia o som que o vento faz quando anuncia a chuva, mas nada disso importava.
Agora, naquele momento, ele era apenas uma mercadoria, um corpo com preço, uma peça de carne marcada a ferro quente com as iniciais do coronel. O feitor Damião examinou os recém-chegados como quem examina gado no mercado. Apalpou os músculos, verificou os dentes, olhou nos olhos de cada um, procurando sinais de doença ou rebeldia. Quando chegou em Geraldo, parou, ficou em silêncio por um longo momento, depois sorriu um sorriso amarelo e cheio de malícia.
Disse em voz alta para que todos ouvissem: “Este aqui é especial. Este aqui vai dar muito lucro pro coronel”. Naquela mesma noite, o feitor foi até a Casa Grande e bateu na porta do escritório do coronel. Eusébio Mendes estava sentado numa cadeira de couro lendo um jornal que chegara da capital.
Tinha um copo de aguardente na mão e um charuto apagado entre os dedos. O feitor entrou tirando o chapéu e falou com a cabeça baixa: “Coronel, chegou um negro que o senhor precisa ver. É forte como um touro, saudável, jovem, perfeito para ser reprodutor.” O coronel levantou os olhos do jornal. Reprodutor. A palavra ecoou no ar como um trovão distante. Naquela época, os senhores de escravos tinham um problema.
O tráfico de africanos estava cada vez mais difícil. Os ingleses patrulhavam a costa. Os navios negreiros eram apreendidos. O preço dos escravos subia a cada ano. A solução que muitos encontraram foi criar escravos na própria fazenda, como se cria gado, como se planta milho.
E para isso precisavam de homens fortes e saudáveis, que pudessem engravidar o maior número possível de mulheres. Homens que eram chamados de reprodutores, garanhões, sementeiros. Geraldo seria um deles. O coronel foi até a Senzala no dia seguinte, mandou Geraldo sair da fila dos trabalhadores. Examinou seu corpo com a frieza de um comerciante, avaliando mercadoria.
Médio, a largura dos ombros, a circunferência dos braços, a firmeza das pernas, verificou se havia cicatrizes ou sinais de doença. Depois se virou para o feitor e disse: “Ele serve. Separa um quarto nos fundos do paiol. A partir de hoje, ele não vai mais trabalhar na lavoura. O trabalho dele vai ser outro. Geraldo não entendeu as palavras. Ainda não dominava a língua dos brancos, mas entendeu o olhar.
Entendeu o sorriso cruel nos lábios do coronel. Entendeu que algo terrível estava por vir. Naquela noite, ele foi levado para um quarto pequeno nos fundos do paiol. Tinha uma esteira no chão, uma bacia com água, uma vela acesa num canto e nada mais. O feitor trancou a porta por fora e disse através da madeira: “Descansa, amanhã teu serviço começa”.
O serviço começou na noite seguinte. A primeira mulher que trouxeram se chamava Joana. Tinha 17 anos. Era miúda e magra. Os olhos castanhos estavam cheios de medo. Ela foi empurrada para dentro do quarto pelo feitor que trancou a porta e ficou do lado de fora esperando. Geraldo olhou para ela. Joana olhou para ele. Nenhum dos dois disse nada.
O silêncio pesava como chumbo. A vela tremelicava no canto, projetando sombras nas paredes. Do lado de fora, o feitor bateu na porta e gritou: “Anda logo, não tenho a noite toda.” Geraldo sentiu uma dor no peito que não era física. Era a dor de entender finalmente o que queriam dele. Queriam que ele fosse uma máquina.
Queriam que ele plantasse sementes em corpos que não pediam para ser plantados. queriam que ele participasse de uma violência que mancharia sua alma para sempre. Joana chorava em silêncio. As lágrimas desciam pelo rosto sem fazer barulho. Ela se encolheu num canto do quarto, abraçando os próprios joelhos.
Geraldo se aproximou devagar, sentou no chão ao lado dela e fez a única coisa que podia fazer naquele momento. Segurou a mão dela e ficou ali em silêncio, esperando que a noite passasse. O feitor abriu a porta de madrugada, viu os dois sentados no chão de mãos dadas. O rosto dele se transformou numa máscara de fúria.
Arrancou Joana do quarto pelos cabelos, jogou ela no chão do terreiro e voltou para Geraldo com o chicote na mão. A primeira chibatada cortou o ar como um raio. Atingiu as costas de Geraldo, abrindo um suco vermelho na pele negra. A segunda veio logo depois e a terceira e a quarta. O feitor gritava a cada golpe: “Tu vai aprender. Tu vais fazer o que te mandaram. Tu não é gente, tu é bicho.” E bicho obedece.
Geraldo não gritou, cerrou os dentes, fechou os olhos e aguentou cada golpe em silêncio. Quando o feitor finalmente parou, estava ofegante e suado. Cuspiu no chão e disse: “Amanhã vem outra e se tu não fizer o serviço, eu te mato”. Depois trancou a porta e foi embora. Geraldo ficou deitado no chão, sentindo o sangue escorrer pelas costas.
O corpo doía, mas a alma doía mais. Naquela noite, ele chorou pela primeira vez desde que chegou ao Brasil. Chorou por Joana, chorou por si mesmo, chorou por todos os que viriam depois. As noites seguintes foram um pesadelo sem fim. O feitor trazia uma mulher diferente a cada noite, às vezes duas, às vezes três. Geraldo aprendeu que resistir significava mais dor.
Aprendeu que recusar significava castigo para ele e para elas. aprendeu que naquele mundo não havia escolha, havia apenas sobrevivência. Ele fazia o que mandavam, mas encontrou uma forma de manter sua humanidade. Antes de cada encontro, ele olhava nos olhos da mulher que estava ali, segurava as mãos dela, falava palavras suaves na língua de seu povo, palavras que elas não entendiam, mas que traziam algum conforto.
Ele transformava aquele ato brutal em algo menos brutal. transformava aquela violência em algo que se aproximava de um ritual triste e necessário de sobrevivência. As mulheres percebiam, sentiam a diferença. Quando saíam daquele quarto, não olhavam para ele com ódio. Olhavam com uma tristeza compartilhada, com um entendimento silencioso.
Elas sabiam que ele também era vítima, que ele também estava acorrentado, que ele também sangrava por dentro, mesmo quando não sangrava por fora. Se essa história está mexendo com você, para e deixa um comentário. E conta o que tá sentindo, porque cada palavra que você escreve ajuda a manter essa memória viva, ajuda a honrar essas almas que sofreram tanto.
Isso não é só uma história, é um pedaço da nossa história e precisa ser lembrada. Catarina foi a viésª mulher que trouxeram. Ela era diferente das outras. Tinha os olhos cor de mel, a pele escura como noite sem lua, os cabelos trançados em pequenas tranças que desciam pelos ombros. Ela entrou no quarto sem medo, olhou para Geraldo com uma intensidade que ele nunca tinha visto e disse na língua dele: “Eu sei quem você é.
Sei de onde você veio. Minha avó era do mesmo povo.” Geraldo sentiu o coração disparar no peito. Fazia tanto tempo que não ouvia sua língua. Fazia tanto tempo que não encontrava alguém que conhecesse suas raízes. Ele perguntou em voz baixa: “Como você sabe?” Ela sorriu um sorriso triste.

“Minha avó me ensinou antes de morrer. Ela era curandeira, como seu avô. Naquela noite, eles conversaram, contaram suas histórias, compartilharam suas dores e quando o feitor bateu na porta perguntando se já tinham terminado, eles mentiram. Disseram que sim e continuaram conversando até o amanhecer. Catarina trabalhava na Casa Grande.
Era mucama da Siná Margarida, a esposa do coronel, uma mulher pálida e doente que passava os dias deitada na cama reclamando do calor e da solidão. Catarina conhecia todos os segredos da casa. Sabia onde o coronel guardava o dinheiro. Sabia quais portas rangiam e quais não rangiam. Sabia que o coronel tinha uma amante na cidade.
Sabia que aá chorava todas as noites e sabia que havia um caminho secreto que levava da fazenda até a mata. Um caminho que os antigos escravos tinham usado para fugir. Um caminho que ainda existia, escondido entre as árvores. As semanas passaram e Geraldo cumpria seu papel.
O feitor mantinha um registro das mulheres que passavam pelo quarto. Anotava nomes e datas num caderno de capa preta. Quando completou um mês, eram 50 nomes, 50 mulheres, 50 possíveis ventres que carregariam a semente de Geraldo. O coronel estava satisfeito. Mandou dar a Geraldo uma ração extra de comida. Mandou que não batessem mais nele. Mandou que cuidassem bem do garanhão. Porque garanhão saudável gera crias saudáveis.
E crias saudáveis valem dinheiro. Mas algo estava acontecendo que o coronel não percebia. Entre uma noite e outra, Geraldo e Catarina se encontravam à escondidas. Ela trazia notícias da Casa Grande. Ele contava o que ouvia na cenzala. Juntos começaram a tecer um plano, um plano arriscado, um plano que podia significar a morte, mas também podia significar a liberdade.
Tinha um quilombo escondido nas montanhas há três dias de caminhada da fazenda. Chamavam de quilombo da serra azul. era liderado por um homem chamado Benedito, um ex-escravo que tinha fugido 15 anos antes e nunca foi capturado. Diziam que ele conhecia cada trilha daquelas matas. Diziam que ele tinha poderes de se transformar em animal para escapar dos capitães do mato.
Diziam que no quilombo as pessoas viviam livres, plantavam suas roças, criavam seus filhos, rezavam para seus deuses, sem chicote, sem corrente, sem senhor. Catarina sabia como chegar lá. Sua avó tinha sido do quilombo antes de ser capturada. tinha deixado um mapa desenhado num pedaço de couro, um mapa que Catarina guardava escondido debaixo do açoalho do quartinho onde dormia.
O plano era simples e, ao mesmo tempo, impossível. Fugir, mas não fugir sozinhos, levar junto as mulheres que estavam grávidas, levar os filhos que nasceriam daquela violência e dar a eles a chance de nascer livres. O primeiro filho nasceu em dezembro. Era um menino, filho de uma jovem chamada Felismina.
O coronel mandou registrar no livro da fazenda mais uma peça no inventário, mais uma mercadoria para ser vendida ou usada quando crescesse. Geraldo viu o menino de longe, viu os olhos escuros, viu as mãos pequenas agarrando o ar e sentiu algo que não esperava sentir. sentiu amor, um amor estranho e doloroso, um amor misturado com culpa e vergonha, porque aquele menino era seu, carne de sua carne, sangue de seu sangue, e ao mesmo tempo era um estranho, uma vida que ele ajudou a criar, mas que nunca poderia chamar de
filho. Naquela noite, ele chorou novamente. Catarina estava com ele. Ela segurou sua mão e disse: “Por isso precisamos ir, por isso precisamos fugir, para que esses filhos conheçam a liberdade, para que esses filhos saibam quem são, para que esses filhos não sejam criados como gado.
” A fuga foi marcada para a noite de Lua Nova, a noite mais escura do mês. Catarina tinha passado semanas preparando tudo. escondeu comida debaixo das tábuas do galinheiro, roubou facas da cozinha da casa grande, conseguiu cordas e mantas e convenceu 17 mulheres a fugir junto com eles, 17 das 50 que tinham passado pelo quarto de Geraldo.
Algumas já estavam grávidas, outras ainda não sabiam se estavam, mas todas queriam ser livres. Todas preferiam morrer na mata a continuar vivendo como escravas. Geraldo também fez sua parte. Observou a rotina dos feitores, descobriu em que horários eles bebiam e dormiam. Descobriu que na noite de sábado o coronel viajava para a cidade e levava metade dos capatazes junto.
Descobriu que o cachorro de guarda manso e podia ser distraído com um pedaço de carne. Cada detalhe foi pensado, cada passo foi planejado, mas nenhum plano sobrevive intacto quando encontra a realidade. A noite da fuga chegou. O céu estava negro como breu. Nem uma estrela brilhava. O vento trazia um cheiro de chuva que estava por vir. Geraldo esperou até a meia-noite. Saiu do quarto em silêncio.
Encontrou Catarina perto do poço. Ela tinha os olhos brilhando de medo e esperança. Disseram uma oração silenciosa e começaram a reunir as outras. Uma por uma, as mulheres foram saindo da senzala. Pisavam na terra com pés descalços, tentando não fazer barulho. O coração de cada uma batia tão forte que parecia que ia explodir.
Quando estavam todas reunidas, eram 19 pessoas, 17 mulheres, Geraldo e Catarina, começaram a caminhar em direção à mata. Passaram pelo galinheiro, passaram pelo paiol, passaram pelo curral dos cavalos. A liberdade estava a poucos metros. A mata estava ali na frente, escura e acolhedora, como os braços de uma mãe. Mas então um cachorro latiu e depois outro, e uma luz se acendeu na casa do feitor. Corram! Geraldo gritou e todas correram.
Correram como nunca tinham corrido na vida. Correram com os pés sangrando nas pedras. correram com os pulmões queimando. Correram enquanto atrás delas os gritos dos feitores rasgavam a noite. Correram enquanto os cachorros uivavam e as tochas se acendiam. correram até alcançar a beira da mata e então sumiram entre as árvores.
Sumiram como fantasmas, sumiram como fumaça, sumiram deixando para trás a fazenda e o coronel e as correntes e o chicote. Mas a fuga era só o começo. A caminhada até o quilombo levaria três dias. Três dias de mata fechada, três dias de fome e sede e medo, três dias em que os capitães do mato estariam em seu encalço.
E o coronel tinha jurado que os encontraria, tinha jurado que os traria de volta, tinha jurado que faria de Geraldo um exemplo para todos os outros escravos. O primeiro dia na mata foi o mais difícil. As mulheres não estavam acostumadas a caminhar tanto. Muitas tinham os pés em carne viva. Uma delas chamada Luanda, estava grávida de 7 meses e mal conseguia se mover.
Geraldo a carregou nas costas por horas. O peso dela era nada comparado ao peso que ele carregava na alma. Catarina ia na frente guiando o grupo. Ela seguia o mapa que a avó tinha deixado. Um mapa feito de símbolos e desenhos que só ela sabia interpretar. Aqui tem um rio. Vamos cruzar por aquelas pedras. Ali tem uma gruta onde podemos descansar.
Cada passo era uma vitória. Cada metro era uma conquista. Mas atrás deles, os capitães do mato se aproximavam. Homens cruéis montados em cavalos rápidos. Homens que conheciam a mata tão bem quanto as linhas de suas próprias mãos. Homens que eram pagos para caçar gente como quem caça animal. E eles estavam chegando perto. Foi no segundo dia que Tomé morreu.
Tomé era uma das mulheres mais jovens do grupo. Tinha apenas 15 anos. Era pequena e frágil e torcia muito. Catarina suspeitava que ela tinha uma doença nos pulmões, mas Tomé não quis ficar para trás. Disse que preferia morrer livre na mata do que viver escrava na fazenda. E foi exatamente isso que aconteceu. Ela caiu no meio da trilha, tentou se levantar, mas as pernas não obedeciam.
Geraldo se ajoelhou ao lado dela, viu que seus lábios estavam azuis, viu que seus olhos estavam vidrados, viu que a vida estava se esvaindo daquele corpo magro. Tomé segurou a mão dele e disse com a voz fraca: “Cuida dos outros. Não deixa eles pegarem ninguém.” Depois fechou os olhos e parou de respirar.
Não havia tempo para enterrar, não havia tempo para chorar. Os capitães do mato estavam cada vez mais perto. Geraldo cobriu o corpo de Tomé com folhas e galhos, disse uma oração rápida e mandou o grupo continuar caminhando. Mas cada passo que dava a partir dali carregava o peso daquela morte. Cada passo era uma promessa de que o sacrifício de Tomé não seria em vão.
O terceiro dia amanheceu com chuva, uma chuva forte que castigava as folhas e transformava o chão em lama. O grupo avançava devagar, as mulheres escorregavam e caíam. Os vestidos rasgados grudavam nos corpos molhados. A comida tinha acabado. A água era a única coisa que não faltava. Caía do céu em quantidade infinita. Catarina olhava o mapa tentando se orientar.
A chuva tinha apagado algumas marcas nas árvores. Algumas referências tinham desaparecido. Ela não tinha certeza se estavam no caminho certo, mas não podia demonstrar dúvida, não podia deixar o grupo perder a esperança. Então, continuava andando, continuava guiando, continuava acreditando que chegariam ao quilombo. Geraldo caminhava na retaguarda.
Seus ouvidos estavam atentos a qualquer som estranho. E foi por isso que ele ouviu primeiro o latido dos cachorros, o trote dos cavalos, os gritos dos homens. Os capitães do mato tinham encontrado o rastro deles. Escondam-se, Geraldo sussurrou e todas as mulheres se jogaram no mato.
Algumas se enfiaram debaixo de arbustos, outras subiram em árvores, outras se deitaram em buracos cobertos de folhas. Geraldo ficou de pé, pegou um galho grosso que estava no chão e esperou. O primeiro capitão do mato apareceu minutos depois. Era um homem grande montado num cavalo preto. Tinha uma espingarda na mão e uma cicatriz cortando o rosto. Quando viu Geraldo parado no meio da trilha, sorriu. Achei você garanhão.
O coronel vai pagar bem por você. Geraldo não respondeu. Apenas levantou o galho e se preparou para lutar. sabia que não tinha chance contra um homem armado e montado, mas se conseguisse atrasá-lo por alguns minutos, as mulheres poderiam fugir. Se conseguisse distrair os outros capitães que vinham chegando, talvez algumas conseguissem chegar ao quilombo.
Era um sacrifício que ele estava disposto a fazer, um sacrifício que daria sentido a toda aquela dor. Mas o destino tinha outros planos. Do meio da mata surgiu um grupo de homens. Homens negros armados com facões e lanças. Homens com o rosto pintado de barro vermelho. Homens que se moviam em silêncio como sombras. Eram os guerreiros do quilombo da Serra Azul.
E na frente deles vinha Benedito, o líder lendário que ninguém conseguia capturar. Benedito era um homem de meia idade, com cabelos grisalhos e olhos de águia. Tinha uma cicatriz no braço esquerdo e uma lança na mão direita. olhou para o capitão do mato com desprezo e disse com voz calma: “Vocês estão nas nossas terras.
Vocês não são bem-vindos aqui.” O capitão do mato empalideceu, olhou para os lados, procurando seus companheiros, mas os outros capitães já tinham sido cercados pelos quilombolas. Estavam em menor número, estavam em desvantagem. Pela primeira vez na vida, o caçador tinha se tornado caça. Deixe a espingarda no chão e vá embora.
Benedito disse: “Diga ao coronel que estes escravos agora são livres. Diga que se ele mandar mais homens, nós vamos matar todos.” O capitão do mato obedeceu, largou a arma, deu meia volta no cavalo e fugiu pela trilha de onde tinha vindo. Os outros capitães fizeram o mesmo. Correram como covardes, desapareceram na mata, deixando para trás as armas e a vergonha.
Benedito se aproximou de Geraldo e estendeu a mão. Você é bem-vindo aqui, irmão. Você e todas as mulheres que estão escondidas nesse mato. Aqui vocês são livres. Aqui vocês são gente. Aqui ninguém vai tratar vocês como bicho nunca mais. Geraldo sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto. Lágrimas de alívio, lágrimas de alegria, lágrimas de uma dor que finalmente começava a cicatrizar.
Ele apertou a mão de Benedito e disse: “Obrigado! A palavra era pequena demais para expressar o que sentia, mas era tudo que conseguia dizer naquele momento. O quilombo da Serra Azul ficava num vale escondido entre duas montanhas. Era protegido por paredões de pedra e por uma cascata que funcionava como barreira natural. Ali viviam mais de 300 pessoas, homens, mulheres e crianças que tinham fugido de fazendas de toda a região. Tinham casas de pau a pique cobertas de palha.
Tinham roças de mandioca e feijão e milho. Tinham um rio de águas limpas onde pescavam e se banhavam. Tinham liberdade. Quando o grupo de Geraldo chegou, foram recebidos com abraços e cantos. As mulheres do quilombo trouxeram comida e água. Os curandeiros trataram dos pés machucados e das feridas abertas.
As crianças olhavam curiosas para os recém-chegados e, pela primeira vez em muito tempo, aquelas mulheres que tinham passado pelo quarto de Geraldo sorriam. Sorriam de verdade. Sorriam com os olhos. Catarina e Geraldo ficaram juntos. Construíram uma casa pequena perto do rio, plantaram uma horta com ervas medicinais e esperaram junto com as outras mulheres os filhos que viriam.
Eram filhos de violência, eram filhos de dor, mas seriam criados com amor, seriam criados em liberdade, seriam criados sabendo quem eram e de onde vinham. Geraldo passou a ajudar Benedito na defesa do quilombo. Aprendeu a fazer armadilhas, aprendeu a usar a lança, aprendeu os caminhos secretos da mata e aos poucos foi deixando de ser o garanhão, deixando de ser o reprodutor e voltando a ser Garridi, o caçador, o filho de guerreiro, o neto de curandeiro, o homem que o coronel nunca conseguiu destruir por completo.
Os meses passaram, as crianças nasceram, uma por uma. As mulheres davam à luz. Geraldo assistiu ao nascimento de cada um, segurou a mão de cada mãe, ouviu o primeiro choro de cada bebê. E cada nascimento era um milagre. Cada nascimento era uma vitória. Cada nascimento era a prova de que a vida é mais forte que a morte, de que a esperança é mais forte que o desespero, de que o amor é mais forte que o ódio.

Nasceram 23 crianças naquele primeiro ano, 23 vidas novas, 23 sementes que brotaram não da violência, mas da resiliência. Porque aquelas crianças não eram fruto do coronel, não eram mercadoria de ninguém, eram filhos do quilombo, filhos da liberdade, filhos de um povo que se recusava a desaparecer. Catarina deu-a à luz numa noite de lua cheia.
Era uma menina, tinha os olhos cor de mel como a mãe e a pele escura como o pai. Geraldo assegurou nos braços e sentiu o coração se encher de um amor que nunca tinha sentido antes. Um amor puro, um amor que não tinha culpa nem vergonha, um amor que era só luz. Chamaram a menina de esperança, porque era isso que ela representava. Esperança de um futuro melhor.
Esperança de um mundo onde ninguém seria tratado como coisa, esperança de que um dia a escravidão acabaria e todos seriam livres. Esperança nasceu sorrindo, como se já soubesse que o mundo onde tinha chegado era um mundo de amor e não de dor, como se já soubesse que seus pais tinham atravessado o inferno para dar a ela um pedaço de céu. O coronel Eusébio Mendes morreu três anos depois. Dizem que morreu de raiva.
Morreu sem conseguir recuperar seus escravos. morreu vendo sua fazenda definhar porque não tinha mais braços suficientes para trabalhar. Morreu sozinho porque a esposa tinha ido embora e os filhos tinham se mudado para a capital. Morreu amaldiçoando o nome de Geraldo, o garanhão que tinha fugido e levado consigo 50 mulheres e toda a esperança de futuro da fazenda São Sebastião das Águas Claras. A fazenda foi vendida em leilão.
Os escravos que restaram foram vendidos para outros senhores. E aos poucos o nome do coronel foi sendo esquecido, apagado pelo tempo, como se nunca tivesse existido. Mas o nome de Geraldo não foi esquecido. No quilombo, ele se tornou um ancião respeitado. Viveu até os 72 anos. Viu seus filhos crescerem e terem filhos. Viu a abolição chegar em 1888.
viu seus netos nascerem livres, não por fuga, mas por lei. E antes de morrer, reuniu todas as crianças do quilombo e contou sua história. Contou sobre a aldeia na África, contou sobre o navio negreiro, contou sobre o quarto nos fundos do paiol, contou sobre as 50 mulheres, contou sobre a fuga pela mata e contou sobre Catarina, o amor de sua vida, a mulher que tinha dado a ele a coragem de ser livre. Catarina tinha morrido dois anos antes.
Morreu dormindo com um sorriso no rosto. Morreu sabendo que tinha cumprido sua missão. Morreu em paz. E agora Geraldo ia se juntar a ela. Ia atravessar o grande rio e encontrá-la do outro lado. Ia finalmente descansar. A última coisa que ele disse antes de fechar os olhos foi uma frase na língua de seu povo.
Uma frase que significava: “A semente que plantaram com dor floresceu com amor, e nenhuma corrente é forte o suficiente para prender um povo que carrega a liberdade na alma”. Depois sorriu, fechou os olhos e partiu. As crianças do quilombo nunca esqueceram suas palavras e passaram essa história de geração em geração até que ela chegou aqui, até que você a ouviu. E agora ela está em você também.
E cabe a você decidir o que fazer com ela, se vai deixá-la morrer no silêncio ou se vai passá-la adiante para que nunca mais seja esquecida. Essa história que você acabou de ouvir é um pedaço da nossa história. É um pedaço de dor e de glória. É a memória de milhões de homens e mulheres que foram arrancados de suas terras e transformados em mercadoria, mas que nunca deixaram de ser gente, nunca deixaram de sonhar, nunca deixaram de lutar. Geraldo existiu em milhares de homens que foram usados como reprodutores nas fazendas do Brasil. As
50 mulheres existiram em milhares de mulheres que tiveram seus corpos violados e seus ventres usados para enriquecer senhores de escravos. E as crianças que nasceram existiram em milhões de brasileiros que carregam nas veias o sangue de escravizados e escravizadores. Nós somos o resultado dessa história.
Nós somos a prova de que a vida venceu a morte, de que o amor venceu o ódio, de que a esperança venceu o desespero. Se essa história tocou o teu coração, se inscreve no canal, ativa o sininho para não perder nenhuma história. Compartilha esse vídeo com alguém que precisa ouvir isso e me conta nos comentários de qual cidade e estado você está me ouvindo.
Eu quero conhecer cada canto desse Brasil que ainda guarda essas memórias. Cada canto desse país que foi construído com o suor e o sangue de pessoas como Geraldo e Catarina, e Tomé e Felismina e Joana e Luanda, e todas as outras, pessoas que merecem ser lembradas, pessoas que merecem ser honradas, pessoas cuja história nunca deve ser apagada.
Deixa teu comentário, deixa a tua cidade, deixa teu estado e me ajuda a espalhar essa memória pelos quatro cantos do Brasil. Porque enquanto uma pessoa lembrar essa história, ela continuará viva. E enquanto ela estiver viva, ninguém terá morrido em vão. A semente que plantaram com dor floresceu com amor, e nenhuma corrente é forte o suficiente para prender um povo que carrega a liberdade na alma. Essa é a verdade que Geraldo nos deixou.
Essa é a herança que ele passou para seus filhos e netos e bisnetos. Essa é a luz que ele acendeu na escuridão. Uma luz que nenhum coronel conseguiu apagar. Uma luz que brilha até hoje em cada um de nós, em cada brasileiro que se recusa a esquecer, em cada voz que se levanta para contar essa história.
história do semeador de lágrimas, o homem que plantou vida onde só existia dor, e das mulheres que transformaram a violência em resistência, e das crianças que nasceram livres no quilombo, e de todos nós que somos a prova viva de que eles venceram, de que nós vencemos, de que a liberdade venceu. Oh.