Month: November 2025

  • Um menino negro sem-teto salvou uma mulher moribunda sem saber que ela era bilionária. O que ela fez em seguida chocou a todos.

    Um menino negro sem-teto salvou uma mulher moribunda sem saber que ela era bilionária. O que ela fez em seguida chocou a todos.

    A luz quente do sol tocava o passeio rachado enquanto um menino sem-abrigo se sentava em silêncio, observando as pessoas apressarem-se sem lhe dirigir um olhar. Um súbito e fraco suspiro quebrou o ruído da cidade, e ele notou uma mulher caída perto do canto movimentado da rua à sua frente. O seu coração disparou enquanto ele corria para o lado dela, vendo o seu rosto pálido e a sua respiração fraca sob o sol forte da tarde.

    Ignorando os olhares de estranhos, ele levantou suavemente a cabeça dela, tentando mantê-la estável no chão frio e duro. Revistou o casaco dela à procura de algo útil, encontrando apenas um telemóvel desligado e uma estranha chave de metal brilhante lá dentro. Ao premir o telemóvel, tentou desbloqueá-lo, mas o ecrã permaneceu escuro, recusando-se a mostrar qualquer sinal de vida.

    As pessoas andavam à volta deles, a sussurrar calmamente. No entanto, ninguém parava para perguntar se a mulher precisava de ajuda urgente. O menino levantou a voz, implorando para que alguém chamasse uma ambulância, as suas palavras a tremer com medo e urgência. Finalmente, o dono de uma loja saiu, chocado com a cena a desenrolar-se mesmo em frente à loja aberta.

    O menino apontou para a mulher, suplicando por ajuda, as suas mãos a tremer enquanto lhe segurava o pulso à procura de pulsação. Sirenes ecoaram finalmente pelas ruas iluminadas, ficando mais altas a cada segundo de silêncio doloroso. Ele não fazia ideia de que a mulher que salvou escondia um segredo que em breve chocaria o mundo inteiro. A ambulância parou de repente com um chiar, os paramédicos a correrem para fora, as suas mãos treinadas e prontas para emergências.

    O menino ficou perto, recusando-se a soltar. Os seus olhos fixos no peito frágil dela a subir e a descer. Eles levantaram-na cuidadosamente para a maca, fazendo perguntas ao menino que ele mal conseguia responder em pânico. Enquanto as portas se fechavam, ele vislumbrou as suas joias caras a espreitar por baixo do casaco, despercebidas por mais ninguém. Algo na presença dela parecia diferente, uma aura estranha que fazia o coração do menino bater mais depressa com curiosidade.

    Os paramédicos agradeceram-lhe, mas a sua mente ainda estava a mil, a perguntar-se quem ela era e porque é que tinha caído ali. Ele seguiu a ambulância a pé, desviando-se dos pedestres, determinado a não perder de vista a mulher que acabara de salvar. As ruas fervilhavam com o caos do dia-a-dia. No entanto, o seu foco permaneceu unicamente na misteriosa mulher na maca.

    Um transeunte sussurrou: “Ela deve ser rica.” E a palavra atingiu-o, embora ele mal entendesse porque é que isso importava, os seus pequenos punhos cerrados enquanto se perguntava se alguém sequer notaria o seu ato corajoso de hoje. A ambulância desapareceu ao virar da esquina, deixando o menino sozinho sob o sol forte do dia.

    Ele não fazia ideia de que a fortuna da mulher em breve mudaria a sua vida de maneiras que ele nem sequer podia imaginar. No hospital, as enfermeiras apressaram-na para dentro, a verificar monitores e a dar instruções urgentes umas às outras. O menino esperava nervosamente no hall de entrada, inseguro se lhe era permitido ficar ou se devia sair em silêncio. Os médicos sussurravam sobre a sua condição, olhando curiosamente para o menino que se recusava a sair do seu lado.

    As horas passavam lentamente, e ele continuava a reviver o momento em que a encontrou na rua na sua mente. Finalmente, um médico aproximou-se dele, a sorrir gentilmente. “Ela está estável agora, graças à tua rapidez de raciocínio.” O alívio invadiu-o. No entanto, ele notou que a mulher ainda não tinha aberto os olhos nem proferido uma única palavra. O estômago do menino roncou, a fome a roer, mas ele recusava-se a sair, com medo de que algo corresse mal.

    Ele observava enquanto o pessoal do hospital se movia cuidadosamente, garantindo o seu conforto e segurança em cada pequeno detalhe. De repente, as pálpebras da mulher tremeram, revelando olhos penetrantes e inteligentes que percorreram a sala. O seu olhar pousou no menino, e por um momento tudo o resto pareceu desvanecer-se em silêncio.

    Um pequeno sorriso de gratidão apareceu nos seus lábios, e ele sentiu um calor estranho a espalhar-se pelo seu peito. Ele ainda não sabia que este simples sorriso marcaria o início de uma jornada que mudaria a sua vida. A voz da mulher era fraca, mas firme, a perguntar ao menino como é que ele a encontrou e porque é que ajudou. Ele gaguejou, a explicar a rua, a queda e como é que não podia deixá-la sozinha em perigo.

    Ela ouvia atentamente, a acenar, os olhos cheios de gratidão e um toque de admiração que ele não conseguia entender. O médico recuou, deixando os dois conversar. Sentindo algo extraordinário neste encontro, ela meteu a mão na mala e tirou um cartão, colocando-o gentilmente nas mãos do menino. “Liga-me se alguma vez precisares de alguma coisa”, disse ela, a sua voz suave, mas a comandar a atenção.

    Ele segurou o cartão com força, sentindo o seu peso, não apenas fisicamente, mas de alguma forma emocionalmente também. Fora do hospital, a luz do sol entrava pelas janelas, a iluminar um momento que parecia quase mágico. O menino perguntou-se se ela era apenas mais uma estranha ou alguém que poderia realmente mudar a sua vida.

    Mal sabia ele, ela era uma bilionária que raramente demonstrava bondade a alguém, muito menos a alguém como ele. O seu gesto era simples, mas plantou uma semente de esperança que ele nunca pensou que sentiria em anos. Ele meteu o cartão no bolso, a olhar para ele, a imaginar um futuro que de repente parecia um pouco mais brilhante do que antes. Os dias passaram, mas o menino não conseguia parar de pensar na mulher, a sua misteriosa bondade a persistir na sua mente.

    Ele regressou à rua, à procura de pequenas formas de sobreviver. No entanto, o rosto dela continuava a surgir-lhe. Uma tarde, um carro preto elegante parou perto do beco onde ele se costumava sentar, o seu motor a zunir suavemente. A porta abriu-se, e para seu choque, a mulher saiu, vestida de forma impecável, a irradiar confiança e poder.

    Ela chamou-o pelo nome, como se o conhecesse há mais tempo do que apenas alguns dias. “Vem comigo”, disse ela, o seu tom gentil, mas firme, e ele hesitou, incerto do que esperar a seguir. Os transeuntes olhavam, a sussurrar sobre o par improvável, o menino sem-abrigo e a mulher rica, a caminharem juntos. Ela explicou que queria oferecer-lhe uma oportunidade, algo que ele nunca tinha sonhado que pudesse acontecer.

    O seu coração batia com uma mistura de medo e excitação, incerto se aquilo era real ou apenas um sonho. Ele apercebeu-se naquele dia sob o sol de que a vida estava prestes a mudar drasticamente para alguém que não tinha nada. A mulher sorriu com sabedoria, como se já soubesse que a vida do menino estava prestes a mudar para sempre. E naquele momento, ele decidiu confiar nela.

    Ao entrar num mundo completamente diferente das ruas que conhecia. O menino entrou no carro luxuoso, os seus olhos arregalados com os assentos de pele e o tablier brilhante. A mulher sorriu, notando a sua admiração, e explicou que queria investir no seu potencial, não apenas na sua gratidão. Ela falou-lhe sobre a sua empresa, o seu trabalho filantrópico e como raramente confiava em alguém fora do seu círculo.

    Ele ouvia atentamente, espantado com a forma como ela se preocupava com pessoas que ele apenas tinha sonhado em ajudar. “Queres aprender?”, perguntou ela, o seu olhar firme, e ele acenou, incerto do que estava a concordar. A cidade passou num desfoque através dos vidros fumados, a luz do sol a brilhar nos arranha-céus altos lá em cima. Ela entregou-lhe um caderno e uma caneta, dizendo-lhe que as ideias e a determinação podiam ser mais valiosas do que o dinheiro.

    O menino sentiu uma faísca de esperança que não sentia há anos, a imaginar um futuro que nunca pensou ser possível. Pela primeira vez, ele apercebeu-se de que a vida podia oferecer mais do que sobrevivência, que os sonhos podiam realmente tornar-se realidade. Ela encorajou-o a pensar grande, a imaginar um mundo onde ele próprio pudesse fazer a diferença. O carro parou em frente a um edifício alto, a sede da sua empresa, a brilhar sob a luz forte da tarde.

    Ele saiu, o coração a acelerar, pronto para entrar num mundo que parecia ser outro universo inteiramente. Lá dentro, ele conheceu assistentes, gerentes e consultores que o tratavam educadamente. No entanto, ele ainda se sentia deslocado. A mulher apresentou-o como alguém em quem acreditava, alguém que tinha uma coragem rara que ela queria nutrir.

    Ela mostrou-lhe escritórios, salas de reuniões e uma pequena biblioteca cheia de livros que ele nunca tinha tocado antes. Cada canto do edifício gritava riqueza, conhecimento e oportunidade, um forte contraste com as ruas que ele conhecia. Ela guiou-o até um escritório silencioso, dizendo-lhe que ele podia aprender o que quisesse se se mantivesse focado.

    Ele rabiscava notas furiosamente, absorvendo cada palavra, cada lição que ela generosamente lhe oferecia. As semanas passaram e ele começou a transformar-se, a ganhar confiança, habilidades e uma visão que nunca imaginou. A mulher observava-o de perto, impressionada com a sua resiliência e com a rapidez com que se adaptava a este novo mundo. Uma tarde, ela entregou-lhe um computador portátil, dizendo-lhe para começar o seu próprio projeto, as suas ideias a importarem mais do que o dinheiro.

    A excitação do menino aumentou, apercebendo-se de que ela confiava nele mais do que qualquer outra pessoa alguma vez tinha confiado na sua vida. Todos os dias sob o sol, ele aprendia novas formas de pensar, resolver problemas e sonhar mais alto do que antes. E mesmo assim, ele não conseguia afastar o pensamento daquele dia chuvoso, ou melhor, solarengo e brilhante, em que tudo começou. Meses depois, o seu projeto ganhou atenção, chamando a atenção de investidores e comunicação social.

    Ele lembrava-se das ruas, do frio e da fome, e de quão longe tinha chegado desde aquele fatídico encontro. A mulher continuou a ser a sua mentora, a empurrá-lo para desafios que ele nunca tinha imaginado enfrentar. Juntos, eles participavam em reuniões, conferências e eventos filantrópicos, sempre sob o céu claro e brilhante.

    As pessoas admiravam o laço entre eles, a misteriosa ligação entre uma bilionária e o menino que ela tinha salvo. Ele apercebeu-se de que não estava apenas a aprender negócios. Estava a aprender vida, coragem e o poder da bondade. Os meios de comunicação começaram a cobrir a sua história, a chamar-lhe o “menino da rua que salvou uma bilionária”. Ele ria-se da ironia, sabendo que tinha sido ele quem tinha sido salvo primeiro, de maneiras que o dinheiro não podia medir.

    Todos os dias, a cidade que o tinha ignorado antes parecia agora torcer em silêncio por cada sucesso seu. A mulher sorria com orgulho, sabendo que tinha reconhecido algo raro nele que mais ninguém tinha. Ele começou a ser mentor de outras crianças, a retribuir a orientação e a esperança que ela lhe tinha dado, e no fundo nunca se esqueceu daquele primeiro dia brilhante em que o destino tinha mudado tudo.

    Uma tarde, ela convidou-o para a sua mansão privada, uma vasta propriedade banhada por luz solar e vegetação. Ele maravilhou-se com a beleza, mas mais ainda com as lições de vida que ela partilhava enquanto caminhavam pelos jardins. Ela contou-lhe histórias de dificuldades, sucesso e como um único ato de coragem pode ter um efeito dominó na vida de alguém.

    Ele apercebeu-se de que a generosidade dela não era apenas dinheiro. Era sabedoria, confiança e crença no potencial humano. Sentaram-se debaixo de uma árvore enorme, a luz do sol a filtrar-se pelas folhas, e discutiram o futuro que ele podia construir. O menino, agora mais confiante e sábio, falava de projetos para ajudar crianças que viviam nas ruas.

    Ela acenou, lágrimas a brilhar nos seus olhos, orgulhosa por ele ter escolhido a compaixão em vez da fama ou da riqueza. O laço entre eles tinha-se tornado mais do que mentor e aluno. Era respeito mútuo e confiança. Ele compreendeu finalmente que a sua surpresa não era apenas riqueza. Era a oportunidade de mudar verdadeiramente vidas. E naquela tarde brilhante, ele prometeu a si mesmo honrar aquele presente, acontecesse o que acontecesse a seguir.

    Anos depois, ele regressou às ruas, não para viver, mas para ajudar. Armado com experiência e recursos, as crianças corriam para ele, a reconhecerem um herói que outrora tinha andado entre elas com roupas esfarrapadas. Ele construiu abrigos, escolas e programas, todos inspirados pela mulher que outrora tinha precisado da sua coragem. A cidade lembrava-se da história.

    O menino sem-abrigo que salvou uma bilionária moribunda, mudando a história. A mulher observava do seu escritório, a sorrir com orgulho, sabendo que o efeito dominó da bondade tinha-se multiplicado para além da imaginação. Ele estava sob o sol, agora confiante, poderoso, mas humilde, a segurar a mão de uma criança em necessidade. O menino que outrora não tinha nada agora dava tudo o que podia, transformando a dor em propósito.

    E a mulher, outrora uma estranha, tinha-se tornado a catalisadora de um legado que nenhum dos dois esqueceria. A história deles, sussurrada pela cidade, provou que a coragem e a bondade podiam realmente remodelar o destino. E à luz brilhante do dia, ambos sabiam que a vida tinha uma maneira de surpreender aqueles que se atreviam a…

  • (1862, Sertão do Piauí) Irmãos Góis e Suas Práticas Sombrias — Três Filhos Que Se Casaram Com a Mãe

    (1862, Sertão do Piauí) Irmãos Góis e Suas Práticas Sombrias — Três Filhos Que Se Casaram Com a Mãe

    O sol de dezembro castigava sem piedade as terras secas de picos, quando Benedito Ferreira cravou a enchada na terra pela última vez naquela manhã. O suor escorria pelo seu rosto queimado pelo sertão, misturando-se com a poeira que grudava em sua pele como uma segunda camada de sofrimento. Precisava de água.

    A sede era tanta que sua garganta parecia lixa. Por isso, decidiu cavar ali mesmo, atrás da casa abandonada dos Gois, onde a terra parecia mais úmida. mais promissora. A primeira enchadada foi fácil, a segunda também, na terceira algo estranho, um barulho diferente. Não era pedra. Benedito conhecia bem o som da enchada batendo em pedra.

    Aquilo era oco. Cavou mais um pouco. Seus dedos trêmulos afastaram a terra solta e então viu, branco, liso, curvo, uma costela. Benedito recuou como se tivesse levado um coice de burro no peito. O coração disparou. As mãos começaram a tremer descontroladamente. Não era costela de boi, não era costela de cabra.

    Era pequena demais para ser de cavalo. Era costela humana. Ele sabia porque já havia visto antes, durante a grande seca de 1858, quando os retirantes morriam pelo caminho e os urubus faziam festa, havia ajudado a enterrar dezenas de corpos naqueles tempos malditos. Mas por que havia um corpo enterrado ali atrás da casa dos Gois? A família havia desaparecido há três meses, simplesmente sumido do mapa como fumaça no vento. Ninguém sabia para onde tinham ido.

    Ninguém se importava muito para falar a verdade. Os gois sempre foram estranhos, diferentes, perturbadores. Benedito olhou para a casa silenciosa. As janelas fechadas pareciam olhos mortos, observando cada movimento seu. A porta da frente estava entreaberta, balançando levemente com o vento quente do sertão, um rangido baixo e constante que gelava o sangue. Ele deveria ir embora.

    Deveria esquecer o que viu. Deveria cavar seu poço em outro lugar e nunca mais voltar ali. Mas a curiosidade é um demônio teimoso. Benedito continuou cavando. A segunda costela apareceu logo em seguida. Depois uma terceira, um osso do braço, parte de uma coluna vertebral.

    Cada nova descoberta era como um soco no estômago. Quantos corpos havia ali embaixo? O vaqueiro parou de cavar quando encontrou o crânio. Estava rachado na lateral direita. Uma fratura feia, profunda. Alguém havia batido naquela cabeça com muita força, com muita raiva. Benedito sentou na terra quente e olhou para os ossos espalhados ao redor do buraco.

    Sua mente trabalhava devagar, tentando entender o que estava vendo. Os gois não tinham desaparecido. Os gois estavam mortos, enterrados ali atrás de sua própria casa, como animais. Mas quem os havia matado? E por quê? As histórias que circulavam pela região voltaram à sua memória como fantasmas indesejados. Histórias sussurradas nos cantos escuros das vendas.

    Histórias que as mulheres contavam umas para as outras quando os maridos não estavam ouvindo. Histórias sobre dona Leopoldina e seus três filhos. Histórias sobre coisas que não deveriam acontecer entre mãe e filhos. histórias que faziam as pessoas benzerem-se e mudarem de assunto rapidamente.

    Benedito sempre pensou que fossem apenas fofocas de gente sem o que fazer. Invenções de mentes pequenas, tentando explicar porque aquela família vivia tão isolada, tão fechada em si mesma. Agora, olhando para aqueles ossos branqueados pelo tempo e pelo sol, ele começava a pensar que talvez as histórias fossem verdade. Talvez os segredos dos goóis fossem escuros demais para a luz do dia. Talvez aqueles ossos guardassem uma verdade que ninguém estava preparado para ouvir.

    O vento mudou de direção e trouxe um cheiro estranho, doce e azedo ao mesmo tempo. O cheiro da morte, que ainda não havia sido completamente lavada pela chuva e pelo tempo. Benedito cobriu rapidamente os ossos com terra e correu para sua mula. Precisava contar para alguém o que havia encontrado.

    Precisava dividir aquele peso que agora carregava no peito como uma pedra. Mas enquanto cavalgava de volta para picos, uma pergunta martelava em sua cabeça sem parar. Se todos os gois estavam mortos e enterrados, quem os havia matado? E será que o assassino ainda estava por perto observando, esperando? A fazenda dos Gois ficava perdida entre as caingas, a três léguas de picos, uma propriedade que parecia ter sido esquecida por Deus e pelos homens.

    As cercas de pedra se estendiam por léguas, delimitando terras áridas, onde apenas os mais resistentes mandacaros conseguiam sobreviver. Dona Leopoldina Gois era viúva há 15 anos. Seu marido, Trajano, havia morrido de uma febre misteriosa que o consumiu em apenas três dias.

    Desde então, ela criava sozinha os três filhos, Estevão, Policarpo e Venâncio. Mas chamar aqueles homens de filhos era estranho. Estevão já passava dos 35 anos. Policarpo tinha 32. Venâncio, o caçula, beirava os 30. Homens feitos, com barba no rosto e força nos braços. Homens que deveriam ter suas próprias famílias, suas próprias terras. Em vez disso, viviam grudados nas saias da mãe, como crianças assustadas.

    Dona Conceição, esposa do vendeiro Raimundo, lembrava bem da primeira vez que viu a família toda junta na cidade. Foi numa festa de São João há mais de 10 anos. Leopoldina chegou acompanhada dos três rapazes, todos vestidos com suas melhores roupas, mas havia algo errado na forma como eles se comportavam.

    Os filhos não saíam de perto da mãe, nem por um segundo. Sussurravam no ouvido dela constantemente tocavam seu braço, sua mão, seus ombros, com uma intimidade que fazia as outras mulheres desviarem o olhar desconfortáveis. E Leopoldina, Leopoldina parecia gostar daquela atenção excessiva. Sorria de um jeito que gelava o sangue das pessoas, um sorriso que não chegava aos olhos.

    O mais perturbador era como ela se mantinha jovem. Aos 50 e poucos anos, Leopoldina tinha a pele lisa de uma mulher de 30, os cabelos negros e brilhantes, sem um fio branco sequer, o corpo ainda firme e atraente. As outras mulheres da região, com a mesma idade, já estavam curvadas pelo trabalho pesado, com rugas fundas, marcando seus rostos castigados pelo sol.

    Leopoldina parecia ter feito um pacto com o diabo para manter sua juventude. Padre Ambrósio da Igreja Matriz de Picos visitou a fazenda apenas uma vez, foi chamado para benzer a propriedade depois que começaram a circular rumores sobre coisas estranhas acontecendo por lá. O padre chegou numa tarde de terça-feira, quando o sol já começava a se pôr.

    Leopoldina o recebeu na varanda vestida com um vestido azul que realçava seus olhos claros. estava sozinha. “Onde estão seus filhos?”, perguntou o padre. “Estão trabalhando na roça”, respondeu ela com aquele sorriso gelado. Mas enquanto conversavam, Ambrósio ouvia vozes vindas de dentro da casa. Vozes masculinas, risos baixos, sussurros, como se alguém estivesse escondido lá dentro observando. Leopoldina o convidou para entrar e benzer a casa.

    O padre aceitou, mas assim que cruzou a porta, sentiu um arrepio subir pela espinha. Havia algo pesado no ar daquela casa, algo que cheirava a pecado e perdição. Na sala principal, quatro cadeiras dispostas em círculo, todas viradas para o centro, como se a família se sentasse ali para para o quê? Para conversar, para rezar, para fazer coisas que não deveriam ser feitas.

    O padre benzeu a sala rapidamente e pediu para ver os quartos. Leopoldina hesitou, disse que os quartos estavam bagunçados, que seria melhor deixar para outro dia. Mas Ambrósio insistiu. Era seu dever abençoar toda a casa. Ela o levou até o corredor dos quartos. Três portas, uma para cada filho, imaginou o padre. Mas quando Leopoldina abriu a primeira porta, Ambrósio viu apenas uma cama.

    Uma cama grande de casal, com lençóis amarrotados e um cheiro doce e enjoativo no ar. Esta é a cama do Estevão”, disse Leopoldina. “E onde ele dorme?”, perguntou o padre confuso. “Aqui”, respondeu ela, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O padre olhou para a cama novamente. Era grande demais para uma pessoa só.

    E havia claramente sinais de que duas pessoas dormiam ali, duas pessoas que se mexiam muito durante a noite. A segunda porta revelou a mesma coisa: uma cama de casal, lençóis desarrumados, o mesmo cheiro doce e perturbador. A terceira porta estava trancada. Leopoldina disse que a chave havia se perdido há tempos. O padre não insistiu, já havia visto o suficiente.

    Benzeu o corredor rapidamente e pediu para ir embora. Enquanto cavalgava de volta para a cidade, Ambrósio tentava entender o que havia presenciado. Três quartos, três camas de casal, uma mulher e três homens adultos vivendo sozinhos numa fazenda isolada. As peças do quebra-cabeças começavam a se encaixar de uma forma que o padre não queria aceitar. Naquela noite, ele rezou até o amanhecer.

    Rezou para que suas suspeitas estivessem erradas. Rezou para que Deus perdoasse os pensamentos impuros que passavam por sua cabeça. Mas no fundo do coração, Ambrósio sabia que havia descoberto algo abominável, algo que mancharia para sempre sua fé na bondade humana. A partir daquele dia, sempre que alguém mencionava a família Gois, o padre fazia o sinal da cruz e murmurava uma oração, como se apenas pronunciar aquele nome fosse suficiente para atrair a maldição que pairava sobre aquela casa perdida no sertão. Uma maldição que logo se revelaria mais terrível do que

    qualquer um poderia imaginar. Seu Raimundo acordou naquela segunda-feira de setembro com uma sensação estranha no peito. Algo estava diferente, mas ele não conseguia identificar o quê. Abriu sua venda, como sempre fazia, há 20 anos, organizou as mercadorias nas prateleiras e esperou pelos primeiros clientes. O dia passou devagar. Alguns vaqueiros compraram rapadura e cachaça.

    Dona Sebastiana levou farinha e sal, o movimento normal de uma segunda-feira qualquer no interior do Piauí. Mas quando o sol começou a se pôr, Raimundo percebeu o que estava incomodando. Os goóis não tinham aparecido. Por 15 anos desde a morte do velho trajano, dona Leopoldina e seus filhos vinham à venda toda segunda-feira religiosamente.

    Com sempre as mesmas coisas: farinha, feijão, rapadura, querosene para os lampiões, às vezes um pedaço de carne seca. Leopoldina pagava sempre à vista, com moedas de prata que tirava de uma bolsinha de couro amarrada na cintura. Nunca sorria, nunca conversava além do necessário.

    Fazia suas compras e ia embora, seguida pelos três filhos como uma procissão sombria. Raimundo olhou para o calendário pregado na parede. Primeira segunda-feira de setembro. Os goóis deveriam ter aparecido. Talvez estejam doentes, pensou, ou ocupados com algum trabalho na fazenda. Mas uma voz pequena no fundo de sua mente sussurrava que algo estava errado, muito errado.

    A segunda segunda-feira chegou. Raimundo acordou mais cedo, organizou a venda com cuidado especial e ficou esperando o dia inteiro. Nada. Dona Conceição, sua esposa, notou a preocupação do marido. “Por que você está tão nervoso?”, perguntou ela enquanto preparava o jantar. Os gois não vieram esta semana também, respondeu Raimundo, mexendo distraído no feijão do prato.

    E daí? Talvez tenham viajado. Viajado para onde? Aquela gente não tem parente em lugar nenhum. Não tem amigo, não sai daquela fazenda nem para ir à missa. Conceição parou de comer e olhou para o marido. Em 25 anos de casamento, ela havia aprendido a confiar nos instintos dele. Raimundo tinha um sexto sentido para problemas.

    Você acha que aconteceu alguma coisa? Não sei, mas vou descobrir. A terceira segunda-feira foi a gota d’água. Raimundo passou o dia inteiro olhando para a Baistrada que levava à fazenda dos Gois, esperando ver a figura de Leopoldina surgir no horizonte com seus três filhos atrás. Nada. Naquela noite ele não conseguiu dormir.

    Ficou na rede da varanda, olhando as estrelas e tentando entender o que poderia ter acontecido com aquela família estranha. Bandoleiros. Era possível. A região estava infestada de cangaceiros que atacavam fazendas isoladas. Mas os gois não tinham fama de ricos. Viviam de forma simples, quase pobre. Doença também era possível, uma febre, uma peste qualquer que tivesse levado à família toda. Mas alguém teria vindo buscar ajuda na cidade. Alguém teria mandado recado.

    A quarta segunda-feira chegou e passou em branco. Raimundo não aguentou mais. Vou até lá. anunciou para a esposa na terça-feira de manhã. Conceição tentou dissuadi-lo, disse que não era da conta deles, que os gois sempre foram esquisitos e talvez quisessem ficar sozinhos mesmo, mas Raimundo já havia tomado a decisão.

    Celou seu cavalo e chamou dois vaqueiros da região, Benedito Ferreira e João Batista, homens corajosos, acostumados com os perigos do sertão. A cavalgada até a fazenda dos Gois levou 2 horas. O sol estava alto quando chegaram à propriedade. O primeiro sinal de que algo estava errado foi o silêncio. Nenhum barulho de animais, nenhum movimento nas janelas, nenhuma fumaça saindo da chaminé da cozinha.

    A casa parecia morta. Raimundo desmontou e caminhou até a varanda. A porta da frente estava fechada, mas não trancada. Bateu algumas vezes. Dona Leopoldina, Estevão. Alguém em casa? Silêncio. Empurrou a porta devagar. Ela se abriu com um rangido longo e assombrado. O cheiro foi a primeira coisa que o atingiu. Não era cheiro de morte como ele esperava. Era pior.

    Era cheiro de abandono, de comida estragada, de mofo e umidade. A sala principal estava arrumada de forma estranha. Quatro cadeiras dispostas em círculo perfeito. No centro, uma mancha escura no chão de terra batida. Uma mancha que parecia ter sido esfregada várias vezes, mas que ainda mostrava sinais de algo que havia sido derramado ali. Sangue.

    Raimundo sentiu o estômago embrulhar. Chamou os dois vaqueiros que entraram na casa com cautela. Vasculharam todos os cômodos. Na cozinha, comida estragada sobre a mesa, pão coberto de mofo, leite azedo numa caneca, como se alguém tivesse parado de comer no meio da refeição e nunca mais voltado.

    Nos quartos, roupas espalhadas, camas desarrumadas, sinais de que as pessoas haviam saído com pressa ou sido obrigadas a sair, mas não havia corpos, não havia sinais claros de violência além daquela mancha na sala. Os gois simplesmente haviam desaparecido. Benedito encontrou algo perturbador no quarto de Leopoldina. Uma caixa de madeira escondida embaixo da cama.

    Dentro cartas, dezenas de cartas escritas à mão. Raimundo pegou uma e começou a ler. Suas mãos tremeram. Seu rosto empalideceu. “O que foi?”, perguntou João Batista. Raimundo não conseguiu responder, guardou as cartas rapidamente e saiu da casa quase correndo. Durante toda a cavalgada de volta, ele ficou em silêncio.

    Benedito e João Batista tentaram conversar, mas Raimundo parecia estar em outro mundo. Só quando chegaram à cidade, ele finalmente falou: “Vamos procurar o delegado”. Aconteceu algo terrível naquela casa. Mas ele não contou o que havia lido nas cartas. Não contou sobre os segredos obscenos que descobrira. Alguns conhecimentos eram pesados demais para serem compartilhados.

    Alguns segredos eram escuros demais para a luz do dia. Coronel Lindolfo Machado era um homem que conhecia a face da morte. Veterano da guerra do Paraguai. Havia visto soldados despedaçados por balas de canhão, corpos empilhados como lenha depois das batalhas sangrentas. Pensava que nada mais poderia chocar sua alma endurecida pela guerra. estava enganado.

    Quando Raimundo bateu na porta de sua casa naquela terça-feira à tarde, o rosto do vendeiro estava pálido como cera de vela. As mãos tremiam enquanto contava sobre o desaparecimento dos gois e a mancha de sangue encontrada na sala. Lindolfo selou seu cavalo imediatamente. Como delegado de picos, era seu dever investigar qualquer crime na região, mas algo no jeito nervoso de Raimundo o deixava inquieto.

    “O que você não está me contando?”, perguntou enquanto cavalgavam para a fazenda. Raimundo hesitou, olhou para os lados como se temesse que alguém pudesse ouvir. Encontrei umas cartas na casa, coronel. Cartas que que não deviam existir. Que tipo de cartas? Cartas de amor. E qual o problema nisso? Raimundo engoliu seco antes de responder.

    Eram cartas dos filhos para a mãe, cartas de amor de verdade, cartas de de marido para esposa. Lindolfo puxou as rédeas do cavalo, parando no meio da estrada. Olhou fixamente para Raimundo, tentando processar o que havia acabado de ouvir. Você tem certeza do que está dizendo? Tenho, coronel. Li com meus próprios olhos. Coisas que não posso repetir nem para minha mulher.

    Coisas que fazem o estômago revirar. O resto da cavalgada foi feito em silêncio. Lindolfo sentia uma mistura de nojo e curiosidade crescendo em seu peito. Em seus 40 anos de vida, havia presenciado muitas perversões humanas. Mas aquilo, aquilo era diferente. A fazenda dos Gois apareceu no horizonte como uma ferida aberta na paisagem.

    A casa de taipa, que um dia fora branca, agora estava acinzentada pelo tempo e pelo abandono. As janelas fechadas pareciam olhos mortos, observando sua aproximação. Lindolfo entrou na casa com a experiência de quem já havia investigado dezenas de crimes, examinou a mancha de sangue na sala, mediu sua extensão, analisou os respingos nas paredes próximas. “Houve uma luta aqui”, murmurou para si mesmo.

    “Uma luta violenta”. Raimundo o levou até o quarto de Leopoldina e mostrou onde havia encontrado as cartas. Lindolfo abriu a caixa de madeira e começou a ler. A primeira carta era de Estevão, o filho mais velho. Minha querida mãe e esposa, começava a carta. Lindolfo sentiu o estômago embrulhar, mas continuou lendo. Cada palavra era uma punhalada em sua consciência cristã.

    Estevão escrevia sobre noites de paixão, sobre o amor proibido que sentia pela mulher que lhe deu a vida. descrevia momentos íntimos com detalhes que fariam um padre desmaiar de horror. A segunda carta era de Policarpo, mais contida, mas igualmente perturbadora. “Nossa união é sagrada aos olhos de Deus”, dizia ele.

    “Você me ensinou que o amor verdadeiro não conhece barreiras, que entre nós não há pecado, apenas pureza”. A terceira carta de Venâncio era a mais explícita. Lindolfo teve que parar de ler várias vezes para controlar a náusea que subia pela garganta. “Você nos deu a vida, agora nos dá o amor”, escrevia o filho caçula. “Somos seus maridos, seus amantes, seus devotos.

    Nossa família é especial, abençoada por forças que os outros não compreendem”. Lindolfo guardou as cartas rapidamente. Suas mãos tremiam não de medo, mas de revolta. Em toda sua experiência como soldado e delegado, nunca havia se deparado com algo tão abominável. Raimundo observava o rosto do coronel, tentando decifrar seus pensamentos.

    O que vamos fazer, coronel? Lindolfo não respondeu imediatamente. Caminhou pela casa examinando cada cômodo com olhos de investigador. No quarto de Estevão encontrou mais evidências perturbadoras. Poupas femininas misturadas com roupas masculinas, um vestido azul que claramente pertencia à Leopoldina jogado sobre uma camisa de homem. Na cômoda, pentes de cabelo, perfumes, objetos pessoais de uma mulher dividindo espaço com navalhas de barbear e outros pertences masculinos.

    Era como se duas pessoas vivessem ali como marido e mulher. O quarto de Policarpo revelou a mesma coisa e o de Venâncio também. Lindolfo começou a entender a dinâmica daquela família maldita. Leopoldina não era apenas mãe dos três homens, era esposa de todos eles. Dividia seu tempo, seu corpo, seu amor entre os próprios filhos.

    Mas onde estavam agora e por havia tanto sangue na sala? A resposta veio quando Lindolfo encontrou a última carta. Estava escondida embaixo do colchão de Leopoldina, como se alguém tivesse tentado escondê-la às pressas. Era diferente das outras. Não era carta de amor, era uma declaração de guerra.

    Meus três maridos começava a carta com a letra caprichada de Leopoldina. Chegou a hora de resolver nossa situação. Estou esperando um filho e preciso saber quem é o pai verdadeiro. Lindolfo sentiu o sangue gelar nas veias. Vocês vão lutar. Vão lutar até que apenas um reste vivo. O vencedor será meu único companheiro. O perdedor será esquecido para sempre.

    A carta continuava com instruções detalhadas sobre como a luta deveria acontecer. na sala principal, com as cadeiras dispostas em círculo, lá no centro, assistindo, eles ao redor, lutando como gladiadores numa arena romana. O último parágrafo era o mais chocante de todos. Quem sobreviver terá meu amor eterno. Quem morrer será enterrado com honras no quintal. Nosso filho crescerá, sabendo quem é seu verdadeiro pai.

    Lindolfo dobrou a carta com mãos trêmulas. Agora tudo fazia sentido. A mancha de sangue na sala. o desaparecimento da família, as cadeiras dispostas em círculo, os três irmãos haviam se matado numa luta fratricida, instigados pela própria mãe. Mas onde estava Leopoldina e onde estavam os corpos? Se você está acompanhando esta história perturbadora do sertão piau, se inscreva no canal para não perder os próximos capítulos.

    Deixe seu like se você está conseguindo acompanhar essa narrativa chocante e nos comentários conte ouviu falar de casos estranhos na sua região. Compartilhe este vídeo com quem tem estômago forte para histórias de mistério. Agora vamos descobrir o que realmente aconteceu com os corpos dos irmãos Gois. Coronel Lindolfo sabia que para desvendar o mistério dos gois precisava ouvir as pessoas que viviam nas redondezas.

    No sertão, os vizinhos sempre sabem mais do que aparentam, sempre veem coisas que preferem fingir que não viram. A primeira pessoa que procurou foi dona Sebastiana, uma viúva que morava numa pequena casa de taipa, a duas léguas da fazenda dos Gois. Mulher de 60 anos, mãe de sete filhos, conhecia todos os segredos da região como ninguém.

    Quando Lindolfo bateu em sua porta numa manhã de quinta-feira, Sebastiana o recebeu com nervosismo. Suas mãos tremiam enquanto servia café numa xícara rachada. Dona Sebastiana, preciso que me conte tudo o que sabe sobre a família Gois. A mulher baixou os olhos, mexendo, distraída, na barra do vestido desbotado.

    Coronel, tem certas coisas que uma pessoa cristã não deve falar. Estou investigando um possível crime. Preciso da verdade, por mais difícil que seja. Sebastiana suspirou fundo, como se estivesse se preparando para confessar um pecado mortal. Eu via coisas naquela casa, coronel. Coisas que me faziam rezar três Ave Marias antes de dormir.

    Que tipo de coisas? À noite, quando o vento estava favorável, eu ouvia barulhos vindos de lá, gritos, gemidos. No começo, pensei que fossem animais sendo atacados por onças, mas depois depois percebi que eram vozes humanas. Lindolfo inclinou-se para a frente, prestando atenção em cada palavra, vozes de homem ou de mulher, dos dois. Mas era estranho, coronel.

    Não eram gritos de dor, eram eram gemidos de prazer, como se estivessem fazendo coisas que que marido e mulher fazem na intimidade. O rosto de Sebastiana estava vermelho de vergonha, mas eram três homens e uma mulher. Como pode ser? Sebastiana fez o sinal da cruz antes de continuar.

    Uma noite de lua cheia, há uns dois anos, eu não conseguia dormir por causa do calor. Saí para tomar um ar na varanda e vi luzes acesas na janela do quarto da dona Leopoldina. A janela estava aberta e eu conseguia ver lá dentro. Ela parou, as mãos tremendo violentamente. O que você viu, dona Sebastiana? Vi a dona Leopoldina. Estava Estava sem roupas e os três filhos ao redor dela também sem roupas.

    Eles a tocavam como como se fosse uma mulher qualquer, não a mãe deles. Lindolfo sentiu o estômago revirar, mas manteve a compostura profissional. Tem certeza do que viu? Tenho, coronel. E não foi só uma vez. Várias noites eu via a mesma coisa. Às vezes era só um dos filhos com ela.

    Às vezes eram os três juntos, como se como se ela fosse esposa de todos eles ao mesmo tempo. A segunda testemunha foi seu Antônio, vaqueiro experiente que conhecia a região como a palma da mão, homem de poucas palavras, mas quando falava era para dizer coisas importantes. Os rapazes gois vinham comprar gado de mim de vez em quando, contou Antônio enquanto consertava uma cela na varanda de sua casa.

    sempre juntos, nunca separados, e sempre falavam da mãe de um jeito, de um jeito esquisito. Como assim esquisito? Não era amor de filho, coronel, era outra coisa. Uma vez o Estevão me disse que a mãe dele era a mulher mais bonita do mundo, que nenhuma outra mulher se comparava a ela, que ele preferia morrer a viver longe dela. Antônio cuspiu no chão, demonstrando nojo.

    O Policarpo falava a mesma coisa. Dizia que Deus havia feito a mãe dele especialmente para eles, que era destino divino eles ficarem juntos para sempre. E o venâncio, esse era o pior de todos. Uma vez me perguntou se eu achava normal um homem se apaixonar pela própria mãe.

    Disse que o amor verdadeiro não conhece barreiras, que se Deus não quisesse, não teria feito a mãe dele tão perfeita. Antônio balançou a cabeça desgostoso. Eu fingi que não entendia o que ele estava querendo dizer. Mas entendi, coronel, entendi muito bem. A terceira e mais importante testemunha foi padre Ambrósio. Lindolfo o encontrou na sacristia da igreja matriz, organizando os paramentos para a missa do domingo.

    Padre, preciso que me conte sobre sua visita à fazenda dos Gois. O padre parou o que estava fazendo. Seu rosto empalideceu instantaneamente. Coronel, existem coisas que um homem de Deus não deve repetir. Estou investigando um crime grave. Sua cooperação é fundamental.

    Ambrósio sentou-se numa cadeira de madeira, como se suas pernas não conseguissem mais sustentá-lo. Fui chamado para benzer aquela casa há três anos. Quando cheguei, senti imediatamente que havia algo errado. O ar estava pesado, carregado de de pecado. O padre fez uma pausa, reunindo coragem para continuar. A dona Leopoldina me recebeu sozinha, mas eu ouvia vozes masculinas dentro da casa.

    Quando perguntei pelos filhos, ela disse que estavam trabalhando, mas as vozes vinham de dentro, não de fora. Lindolfo aguardou pacientemente. Ela me levou para conhecer os quartos. Coronel, eu vi coisas que mancharam minha alma para sempre. Camas de casal nos quartos dos filhos, roupas de mulher misturadas com roupas de homem, cheiro de intimidade no ar. A voz do padre estava quase inaudível, mas o pior foi quando vi a dona Leopoldina grávida.

    Grávida? Sim, coronel. Barriga de uns 4 meses aos 50 anos de idade. E quando perguntei quem era o pai, ela sorriu de um jeito que gelou meu sangue e disse que todos os três filhos disputavam a paternidade. Padre Ambrósio cobriu o rosto com as mãos. Fugi daquela casa, coronel. Fugi como um covarde e rezei para que Deus castigasse aquela família amaldiçoada.

    Lindolfo saiu da igreja com a cabeça pesada. As peças do quebra-cabeças começavam a se encaixar, formando um quadro mais terrível do que ele imaginara. Leopoldina havia engravidado de um dos filhos. Os três disputavam a paternidade. A tensão havia crescido até o ponto de ruptura e então ela havia organizado aquela luta macabra para resolver a questão de uma vez por todas.

    Mas quem havia sobrevivido e onde estavam os corpos dos perdedores? A resposta estava enterrada em algum lugar daquela fazenda maldita. Lindolfo montou em seu cavalo e cavalgou de volta para lá, determinado a descobrir toda a verdade.

    Por mais terrível que ela fosse, Benedito Ferreira não conseguia tirar da cabeça a imagem dos ossos que havia encontrado. Três dias se passaram desde que descobrira o primeiro esqueleto e o vaqueiro mal dormia. Toda vez que fechava os olhos, via aquele crânio rachado olhando para ele com suas órbitas vazias. Quando o coronel Lindolfo apareceu em sua casa numa manhã de sábado, pedindo para ser levado ao local da descoberta, Benedito sentiu um misto de alívio e terror.

    Alívio porque finalmente alguém com autoridade iria investigar. Terror porque sabia que estava prestes a presenciar algo que mudaria sua vida para sempre. A cavalgada até a fazenda dos Gois foi tensa. Lindolfo cavalgava em silêncio, perdido em pensamentos sombrios. As revelações das testemunhas haviam pintado um quadro perturbador da família, mas ele precisava de provas concretas.

    Chegaram à propriedade quando o sol estava no meio do céu, castigando a terra seca com seu calor implacável. Benedito levou o coronel até os fundos da casa, onde havia cavado o poço. Aqui, coronel, foi aqui que encontrei os primeiros ossos. Lindolfo desmontou e examinou o local. A terra estava revolvida, mostrando claramente onde Benedito havia cavado. Alguns ossos ainda eram visíveis na superfície.

    Vamos cavar mais fundo. Preciso ver tudo. Os dois homens trabalharam sob o sol escaldante. A cada enchadada, novos horrores vinham à tona. Primeiro apareceram mais costelas, depois ossos dos braços, em seguida uma coluna vertebral quase completa. Lindolfo parou de cavar quando encontrou o segundo crânio, depois o terceiro.

    Três homens adultos murmurou limpando o suor do rosto. Pelos tamanhos dos ossos todos na faixa dos 30 anos. Benedito engoliu seco. Sabia exatamente quem eram aqueles homens. continuaram cavando. O quarto esqueleto apareceu logo abaixo dos outros três. Era menor, mais delicado, claramente de uma mulher. Mas havia algo diferente neste último esqueleto.

    Enquanto os ossos dos homens estavam espalhados, quebrados, mostrando sinais claros de violência, os ossos da mulher estavam organizados, preservados, como se alguém tivesse tomado cuidado especial ao enterrá-la. Lindolfo examinou cada osso com a meticulosidade de um investigador experiente. Sua experiência militar o havia ensinado a ler as marcas da morte nos corpos.

    “Os três homens morreram de forma violenta, disse para Benedito. Veja estas fraturas nos crânios, golpes de instrumento cortante, provavelmente facas ou foic e a mulher?” Lindolfo examinou cuidadosamente o esqueleto feminino. Não havia sinais de violência, nenhuma fratura. Nenhuma marca de golpe.

    Ela morreu depois dos outros, provavelmente de fome ou doença. Veja como os ossos estão preservados. Alguém a enterrou com cuidado, mas havia algo mais perturbador no fundo da cova. Um esqueleto minúsculo, ossos tão pequenos que quase passaram despercebidos. Lindolfo sentiu o estômago revirar quando percebeu o que estava vendo. “Um bebê”, sussurrou.

    “Há um bebê enterrado aqui também.” Benedito recuou fazendo o sinal da cruz. A descoberta de uma criança morta tornava tudo ainda mais macabro. Lindolfo examinou os pequenos ossos com cuidado. Pela formação, era um bebê que havia nascido a termo, mas havia morrido logo após o nascimento, ou talvez antes mesmo de nascer. Estava enterrado ao lado da mulher. provavelmente era filho dela.

    As peças do quebra-cabeças começaram a se encaixar na mente de Lindolfo. Ele lembrou das palavras do padre Ambrósio sobre Leopoldina estar grávida. lembrou da carta encontrada na casa, onde ela falava sobre descobrir quem era o pai verdadeiro de seu filho.

    A história toda se desenrolou em sua mente como um pesadelo. Os três irmãos haviam se matado numa luta fratricida, instigados pela mãe, que queria saber qual deles era o pai de seu filho. Leopoldina havia assistido à carnificina, sentada numa das quatro cadeiras dispostas em círculo na sala. Depois da luta, ela ficara sozinha com os corpos dos filhos maridos.

    Grávida, sem ninguém para ajudá-la, havia enlouquecido de dor e solidão. “Deve ter tentado sobreviver sozinha”, murmurou Lindolfo, “maais para si mesmo do que para Benedito. Mas sem os filhos para cuidar da fazenda, sem ninguém para buscar comida na cidade, ela morreu de fome, provavelmente, e o bebê nasceu morto ou morreu logo após o nascimento sem cuidados médicos.

    ” Lindolfo olhou para os cinco esqueletos espalhados no fundo da cova, uma família inteira destruída pela luxúria, pelo ciúme e pela loucura. Mas quem os havia enterrado? A resposta veio quando Benedito encontrou algo mais no fundo da cova, uma pavelha com cabo de madeira carcomido pelo tempo. “Ela tentou escondê-los”, disse Lindolfo pegando a ferramenta. Leopoldina arrastou os três filhos e depois depois se deitou junto com eles.

    Como assim se deitou? Lindolfo examinou novamente a disposição dos ossos. Os três homens estavam no fundo da cova com sinais de cobertura apressada e superficial. A mulher estava por cima, mas numa posição estranha, como se tivesse se deitado ali voluntariamente em um abraço final com o filho morto. Ela cavou a própria cova para o bebê, pequena e rasa, e deitou-se ao lado dele.

    Os corpos dos filhos ela deve ter apenas arrastado e tentado encobrir com o que conseguiu, antes que a fraqueza e a loucura a vencessem de vez. A imagem era tão perturbadora que Benedito teve que se afastar da cova. Imaginar aquela mulher louca de dor, tentando esconder o horror e depois se deitando para morrer ao lado dos filhos que havia instigado a se matarem. Era demais para sua mente simples processar.

    Lindolfo continuou examinando os restos mortais. Havia algo mais que o incomodava. A posição dos esqueletos dos homens sugeria que eles não haviam sido simplesmente jogados na cova, tinham sido arrastados e alguns indícios mostravam que ela os havia tentado organizar dispostos lado a lado, como se Leopoldina tivesse querido que ficassem juntos mesmo na morte. “Ela os amava”, murmurou Lindolfo.

    Mesmo depois de instigá-los a se matarem, ela ainda os amava. Era o amor mais doent destrutivo que ele já havia presenciado. Um amor que havia destruído uma família inteira e deixado apenas ossos branqueados como testemunho de sua existência. Lindolfo cobriu novamente a cova com terra. Alguns segredos eram pesados demais para serem revelados ao mundo, mas ele sabia que nunca conseguiria esquecer o que havia visto naquele buraco maldito.

    A verdade sobre os gois estava finalmente descoberta e era mais terrível do que qualquer um poderia imaginar. Coronel Lindolfo passou três noites sem dormir depois de descobrir os esqueletos. Sua mente trabalhava incansavelmente, tentando reconstruir os últimos dias da família Gois. Cada detalhe que havia coletado durante a investigação se encaixava como peças de um quebra-cabeças macabro.

    Na quarta noite, ele finalmente conseguiu montar o quadro completo daqueles últimos momentos de horror. Tudo começou quando Leopoldina descobriu que estava grávida novamente. Aos 52 anos, depois de 15 anos mantendo relações com os três filhos, seu corpo ainda era capaz de gerar vida. Mas de quem era aquela criança? A dúvida a consumia como fogo.

    Durante semanas, ela observou os três homens que chamava de maridos, tentando descobrir qual deles havia plantado aquela semente em seu ventre. Estevão, o mais velho, sempre fora o mais possessivo. Desde a morte do pai, ele se considerava o verdadeiro dono da casa e da mãe. Dormia com ela quatro noites por semana, reclamando quando tinha que dividir a cama com os irmãos. Policarpo era o mais carinhoso.

    Tratava Leopoldina como uma deusa, adorando cada centímetro de seu corpo como se fosse sagrado. Escrevia cartas de amor todos os dias, declarando que ela era sua razão de viver. Venâncio, o caçula, era o mais ardente. Jovem e vigoroso, procurava a mãe com uma fome insaciável.

    Suas noites de amor eram as mais intensas, deixando Leopoldina exausta e satisfeita. Qual deles havia conseguido engravidá-la? A pergunta torturava Leopoldina dia e noite. Ela precisava saber, precisava ter certeza de quem era o pai verdadeiro de seu filho. Foi então que a ideia diabólica nasceu em sua mente corrompida.

    Se os três disputavam seu amor com tanta paixão que lutassem por ele de verdade, que provassem sua devoção da única forma que importava. Com sangue, Leopoldina começou a plantar sementes de ciúme entre os filhos. Sussurrava no ouvido de Estevão que Policarpo a procurava mais vezes durante a noite. Contava para Policarpo que Venâncio falava mal dele pelas costas.

    Dizia para Venâncio que os irmãos mais velhos planejavam expulsá-lo de casa. As tensões cresceram como uma tempestade se formando no horizonte. Os irmãos que antes viviam em harmonia doentia começaram a se olhar com desconfiança. Pequenas discussões se transformaram em brigas violentas. A casa, que antes era um ninho de amor proibido, se tornou um campo de batalha. Leopoldina observava tudo com satisfação perversa.

    Sua barriga crescia a cada semana e com ela crescia também sua necessidade de saber a verdade. Foi numa noite de lua nova de setembro que ela finalmente revelou seu plano. Chamou os três filhos para a sala principal, mandou que dispusessem as quatro cadeiras em círculo, como faziam nas noites especiais quando planejavam suas orgias familiares. Mas desta vez seria diferente.

    Meus queridos maridos disse ela, a voz doce como mel envenenado. Chegou a hora de resolvermos nossa situação. Os três homens a olhavam com adoração, sem suspeitar do que estava por vir. Estou carregando um filho de um de vocês. Preciso saber quem é o pai verdadeiro. Estevão se levantou imediatamente. É meu filho, mãe. Tenho certeza. Policarpo balançou a cabeça.

    Não pode ser. O filho é meu. Sinto isso no coração. Venâncio. Ru com desprezo. Vocês dois são velhos e fracos. O filho só pode ser meu. Leopoldina sorriu satisfeita com a reação dos filhos. Já que não conseguem chegar a um acordo, vamos resolver isso de outra forma. Ela se levantou e caminhou até o centro do círculo. Vocês vão lutar.

    vão lutar até que apenas um reste vivo. O vencedor será o pai do meu filho. O vencedor será meu único marido daqui para frente. Os três homens a olhavam em choque. Mãe, você não pode estar falando sério disse Estevan. Estou falando muito sério. Se realmente me amam, como dizem, vão provar isso lutando por mim. Leopoldina apontou para a mesa da cozinha, onde havia deixado três facas de açogueiro.

    Peguem suas armas, que o mais forte vença. O que aconteceu a seguir foi uma carnificina que manchou para sempre aquela casa. Stevão pegou a primeira faca, seus olhos brilhando com uma mistura de amor e loucura. Policarpo hesitou, mas acabou pegando a segunda arma. Venâncio agarrou a terceira faca com determinação.

    Leopoldina sentou-se em sua cadeira, as mãos acariciando a barriga. grávida e assistiu enquanto os três homens que havia criado e corrompido se preparavam para se destruírem mutuamente. A luta começou devagar. Nenhum dos irmãos queria realmente ferir os outros, mas Leopoldina os incitava com palavras venenosas.

    Covarde gritava quando um deles hesitava. Se não tem coragem de lutar por mim, então não me merece. Gradualmente, a violência escalou. Estevão atacou primeiro, cortando o braço de Policarpo. Venâncio, revidou, cravando sua faca nas costas do irmão mais velho. Policarpo, sangrando e desesperado, golpeou Venâncio no peito. O sangue começou a se espalhar pelo chão de terra batida da sala.

    Leopoldina assistia a tudo com os olhos brilhando de excitação doentia. via seus filhos maridos se matando por ela, e aquilo a enchia de um prazer perverso que nunca havia experimentado antes. A luta durou quase uma hora. Os três homens se feriram mutuamente, até que não conseguiam mais ficar de pé. Caíram no chão encharcado de sangue, agonizando, chamando pelo nome da mãe esposa, que os havia condenado à morte.

    Leopoldina permaneceu sentada em sua cadeira até o último gemido se calar. Então, lentamente se levantou e caminhou entre os corpos dos filhos mortos. Nenhum havia vencido, todos haviam perdido. E ela, ela havia perdido tudo. Leopoldina ficou três dias sentada naquela cadeira, cercada pelos corpos dos filhos mortos. Não chorava, não gritava, apenas observava o sangue secar no chão de terra batida, tentando entender o que havia feito.

    A realidade da situação demorou para penetrar em sua mente corrompida. Os três homens, que eram sua razão de viver, jaziam mortos a seus pés, mortos por sua causa, mortos por sua loucura. No quarto dia, a fome a obrigou a se levantar. caminhou pela casa como um fantasma, evitando olhar para a sala principal, onde os corpos começavam a exalar o cheiro doce e nauseiante da decomposição.

    Tentou comer, mas a comida tinha gosto de cinzas. Tentou beber água, mas ela descia pela garganta como vidro moído. Seu corpo rejeitava tudo, como se soubesse que não merecia mais viver. Foi então que as dores começaram, dores no ventre, dores que cortavam como facas, lembrando-a constantemente da criança que carregava, o filho de um dos homens mortos, o filho que nunca saberia quem era seu pai verdadeiro.

    Leopoldina entendeu que precisava fazer algo com os corpos antes que alguém viesse procurar pela família. Não podia deixar que descobrissem a verdade sobre o que havia acontecido naquela casa. Com uma força que não sabia de onde vinha, mas impulsionada pela urgência do desespero e da loucura, ela começou a arrastar os corpos para fora da casa.

    Primeiro Estevão, depois Policarpo, por último Venâncio. Cada movimento era uma tortura, mas ela persistiu. Arrastou-os até os fundos da casa, no mesmo local onde, anos depois Benedito tentaria abrir um poço. Ali, com uma pavelha e as próprias mãos que sangravam e quebravam as unhas, ela conseguiu cobrir os corpos superficialmente, com terra solta, pedras e galhos secos, num esforço desesperado para ocultar a cena. As semanas seguintes foram um pesadelo de solidão e loucura.

    Leopoldina vagava pela casa vazia, conversando com fantasmas, preparando comida para homens mortos, arrumando camas que nunca mais seriam ocupadas. Sua barriga continuava crescendo, lembrando-a constantemente do erro terrível que havia cometido. A criança se mexia dentro dela, inocente e alheia à tragédia que a cercava.

    Foi numa noite de outubro que as dores do parto começaram. Dores que rasgavam seu corpo como garras de demônio, punindo-a pelos pecados que havia cometido. Leopoldina pariu sozinha no mesmo quarto onde havia concebido aquela criança com um dos filhos mortos.

    Pariu na escuridão, sem ajuda, sem conforto, sem esperança. A criança nasceu morta, um menino pequeno e azul, que nunca respirou, nunca chorou, nunca abriu os olhos para ver o mundo corrompido em que havia sido concebido. Leopoldina segurou o filho morto contra o peito e finalmente chorou. Chorou por tudo que havia perdido. Chorou pela família que havia destruído. Chorou pela loucura que havia consumido sua alma.

    Enterrou a criança numa cova pequena que conseguiu cavar com as próprias mãos ao lado dos filhos que havia tentado esconder. Agora, todos estavam juntos na morte, unidos pelo sangue e pelo pecado que os havia separado em vida. Depois disso, Leopoldina simplesmente se deitou na terra revolvida ao lado dos filhos e do neto, fechou os olhos e esperou a morte chegar. A morte veio devagar, como uma velha amiga que não tinha pressa.

    Veio na forma de fome, de sede, de frio. Nas noites de inverno. Veio carregada de remorço e arrependimento. Quando o coronel Lindolfo descobriu os esqueletos meses depois, decidiu que alguns segredos eram pesados demais para serem revelados. Oficialmente, a família Gois havia desaparecido em circunstâncias misteriosas.

    Os corpos foram transferidos para o cemitério de picos e enterrados como vítimas de bandoleiros. Lindolfo queimou todas as cartas encontradas na casa. Queimou as evidências do amor proibido que havia destruído uma família inteira. Algumas verdades eram escuras demais para a luz do dia, mas ele nunca conseguiu esquecer o que havia visto naquela cova maldita. Nunca conseguiu apagar de sua mente a imagem dos cinco esqueletos abraçados na morte.

    Unidos pela tragédia que os havia separado em vida, a fazenda dos Gois foi abandonada. Ninguém quis comprá-la, mesmo sendo vendida por um preço muito baixo. As pessoas da região evitavam passar perto daquela propriedade, como se pudessem sentir o peso dos pecados que haviam sido cometidos ali. Anos se passaram, décadas, a casa de Taipa desmoronou lentamente, devorada pelo tempo e pelo mato, mas as histórias permaneceram.

    sussurradas de geração em geração, como um aviso sobre os perigos do amor que ultrapassa os limites da natureza. Hoje, mais de 160 anos depois, as ruínas da fazenda dos Gois ainda existem na região de Picos. Os moradores locais contam que à noite ainda se ouvem vozes vindas daquelas pedras antigas. Vozes de uma mulher chamando pelos filhos que perdeu.

    Vozes de homens respondendo a um amor que os destruiu. Dizem que Leopoldina ainda vaga por aquelas terras áridas, carregando nos braços o filho que nasceu morto, procurando pelos três homens que amou de forma errada e perdeu para sempre. Talvez seja apenas o vento passando pelas pedras.

    Talvez seja a imaginação de pessoas simples tentando dar sentido a uma tragédia que desafia a compreensão humana. Ou talvez alguns pecados sejam grandes demais para serem perdoados, mesmo pela morte. A história dos irmãos Gois nos ensina que o amor, quando corrompido pela luxúria e pelo egoísmo, pode se tornar a força mais destrutiva do mundo.

    nos ensina que alguns limites existem para proteger a humanidade de si mesma e nos ensina que no sertão árido do Piauí, onde o sol castiga sem piedade e a vida é dura como pedra, alguns segredos permanecem enterrados para sempre, guardados pela terra que testemunhou horrores que a mente humana prefere esquecer.

    Se você conseguiu acompanhar esta história perturbadora até o final, você tem estômago forte para os mistérios mais sombrios do Brasil. Se inscreva no canal para não perder outras histórias de mistério e suspense. Deixe seu like se esta narrativa te impactou e nos comentários conte sombria da sua região. Compartilhe este vídeo com quem aprecia histórias que mexem com a alma. Obrigado por acompanhar os segredos enterrados dos irmãos Gois. M.

  • A Vida há 2.000 Anos Atrás: Como Era o Dia a Dia no Tempo de Jesus.

    A Vida há 2.000 Anos Atrás: Como Era o Dia a Dia no Tempo de Jesus.

    Quando os primeiros raios do sol tocavam as colinas da Galileia, os lares humildes de pedra começavam a se agitar. O canto dos galos rompia o silêncio da madrugada e marcava o início de mais um dia. Ao longo da manhã, enquanto os homens se ocupavam com seus ofícios e as crianças ajudavam nas tarefas domésticas, as mulheres da casa preparavam a principal refeição do dia.

    A alimentação no tempo de Jesus era simples, mas suficiente. O pão era a base de tudo. feito com cevada ou trigo, era amassado com água e sal, moldado em discos achatados e assado sobre pedras ou em fornos de barro. Jesus mesmo usaria o pão como símbolo sagrado, dizendo: “Eu sou o pão da vida”. João 6:35. uma expressão profundamente conectada à realidade daquele povo.

    Além do pão, havia o azeite considerado um presente da terra, usado para cozinhar, ungir e até iluminar as casas com lamparinas, o azeite era extraído em prensas manuais, geralmente por famílias que possuíam algumas oliveiras. Era comum molhar o pão em azeite ou misturá-lo com ervas como issopo ou hortelã.

    Em algumas casas, as azeitonas eram armazenadas em potes de barro, salgadas para durar mais tempo e serviam como complemento proteico e calórico. Os legumes e grãos ocupavam lugar de destaque nas refeições. Lentilhas, feijões, grão de bico, cebolas, pepinos e alhos eram comuns nas hortas.

    A sopa de lentilhas, por exemplo, ficou famosa na Bíblia quando Esaú vendeu seu direito de primogenitura por um prato dela. Gênesis 25:34. As ervas amargas também eram consumidas, especialmente em períodos religiosos, como a Páscoa, simbolizando o sofrimento do Egito. Essas hortaliças cresciam em terraços ou pequenos quintais irrigados com baldes. As frutas forneciam energia e sabor aos dias quentes.

    Figos secos eram armazenados em bolsas de couro e comidos durante o trabalho. Câmaras, romãs e uvas eram comuns em todas as classes sociais. Jesus frequentemente fazia referência a essas frutas em suas parábolas. Em Lucas 6:44, ele diz: “Não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas de sarças.

    As uvas, além de serem comida, eram usadas na produção de vinho, que era a parte central das festas e celebrações. O peixe era a principal proteína animal. para quem vivia próximo ao mar da Galileia. Sardinhas, tilápias e outros peixes pequenos eram consumidos secos ou grelhados. O famoso episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, Mateus 14:17 mostra a importância desse alimento para o povo.

    Já a carne era mais rara, reservada para ocasiões especiais. Galinhas, pombos e, em raros momentos, cordeiros podiam ser abatidos, mas sempre com respeito aos rituais da lei de Moisés. Água era coletada em poços e armazenada em talhas. Muitas vezes era misturada com vinho para purificá-la. Leite de cabra também era consumido, assim como queijos frescos feitos em casa.

    O vinho, sempre diluído, acompanhava as refeições e era símbolo de alegria e bênção. Por isso, nas bodas de Caná, quando Jesus transformou água em vinho, João 21, o gesto foi mais do que um milagre, foi a restauração da honra daquela casa. Sentar-se à mesa, ou melhor, ao chão em tapetes ao redor de uma bandeja, era um momento sagrado. Antes de comer, orava-se.

    Durante a refeição, compartilhava-se histórias, memórias e esperanças. O alimento, embora escasso para muitos, era celebrado como dádiva de Deus, como está escrito no Salmo 104, 14, 15: “Fazes crescer a erva para o gado e as plantas para o serviço do homem, e o vinho que alegra o coração, o azeite que faz reluzir o rosto e o pão que fortalece o coração do homem.

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    As moradias na época de Jesus eram, acima de tudo, funcionais. Feitas com materiais abundantes e simples da região, como pedras, barro, madeira e palha. Elas refletiam a vida modesta da maioria do povo judeu. Na Galileia, especialmente em vilas como Nazaré e Cafarnaum, predominavam construções de pedra basáltica escura, com argamassa de lama e telhados planos cobertos por ramos e barro seco.

    Essas casas eram construídas lado a lado, formando uma malha estreita de vielas, onde as crianças brincavam, os vizinhos conversavam e os comerciantes passavam suas mercadorias de mão em mão. O interior das casas era composto geralmente por um único cômodo multifuncional. Ali se cozinhava, comia, dormia e vivia. À noite, até os animais menores, como cabras e ovelhas, eram trazidos para dentro, não apenas por segurança, mas para ajudar a aquecer o ambiente nas noites frias. Havia um segundo ambiente elevado, onde as pessoas dormiam sobre

    esteiras ou colchões de palha que podiam ser enrolados e guardados durante o dia. A simplicidade dessas moradias revelava o estilo de vida da época, uma existência comunitária voltada para o essencial. O telhado plano era um espaço precioso na vida cotidiana.

    era utilizado para secar roupas e alimentos, descansar ao entardecer e até orar ou conversar com Deus em silêncio debaixo das estrelas. Jesus se referiu a esse costume ao dizer: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia, e o que escutais ao ouvido, proclamai-o dos telhados”. Mateus 10:27. Um dos episódios mais conhecidos envolvendo esse espaço está em Marcos 2:4, quando amigos de um paralítico abriram o telhado da casa onde Jesus estava e desceram o doente por cordas. Tamanha era a fé que tinham em sua cura.

    Muitos telhados eram feitos com vigas de madeira, cobertas por galhos entrelaçados e argila batida, facilmente removíveis com ferramentas simples. Essa estrutura permitia que o calor escapasse e que as pessoas pudessem subir com certa facilidade. A escada para o telhado geralmente ficava na parte externa da casa.

    Durante os meses quentes, esse espaço era usado até mesmo como local de dormir. Assim, a vida se expandia da terra para o alto, da intimidade do lar para o contato com o céu, algo que tinha também um significado espiritual para os judeus. A hospitalidade era uma marca registrada do povo de Israel e as casas estavam sempre abertas para parentes, vizinhos e até forasteiros.

    Havia o senso de que receber bem alguém era uma bênção, algo herdado da tradição dos patriarcas, como Abraão, que acolheu anjos sem saber. Hebreus 13:2. Por isso, mesmo que a casa fosse pequena, simples e sem luxo, sempre se dava um jeito de acomodar um visitante. Jesus frequentemente se hospedava em casas de amigos, como a de Maria, Marta e Lázaro em Betânia, mostrando que o lar era lugar de comunhão e não apenas de abrigo.

    As cidades maiores como Jerusalém tinham casas de pedra mais elaboradas, com cisternas internas, salas separadas e até pavimentos superiores. No entanto, a realidade da maioria da população era bem diferente. Os pobres viviam em habitações simples e os mendigos nem sempre tinham teto.

    Foi por isso que Jesus disse: “As raposas têm suas covas e as aves do céu ninhos, mas o filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Mateus 8:20. Essa afirmação não era apenas sobre sua missão, mas também um reflexo da dura realidade de muitos que o seguiam. Entender onde e como as pessoas moravam na época de Jesus nos aproxima da atmosfera em que os evangelhos aconteceram.

    nos ajuda a imaginar melhor o cenário de suas parábolas, a intimidade de seus encontros e o simbolismo de muitos de seus gestos. A casa para aquele povo era mais do que paredes, era lugar de ensino, milagre e fé. Era onde Deus entrava pela porta com o visitante e onde o céu se revelava sobre o telhado de barro.

    Na época de Jesus, a sinagoga era muito mais do que um local de culto. Era o centro da vida espiritual, educacional e até comunitária dos judeus. Cada vila ou cidade, por menor que fosse, procurava ter sua própria sinagoga, um espaço onde os homens se reuniam para orar, estudar a Torá e debater sobre a lei de Deus. Ela era o coração pulsante do judaísmo cotidiano, um símbolo da continuidade da fé.

    Mesmo longe do templo de Jerusalém, o culto era simples, mas profundo. Leitura das Escrituras, cânticos dos salmos e interpretações dos textos sagrados. As sinagogas não tinham sacerdotes como no templo, mas sim líderes locais e mestres da lei, chamados de rabinos ou escribas.

    Esses homens dedicavam a vida ao estudo das escrituras e ao ensino oral das tradições. Jesus, por exemplo, era frequentemente chamado de rabi, mesmo não pertencendo à elite religiosa de Jerusalém. O Evangelho de Lucas relata: “Jesus foi a Nazaré, onde havia sido criado e no dia de sábado entrou na sinagoga como era seu costume.” Lucas 4:16.

    Isso mostra que ele seguia a prática comum dos judeus piedosos e era respeitado o suficiente para ser convidado a ler os pergaminhos e interpretá-los publicamente. Durante a reunião na sinagoga, os pergaminhos sagrados eram retirados de um armário especial, o Aaron Hakodes, e abertos sobre uma mesa para a leitura em voz alta.

    Apenas homens participavam diretamente desse momento, com destaque para os mais experientes ou convidados ilustres. O texto era lido em hebraico e muitas vezes traduzido para o aramaico para que todos entendessem. Em seguida, o leitor ou outro mestre comentava o trecho. Era o momento em que a lei se encontrava com a vida prática do povo, onde as palavras de Moisés ganhavam voz e atualidade.

    O aprendizado das escrituras começava ainda na infância. Os meninos, por volta dos 5 a 7 anos, eram enviados à sinagoga para aprender a ler e memorizar a Torá. O ensino era oral, baseado na repetição constante dos textos e no uso dos próprios pergaminhos como referência.

    A leitura era feita em voz alta, em grupo, e os rabinos incentivavam as crianças com comparações doces. Diziam que as palavras da Torá eram mais doces do que o mel. Salmo 119:103. Já as meninas, infelizmente, não participavam dessa formação. Eram ensinadas em casa, voltadas à vida doméstica, embora muitas aprendessem observando as leituras feitas por seus pais ou irmãos.

    As sinagogas também serviam como tribunais locais, escolas e locais de reunião política e social. Quando alguém era expulso da sinagoga, como aconteceu com alguns seguidores de Jesus, isso significava isolamento completo da comunidade. João 9:22 era um lugar de grande influência e autoridade. Foi em sinagogas que Jesus operou milagres, confrontou líderes religiosos e também ensinou multidões.

    Sua atuação nesse ambiente demonstra não apenas sua familiaridade com a estrutura judaica, mas também seu domínio sobre as escrituras e a profundidade de seu ensino. A presença de Jesus nas sinagogas evidencia o respeito que ele tinha pela tradição judaica, ao mesmo tempo em que usava esse espaço para apresentar o reino de Deus. Ele lia os profetas como Isaías e os aplicava a si mesmo de maneira surpreendente.

    Quando afirmou diante de todos que a profecia se cumpria naquele momento, Lucas 4:21, causou comoção e escândalo. A sinagoga, portanto, não era apenas um espaço de oração, mas o palco de grandes revelações, questionamentos e encontros com a palavra viva. O comércio era uma das atividades mais vibrantes do cotidiano nas cidades da Judeia e da Galileia, especialmente nos centros urbanos como Jerusalém, Jericó, Nazaré e Cafarnaú.

    O ambiente das feiras era repleto de vozes, aromas, barulhos de animais e a constante movimentação de pessoas vindas de todas as partes. Nas praças, vendedores montavam tendas improvisadas ou dispunham seus produtos. sobre panos no chão, formando um verdadeiro mosaico de cores e texturas. Era ali que se comprava de tudo.

    Tecidos finos vindos da Síria, especiarias perfumadas do Oriente, cerâmicas artesanais, frutas frescas, azeite, vinho, utensílios domésticos e até animais para sacrifício. Cada cidade tinha um dia específico da semana para o mercado principal, mas em Jerusalém, especialmente nas proximidades do templo, o comércio era praticamente contínuo.

    Os arredores do templo se transformavam num grande centro de vendas religiosas, com cambistas, vendedores de pombas e cordeiros, o que gerou a conhecida indignação de Jesus. Em Mateus 21:12 lemos: “Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Aquilo era mais do que uma crítica à ganância.

    Era uma denúncia ao uso indevido de um lugar sagrado para fins lucrativos. No meio desse comércio pulsante circulavam diversas moedas. O sistema monetário era complexo, já que envolvia moedas romanas, gregas e judaicas. As mais comuns eram os denários romanos, que representavam o salário de um trabalhador por um dia, e os dracmas gregos, frequentemente usados em ofertas e tributos.

    Havia também as moedas locais, como o meio shequel, utilizado para o pagamento do imposto do templo. Por causa dessa variedade, os cambistas se tornavam indispensáveis, fazendo a conversão entre os diferentes tipos de moeda com taxas muitas vezes abusivas. Daí a crítica de Jesus aos que lucravam com a fé do povo.

    Além do uso de moedas, o escambo, a troca direta de mercadorias ainda era comum, sobretudo entre os camponeses e nas aldeias menores. Um agricultor podia trocar uma cesta de tâmaras por tecidos, azeite ou até por utensílios. Essa forma de comércio era especialmente prática, onde as moedas romanas não circulavam com frequência, mas nas grandes cidades, a economia monetária era dominante, especialmente porque os impostos cobrados pelos romanos exigiam pagamento em moeda oficial. A presença dos coletores de impostos era sentida em

    todos os lugares. Esses publicanos eram judeus contratados pelo Império Romano para arrecadar tributos do próprio povo, o que os tornava odiados e vistos como traidores. Mateus, um dos discípulos de Jesus, era publicano antes de ser chamado. Mateus 9:9. Os romanos fiscalizavam o comércio, mantinham soldados nas vias principais e garantiam que os impostos fossem recolhidos com rigor. A pressão fiscal era enorme.

    Havia tributos sobre a terra, sobre o pescado, sobre os produtos transportados em caravanas e até sobre a entrada nas cidades. Apesar do controle romano, o comércio permitia uma certa mobilidade social e criava uma rede de relações entre diferentes culturas. Era comum encontrar gregos, sírios, egípcios e romanos nos mercados, além dos judeus locais.

    Isso fazia dos centros comerciais verdadeiros pontos de encontro entre mundos distintos, um reflexo da diversidade presente no território dominado por Roma. Era nesses espaços que os pregadores, como João Batista ou até mesmo Jesus encontravam ouvintes dispostos, atentos aos rumores do reino de Deus. A forma como as pessoas se vestiam na Judeia do primeiro século revelava apenas seu status social, mas também crenças religiosas, valores culturais e o clima do deserto.

    A peça mais comum do vestuário era a túnica, uma veste básica de linho ou lã, geralmente sem costura, que ia dos ombros até os tornozelos. Para os homens, a túnica era mais curta, para as mulheres mais longa, sempre com um cinto ou faixa amarrada à cintura. Era uma roupa funcional, feita para suportar o calor durante o dia e oferecer algum abrigo contra o frio noturno.

    Por cima da túnica usava-se um manto, uma espécie de capa grande e retangular feita com tecido mais grosso, usado tanto para proteção contra o vento como para cobrir-se durante o sono, especialmente por viajantes ou peregrinos. Esse manto era valioso e muitas vezes era a única peça de maior custo que uma pessoa possuía.

    Em João 19:23, quando Jesus foi crucificado, os soldados perceberam o valor da sua túnica, pois era sem costura, tecida de alto a baixo. Por isso, ao invés de rasgá-la, decidiram lançar sortes para ver quem ficaria com ela. Cobrir a cabeça era um costume amplamente praticado, especialmente entre as mulheres.

    O vé ou lenço representava modéstia, pureza e obediência à tradição judaica. As mulheres não apareciam em público sem esse tipo de cobertura, pois isso podia ser considerado um sinal de deshonra. Já os homens usavam turbantes ou panos enrolados na cabeça, tanto por motivos práticos, proteger-se do sol forte, quanto simbólicos, reverência, especialmente durante as orações.

    Nos pés, sandálias de couro eram o calçado padrão. Eram simples, presas por tiras que cruzavam o tornozelo e o peito do pé. Devido à poeira das estradas, era comum que os pés fossem lavados ao entrar em uma casa, uma prática de hospitalidade profundamente enraizada, como se vê na narrativa de Lucas 7:44, quando Jesus repreende o anfitrião fariseu por não ter oferecido água para lavar os pés.

    Além disso, era comum o uso de olhos perfumados, tanto para higienização quanto para ungir visitantes. Uma mistura de cuidado pessoal com reverência espiritual. A distinção entre roupas masculinas e femininas existia, embora não fosse tão gritante quanto nos tempos modernos. As túnicas femininas tinham cores mais vivas, tecidos mais longos e podiam ser bordadas.

    Os homens, por sua vez, usavam túnicas de tons neutros e quase nunca adornadas. As mulheres também usavam faixas ornamentais, brincos, pulseiras e até cinetes ou anéis com inscrições. Já os homens carregavam bolsas de couro presas à cintura, onde guardavam moedas, documentos ou pequenos objetos. Apesar da simplicidade dos tecidos e da estrutura das roupas, o vestuário da época de Jesus carregava significados profundos.

    A maneira de se vestir estava entrelaçada com a identidade, a fé e o papel social de cada indivíduo. A roupa não era apenas proteção para o corpo, era linguagem para a alma, indicando humildade, honra, respeito e às vezes até autoridade espiritual. Em uma região árida como a Judeia, a água era mais do que um recurso. Era um verdadeiro tesouro. Não havia torneiras ou encanamentos.

    A maioria das famílias dependia de poços, cisternas ou fontes naturais para obter água, e isso definia o ritmo da vida cotidiana. Buscar água era uma tarefa geralmente atribuída às mulheres, que percorriam distâncias consideráveis com jarros sobre a cabeça, muitas vezes em silêncio e sob o sol escaldante.

    Em João 4:7 lemos: “Veio uma mulher de Samaria tirar água”. Um gesto aparentemente banal, mas que se tornou o ponto de partida para uma das conversas mais profundas de Jesus, revelando sua graça àqueles marginalizados pela sociedade. Mas a água não era usada apenas para matar a sede ou cozinhar.

    Ela tinha uma importância central nos rituais de purificação. A lei mosaica determinava que muitas situações exigiam lavagens cerimoniais. contato com mortos, fluxos corporais, doenças de pele ou até mesmo o simples retorno do mercado. Os judeus praticavam a imersão completa em tanques especiais chamados micvas, geralmente construídos próximo às sinagogas ou dentro das casas dos mais ricos.

    Esses banhos rituais simbolizavam um recomeço, uma limpeza não apenas física, mas espiritual, uma renovação da aliança com Deus. O Mikva exigia uma estrutura cuidadosa. Água corrente ou viva deveria alimentá-lo, seja de fontes, chuvas ou nascentes. Os mergulhos eram silenciosos e privados. Cada detalhe tinha intenção espiritual.

    Ao entrar e sair da água, a pessoa declarava-se apta para se aproximar do sagrado, seja para ir ao templo, estudar a Torá ou celebrar festas religiosas. Não era raro que homens mergulhassem antes do Shabat e mulheres após o período de impureza menstrual, conforme a lei.

    Além dos banhos religiosos, a higiene pessoal também fazia parte do cotidiano. O clima quente e poeirento exigia banhos frequentes, embora nem sempre completos, como no Micva. Lavar as mãos antes das refeições era tradição obrigatória, especialmente entre os fariseus. como vemos nas críticas que eles dirigiam aos discípulos de Jesus por não seguirem esses rituais.

    Marcos 725. Essa prática, embora simples, carregava um peso espiritual, pois tudo estava ligado à santidade. Comer com mãos impuras era sinal de desrespeito. Poços, por sua vez, eram locais de encontro, de trocas e, às vezes de conflitos. Historicamente, alianças e casamentos começaram ali.

    Foi num poço que o servo de Abraão encontrou Rebeca para Isaque. Gênesis 24. E foi num poço que Jacó conheceu Raquel. Gênesis 29. Séculos depois, Jesus se sentaria no mesmo local para iniciar um novo tipo de aliança com a mulher samaritana. O poço não era apenas fonte de água, mas palco de revelações.

    Quando o sol se punha sobre as colinas da Judeia e da Galileia, a escuridão tomava conta rapidamente das vilas e campos. Não havia postes de luz, nem velas elétricas ou lanternas à pilha. A noite bíblica era de fato escura e muitas vezes silenciosamente ameaçadora. Para se proteger da escuridão, as famílias acendiam lamparinas de barro.

    alimentadas com azeite, cujo pavio proporcionava uma chama tímida, mas essencial. Também se usavam tochas em ambientes externos. A iluminação era precária, o que fazia com que os habitantes organizassem seu tempo ao redor da luz do dia. Por isso, a parábola das 10 virgens em Mateus 25:1.

    10 virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. Traziam um simbolismo poderoso sobre vigilância, preparação e fé em meio à escuridão. A noite, contudo, não era apenas um período de descanso. Ela trazia riscos reais. Fora das casas, ladrões podiam se esconder entre as pedras dos caminhos, emboscando viajantes desprevenidos.

    Bandidos e salteadores eram um problema recorrente nas rotas entre cidades. Jesus mesmo cita esse perigo na parábola do bom samaritano. Lucas 10:30. Além dos homens, havia também as feras, chacais, lobos e em regiões mais afastadas até ursos e leopardos que ainda habitavam o território de Israel naquela época.

    Por isso era raro sair à noite, a menos que fosse absolutamente necessário. No interior das casas, contudo, a noite era momento de comunhão. Sem distrações modernas, as famílias se reuniam ao redor da luz tremeluz das lamparinas. Era tempo de descanso, mas também de aprendizado e devoção. Os pais contavam histórias, recitavam trechos das escrituras e ensinavam aos filhos as tradições do povo de Israel.

    Cânticos eram entoados, orações murmuradas e, às vezes, longas conversas sobre Deus e a vida preenchiam aquele tempo íntimo. O Shabat, em especial, era marcado por essas reuniões, onde a paz da noite se tornava ainda mais evidente. A imagem dos pastores nos campos, no turno da noite, cuidando de seus rebanhos, é uma das mais comoventes do Novo Testamento.

    Em Lucas 2:8 lemos: “Ora, havia naquela mesma região pastores que estavam no campo e guardavam durante as vigílias da noite o seu rebanho. Aqueles homens simples enfrentavam o frio e os perigos da escuridão para proteger suas ovelhas. E foi justamente a eles que os anjos apareceram para anunciar o nascimento do Salvador.

    A escuridão que representava o medo e a solidão, foi rompida pela glória celestial. A presença da escuridão também carregava simbolismo espiritual. Ela era vista como a ausência da luz de Deus, como nos salmos que clamam para que o Senhor ilumine o caminho do justo. Por isso, a ideia de que Jesus é a luz do mundo, João 8:12, carregava uma força poderosa. Ele era a presença divina, rompendo a escuridão da ignorância, do medo e do pecado.

    do cotidiano, cuidar do pavio da lamparina, ter olho suficiente e vigiar durante a noite se tornaram práticas que apontavam para realidades maiores da fé. A chegada da noite, com seus sons abafados, seu céu estrelado e seus perigos ocultos, era tanto um lembrete da fragilidade humana quanto um convite à intimidade com Deus.

    E na simplicidade de uma casa iluminada pelo azeite, muitas sementes de fé foram plantadas no coração do povo. Conhecer o modo como as pessoas viviam, comiam, celebravam, trabalhavam e descansavam nos faz enxergar que Deus se manifestou em meio à simplicidade do cotidiano. Jesus caminhou entre casas modestas, tocou corações em poços esquecidos, repartiu pão com os pobres e falou da eternidade à luz de lamparinas.

    Sua verdade não veio envolta em pompas, mas em humanidade. E é justamente nessa humanidade que ele nos encontra hoje. Em nossas rotinas, nossas lutas, nossas noites silenciosas. A palavra de Deus é viva. E quando a lemos com olhos atentos à cultura, ao contexto e aos símbolos da época, ela não apenas informa, mas transforma.

    Porque não estamos apenas estudando uma história antiga, estamos reencontrando o caminho da vida. O conhecimento profundo das Escrituras não é apenas para os estudiosos, mas para todo aquele que deseja caminhar mais perto de Jesus e compreender o coração de Deus revelado em cada versículo. Que este conteúdo desperte em você não apenas curiosidade histórica, mas sede espiritual.

    Que cada detalhe sirva como um lembrete de que a fé cristã é enraizada na realidade e regada pela esperança. E que ao entender melhor como viviam os que caminharam com Cristo, você também se sinta chamado a viver com mais propósito, mais gratidão e mais fé. E se você quer continuar descobrindo verdades ocultas das Escrituras, aquelas que quase ninguém está contando, se inscreva agora no canal e ative as notificações. E mais, torne-se um membro do canal.

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  • Maria do Recôncavo Que Ferveu o Coronel e Seus 3 Filhos em Óleo Fervente na Véspera de Natal

    Maria do Recôncavo Que Ferveu o Coronel e Seus 3 Filhos em Óleo Fervente na Véspera de Natal

    O sol do recôncavo batia como ferro quente sobre as telhas de barro. As cigarras cantavam o prenúncio da chuva, mas o chão rachado contava outra história, a da seca, da espera e da raiva acumulada. No meio daquele cenário parado no tempo, vivia Maria do Recôncavo, uma mulher de olhar fundo, mãos calejadas e um silêncio que incomodava até os cachorros do vilarejo.


    Diziam que ela falava pouco, mas via demais, que seu olhar atravessava a carne e chegava no juízo dos homens, e que havia uma dor nela, antiga, enraizada, como se a alma tivesse sido arrancada e colocada de volta ao contrário. A pequena vila de Santo Amaro do Recôncavo, onde o tempo se media pelo sino da igreja e pelo cheiro do dendê, o nome de Maria era sussurrado com respeito e medo.
    Uns a chamavam de santa, outros de maldita. Ninguém sabia de onde ela viera. Apenas que chegou uma noite de tempestade, com um saco de pano nas costas e um olhar que parecia carregar séculos. Por 8 anos, ela viveu em silêncio, costurando para as mulheres da vila. cuidando dos doentes, levando comida a quem passava fome.
    Era uma presença quase invisível, até que apareceu o coronel Aristides Tavares, dono de metade das terras do Recôncavo, um homem que confundia poder com direito. Aristides era conhecido por três coisas: o dinheiro, o medo que espalhava e os três filhos, criados como príncipes em terra de escravos. A chegada dele marcou o início do fim de uma paz silenciosa.
    Naquele tempo, o coronel controlava tudo, o comércio, o padre, o delegado e até os casamentos. Ninguém ousava contrariá-lo. Mas Maria, sem querer, ou talvez por destino, cruzou o caminho do homem errado. Tudo começou na véspera de São João, quando o coronel mandou chamar Maria para costurar um vestido de festa para sua esposa, dona Geralda.
    A mulher estava doente, pálida, presa a uma cama. Maria chegou, fez o trabalho, recebeu um prato de comida e foi embora. Mas ao sair, um dos filhos do coronel, o mais novo Raul, riu dela com um riso de desdém que carregava o veneno do pai. “Uma mulher sozinha, tão bonita e sem dono, não é coisa boa”, disse ele. Maria não respondeu, só olhou.
    Um olhar frio, como o de quem já viu a morte passar mais de uma vez. Nos meses seguintes, estranhos acontecimentos começaram a rondar a fazenda dos Tavares. O gado adoecia, o café secava antes de colher e a casa grande parecia tomada por um silêncio pesado. O coronel dizia que era feitiço e como todo homem que teme o que não entende, foi atrás de um culpado, chamou Maria.
    Naquela noite, a lua cheia refletia no espelho d’água do engenho. O coronel a esperava com dois capangas. Disse que ela deveria confessar. Confessar o que nem ele sabia, mas precisava de um bode expiatório. Maria olhou para ele e disse com voz baixa: “O Senhor está cavando o próprio buraco, coronel, e quem cava demais acaba caindo dentro.
    ” Os homens riram, mas aquele riso nunca seria esquecido. Três dias depois, a esposa do coronel morreu e o que era superstição virou certeza. Ele jurou que Maria o havia amaldiçoado. Mandou queimar suas coisas, expulsá-la da vila, mas ninguém teve coragem de encostar nela. Diziam que o vento mudava de direção quando ela passava e que o fogo se apagava perto de seu corpo.
    Maria foi embora sem olhar para trás. sumiu entre as plantações, deixando apenas o som de suas sandálias raspando na terra seca. O tempo passou, o coronel continuou seu reinado de ferro, agora sem a mulher e com os filhos, se tornando o reflexo do pai, arrogantes, cruéis e impunes. Mas em dezembro de 1948, algo começou a mudar.
    Naquele ano, o recôncavo viveu uma seca sem igual. As colheitas morreram, os bois caíram e até o rio Paraguaçu parecia ter perdido a vontade de correr. O povo começou a dizer que era castigo, que a terra estava clamando justiça. Foi então que ela voltou. Na véspera de Natal, ninguém viu de onde veio. Apenas disseram que Maria apareceu de repente na feira com o mesmo saco de pano nas costas e um olhar sereno demais para quem trazia o peso do mundo. O povo se calou.


    Alguns se benzeram, outros fugiram, e naquela mesma noite o destino resolveu acertar suas contas. A fazenda dos Tavares acordou em gritos. O vento soprou quente, como se o inferno tivesse subido pra terra. Os sinos da igreja tocaram fora de hora e o céu se encheu de nuvens negras. O que aconteceu lá dentro? Ninguém nunca soube direito.
    Alguns dizem que ouviram risos, outros choros. E há quem jure que viu a silhueta de Maria parada diante da janela da casa grande, com o olhar fixo, como quem observa o fim de um ciclo. Quando o dia amanheceu, o coronel e seus três filhos estavam mortos. Não havia marcas de faca, nem tiro, nem luta. Mas o cheiro, o cheiro de óleo e de algo queimado pairava no ar. Maria sumiu de novo.
    O povo dizia que ela tinha ido pro mar. O mesmo mar que banha o recôncavo, o mesmo que leva e traz as almas inquietas. Outros juravam que ela se transformara em vento e que ainda hoje, nas noites de dezembro, ele sopra quente, trazendo o cheiro de azeite e de vingança. Mas o que poucos sabiam era que havia um caderno escondido sob o açoalho da antiga casa dela, com páginas escritas em tinta desbotada, onde Maria contava sua versão, uma história de dor, injustiça e silêncio.
    E o que ela escreveu ali mudaria para sempre o modo como aquele povo via o que aconteceu naquela véspera de Natal. O caderno de Maria foi encontrado anos depois, por acaso quando a antiga casa dela, uma tapera de barro e palha, foi derrubada por um vendaval. O novo dono do terreno, um pescador chamado João das Águas, achou o pequeno livro preso sob uma tábua, envolto num pedaço de tecido amarelado.
    As páginas estavam úmidas, algumas ilegíveis, mas as palavras que restaram contavam uma história que o povo jamais imaginaria. Nasci no Engenho Santa Cruz, filha de escravos libertos, e aprendi cedo que o silêncio é mais seguro que a verdade. Começava o primeiro trecho. Maria cresceu entre os canaviais, ouvindo o barulho das moendas e o grito dos feitor.
    Aos 13 anos, já sabia mais de ervas do que muitas curandeiras velhas. Foi sua mãe quem lhe ensinou os segredos da terra e o padre da paróquia quem lhe ensinou a ler. Ambos desapareceram no mesmo verão, um de febre, o outro levado por ordem do coronel Aristides, por falar demais. Sozinha no mundo, Maria foi trabalhar na Casa Grande, lavava roupas, cozinhava e dormia num quartinho nos fundos.
    E foi ali, naquela casa, que o destino começou a costurar o fio da tragédia. O coronel era homem de palavra dura, olhar de predador e sede de poder. E os filhos reflexos mal acabados do pai. Maria cresceu sob a vigilância deles, sempre em silêncio, com o coração fechado. Mas o destino gosta de brincar com os fracos.
    E um dia, quando ela já tinha 20 anos, foi chamada à sala principal. O coronel pediu que servisse o jantar. Havia convidados, risadas, o cheiro do vinho e da carne. Maria servia com cuidado, sem levantar os olhos, mas sentia. Sentia os olhares pesados, as palavras atravessadas. Aquela noite, ela entendeu que não era vista como pessoa, mas como coisa.
    O que aconteceu depois? O caderno não diz com todas as letras, apenas uma frase escrita com letra trêmula. Naquela noite, o fogo entrou em mim e nunca mais saiu. Nos dias seguintes, Maria desapareceu da casa grande. Voltou apenas anos depois, já com outro olhar. Diziam que vivera na mata entre os terreiros. Aprendendo rezas antigas e curas que vinham dos tempos de Angola, voltou mais forte, mais quieta e com uma presença que fazia o ar mudar de cor.
    E foi por isso que quando a esposa do coronel adoeceu, foi a ela que mandaram chamar. Mas o destino, mais uma vez estava esperando a hora certa de fechar o círculo. No caderno, Maria escrevia como se conversasse com alguém. O mal não nasce do nada. Ele é plantado como cana, regado de mentira. e colhido em silêncio.
    Durante os dias em que cuidou de dona Geralda, Maria ouviu o que não devia. Descobriu segredos escondidos nas paredes da casa. Histórias que o coronel preferia deixar enterradas. Descobriu que o dinheiro dele vinha do tráfico de pessoas, da exploração e da morte. E entendeu que o poder naquela terra era uma máscara suja de sangue.
    Quando a patroa morreu, Maria chorou sozinha. Mas não era só pela mulher, era por todas as outras que, como ela, foram caladas. O povo dizia que o espírito de Geralda não descansava. E Maria, em silêncio, começou a preparar algo. Nos meses seguintes, ela foi vista caminhando à noite, colhendo ervas, rezando em voz baixa, olhando para o céu.
    Alguns diziam que estava enlouquecendo, outros que estava falando com Deus. Mas quem olhasse de perto veria o que Maria estava fazendo era esperar. Esperar o tempo certo, o tempo do retorno. E o tempo chegou. Era dezembro de 1948 e a seca castigava tudo. A casa grande estava decadente. O coronel envelhecido, vivia cercado dos filhos.
    Três homens cruéis que herdaram o mesmo desprezo pelo povo. Raul, o mais novo, cuidava dos negócios do pai com a arrogância dos que nunca trabalharam. Josias, o do meio, era o mais violento, o que gostava de humilhar os outros. E o mais velho Bento era o mais perigoso de todos, o que sabia sorrir antes de destruir. Naquela véspera de Natal, os Tavares preparavam uma festa luxuosa, apesar da seca.
    Mandaram vir comida de fora, vinho, música, fogos. Queriam provar ao povo que nada os atingia, mas o povo não apareceu. A vila estava estranhamente silenciosa. Os sinos não tocaram. O ar parecia pesado e um vento morno soprava do mangue. E então ela chegou. Maria, vestida de branco, com os cabelos soltos e o mesmo saco de pano nas costas, caminhou lentamente até o portão da fazenda, sem dizer uma palavra.
    Os criados ficaram imóveis. Ninguém ousou impedir sua entrada. O coronel, ao vê-la, empalideceu, tentou rir, mas o som morreu na garganta. “Você voltou, mulher?”, perguntou ele com voz de quem tenta esconder o medo. Maria apenas assentiu. Voltei, coronel, para pagar o que ficou pendente. O que aconteceu nas horas seguintes, ninguém testemunhou diretamente.
    G.

  • A Escrava Que Teve 13 Filhos Proibidos e VirouSinhá: O Escândalo Que Abalou o Brasil 1753

    A Escrava Que Teve 13 Filhos Proibidos e VirouSinhá: O Escândalo Que Abalou o Brasil 1753

    A Escrava Que Teve 13 Filhos Proibidos e Virou Sinhá: O Escândalo Que Abalou o Brasil 1753

    No coração do Brasil colonial, entre as montanhas e engenhos de açúcar que respiravam riqueza e horror, surgia uma história que poucos ousariam contar, uma narrativa tão chocante que abalaria famílias inteiras, quebraria códigos de silêncio e mudaria para sempre o destino de uma região inteira. Era o ano de 1753. E a sociedade brasileira, ainda marcada pelo peso cruel da escravidão, presenciava um escândalo que misturava poder, desejo e transgressão. A história de Mariana, uma escrava que ao longo de sua vida desafiaria todas as regras impostas a quem não tinha voz, tornando-se mais do que um simples objeto de propriedade, tornando-se lenda. Mariana não era apenas uma escrava qualquer.

    Ela era uma mulher de inteligência incomum, beleza marcante e um espírito que se recusava a ser quebrado. Desde jovem, seu olhar carregava uma determinação silenciosa, uma centelha que faria com que, mesmo nas correntes da opressão, sua presença fosse impossível de ignorar. Nascida em uma cenzala afastada, rodeada pelo cheiro de terra molhada e madeira apodrecida, ela cresceu ouvindo histórias de resistência, mas também de subjgação, absorvendo cada detalhe da injustiça com a paciência de quem sabe que a vida reserva surpresas inesperadas. O que ninguém poderia prever que Mariana, destinada a viver nas sombras da sociedade, daria a luz 13 filhos, 13 vidas nascidas da impossibilidade, proibidas pelo dono da fazenda e pelo rigor implacável das leis não escritas da época. Cada nascimento era um risco, uma provocação silenciosa às regras da propriedade e da moralidade colonial.

    O boato de que a escrava possuía mais força e coragem do que qualquer homem livre começou a se espalhar como fogo em palha seca. E em pouco tempo, o escândalo ganhou proporções que atingiam diretamente a elite da região. As pessoas sussurravam nos corredores das casas grandes, nos mercados e nas igrejas, enquanto Mariana seguia sua vida com uma dignidade que confundia e desafiava aqueles que acreditavam que poderiam controlar cada aspecto de sua existência. O dono da fazenda, um homem de posição e influência, viu-se dividido entre a raiva e a admiração. Ele via em Mariana a materialização de seus próprios medos e desejos reprimidos. Uma combinação explosiva que poderia destruir sua reputação se a verdade viesse à tona. Mas Mariana, ciente do poder que tinha sobre aqueles que a subestimavam, sabia manipular cada olhar e cada gesto, construindo uma rede de proteção invisível, tecida com inteligência, charme e um senso profundo de justiça silenciosa a cada filho nascido, ela deixava uma marca indelével no coração daqueles ao seu redor, e cada criança carregava a promessa de um futuro que desafiava a lógica cruel de seu tempo.

    Quando a notícia do 13º filho finalmente chegou à cidade, o choque foi absoluto. Os cronistas locais, homens acostumados a registrar apenas o que reforçava a ordem, encontraram-se incapazes de traduzir em palavras a complexidade do que haviam presenciado. Mariana não era apenas uma escrava com filhos proibidos. Ela era a personificação de um escândalo que questionava toda a estrutura social, econômica e moral do Brasil colonial. O sussurro que se transformou em rumor e depois em certeza fez com que a elite, por medo ou vergonha, buscasse silenciar a verdade. Mas como sempre acontece com histórias poderosas demais para serem contidas, os segredos começaram a escapar pelas frestas das casas, tornando Mariana uma figura de mistério e fascínio.

    O ponto de virada aconteceu em uma noite quente de verão, quando a tensão acumulada explodiu em confronto direto. Mariana, que até então mantivera seu semblante sereno, foi desafiada publicamente pelo fazendeiro, que buscava retomar o controle e restaurar sua autoridade ferida. Mas o que ele não sabia é que Mariana já havia planejado cada passo, prevendo cada reação, e estava pronta para virar o jogo. Com uma mistura de coragem, astúcia e uma eloquência que ninguém esperava de uma escrava, ela confrontou não apenas o homem, mas toda a estrutura que o sustentava. Aquela noite marcou o início de sua transformação definitiva. De escrava a uma mulher que de fato se tornou uma não pelo título oficial, mas pelo poder que exercia sobre corações e mentes. O escândalo se espalhou como uma onda imparável. A cidade inteira comentava sobre a ousadia de Mariana e mesmo aqueles que tentavam ignorar os acontecimentos não conseguiam escapar da realidade de sua influência crescente. Cada filho era um lembrete silencioso de sua rebeldia. Cada gesto seu, uma demonstração de que a força humana pode transcender correntes físicas e sociais.

    A narrativa de Mariana começou a ser contada em silêncio, de mãe para filha, de escravo para escravo. E pouco a pouco a lenda ganhava força. Pessoas de todas as camadas sociais passaram a observá-la com uma mistura de temor e respeito, enquanto aqueles que antes a desprezavam começavam a reconhecer a complexidade de sua existência. E então veio o momento decisivo, o clímax que consolidaria sua ascensão. Uma reunião clandestina entre os homens mais influentes da região, convocada para decidir o destino de Mariana e seus filhos. A tensão era palpável, o ar carregado de intrigas e interesses cruzados. Alguns queriam puni-la severamente, como advertência a outros escravos que ousassem desobedecer. Outros, no entanto, sentiam uma estranha admiração por sua coragem e inteligência, reconhecendo que ela havia desafiado o impossível e, de certa forma, exposto à fragilidade do sistema que o sustentava, Mariana entrou na sala com a mesma serenidade que sempre a caracterizou, ciente de que cada palavra poderia ser decisiva.

    E foi nesse instante, com todos os olhares fixos sobre ela, que ela pronunciou frases que ecoariam por décadas, frases carregadas de dignidade, firmeza e uma inteligência estratégica que deixou todos sem palavras. O resultado daquele encontro mudaria para sempre. A percepção sobre Mariana, embora não pudesse apagar completamente as normas sociais da época, ela conseguiu estabelecer um novo espaço de respeito e autoridade, sendo, enfim, reconhecida não apenas como mãe de 13 filhos proibidos, mas como uma mulher que desafiou o destino e a injustiça com coragem e sagacidade. A história da escrava que virou Siná rapidamente se tornou lenda, passada de geração em geração e ainda hoje ressoa como um exemplo de resistência, inteligência e poder feminino em uma sociedade que tentava negar tais qualidades às mulheres escravizadas. E é nesse contexto que percebemos como Mariana, mesmo nascida nas margens da sociedade, conseguiu transformar seu destino e o de sua família, provando que a coragem, a astúcia e a resiliência podem sim desafiar sistemas aparentemente inquebráveis.

    Cada filho, cada gesto, cada palavra de Mariana é um lembrete de que histórias como a dela não se apagam com o tempo e que a memória da resistência pode se tornar uma arma mais poderosa do que qualquer correntão ou decreto de opressão. que você está impressionado com a história de Mariana? Não esqueça de deixar seu comentário sobre qual momento mais te chocou, se inscrever para acompanhar as próximas partes dessa saga incrível e deixar o seu like para que mais pessoas conheçam essa narrativa que abalou o Brasil colonial. Porque a história dela não é apenas um passado distante, é uma lição viva sobre coragem, inteligência e poder, que atravessa o séculos e nos desafia até hoje.

    Após aquele encontro que mudou para sempre a percepção sobre Mariana, a vida na fazenda nunca mais seria a mesma. A cada amanhecer, a escrava que se tornara percorria os corredores da casa grande com passos firmes, carregando não apenas o peso dos 13 filhos, mas também o respeito silencioso daqueles que antes a subestimavam. Mas por trás da fachada de serenidade, o coração de Mariana guardava temores e estratégias, pois sabia que o poder conquistado era instável e que a qualquer momento a inveja, o ódio ou a ambição poderiam colocar em risco tudo o que havia conquistado. Os filhos, agora crescendo sob o olhar atento da mãe, eram a personificação de sua coragem e inteligência. Cada um trazia traços de Mariana e, ao mesmo tempo, a marca do conflito social que o cercava, observando-os brincar sob o sol escaldante. Mariana ensinava mais do que palavras, transmitia a astúcia de quem conhece o perigo, o segredo da sobrevivência em um mundo que se recusa a reconhecer a dignidade daqueles que não possuem títulos ou riqueza.

    E era nesse equilíbrio delicado entre cuidado e proteção, amor e estratégia, que Mariana arquitetava seu próximo passo, ciente de que a permanência no topo exigiria mais do que coragem, exigiria inteligência pura e capacidade de manipular situações a seu favor. Enquanto isso, na cidade, o escândalo da escrava que dera à luz 13 filhos proibidos não cessava. Conversas sussurradas nos mercados, nos terreiros e nas igrejas alimentavam boatos cada vez mais ousados. Alguns afirmavam que Mariana possuía dons especiais, uma intuição quase sobrenatural que lhe permitia prever os movimentos dos poderosos. Outros diziam que o fazendeiro, humilhado por sua própria incapacidade de controlá-la, planejava vinganças discretas, enviando mensageiros e aliados para observar cada passo da mulher que ousara desafiá-lo. Mariana, sempre atenta, recebia essas notícias como quem escuta o vento, filtrando o inútil, absorvendo o essencial e planejando silenciosamente como transformar cada ameaça em oportunidade.

    Os conflitos internos da elite da fazenda começaram a se intensificar. A esposa do fazendeiro, uma mulher acostumada a mandar e ser obedecida, começou a perceber que sua posição estava ameaçada não apenas por Mariana, mas pelos rumores que acercavam. Cada gesto, cada olhar e cada palavra de Mariana eram interpretados como um desafio direto e a tensão se tornava quase palpável. A presença de Mariana transformava o cotidiano da Casa Grande em um teatro de manipulações e estratégias silenciosas, onde aliados e inimigos se confundiam e cada movimento era observado com extrema atenção. Foi durante uma dessas manhãs de verão que a primeira grande crise ocorreu. Um dos filhos de Mariana, apenas com 5 anos, foi acusado injustamente de um pequeno delito. E a tensão que se acumulava encontrou uma válvula de escape explosiva. Mariana, ao tomar conhecimento da acusação, não reagiu com fúria imediata, ao contrário, observou, analisou e, de forma estratégica, confrontou não apenas o acusador, mas toda a cadeia de poder que se alimentava da injustiça. Suas palavras firmes e eloquentes fizeram com que todos na sala ficassem em silêncio absoluto. Era impossível ignorar a verdade que emanava de Mariana. Ela não era apenas uma mãe protetora, mas uma estrategista nata, capaz de virar situações a seu favor, mesmo sob as circunstâncias mais adversas.

    O episódio com seu filho trouxe consequências inesperadas. A fama de Mariana se espalhou ainda mais e pessoas que antes a desprezavam passaram a se aproximar com cautela. Ela se tornou uma figura central na comunidade, não apenas como mãe de 13 filhos proibidos, mas como uma mulher que desafiava regras e revelava a fragilidade de um sistema que se considerava inquebrável cada vez mais. Aqueles ao seu redor percebiam que a verdadeira força de Mariana não residia apenas na coragem, mas na capacidade de transformar medo em respeito, opressão em oportunidade e segredo em poder.

    Entretanto, nem tudo era vitória. Inimigos invisíveis começaram a conspirar, tentando desacreditá-la e encontrar falhas em sua conduta. Mensageiros do fazendeiro espalhavam rumores sobre suas intenções, enquanto membros da elite local buscavam minar sua influência, temendo que a ascensão de uma mulher negra e escravizada pudesse ameaçar toda a ordem estabelecida. Mariana, porém, antecipava cada movimento, observava cuidadosamente cada interação, cada palavra dita em sua ausência e respondia com sutileza. Era uma batalha silenciosa, onde a arma mais poderosa era a inteligência. e Mariana a manejava com maestria.

    O auge da atenção chegou em uma noite em que uma festa da elite foi organizada na fazenda. Mariana como sempre estava presente, mas sua presença era como um raio silencioso, capaz de iluminar e ameaçar ao mesmo tempo. Conversas sutis, olhares calculados e gestos estratégicos transformavam o ambiente em um tabuleiro de xadrez humano, onde cada participante buscava posicionar-se melhor. Foi nessa noite que um aliado inesperado surgiu. Alguém que, impressionado com a coragem e inteligência de Mariana, decidiu ajudá-la a consolidar sua posição. Essa aliança nascida de respeito e admiração genuína foi crucial para que Mariana pudesse enfrentar os desafios seguintes sem perder o controle sobre sua vida e sobre seus filhos.

    Mariana compreendeu que a luta pela sobrevivência e pelo respeito não era apenas sua. Era uma batalha que atravessava gerações. Seus filhos representavam não apenas sua linhagem, mas a continuidade de um legado de resistência, inteligência e coragem. Cada ensinamento que ela passava era uma preparação para que eles pudessem enfrentar o mundo com a mesma determinação e sagacidade que ela demonstrava diariamente. E mesmo diante de todas as intrigas, traições e perigos, Mariana mantinha a serenidade que a tornava única. Uma combinação de firmeza, paciência e audácia que confundia e fascinava aqueles que a cercavam. Se você já está fascinado com a trajetória de Mariana, não deixe de comentar qual momento mais mexeu com você até agora. Compartilhe suas impressões. Inscreva-se para acompanhar cada detalhe dessa saga que continua a se desdobrar e deixe seu like para apoiar a divulgação dessa história que, embora acontecida há quase três séculos, ainda ressoa com força nos dias de hoje. A jornada de Mariana está apenas começando e o próximo capítulo promete revelar segredos, alianças inesperadas e reviravoltas que você não vai querer perder.

    Com o passar dos meses, a fama de Mariana se consolidava de forma inevitável. Cada gesto seu, cada palavra sussurrada em corredores e quintais tornava-se objeto de especulação. A fazenda, antes palco apenas de rotina e trabalho, transformara-se em cenário de uma narrativa intensa de poder e resistência. Mariana caminhava entre escravos e senhores com a mesma confiança de quem sabe que cada movimento é decisivo, que cada olhar pode revelar ou ocultar segredos. Seus filhos, agora crescendo sob seus ensinamentos discretos, absorviam cada nuance do mundo que o cercava, cada gesto de astúcia materna, como se cada passo dado, fosse preparação para enfrentar um futuro que seria marcado por desafios tão grandes quanto o passado que haviam herdado.

    O fazendeiro, impotente diante da crescente influência de Mariana, começou a agir de maneira mais sutil. Não bastava confrontá-la abertamente. Seria necessário minar sua reputação sem despertar simpatia pelo alvo. Mensageiros percorriam vilarejos com histórias distorcidas. Pequenas intrigas eram plantadas em rodas de conversa e alianças cuidadosamente forjadas contra Mariana começaram a surgir. Mas Mariana, como sempre permanecia à frente de todos. Ela compreendia que em um ambiente onde a aparência de controle é mais importante que o controle em si, cada palavra poderia ser uma arma e cada silêncio, uma fortaleza.

    Os filhos de Mariana, curiosos e atentos, começaram a perceber a complexidade do mundo ao seu redor. Observavam os adultos conspirando, sentindo a tensão que pairava como nuvem carregada, e aprendiam, sem perceber, a interpretar olhares, gestos e intenções. Mariana transformava cada experiência em lição, cada desafio em oportunidade de ensinar sobre coragem, inteligência e resiliência. Os 13 filhos não eram apenas frutos de uma obstinação proibida. Eram símbolos vivos de resistência e esperança, cada um carregando a essência de sua mãe e a promessa de que a injustiça podia ser enfrentada mesmo sob as correntes mais pesadas.

    O ápice da tensão chegou quando rumores de que Mariana poderia estar planejando algo audacioso se espalharam. Alguns afirmavam que ela desejava não apenas proteger seus filhos, mas alterar a dinâmica de poder da fazenda de maneira definitiva. A elite local, acostumada a controlar vidas com rigidez absoluta, começou a temer não apenas por sua reputação, mas pelo próprio equilíbrio social. A presença de Mariana era uma provocação silenciosa que crescia a cada dia, uma força invisível capaz de abalar estruturas que pareciam inabaláveis. Em meio a essa atmosfera carregada, Mariana iniciou a execução de seu plano mais ousado. Não era uma ação impulsiva, mas um movimento calculado, pensado para expor injustiças, consolidar sua autoridade e proteger sua família. Cada aliado que ela conquistava era estratégico, cada gesto medido, era como um jogo de xadrez complexo, onde cada peça tinha função específica e a vitória dependia da paciência, inteligência e coragem.

    Mariana sabia que uma falha poderia custar não apenas a ela, mas aos seus filhos, e que qualquer sinal de fraqueza seria explorado por aqueles que desejavam restaurar a ordem anterior. O clima de suspense atingiu seu ápice em uma tarde chuvosa, quando a chuva pesada parecia anunciar a tempestade que se aproximava. Mariana convocou discretamente alguns aliados, incluindo membros da própria elite, que haviam se impressionado com sua sagacidade, e traçou os próximos passos com precisão cirúrgica. A tensão era palpável. Cada palavra trocada carregava significado, cada olhar a advertência. Aquela reunião silenciosa seria decisiva para o futuro de toda a fazenda e possivelmente da reputação de Mariana, que agora era mais do que uma lenda, era uma força a ser reconhecida e temida.

    Quando a notícia do plano começou a se espalhar, o fazendeiro entrou em pânico. Tentativas de intimidação, chantagem e promessas veladas não surtiram efeito. Mariana permanecia firme e segura de si, protegida não apenas por sua inteligência, mas também pelo respeito conquistado entre aqueles que antes a subestimavam. A atmosfera de medo e admiração mútua transformou o cotidiano da fazenda em uma tensão constante, um jogo perigoso em que a vitória não seria medida por riqueza ou título, mas por astúcia, coragem e habilidade em transformar situações adversas em oportunidades. Os 13 filhos, observando de perto, começaram a se tornar protagonistas silenciosos desse drama. Cada gesto de Mariana era uma lição prática. Resistência e poder não se demonstram apenas em confrontos abertos, mas em estratégias sutis. Na leitura precisa das intenções alheias, na paciência e na confiança no próprio julgamento. Mariana, consciente do impacto que sua história teria nas gerações futuras, cuidava de cada detalhe com a precisão de quem entende que sua vida e a de sua família dependem de sua inteligência e coragem.

    [Música] O clímax do bloco seguinte se aproxima quando uma confrontação inesperada colocará Mariana frente à frente com inimigos invisíveis que acreditavam poder manipulá-la. Será uma batalha de inteligência, coragem e estratégia, e o desfecho poderá redefinir não apenas seu destino, mas o de toda a fazenda. Mariana, mais do que nunca, se prepara para demonstrar que a força de uma mulher determinada pode superar qualquer obstáculo, mesmo em um mundo que insiste em subestimá-la. Se você está impressionado com a habilidade estratégica de Mariana, comente abaixo sobre qual ação dela mais te surpreendeu até agora. Inscreva-se para não perder os próximos capítulos dessa saga que mistura coragem, intriga e resiliência. e deixe seu like para que essa história que abalou o Brasil colonial continue a ser conhecida e lembrada. A narrativa de Mariana está longe de acabar e os próximos eventos prometem revelar segredos ainda mais surpreendentes e reviravoltas impactantes que vão prender sua atenção do início ao fim.

    A confrontação decisiva começou numa manhã enevoada, quando a neblina envolvia a fazenda como um manto silencioso, ocultando intenções e aumentando a tensão que pairava no ar. Mariana caminhava lentamente pelos corredores, consciente de que cada passo poderia desencadear consequências irreversíveis, seus filhos observavam de longe, sentindo o peso da atmosfera carregada, absorvendo cada gesto da mãe, cada sinal de inteligência e coragem. Naquele momento, a história que até então era de resistência silenciosa, transformava-se em um confronto direto e a coragem de Mariana seria testada como nunca antes.

    O fazendeiro, que até então havia se escondido atrás de estratégias e mensageiros, finalmente se lançou em uma tentativa aberta de controlar Mariana. Seu orgulho ferido e o medo de perder a autoridade o tornaram impetuoso. Ele a confrontou com acusações públicas, palavras duras e ameaças veladas, acreditando que ao intimidá-la poderia restaurar o equilíbrio perdido. Mas Mariana, firme e serena, não se deixou abalar. Cada frase que proferia era calculada, carregada de inteligência e eloquência, desarmando não apenas as palavras do fazendeiro, mas também a própria atmosfera de opressão que ele tentava impor. O embate se intensificava a cada momento. Os aliados de Mariana, escondidos entre os observadores, seguravam a respiração, conscientes de que qualquer reação precipitada poderia alterar o rumo dos acontecimentos.

    Mariana, no centro desse palco improvisado, transformava tensão em estratégia, medo em autoridade. A coragem que a tornara famosa nas conversas sussurradas da cidade agora se mostrava ao vivo, deixando claro que a mulher, que desafiara 13 filhos proibidos não era apenas rebelde, mas imbatível em sua astúcia e determinação. A situação atingiu o ápice quando um membro da elite, antes aliado do fazendeiro, decidiu intervir. Sua intenção era colocar Mariana em cheque, testando sua influência e capacidade de reação, mas ela antecipara o movimento com habilidade e precisão. Conduziu a situação de modo que não apenas neutralizou a ameaça, mas também consolidou sua autoridade diante de todos os presentes.

    Cada gesto, cada palavra funcionou como uma prova de que Mariana não apenas sobreviveria ao confronto, mas sairia dele ainda mais poderosa, transformando o que poderia ser um momento de fraqueza em uma vitória estratégica. Enquanto isso, os filhos observavam cada detalhe, aprendendo que a verdadeira força não reside apenas em enfrentar o inimigo com violência, mas em compreender suas intenções, planejar cada passo e agir com inteligência. Mariana transmitia lições sem precisar dizer uma palavra direta. Cada ação sua era um ensinamento. Cada vitória silenciosa, um legado, o respeito e a admiração que conquistava naquele dia, ultrapassavam qualquer barreira de sangue, classe ou cor e estabeleciam uma nova ordem dentro da fazenda.

    Com a derrota de seus opositores, Mariana começou a exercer influência de maneira ainda mais sutil, mais poderosa, a fazenda. Antes, palco de medo e subjugação transformava-se em território onde sua inteligência e liderança eram reconhecidas. A população local, os trabalhadores e mesmo a elite passaram a perceber que Mariana não era apenas uma mulher corajosa. Ela era uma força capaz de redefinir estruturas, alterar destinos e inspirar respeito onde antes havia desprezo. Mas o triunfo não significava o fim dos desafios. O escândalo de Mariana alcançara proporções que ultrapassavam os limites da fazenda.

    Histórias de sua ousadia, dos 13 filhos proibidos e de sua astúcia começaram a se espalhar por vilarejos vizinhos, criando um efeito de onda que ninguém poderia conter. Alguns viam nela apenas uma ameaça, outros um exemplo de resistência. Mariana, consciente do poder que aquela narrativa adquiria, continuava a agir com cautela, garantindo proteção aos filhos, consolidando alianças e fortalecendo sua posição. O clímax desse período de tensão mostrou que Mariana não precisava apenas enfrentar inimigos visíveis. Ela também tinha que lidar com a inveja, o medo e a ambição daqueles que desejavam subjulá-la de maneiras sutis e sofisticadas. Cada desafio vencido reforçava sua reputação. Cada estratégia bem-sucedida ampliava seu poder e consolidava a imagem da escrava que se tornara a não por títulos oficiais, mas por respeito, inteligência e coragem indiscutíveis.

    E é nesse ponto da história que Mariana se torna mais do que lenda. Ela passa a simbolizar resistência, poder feminino e astúcia. Em um contexto que parecia impossível de desafiar, seus filhos, cada um carregando a essência de sua força e inteligência, são a prova viva de que a determinação de uma mulher pode transformar destinos, quebrar correntes e desafiar sistemas aparentemente imutáveis. Se você está impressionado com a habilidade de Mariana em enfrentar seus adversários, comente abaixo qual momento desse confronto mais te surpreendeu. Inscreva-se para acompanhar cada detalhe dessa saga intensa e deixe seu like para que essa história que abalou o Brasil colonial continue a inspirar e encantar cada vez mais pessoas.

    O próximo bloco promete revelar não apenas as consequências dessa vitória, mas os segredos ocultos e reviravoltas que farão você prender a respiração até a última palavra. A vitória de Mariana não trouxe apenas reconhecimento, trouxe também uma complexidade de desafios que ela jamais poderia ignorar. A fazenda, agora transformada pelo seu poder silencioso, continuava a ser palco de intrigas. Mas os inimigos já não eram apenas aqueles visíveis. Surgiam traições veladas, rumores cuidadosamente espalhados e olhares desconfiados de quem, embora impressionado com sua coragem, não aceitava completamente sua ascensão. Mariana, mais do que nunca compreendeu que a força verdadeira não se demonstrava apenas em confrontos abertos, mas na capacidade de antecipar movimentos, proteger seus filhos e manter alianças estratégicas em um ambiente carregado de tensão e interesse próprio.

    filhos, cada um com suas próprias personalidades emergindo, tornavam-se reflexos de sua mãe. Alguns herdavam sua audácia, outros sua sagacidade e todos, sem exceção, aprendiam a observar o mundo ao redor com atenção e paciência, percebendo que a sobrevivência e o respeito dependiam de inteligência, não apenas de força. Mariana sabia que precisava guiá-los com mãos firmes e coração sábio, ensinando-lhes não apenas como se defender, mas como influenciar e comandar, sem jamais perder a própria dignidade. Cada ensinamento era como uma semente plantada com cuidado para florescer no momento certo, em meio a uma sociedade que ainda os via como objetos, mas que começava a temer e respeitar sua presença.

    Enquanto isso, os rumores sobre Mariana se espalhavam cada vez mais. Histórias exageradas sobre sua coragem e astúcia circulavam por vilarejos vizinhos, chegando aos ouvidos de autoridades e membros da elite. Alguns sentiam admiração, outros medo. O escândalo de 13 filhos proibidos e a transformação da escrava em figura de influência e respeito tornou-se um assunto inevitável. A própria cidade, acostumada a obedecer regras rígidas começou a sentir a tensão de uma mulher que desafiava as normas e mostrava que, mesmo sem títulos ou posses, era possível mudar o rumo de vidas e reputações.

    O fazendeiro, incapaz de aceitar o fracasso, começou a elaborar estratégias mais sofisticadas para tentar recuperar controle. Porém, Mariana já se antecipava, com inteligência estratégica, observava cada ação do adversário, cada conversa, cada gesto suspeito. Seus movimentos tornaram-se quase invisíveis, mas precisos como uma lâmina afiada. Cada passo seu consolidava sua autoridade, mas também protegida seus filhos e aliados de ataques sutis e traições silenciosas, atenção diária. O risco constante transformava sua vida em um jogo delicado, onde a paciência e a percepção eram tão importantes quanto a coragem.

    Em meio a tudo isso, Mariana encontrou momentos de ternura e humanidade, especialmente com seus filhos, os 13, cada um com suas próprias características e desafios, representavam para ela não apenas resistência, mas esperança. Entre brincadeiras, ensinamentos e pequenas travessuras, Mariana transmitia mais do que conhecimento. Transmitia força, inteligência e coragem, preparando-os para enfrentar um mundo que, embora cheio de injustiça, podia ser desafiado com astúcia e determinação. Cada lição era carregada de amor e estratégia, e cada gesto uma preparação para que quando chegasse a hora, seus filhos pudessem continuar o legado de resistência e poder iniciado por ela.

  • O que diz o ‘Evangelho esquecido do IRMÃO de JESUS’

    O que diz o ‘Evangelho esquecido do IRMÃO de JESUS’

    Prepare-se para mergulhar em uma história que foi excluída das bíblias que você conhece e talvez por razões que vão além do que você imagina. E se eu te dissesse que existe um evangelho antigo lido por importantes líderes da Igreja primitiva, que apresenta detalhes íntimos e milagrosos sobre o nascimento de Jesus, a virgindade de Maria e até mesmo os avós do Messias.

    E ainda assim, esse texto foi deixado de fora das Escrituras, escrito em oito línguas, venerado no Oriente e citado por teólogos influentes. O evangelho do irmão de Jesus é tão poderoso que influenciou até o Islã. Por que então ele foi apagado Bíblia? O que há nesse evangelho que incomodou tanto a tradição? E se o que aprendemos não for toda a verdade? Joaquim era um homem extremamente rico e piedoso, e essa combinação fazia dele uma figura respeitada entre os judeus de seu tempo.

    Frequentador assíduo do templo de Jerusalém, fazia generosas ofertas tanto por si quanto pelo povo. No entanto, mesmo com tanto zelo, Joaquim carregava um fardo, não tinha filhos. Esse detalhe, num contexto judaico da época, era considerado uma vergonha pública.

    E foi exatamente isso que um outro homem o fez lembrar certa vez no templo, quando o questionou por ainda não ter gerado descendência em Israel. A humilhação pública o levou a uma decisão extrema, abandonar tudo e se isolar no deserto em jejum e oração. Ao mesmo tempo, sua esposa Ana, igualmente estéril, sofria com desprezo e solidão.

    O texto relata que ela chorava só de ver um ninho de pássaros, pois até os animais geravam filhos enquanto ela permanecia infértil. A situação de Ana se agravava com a ausência de Joaquim, que já estava desaparecido havia 40 dias. O medo de se tornar viúva se somava à dor da esterilidade. A tradição judaica daquela época via a fertilidade como uma bênção direta de Deus, e a falta de filhos era muitas vezes entendida como sinal de reprovação divina.

    Foi nesse cenário de desespero e súplica que uma intervenção celestial mudou tudo. O Evangelho de Thago descreve que tanto Joaquim quanto Ana foram visitados por anjos em momentos distintos que anunciaram uma notícia extraordinária. Eles teriam uma filha e essa filha seria conhecida e reverenciada em todo o mundo.

    A resposta divina aos dois aconteceu simultaneamente. E assim Ana engravidou, trazendo ao mundo que ela chamou de Maria, a futura mãe do Salvador. Maria não foi criada como qualquer outra criança. Ainda muito pequena, seus pais construíram um pequeno santuário dentro de casa para mantê-la afastada do mundo em pureza.

    Quando completou três anos, foi levada ao templo de Jerusalém, onde passou a ser criada dentro dos muros sagrados, alimentada, segundo o texto, diretamente pelas mãos de um anjo. Esse detalhe é impressionante e não aparece nos Evangelhos canônicos. A ideia era mostrar uma santidade precoce, uma espécie de consagração total desde o berço. A infância de Maria no templo é marcada por graça divina.

    O texto diz que a presença de Deus a acompanhava constantemente, sinalizando sua vocação especial. Porém, havia um limite para sua permanência ali. Quando completou 12 anos, os sacerdotes se viram diante de um dilema, o início iminente de sua menstruação.

    Segundo a Torá, a menstruação tornava uma mulher ritualmente impura, o que a desqualificava de permanecer num local sagrado como o templo. Era necessário decidir seu futuro. Foi então que o sumo sacerdote consultou a Deus no Santo dos Santos. A resposta foi clara e divina: convocar os viúvos da comunidade para trazerem seus bastões. Um sinal indicaria quem deveria desposar Maria.

    Quando o último bastão pertencente a um viúvo chamado José foi entregue, a ponta dele floresceu e uma pomba surgiu pousando sobre a cabeça de José. Assim se confirmou diante dos sacerdotes que ele seria o marido escolhido por Deus para Maria. José relutou por já ser idoso e pai de outros filhos, mas a ameaça de desobedecer a vontade divina o fez aceitar o chamado com temor.

    E é nesse ponto que a narrativa se intensifica, preparando o cenário para a próxima grande revelação, o anúncio do nascimento de Jesus e todos os mistérios que envolveram essa concepção milagrosa. Se esse tipo de conteúdo te inspira e te ensina algo novo, já aproveita para se inscrever no canal e escreve aqui nos comentários de qual cidade ou país você está nos assistindo.

    É sempre interessante saber até onde essa mensagem está chegando. Agora vamos voltar pro vídeo. Aos 3 anos de idade, Maria foi entregue por seus pais ao templo de Jerusalém como uma oferenda viva. Era comum que crianças fossem dedicadas ao serviço do Senhor, mas o caso de Maria foi tratado com uma solenidade incomum.

    Ela não era apenas mais uma menina, era uma criança alimentada por um anjo, segundo a tradição do Evangelho de Tiago, e isso a separava das demais desde o início. Criada no ambiente mais sagrado do judaísmo, Maria cresceu entre orações, incensos, cânticos e a presença constante dos sacerdotes. Durante toda a sua infância, Maria permaneceu em pureza.

    Sua presença no templo era tida como sinal da promessa divina, mas quando completou 12 anos, algo inevitável estava para acontecer, a primeira menstruação. E isso representava um sério problema ritual. Pela lei de Moisés, a impureza menstrual não poderia coexistir com o espaço sagrado do templo. Era urgente tomar uma decisão sobre seu destino. Os sacerdotes, sem saber o que fazer, decidiram consultar diretamente a vontade de Deus.

    O sumo sacerdote entrou no Santo dos Santos, o local mais sagrado do templo, para buscar uma resposta. Lá ele recebeu uma instrução divina, convocar todos os viúvos do povo e pedir que cada um trouxesse seu bastão. Deus daria um sinal sobre quem deveria receber Maria por esposa. Todos obedeceram. Os bastões foram recolhidos e apresentados diante do Senhor.

    Um a um, os homens recuperavam seus bastões sem sinal algum. Mas o último bastão, o de José, floresceu, e uma pomba saiu de sua extremidade, pousando sobre ele. O sinal era claro. José, porém, não ficou alegre com a escolha. Ele já era um homem velho, pai de filhos, e temia virar motivo de zombaria por desposar uma jovem como Maria.

    chegou a tentar recusar a missão, mas foi imediatamente advertido. Se ele desobedecesse à escolha de Deus, teria o mesmo destino de Datã, Abirão e Coré, homens do Antigo Testamento que foram tragados pela terra por se oporem à autoridade divina. Com temor, José aceitou Maria como sua esposa, mas fez um voto de não tocá-la.

    Enquanto José seguia trabalhando como carpinteiro ausente por longos períodos, Maria permaneceu em sua casa. E foi nesse tempo de ausência que algo extraordinário aconteceu. Um anjo apareceu a Maria e anunciou que ela era a escolhida de Deus e que conceberia por meio do Espírito Santo. Ela seria a mãe do Salvador, do Filho do Altíssimo. Segundo o texto, Maria tinha 16 anos quando concebeu.

    Sua gravidez inicialmente foi mantida em segredo, pois ela temia pela sua reputação e também pela de José. José retornou após meses de trabalho e encontrou Maria grávida. A dor dele é descrita de maneira intensa. Ele se desespera, rasga suas vestes, bate no rosto e lamenta profundamente. Primeiro se culpa por não ter vigiado Maria. Depois a acusa de manchar o nome de ambos.

    Mesmo assim, decide não expô-la publicamente, planeja abandoná-la em segredo. Mas antes que isso aconteça, um anjo lhe aparece em sonho e revela que o que está no ventre de Maria é obra do Espírito Santo. José se enche de temor e obedece ao chamado de Deus.

    A decisão de José de aceitar Maria e proteger o mistério da encarnação não passou despercebida pela comunidade. Logo começaram a surgir suspeitas. Por que Maria não saía mais de casa? Porque José andava abatido. Um sacerdote curioso descobriu a gravidez e levou o caso ao tribunal. Maria e José foram então submetidos a um antigo ritual de purificação, a água da refutação.

    Era uma cerimônia baseada em número cinco que testava a fidelidade conjugal. Se fossem culpados, os efeitos físicos seriam evidentes, mas os dois saíram ilesos. O milagre se confirmava. Maria era inocente e José também. Esse episódio selou a aceitação pública de ambos, mas uma nova jornada já se aproximava com um decreto do Império Romano que mudaria o curso da história e levaria Maria às portas de uma gruta sagrada.

    Com o decreto do imperador romano convocando o recenciamento da população, José precisou deixar sua casa e viajar até Belém, sua cidade de origem. Essa viagem se tornava ainda mais desafiadora, porque Maria já se encontrava nos últimos dias de gravidez. Mesmo assim, ela o acompanhou. O texto descreve que os filhos de José, fruto de seu casamento anterior, também foram juntos.

    Era uma caravana familiar modesta, enfrentando estradas poeirentas e noites frias. O evangelho não omite as dificuldades dessa jornada e é justamente no meio dela que o inesperado acontece. Maria entra em trabalho de parto. Percebendo que o nascimento era iminente, José rapidamente encontra uma gruta nas redondezas e acomoda Maria ali.

    A cena da natividade em uma gruta e não num estábulo vem desse texto apócrifo e influenciou profundamente a arte e a iconografia cristã. Maria permanece na gruta enquanto José sai em busca de uma parteira para ajudá-la. É nesse momento que o evangelho muda de tom. Pela primeira vez, a narrativa passa a ser contada na primeira pessoa, diretamente da voz de José.

    Ele relata uma experiência mística, quase sobrenatural. José diz que no caminho para buscar a parteira, o tempo parou. Ele olha para o céu e vê as aves suspensas no ar, imóveis. Os trabalhadores pararam seus movimentos. Os animais não bebiam água. Os pastores congelaram com os cajados levantados. O mundo inteiro parecia ter sido suspenso no tempo. E foi nesse instante que José compreendeu. O menino havia nascido.

    O universo reagia ao nascimento do Salvador de forma que os sentidos humanos jamais poderiam explicar. Quando José finalmente encontra uma parteira, ele a leva de volta à gruta. Ao se aproximarem, vem uma nuvem luminosa cobrindo a entrada. À medida que se aproximam mais, a nuvem se dissipa e uma luz intensa se manifesta, tão forte que ninguém conseguia manter os olhos abertos.

    Quando a luz desaparece, Maria aparece com o recém-nascido em seus braços. Nenhuma dor, nenhum sangue, nenhum sofrimento. O parto aconteceu de forma milagrosa, preservando totalmente a virgindade de Maria, conforme reforçado pelo autor do Evangelho. A parteira maravilhada sai correndo para contar a outras pessoas o que viu. Uma mulher chamada Salomé ouve o relato e reage com ceticismo.

    afirma que não acreditaria nesse nascimento virginal sem antes verificar pessoalmente. A cena que se segue é uma das mais controversas e impressionantes do texto. Salomé vai até a gruta e realiza um exame físico em Maria. Ao constatar que a jovem realmente permaneceu virgem após o parto, ela é dominada pelo arrependimento e pela incredulidade.

    Imediatamente sua mão começa a queimar e se separar do corpo. Desesperada, Salomé clama a Deus por cura. Um anjo aparece e orienta que ela toque o menino Jesus com a mão ferida. Ao obedecer, é instantaneamente curada. Com a mão restaurada, Salomé se prostra diante da criança e o reconhece como rei de Israel.

    Essa cena, por mais chocante que pareça, tem uma função clara dentro do texto: reafirmar a pureza absoluta de Maria antes, durante e após o nascimento de Jesus, eliminando qualquer possibilidade de dúvida. Com o parto consumado, a família parte novamente em direção a Belém. A jornada, no entanto, estava longe de terminar.

    Um novo perigo surgia no horizonte. O rei Herodes acabara de saber, por meio de magos vindos do oriente, que um novo rei havia nascido em sua terra. O trono estava ameaçado e a resposta de Herodes seria sangrenta, como os próximos acontecimentos deixariam claro. Após o nascimento do menino, a notícia de que um novo rei havia surgido chegou até o palácio de Herodes.

    Os magos do Oriente, estudiosos dos astros e sinais celestes, procuraram o rei da Judeia para saber onde poderiam encontrar o recém-nascido rei dos judeus. Herodes, alarmado, fingiu interesse e pediu que, ao encontrarem a criança, voltassem para informá-lo. Mas sua intenção era bem outra, eliminar qualquer ameaça ao seu trono.

    Ao perceber que os magos não retornaram, Herodes ordenou a matança de todas as crianças de do anos ou menos em Belém e nas regiões próximas. Foi nesse contexto que a família de Jesus precisou agir rapidamente. Maria, ao saber da ordem de Herodes, envolveu o menino em panos e o escondeu numa manjedoura.

    José, guiado por presságios e visões, tratou de proteger a esposa e o filho. Mas não foi apenas Jesus que estava em perigo. Isabel, prima de Maria, havia dado a luz recentemente a João Batista. Também temendo pela vida de seu filho, Isabel procurou abrigo. Segundo o Evangelho de Tiago, ela percorreu montes e vales, mas não encontrava refúgio.

    Chegando ao pé de uma montanha, Isabel clamou a Deus em desespero. A resposta veio de forma sobrenatural. A montanha se abriu diante dela como se tivesse vida própria, e a recebeu com o menino. Era um esconderijo divino. Além disso, um anjo foi enviado para guardar a entrada da fenda, protegendo mãe e filho até que o perigo passasse.

    Essa imagem de uma montanha viva que se torna abrigo não aparece em nenhum evangelho canônico, mas expressa de forma simbólica o cuidado sobrenatural de Deus com os seus escolhidos. Enquanto isso, em Jerusalém, Herodes buscava vingança por não ter encontrado João. Ele acreditava que o menino ainda estava escondido. E então voltou sua ira contra Zacarias, pai de João e sacerdote do templo.

    Segundo o texto, Zacarias recusou-se a revelar onde estava seu filho. Como consequência, Herodes ordenou sua morte ali mesmo no átrio do templo. Foi um assassinato sagrado, um atentado contra o espaço mais santo do judaísmo, e o sangue de Zacarias não desapareceu. O Evangelho relata que o sangue derramado se transformou em pedra, um sinal divino que clamava por justiça.

    Durante três dias, os sacerdotes e o povo choraram a morte de Zacarias. Nenhuma limpeza era suficiente para remover a mancha do templo, até que uma voz celestial anunciou que o sangue não deveria ser removido até que surgisse o seu vingador. Essa narrativa ecoa o relato de Gênesis, onde o sangue de Abel clamava da terra. Aqui o sangue de Zacarias clamava do altar.

    Um novo sacerdote foi sorteado para ocupar seu lugar, mas a lembrança de sua fidelidade e morte permaneceu viva na memória do povo. Enquanto tudo isso se desenrolava, José, Maria e o menino Jesus seguiam viagem discretamente. Apesar da tensão crescente, o texto não relata diretamente a fuga para o Egito, como fazem os Evangelhos de Mateus, mas foca nos eventos extraordinários que marcaram esse período.

    Era como se o mundo espiritual estivesse em ebulição, com o céu e a terra se movendo para proteger o Messias recém-nascido. Cada passo da Sagrada Família era guiado, ocultado e assegurado por sinais sobrenaturais, preparando o caminho para o futuro ministério de Jesus. Esse tempo de fuga, silêncio e milagres se encerrava, mas novas questões surgiriam no horizonte, especialmente sobre a origem desse evangelho tão peculiar que registrava fatos esquecidos e lutas desconhecidas.

    Embora o evangelho afirme ter sido escrito por Tiago, o irmão de Jesus, os estudiosos são unânimes em afirmar que essa autoria é pseudônima. Ou seja, o nome de Thago foi usado para dar autoridade ao texto, mas o verdadeiro autor era outro. A primeira menção histórica inequívoca a esse Evangelho aparece apenas no século nas obras de origens de Alexandria.

    Além disso, o manuscrito mais antigo que preserva o texto é do século ou qu, o chamado Papiro Bodmer V. Isso coloca sua redação bem depois da época dos apóstolos. A análise do conteúdo confirma essa data posterior. O autor demonstra familiaridade com os Evangelhos de Mateus e Lucas e até com algumas ideias presentes no de João.

    Isso sugere que ele escreveu com base em tradições e textos já estabelecidos e não por meio de testemunho ocular. Além disso, há evidentes imprecisões geográficas e culturais na narrativa, o que também indica que o autor não era nativo da região da Judeia. O tom e os detalhes mostram que ele provavelmente era um cristão de origem grega ou oriental.

    A pseudonímia, o uso de nomes apostólicos por autores posteriores, era comum na literatura cristã primitiva. Textos como o Evangelho de Tomé, o de Felipe e o Apocalipse de Pedro também seguiram esse modelo. O objetivo era simples, garantir que as palavras tivessem peso e autoridade entre as comunidades cristãs.

    No caso do Evangelho de Tiago, atribuir sua autoria ao próprio irmão de Jesus. dava a ele um selo de legitimidade impossível de ignorar. Afinal, quem estaria mais próximo da história de Maria senão Thago, que teria convivido com ela? Mesmo sem autoria apostólica real, o texto se espalhou rapidamente. Ele foi traduzido para ao menos oito idiomas da antiguidade, incluindo grego, latim, sííaco, copta e armênio.

    Isso mostra a popularidade e influência que alcançou nas primeiras comunidades cristãs. Sua ênfase na virgindade de Maria, nos milagres do nascimento de Jesus e nos detalhes da vida familiar de Cristo, preenchia uma lacuna que os evangelhos canônicos deixavam aberta. O mistério dos primeiros anos da Sagrada Família.

    A escolha de Tiago como autor fictício também carrega um significado estratégico. Entre os primeiros líderes da igreja de Jerusalém, Thagozava de enorme respeito, tanto entre judeus quanto entre cristãos. Ele era visto como justo, sábio e profundamente ligado às raízes judaicas da fé cristã. Atribuir-lhe esse evangelho era uma forma de honrar sua figura e garantir que o texto fosse levado a sério, especialmente entre os que valorizavam o contexto judaico da fé.

    Contudo, mesmo com toda essa influência, o Evangelho de Tiago nunca foi aceito nas listas oficiais de textos canônicos. As primeiras coleções de Evangelhos que incluíam apenas Mateus, Marcos, Lucas e João já circulavam desde o séculos. Quando os debates sobre o canon se intensificaram nos séculos e quarto, o Evangelho de Tiago já era considerado uma obra secundária, útil, talvez para edificação pessoal ou para enriquecer a tradição oral, mas não inspirada de forma igual aos quatro evangelhos aceitos. Esse cenário nos leva naturalmente à próxima grande questão. Se não era

    canônico, porque então ele foi tão influente e mais ainda, porque dedicou tamanha atenção à pureza e virgindade de Maria. No centro do Evangelho de Tiago está uma ideia poderosa e polêmica, a virgindade perpétua de Maria. O texto não apenas afirma que Maria concebeu Jesus sendo virgem, mas insiste que ela continuou virgem mesmo após o parto.

    Isso é algo que nenhum dos evangelhos canônicos se propõe a dizer com tanta ênfase. E mais, para comprovar esse ponto, o Evangelho narra uma das cenas mais controversas da literatura cristã antiga, o exame físico feito por Salomé após o parto para confirmar a integridade corporal de Maria. É um episódio forte, gráfico e deliberado. Esse foco extraordinário na virgindade não é gratuito.

    O texto parece responder diretamente a rumores e calúnias que circulavam nos primeiros séculos contra o cristianismo. Como Celso, um filósofo grego do século zombavam da fé cristã, dizendo que Jesus era filho de uma camponesa adúltera, que tivera um caso com um soldado romano chamado Pantera. Essas acusações, repetidas por críticos judeus e pagãos, lançavam dúvidas sobre a legitimidade de Jesus e manchavam a honra de Maria.

    O Evangelho de Tiago rebate essas acusações de forma enfática. Joaquim, pai de Maria, não é pobre, mas riquíssimo. Maria não tece por necessidade, mas por devoção. E ainda por cima tece para o templo. E mais importante, ela não apenas concebe de forma miraculosa, como dá a luz sem deixar de ser virgem. O autor não quer apenas defender Maria.

    Ele quer consagrá-la como um templo vivo, intocado, puro e separado de tudo que fosse considerado impuro, segundo a tradição judaica. Essa doutrina da virgindade perpétua, que se tornaria um dogma nas igrejas católica e ortodoxa, tem sua raiz mais antiga, justamente nesse texto apócrifo. É ele quem primeiro formula a ideia de que os irmãos de Jesus não eram filhos de Maria, mas sim de José.

    fruto de um casamento anterior. Isso preservava Maria de qualquer ligação com filhos carnais, reforçando sua pureza. A tradição católica mais tarde ainda daria um passo além, afirmando que até José permaneceu virgem e reinterpretando os irmãos como primos, com base no significado amplo da palavra Adelfos em grego.

    Essa ênfase na pureza absoluta refletia o ideal aso crescente entre os cristãos dos séculos ter e quarto. A virgindade era vista como superior ao casamento. Muitos líderes e monges adotavam o celibato como forma de santidade. Assim, fazer de Maria o maior símbolo dessa virtude se tornou teologicamente vantajoso. Mas nem todos concordaram.

    No Ocidente, especialmente após o tempo de São Jerônimo, o Evangelho de Thago passou a ser criticado. Era considerado fantasioso, exagerado e, por vezes, até indecente, especialmente por causa da cena de Salomé. Apesar disso, seu conteúdo nunca deixou de circular. Ele foi copiado, adaptado, ampliado, especialmente no Evangelho do Pseudo Mateus, que popularizou ainda mais suas histórias, mas nunca entrou nas listas oficiais de livros inspirados, nem mesmo nas igrejas orientais, que não viam problemas teológicos em seu conteúdo. O fato é que

    o Evangelho de Tiago chegou tarde demais à disputa canônica. Já em um tempo em que os quatro evangelhos estavam consolidados como padrão e sua autoria duvidosa contribuiu para sua exclusão. Ainda assim, sua influência é visível. A imagem da gruta da Natividade, os nomes dos avós de Jesus, Joaquim e Ana, a ideia da Imaculada Conceição e até elementos presentes no Alcorão sobre Maria. Tudo isso tem raízes nesse evangelho esquecido.

    Ele não faz parte da Bíblia, mas moldou profundamente o imaginário cristão, as doutrinas marianas e a arte sacra ocidental. Uma obra marginal, mas essencial. Um texto escondido, mas que nunca deixou de falar. E com isso o ciclo se fecha. Mas como toda boa história bíblica, o fim de uma narrativa é sempre o prenúncio de outra. Agora, cabe a nós olhar adiante com novas perguntas e descobertas.

    O que você vai fazer com esse conhecimento agora? Saber que existiu um evangelho que influenciou profundamente a fé cristã, moldou doutrinas inteiras e até inspirou o Islã, mas que mesmo assim foi deixado de fora da Bíblia. deveria despertar em você uma santa inquietação.

    Que outras histórias foram silenciadas? Que outras vozes da fé foram ignoradas ao longo dos séculos? A verdade é que a história da fé cristã é muito mais ampla, complexa e fascinante do que muitos imaginam. O Evangelho de Tiago, com todos os seus detalhes extraordinários, não apenas nos revela mais sobre Maria, José e o nascimento de Jesus.

    Ele nos obriga a encarar a história do cristianismo com olhos mais atentos e uma mente mais aberta. Agora eu te pergunto, o que você achou mais surpreendente em tudo isso? A montanha que se abriu para proteger João? A mão de Salomé sendo curada ao tocar o menino Jesus? Ou o mundo inteiro parando no exato momento do nascimento? Qual dessas partes mexeu mais com sua visão da história sagrada? Deixe seu comentário aqui embaixo e me diga também: você acha que o Evangelho de Thago deveria estar na Bíblia? Sim ou não? E por quê? Se esse vídeo te fez pensar diferente,

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  • 1 Samuel [Chamado e Coragem Sob a Chuva da Voz de Deus] Bíblia ao Som de Chuva

    1 Samuel [Chamado e Coragem Sob a Chuva da Voz de Deus] Bíblia ao Som de Chuva

    Chuvas da palavra. Havia um homem que morava em Ramataim. Era descendente da família de Zuf, das montanhas de Efraim. Seu nome era Eucana. O parentesco dele com Zuf de Efraim era por parte de seu pai Jeroão, seu avô Eliú e seu bisavô Tô. Ele tinha duas mulheres. A primeira chamava-se Ana, a outra Penina. Penina tinha filhos, mas Ana não.

    Primeiro Samuel. Todo ano esse homem viajava até Siló para adorar e oferecer sacrifícios ao Senhor dos Exércitos de Anjos. Eli e seus dois filhos, Rofini e Fineias, eram os sacerdotes do Eterno. Eucana oferecia o sacrifício e servia a refeição sagrada a sua mulher penina e a seus filhos, mas sempre dava uma porção generosa para Ana, porque a amava muito e pelo fato de o Eterno não ter dado filhos a ela.

    Sua rival a provocava sem dó, irritando-a e sempre lembrando-a de que o eterno a deixara sem filhos. Isso acontecia todos os anos. Sempre que a família ia ao santuário do Eterno, Ana já sabia que seria provocada. Ela chorava e até perdi o apetite. Certa vez, Eucana, o marido, perguntou: “Ana, por que você sempre chora? Por que não come? Por que está tão triste? Não sou melhor para você que 10 filhos? Naquele dia, depois de comer, Ana se recompôs e de mansinho escapoliu para o santuário.

    O sacerdote Eli, como de costume, estava sentado numa cadeira à entrada do santuário do Eterno. Aflita, Ana orou ao Eterno. Desconsolada, ela chorava. Então fez um voto. Ó Senhor dos exércitos de anjos, se atentares para o meu sofrimento, se deixares de me ignorar e agires a meu favor, dando-me um filho, eu o dedicarei sem reservas a ti.

    Eu o separarei para uma vida de santa disciplina. Enquanto ela orava ao Eterno, Elia observava atentamente. Ana orava em silêncio com o coração. Seus lábios se mexiam, mas não saía som algum de sua boca. Ele pensou que ela estivesse embriagada, por isso se aproximou dela e perguntou: “Você está bêbada? Até quando vai ficar assim? Largue esse vício, mulher! Ana respondeu: “Não, senhor. Estou muito angustiada. Não andei bebendo.

    Não bebi vinho, nem qualquer outra bebida forte. Estou apenas abrindo o meu coração para o eterno. Não pense que sou uma mulher sem moral. Estou desesperada e sofro muito, por isso estou aqui há tanto tempo. Ele disse: “Vá em paz, que o Deus de Israel atenda o seu pedido.” Ela pediu, pense sempre bem de mim. Depois disso, voltou para junto do marido e comeu com apetite. Agora estava radiante.

    Eles se levantaram bem cedo, adoraram ao Eterno e retornaram para Ramá. Eucana teve relações com Ana e o Eterno lembrou-se do seu pedido. Antes do final do ano, Ana engravidou e teve um filho. Deu a ele o nome Samuel, pois disse: “Eu o pedi ao Eterno”. Quando chegou outra vez à época de Elcana voltar a Selfício anual e para cumprir o seu voto, Ana não o acompanhou.

    Ela disse ao marido, depois que o menino for desmamado, eu o levarei e o apresentarei ao Eterno. Ele ficará ali para sempre. Eucana respondeu: “Faça o que você achar melhor. Fique em casa até o menino estar desmamado. Sim, que o eterno conclua o que ele começou. Naquele ano, ela ficou em casa e amamentou o filho. Depois que o desmamou, ela o levou a Siló com uma oferta generosa para refeição sagrada. Um novilho de 3 anos, farinha e vinho.

    O menino ainda era bem novo. Eles mataram o novilho e depois levaram o menino a Eli. Ana disse: “Senhor, acredita que eu sou aquela mulher que estava neste mesmo lugar diante do Senhor, orando ao eterno? Eu orava por esta criança e o eterno concedeu a mim o que pedi. Agora eu o estou dedicando ao Eterno por toda a vida.

    ” Eles adoraram ao eterno ali. Ana orou. Canto de alegria por causa das notícias do eterno. Estou andando nas nuvens, estou rindo dos meus rivais. Estou dançando minha salvação. Não há santo como o eterno, nenhum rochedo como Deus. Não falem com arrogância. Não saiam de sua boca palavras de orgulho. Pois o eterno conhece todas as coisas.

    Ele mede tudo que acontece. As armas dos fortes são esmigalhadas, mas os fracos são revigorados. Os mais abastados agora mendigam o pão nas ruas, mas os famintos têm comida em dobro. A mulher Estéreo está com a casa cheia de filhos, mas a mãe de muitos ficou sem eles. O Eterno traz a morte e o Eterno traz a vida, faz descer a cova e faz ressurgir.

    O Eterno faz empobrecer e envia riquezas. Ele rebaixa e exalta. Ele põe o pobre de pé outra vez. Anima os esgotados com nova esperança, restaura na vida deles a dignidade e o respeito. Faz que tenham um lugar ao sol, pois ao eterno pertencem as próprias estruturas da terra.

    Ele estabeleceu a terra sobre um fundamento bem firme. Ele protege os amigos fiéis o tempo todo, mas deixa o perverso tropeçar na escuridão. Ninguém consegue sucesso nesta vida por esforço próprio. Os inimigos do Eterno serão destruídos com rajadas do céu, serão amontoados e queimados. O Eterno estabelecerá a justiça sobre toda a terra. Ele dará força ao rei.

    Ele estabelecerá o seu ungido sobre todo o mundo. Eucana voltou para sua casa em Ramá. O menino ficou servindo ao Eterno sobote Eli. Os filhos de Eli não eram flor que se cheirasse. Eles não acreditavam no eterno e levavam o ofício sacerdotal na brincadeira. Quando alguém oferecia um sacrifício, era o costume o ajudante do sacerdote chegar e, enquanto a carne estava ainda cozinhando, meter o garfo de três pontas na panela. O que ele tirasse com o garfo era a porção do sacerdote.

    Mas os filhos de Eli agiam de outro modo com os israelitas, que vinham oferecer sacrifício em Siló. Antes mesmo de se queimar a gordura para Deus, eles mandavam o ajudante do sacerdote dizer ao que estava oferecendo o sacrifício. Dê um pouco desta carne para o sacerdote assar. Ele não gosta de carne cozida, só de carne mal passada.

    Se a pessoa resistisse dizendo: “Deixe primeiro queimar a gordura, a porção de Deus, depois leve o que quiser”. O ajudante insistia: “Não, preciso agora. Se não me der, vou ter de tomá-la à força.” Era horrível o pecado que os dois jovens cometiam, bem na presença do Eterno, profanando a oferta sagrada.

    Era essa a situação na época em que Samuel, ainda menino, costumava usar uma túnica de linho e servia ao Eterno. Todo ano sua mãe fazia uma pequena túnica. de acordo com o tamanho de Samuel e entregava ele. Quando ela e o marido vinham para o sacrifício anual, Elia abençoava Elcana e sua mulher, dizendo: “O Eterno de filhos no lugar do menino que vocês dedicaram ao Eterno.

    ” Com isso, voltavam para casa. O Eterno foi muito bondoso para com Ana. Ela teve mais três filhos e duas filhas. O menino Samuel permaneceu no santuário e crescia diante do Eterno. Na época, Eli já era um homem idoso. Ele ficou sabendo que seus filhos tratavam malo e dormiam com as mulheres que ajudavam no santuário. O pai chamou a atenção deles.

    O que está acontecendo? Por que estão agindo desse modo? A toda hora ouço conversas sobre a maldade e o péssimo comportamento de vocês. Ah, meus filhos, isso não está certo. O povo do Eterno está dizendo coisas terríveis a respeito de vocês. Se vocês pecarem contra outra pessoa, ainda há esperança. Deus tem compaixão.

    Mas se estão pecando contra o Eterno, quem os defenderá? Mas eles estavam tão obsecados pela maldade que as palavras do Pai entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Diante disso, a paciência do Eterno se esgotou e ele decretou a morte daqueles rapazes.

    Mas o jovem Samuel era dedicado ao trabalho, abençoado pelo Eterno e estimado pelo povo. Um homem de Deus certa vez disse a Eli: “O Eterno diz: “Eu me revelei a seus antepassados quando eles eram escravos do faraó no Egito. De todas as tribos de Israel escolhi sua família para que vocês sejam meus sacerdotes para presidir o altar, queimar o incenso e vestir as roupas sacerdotais na minha presença.

    Encarreguei seus ancestrais de todas as ofertas de sacrifício em Israel. Por que vocês agora tratam as ofertas de sacrifício que ordenei para minha adoração? Como simples pilhagem? Por que você dá mais valor a seus filhos que a mim, permitindo que eles engordem com as ofertas, ignorando a minha vontade? Por isso, esta é a palavra do Eterno, o Deus de Israel.

    Ainda que eu tenha prometido a seus antepassados que vocês seriam meus sacerdotes para sempre. Agora, lembrem-se, palavra do eterno, não é possível continuar assim. Eu honro os que me honram, mas os que me desprezam serão humilhados. Saiba disto. Muito em breve, eliminarei sua família e sua descendência.

    Ninguém de sua família chegará à idade avançada. Você verá coisas boas acontecerem em Israel e ficará triste, porque ninguém de sua família viverá para desfrutá-las. Deixarei uma pessoa da família para continuar servindo no meu altar, mas a vida será sofrida com muitas lágrimas. O restante de sua família morrerá cedo.

    O que acontecer com seus filhos Rofini e Fineias será a prova disso. Ambos morrerão no mesmo dia. Então estabelecerei para mim um sacerdote de verdade. Ele fará o que eu desejo e será o que eu quero que ele seja. Eu o protegerei e ele cumprirá o seu dever livremente no serviço do meu ungido.

    Os que sobreviverem de sua família vão pedir esmolas a ele, dizendo: “Por favor, deixe-nos fazer algum trabalho de sacerdote para ao menos termos o que comer.” O menino Samuel servia o Eterno sob a orientação de Eli. Naquele tempo, raramente se via ou ouvia alguma revelação do Eterno. Certa noite, Eli já estava dormindo. Sua vista já estava fraca.

    Ele não enxergava direito. Bem antes do amanhecer, quando a lâmpada do santuário ainda estava acesa, Samuel dormia no santuário do Eterno, no qual estava a arca de Deus. Naquela noite, o Eterno o chamou. Samuel, Samuel. Samuel respondeu: “Pois não, estou aqui.” E foi até onde ele estava, dizendo: “Eu ouvi o senhor me chamar. Estou aqui.” Ele disse: “Não chamei você.

    Volte para a cama.” Samuel voltou. O Eterno o chamou novamente. Samuel. Samuel. Samuel levantou-se e foi de novo falar com ele. Eu ouvi o Senhor me chamar. Estou aqui. Outra vez ele disse: “Filho, não chamei você. Volte para a cama.” Isso aconteceu antes que Samuel conhecesse o Eterno. Foi antes de o Eterno se revelar a ele pessoalmente. O Eterno o chamou pela terceira vez.

    Samuel. Mais uma vez Samuel se levantou, foi até onde Eli estava e disse: “Pois não, ouvi o Senhor me chamar. Estou aqui. Então Eli percebeu que o Eterno estava chamando o menino. O sacerdote disse a Samuel: “Volte para a cama. Se você ouvir a voz outra vez, diga: “Fala a Deus. Teu servo pronto para ouvir”. Samuel voltou para a cama.

    O Eterno veio, ficou do lado dele como nas outras vezes, e o chamou. Samuel, Samuel. Ele respondeu: “Fala, Deus, teu servo está pronto para ouvir”. O Eterno disse a Samuel: “Preste atenção. Estou prestes a fazer algo em Israel que deixará o povo abalado. Chegou a hora de cumprir o que eu disse que faria a família de Eli. Ele ficará sabendo que o tempo chegou.

    A família dele está condenada. Ele sabe o que está acontecendo. Que seus filhos profanam o nome e o santuário de Deus. E ele nunca tomou providência. Minha sentença contra a família de Eli é esta: o pecado da família de Eli jamais será eliminado por algum sacrifício ou alguma oferta. Samuel ficou deitado até o amanhecer, levantou-se bem cedo e foi cumprir a sua obrigação, que era abrir as portas do santuário, mas não estava querendo contar a visão a Eli. Mais tarde, Eli chamou Samuel.

    Samuel, meu filho. Samuel veio depressa. Pois não. Em que posso ajudar? O que o Eterno disse a você? Conte-me tudo. Não esconda nada. Não amenize nem mesmo uma palavra. Deus é seu juiz. Quero saber tudo que ele disse a você. Samuel contou tudo a Eli. Não escondeu nada. Eli disse: “É o eterno que ele faça o que achar melhor”. Samuel crescia.

    O Eterno estava com ele e a reputação profética de Samuel era impecável. Todos em Israel, de Danã ao norte até Berseba ao sul, reconheciam que Samuel era íntegro, um verdadeiro profeta do Eterno. O Eterno continuou aparecendo em Siló. Ele se revelava por meio de sua palavra a Samuel. Tudo que Samuel dizia era anunciado por todo Israel.

    Um dia, Israel saiu à guerra contra os filisteus. Os israelitas armaram acampamento em Ebenzer e os filisteus em Af. Os filisteus marcharam contra Israel. A luta se intensificou e Israel sofreu uma amarga derrota. Cerca de 4000 homens caíram mortos no campo de batalha. Quando as tropas retornaram ao acampamento, os líderes de Israel disseram: “Por que o Eterno permitiu que os filisteus nos derrotassem? Vamos trazer a arca da aliança do Eterno que está em Siló.

    Ela vai nos acompanhar e nos livrar da opressão de nossos inimigos. O exército mandou emissários a Siló, e eles trouxeram a arca da aliança do Senhor dos Exércitos de Anjos, que está entronizado entre os querubins. Os filhos de Eli, Rofini e Fineias, acompanharam a arca. Quando a arca da aliança do Eterno chegou ao acampamento, todos vibraram de alegria.

    Os gritos pareciam um trovão e o chão tremia. Ouvindo os gritos, os filisteus tentavam adivinhar o que estava acontecendo e se perguntavam: “Que gritaria essa entre os hebreus?” Mais tarde, eles descobriram que a arca do Eterno tinha chegado ao acampamento dos hebreus e entraram em pânico. Os deuses deles chegaram ao acampamento. Nunca aconteceu algo assim conosco.

    Estamos perdidos. Quem nos livrará das garras desses deuses poderosos? São os mesmos deuses que feriram os egípcios com tudo que era praga no deserto. Levantem-se, filisteus, coragem. Corremos o risco de nos tornar escravos dos hebreus, assim como eles foram nossos escravos. Mostrem sua força, lutem pela sua vida.

    Eles lutaram como nunca e puseram Israel para correr. Massacraram os israelitas sem dó nem piedade. Os soldados sobreviventes fugiram, deixando atrás de si 30.000 mortos. Como se não bastasse, a arca de Deus foi levada. Os dois filhos de Eli, Rofini e Fineias, foram mortos nessa batalha. Um benjamita que tinha saído da linha de combate correu para Siló.

    Quando chegou à cidade tinha a camisa rasgada e o rosto sujo. Eli estava sentado na sua cadeira perto do caminho, aguardando notícias, pois estava muito preocupado com a arca de Deus. Quando o rapaz entrou na cidade para dar a notícia, o povo, chocado com a notícia começou a chorar. Eli ouviu o choro e perguntou: “O que está acontecendo?” O mensageiro contou a notícia ao sacerdote.

    Ele tinha 98 anos de idade e estava cego. O rapaz disse a Eli: “Acabei de voltar da linha de combate, quase perdi a vida.” Ele perguntou: “O que aconteceu, meu filho?” O mensageiro respondeu: “Israel fugiu dos filisteus. Foi uma derrota catastrófica com muitas baixas. Seus filhos, Rofinif, Neéas morreram e a arca de Deus foi levada.

    Quando Eli ouviu que a arca de Deus tinha sido capturada, caiu da cadeira para trás, perto da porta onde estava sentado. Ele era velho e gordo, e quando caiu, quebrou o pescoço e morreu. Ele tinha servido Israel durante 40 anos. Sua nora esposa de Fineéias, estava grávida e faltava pouco tempo para dar a luz.

    Quando ouviu que a arca de Deus tinha sido levada e que seu sogro e seu marido estavam mortos, ela entrou em trabalho de parto. Ela estava morrendo e a parteira disse: “Fique tranquila, você teve um menino”. Mas ela não respondeu. A arca de Deus foi levada. O sogro estava morto, o marido também. Então ela deu ao filho nome de Icabote.

    Foi-se à glória, dizendo: “Israel perdeu a glória, já que a arca de Deus foi capturada. Depois que os filisteus tomaram a arca de Deus, eles a levaram de Ebenzer para Asdod e a depositaram no santuário deles, perto do ídolo de Dagon. Na manhã seguinte, quando os moradores de Asdod se levantaram, ficaram chocados ao encontrar Tagom tombado no chão diante da arca do Eterno. Eles o levantaram e o puseram de volta no lugar.

    Na manhã seguinte, lá estava ele de novo, prostrado diante da arca do Eterno. Dessa vez, a cabeça e os braços do ídolo estavam quebrados, espalhados pela soleira. Só o tronco ficou inteiro. Por isso, os sacerdotes de Dagon e os que trazem oferendas ao santuário de Dagon em Asdod, até hoje evitam pisar na soleira.

    O Eterno castigou com severidade o povo de Asdod, provocando tumores na população. Isso aconteceu na cidade e nos arredores. Ele permitiu que os ratos proliferassem ali. Os roedores saíram dos navios e tomaram conta da cidade. Os moradores ficaram aterrorizados. Quando viram o que estava acontecendo, os líderes de Asdod concluíram: “A arca do Deus de Israel precisa ser levada embora.

    Nem nós, nem nosso Deus Dagon, podemos suportar mais esta situação.” Eles convocaram todos os líderes filisteus e os consultaram. “Como vamos fazer para nos livrar da arca do Deus de Israel?” Os líderes decidiram: “Mandem a arca para Gatti! Assim, a arca do Deus de Israel foi enviada para aquela cidade. Mas assim que a arca chegou a Gate, o Eterno também castigou aquela cidade severamente. O pânico era geral.

    Os cidadãos contraíram tumores que infectaram toda a população da cidade, jovens e velhos. Por isso, decidiram enviar a arca de Deus para Ecron. Mas antes dela entrar na cidade, o povo gritou em protesto: “Vocês vão nos matar trazendo a arca do Deus de Israel para cá”.

    O povo foi procurar os líderes dos filisteus e exigiu: “Tirem a arca do Deus de Israel daqui, que ela volte para o seu lugar, porque estamos ameaçados de extinção.” Estavam todos apavorados, porque Deus já os estava castigando enquanto a arca ainda se aproximava. Quem não morria era atingido por tumores. Por toda a cidade as pessoas gritavam de dor e havia gente chorando em todo lugar.

    A arca do Eterno estava entre os filisteus havia 7 meses. E os líderes do povo foram consultar as autoridades religiosas, os sacerdotes e os especialistas em fenômenos sobrenaturais e perguntaram: “Como vamos nos livrar da arca do Eterno? Como nos livraremos sem que aconteça o pior? Precisamos saber.

    ” Eles responderam: “Se vocês quiserem devolver a arca do Deus de Israel, não a devolvam simplesmente sem oferecer nada. Será preciso uma compensação. Assim vocês serão curados, pois Deus aliviará o castigo.” E o que exatamente seria uma boa compensação? Eles responderam: “Cinco tumores de ouro e cinco ratos de ouro, de acordo com o número de líderes filisteus, já que todos vocês, os líderes e o povo, foram atingidos pela mesma praga.

    Façam imitações dos tumores e dos ratos que devastam a nação e apresentem esses itens como oferta para a glória do Deus de Israel. Assim, talvez ele deixe de castigar vocês, os seus deuses e a sua nação. Não sejam obstinados como os egípcios e o faraó. Deus os feriu até que deixassem os hebreus sair. Só assim ele os deixou em paz.

    Portanto, façam o seguinte. Tomem uma carroça nova e duas vacas que nunca puxaram carroça. Amarrem os animais à carroça e prendam suas crias no corral. Ponham a arca do Eterno sobre a carroça. Num saco ao lado da arca. Ponham as imitações de ouro dos tumores e dos ratos que vocês estão oferecendo como compensação. Depois, deixem as vacas por conta própria e fiquem observando.

    Se elas seguirem direto para a Terra de onde vieram, na direção de Betsemes, está claro que essa catástrofe veio por juízo divino. Caso contrário, saberemos que não foi castigo de Deus, mas foi algo acidental. Eles seguiram as instruções, amarraram duas vacas a uma carroça, puseram as crias no curral e acomodaram a arca do Eterno e o saco com os ratos e os tumores de ouro sobre a carroça.

    As vacas seguiram direto pela estrada de Betes. Não se desviaram nem para a direita, nem para a esquerda. Os líderes dos filisteus as seguiram de perto até Betsemes. Os moradores de Betsemes estavam colhendo trigo no vale. De repente, eles avistaram a arca. Eufóricos correram ao encontro dela.

    A carroça entrou no campo de Josué, morador de Betemes, e ali estacionou perto de uma grande rocha. Os seifeiros desmancharam a carroça, transformando-a em lenha, e sacrificaram as vacas como oferta queimada ao Eterno. Os levitas puseram a arca do Eterno e o saco com as ofertas de ouro sobre a grande rocha. Naquele dia, os moradores de Betsemes, muito animados, ofereceram sacrifícios e adoraram ao Eterno.

    Os líderes filisteus observaram toda aquela movimentação e depois retornaram para Ecron. As cinco imitações de ouro dos tumores foram oferecidas pelos filisteus em compensação pelas cidades de Asdod, Gaza, Ascalon, Gate e Ecron. Pois cinco ratos de ouro correspondiam ao número das cidades dos filisteus, pequenas e grandes, governadas pelos cinco líderes.

    A grande pedra sobre a qual foi posta a arca do Eterno continua até hoje no campo de Josué em Betemes. O Eterno feriu alguns homens de Betsemes que, por curiosidade e irreverência espiaram dentro da arca do Eterno. 70 homens morreram e toda a cidade ficou de luto, chocada com o rigor do Eterno. E questionava: “Quem pode permanecer na presença do Eterno? Esse Deus santo? Quem vai se responsabilizar pela arca?” Eles mandaram mensageiros a Kiriat Jearim, dizendo: “Os filisteus devolveram a arca do Eterno. Venham buscá-la.

    Os homens de Kiriat Jearim foram buscar a arca do Eterno e a deixaram na casa de Abinadab, que ficava na colina. Designaram seu filho Elezar, responsável pela arca do Eterno. Passou-se muito tempo desde que a arca foi levada para Kiriat Jearim, nada menos do que 20 anos.

    Em todo Israel havia respeito absoluto pelo eterno. Um dia, Samuel propôs ao povo de Israel: “Se vocês quiserem mesmo voltar para o Eterno, livrem-se dos deuses estranhos e das deusas da fertilidade. Depositem a sua confiança no Eterno. Sirvam apenas a ele e ele livrará vocês da opressão dos filisteus”. Eles obedeceram.

    Destruíram os deuses e as deusas, as imagens de Baal e Astarote e passaram a se dedicar exclusivamente ao serviço do Eterno. Em seguida, Samuel disse: “Reú não todos em Mispá, para que eu interceda pelo povo”. Todos os israelitas se reuniram em Mispá. Eles tiraram água do poço e a derramaram perante o eterno como ritual de purificação. Depois de jejuar o dia todo, confessaram: “Pecamos contra o Eterno”.

    Assim, Samuel preparou os israelitas para a guerra santa ali em Nispá. Quando os filisteus souberam que os israelitas estavam reunidos em Lispa, os líderes dos filisteus partiram para a ofensiva. Israel foi informado da mobilização deles e teve medo. Os filisteus os estavam ameaçando outra vez. O povo suplicou a Samuel: “Ore com toda intensidade e não pare de orar.

    Interceda ao Eterno, o nosso Deus, para que ele nos livre dos filisteus. Samuel ofereceu um cordeiro que ainda não tinha sido desmamado como oferta queimada ao Eterno. Ele intercedeu por Israel e o Eterno respondeu. Enquanto Samuel oferecia o sacrifício, os filisteus se aproximavam, dispostos a atacar Israel. Naquele momento, o Eterno trovejou sobre os filisteus. E eles entraram em pânico.

    A confusão foi total. Todos correram de Israel, cada um para um canto. Israel de Mispá disparou na perseguição a eles, matando os filisteus em toda parte, até as proximidades de Betcar. Samuel assentou uma pedra entre Mispa e Semen e deu a ela o nome de Ebenzer, rocha da ajuda, dizendo: “Neste lugar, o Eterno nos ajudou”.

    Os filisteus aprenderam a lição e ficaram quietos em seu lugar. Não atravessaram mais a fronteira. O Eterno foi severo com os filisteus durante toda a vida de Samuel. Todas as cidades que os filisteus tinham tomado de Israel, de Ecron Agarte, foram recuperadas. Israel também livrou os territórios ao redor delas do domínio dos filisteus.

    E houve paz entre Israel e os amorreus. Samuel liderou Israel com firmeza durante toda a sua vida. Todos os anos ele percorria as cidades de Betel, Gilgal e Nispar. Em cada lugar julgava as causas do povo, mas sempre retornava a Ramá, onde residia. Sua base de governo estava ali. Nessa cidade, ele erigiu um altar ao Eterno.

    Quando Samuel envelheceu, ele nomeou seus filhos líderes de Israel. Seu filho mais velho chamava-se Joel. e o outro, Abias. Eles foram designados para Berceba, mas eles não seguiram os passos do Pai. Procuravam os próprios interesses, recebiam suborno e corrompiam a justiça. Os chefes de Israel se reuniram e foram reclamar com Samuel em Ramá.

    Você já está idoso e seus filhos não agem com a mesma integridade. Queremos que faça o seguinte. No meio um rei para nos governar, como é normal entre os outros povos. Quando eles pediram um rei para governá-los, Samuel ficou abalado e orou ao Eterno. O Eterno respondeu: “Vá em frente, faça o que eles pedem.

    Eles não estão rejeitando você. O que não querem é que eu seja o rei deles, desde que os tirei da terra do Egito até agora, eles agem assim o tempo todo me abandonando para servir outros deuses. Agora estão fazendo isso com você. Por isso, deixe que recebam o que estão pedindo, mas faça que entendam as consequências desse pedido.

    Mostre como um rei trabalha e como ele vai tratá-los. Samuel explicou com clareza as implicações de se ter um rei, como ordenou o eterno. Vou dizer como agirá o rei que vocês estão querendo. Ele recrutará seus filhos para seu exército, para os carros de guerra, para cavalaria e infantaria, e os arregimentará em batalhões e esquadrões. Alguns serão submetidos a trabalhos forçados nas terras dele, outros designados para fabricar armas e equipamentos para os carros.

    Ele convocará suas filhas para trabalhar como estilistas, copeiras e cozinheiras. Ele confiscará as melhores lavouras, vinhas e pomares de vocês para entregá-las a seus protegidos. Ele cobrará impostos da produção das lavouras e vinhas de vocês para manter a máquina governamental. O melhor da mão de obra e dos animais de vocês, ele usará para benefício próprio e cobrará impostos sobre os rebanhos.

    Vocês não serão muito diferentes dos escravos. Um dia vocês vão chorar de desespero por causa desse rei que tanto desejam agora. Mas não pensem que o eterno ouvirá vocês. Mas o povo não deu atenção a Samuel. Eles insistiam. Não estamos preocupados com isso. Queremos um rei para nos governar. Queremos ser como os outros povos.

    Nosso rei governará sobre nós, será o nosso líder e comandará nossas tropas na guerra. Samuel ouviu a resposta deles e relatou tudo ao Eterno. O Eterno disse a Samuel: “Faça o que eles pedirem. Nomei um rei sobre eles.” Então Samuel despediu os homens de Israel, dizendo: “Voltem cada um para sua casa. Havia um homem da tribo de Benjamim chamado Kis.

    Ele era filho de Abiel, neto de Zeror, bisneto de Becorate e trineto de Afia. Era um senhor de ótima reputação. Ele tinha um filho chamado Saul, um jovem belo e vistoso como nenhum outro que se destacava na multidão por causa da sua altura. Certo dia, alguns jumentos de Kis escaparam. Kis disse a seu filho: “Saul, vá procurar os jumentos.

    Leve um dos ajudantes. Saul chamou um dos ajudantes e saiu à procura dos animais. Chegaram às montanhas de Efraim, perto de Saliza, mas não os encontraram. Prosseguiram até Saalim, mas também não tiveram sorte. Depois para Jabim e nada. Quando chegaram a Zuf, Saul disse ao seu ajudante: “Chega, vamos voltar. Logo meu pai vai se esquecer dos jumentos.

    Vai ficar preocupado é com a nossa demora. O ajudante sugeriu: “Não vamos nos precipitar. Naquela cidade ali, há um homem de Deus. Ele é muito respeitado aqui, pois o que ele prevê sempre dá certo. Talvez ele possa nos dizer onde estão os jumentos.” Saul o retrucou.

    Mas para consultá-lo não é preciso dar alguma coisa para ele? Não temos mais nem alimento na sacola. Não há nada que possamos oferecer ao homem de Deus. Ou ainda temos. O ajudante disse: “Veja, tenho esta moeda de prata. Vou dar este dinheiro para o homem de Deus e ele nos dirá o que fazer”. Naquele tempo, em Israel, quando alguém queria consultar Deus sobre alguma questão, dizia: “Vamos consultar o vidente, porque aquele que hoje chamamos profeta era chamado vidente”.

    Saul respondeu: “Ótimo, então vamos.” Eles rumaram para a cidade na qual vivia o homem de Deus. Quando subiam ao monte para entrar na cidade, encontraram algumas moças que voltavam do poço e perguntaram: “É aqui que está o vidente?” Elas responderam: “É, sim. Sigam em frente, mas andem depressa. Ele veio hoje porque o povo preparou um sacrifício no altar.

    Se entrarem logo na cidade, poderão alcançá-lo antes que ele suba para o altar para comer. O povo não come até que ele chegue, pois ele precisa abençoar o sacrifício. Só então todos comem. Vão depressa, vocês vão encontrá-lo com certeza.” Eles continuaram subindo até chegarem à cidade. E ali estava ele, Samuel. Ele vinha na direção deles a caminho do altar.

    Um dia antes, o Eterno tinha revelado a Samuel: “Amanhã, a esta hora, enviarei um homem da terra de Benjamim ao seu encontro. Você deve ungi-lo, príncipe sobre o povo de Israel. Ele livrará o meu povo da opressão dos filisteus. Conheço bem as dificuldades do povo e ouvi o clamor do povo. No instante em que Samuel avistou Saul, o Eterno disse ao profeta: “Esse é o homem de que falei. Ele governará o meu povo.

    ” Saul interpelou Samuel no meio da rua e perguntou: “Por favor, o senhor pode me informar onde mora o vidente?” Samuel respondeu: “Sou eu, o vidente, acompanhe-me até o altar e coma comigo. Amanhã cedo eu direi tudo que você precisa saber e você poderá ir embora.” Por falar nisso, os jumentos perdidos que você procura há três dias foram encontrados. Por isso, não se preocupe com eles.

    Neste momento, o futuro de Israel está em suas mãos. Saul respondeu: “Não passo de um benjamita, a menor tribo de Israel, do clã mais insignificante da tribo. Por que o Senhor fala comigo dessa maneira?” Samuel conduziu Saul e seu ajudante até o lugar da refeição no altar e os fez assentar em lugar de honra a mesa.

    Havia cerca de 30 convidados e Samuel disse ao cozinheiro: “Traga-me o melhor pedaço de carne, aquele que pedi para você reservar”. O cozinheiro trouxe a carne num prato decorado e a deixou diante de Saul, dizendo: “Esta porção foi separada para você. Pode comer. Foi especialmente preparada para esta ocasião e para estes convidados. Saul comeu com Samuel.

    Foi um dia memorável. Depois desceram do altar para a cidade. Havia uma cama preparada para Saul no terraço arejado da casa em que Samuel estava. Eles acordaram logo ao clarear do dia. Samuel chamou Saul no terraço. Levante-se, é hora de ir. Saul levantou-se e os dois saíram para a rua.

    Quando se aproximaram da saída da cidade, Samuel disse a Saul: “Diga ao seu ajudante que siga diante de nós. Fique comigo um pouco. Tem uma mensagem de Deus para você.” Samuel tomou um frasco de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul e o beijou. Samuel perguntou: “Você sabe o que significa isto? O Eterno está ungindo você, príncipe, sobre todo o seu povo. Este sinal confirmará que o Eterno está ungindo você, príncipe sobre a sua herança.

    Depois que você partir daqui, quando se aproximar da sua terra, Benjamim, você encontrará dois homens perto do túmulo de Raquel. Eles dirão: “Os jumentos que você estava procurando foram encontrados. Seu pai já se esqueceu dos jumentos e agora está morrendo de preocupação por você. Seguindo adiante, você chegará ao Carvalho de Tabor. Lá encontrará três homens que estão subindo para adorar a Deus em Betel.

    Um deles estará carregando três cabritos, o outro três sacolas de pão e o terceiro uma garrafa de vinho. Eles dirão: “Olá, como vai?” E oferecerão dois pães que você deve aceitar. Depois você chegará a Gibeá, onde existe uma guarnição militar dos filisteus. Ao se aproximar da cidade, você encontrará um grupo de profetas que estarão descendo do santuário, tocando arpas, tamborins, flautas e tambores. Eles estarão profetizando.

    Quando menos esperar, o espírito do eterno virá sobre você e você profetizará com eles. Você será transformado, você será renovado. Quando se cumprirem esses sinais, você saberá que está pronto. Faça o que mandarem fazer. Deus estará com você. Agora desça para Gilgal e seguirei você mais tarde.

    Também vou para lá e me encontrarei com você para oferecer ofertas queimadas e sacrifícios de paz. Aguarde sete dias até eu chegar. Então direi a você o que fazer. Saul seguiu o caminho e deixou Samuel. Naquele momento, Deus transformou Saul, fez dele uma nova pessoa. Todos aqueles sinais se confirmaram no mesmo dia. Quando eles chegaram a Gibeá, os profetas apareceram bem na frente deles.

    Quando menos esperavam, o espírito do Eterno veio sobre Saul e ele começou a profetizar com eles. Quando os conhecidos de Saul o viram no meio dos profetas, ficaram surpresos e diziam: “O que está acontecendo? O que aconteceu com o filho de Kiss? Como foi que Saul se tornou profeta?” Um homem perguntou: “Quem começou isto? De onde veio esse grupo?” Foi assim que ficou o famoso ditado.

    Quem diria Saul entre os profetas? Depois que terminou de profetizar, Saul voltou para casa. Seu tio perguntou a ele e a seu ajudante: “Onde vocês estiveram todo esse tempo?” Eles responderam: “Estávamos procurando jumentos. Procuramos por toda parte, não encontramos. Por isso, consultamos Samuel.” O tio de Saul perguntou: “O que Samuel disse a vocês?” Saul respondeu.

    Ele disse para não nos preocuparmos, pois os jumentos já tinham sido encontrados. Mas Saul não mencionou nada ao seu tio sobre o que Samuel tinha dito sobre o reinado. Samuel convocou o povo que se reuniu diante do Eterno em Mispá. Ele declarou ao povo de Israel: “Esta é a mensagem do Eterno para vocês.

    Eu tirei Israel da terra do Egito, livrei-o da opressão dos egípcios, de todas as ameaças do governo que tinham tornado a vida de vocês insuportável. Mas agora vocês não querem mais saber de Deus, o mesmo Deus que livrou vocês de todo tipo de problema. Agora vocês dizem: “Não, queremos um rei dá-nos um rei”.

    Pois bem, se é o que vocês querem, é isso que receberão. Apresentem-se perante o Eterno, de acordo com as suas tribos e famílias. Depois que todas as tribos de Israel estavam em seu lugar, foi escolhida a tribo de Benjamim. Depois, Samuel organizou a tribo de Benjamim por grupos de famílias e a família de Matri foi escolhida.

    A família de Matri se organizou e do meio dela foi escolhido Saul, filho de Kis. Mas quando o procuraram, ninguém soube dizer onde ele estava. Samuel voltou ao Eterno e perguntou: “Onde ele está?” O Eterno respondeu: “Ele está bem ali escondido no meio da bagagem. Eles correram e o encontraram ali. Ele foi levado para o meio do povo, destacando-se entre os demais, como sempre, porque os ombros e a cabeça ficavam acima de todos os outros.

    ” Samuel dirigiu-se ao povo, dizendo: “Olhem bem para este homem a quem o Eterno escolheu. Não há outro como ele entre todo o povo.” Todo o povo exclamou em alta voz: “Viva o rei!” Samuel prosseguiu instruindo o povo sobre as regras e regulamentações pertinentes ao reino e registrou tudo num livro que foi posto perante o Eterno. Em seguida, Samuel mandou o povo de volta para casa.

    Saul também retornou para Gibeá, acompanhado de alguns homens corajosos que Deus inspirou a segui-lo. Alguns vadios saíram resmungando. Esse daí um libertador? Vocês devem estar brincando. Eles o desprezavam, por isso não deram honras a Saul. Mas Saul não deu bola para eles. Naas, rei dos amonitas, estava oprimindo as tribos de Gad e Ruben, arrancando o olho direito dos moradores e ameaçando todos os que tentavam ajudar Israel.

    Foram poucos os israelitas que viviam a leste do rio Jordão, que não tiveram os olhos arrancados por Naás. Mas 7000 homens escaparam dos amonitas e viviam seguros em Javes. Naas resolveu atacar Javi. Os homens de Jabes imploraram a Na. Façam acordo conosco e seremos seus súditos. Naas respondeu: “Faço o acordo com a seguinte condição: Se eu furar o olho direito de todos vocês, todo homem e toda mulher de Israel terá de passar por essa humilhação.” Os líderes de Javam: “Dê-nos um prazo de sete dias para que

    consultemos o povo de Israel. Se ninguém vier nos livrar dentro desse prazo, aceitaremos o acordo. Os mensageiros chegaram ao lugar em que Saul residia em Gibeá, e contaram à população o que estava acontecendo. O povo chorava desesperado. Quando Saul chegou, ele voltava do campo com seus bois.

    Saul perguntou: “O que aconteceu? Por que estão chorando?” Eles repetiram as palavras do povo de Japes. Assim que Saul ouviu a mensagem, o espírito de Deus veio sobre ele. Indignado, Saul cortou em pedaços sua junta de bois ali mesmo. Em seguida, enviou mensageiros a todo Israel, cada um com uma parte dos bois, com a seguinte mensagem: “Isto é o que acontecerá com o boi de quem se recusar a acompanhar Saul e Samuel. O temor do Eterno tomou conta do povo e todos se uniram a Saul.

    Ele assumiu o comando do povo em Bezeque. 300.000 homens de Israel e mais 30.000 de Judá. Saú deu ordem aos mensageiros. Digam ao povo de Javes, Gileade. Vocês receberão ajuda. Aguardem até o meio-dia de amanhã. Os mensageiros saíram correndo para entregar a mensagem. O povo de Jabes ficou muito contente e mandou dizer a Na: “Amanhã nos entregaremos e você poderá fazer conosco o que desejar”.

    No dia seguinte, ainda de madrugada, Saul dividiu o seu exército em três grupos. Ao clarear do dia, eles atacaram o acampamento inimigo e massacraram os amonitas até o meio-dia. Os sobreviventes fugiram, espalhando-se por toda parte. Depois da batalha, o povo perguntou a Samuel: “Onde estão aqueles que disseram que Saul não poderia nos governar? Entregue-os e os mataremos.

    ” Mas Saul disse: “Ninguém será executado hoje, porque o Eterno libertou Israel neste dia. Vamos a Gilgal e lá consagraremos o reinado outra vez.” E todos foram a Gilgal. Diante do Eterno, coroaram Saul, rei em Gilgal. Ali adoraram e apresentaram sacrifícios de ofertas de paz. Saul e todo o povo festejaram.

    Samuel dirigiu-se a todo o povo de Israel, dizendo: “Atendia tudo que me pediram, ouvi atentamente tudo que me disseram e concedi um rei a vocês. Agora vejam vocês mesmos. O seu rei está liderando vocês. Mas prestem atenção, estou velho e de cabelos brancos. E meus descendentes estão no meio de vocês.

    Fui um líder fiel desde a juventude até hoje. Olhem para mim. Vocês têm alguma queixa para apresentar perante o eterno e seu ungido? Alguma vez tirei vantagem de alguém ou explorei vocês? Alguma vez recebi dinheiro para burlar a lei? Apresentem sua queixa e eu os compensarei por tudo. Eles responderam: “De forma alguma. Você nunca fez nada disso.

    Você nunca se aproveitou de ninguém e nunca tomou dinheiro de nós.” Samuel disse: “Então está resolvido. O Eterno é testemunha e o seu ungido também de que vocês não têm nada contra mim. Nenhuma falta e nenhuma queixa. O povo respondeu: “Ele é testemunha”. Samuel continuou: “Esse é o eterno que designou Moisés e Arão, líderes de vocês, e que tirou seus antepassados do Egito.

    Agora permaneçam aqui para que eu apresente a causa de vocês diante do Eterno, à luz de todos os atos de justiça realizados diante de vocês e dos seus antepassados.” Quando os filhos de Jacó entraram no Egito, os egípcios os oprimiram e eles pediram socorro ao Eterno. O Eterno enviou Moisés e Arão, que tiraram seus ancestrais do Egito, e os trouxeram para cá.

    Mas não demorou e eles se esqueceram do Eterno. Por isso, ele os entregou a Cízera, comandante do exército de Razor. Depois os entregou à opressão dos filisteus e então ao rei de Moabe. Eles tiveram de lutar para salvar a pele. Por fim, pediram socorro ao Eterno e confessaram: “Pecamos, abandonamos o Eterno para adorar os deuses da fertilidade e as deusas de Canaã.

    Oh, livra-nos da crueldade dos nossos inimigos e serviremos apenas a ti.” Foi quando o Eterno enviou Jerubaal, Gideão, Bedã, Baraque, Jefité e Samuel. Ele os livrou da opressão dos inimigos ao redor e vocês puderam viver em paz. Mas quando viram Naás, rei dos amonitas, preparando-se para atacar, vocês me disseram: “Estamos cansados disso.

    Queremos um rei, embora vocês já tivessem o Eterno como rei. Portanto, aqui está o rei a quem vocês escolheram, aquele que vocês pediram. O Eterno atendeu ao desejo de vocês e concedeu um rei a Israel. Se vocês temerem, servirem e obedecerem ao Eterno, sem se rebelar contra o que ele disser. Se vocês e o rei a quem escolheram seguirem o Eterno, vocês viverão bem. O Eterno protegerá vocês.

    Mas se não obedecerem a ele e se rebelarem contra o que ele disser, a situação de vocês será pior que a dos seus antepassados. Prestem atenção. Vejam o milagre que o Eterno fará diante de vocês. Estamos no verão, como vocês sabem, e o tempo das chuvas acabou. Mas vou orar ao Eterno, e ele vai mandar trovões e chuva como sinal para convencê-los do grande erro que cometeram contra Deus quando pediram um rei.

    Assim, Samuel clamou ao Eterno e Deus enviou trovões e chuva naquele mesmo dia. O povo ficou com muito medo do Eterno e de Samuel. Então todo o povo implorou a Samuel: “Enterceda ao Eterno por nós, os seus servos. Supramos. Além de todos os nossos pecados, acrescentamos o de pedir um rei.” Samuel os tranquilizou. Não temam.

    De fato, vocês fizeram algo muito errado, mas não deem as costas ao Eterno. Adorem a ele com todo o seu coração e com toda a sua força. Não sigam esses deuses de mentira. Eles não servem para nada. São arremedos de divindades. Nunca vão ajudar vocês. Já o Eterno, sendo quem ele é, não vai abandonar seu povo. O Eterno terá prazer em tê-los como seu povo. Eu também não vou abandonar vocês, porque estaria pecando contra o Eterno.

    Continuarei aqui em meu lugar, intercedendo por vocês e ensinando a maneira de viver que agrada a Deus. Peço apenas que temam o Eterno e que o sirvam com honestidade de todo coração. Todos sabem quanto ele tem feito por vocês, mas tomem cuidado. Se continuarem agindo mal, vocês e seu rei serão rejeitados.

    Saul era jovem quando se tornou rei e reinou muitos anos sobre Israel. Ele recrutou 3000 homens, mantendo 2000 sobm e nas montanhas de Betel. Os outros ficaram sob o comando de Jonatas em Gibeade de Benjamim. O restante foi mandado de volta para casa. Jonatas atacou e matou o comandante dos filisteus em Gibeá.

    Quando os filisteus souberam disso, mandaram dizer: “Os hebreus estão se rebelando”. Saul mandou tocar as trombetas no território inteiro e a notícia correu por todo Israel. Saul matou o comandante filisteu. Os filisteus estão agitados e furiosos. O exército foi convocado e se apresentou a Saul em Gilgal.

    Os filisteus juntaram forças para atacar Israel. 3000 carros de guerra, 6000 cavaleiros e tantos soldados de infantaria que pareciam areia na praia. Eles subiram aos montes e acamparam em Migmas, a leste de Betven. Quando os israelitas perceberam que estavam em desvantagem, correram para se esconder em cavernas, buracos, pinhascos, poços e cisternas.

    Alguns atravessaram o rio Jordão para se refugiar em Gade e em Gileade. Mas Saul manteve sua posição em Gilgal. Os soldados continuavam com ele, apesar de estarem morrendo de medo. Ele aguardou sete dias conforme o combinado, mas Samuel não chegava e os soldados começaram a desertar, indo para todo canto. Por fim, Saul deu esta ordem: “Tragam-me a oferta queimada e as ofertas de paz.

    ” Ele sacrificou a oferta queimada. Assim que acabou de sacrificar, Samuel chegou. Saul foi cumprimentá-lo. Samuel perguntou: “O que você está fazendo?” Saul respondeu: “Quando vi que estava perdendo meu exército e que você não chegava conforme o combinado e que os filisteus estavam reunidos em Mikmas”, pensei: “Os filisteus estão prontos para me atacar em Gilgal, mas ainda não busquei a ajuda do Eterno.

    Por isso, tomei a iniciativa e sacrifiquei a oferta queimada.” Samuel disse a Saul: “Você cometeu um grande erro. Se tivesse obedecido a ordem do Eterno seu Deus, ele teria confirmado hoje o seu reinado sobre Israel. Mas agora o seu reinado está desmoronando. O Eterno já está procurando um substituto para você. Desta vez é ele que fará a escolha.

    Quando ele o encontrar, vai designá-lo o novo líder do seu povo. Tudo porque você não se atve ao que foi combinado com o Eterno. Depois disso, Samuel deixou o Gilgal e foi para Gibeá de Benjamim. Saul contou os soldados que ficaram com ele. Havia apenas 600 homens. Saul, seu filho Jonatas e os soldados que restaram acamparam em Gibeade e Benjamim. Os filisteus estavam acampados em Mikmas.

    Três pelotões de ataque partiram do acampamento dos filisteus. O primeiro foi para Ofra, na estrada para a região de Sua. O segundo foi designado para a estrada de Bethoron. O terceiro foi para a fronteira do vale de Zeboim, na direção do deserto. Em Israel não havia nenhum ferreiro, pois os filisteus haviam proibido os hebreus de fabricar espadas e lanças.

    Por isso, os israelitas tinham de descer ao território dos filisteus para afiar suas ferramentas: arados, enchadas, machados e foic. Eles cobravam 8 g de prata para fiar os arados e as enchadas. e 4 gr para as demais ferramentas. Assim, quando começou a guerra de Mikm, não havia em Israel nenhuma espada ou lança, exceto a de Saul e a de Jonatas.

    Estes dois estavam bem armados. Um pelotão dos filisteus posicionou-se na encosta de Mikmas. Certo dia, Jonatas disse a seu escudeiro: “Vamos até a guarnição dos filisteus, do outro lado da encosta”. Mas ele não contou o plano a seu pai. Enquanto isso, Saul continuava acampado debaixo de uma romanzeira, na fronteira de Gibeá, em Migron. Havia cerca de 600 homens com ele.

    Entre eles estava Aas, que carregava o colete sacerdotal. Ele era filho de Aitub, irmão de Icabod, filho de Fineéias, neto de Eli, sacerdote do Eterno em Sil. Ninguém sabia que Jonatas tinha se ausentado. A encosta que Jonatas precisava atravessar para chegar à guarnição dos filisteus tinha um penhasco íngreme dos dois lados. Um se chamava Bosés e o outro Sené.

    O penhasco ao norte ficava na direção de Mikmass e o penhasco ao sul na direção de Gibear. Jonatas disse ao seu escudeiro: “Vamos até a guarnição desses incircuncisos. Talvez o Eterno nos favoreça. O Eterno não depende de um grande exército para nos livrar. Quando o Eterno resolve salvar, ninguém tem poder para impedi-lo.

    ” O escudeiro disse: “Vamos em frente, faça o que achar melhor. Estou com você”. Jonatas disse: “Faremos o seguinte, atravessaremos a encosta e deixaremos que eles nos vejam. Se disserem: “Parem, não se mexam até que revistemos vocês”. Ficaremos parados ali, não subiremos.

    Mas se disserem: “Venham para cá, subiremos, porque significa que o Eterno os entregou em nossas mãos. Esse será o sinal para nós.” Foi isso que os dois fizeram. foram para um lugar no qual podiam ser vistos pela guarnição dos filisteus. Os filisteus gritaram: “Vejam lá, os hebreus estão saindo dos esconderijos!” Eles gritaram para Jonatas e seu escudeiro. Subam para cá.

    Queremos mostrar uma coisa a vocês. Jonatas gritou para o escudeiro. Vamos, siga-me. O Eterno os entregou nas mãos de Israel. Jonatas subia engatinhando e seu escudeiro vinha logo atrás. Quando os filisteus se aproximavam deles, Jonatas os derrubava e o escudeiro logo atrás os matava, esmagando a cabeça deles com pedras. Nesse primeiro confronto, Jonatas e seu escudeiro mataram cerca de 20 homens.

    Isso provocou o tumulto no acampamento e no campo de batalha, tanto entre os soldados do destacamento quanto entre as tropas de ataque. O alvoroço foi grande como nunca visto antes. As sentinelas de Saul em Gibead de Benjamim perceberam o tumulto no acampamento dos filisteus. Saul deu ordens. Formem os pelotões. Contem os soldados. Vejam quem está faltando.

    Depois de contar os soldados, verificaram que Jonatas e seu escudeiro estavam faltando. Saúde ordens aías. Traga o colete sacerdotal. Vejamos o que Deus tem a dizer. Naquele tempo, Aías era responsável pelo colete sacerdotal. Enquanto conversava com o sacerdote, a confusão entre os filisteus se intensificou.

    E Saul disse aí: “Deixe de lado o colete”. Imediatamente Saul convocou o seu exército e partiram para o ataque. Quando se aproximaram, viram que os filisteus estavam desnorteados. Chegavam a matar uns aos outros com suas espadas. Os hebreus, que tinham desertado para o exército filisteu, retornaram.

    Eles voltaram a se unir aos israelitas sob o comando de Saul e Jonatas. Além disso, quando todos os israelitas que estavam escondidos nas regiões remotas de Efraimberam que os filisteus estavam fugindo, saíram dos seus esconderijos e se juntaram à perseguição. O Eterno livrou Israel naquele dia. A batalha avançou até Bet. Todo o exército seguia a Saul. 10.

    000 homens valentes. A batalha se espalhou por toda a região das montanhas de Efraim. Saul cometeu uma grande tolice naquele dia. Ele disse a todo o exército: “Maldito aquele que comer qualquer coisa antes do anoitecer, antes de eu me vingar dos meus inimigos.” E ninguém comeu nada o dia todo.

    Havia mel por toda parte, mas ninguém sequer experimentava o mel, pois temiam a maldição. Acontece que Jonatas não sabia do juramento que seu pai tinha imposto ao exército. Assim, de passagem, ele pegou um pouco de mel com a ponta de sua vara e comeu. Seus olhos brilharam revigorados. Um dos soldados o informou.

    Seu pai impôs um juramento solene a todo o exército. Maldito aquele que comer qualquer coisa antes do anoitecer. É por isso que os soldados estão esgotados. Jonathas retrucou. Meu pai arranjou um problema desnecessário para o povo. Vejam como renovei minhas forças depois que comi o mel.

    Seria muito melhor se os soldados pudessem ter comido de tudo que tiraram do inimigo. Quem sabe os teríamos derrotado de vez. Naquele dia eles mataram filisteus desde Mikmá até Aijalom. Mas os soldados cansaram de lutar e partiram para os despojos. Tomavam tudo que viam: ovelhas, bois, bezerros. Eles os mataram ali mesmo e assim se entupiram de carne com sangue e tudo. Alguém avisou Saul: “Faça alguma coisa. Os soldados pecaram contra o Eterno.

    Eles estão comendo carne com sangue. Saul respondeu: “Vocês estão agindo errado. Tragam-me uma grande pedra”. Ele continuou. Vão para o meio deles e anunciem. Tragam seu boi e sua ovelha para mim e matem-nos aqui da maneira correta. Depois podem comer à vontade. Não pequem contra o eterno comendo carne com sangue. Todos obedeceram.

    Naquela noite, cada soldado trouxe seu animal para ser abatido. Foi assim que Saul edificou um altar ao Eterno, o primeiro altar que ele construiu para Deus. Saul disse: “Vamos perseguir os filisteus à noite. Passaremos a noite saqueando e não vamos deixar um único filisteu com vida.” As tropas disseram: “Parece uma boa ideia.

    Vamos! Mas o sacerdote os deteve. Vamos descobrir o que Deus pensa sobre o assunto. E Saul perguntou a Deus: “Devemos atacar os filisteus? Tu os entregarás nas mãos dos israelitas?” Mas Deus naquele dia não respondeu. Saul disse: “Compareçam aqui todos os oficiais do exército. Algum pecado foi cometido hoje. Vamos descobrir o que foi e quem o cometeu.

    Tão certo como vive o eterno, salvador de Israel. Quem pecou será morto, mesmo que seja meu filho Jonatas”. Ninguém disse nada. Saul disse aos israelitas: “Fiquem vocês desse lado e eu e meu filho Jonatas ficaremos deste lado”. Os oficiais concordaram. Faça o que bem entender. Então Saul orou ao Eterno. Ó Deus de Israel, por que não me respondeste hoje? Mostra-me a verdade.

    Se o pecado for meu ou de Jonatas, responde, ó Deus, por meio do Urim. Mas se o pecado for do exército de Israel, responde por meio do Tumim. Uim indicou Saul e Jonatas. O exército ficou livre. Saul disse: “Lancem sortes entre mim e Jonatas. Quem o Eterno indicar será morto.” Os soldados protestaram. Não, isso não está certo. Pare com isso.

    Mas Saul insistiu. Lançaram sortes e Jonatas foi indicado. Saul interrogou Jonatas. O que você fez? Diga-me. Jonatas respondeu: “Experimentei um pouco de mel na ponta da vara que eu carregava. Só isso. Mas devo morrer por causa disso?” Saul respondeu: “Sim, Jonatas, você morrerá. Está em minhas mãos. Não me ponha contra Deus”.

    Mas os soldados não aceitaram aquela decisão. O quê? Jonatas vai morrer? Nunca. Foi ele o responsável por esse maravilhoso livramento. Tão certo como vive o Eterno, nenhum fio de cabelo cairá da sua cabeça. Ele tem agido com o auxílio de Deus o tempo todo. Os soldados protegeram Jonatas, por isso ele não morreu. Saul desistiu de perseguir os filisteus e eles se dispersaram e voltaram para casa. Saul ampliou seu domínio conquistando reinos vizinhos.

    lutou contra os inimigos de todos os lados, moabitas, amonitas, edomitas, o rei de Zobá e os filisteus. Aonde quer que fosse, era vitorioso. Ele era imbatível e massacrou os amalequitas, livrando Israel dos que exploravam sua nação. Os filhos de Saul eram Jonatas, Isvi e Malquizua. Saul teve duas filhas, a primogênita Merabi e a mais nova Mikau.

    Sua mulher era Aino filha de Aima. Abner, filho de Ner, era o comandante do exército de Saul. Ner era tio de Saul. Quis, pai de Saul, e Ner, pai de Abner, eram filhos de Abiel. Durante toda a vida de Saul, houve guerra feroz e implacável contra os filisteus. Saul recrutava todo guerreiro e todo homem valente que encontrasse.

    Samuel disse a Saul: “O Eterno me enviou para ungir você, rei, sobre o seu povo, Israel. Agora escute o que o Senhor dos exércitos de anjos diz. Vou me vingar dos amaliquitas pelo que fizeram contra Israel quando saía do Egito. Portanto, ataque os amalequitas.

    Submita todos os pertences dos amalequitas à santa condenação, sem exceção. Você deve destruir tudo. Homens e mulheres, crianças, bebês, gado e ovelha. camelos e jumentos. Saul convocou o exército que se reuniu em Telaim. Ele os equipou para a guerra. 200.000 homens de infantaria de Israel e 10.000 de Judá. Saul marchou até a cidade de Amaleque e armou uma emboscada no vale.

    O rei mandou dizer aos quus: “Saiam daí enquanto podem. Deixem a cidade imediatamente, do contrário, serão confundidos com os amalequitas. Estou dando esta chance porque vocês trataram bem os israelitas quando saíram do Egito. Os quus abandonaram a cidade. Saul atacou os amalequitas desde Avilá até Sur, perto da fronteira do Egito.

    Ele capturou vivo a Gague e exterminou todo o povo, como determinava a santa condenação. Saul e o exército mantiveram vivos apenas a Gague e os melhores espêsmes das ovelhas e do gado. Eles não o submeteram à santa condenação. O restante que ninguém queria mesmo foi destruído de acordo com a determinação divina.

    Mas o Eterno disse a Samuel: “Lamento ter constituído Saul, rei. Ele me abandonou e se recusa a seguir as minhas instruções.” Quando ouviu isso, Samuel ficou muito triste e clamou a noite toda ao Eterno. Levantou-se bem cedo para se encontrar com Saul, mas alguém o informou. Saul foi embora. foi para o Carmelo inaugurar um monumento em honra a ele próprio. Dali seguirá para Gilgal.

    Quando Samuel finalmente o encontrou, Saul tinha acabado de oferecer ofertas queimadas ao Eterno com os animais dos amalequitas. Samuel se aproximou e Saul disse: “O Eterno abençoe você. Seguia risca as instruções do Eterno. Samuel perguntou: “Então, o que é isso que estão ouvindo? Esse balido de ovelhas e o mugido de bois?” Saul respondeu: “São apenas alguns despojos.

    Os soldados ficaram com alguns dos melhores bois e ovelhas para oferecerem sacrifício ao eterno, mas destruímos o restante em cumprimento da santa condenação. Samuel o interrompeu. Chega, vou contar a você o que o Eterno me disse esta noite. Saul respondeu: “Vai em frente, conte-me.” Samuel disse: “Você não era nada quando foi escolhido e sabe disso. O Eterno constituiu líder e você se tornou rei sobre todo Israel.

    Depois o Eterno enviou você para cumprir essa missão com a seguinte ordem: vá e submeta esses pecadores amalequitas a santa condenação. Ataque-os até que tenha exterminado todos eles. Agora me diga, por que você não obedeceu ao Eterno? Por que tomou todos esses despojos? Por que cometeu esse erro, sabendo que o Eterno está sempre observando você? Saul se defendeu.

    Do que você está falando? Eu obedeci ao Eterno, fiz tudo o que ele me mandou. Capturei o rei Agag e destruí os amanequitas nos termos da santa condenação. Os soldados apenas pouparam os melhores bois e ovelhas para oferecer ao eterno em Gilgal. Qual o problema nisso? Samuel respondeu: “Você acha que o Eterno quer apenas sacrifícios, meros rituais externos? Ele quer que você o escute.

    Obedecer a ele é melhor que qualquer aparato religioso. Desobedecer ao eterno é pior que praticar ocultismo. A presunção perante o eterno é pior que idolatrar os ancestrais. Já que você rejeitou a ordem do Eterno, ele rejeitou seu reinado. Saul finalmente confessou: “Eu pequei, fiz pouco o caso das ordens do Eterno e das suas instruções.

    Fiquei mais preocupado em agradar ao povo. Fui influenciado pelos outros. Peço que você perdoe meu pecado, segure a minha mão e me conduza até o altar para que eu possa adorar ao Eterno. Mas Samuel disse: “Não, não posso ajudar você nisso. Você rejeitou a ordem do Eterno. Agora o Eterno rejeitou como rei de Israel.

    Quando Samuel fez menção de sair, Saul agarrou-se à roupa dele, a sua vestimenta sacerdotal, rasgando um pedaço. Samuel disse: “O Eterno rasgou de você o reino e o entregou ao seu próximo, um homem mais qualificado que você. O Deus de glória de Israel, não mente nem vacila. Ele cumpre tudo o que diz. Saul insistiu. Reconheço que pequei, mas não me abandone.

    Ajude-me com a sua presença diante dos líderes e do povo. Volte comigo para adorar ao Eterno. Samuel voltou com ele. Saul prostrou-se diante do Eterno e o adorou. Samuel ordenou: “Tragam-me a Gag, rei dos amalequitas”. Agag foi trazido arrastando o pé e resmungando que preferia estar morto. Samuel disse: “Assim como a sua espada fez que muitas mães perdessem seus filhos, hoje também sua mãe será como uma daquelas mulheres sem filhos.

    ” E despedaçou a Gague na presença do eterno em Gilgal. Samuel deixou Ramá imediatamente e Saul voltou para sua casa em Gilgal. Dali em diante, Samuel não teve mais contato com Saul, mas tinha muita pena dele. O Eterno lamentou ter constituído Saul, rei sobre Israel. O Eterno disse a Samuel: “Até quando você vai ficar lastimando por causa de Saul? Você sabe que o rejeitei como rei de Israel.

    Agora encha seu frasco de óleo e vá a Belém, a casa de Jessé. Encontrei entre os filhos dele o rei de que preciso. Samuel disse: “Não posso fazer isso. Saul ficará sabendo e me matará”. O Eterno respondeu: “Leve um novilho com você e diga que vai adorar ao Eterno e sacrificar o novilho. Não deixe de convidar Jessé.

    Depois direi o que você deve fazer e mostrarei quem você deverá ungir. Samuel seguiu as instruções do Eterno. Quando chegou a Belém, os anciãos da cidade o cumprimentaram, mas estavam apreensivos e perguntaram: “O que está acontecendo?” Não há nada de errado. Vim oferecer este novilho em sacrifício e conduzir vocês na adoração ao Eterno.

    Preparem-se, consagrem-se e venham comigo para adorar. Ele fez que Jessé e seus filhos também se consagrassem e os convidou para a adoração. Quando chegaram, Samuel ficou observando Eliab e pensava: “Deve ser esse o ungido do Eterno”. Mas o Eterno disse a Samuel: “Não olhe para o exterior. Não fique impressionado com sua aparência e estatura.

    Eu já descartei esse. O Eterno não julga as pessoas pelos padrões humanos. Os homens e as mulheres olham para a aparência, mas o eterno vê o coração. Em seguida, Jessé chamou Abinadabe e o apresentou a Samuel. Ele disse: “Esse também não é o escolhido do Eterno”. Depois Jessé apresentou Samar. Samuel disse: “Não, também não é esse”. GC apresentou seus sete filhos a Samuel.

    O profeta foi ríspido. O Eterno não escolheu a nenhum desses. Ele perguntou a Jessé: “São só esses? Você não tem outros filhos?” Tenho ainda o Gçula, mas ele está cuidando das ovelhas. Samuel disse a Jessé: “Mande chamá-lo, não sairemos daqui até que ele venha.” Jessé mandou chamá-lo e o rapaz foi trazido.

    Era saudável, tinha olhos claros e boa aparência. O Eterno disse: “É esse quem você deve ungir, foi ele a quem escolhi”. Samuel tomou seu frasco de óleo e o ungiu à vista de seus irmãos. O espírito do eterno veio sobre Davi como uma rajada de vento, apoderando-se dele para o resto da vida. Samuel voltou para sua casa em Ramá. Naquele mesmo instante, o espírito do eterno deixou Saul e em seu lugar, um terrível espírito enviado por Deus veio sobre ele. Ele ficou atormentado.

    Os conselheiros de Saul disseram: “Esta depressão vinda de Deus está atormentando sua vida, Senhor. Deixe-nos ajudar. Vamos procurar alguém que toque a harpa. Quando o espírito terrível enviado por Deus se manifestar, essa pessoa tocará uma música para que o Senhor se sinta melhor.

    Saul disse a eles: “Vão, encontrem alguém que seja bom tocador de arpa e tragam-no aqui.” Um dos jovens disse: “Conheço alguém assim. Eu mesmo vi tocar. O filho de Jessé de Belém é excelente músico. Ele também é corajoso, maduro, fala bem, tem boa aparência e o Eterno está com ele. Saul enviou mensageiros a Jessé, pedindo para que ele mandasse seu filho Davi, aquele que cuidava das ovelhas.

    Jessé carregou um jumento com alguns pães, uma garrafa de vinho e um cabrito, e enviou tudo como presente a Saul com seu filho Davi. O jovem apresentou-se a Saul e o rei gostou dele imediatamente, tanto que fez de Davi seu braço direito. Saul mandou dizer a Jessé: “Muito obrigado, Davi ficará aqui. É ele que eu estava procurando. Estou muito contente com a vinda dele.” Depois disso, sempre que a terrível depressão de Deus atormentava Saul, Davidilhava sua harpa para ele.

    Saul se acalmava e ficava por um tempo livre de seu mau humor. Os filisteus reuniram suas tropas para a batalha. Eles se prepararam para o combate em Socó de Judá e acamparam em Éfes da Mim Socó e Azeka. Saul e os israelitas acamparam no vale de Elá. As tropas já estavam em formação de batalha contra os filisteus. Os filisteus ficaram numa montanha e os israelitas na outra encosta, tendo um vale entre eles.

    De repente, surgiu das fileiras dos filisteus um gigante de quase 3 m de altura, chamado Golias de Gate. Tinha na cabeça um capacete de bronze e usava uma armadura que pesava quase 60 kg. Usava também caneleiras de bronze e carregava uma espada de bronze. Sua lança parecia uma viga. Só a ponta da lança pesava 7, 200 g. Seu escudeiro ia à frente dele.

    Golias, de sua posição, desafiava os israelitas. Por que incomodar todo o exército? Não sou eu um filisteu e vocês súditos de Saul? Escolham seu melhor guerreiro e tragam-no a mim. Se ele tiver sorte em me matar, os filisteus serão seus escravos. Mas se eu tiver sorte em matá-lo, vocês serão nossos escravos e passarão a nos servir. Estou desafiando as tropas de Israel.

    Tra-me um homem que possa duelar comigo. Quando Saul e suas tropas ouviram o desafio do filisteu, ficaram aterrorizados e perderam a esperança. Nesse meio tempo, Davi chegou ao campo de batalha. Ele era filho de Jessé, o Efrateu de Belém de Judá. Jessé, pai de oito filhos, já estava muito idoso para lutar no exército de Saul.

    Mas os três filhos mais velhos de Jessé foram com Saul para a guerra. Os nomes dos filhos que se alistaram no exército eram Eliabe, o primogênito, Abinadab, e o terceiro, Sam. Davi era o caçula. Enquanto os três irmãos mais velhos estavam no campo de batalha, Davi ficou dividido entre ajudar Saul e cuidar das ovelhas de seu pai em Belém.

    Toda manhã e toda a tarde, durante 40 dias, Golias se posicionava e desafiava os israelitas. Certo dia, Jessé disse a Davi: “Pegue este saco de trigo tostado e 10 pães e leve a seus irmãos que estão no acampamento. Leve estes 10 queixos para o capitão da divisão. Veja como estão passando seus irmãos e volte para me dizer como estão Saul, seus irmãos, e todos os israelitas na batalha contra os filisteus no vale de Elá.

    ” Davi se levantou de madrugada, deixou alguém encarregado de cuidar das ovelhas e foi levar a comida. De acordo com as instruções de Jessé, ele chegou ao acampamento numa hora em que o exército estava se preparando para a batalha com gritos de guerra. Israel e os filisteus estavam posicionados, um de frente para o outro, preparados para o combate. Davi deixou os suprimentos aos cuidados do guarda, correu para a linha de combate e saudou seus irmãos.

    Enquanto conversavam, o guerreiro filisteu Golias de Gate saiu e se pôs à frente das suas fileiras, desafiando os israelitas como de costume. Davi ouviu o que ele disse. Os israelitas, com medo do gigante, se dispersaram por todos os lados. No meio das tropas, o comentário era este: “Você já viu alguma coisa assim? Esse homem provoque Israel abertamente. Quem conseguir matá-lo está feito.

    O rei dará uma generosa recompensa. Oferecerá sua filha por mulher e exentará toda a sua família de impostos. Davi, conversando com um homem que estava a seu lado, perguntou: “Qual será a recompensa para quem matar o filisteu e livrar Israel dessa deshonra? Afinal, quem esse incircunciso filisteu pensa que é para insultar o exército do Deus vivo? Repetiram a ele o que todos comentavam sobre o que o rei daria a quem matasse o filisteu.

    Eliabe, seu irmão mais velho, ouviu Davi conversando com os soldados e perdeu a paciência. O que você está fazendo aqui? Por que não está cuidando daquelas ovelhas magricelas? Eu sei qual é a sua intenção. Você veio para assistir a batalha de camarote. Davi respondeu: “Qual o problema? Só fiz uma pergunta.” Ignorando o irmão, voltou-se para outro soldado e fez a mesma pergunta, recebendo a mesma resposta.

    Alguém contou a Saul o que Davi estava conversando e o rei mandou chamá-lo. Davi disse: “Senhor, não perca a esperança. Estou pronto para enfrentar esse filisteu”. Saul respondeu a Davi: “Você não tem condições de lutar contra esse filisteu. É muito jovem, inexperiente. O filisteu tem mais tempo nas guerras que você de vida.” Davi retrucou.

    Sou pastor e cuido das ovelhas do meu pai. Quando o leão ou um urso atacava um cordeiro do rebanho, eu saía atrás, matava-o e resgatava o cordeiro. Se o animal quisesse me atacar, eu o agarrava, torcia seu pescoço e o matava. Leão ou urso, qualquer um deles eu matava. Por isso, farei a mesma coisa com esse filisteu incircunciso, que está afrontando o exército do Deus vivo.

    O Eterno que me livrou das garras do leão e das garras do urso também me livrará das mãos desse filisteu. Saul concordou. Tudo bem, pode ir. Que o Eterno ajude você. O rei equipou Davi com uma armadura, pôs na cabeça dele seu capacete de bronze e prendeu sua espada à cintura.

    Davi tentou andar, mas nem conseguia se mexer. Davi disse a Saul: “Mal consigo me movimentar com toda esta parafernalha. Não estou acostumado a isto.” Em seguida, tirou tudo aquilo. Davi pegou seu cajado de pastor, escolheu cinco pedras lisas de um riacho, guardou-as no seu forge de pastor e com seu estilingue se aproximou de Golias. O filisteu que andava de lá para cá, atrás de seu escudeiro, viu Davi se aproximando.

    Ele olhou para baixo e, zombando disse: [Risadas] “Vejam só, um jovem ruivo e arrumadinho. Golias ridicularizou David. Acaso sou um cachorro para você vir me enchotar com um pedaço de pau?” e amaldiçoava Davi, invocando os seus deuses. O filisteu esbravejou. Venha, vou atropelar você e deixar seu corpo para os corvos. Será um prato cheio para os animais do campo.

    Davi respondeu: “Você vem contra mim com espada, lança e dardos, mas eu vou em nome do Senhor dos exércitos de anjos, o Deus dos exércitos de Israel, de quem você zomba e a quem amaldiçoa. Hoje mesmo o Eterno entregará você nas minhas mãos. Estou prestes a matá-lo, cortar sua cabeça e entregar seu corpo e também o corpo de todos os seus companheiros filisteus aos corvos e animais selvagens. Toda a terra saberá que é um Deus extraordinário em Israel.

    Todos aqui ficarão sabendo que o Eterno salva sem depender da espada ou da lança. A batalha pertence ao Eterno. Ele entregará vocês em nossas mãos. As palavras do jovem mexeram com o filisteu e ele começou a vir na direção de Davi, que deixando as fileiras israelitas atrás de si, saiu correndo na direção do filisteu.

    Davi pegou uma pedra do Alforge, lançou-a com o Stiling e atingiu o filisteu na testa. A pedra ficou cravada em sua fronte e o gigante caiu com o rosto em terra. Foi com um estiling e uma pedra. que Davi derrotou o filisteu. Ele o atingiu e o matou. Davi nem carregava espada.

    Depois que o filisteu caiu, Davi correu e ficou de pé sobre ele, puxou a espada do gigante da bainha e terminou o serviço, cortando a cabeça dele. Os filisteus, vendo que o seu grande herói estava morto, fugiram para se salvar. Os homens de Israel e Judá foram atrás deles, gritando, e perseguiram os filisteus até os arredores de Gate e a entrada de Ecron.

    Ao longo de toda a estrada de Saaraim, até Gate e Ecron, havia filisteus caídos. Depois de os perseguirem, os israelitas voltaram e saquearam o acampamento. Davi levou a cabeça do filisteu para Jerusalém, mas deixou em sua tenda as armas do gigante. Quando Saul viu Davi saindo para enfrentar o filisteu, disse a Abner, o comandante do exército, conte-me sobre a família desse jovem.

    Abner respondeu: “Juro por minha vida ao rei que não a conheço.” O rei ordenou: “Pois descubra a que família esse jovem pertence. Assim que Davi regressou depois de matar o filisteu, Abner trouxe a cabeça do filisteu que ainda estava com Davi e a entregou a Saul.

    O rei perguntou: “Jovem, quem é seu pai?” Davi respondeu: “Sou filho de seu servo Jessé, que vive em Belém”. Depois que Davi terminou de falar com Saul, Jonatas ficou profundamente impressionado com Davi. Um laço muito forte de amizade se desenvolveu entre eles. Jonatas se comprometeu totalmente com essa amizade com Davi e desde então passou a ser seu principal defensor e melhor amigo.

    Saul acolheu Davi em sua casa para que ele não retornasse mais à casa de seu pai. Jonatas, pela forte amizade que tinha com Davi, fez um acordo com ele. Ele o formalizou com uma dádiva. Entregou a ele a sua vestimenta real e suas armas, armadura, espada, arco e cinturão. Tudo que Saul mandava Davi fazer, ele fazia e fazia bem feito.

    Ele era tão bem sucedido que Saul encarregou das operações militares. Tanto o povo quanto os membros da corte de Saul aprovavam e admiravam a liderança de Davi. Quando o exército voltava para casa, depois de Davi ter matado o filisteu, as mulheres saíram de todos os vilarejos de Israel, cantando e dançando, recepcionando o rei Saul com tamborins, cânticos festivos e gritos de vitória. As mulheres cantavam com alegria.

    Saul matou milhares, Davi dezenas de milhares. Saul ficou muito incomodado com aquilo. Tomou o refrão como um insulto pessoal e disse: “Deram crédito a Davi por dezenas de milhares e a mim somente por milhares. Quando menos se esperar, entregarão o reino a ele. Daquele momento em diante, Saul teve inveja de Davi e ficou de olho nele.

    No dia seguinte, um espírito perturbador enviado por Deus afligiu Saul, que ficou transtornado. David dedilhava sua arma, como era costume nessas situações. Saul tinha na mão uma lança. De repente, Saul arremessou a lança contra Davi. Seu pensamento era: “Vou cravar Davi na parede”. Mas Davi se desviou da lança. Isso aconteceu duas vezes.

    Saul tinha medo de Davi, pois estava claro que o Eterno abençoava Davi e tinha abandonado Saul. Por isso, Saul afastou Davi de sua presença, designando o oficial do exército. Davi estava sempre na frente de combate e era bem-sucedido em tudo que fazia, pois o Eterno estava com ele. Diante do sucesso de Davi, Saul ficou ainda mais preocupado. Mas todos em Israel e em Judá gostavam de Davi.

    E todos gostavam de ver Davi em batalha. Certo dia, Saul disse a Davi: “Aqui está Merabe, minha filha mais velha. Quero dá-la em casamento a você, mas preciso que você mostre sua coragem para mim, que lute as batalhas do Eterno.” Saul estava pensando, os filisteus o matarão por mim. Não precisarei levantar a minha mão contra ele.

    Constrangido, Davi respondeu: “Você fala sério? Sou de uma família humilde. Não posso ser genro do rei. O casamento de Merabe e Davi foi acertado, mas perto da data marcada, Saul voltou atrás e entregou sua filha a Adriel de Meolá. Nesse meio tempo, a outra filha de Saul, Mical, se apaixonou por Davi.

    Quando Saul soube disso, ficou contente e pensou: “Tenho outra chance. Mical será a armadilha, o pretexto para mandar Davi a uma guerra em que os filisteus com certeza acabarão com ele. Assim, ele prometeu outra vez a Davi: “Você será meu genro”. Saul ordenou aos membros da corte: “Digam a Davi em particular, o rei está muito contente com você e todos na corte gostam muito de você. Não perca tempo.

    Aceite a proposta de ser genro do rei. Eles se esforçaram para convencer Davi, mas ele estava relutante. O que vocês estão pensando? Não posso fazer isso. Não sou nada. Não tenho nada a oferecer. Quando eles informaram a Saul a resposta de Davi, ele mandou outro recado a Davi.

    O rei não está exigindo de você nenhum pagamento. Apenas quer que mate 100 filisteus e traga provas de sua vingança a favor do rei. A ordem é que você se vingue dos inimigos do rei. Saul esperava que Davi fosse morto em combate. Ao saber disso, Davi ficou contente, pois ali estava algo que ele podia fazer para ter o direito de ser genro do rei. Por isso, não perdeu tempo. Foi logo ao que importava.

    Ele e seus homens mataram os 100 filisteus, trouxeram as provas dentro de um saco e as contaram na presença do rei. Missão cumprida. E Saul deu sua filha Micalu a Davi em casamento. Saul, percebendo que a bênção do Eterno sobre Davi era cada vez mais evidente e que sua filha Mica o amava, ficou ainda mais preocupado e passou a odiá-lo.

    Sempre que os comandantes filisteus saíam para a guerra, Davi estava lá para enfrentá-los, ofuscando com suas ações os soldados de Saul. O nome de Davi estava na boca do povo. Saul se reuniu com seu filho Jonatas e outros homens e deu a eles ordem para matar Davi. Jonatas admirava Davi, por isso foi avisá-lo.

    Meu pai está procurando uma maneira de matar você. Vamos fazer assim. Amanhã cedo, fique escondido. Vou sair com meu pai ao campo, perto de onde você estiver escondido. Vou conversar com ele a respeito de você para descobrir suas intenções. Depois contarei a você o que ele disser.

    Jonatas falou com seu pai a respeito de Davi, elogiou o amigo e pediu: “Por favor, não faça nada contra Davi. Ele não fez nada de errado contra você. Veja quanta coisa boa ele realizou. Ele arriscou a própria vida matando o filisteu. Que vitória o eterno concedeu a Israel naquele dia? Você estava lá? Você viu e o aplaudiu com os demais? Por isso, qual a razão para atacar um inocente para matar Davi sem motivo algum? Saul ouviu com atenção e reconheceu: “Você está certo? Tão certo quanto vive o Eterno. Davi continuará vivo. Ele não

    será morto.” Jonatas mandou chamar Davi e relatou a ele a conversa que tinha tido com seu pai. Depois levou Davi de volta para Saul e tudo voltou a ser como antes. Mais uma vez houve guerra e Davi foi lutar contra os filisteus. Ele os enfrentou com bravura e os inimigos fugiram.

    Mais um espírito atormentador da parte do Eterno veio sobre Saul e tomou conta dele. Certo dia, ele estava sentado em casa com sua lança na mão, enquanto Davi dedilhava sua arpa. De repente, Saul tentou encravar Davi com a lança, mas ele se desviou. A lança ficou encravada na parede e Davi escapou. Era noite.

    Saul enviou alguns homens à casa de Davi. Eles deveriam vigiá-lo e matá-lo logo cedo. Mas a mulher de Davi, Nical, contou ao marido o que estava acontecendo. Vamos, não perca tempo. Fuja hoje mesmo ou estará morto pela manhã. Ela o ajudou a escapar por uma janela. Depois foi buscar um ídolo doméstico e o deitou na cama.

    ajeitou um pelo de cabra sobre a cabeça do ídolo e pôs uma cobertura por cima. Quando os homens de Saul chegaram para capturar Davi, ela disse: “Ele está na cama, doente”. Saul mandou seus homens de volta com a seguinte ordem: “Tragam-no aqui com cama e tudo para que eu mesmo o mate.” Mas quando os homens entraram no quarto, encontraram apenas o ídolo doméstico com a peruca de pelos de cabra.

    Saul ficou furioso com Mical e disse: “Como você faz uma coisa dessas? Você está do lado do meu inimigo. Você o ajudou a fugir.” Mik respondeu. Ele me ameaçou. Ajude-me a escapar daqui ou mato você. Davi conseguiu escapar. foi à procura de Samuel em Ramá e contou ao profeta o que Saul tinha feito contra ele.

    Ele e Samuel foram para Naiote. Alguém deu a informação a Saul. Davi está em Naiote, em Ramá. Imediatamente Saul mandou que seus soldados fossem buscá-lo. Eles encontraram um grupo de profetas profetizando sob a direção de Samuel. E quando menos esperavam, o espírito de Deus veio sobre eles.

    Também os soldados começaram a profetizar no meio dos profetas. A notícia chegou a Saul e ele enviou outros homens. Eles também começaram a profetizar. Saul tentou mais uma vez, enviou o terceiro grupo de homens, mas eles também começaram a profetizar. Finalmente o próprio Saul foi para Ramá, chegou até a grande cisterna em seco e indagou o povo para saber onde estava Samuel e Davi.

    Alguém disse: “Eles estão em Naiote, em Ramá”. Enquanto seguia para Naote em Ramá, o espírito de Deus também veio sobre Saul. Ele percorreu todo o caminho em transe até chegar a Na. Ele tirou a própria roupa e permaneceu em transe diante de Samuel um dia e uma noite. Depois, ainda nu, ficou estirado ao solo. O povo comentava: “Saul está entre os profetas.

    Quem diria? Davi saiu vivo de Naiote em Ramá, foi procurar Jonatas e perguntou ao amigo: “O que faço agora? O que fiz contra seu pai para ele estar tão determinado a me matar?” Jonatas respondeu: “Nada, você não fez nada errado e não morrerá. Esteja certo disso. Meu pai me conta tudo. Ele não faz nada de importante ou mesmo de insignificante sem confidenciar a mim.

    Por que faria isso sem eu saber? Mas Davi estava em dúvida. Seu pai sabe que somos bons amigos e vai pensar. Jonatas não pode saber disso. Se souber, vai defender Davi. A verdade é que ele está determinado a me matar. Isso é tão certo quanto vive o Eterno e quanto você está vivo aqui diante de mim. Jonatas disse: “Conte-me o que você está pensando.

    Farei qualquer coisa por você”. Davi disse: “Amanhã é festa de Lua nova. Eu deveria jantar com o rei, mas em vez disso, vou me esconder no campo até a terceira noite. Caso seu pai perceba minha falta, diga: Davi pediu para ir a Belém, sua terra natal, para o sacrifício anual com a família. Se ele disser tudo bem, então estou seguro. Mas se ele ficar bravo, é porque está determinado a me matar.

    Por favor, ajude-me nisso. Lembre-se, você fez um pacto comigo em nome do Eterno. Se eu estiver errado, mate-me logo. Por que aguardar para me entregar a seu pai? Jonatas exclamou. Ora, eu jamais faria isso. Se perceber que meu pai está mesmo obsecado por matá-lo, direi a você. Davi perguntou: “Quem você enviará para me contar sobre a reação de seu pai?” Jonatas respondeu: “Vamos até o campo”.

    Quando os dois estavam no campo, Jonatas disse: “O Eterno, o Deus de Israel, é minha testemunha de que a esta hora amanhã vou saber do meu pai o que ele pensa de você. Então, mandarei dizer a você o que descobri. Que o eterno me castigue se eu abandonar você. Se meu pai insistir em matá-lo, eu informarei disso e o ajudarei a escapar. Que o eterno esteja com você como esteve com meu pai.

    Se depois disso eu continuar vivo, nosso pacto continua valendo. Se eu morrer, você terá responsabilidade para com minha família para sempre. E seja leal a mim depois que o Eterno finalmente eliminar da terra os inimigos de Davi. Jonatas reafirmou sua promessa de lealdade e amizade com Davi. Era tão leal a Davi que arriscava a vida por ele. Jonatas revelou seu plano.

    Amanhã é festa da lua nova e perceberão sua ausência à mesa. Depois de amanhã, quando já tiverem desistido de aguardá-lo, volte para aquele seu esconderijo e fique esperando perto da pedra de Exel. Vou disparar três flechas na direção da pedra e mandarei meu ajudante apanhá-las.

    Se eu gritar para o ajudante, as flechas estão para cá, pegue-as. Esse será o sinal de que você pode voltar em segurança, assim como vive o eterno. Não tenha medo. Mas se eu gritar, as flechas estão mais adiante. Corra, porque o Eterno quer você longe daqui. Quanto ao nosso acordo, lembre-se, o Eterno está conosco até o fim. Davi se escondeu no campo. No dia da lua nova, o rei estava à mesa para comer.

    Ele se sentou no lugar de costume, encostado à parede. Jonatas à sua frente e Abner ao seu lado. Mas o lugar de Davi ficou vazio. Saul não comentou nada pensando, algo aconteceu com ele que o tornou impuro. Talvez esteja ritualmente impuro para a refeição sagrada.

    Mas no segundo dia da festa, o lugar de Davi continuava desocupado. Saul perguntou a Jonatas: “Onde está aquele filho de Jessé? Ele não comeu conosco, nem ontem, nem hoje.” Jonatas respondeu: Davi me pediu permissão para ir a Belém, dizendo: “Deixe-me ir para casa. Quero estar com minha família. Meus irmãos pediram que eu fosse. Se não for problema para você, deixe-me ir.

    Por isso ele não está à mesa. Saul ficou furioso com Jonatas, seu filho desnaturado. Acha que não sei que você e o filho de Jessé fizeram um pacto para sua desgraça e de sua mãe? Juro que enquanto o filho de Jessé estiver solto nessa terra, seu futuro no reino estará em jogo. Vá buscá-lo. A partir de agora, ele pode se considerar um homem morto.

    Jonathas enfrentou o pai. Por que morto? O que ele fez de errado? Saul, descontrolado, arremessou sua lança contra o filho. Foi o suficiente para Jonatas se convencer de que seu pai estava determinado a matar Davi. Jonatas saiu furioso da mesa e não comeu mais nada o dia todo.

    Ele estava aborrecido por causa de Davi e irritado pela humilhação que seu pai o tinha feito passar à mesa. Na manhã seguinte, Jonatas foi para o campo, conforme o combinado com Davi. Seu ajudante o acompanhava. E Jonatas disse a ele: “Corra para buscar as flechas que eu atirar”. O rapaz começou a correr e Jonatas atirou uma flecha diante dele. O rapaz chegou perto do local em que a flecha parecia ter caído e Jonatas gritou: “A flecha não está mais adiante” e gritou outra vez.

    Vamos, corra, não fique aí parado. O ajudante de Jonatas apanhou as flechas e as trouxe de volta. O rapaz naturalmente não fazia ideia do que estava acontecendo. Só Jonatas e Davi sabiam do combinado. Jonatas entregou suas armas ao rapaz e o mandou de volta para a cidade.

    Depois que o ajudante foi embora, Davi saiu do seu esconderijo, que ficava perto da pedra, e se prostrou com o rosto em terra três vezes. Eles beijaram um ao outro e choraram muito. Davio estava muito mais emocionado. Jonatas disse ao amigo: “Vá em paz. Nosso pacto de amizade foi feito em nome do Eterno e ele será testemunha entre nós e entre meus descendentes e seus descendentes para sempre.

    ” Davi seguiu seu caminho e Jonatas voltou para a cidade. Davi procurou o sacerdote Aimeleque em Nobe. Aimele saiu para cumprimentar Davi e ficou alarmado. O que você está fazendo aqui sozinho, sem ninguém com você? Davi respondeu ao sacerdote: “O rei me enviou numa missão e me instruiu.

    Este é um assunto confidencial. Não diga nada a ninguém. Combinei de me encontrar com meus homens num determinado lugar. Agora, o que você pode me oferecer para comer? Tem aí uns cinco pães? Veja o que pode conseguir. O sacerdote respondeu: “Não tenho pão comum, apenas o pão consagrado. Se seus homens não tiveram relação com a mulher recentemente, os pães são seus”.

    Davi respondeu: “Nenhum de nós tocou em mulher. Sempre fazemos isso quando estamos em missão. Os meus soldados se abstém do sexo. Se fazemos isso numa missão comum, quanto mais numa missão sagrada. O sacerdote entregou a ele os pães consagrados, os únicos que ele tinha, os pães da presença, que foram retirados da presença do Eterno e substituídos por pães quentes no mesmo dia.

    Naquele dia, um dos oficiais de Saul estava ali cumprindo um voto diante do Eterno. Seu nome era Doeg e ele era Edomita, chefe dos pastores de Saul. Davi perguntou a Aimelec: “Você tem uma lança ou alguma espada por aqui? Não tive tempo de apanhar minhas armas. O rei exigiu urgência e eu saí com pressa.

    ” O sacerdote respondeu: “A espada de Golias, o filisteu, que você matou no vale de Elá, está aqui. Ela está enrolada num pano atrás do colete sacerdotal. Se quiser, pode levá-la. É a única arma que tenho aqui.” Davi exclamou. Ah, não poderia ser melhor. Passe-a para cá. Depois disso, Davi sumiu fugindo de Saul. Ele procurou Aquis, rei de Gate.

    Quando as autoridades de Aquis o viram, disseram: “Seria este Davi, o famoso Davi? É a respeito dele que o povo canta em suas danças. Saul mata milhares, Davi dezenas de milhares”. Quando Davi percebeu que o tinham reconhecido, entrou em pânico e temeu pelo pior da parte de Aquis, rei de Gate. Vendo que todos olhavam para ele, Davi fingiu estar louco, batendo com a cabeça na porta da cidade e espumando pela boca, enquanto a saliva escorria pela barba.

    Aquis olhou para ele e disse aqueles líderes: “Não estão vendo que ele está louco? Por que o deixaram entrar? Já tenho loucos suficientes aqui e vocês me trazem mais um. Tirem-no daqui. Davi fugiu e se refugiou na caverna de Adulão. Quando seus irmãos e familiares souberam onde ele estava, foram ao seu encontro para se unir a ele.

    Não só eles, mas todos os que estavam em situação difícil, os endividados e amargurados. Davi se tornou o líder deles. Eram cerca de 400 homens. Davi foi para Mispá e pediu ao rei de Moabe: “Conceda proteção a meu pai e a minha mãe até que eu saiba o que Deus tem reservado para mim”.

    Ele deixou seus pais aos cuidados do rei de Moabe. Eles ficaram ali durante todo o tempo em que Davi viveu como fugitivo. O profeta Gad disse a Davi: “Não volte para a caverna, vá para Judá.” Davi seguiu a orientação do profeta e foi para o bosque de Herete. Saul ficou sabendo onde estavam Davi e seus homens. O rei estava debaixo dos carvalhos, na colina de Gibeá, segurava sua lança e estava rodeado por seus oficiais.

    Ele disse: “Ouçam, benjamitas, nem pensem que vocês têm algum futuro com o filho de Jessé. Acham que ele vai dar a vocês terra boa e cargos importantes? Pensem bem, aqui estão vocês conspirando contra mim, coxixando pelas minhas costas. Nenhum de vocês teve coragem de me contar que meu filho estava fazendo acordos com o filho de Jessé.

    Nenhum de vocês se importou em me contar que meu filho ficou do lado desse marginal. Então Doeg, o edomita, que estava entre os oficiais de Saul, falou: “Vi o filho de Jessé conversando com Aimeleque, filho de Aitube, em Nobe, e vi a Imelec interceder por ele diante do Eterno. O sacerdote também deu comida e entregou a espada do filisteu Golias a Davi.

    Saul mandou chamar o sacerdote a Emelec e toda a família de sacerdotes de Noe. Todos compareceram perante o rei. Saul disse: “Ouça-me, filho de Aitub.” Ele respondeu: “Certamente, meu senhor. Por que você se mancomunou com o filho de Jessé e ficou contra mim, dando comida e armas para ele e intercedendo a favor dele diante do Eterno? Por que ajudou um fora da lei a lutar contra mim?” Aimele respondeu ao rei: “Não existe outro oficial em toda a sua administração, tão leal a você quanto Davi, seu genro e capitão de sua guarda pessoal.

    Nem há outro que seja tão respeitado. Acha que essa foi a primeira vez que intercedi por ele a Deus? Certamente que não. Você não pode acusar a mim nem a minha família de cometer algum erro, pois não faço ideia do que você está querendo dizer com fora da lei. O rei disse: “Você vai morrer, a Imelec, você e toda a sua família”. O rei ordenou aos seus homens: “Cerquem os sacerdotes e matem todos eles, porque estão mancomunados com Davi. Sabiam que ele estava fugindo de mim e não me contaram.

    ” Mas os soldados do rei se recusaram a matá-los. Nenhum deles ousou levantar a mão contra os sacerdotes do Eterno. Então o rei disse a Doeg: “Mate os sacerdotes!” Doeg, o edomita, cumpriu a ordem e assassinou os sacerdotes, 85 homens que usavam as vestimentas sagradas.

    Ele saiu dali e foi para Noe, a cidade dos sacerdotes, e ali matou homens, mulheres, crianças e bebês, além de jumentos, bois e ovelhas. Apenas Abiatar, filho de Aimele e neto de Aitub, conseguiu escapar. Ele fugiu e se juntou a Davi. Abiatar contou a Davi que Saul tinha mandado matar os sacerdotes do Eterno. Davi disse a Abiatar: “Eu sabia quando vi Doeg, o Edomita, sabia que contaria a Saul. Eu sou culpado pela morte de toda a família de seu pai.

    Fique comigo. Não tenha medo. O mesmo que quer matar você também quer me matar. Fique comigo e protegerei você. Alguém avisou David que os filisteus estavam atacando Keila e saqueando o estoque de grãos. Davi consultou o Eterno. Devo ensinar uma lição a esses filisteus? O Eterno respondeu: Vá, ataque os filisteus e liberte Keila.

    Mas os homens de Davi disseram: “Aqui em Judá já não estamos seguros, quanto menos se formos aquele a enfrentar a máquina de guerra dos filisteus.” Davi voltou a consultar o Eterno. O Eterno respondeu: “Desça logo até Keila, pois estou entregando os filisteus em suas mãos”. Davi e os seus homens foram para Keila e lutaram contra os filisteus.

    Ele espalhou os rebanhos deles, impôs a eles uma humilhante derrota e libertou a população de Keila. Depois de ter se juntado a Davi, Abiatar desceu para Keila, levando consigo o colete sacerdotal. Saul descobriu que Davi estava em Keila e pensou: “Ótimo, Deus o entregou de bandeja nas minhas mãos.

    Ele está numa cidade murada com os portões trancados. está encurralado ali. Saul convocou as tropas e partiu para Keila com a intenção de cercar Davi e seus homens. Mas Davi soube do plano de Saul e disse ao sacerdote Abiatar: “Traga o colete.” Davi orou ao Eterno. Deus de Israel, acabei de saber que Saul pretende destruir a cidade de Keila por minha causa.

    Os líderes da cidade vão me entregar a Saul. Saul vem mesmo fazer aquilo que me disseram? Ó eterno Deus de Israel, responde-me. O Eterno respondeu: Ele está vindo e os chefes de Keila me entregarão junto com os meus homens nas mãos de Saul? O Eterno respondeu: Entregarão, sim. Então Davi e seus homens fugiram dali. Eram 600 homens.

    Eles deixaram Keila e ficaram perambulando de um lugar para outro. Quando informaram a Saul que Davi tinha fugido de Keila, ele suspendeu o ataque. Davi continuou vivendo em esconderijos nas regiões remotas das colinas de Zifi. Saul continuou à procura de Davi sem descanso, mas Deus não o entregou nas mãos do rei. Davi permaneceu no distante deserto de Zifi, refugiado em Oraza.

    já que Saul estava determinado a encontrá-lo. Jôas, filho de Saul, foi ao encontro de Davi em Oraza e fortaleceu a sua confiança em Deus. Ele disse: “Não se desespere. Meu pai Saul não tocará em você. Você será rei de Israel e eu estarei sempre ao seu lado para ajudar. Meu pai sabe disso.

    Então, os dois fizeram um pacto perante o Eterno. Davi ficou em Oraza e Jonatas voltou para casa. Alguns ifeus procuraram Saul em Gibeá e disseram: “Sabia que Davi está se escondendo perto de nós nas fortalezas e cavernas de Oraza? Neste momento, ele está nas colinas de Aquilá, ao sul do deserto de Gesimon. Quando você estiver pronto, será uma honra entregá-lo nas mãos do rei.

    Saul respondeu: “O Eterno abençoe vocês por pensarem em mim. Agora voltem e verifiquem tudo. Descubram por onde ele anda e quem o acompanha. Vocês sabem que ele é muito astuto. Descubram todos os esconderijos dele. Depois encontrem-se comigo em Nacom e eu acompanharei vocês. Em qualquer lugar de Judá que ele estiver, eu o encontrarei.

    E os ifeus partiram em missão de reconhecimento para Saul. Enquanto isso, Davi e seus homens estavam no deserto de Maom, ao sul do deserto de Gesimon. Saul e seus homens chegaram e logo foram atrás deles. Quando Davi soube disso, fugiu para o sul, na direção das rochas, e montou o acampamento no deserto de Maum. Saul foi informado da localização deles e partiu na direção do deserto de Maum.

    Pouco depois, Saul estava de um lado da montanha e Davi com seus homens do outro. O bando de Davi corria, tendo Saul e suas tropas no encalço deles. No meio da perseguição, um mensageiro apresentou-se a Saul e disse: “Volte depressa, os filisteus estão atacando Israel”.

    Saul foi obrigado a interromper a perseguição e retornar para resolver a situação com os filisteus. Por isso, aquele lugar foi chamado fuga apertada. Davi saiu dali e instalou-se com segurança no deserto de Engetin. Depois da luta contra os filisteus, alguém informou a Saul. Davi está agora no deserto de Engede.

    Saul convocou 3000 dos melhores soldados de Israel e partiu no encalço de Davi e seus homens. foram para a região dos rochedos dos bodes selvagens. Ele chegou até o local em que havia alguns currais de ovelhas ao lado da estrada. Perto dali havia uma gruta e Saul entrou nela para fazer suas necessidades. Acontece que Davi e seus homens estavam amontoados no fundo da gruta.

    Os homens de Davi lhe disseram: “Você acredita nisto? O eterno deve estar dizendo: “Entregarei seu inimigo nas suas mãos”. Faça com ele o que bem entender. Davi sorrateiramente cortou um pedaço da vestimenta real de Saul. No mesmo instante, sentiu-se culpado e disse aos seus homens: “Que o Eterno me livre de fazer algum mal contra o meu Senhor, ungido do Eterno.

    Não vou sequer levantar um dedo contra ele. Ele é ungido do Eterno.” Assim, Davi impediu que os seus homens acabassem com a vida de Saul. O rei levantou-se e saiu da caverna para seguir seu caminho. Então Davi se pôs à entrada da gruta e gritou para Saul: “Meu Senhor, rei meu”. Saul olhou para trás. Davi se ajoelhou, fez uma reverência e exclamou: “Por que dá ouvidos aos que dizem: “Davi quer tirar a sua vida? O senhor acabou de ter a prova de que isso não é verdade.

    Aqui dentro da gruta, o Eterno pôs o Senhor em minhas mãos. Meus homens queriam matá-lo, mas eu não permiti. Eu disse que não levantaria um dedo sequer contra o meu Senhor, pois é ungido do Eterno. Veja isto aqui, meu Pai. Veja este pedaço de pano que cortei da sua roupa. Eu poderia ter cortado o Senhor ao meio, mas não o fiz. Esta é a prova. Não estou contra o Senhor. Não sou rebelde.

    Não pequei contra o rei. Mas o Senhor está tentando me matar. Vamos decidir quem está certo. O Eterno poderá me vingar, mas isso está nas mãos dele, não nas minhas. Um antigo provérbio diz: “A perversidade vem dos perversos. Por isso, ten a certeza de que as minhas mãos não tocarão no Senhor.

    O que o rei de Israel acha que está fazendo? A quem está perseguindo? Um cão morto, uma pulga. O Eterno é nosso juiz. Ele decidirá quem está certo. Que bom fosse se ele olhasse neste instante, resolvesse a situação agora mesmo e me livrasse do Senhor. Quando ele acabou de falar, Saul perguntou: “É a voz do meu filho Davi?” E começou a chorar, reconhecendo.

    Você está certo. Não, eu. Você me tratou bem. Eu é que estou desejando o pior para você. Mais uma vez, você foi generoso para comigo. O Eterno me entregou em suas mãos, mas você não me matou. Por quê? Quando alguém se encontra com seu inimigo, acaso ele o despede com uma bênção? Que o Eterno o recompense pelo bem que me fez hoje.

    Agora tenho certeza de que você será rei e que o reino de Israel estará em boas mãos. Prometa-me perante o eterno que não destruirá a minha família, nem eliminará o meu nome da história da minha família. Davi jurou a Saul. Em seguida, Saul voltou para casa e Davi e seus homens retornaram para seu refúgio no deserto. Samuel morreu. Toda a nação prestou suas últimas homenagens a ele.

    Todos lamentaram sua morte e ele foi sepultado em sua cidade natal, Ramá. Enquanto isso, Davi continuou foragido, seguindo dessa vez para o deserto de Maon. Havia um homem em Maon que tinha negócios na região do Carmelo. Ele era muito próspero, possuía 3000 ovelhas e 1000 cabritos e era a época de tosquear as ovelhas no Carmelo. Ele se chamava Nabal too.

    Era descendente de Calebe e sua mulher se chamava Abigail. A mulher era inteligente e bonita, mas o homem era bruto e maldoso. Ainda no deserto, Davi soube que Nabal estava tusqueando suas ovelhas e enviou 10 rapazes com a seguinte instrução: “Vão até o Carmelo e procurem Nabal. Saúdem-no em meu nome. Paz! Vivam em paz você e sua família.

    Paz para todos os que estão com você. Soube que está no tempo de tosquear ovelhas. Queremos que você saiba que quando seus pastores estavam próximos de nós, não tiramos proveito deles. Eles não perderam nada do que era deles quando estavam conosco no Carmelo. Seus rapazes confirmarão isso. Pergunte a eles.

    Agora peço que seja generoso para com os meus homens, permitindo que participemos da festa. Dê aos servos e a mim, Davi, seu filho, a quantidade de suprimento que desejar. Os rapazes de Davi transmitiram a mensagem a Nabal, mas o homem os rechaçou. Quem é esse Davi? Quem é esse filho de Jessé? Ultimamente há muitos foragidos por aqui.

    Vocês acham que eu vou pegar pão, vinho e carne que acabei de abater para os meus tosqueadores e oferecer para homens que nunca vi e que ninguém sabe de onde vem? Os homens de Davi retornaram e contaram tudo o que Nabal tinha dito. Davi tomou uma decisão. Preparem as suas espadas. Todos, até mesmo Davi, puseram a espada à cintura e partiram. Eram 400 homens. 200 homens permaneceram no acampamento. Nesse meio tempo, um dos jovens pastores contou a Abigail, mulher de Nabal, o que tinha acontecido.

    Davi mandou mensageiros do deserto para saudar o nosso Senhor, mas ele foi grosseiro com eles e os insultou. Acontece que aqueles homens sempre nos trataram muito bem, nunca roubaram nada de nós, nem se aproveitaram da gente durante todo o tempo que estivemos no campo. Eles até serviram como muro de defesa ao nosso redor, porque nos protegiam dia e noite enquanto cuidávamos das ovelhas.

    Faça alguma coisa logo, pois algo de ruim vai acontecer ao nosso Senhor e a todos nós. Ninguém consegue convencê-lo. Ele é intrratável. Abigail não perdeu tempo. Ela preparou 200 pães, duas vasilhas de couro de vinho, cinco ovelhas preparadas e prontas para assar, cinco medidas de grão tostado, 100 bolos de passas e 200 bolos de figo e acomodou a carga sobre alguns jumentos.

    Ela disse aos seus rapazes: “Vão à minha frente, preparando o caminho. Eu seguirei logo atrás”. Mas ela não disse nada ao marido. Montada em seu jumento, ela descia pela encosta da montanha, enquanto Davi e os seus homens desciam a outra encosta, um grupo ao encontro do outro. Davi dizia: “De nada valeu proteger os bens desse homem no deserto. Agora ele nos recompensa com insultos.

    É como levar um tapa na cara. Deus faça o que quiser com os inimigos de Davi, se até amanhã cedo eu deixar vivo um único desses viralatas de Nabal. Assim que viu Davi, Abigaí desceu do jumento e se prostrou aos pés dele com um rosto em terra, dizendo: “Meu Senhor, eu sou culpada. Deixe-me explicar. Ouça o que tenho a dizer.

    Não leve em conta a maldade de Nabal. Ele é o que o nome diz, Nabal, tolo. Dele só sai tolice. Eu não estava lá quando chegaram os rapazes que o meu Senhor enviou, por isso não os encontrei. Agora, meu Senhor, assim como vive o Eterno e como o Senhor vive, Deus o impediu de cometer essa vingança.

    Que todos os seus inimigos e todos que desejam mal ao meu Senhor tenham o mesmo destino de Nabal. Receba esta dádiva que eu, sua serva, trouxe ao meu Senhor e ofereça aos rapazes que seguem os seus passos. Perdoe minha audácia, mas sei que o Eterno está preparando o meu Senhor para um governo íntegro e estável. Meu Senhor luta as guerras do Eterno. Enquanto viver, nenhum mal sucederá a você.

    Se alguém puser obstáculo em seu caminho, se alguém tentar desviar o Senhor, saiba que a sua vida honrosa ao eterno está amarrada com firmeza ao feixe das vidas protegidas por Deus. Mas a vida de cada um dos seus inimigos será tirada longe, como a pedra lançada com Stiling. Quando o Eterno realizar todo o bem que prometeu ao meu Senhor e o estabelecer como príncipe de Israel, não haverá em seu coração o peso de um crime de vingança. E quando o Eterno tiver feito bem ao meu Senhor, lembre-se de mim.

    Davi exclamou: Bendito seja o Eterno, Deus de Israel. Ele enviou você para me encontrar. Seja abençoada pela sua sensatez. Seja bendita por me impedir de cometer esse crime e por se preocupar comigo. Juro pelo eterno, Deus de Israel, que me impediu de fazer mal a você.

    Não fosse a sua vinda aqui esta manhã, não restaria viva alma na casa de Nabal. Davi aceitou a comida que ela trouxe e disse: “Volte em paz. Concordo com o que você disse e vou fazer o que me pediu. Quando Abigail voltou para casa, encontrou o Nabal no meio de um banquete. Ele estava de bom humor porque tinha bebido muito.

    Assim, ela preferiu não contar nada do que tinha feito até a manhã seguinte. No outro dia, quando Nabal já estava sóbrio, Abigail contou o que tinha acontecido. Na mesma hora, ele teve um infarto e entrou em coma. 10 dias depois, ele morreu. Quando Davi soube que Nabal tinha morrido, ele declarou: “Bendito seja o Eterno que me defendeu contra os insultos de Nabal, impedindo-me de cometer um crime e permitiu que a maldade dele se voltasse contra ele mesmo.

    Em seguida, mandou dizer a Abigail que desejava que ela fosse sua mulher. Os mensageiros de Davi foram até o Carmelo e disseram a Abigail: “Davi mandou buscá-la para que você se case com ele.” Ela se prostrou com o rosto em terra, dizendo: “Sou serva dele. Estou pronta para fazer o que ele quiser. Estou disposta até a lavar os pés dos subordinados dele.” Sem hesitar, ela montou em seu jumento.

    acompanhada de cinco escravas, seguiu os mensageiros de Davi e se tornou mulher dele. Davi também se casou com Ainoan de Jesrael. Ambas foram suas mulheres. Saul tinha dado a sua filha Mical, mulher de Davi, a Pautiel, filho de Laí, de Galim. Alguns feus procuraram Saul em Gibeá e disseram: “Sabia que Davi está escondido na colina de Aquilá, do outro lado de Gesimon?” No mesmo instante, Saul se levantou e partiu para o deserto de Zif, levando 3000 dos melhores soldados para procurar Davi naquele deserto. Ele ficou acampado perto da estrada, na colina de Aquilá,

    do outro lado de Gesimon. Davi, ainda no deserto, soube que Saul estava atrás dele. Ele enviou espiões para descobrir onde exatamente Saul estava. Depois que descobriu, Davi foi até o lugar em que Saul estava acampado e descobriu onde estava a tenda de Saul e Abner, filho de Ner, seu general. Saul estava bem protegido dentro do acampamento, rodeado por seu exército.

    Davi perguntou a Imele, o Itita, e a Abisai, filho de Zeruia, irmão de Joabe, qual de vocês vai entrar comigo no acampamento de Saul? Abisai respondeu: “Eu vou junto.” À noite, Davi e Abisai entraram no acampamento e encontraram Saul deitado lá no meio, dormindo. Sua lança estava fincada no chão, perto da cabeça dele.

    Abner e seus soldados estavam espalhados, dormindo profundamente. Abizai disse: “É agora Deus entregou o inimigo em suas mãos. Deixe-me cravá-lo ao chão com a lança dele. Basta um golpe, não vou precisar de outro. Mas Davi disse a Abisai: “Não se atreva a machucá-lo.

    Ninguém pode ferir o ungido do Eterno e escapar impune.” Ele prosseguiu. Assim como vive o Eterno, Deus mesmo irá matá-lo. Ou seu dia chegará e ele morrerá em casa ou ferido em batalha, mas longe de mim tocar no ungido do Eterno. Agora pegue a lança dele e o cantil de água e vamos sair daqui. Depois de pegar a lança e o cantil de água que estavam perto da cabeça de Saul, eles foram embora.

    Ninguém percebeu nada. Ninguém acordou. Todos ficaram dormindo o tempo todo, porque um profundo sono vindo do Eterno tinha caído sobre eles. Davi foi para o outro lado do monte e escolheu a um local distante lá no alto. Daquela distância segura, Davi gritou para o exército e para Abner, filho de Ner.

    Abner, até quando vou ter de esperar vocês acordarem, me responderem? Abnir disse: “Quem está chamando o rei?” Davi disse: “Você não está no comando aí? Por que não está fazendo o seu trabalho? Porque não protege o seu senhor, o rei quando um soldado põe a vida dele em perigo? Você não está cumprindo o seu dever. Assim como vive o eterno, você deveria ser executado e toda a guarda pessoal do rei também.

    Veja o que eu tenho em minhas mãos. a lança e o cantil do rei que estavam ao lado dele. Saul, reconhecendo a voz de Davi, perguntou: “É você, meu filho Davi?” Davi respondeu: “Sim, sou eu, o rei, meu senhor. Por que o Senhor me persegue? O que fiz de errado? Que crime cometi? Ouça, meu Senhor e meu Rei, o que o seu servo tem a dizer.

    Se o Eterno incitou o Senhor contra mim, então entrego a minha vida em sacrifício. Mas se foram os homens que o instigaram, que sejam banidos da presença do Eterno. Eles cercearam o meu direito na herança do Eterno, como se dissessem: “Vai embora, vá servir outro Deus”. Mas o Senhor não se livrará de mim tão facilmente.

    Não conseguirá me separar do Eterno na vida ou na morte. Que absurdo. O rei de Israel obsecado por uma pulga, perseguindo uma perdiz na montanha. Saul reconheceu. Tem razão. Errei. Volte, meu filho Davi. Não causarei mais nenhum mal a você. Você foi leal para comigo, respeitando minha vida, enquanto eu estou sendo insensato e cometendo grande erro.

    Davi respondeu: “Está vendo isto aqui? É a lança do rei. Mande um dos soldados buscá-la. Ao eterno compete decidir o que fazer com cada um de nós com respeito ao que é correto. O Eterno entregou sua vida em minhas mãos hoje, mas eu não quis levantar nem mesmo um dedo contra o ungido do Eterno.

    Assim como respeitei sua vida hoje, que o Eterno tenha consideração pela minha e me livre desta aflição. Saúde-se a Davi. Bendito seja você, meu filho Davi. Faça o que tem de fazer. Espero que seja bem-sucedido em todos os seus esforços. Davi seguiu seu caminho e Saul voltou para casa. Davi pensou, uma hora dessas Saul vai conseguir me capturar. Melhor eu fugir para a terra dos filisteus.

    Ele vai me considerar uma causa perdida e desistirá de me perseguir por todos os cantos de Israel. porque estarei fora do seu alcance para sempre. Davi partiu com seus 600 homens e foi recorrer a Aquis, filho de Maoque, rei de Gate. Eles se estabeleceram em Gate sob a proteção de Aquis. Cada um deles levou sua família. Davi levou suas duas esposas, Ainoan de Jesrael e Abigail, viúva de Nabal do Carmelo.

    Quando Saul recebeu a notícia que Davi tinha fugido para Gate, desistiu de persegui-lo. Davi disse a Aquis: “Se o senhor concordar, designe para mim um lugar entre as aldeias rurais. Não me parece correto que eu, mero servo esteja vivendo na cidade real.” Aquis designou Z Clag.

    Foi assim que Ziclag veio a ser o que é hoje, cidade dos reis de Judá. Davi residiu um ano e 4 meses entre os filisteus. De vez em quando, Davi e seus homens atacavam os jesuritas, os jersitas e os amalequitas. Esses povos eram antigos habitantes da terra que se estende de sur até o Egito. Quando Davi atacava uma região, não deixava ninguém vivo, nem homem, nem mulher. e levava tudo, ovelhas, bois, jumentos, camelos e roupas.

    Depois voltava para Aquis. Quando Aquis perguntava: “Quem você atacou hoje?” Davi respondia: “Hoje foi o de Judá ou o sul de Jerameel ou o sul dos Keneus? Ele nunca deixava um único sobrevivente para que ninguém aparecesse em Gate e denunciasse Davi. Davi agiu assim durante todo o tempo em que viveu entre os filisteus.

    Aquis passou a confiar totalmente em Davi. Ele pensava: “Ele foi tão odiado pelo seu povo que permanecerá comigo para sempre. Naquele tempo, os filisteus convocaram o exército para lutar contra Israel. Aquis disse a Davi: “Você e seus homens sairão à guerra com as minhas tropas.” Davi respondeu: “Está bem, você mesmo verá o que eu sou capaz de fazer.

    ” Aquis disse: “Ótimo, você fará parte da minha guarda pessoal para sempre”. Samuel já tinha morrido. Todo Israel tinha lamentado sua morte e o tinha sepultado em sua cidade natal, Ramar. Saul tinha eliminado da nação todos os que consultavam os espíritos dos mortos. Os filisteus convocaram suas tropas e acamparam em Sunem. Saul reuniu todo Israel. e acampou em Gilboa.

    Mas quando Saul viu as tropas dos filisteus, tremeu de medo. Saul orou ao Eterno, mas Deus não respondeu nem por sonhos, nem por sinais, nem por meio de algum profeta. Aflito, Saúde deu ordens aos seus oficiais. Procurem alguém que possa invocar os espíritos para que eu me aconselhe com esses espíritos.

    Os oficiais disseram: “Há uma mulher em Endor”. Saul disfarçou-se vestindo outra roupa e na companhia de dois homens foi à noite procurar a mulher. Ele lhe pediu a ela, quero que você consulte para mim um espírito. Faça subir a pessoa de quem eu disser o nome. A mulher respondeu: “Espere um pouco.

    Você sabe que Saul eliminou da nação todos os que consultavam espíritos dos mortos? Você sabe que está me pondo numa situação que pode me levar à morte, não é?” Saul jurou solenemente: “Assim como vive o Eterno, você não será castigada por isso”. A mulher respondeu: “Então, quem você quer que eu faça subir?” “Suel, faça subir Samuel!” Quando a mulher viu Samuel, gritou para Saul: “Por que mentiu para mim? O Senhor é Saul”. O rei disse a ela: “Não tenha medo.

    O que você vê?” A mulher respondeu: “Estou vendo um espírito subindo da terra.” Saul perguntou: “Com quem ele se parece?” Ela disse: “Com um velho que está subindo, vestido como sacerdote.” Saul sabia que era Samuel. Ele se prostrou com o rosto em terra e adorou.

    Samuel disse a Saul: “Por que você me perturba fazendome-me subir?” Saul respondeu: “Porque estou profundamente perturbado. Os filisteus estão se preparando para me atacar e Deus me abandonou. Ele não me responde mais, nem por meio de profeta, nem por sonhos. Por isso, mandei chamá-lo para que me diga o que fazer.” Samuel perguntou: “Mas por você está perguntando isso para mim? O Eterno abandonou você e se tornou seu adversário.

    O Eterno fez exatamente o que já tinha dito por meu intermédio. Ele arrancou o reino de suas mãos e o entregou ao seu adversário. Já que você não obedeceu ao eterno e se recusou a cumprir suas ordens com relação aos amalequitas, o eterno está fazendo isso com você hoje. ainda. O Eterno está entregando Israel junto com você nas mãos dos filisteus.

    Amanhã você e seus filhos estarão comigo. O exército de Israel também será entregue nas mãos dos filisteus. No mesmo instante Saul despencou no chão, aterrorizado pelas palavras de Samuel. Ele não tinha mais forças, pois não tinha comido nada o dia inteiro. A mulher, percebendo que ele estava em estado de choque, disse: “Oa, eu apenas fiz o que o senhor pediu. Arrisquei a minha vida, cumprindo a risca as suas instruções.

    Agora o senhor deve seguir as minhas instruções. Como alguma coisa, isso dará forças para o senhor seguir seu caminho.” Mas ele recusou. Não vou comer nada. Seus acompanhantes concordaram com a mulher e insistiram com ele. Saul finalmente cedeu e sentou-se na cama. A mulher se apressou, matou um bezerro gordo, pegou um pouco de farinha, amassou-a e assou alguns pães sem fermento.

    Ela serviu a Saul e sua comitiva. Depois de se satisfazerem, eles se levantaram e seguiram seu caminho ainda naquela noite, os filisteus reuniram suas tropas em Af. Israel montou o acampamento perto da fonte de Jesrael. Enquanto os comandantes filisteus avançavam com seus regimentos e pelotões, Davi e seus homens iam à retaguarda com aquis.

    Mas os oficiais filisteus se reuniram e disseram: “O que esses hebreus estão fazendo aqui?” Aquis respondeu aos oficiais: “Vocês não reconhecem Davi, que era servo do rei Saul de Israel? Ele está comigo há muito tempo. Não tenho nenhuma reclamação dele desde que abandonou Saul”.

    Os oficiais filisteus ficaram furiosos comis e disseram: “Mande-o de volta para o lugar de onde ele veio”. Ele não vai sair à guerra conosco. Ele poderá mudar de lado no meio da batalha. Seria uma ótima oportunidade para ele resgatar a confiança do seu senhor à custa da cabeça dos nossos soldados. Não é esse o mesmo Davi que aclama cantando Saul matou milhares, Davi dezenas de milhares.

    Assim, Aquis mandou dizer a Davi: “Assim como vive o Eterno, você tem sido um aliado merecedor de toda a confiança. Tem sido correto em tudo que fez para mim. Não tenho nenhuma reclamação de sua conduta, mas os comandantes não entendem assim. Por isso, é melhor você voltar em paz.

    Não vale a pena aborrecer os comandantes filisteus.” Davi perguntou: “Mas o que foi que eu fiz? O senhor tem alguma reclamação contra mim desde que vim para cá? Por que não posso lutar contra os inimigos do meu senhor, o rei? Aquis respondeu: “Concordo com você. Na minha opinião, você é boa gente. É como um anjo de Deus. Mas os comandantes filisteus estão irredutíveis.

    Disseram: “Ele não pode ir conosco para a guerra”. Por isso, você e seus homens precisam ir embora. Assim que clarear o dia e puderem viajar, deixem no acampamento. Davi e seus homens se levantaram bem cedo e ao clarear do dia, estavam a caminho de volta para a terra dos filisteus. Os filisteus foram para Jesrael. Três dias depois, Davi e seus homens chegaram de volta a Ziclag e viram que os amalequitas tinham atacado a cidade e o Neguepe.

    Ziclag tinha sido incendiada e as mulheres, os jovens e os velhos, tinham sido feitos prisioneiros. Não mataram ninguém, mas levaram o povo como se fosse um rebanho. Davi e seus homens encontraram a cidade destruída. Suas mulheres, seus filhos e filhas tinham sido levados prisioneiros. Davi e seus homens choraram incontrolavelmente até esgotar suas forças.

    As duas mulheres de Davi, Ainoan de Jesrael e Abigail, viúva de Nabal do Carmelo, também foram levadas prisioneiras com os demais. De repente, Davi percebeu que estava em apuros, pois os homens, ressentidos com a perda de suas mulheres, falavam em apedrejá-lo. Mas ele encontrou forças no Eterno o seu Deus, e disse ao sacerdote Abiatar, filho de Aimelec: “Traga o colete sacerdotal para que eu consulte o Eterno.

    ” Abiatar trouxe o colete a Davi. Davi orou ao Eterno. Devo perseguir os invasores? irei alcançá-los?” O Eterno respondeu: “Persiga-os. Você os alcançará e conseguirá tomar de volta o que levaram.” Davi saiu com seus 600 homens. chegaram ao ribeiro de Bezor e alguns deles resolveram ficar ali.

    Davi e 400 homens iriam continuar a perseguição, mas 200 deles estavam cansados demais para atravessar o ribeiro. Por isso não seguiram adiante. Alguns dos que atravessaram o Besor encontraram o egípcio no campo e o levaram a Davi. Eles deram comida ao homem e ele comeu. Também bebeu água. Deram-lhe um pedaço de bolo de figo e alguns bolinhos de passas.

    E ele começou a recuperar as forças, pois não tinha comido nem bebido nada durante três dias e três noites. Davi perguntou: “Quem é você? De onde você vem?” Ele respondeu: “Sou egípcio, escravo de uma malequita. Meu senhor me abandonou quando fiquei doente três dias atrás.

    Atacamos a região ao sul dos queretitas de Judá e do território de Calebe. Também incendiamos e Clar. Davi fez outra pergunta. Você consegue nos levar até os invasores? Ele respondeu: “Se o Senhor me prometer diante de Deus que não me matará, nem me entregará meu Senhor, eu os levarei diretamente a eles.” Assim o homem guiou Davi até os invasores.

    Eles estavam espalhados por todo o acampamento, comendo, bebendo e comemorando o resultado do saque da terra dos filisteus e de Judá. Davi os atacou no dia seguinte, lutou contra eles desde o amanhecer até a noite. Ninguém escapou, exceto 400 guerreiros, os mais jovens, que fugiram montados em camelos. Davi resgatou tudo que os amalequitas tinham levado.

    Resgatou também suas duas mulheres. Ninguém morreu e nada foi perdido. Jovens, velhos, filhos, filhas, bens ou qualquer outra coisa. Davi recuperou tudo. Eles ainda levaram as ovelhas e os bois que pertenciam aos amalequitas e todos gritavam: “Estes são os despojos de Davi”. Davi fez o caminho de volta até os 200 homens que permaneceram no ribeiro de Bezor por estarem cansados demais para continuar com ele.

    Eles vieram ao encontro de Davi e seus homens. Quando Davi se aproximou, gritou para eles: “Foi um sucesso.” Mas os homens mal intencionados e perversos que tinham acompanhado Davi reclamaram: “Quem não ajudou no ataque não vai ter sua parte nos despojos. Podem pegar de volta sua mulher e seus filhos, mas apenas isso é só o que irão levar.

    ” Davi os interrompeu. Não é assim que se faz em família, meus irmãos. Não podemos agir assim com aquilo que o Eterno nos entregou. Deus nos protegeu. Ele nos entregou os homens que nos atacaram. Quem daria ouvidos a essa conversa? A parte dos que ficaram com a bagagem será a mesma dos que saíram para a batalha. Todos receberão partes iguais.

    Dali em diante, Davi estabeleceu essa regra em Israel, válida até hoje. Ao voltar a Ziclag, Davi mandou parte do despojo para os líderes de Judá. Seus vizinhos com o seguinte recado: “Este é um presente do despojo dos inimigos do Eterno. Receberam presentes os líderes de Betel, de Ramote do Neguebe, de Jatir, de Aroer, de Zifmote, de Estemoa, de Racau, das cidades dos gerameelitas, das cidades dos Queneus, de Hormá, de Corazã, de At, de Hebron e de vários outros lugares que Davi e seus homens visitavam de tempos em tempos.

    Os filisteus atacaram Israel e os homens de Israel fugiram dos filisteus. Muitos caíram feridos no monte Gilboa. Os filisteus alcançaram Saul e seus filhos e mataram Jonatas, Abinadabe e Malquzua, filhos de Saul. A batalha foi intensa em torno de Saul. Os arqueiros chegaram perto dele e o feriram. gravemente.

    Por isso, Saul disse ao seu escudeiro: “Pegue sua espada e me mate, para que eu não seja morto nas mãos desses pagãos profanos e seja humilhado por eles.” Mas seu escudeiro não teve coragem de matar o rei. Então, o próprio Saul se jogou sobre a sua espada. Quando o escudeiro viu que Saul estava morto, também se jogou sobre a própria espada e morreu.

    Assim, Saul, seus três filhos e seu escudeiro, os mais próximos dele, morreram naquele dia. Quando os israelitas que estavam no vale do outro lado e os que estavam do outro lado do Jordão, perceberam que o exército fugia e que Saul e seus filhos tinham morrido, abandonaram suas cidades e fugiram para se salvar.

    Os filisteus entraram e ocuparam as cidades. No dia seguinte, quando os filisteus vieram saquear os mortos, encontraram Saul e seus três filhos mortos no monte Gilboa. Eles cortaram a cabeça de Saul e tiraram sua armadura. Em seguida, espalharam a notícia por todo o território dos filisteus, nos santuários dos seus ídolos e entre todo o povo.

    Eles exibiram a armadura de Saul no santuário de Astarote e penduraram seu corpo no muro de Betsanã. Os moradores de Jabes de Leade ouviram o que os filisteus fizeram a Saul, e alguns homens corajosos dentre eles partiram para a ação. Viajaram a noite toda, resgataram o corpo de Saul e de seus três filhos do muro de Betsã e os levaram de volta para Javes, onde os queimaram.

    Depois enterraram os ossos debaixo de uma tamareira ali mesmo na cidade e guardaram o luto com o jejum durante 7 dias.

  • O milionário pagou fortunas para curar suas gêmeas, mas quem descobriu a verdade foi a babá negra

    O milionário pagou fortunas para curar suas gêmeas, mas quem descobriu a verdade foi a babá negra

    Você já imaginou acordar um dia e descobrir que suas filhas nunca mais iriam falar? Que o som das vozes delas, suas risadas, os papai carinhosos simplesmente tivessem desaparecido para sempre? Foi exatamente isso que aconteceu com Artur Medeiros, um bilionário brasileiro. Mas um dia, ao chegar mais cedo de uma reunião, ele viu suas filhas gêmeas vestidas com jalecos de brinquedo brincando de médicas com a nova funcionária da casa, uma mulher negra chamada Alice.

    E o que mais o chocou foi que as meninas falaram pela primeira vez desde a perda da mãe. Esta é uma história que vai tocar seu coração do começo ao fim. Nós damos vida às memórias e às vozes que nunca tiveram espaço, mas que guardam a sabedoria de uma vida inteira. Arthur estava voltando de uma viagem de negócios em Dubai quando recebeu a ligação que ninguém jamais quer receber.

    Sua esposa Laura, havia falecido, mas suas filhas gêmeas, Sofia e Helena, duas garotinhas de apenas 5 anos, sofreram e muito. Quando Artur chegou à sua mansão em São Paulo, a casa estava em silêncio. Um silêncio pesado, sufocante. Sofia e Helena estavam sentadas no quarto, abraçadas uma à outra, olhando para o nada. Ele se ajoelhou na frente delas, tentou conversar, implorou por uma palavra, um olhar, qualquer coisa, nada.

    As meninas simplesmente pararam de falar. Nos dias seguintes, Artur fez o que qualquer pai desesperado faria. ligou para os melhores especialistas do Brasil e quem apareceu foi a Dra. Beatriz Ferraz, uma neurologista renomada, antiga amiga da família e consultora de uma das clínicas mais caras da cidade.

    Beatriz examinou as gêmeas com atenção, fez testes, ressonâncias e avaliações com um colega de outra cidade e então com uma expressão grave, deu o diagnóstico quando os exames chegaram. Artur, eu sinto muito. O trauma da perda foi tão severo que causou um mutismo permanente. Elas nunca mais voltarão a falar. Arthur sentiu o chão desaparecer sob.

    Nunca, perguntou com a voz trêmula. Nunca, respondeu Beatriz, colocando a mão em seu ombro com uma falsa compaixão. Mas faremos tudo o que estiver ao nosso alcance. Terapias, tratamentos experimentais, acompanhamento contínuo. Pode contar comigo. E assim começou uma maratona de se meses de consultas. medicamentos, terapias caríssimas e aparelhos importados.

    Arthur gastou uma fortuna, contratou os melhores profissionais da Europa, transformou a casa em uma clínica particular, mas Sofia e Helena continuavam em silêncio. A mansão, antes cheia de vida e risadas infantis, se tornou um mausoléu. Artur mal conseguia dormir. Trabalhava freneticamente durante o dia para não pensar e à noite ficava observando as filhas dormirem, se perguntando se um dia ouviria suas vozes novamente.

    Foi então que tudo mudou. Seis meses após a tragédia, Arthur precisava contratar alguém para ajudar na limpeza e organização da casa. A equipe estava sobrecarregada e ele mal conseguia cuidar de si mesmo, muito menos de uma mansão enorme. Foi assim que Alice Silva entrou em suas vidas. Alice era uma mulher negra de 30 anos, com olhos cansados e um sorriso discreto que parecia esconder muitas histórias.

    Em seu currículo constava empregada doméstica, experiência em casas de família. O que não estava escrito era que até do anos antes, Alice tinha sido uma enfermeira promissora trabalhando em um dos principais hospitais de Belo Horizonte. Até que tudo desmoronou. Alice foi acusada de negligência médica após a perda de um paciente.

    A investigação foi apressada, o laudo técnico foi devastador e ela perdeu o seu registro profissional. perdeu o emprego, a reputação, a vida que havia construído e o laudo que destruiu tudo havia sido assinado pela doutora Beatriz Ferraz. Alice não sabia que a mesma médica que havia arruinado sua vida agora tratava as filhas do homem para quem ela iria trabalhar.

    Coisas do destino e suas ironias cruéis. Em seu primeiro dia de trabalho, Alice chegou à mansão com uma mochila velha e um nervosismo contido. Artur mal olhou para ela, deu as instruções básicas, mostrou a casa e voltou para seu escritório. Mas Alice notou as meninas imediatamente. Sofia e Helena estavam sentadas na sala brincando em silêncio com bonecas.

    Nenhum som, nenhuma palavra, apenas gestos. Alice sentiu um nó no peito. Ela conhecia aquele olhar, aquele vazio. Então, sem pensar muito, enquanto limpava a sala, Alice começou a cantar. Era uma canção de Ninar antiga que sua avó cantava para ela quando era criança. Sua voz era suave, melodiosa, carregada de uma ternura genuína.

    Sofia levantou a cabeça. Helena parou de brincar. As duas olharam para Alice com uma atenção que ninguém mais conseguira despertar em meses. Arthur, que passava pelo corredor, ficou paralisado. Observou de longe, com o coração acelerado. Suas filhas estavam reagindo. Nos dias seguintes, algo estranho aconteceu. Sofia e Helena começaram a seguir Alice pela casa.

    Não falavam, mas ficavam por perto, observando cada movimento. E Alice, sem perceber, foi criando uma rotina. Cantava enquanto trabalhava, contava histórias em voz alta, mesmo sem resposta. Fingia conversas divertidas consigo mesma, que faziam as meninas esboçarem tímidos sorrisos. Arthur começou a chegar mais cedo do trabalho apenas para observar.

    Ele via algo que os médicos caros não haviam conseguido. Alice estava trazendo a vida de volta para aquela casa, mas ele não entendia como e isso o incomodava. Passaram-se três meses. Alice já era parte da rotina. As gêmeas a seguiam como duas sombras leais. E então, numa tarde comum de abril, algo extraordinário aconteceu.

    Artur chegou mais cedo do trabalho. A casa estava estranhamente silenciosa. Ele subiu às escadas e ouviu risadinhas abafadas vindas do quarto das meninas. abriu a porta devagar e o que viu o deixou paralisado. Alice estava deitada num colchão no chão, de olhos fechados, fingindo estar doente.

    Sofia e Helena estavam ao seu lado vestindo jalecos brancos de brinquedo com estetoscópios de plástico pendurados no pescoço. Estavam brincando de médicas e então aconteceu: “Mamãe, você precisa tomar o remédio”, disse Sofia com uma voz fininha, mas clara. É, mamãe, senão você não vai sarar. Completou Helena, segurando uma seringa de brinquedo.

    Artur sentiu as pernas fraquejarem. Lágrimas rolaram por seu rosto sem controle. Ele tapou a boca para não fazer barulho e simplesmente desabou ali encostado no batente da porta. Elas tinham falado pela primeira vez em seis meses. Suas filhas falaram. Alice abriu os olhos assustada ao ver a Artur ali e logo se levantou envergonhada.

    Senhor Artur, eu não queria. Elas começaram a brincadeira e eu não quis decepcioná-las, mas Arthur levantou a mão ainda chorando, incapaz de falar. Entrou no quarto, ajoelhou-se diante das meninas e as abraçou com força, como se quisesse protegê-las do mundo inteiro. “Papai, você tá chorando?”, perguntou Sofia confusa.

    “Não é nada, minha princesa, é só felicidade”, respondeu ele com a voz embargada. Naquela noite, Arthur ligou imediatamente para a Dra. Beatriz e contou o que havia acontecido. Estava eufórico, esperando que ela compartilhasse sua alegria, mas a reação dela foi estranha. “Arthur, isso é preocupante”, disse Beatriz com a voz séria.

    “As meninas estão chamando uma funcionária de mãe. Isso pode ser um sinal de apego inseguro, de confusão emocional. Essa mulher representa um risco.” “Risco, Beatriz”. Elas voltaram a falar temporariamente e de forma desordenada. Preciso avaliar isso pessoalmente. E com todo respeito, Artur, você sabe quem essa mulher é de verdade? De onde ela veio? Você já verificou os antecedentes dela? Arthur ficou em silêncio.

    “Vou investigar”, disse Beatriz por precaução. E foi aí que tudo começou a desmoronar outra vez. Beatriz com sua rede de contatos, não demorou a descobrir o passado de Alice e foi direto contar para Arthur. Ela foi expulsa da medicina por negligência. Causou a morte de um paciente, perdeu o registro.

    está trabalhando ilegalmente como enfermeira disfarçada de empregada. Você realmente quer essa pessoa perto das suas filhas? Arthur sentiu o sangue gelar, chamou Alice para conversar naquela mesma noite. “É verdade?”, ele perguntou com a voz dura. “Você foi enfermeira? Perdeu seu registro?” Alice abaixou a cabeça com as mãos tremendo. “Sim, mas não foi como disseram.

    Fui injustiçada. O paciente já estava em estado crítico quando chegou. Eu fiz tudo que pude, mas você mentiu. Mentiu no seu currículo. Entrou na minha casa escondendo quem você realmente é. Eu precisava trabalhar. Ninguém contrata uma enfermeira sem registro. Eu não tive escolha.

    Saia da minha casa, disse Artur com a voz fria. Alice sentiu as lágrimas caírem, mas não implorou, apenas pegou suas coisas e foi embora. E Sofia e Helena, que tinham ouvido tudo do alto da escada, voltaram ao silêncio. Nos dias seguintes, Arthur tentou continuar a rotina. contratou outra pessoa para ajudar em casa, mas as meninas regrediram completamente.

    Pararam de falar outra vez. ficavam no quarto, abraçadas, olhando para a porta como se esperassem que Alice voltasse. Arthur estava desesperado e furioso. Furioso com Alice por mentir. Furioso com Beatriz por ter razão. Furioso consigo mesmo por ter permitido que tudo acontecesse. Mas então, algo chamou sua atenção.

    Enquanto procurava documentos em seu escritório, Arthur encontrou um laudo médico antigo escondido no fundo de uma gaveta trancada. Era sobre Sofia e Helena, datado de seis meses atrás. Assinado por um Dr. Ricardo Campos de Belo Horizonte, Artur franziu a testa. Não conhecia esse médico porque havia um laudo dele sobre as meninas.

    Ele abriu o documento e começou a ler. E quanto mais lia, mais seu mundo desmoronava. O laudo dizia: “As pacientes apresentam trauma emocional agudo e transtorno de processamento sensorial, diagnóstico: mutismo seletivo temporário com excelente prognóstico. Com intervenção adequada, ambiente acolhedor, estímulos sensoriais suaves, musicoterapia e presença afetiva constante.

    Espera-se recuperação total da fala em três a se meses.” Artur leu três vezes, respirou fundo e com as mãos trêmulas pegou o telefone e ligou para o Dr. Ricardo. Alô, quem fala? Dr. Ricardo, meu nome é Artur Medeiros. O senhor avaliou minhas filhas há seis meses. Preciso entender uma coisa.

    Por que eu nunca recebi esse laudo? Houve uma pausa do outro lado da linha. Senr. Medeiros, eu enviei o laudo diretamente para a doutora Beatriz Ferraz, conforme ela solicitou. Ela disse que entregaria tudo ao senhor. Arthur desligou e ficou olhando para o vazio. Beatriz escondeu o laudo, mudou o diagnóstico, mentiu para ele. De repente, tudo fez sentido.

    Os tratamentos caros, as consultas intermináveis, a insistência de Beatriz em continuar acompanhando as meninas. A clínica dela faturando milhões com terapias experimentais. Sofia e Helena eram pacientes modelo, um caso raro, um estudo de caso lucrativo. Artur sentiu a raiva ferver dentro dele, mas antes de fazer qualquer coisa, precisava ter certeza.

    Dois dias depois, Arthur colocou Sofia e Helena no carro e dirigiu até Belo Horizonte. marcou uma consulta com o Dr. Ricardo sem avisar ninguém e levou Alice com ele. Sim, Alice. Ele a encontrou, pediu desculpas e implorou para que ela os acompanhasse, porque no fundo Arthur sabia que ela era a única pessoa que realmente importava para as meninas. O consultório do Dr.

    Ricardo era simples, acolhedor. Ele examinou as gêmeas com calma, fez perguntas, observou a interação delas com Alice e depois olhou para Artur com um sorriso tranquilo. Senr Medeiros, suas filhas nunca tiveram mutismo permanente. O diagnóstico sempre foi temporário. O trauma que elas sofreram precisava ser tratado com afeto, presença e segurança emocional.

    E pelo que estou vendo, ele olhou para Alice, que segurava as mãos das meninas. Elas encontraram exatamente isso. Arthur fechou os olhos e respirou fundo. Então a Beatriz mentiu. Eu não sei o que a doutora lhe disse, mas posso afirmar, o tratamento correto nunca foi medicação forte, nem terapias invasivas.

    Era amor, presença, música, brincadeira. Tudo isso que, ao que parece, esta jovem ofereceu sem cobrar nada a mais. Por isso, Artur olhou para Alice, que tinha os olhos cheios de lágrimas, e, pela primeira vez em meses, sorriu. Quando voltaram a São Paulo, Artur sabia o que devia fazer, mas Beatriz foi mais rápida.

    Antes que ele pudesse expor qualquer coisa, a imprensa explodiu com uma notícia devastadora. Enfermeira caçada se infiltra na mansão de bilionário e manipula crianças vulneráveis. Fotos de Alice entrando e saindo da casa, matérias detalhando o caso de negligência. Entrevistas com especialistas dizendo que ela representava um perigo.

    O Conselho Tutelar foi acionado e Alice foi afastada da casa por medida de proteção. Sofia e Helena entraram em colapso, pararam de comer, de dormir e voltaram ao silêncio absoluto. Artur, vendo suas filhas se deteriorarem, tomou a decisão mais importante de sua vida. Ele iria destruir Beatriz Ferraz. contratou os melhores investigadores particulares do país, auditores forenses, advogados especializados em fraude médica e começou a cavar.

    O que encontraram foi pior do que ele imaginava. Beatriz havia falsificado diagnósticos de dezenas de pacientes ao longo dos anos, desviava verbas de pesquisas, manipulava laudos para justificar tratamentos caros e desnecessários, usava a clínica como plataforma pessoal de enriquecimento. E havia outras vítimas, muitas, entre elas Alice.

    O caso de negligência que destruiu sua carreira havia sido forjado. O paciente já estava em estado terminal. O falecimento era inevitável, mas Beatriz assinou um laudo falso culpando Alice para proteger um médico influente, amigo dela. Arthur sentiu uma mistura de nojo e culpa. Ele havia acreditado em Beatriz, confiado nela e quase perdeu suas filhas por causa disso.

    As provas foram entregues ao Ministério Público. A mídia investigativa abraçou o caso e em poucas semanas o escândalo estava em todos os jornais do Brasil. Beatriz tentou negar, tentou contra-atacar, mas os documentos não mentiam. Os testemunhos eram devastadores. O julgamento foi rápido. Beatriz foi condenada por fraude médica, falsificação de laudos, desvio de recursos e formação de quadrilha, 30 anos de prisão, perda definitiva do registro médico e devolução de todos os valores desviados.

    E Alice foi completamente inocentada. Seu caso foi reaberto, revisado, e o laudo de Beatriz foi anulado. Ela recuperou seu registro profissional e recebeu uma indenização pública, mas nada disso importava tanto quanto o que aconteceu no dia em que ela voltou para a mansão. Arthur abriu a porta.

    Alice estava ali nervosa, segurando uma pequena mala. As meninas pediram para você voltar, disse ele com a voz embargada. E então, de dentro da casa, duas vozes gritaram em uníssono. Tete! Sofia e Helena desceram as escadas correndo e se jogaram nos braços dela, chorando, rindo, falando sem parar. Você voltou.

    A gente sabia que você ia voltar. Você não vai mais embora, né? Alice abraçou as duas com força, as lágrimas correndo livremente. Nunca mais, minhas princesas, nunca mais. Arthur observa a cena de longe e finalmente entendeu tudo o que suas filhas precisavam não podia ser comprado. Era presença, era afeto, era alice.

    Nos meses seguintes, a mansão mudou completamente. Não era mais um lugar frio e silencioso. Agora tinha música, risadas, vida. Arthur criou a Fundação Medeiros, dedicada a combater fraudes médicas e ajudar crianças vítimas de trauma. Alice se tornou consultora clínica da fundação, usando sua experiência para treinar profissionais sobre a importância do acolhimento emocional no tratamento infantil.

    E Sofia e Helena voltaram a ser crianças por completo. Falavam, brincavam, sonhavam. Passaram-se 10 anos. Sofia e Helena, agora com 15 anos, subiram ao palco em um evento da Fundação Medeiros. Centenas de pessoas na plateia, câmeras de televisão, olhares atentos e Sofia, segurando o microfone com firmeza, disse: “Quando eu tinha 5 anos, perdi minha mãe e perdi minha voz.

    Os médicos disseram que eu nunca mais falaria, mas eles estavam errados, porque uma mulher simples, de coração enorme, me mostrou que a cura não vem de remédios caros, nem de máquinas modernas. Ela vem do amor, da presença de alguém que realmente se importa. A Alice nos salvou e hoje eu quero ser como ela. Eu quero salvar outras crianças.

    A plateia explodiu em aplausos. Alice, sentada na primeira fila chorava. Artur, ao seu lado, pegou sua mão e sussurrou: “Obrigado por tudo. Hoje Sofia é médica pediatra, especializada em traumas infantis. Helena é psicóloga infantil. Ambas trabalham na Fundação Medeiros, ajudando crianças que passaram pelo que elas passaram.

    Alice é a diretora clínica da Fundação e Madrinha Oficial das Gêmeas. Ela visita a casa toda semana, janta com a família e é considerada parte inseparável de suas vidas. E Artur aprendeu que ser bilionário não significa nada se você não está presente. Hoje ele dedica sua vida a causas sociais, à fundação e a ser o pai que Sofia e Helena merecem.

    A mansão em São Paulo, que um dia foi um sepulcro silencioso, agora transborda a alegria. Música pelas manhãs, conversas à tarde, abraços antes de dormir, porque no final a maior fortuna de Artur não estava em suas contas bancárias, estava nas vozes de suas filhas e na mulher que as devolveu para ele. Ja.

  • O milionário caiu de joelhos, incrédulo com o que seu filho estava fazendo com uma criança de rua…

    O milionário caiu de joelhos, incrédulo com o que seu filho estava fazendo com uma criança de rua…

    Um pai multimilionário gastou fortunas a procurar a cura para o seu filho, mas quando o encontrou a brincar na rua com um menino descalço, descobriu algo que nenhum médico lhe tinha dito. O que viu fê-lo cair de joelhos e mudou tudo para sempre. Subscreve o canal e ativa a campainha para não perderes histórias que te farão refletir.

    Alguma vez alguém te fez sentir valioso quando todos te viam como diferente? Conta-nos nos comentários. Diego Santoro apertou o volante do seu Mercedes enquanto atravessava o trânsito da manhã. Ao seu lado, no banco do co-piloto, revia pela terceira vez os resultados do último exame médico de Matías.

    As palavras do neurologista ecoavam na sua cabeça como uma sentença. “Os avanços são mínimos, Senhor Santoro. Talvez seja altura de ajustar as expectativas.” Ajustar as expectativas como se o seu filho de 9 anos fosse um projeto empresarial falhado. Diego tinha construído um império tecnológico do zero. Onde outros viam problemas, ele via soluções. Onde outros desistiam, ele encontrava o caminho. Mas a cadeira de rodas de Matías tinha resistido a tudo: os melhores especialistas do país, três cirurgias experimentais, sessões intermináveis de fisioterapia, tratamentos em clínicas europeias que custavam mais do que uma casa. Nada funcionava.

    O seu telemóvel vibrou. Era Cláudia, a sua assistente pessoal. “Senhor Santoro, o Doutor Ramírez da clínica na Suíça confirmou a consulta para o próximo mês. Também chegaram os exames genéticos que ordenou. Quer que lhos envie?” “Depois”, respondeu Diego, cortante. “Agora vou buscar o Matías.”

    Estacionou em frente ao colégio privado mais exclusivo da cidade. O edifício parecia mais um resort do que uma escola, com jardins perfeitamente cuidados e segurança em cada esquina. Diego tinha-o escolhido pessoalmente, garantindo que tinha todas as adaptações necessárias para o seu filho. A professora de Matías, a Senhora Eugénia, esperava-o à entrada com um sorriso tenso que Diego conhecia bem. Era o sorriso que lhe dedicavam quando tinham más notícias, mas não o queriam perturbar. “Senhor Santoro, preciso de falar consigo sobre o Matías.”

    Diego sentiu a familiar pontada de frustração no peito. “O que é que aconteceu agora?” “Nada de grave”, apressou-se a dizer Eugénia. “É só que o Matías se tem tornado muito calado ultimamente. Nas atividades de grupo, não participa, fica sozinho durante o recreio. As outras crianças tentam incluí-lo, mas ele rejeita-as.” “Estão a chateá-lo?” “Não, nada disso. Pelo contrário, todos são muito amáveis com ele. Talvez demasiado amáveis. Tratam-no como se fosse de cristal. Acho que isso o frustra.”

    Diego apertou o maxilar. Sabia exatamente o que ela queria dizer. Tinha visto essa dinâmica mil vezes. Crianças a serem excessivamente cuidadosas com Matías, a falarem-lhe com aquele tom especial que se usa com alguém doente, a deixarem-no ganhar nos jogos por pena. “Vou falar com ele”, disse Diego secamente.

    Encontrou Matías na sala de aula a guardar as suas coisas na mochila que pendia do encosto da sua cadeira. O seu filho tinha o cabelo preto desgrenhado e os olhos escuros que herdara da mãe. Quando viu Diego, esboçou um sorriso fraco. “Olá, pai.” “Olá, campeão. Pronto para irmos?”

    O caminho para casa decorreu em silêncio. Diego tentou iniciar a conversa várias vezes, mas as respostas de Matías eram monossílabos. Finalmente, quando pararam num semáforo, Diego não aguentou mais. “A tua professora diz que não queres brincar com os teus colegas.” Matías olhou pela janela sem responder. “Matías, estou a falar contigo.” “Não quero falar sobre isso, pai.” “Por que é que não queres? Se há algum problema na escola, preciso de saber.” “Não há problema nenhum.” A voz de Matías soou cansada, mais velha do que deveria. “Está tudo bem. Todos são muito bons comigo.” “Demasiado bons. Isso é exatamente o problema.” Diego franziu a testa, sem entender. “O que é que isso significa?” Mas Matías já tinha encerrado a conversa, voltando a sua atenção para a janela.

    Diego conduziu o resto do caminho a processar as palavras do filho. “Demasiado bons.” O que é que isso significava, afinal?

    Ao chegarem a casa, Mercedes, a empregada doméstica que trabalhava com eles há 5 anos, recebeu-os à porta. Era uma mulher de meia-idade com uma expressão perpetuamente preocupada, especialmente quando se tratava de Matías. “Senhor Diego, preparei sopa de galinha para o Matías. Quer que lha sirva agora?” “Eu posso servir-me sozinho, Mercedes”, disse Matías com mais brusquidão do que o habitual. Mercedes pareceu magoada, mas assentiu e retirou-se para a cozinha. Diego observou o filho dirigir-se para o seu quarto, as rodas da sua cadeira a deixarem marcas quase invisíveis no tapete caro do corredor.

    Essa noite, depois de Matías adormecer, Diego fechou-se no seu escritório com um copo de whisky. As paredes estavam cobertas de diplomas, reconhecimentos empresariais e fotografias de Diego a apertar as mãos de políticos e investidores importantes. Mas o seu olhar parou numa única foto: Matías bebé nos braços da mãe, semanas antes de ela morrer naquele acidente. “Não sei o que fazer, Paula”, murmurou Diego ao retrato. “Tentei tudo. Os melhores médicos, os melhores tratamentos. Por que é que nada funciona?” O seu telemóvel vibrou. Outra mensagem de Cláudia com informação sobre um novo especialista em reabilitação. Diego arquivou-a automaticamente na pasta de opções médicas que já continha centenas de documentos. Tinha de haver uma solução. Havia sempre uma solução.

    No dia seguinte, Diego decidiu mudar a sua rotina. Em vez de ir diretamente para o escritório depois de deixar Matías na escola, ficaria a trabalhar do carro por algumas horas. Queria observar o filho durante o recreio, entender o que estava realmente a acontecer. O que viu perturbou-o mais do que esperava. Matías estava sozinho num canto do pátio enquanto as outras crianças brincavam. Um grupo aproximou-se dele, claramente a tentar convidá-lo a jogar, mas Matías negou com a cabeça. As crianças insistiram, e Diego conseguiu ver a frustração no rosto do filho quando ele finalmente aceitou. O que se seguiu foi doloroso de presenciar. As crianças mudaram completamente as regras do jogo para se adaptarem a Matías. Deixavam-no ganhar sem esforço. Falavam-lhe com aquele tom condescendente que os adultos usam com as crianças pequenas. E Matías… Matías simplesmente se deixava levar com uma expressão vazia no rosto.

    Diego apertou o volante até que os seus nós dos dedos ficaram brancos. Aquele não era o seu filho. O Matías que ele conhecia era engenhoso, criativo, com um sentido de humor apurado. Mas aquele menino no pátio parecia um fantasma de si mesmo. Quando tocou a campainha e as crianças voltaram para as suas aulas, Diego arrancou o carro com mais força do que o necessário.

    Conduziu sem rumo por horas. Os seus pensamentos davam voltas em círculos. Passou em frente ao seu escritório – um edifício de vidro de 20 andares que ostentava o seu nome – mas não parou. Pela primeira vez em anos, o trabalho parecia-lhe irrelevante. Sem se aperceber, os seus pés levaram-no a caminhar pelas ruas do centro. Precisava de pensar, de desanuviar a mente.

    Mas enquanto caminhava, uma cena chamou a sua atenção. Numa esquina, mesmo em frente a um semáforo, havia um menino com aproximadamente a idade de Matías. Estava descalço, com roupas rasgadas, a limpar para-brisas dos carros que paravam. A sua técnica era desajeitada, mas havia algo na sua expressão de concentração que fez Diego parar. O semáforo mudou e o menino correu para outro carro. Um condutor gritou-lhe para sair, mas o menino apenas sorriu e continuou a limpar. Quando o condutor lhe deu algumas moedas, o menino guardou-as num pote de plástico com uma mistura de orgulho e alívio.

    Diego observou a cena sem saber por que é que a achava tão fascinante. Aquele menino não tinha nada. Vivia na rua, trabalhava por moedas, provavelmente não tinha família. Mas nos seus olhos havia algo que Diego não via nos olhos de Matías há muito tempo: determinação, propósito. O semáforo mudou de novo e o menino voltou para a sua esquina. Sentou-se no lancil, a contar cuidadosamente as suas moedas. Diego notou que ele tinha uma ferida no joelho, provavelmente de uma queda recente, mas o menino não parecia prestar-lhe atenção. Era o tipo de menino que pessoas como Diego normalmente não viam. Invisível, descartável, parte da paisagem urbana que os bem-sucedidos aprendiam a ignorar. Mas Diego não conseguia parar de olhar para ele.

    Durante os dias seguintes, Diego não conseguiu tirar da cabeça a imagem daquele menino na esquina. Era absurdo. Tinha centenas de problemas mais importantes para pensar: uma fusão empresarial em curso, as próximas consultas médicas de Matías, investidores à espera de respostas. Mas cada vez que passava por aquela rua, os seus olhos procuravam automaticamente o menino do semáforo. E ele estava sempre ali: a limpar para-brisas, a pedir moedas, às vezes simplesmente sentado no passeio a observar o mundo a passar.

    Diego começou a notar detalhes. Como o menino organizava as suas poucas pertenças numa caixa de cartão, como partilhava comida com um cão de rua que o seguia, como o seu rosto se iluminava cada vez que alguém lhe dava algo. Uma tarde, Diego viu algo que o fez travar bruscamente. O menino estava a construir algo com pedaços de madeira e cartão que tinha encontrado no lixo. As suas mãos trabalhavam com concentração, a montar as peças de forma surpreendentemente hábil.

    Sem pensar duas vezes, Diego saiu do carro e aproximou-se. “O que é que estás a fazer?” O menino levantou a vista, surpreendido. Tinha os olhos verdes claros, quase transparentes, que contrastavam com a sua pele bronzeada pelo sol. Por um momento, pareceu assustado, como se esperasse que Diego o ralhasse ou o mandasse embora. Mas depois, a sua expressão relaxou. “Um carrinho, Senhor. Para levar as coisas que eu encontro.” Diego observou o projeto a meio. Era engenhoso, com rodas improvisadas feitas de tampas de latas e um eixo central construído com um cabo de vassoura partido.

    “Onde é que aprendeste a fazer isso?” O menino encolheu os ombros. “Ninguém me ensinou. Eu só pensei e fiz. Antes, tinha de carregar tudo nos braços e as coisas caíam-me. Assim, vai ser mais fácil.” Diego ficou em silêncio, impressionado com a lógica simples, mas eficaz. “Como te chamas?” “Tomás.” “E quantos anos tens?” “Nove, eu acho. A minha mãe dizia que nasci quando começaram as chuvas, mas não sei em que ano.” “E a tua mãe, onde é que está?” A luz nos olhos de Tomás apagou-se um pouco. “Foi para o céu há muito tempo. O meu pai também, um senhor que os conhecia disse-me.” Diego sentiu um peso no peito. 9 anos, a mesma idade de Matías. Mas enquanto o seu filho tinha todo o dinheiro que o mundo podia comprar, este menino nem sequer sabia a sua data exata de nascimento.

    “Precisas de ajuda para o terminar?”, perguntou Diego, apontando para o carrinho. Tomás olhou para ele com desconfiança. “Por que é que me quer ajudar? Os senhores de fato nunca ajudam.” A franqueza do comentário apanhou Diego de surpresa. Ele tinha razão. Ele próprio tinha passado em frente a este menino dezenas de vezes sem realmente o ver. “Tens razão, mas hoje eu quero ajudar.” Tomás estudou-o por um longo momento, como se tentasse decifrar se era uma armadilha. Finalmente, assentiu.

    Durante a hora seguinte, Diego fez algo que não fazia há anos. Trabalhou com as suas mãos em algo que não tinha absolutamente nenhum valor monetário. Segurou peças enquanto Tomás as amarrava. Sugeriu melhorias na estrutura. Até foi a uma loja de ferragens próxima e comprou parafusos e pregos de verdade para reforçar o design. Enquanto trabalhavam, Tomás falava sem parar. Contava histórias da rua, dos outros meninos que conhecia, dos lugares onde encontrava as melhores coisas no lixo. Falava com uma maturidade que não correspondia à sua idade, mas também com uma alegria que Diego achava desconcertante.

    “Não tens medo?”, perguntou Diego nalgum momento. “De viver sozinho na rua.” Tomás parou de trabalhar e olhou para ele com seriedade. “Claro que tenho medo, mas o medo não me vai dar de comer nem me vai arranjar um lugar para dormir. Então, eu faço o que tenho de fazer.” Diego não soube o que responder. Aquele menino de 9 anos tinha mais clareza sobre a vida do que a maioria dos adultos que ele conhecia.

    Quando terminaram, o carrinho não era perfeito, mas funcionava. Tomás empurrou-o um pouco, testando a sua resistência, e um sorriso enorme iluminou o seu rosto. “Funciona! Olhe, Senhor, funciona perfeito!” Diego não conseguiu evitar sorrir. Também havia algo profundamente satisfatório em ver aquele projeto concluído, em ter contribuído para algo tão simples, mas significativo.

    “Como é que se chama, Senhor?”, perguntou Tomás enquanto guardava as suas pertenças no carrinho novo. “Diego.” “Obrigado, Senhor Diego. Ninguém nunca me tinha ajudado assim.” Diego assentiu, sentindo-se estranhamente comovido. Tirou a carteira e deu várias notas a Tomás, muito mais do que o menino provavelmente tinha ganho em toda a semana. Os olhos de Tomás arregalaram-se. “É demasiado, Senhor. Não posso aceitar tanto.” “Sim, podes. Compra sapatos e comida decente.” Tomás agarrou o dinheiro com as mãos trémulas, como se fosse algo sagrado. “Vai voltar, Senhor Diego?” A pergunta apanhou Diego desprevenido.

    Ele não tinha pensado em voltar. Isto tinha sido um impulso, uma distração momentânea dos seus próprios problemas. “Não sei, Tomás.” A desilusão no rosto do menino foi como um murro. “Eu entendo. Os senhores importantes como o senhor têm coisas mais importantes para fazer.”

    Diego caminhou de regresso ao seu carro, mas as palavras de Tomás ressoavam na sua cabeça. Durante o caminho para casa, não conseguiu parar de comparar os dois meninos de 9 anos. Matías, com o mundo aos seus pés, mas sem vontade de viver. E Tomás, sem nada no mundo, mas cheio de determinação.

    Essa noite, durante o jantar, Diego observou Matías a empurrar a comida no seu prato sem apetite. Mercedes tinha preparado o seu prato favorito, mas o filho mal lhe tocava. “Não tens fome, campeão?” “Não muita.” “A Mercedes esforçou-se muito a preparar isto para ti.” Matías largou o garfo com um suspiro de frustração. “Eu sei, pai. Todos se esforçam muito por mim. Todos são tão bons comigo. Todos me tratam como se eu fosse um bebé que se vai partir. Ninguém te trata como um bebé. A sério?” Matías olhou para ele com uma mistura de raiva e tristeza. “Na escola, deixam-me ganhar todos os jogos. Os professores nunca me dão as tarefas difíceis. A Mercedes corta a minha comida em pedacinhos como se eu tivesse 3 anos. E tu… tu levas-me a 1000 médicos como se arranjar-me fosse o teu único trabalho.” Diego ficou gelado. Nunca tinha ouvido o filho falar assim.

    “Matías, tudo o que eu faço é porque te amo, porque quero que tenhas a melhor vida possível.” “A melhor vida… ou a vida que tu achas que eu devia ter.” O silêncio que se seguiu foi denso, desconfortável. Finalmente, Matías pediu licença para se retirar e foi para o seu quarto. Diego ficou sozinho na sala de jantar, a olhar para a sua própria comida sem conseguir provar bocado. As palavras do filho tinham-no magoado porque tinham verdade. Cada decisão que ele tinha tomado desde o nascimento de Matías tinha sido sobre curá-lo, sobre arranjá-lo, sobre torná-lo normal. Nunca se tinha parado a perguntar a Matías o que é que ele queria.

    No dia seguinte, Diego tinha uma reunião importante com investidores japoneses. Era o tipo de reunião que normalmente exigia toda a sua atenção, milhões em jogo. Mas durante toda a apresentação, a sua mente continuava a vaguear para Tomás e o seu carrinho de madeira, para Matías e a sua expressão de cansaço. “Senhor Santoro, concorda com os termos propostos?”, perguntou um dos investidores.

    Diego piscou os olhos, apercebendo-se de que não tinha ouvido os últimos 10 minutos de conversa. “Desculpem, preciso de um momento.” Saiu da sala de reuniões, ignorando os olhares confusos. Cláudia alcançou-o no corredor. “Senhor Santoro, está tudo bem? Isto não é normal em si.” “Cancela o resto das minhas reuniões de hoje.” “Cláudia, o quê? Mas tem a apresentação com os investidores de…” “Cancela todas. É importante.” Antes que Cláudia pudesse protestar, Diego já estava no elevador. Sabia exatamente para onde precisava de ir.

    Quando chegou à esquina onde sempre encontrava Tomás, o menino estava ali, a usar o seu carrinho novo para transportar garrafas de plástico que tinha recolhido. Ao ver Diego, o seu rosto iluminou-se. “Senhor Diego, voltou!” “Voltei”, confirmou Diego, surpreendido com o quão bem se sentia ao ver a alegria genuína do menino. “Quer ajudar-me a recolher mais garrafas? Um senhor disse-me que no centro de reciclagem me pagam por elas.” Diego olhou para o seu fato de marca, os seus sapatos italianos de 1.000 euros. Depois, olhou para Tomás com as suas roupas rasgadas e o seu sorriso esperançoso. “Por que é que não?”

    Durante as duas semanas seguintes, Diego desenvolveu uma rotina estranha. De manhã, levava Matías à escola. Trabalhava algumas horas no escritório. E depois, passava as tardes na esquina com Tomás. Disse a Cláudia que estava a explorar uma nova iniciativa de responsabilidade social. Não era completamente mentira, embora também não fosse toda a verdade. Tomás revelou-se um guia fascinante do mundo que Diego nunca tinha conhecido. Mostrou-lhe onde os restaurantes deitavam fora comida ainda boa, que ruas eram seguras e quais evitar depois do anoitecer, como identificar as pessoas que realmente te ajudariam versus as que apenas fingiam bondade.

    “Aquele senhor ali”, apontou Tomás um dia para um homem bem vestido que caminhava pela rua. “Dá-me sempre moedas, mas diz-me para não me aproximar muito porque cheiro mal. E aquela senhora”, apontou para uma mulher com roupas mais modestas, “nunca me dá dinheiro, mas comprou-me uma sanduíche na semana passada e sentou-se comigo para a comer.” “Preferes a sanduíche?”, perguntou Diego. “Prefiro que me vejam como pessoa. O dinheiro ajuda, mas que alguém coma contigo, isso significa que não tens nojo. Que vales algo.” Diego ficou em silêncio, a absorver a lição. Um menino de 9 anos estava a ensiná-lo sobre dignidade humana.

    Uma tarde, enquanto ajudava Tomás a organizar as garrafas no seu carrinho, Diego mencionou casualmente Matías pela primeira vez. “Eu tenho um filho da tua idade.” Tomás levantou a vista com interesse. “Sim, como é que ele é?” Diego hesitou, a tentar encontrar as palavras certas. “É inteligente, muito inteligente, mas está triste. Não sei como o ajudar.” “Por que é que está triste? Tem fome, não tem onde dormir, não…” “Nada disso. Tem tudo o que o dinheiro pode comprar.” Tomás franziu a testa, confuso.

    “Então, por que é que está triste? Ele usa uma cadeira de rodas. As pernas dele não funcionam. E acho que isso o faz sentir diferente das outras crianças.” “Ah…” Tomás assentiu com seriedade. “Eu conheço um senhor na rua que não tem uma perna. Usa muletas. É o mais rápido a recolher cartões porque sabe mover-se melhor do que todos nós. Ninguém se mete com ele.” “E isso não o faz sentir mal, ser diferente?” Tomás encolheu os ombros. “Todos somos diferentes, Senhor Diego. Eu não tenho casa. Aquele senhor não tem perna. O senhor tem muito dinheiro. Todos somos diferentes em algo. O importante é o que fazes com o que tens.” Diego ficou a olhar para o menino, maravilhado com a simplicidade profunda da sua filosofia. Quando é que ele tinha perdido essa clareza? Quando é que tinha começado a ver a cadeira de rodas de Matías como um problema a resolver em vez de simplesmente uma parte de quem o seu filho era?

    Essa noite, Diego chegou a casa mais tarde do que o habitual. Encontrou Matías no seu quarto a fazer trabalhos de casa na sua secretária adaptada. As paredes estavam cobertas de desenhos que o filho tinha feito ao longo dos anos. Paisagens imaginárias, máquinas impossíveis, mundos de fantasia. “Posso entrar?”, perguntou Diego da porta. Matías olhou para ele, surpreendido. Normalmente, Diego simplesmente entrava. “Claro.” Diego sentou-se na cama, a observar os desenhos com nova atenção. “Nunca tinha reparado bem nestes. São muito bons.” “Obrigado.” “Continuas a desenhar?” Matías negou com a cabeça. “Não, ultimamente. Não vale a pena.” “Por que é que não vale a pena?” “Porque ninguém os leva a sério. Quando os mostro na escola, todos dizem: ‘Oh, que bonito, Matías!’, com aquela voz. Já sabes qual, a voz especial que usam comigo.” Diego sentiu o peso da frustração do filho.

    Ele tinha ouvido aquela voz mil vezes, o tom excessivamente animado, condescendente, que as pessoas usavam com Matías como se ele fosse frágil. “E se eu os levar a sério? Sem voz especial.” Matías olhou para ele com ceticismo, mas havia um vislumbre de esperança nos seus olhos. “A sério? A sério!” Matías rolou a sua cadeira até uma gaveta e tirou uma pasta cheia de desenhos mais recentes. Diego reviu-os um por um. E o que viu deixou-o sem palavras. Não eram simples rabiscos infantis, eram designs complexos, máquinas imaginárias com anotações técnicas, sistemas de polias e engrenagens desenhados com surpreendente precisão. “Matías, isto é… isto é engenharia.” “Gosto de pensar como é que as coisas funcionam, como é que se movem. Às vezes, desenho invenções que poderiam ajudar pessoas.” “Como o quê?” Matías tirou outro desenho. Era uma cadeira de rodas, mas modificada com um sistema de rodas todo-o-terreno e braços extensíveis. “Esta é para poder alcançar coisas sem pedir ajuda a ninguém. E estas rodas funcionariam na areia ou na terra, não só no pavimento. Assim, eu podia ir a mais lugares.”

    Diego sentiu algo a partir-se dentro do seu peito. O seu filho não estava à espera de ser curado. Estava a adaptar-se, a inovar, a resolver problemas. Era um engenheiro nato. E Diego tinha estado tão obcecado em arranjar as suas pernas que nunca tinha notado o verdadeiro talento de Matías. “Por que é que nunca me tinhas mostrado isto?” Matías encolheu os ombros. “Porque estás sempre ocupado com médicos e tratamentos. Pensei que não te interessariam desenhos de um menino que não pode andar.” As palavras foram como facas. Diego tinha falhado na única coisa que realmente importava: ver o seu filho.

    “Matías, eu…” O seu telemóvel tocou. Era Cláudia. Diego esteve prestes a atender por instinto, mas parou. Olhou para Matías, depois para o telemóvel e tomou uma decisão. “Eu vou desligar isto. Quero que me mostres mais dos teus designs.” A surpresa no rosto de Matías foi total. Diego nunca desligava o seu telemóvel. Nunca.

    Passaram a hora seguinte a falar de invenções, de mecânica, de possibilidades. Matías animou-se mais do que Diego o tinha visto em meses, a explicar cada detalhe dos seus designs com paixão. E Diego ouviu, realmente ouviu, sem interromper, sem verificar mensagens, sem pensar no trabalho. Quando Matías finalmente bocejou, já era tarde. Diego ajudou-o a preparar-se para dormir, algo que normalmente delegava em Mercedes.

    “Pai”, disse Matías enquanto Diego o cobria, “porque é que estás a ser diferente?” “Diferente como?” “Não sei… mais presente. Como se estivesses realmente aqui.” Diego sentiu um nó na garganta. “Conheci alguém que me fez aperceber de que eu estava a olhar para as coisas erradas.” “Quem?” “Um menino muito sábio.”

    No dia seguinte, Diego chegou cedo à esquina de Tomás. Levava algo embrulhado num saco. Tomás estava sentado no lancil a comer um pão que provavelmente tinha conseguido nalguma padaria. “Bom dia, Senhor Diego.” “Bom dia, Tomás. Tenho algo para ti.” Entregou-lhe o saco. Tomás abriu-o com curiosidade e tirou um caderno novo e uma caixa de lápis de cor. “Para mim?” “Sim. Contaste-me que gostas de desenhar no chão com pedras. Pensei que talvez gostasses de ter algo melhor.” Os olhos de Tomás encheram-se de lágrimas, mas ele sorriu. “Ninguém nunca me tinha dado algo novo na minha vida. Tudo o que eu tenho, encontrei ou deram-me usado.” “Bem, este é novo, só para ti.” Tomás abraçou o caderno contra o seu peito como se fosse um tesouro. Depois, olhou para Diego com determinação. “Vou desenhar algo especial para o senhor, para agradecer-lhe tudo o que tem feito por mim.” “Não tens de me agradecer nada, Tomás.” “Tenho. O senhor vê-me. Não me dá só coisas ou dinheiro. Fala comigo como se a minha opinião importasse, como se eu importasse.” Diego teve de desviar o olhar, emocionado. Aquele menino, sem nada no mundo, tinha mais clareza sobre o que realmente importava do que a maioria das pessoas que Diego conhecia.

    Mas o seu momento de paz foi interrompido por uma voz áspera. “Tomás, o que é que fazes aqui?” Um homem aproximava-se pela rua. Era corpulento, com tatuagens nos braços e uma expressão ameaçadora. Diego notou como Tomás se encolheu imediatamente. “Olá, Raúl. Eu disse-te que esta esquina é minha. Eu é que trabalho aqui. Vai-te embora para outro lado!” Diego levantou-se, interpondo-se entre Raúl e Tomás. “O menino não está a incomodar ninguém.” Raúl avaliou-o com olhos calculistas, notando o fato caro e o relógio de luxo. “E tu quem és, o novo protetor dele? Sou alguém que não vai deixar que incomodes um menino.” Raúl soltou uma gargalhada desagradável. “Olha, Senhor Rico, eu não sei o que é que tu andas a fazer com este miúdo, mas este é o meu território. Aqui faz-se o que eu digo.” “Não na minha presença.”

    A tensão no ar era palpável. Raúl deu um passo à frente, mas Diego não recuou. Tinham passado anos desde que Diego tinha tido de se defender fisicamente de algo, mas ele não ia ser intimidado. Finalmente, Raúl cuspiu para o chão. “Isto não vai ficar assim. Nenhum miúdo me tira a minha esquina.” Virou-se para Tomás. “É bom que o teu amigo rico não esteja sempre aqui para te proteger.”

    Quando Raúl se afastou, Tomás soltou um suspiro trémulo. “Senhor Diego, não devia ter feito isso. O Raúl é perigoso. Controla vários quarteirões por aqui.” “Ele já te fez mal antes?” Tomás hesitou antes de assentir. “Às vezes, tira-me o dinheiro que junto. Diz que tenho de pagar-lhe por usar o território dele.” Diego sentiu a raiva a subir pelo seu peito. Um adulto a extorquir um menino de 9 anos. “Isso vai acabar.” “Não pode acabar, Senhor Diego. É assim que as coisas funcionam aqui. O Raúl tem amigos, gente que o ouve. Se se meter com ele, ele pode magoá-lo.” “Deixa-me preocupar com isso.” Mas enquanto dizia essas palavras, Diego apercebeu-se de algo. O seu dinheiro e o seu poder tinham limites. Não podia simplesmente resolver os problemas de Tomás com um telefonema ou um cheque. Este era um mundo diferente, com regras diferentes. E ele acabava de fazer um inimigo perigoso.

    Durante os dias seguintes, Diego não conseguiu tirar da cabeça o encontro com Raúl. Contratou discretamente segurança para que vigiasse a esquina de Tomás à distância, mas sabia que isso era apenas uma solução temporária. Raúl era o tipo de problema que não desapareceria com dinheiro ou ameaças.

    Uma tarde, enquanto Diego trabalhava no seu escritório, Cláudia entrou com uma expressão preocupada. “Senhor Santoro, há um homem lá em baixo que insiste em falar consigo. Diz que é urgente. A segurança tentou detê-lo, mas ele ficou agressivo.” Diego teve um pressentimento. “Como é que ele se chama?” “Raúl Méndez.” Claro. Diego tinha investigado Raúl após o encontro. Antecedentes criminais por assalto e extorsão, ligações a grupos locais, várias detenções, mas poucas condenações. Era exatamente o tipo de pessoa que sabia como se mover nos limites da lei. “Diz à segurança para o deixarem subir, mas para ficarem por perto.” Cláudia hesitou, mas assentiu.

    5 minutos depois, Raúl entrava no escritório de Diego como se fosse o dono do lugar. Deixou-se cair numa cadeira sem ser convidado. “Belo escritório. Deve custar muito manter todo este luxo.” “O que é que queres, Raúl? Direto ao assunto.” “Gosto. Raúl reclinou-se na cadeira. Vê bem, Senhor Santoro, eu investiguei um pouco sobre ti. És importante, rico, poderoso. E por alguma razão que eu não entendo, interessas-te por aquele miúdo da rua.” “Tomás. Não é assunto teu.” “Ah, mas é. Vê bem, eu tenho um negócio. Um negócio que funciona muito bem nessas ruas onde tu decides brincar ao herói. E eu não posso permitir que alguém chegue e mude as regras.”

    Diego inclinou-se para a frente, juntando as mãos sobre a secretária. “Quanto… Desculpa, quanto dinheiro é que queres para deixares o Tomás em paz e ires embora dessa esquina?” Raúl soltou uma gargalhada genuína. “Achas que isto é sobre dinheiro, Senhor Santoro? Se eu quisesse dinheiro, já te teria pedido uma quantia ridícula e tu tê-la-ias pago para te sentires bem contigo mesmo. Isto é sobre respeito, sobre território. Se eu deixar que um miúdo me desafie e que um rico venha protegê-lo, perco credibilidade. E no meu mundo, a credibilidade é a única coisa que importa.” “Então, o que é que queres?” Raúl levantou-se e caminhou até à janela, a observar a cidade do 20º andar. “Quero que entendas uma coisa. Podes brincar ao Salvador com aquele miúdo o quanto quiseres, mas quando não estiveres lá para o proteger, ele continua no meu mundo. E no meu mundo, há consequências.” A ameaça era clara. Diego sentiu a raiva a ferver no seu interior, mas manteve a voz controlada. “Se lhe pões uma mão em cima…” “O quê? Vais chamar a polícia? Vais processar-me? Por favor. Eu conheço o sistema. Sei exatamente até onde posso ir sem cruzar a linha. Mas tu, com toda a tua prata e o teu poder, não podes estar lá as 24 horas.” Raúl caminhou em direção à porta, mas parou antes de sair. “Um conselho, Senhor Santoro, se realmente queres ajudar aquele miúdo, tira-o da rua, porque enquanto ele estiver lá, ele está no meu território. E no meu território, eu é que faço as regras.”

    Quando Raúl se foi, Diego ficou a olhar para a porta fechada. O homem tinha razão numa coisa. Diego não podia proteger Tomás o tempo todo. E a ideia de tirar Tomás da rua… como? Pô-lo num orfanato? Contratar uma família adotiva? Algo nessas opções parecia errado, como se ele estivesse a tentar resolver um problema com dinheiro, sem entender realmente o que Tomás precisava.

    Essa tarde, quando Diego chegou à esquina, encontrou Tomás com um hematoma fresco na face. “O que é que aconteceu?” Tomás tentou esconder o rosto. “Não é nada.” “Tomás. Olha para mim.” “Foi o Raúl.” O menino assentiu lentamente. “Veio esta manhã. Disse que o senhor lhe tinha faltado ao respeito e que eu tinha de pagar por isso. Tirou-me todo o dinheiro que eu tinha juntado esta semana.” Diego sentiu uma onda de culpa. A sua tentativa de proteger Tomás só tinha piorado as coisas. “Lamento, Tomás. Isto é culpa minha.” “Não, Senhor Diego. O Raúl encontra sempre uma razão para nos fazer coisas. Se não tivesse sido por sua causa, teria sido por outra coisa. Mesmo assim, preciso de encontrar uma forma de te ajudar de verdade.” Tomás olhou para ele com os seus olhos verdes claros, demasiado maduros para a sua idade. “Sabe qual é a única coisa que realmente me tem ajudado, Senhor Diego? Que o senhor me trate como pessoa, que fale comigo, que me ouça. O dinheiro ajuda por um dia, mas sentir-me visto, isso ajuda-me a continuar.” Diego sentou-se no lancil junto a Tomás, ignorando que o seu fato de 3.000 euros se sujaria. “O que é que queres ser quando fores grande, Tomás?” A pergunta apanhou o menino de surpresa. Provavelmente ninguém lhe tinha perguntado isso antes. “Não sei. Nunca pensei que teria opção de ser algo.” “Mas se pudesses ser o que quisesses, o que seria?” Tomás pensou por um longo momento. “Gostava de construir coisas, como o carrinho, mas coisas maiores, coisas que ajudem as pessoas.” “Como o quê?” “Como casas para pessoas que não têm. Ou carrinhos melhores para coletores como eu. Ou não sei, coisas úteis que tornem a vida mais fácil.” Diego sorriu. Dois meninos de 9 anos, um rico e um pobre, e ambos queriam construir coisas que ajudassem os outros.

    “Tomás, gostarias de conhecer alguém?” “Quem? O meu filho? Acho que vocês os dois se dariam bem.” Tomás arregalou os olhos com surpresa. “O teu filho? Aquele que está triste.” “Sim. Acho que vocês poderiam ajudar-se mutuamente.” “Mas, Senhor Diego, eu não sei como agir com crianças ricas. Não saberia o que lhe dizer.” “Limita-te a ser tu mesmo. Isso é suficiente.”

    Essa noite, Diego propôs a ideia a Matías durante o jantar. “Há alguém que eu quero que conheças.” Matías levantou a vista da sua comida com curiosidade. “Quem? Um amigo meu. Chama-se Tomás. Tem a tua idade.” “É da minha escola?” “Não. É diferente. Vive na rua.” A expressão de Matías tornou-se cautelosa. “Por que é que eu quereria conhecê-lo? Pai. Eu uso uma cadeira de rodas e vivo numa mansão. Ele não tem casa. Não vejo o que é que poderíamos ter em comum.” Diego escolheu as suas palavras cuidadosamente. “Ambos são muito mais do que as pessoas veem à primeira vista. Ambos são inteligentes e criativos. E ambos sabem o que é sentir-se invisível.” Matías franziu a testa, a processar as palavras. “Como é que sabes que somos parecidos se nunca nos viste juntos?” “Não sei com certeza. É um pressentimento. Dar-me-ias uma oportunidade de o provar?” Matías hesitou por um longo momento, depois assentiu lentamente. “Está bem, mas se for estranho, eu digo-te.”

    No dia seguinte, Diego preparou tudo cuidadosamente. Pediu a Mercedes que preparasse comida extra. Limpou o pátio das traseiras da casa que normalmente ninguém usava. E foi buscar Tomás mais cedo do que o habitual. “Pronto para conhecer o Matías?” Tomás parecia nervoso, a puxar a sua camisa rasgada, como se tentasse fazê-la parecer mais apresentável. “Ai, e se ele não gostar de mim? E se ele pensar que sou sujo ou tolo?” “Tomás, tu és uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. E o Matías precisa de um amigo que o veja de verdade, não alguém que o trate com pena.” “Ele trata as pessoas com pena, não trata?” “Não, mas todos o tratam a ele assim. E ele está cansado disso.”

    Durante o trajeto de carro, Tomás não parava de olhar pela janela com espanto. Provavelmente nunca tinha estado num carro tão luxuoso, nem tinha visto aquele bairro de casas enormes com jardins perfeitos. “É aqui que o teu filho vive?” “Sim. É como um palácio.”

    Quando chegaram, Mercedes abriu a porta e não conseguiu esconder a sua surpresa ao ver Tomás. Diego fulminou-a com o olhar antes que ela pudesse dizer algo. “Mercedes, este é o Tomás. É o nosso convidado. Poderias trazer a comida para o pátio?” “Sim, Senhor Santoro.”

    Matías estava na sala a fazer trabalhos de casa. Quando viu Tomás, a sua expressão foi de confusão genuína. “Matías, este é o Tomás. Tomás, este é o Matías.” Os dois meninos olharam um para o outro em silêncio por um momento desconfortável. Diego prendeu a respiração, perguntando-se se tinha cometido um erro terrível. Finalmente, Tomás apontou para a cadeira de rodas. “Essa cadeira parece complicada. Como é que funciona?” Matías piscou os olhos, surpreendido pela pergunta direta. “Tem um motor elétrico. Eu controlo-a com este joystick.” “Posso vê-la mais de perto?” Matías rolou a sua cadeira para a frente. Tomás ajoelhou-se e começou a examinar as rodas e o motor com fascínio genuíno. “Isto é incrível! Quanto peso é que pode carregar?” “Não tenho a certeza. Talvez 80 kg, além do meu peso.” “E a bateria, quanto tempo é que dura?” Matías começou a explicar as especificações técnicas da sua cadeira, e Tomás ouvia com atenção real, a fazer perguntas inteligentes.

    Diego observava à distância, maravilhado. Não havia pena nos olhos de Tomás. Não havia tom condescendente. Apenas havia curiosidade genuína sobre como é que algo funcionava. “Sabes que mais? Seria espetacular”, disse Tomás depois de um bocado. “Se tivesses um compartimento aqui em baixo para guardar coisas, tipo uma mochila integrada.” Os olhos de Matías iluminaram-se. “Eu tenho desenhos de modificações para a minha cadeira. Queres vê-los?” “A sério?” “Sim.”

    E assim, sem que Diego tivesse de forçar nada, os dois meninos desapareceram em direção ao quarto de Matías, a falar animadamente sobre designs e modificações.

    Mercedes aproximou-se de Diego no pátio. “Senhor Santoro, tem a certeza disto? Esse menino é da rua, poderia roubar algo ou…” “Mercedes”, interrompeu Diego firmemente. “Aquele menino é o meu convidado. E quero que o trate com o mesmo respeito que trataria qualquer outra criança.” Mercedes assentiu, mas a sua expressão continuava a ser de desaprovação.

    Uma hora depois, Diego subiu para verificar como é que as coisas estavam. O que encontrou deixou-o sem palavras. Matías e Tomás estavam no chão, rodeados de desenhos e pedaços de cartão. Estavam a construir algo juntos, a combinar os designs de Matías com as habilidades práticas de construção de Tomás.

    “Olha, pai”, disse Matías com mais entusiasmo do que Diego tinha ouvido em meses. “O Tomás está a ensinar-me como é que os designs funcionam de verdade, não só em papel, mas com materiais reais.” “E o Matías está a melhorar o meu carrinho”, acrescentou Tomás. “Desenhou um sistema de travagem que nunca me tinha ocorrido.”

    Diego apoiou-se no caixilho da porta, sentindo algo estranho no peito. Não era exatamente o que ele tinha planeado. Mas era perfeito.

    As visitas de Tomás tornaram-se regulares. Três vezes por semana, Diego ia buscá-lo à sua esquina e levava-o para casa. No início, Mercedes mantinha a sua distância, a vigiar os seus pertences, como se Tomás fosse roubar algo a qualquer momento. Mas até ela começou a acalmar-se quando viu como Matías florescia com a companhia do menino de rua. Pela primeira vez em anos, Matías acordava entusiasmado com algo. Nos dias em que Tomás visitava, ele estava pronto uma hora antes com novos desenhos e projetos preparados. Os dois meninos tinham desenvolvido a sua própria linguagem de colaboração. Matías desenhava, Tomás construía. E juntos criavam coisas que nenhum poderia ter feito sozinho.

    “Olha para isto, pai”, disse Matías uma tarde, mostrando-lhe um protótipo feito de cartão e paus de madeira. “É uma bengala que se transforma em cadeira para pessoas que conseguem andar um pouco, mas se cansam. O Tomás conhece um senhor na rua que precisaria dela.” Diego examinou o design. Era engenhoso, prático e nascido da observação real de uma necessidade. “É brilhante, campeão. Achas que poderíamos fazê-los de verdade? Com materiais bons, digo.” “Não vejo porque não.” Os olhos de Matías brilharam de uma forma que Diego não via desde antes do último tratamento falhado.

    Mas nem tudo era perfeito. Diego tinha notado que Tomás, por vezes, chegava com novos hematomas ou mais magro do que o habitual. Quando ele perguntava, Tomás desviava o assunto ou inventava desculpas. Diego sabia que Raúl continuava a ser um problema, mas Tomás recusava-se a falar sobre isso.

    Uma tarde, quando Diego chegou para ir buscar Tomás, o menino não estava na sua esquina habitual. Perguntou a outros vendedores ambulantes, mas ninguém sabia onde ele estava. Depois de procurar durante uma hora, Diego finalmente encontrou-o três ruas mais abaixo, escondido num beco, com sangue seco no nariz. “Tomás, o que é que aconteceu?” O menino tentou esconder-se mais nas sombras. “Não é nada, Senhor Diego. Só caí.” “Não me mintas. Foi o Raúl.” O menino assentiu lentamente. “Veio esta manhã. Disse que o senhor lhe tinha faltado ao respeito e que eu tinha de pagar por isso. Tirou-me todo o dinheiro que eu tinha juntado esta semana.” Diego sentiu uma onda de culpa. A sua tentativa de proteger Tomás só tinha piorado as coisas. “Lamento, Tomás. Isto é culpa minha.” “Não, Senhor Diego. O Raúl encontra sempre uma razão para nos fazer coisas. Se não tivesse sido por sua causa, teria sido por outra coisa. Mesmo assim, preciso de encontrar uma forma de te ajudar de verdade.” Tomás o agarrou pelo braço com desespero. “Por favor, Senhor Diego. Se for à polícia, será pior. O Raúl tem amigos lá. E mesmo que o prendam, será só por uns dias. Quando sair, vai vingar-se. Então, não venha mais. Não vá a minha casa. Se deixar de se preocupar comigo, o Raúl vai deixar-me em paz.” Diego ajoelhou-se em frente ao menino, obrigando-o a olhá-lo nos olhos. “Tomás, ouve-me bem. Eu não vou deixar-te. Não agora, não nunca. Vamos encontrar uma solução. Mas não vai ser afastando-me.” “Porquê?”, perguntou Tomás com lágrimas a escorrer pelo seu rosto sujo. “Por que é que me importo tanto? Eu não sou ninguém, um menino de rua que não vale nada.” “Tu vales tudo”, disse Diego com firmeza. “E se eu não conseguir fazer-te ver isso, então falhei na única coisa que realmente importa.” Tomás desabou a chorar, e Diego abraçou-o, sem se importar com o sangue ou a sujidade. Era a primeira vez que o menino realmente chorava em frente a ele, a libertar todo o peso que carregava.

    Só quando chegaram à casa de Diego é que Matías estava à espera à entrada. Ao ver o estado de Tomás, rolou a sua cadeira na direção deles imediatamente. “O que é que te aconteceu?” Tomás tentou limpar a cara rapidamente. “Não é nada. Só tive um dia mau.” “Não é nada”, repetiu Matías com ceticismo. Olhou para o pai. “Pai, o que é que se está realmente a passar?” Diego hesitou. Não queria envolver Matías nisto, mas o seu filho merecia a verdade. “Há um homem que incomoda o Tomás, tira-lhe o dinheiro e magoa-o.”

    A expressão de Matías endureceu de uma forma que Diego nunca tinha visto. “Porquê?” “Porque ele diz que é o território dele. E porque ele pode.” “Isso não está certo.” “Não, não está certo”, concordou Diego. Matías olhou para Tomás com determinação. “Sabes que mais? Acho que devias ficar aqui.” Tomás piscou os olhos, confuso. “O quê? Ficar, viver aqui. Nós temos quartos a mais. E assim esse tipo não poderá incomodar-te.” Diego ficou gelado. Não tinha considerado essa possibilidade. Tomás a viver com eles era complicado. Havia questões legais. Mercedes provavelmente demitir-se-ia. E ele parou. Estava a fazer exatamente o que sempre fazia: a procurar problemas em vez de soluções, a ver obstáculos em vez de possibilidades.

    “O Matías tem razão”, disse Diego lentamente. “Não podes continuar na rua enquanto o Raúl estiver lá.” “Mas eu não posso viver aqui. Isto é demasiado luxuoso para alguém como eu.” “Isso é ridículo”, disse Matías. “Uma casa é uma casa. E esta casa tem espaço de sobra.” “Não quero ser caridade”, insistiu Tomás. “Não és caridade.” Diego ajoelhou-se em frente a ele de novo. “Tu és importante para o meu filho. E para mim. Isso faz de ti família.” Tomás olhou para os dois, incrédulo, como se não pudesse processar que aquilo fosse real. “A sério? A sério?”, confirmou Matías. “Além disso, preciso da tua ajuda com os projetos. Não consigo construir as coisas sozinho.” Diego viu o momento exato em que Tomás tomou a decisão. Não foi por causa da casa luxuosa, ou da comida, ou da segurança. Foi porque Matías precisava dele, porque ele servia um propósito.

    “Está bem”, disse Tomás em voz baixa. “Eu fico.”

    Os dias seguintes foram um turbilhão. Diego contratou advogados para iniciar o processo de custódia temporária. Mercedes, como ele previu, ameaçou demitir-se. Mas Diego deixou claro que Tomás ficava com ou sem a sua aprovação. Para sua surpresa, Mercedes finalmente aceitou, embora com reservas evidentes.

    O primeiro obstáculo foi a roupa. Tomás recusava-se a usar algo demasiado caro, o que era basicamente tudo nas lojas que Diego frequentava. Finalmente, Matías interveio. “Tomás, é só roupa. Não significa que sejas diferente.” “Mas eu vou parecer-me convosco, como gente rica. E o que é que isso tem de mal? Se eu me parecer assim, estarei a fingir ser algo que não sou.” Matías pensou por um momento. “Lembraste-te de quando disseste que a minha cadeira de rodas não me define? Que eu sou mais do que isso? Sim. Bem, a roupa também não te define. Continuas a ser tu, só mais limpo e com sapatos que não têm buracos.” Tomás riu apesar de si mesmo e finalmente aceitou um guarda-roupa básico.

    A escola foi outro desafio. Diego inscreveu Tomás no mesmo colégio privado que Matías, mas Tomás estava terrivelmente atrasado academicamente. Nunca tinha frequentado a escola de forma regular. Mal sabia ler e escrever. E matemática, para além de contar troco, era um mistério para ele. “Não posso ir para essa escola”, disse Tomás depois de ver o plano de estudos. “As outras crianças vão pensar que sou tolo.” “Não és tolo”, insistiu Matías. “Apenas não tiveste as mesmas oportunidades. Eu ajudo-te.” E fê-lo. Todas as tardes, depois de Matías terminar o seu próprio trabalho de casa, dedicava horas a ensinar Tomás. Diego observava-os da porta, maravilhado com a paciência do filho. Matías tinha encontrado algo que nenhum terapeuta ou tratamento tinha podido dar-lhe: um propósito maior do que ele mesmo.

    Uma noite, Diego encontrou Tomás sentado sozinho no jardim a olhar para as estrelas. “Não consegues dormir?” Tomás negou com a cabeça. “Às vezes, sinto que isto não é real. Como se fosse acordar na rua de novo.” Diego sentou-se junto a ele na relva. “É real, Tomás. Por que é que fazes isto por mim, Senhor Diego? A sério, porquê?”

    Diego pensou na pergunta. Era a mesma que Cláudia lhe tinha feito, que Mercedes tinha insinuado, que até alguns dos seus colegas tinham questionado. “Conheces a história de como conheci a mãe do Matías?” Tomás negou com a cabeça. “Eu vinha de uma família pobre. Não tão difícil como a tua situação, mas sem dinheiro. Trabalhei muito, construí a minha empresa, fiquei rico. E a certa altura, esqueci-me de onde é que eu vinha. Tornei-me como todas aquelas pessoas que passam por crianças como tu, sem as ver realmente.” Diego fez uma pausa, a escolher as suas palavras cuidadosamente. “A mãe do Matías era assistente social, trabalhava com crianças de rua. Ela ensinou-me a ver de novo, a lembrar-me de que o sucesso não significa nada se não o usares para ajudar os outros. Quando ela morreu, eu perdi isso. Concentrei-me só no Matías, em curá-lo, em arranjar o que eu considerava estar partido. Mas tu… tu lembraste-me do que ela estava a tentar ensinar-me.” “O quê?” “Que as pessoas não precisam de ser arranjadas. Precisam de ser vistas, precisam de oportunidades, precisam que alguém acredite nelas.” Tomás ficou em silêncio por um longo momento. “O Matías não está partido, pois não? Não. E demorou a conhecer-te para eu me aperceber disso. Eu também não estou partido. Não, não estás.” Tomás sorriu. Um sorriso genuíno e livre. “Então, suponho que somos só pessoas diferentes, mas não partidas.” “Exato.”

    Mas o seu momento de paz foi interrompido pelo som de uma pedra a partir uma janela. Diego levantou-se imediatamente, colocando Tomás atrás de si. Uma figura movia-se nas sombras do jardim. “Bela casa, Tomás.” A voz de Raúl pairou na escuridão. “Já te esqueceste de onde é que vens?” Diego sentiu Tomás encolher-se atrás dele. “Raúl, sai da minha propriedade agora ou chamo a polícia.” “Chama. Quando eles chegarem, eu já terei ido. Mas a mensagem ficará clara.” Raúl emergiu das sombras com um sorriso desagradável. “Não podes esconder o menino para sempre, Senhor Santoro. E quando cometeres um erro, quando baixares a guarda, nem que seja por um segundo, eu vou estar lá.” “Estás enganado”, disse uma voz nova. Matías tinha saído de casa na sua cadeira, posicionando-se junto ao pai e a Tomás.

    “Matías, volta para dentro”, ordenou Diego. “Não.” Matías olhou para Raúl diretamente. “O Tomás não está sozinho. Tem uma família agora. E as famílias protegem-se.” Raúl soltou uma gargalhada. “O que é que tu vais fazer, menino? Atropelar-me com a tua cadeirinha?” “Não preciso de fazer nada”, respondeu Matías com calma. “O meu pai tem advogados, segurança e recursos que tu nem sequer podes imaginar. Mas o mais importante, temos algo que tu nunca vais entender. O quê? Pessoas que se preocupam connosco. De verdade. Não por medo ou por dinheiro. Tu só tens pessoas que te temem. Nós temos pessoas que nos amam. Quem é que achas que vai ganhar a longo prazo?” Pela primeira vez, a confiança de Raúl vacilou. Olhou para os três, pai e filho, parados juntos com Tomás entre eles. E algo na sua expressão mudou. “Isto não acaba aqui.” “Acaba sim”, disse Diego com firmeza. “Porque amanhã vou documentar tudo. O teu rosto está nas câmaras de segurança. Eu tenho testemunhas. E tenho recursos para garantir que, se voltares a aproximar-te deste menino, passarás muito tempo na prisão. Não por uns dias. Por anos.” Raúl cuspiu para o chão, mas já estava a recuar. “O menino era meu antes de tu chegares.” “Tomás nunca foi teu”, disse Diego. “As pessoas não são propriedade.”

    Quando Raúl finalmente se foi, Diego chamou imediatamente a segurança e a polícia. Desta vez, apresentaria queixa formal. Desta vez, não deixaria que Raúl se safasse com ameaças. Mais tarde, essa noite, quando tudo se acalmou, Diego encontrou Matías e Tomás no quarto de Matías, sentados juntos em silêncio. “Estão bem?” Ambos assentiram. “Eu tive medo”, admitiu Tomás. “Muito medo.” “Eu também”, disse Matías, “mas estávamos juntos. Isso ajudou.” Diego observou-os. Aqueles dois meninos que tinham encontrado força na amizade um do outro, que tinham ensinado um ao outro lições que nenhum adulto poderia ter-lhes dado. E ele apercebeu-se de algo. Ele não tinha salvo Tomás. Tomás e Matías tinham salvado um ao outro.

    As semanas seguintes trouxeram mudanças que Diego nunca antecipou. Tomás adaptou-se à vida na casa com uma facilidade surpreendente, mas não da maneira que Diego esperava. Não se maravilhava com o luxo, nem se tornou dependente das comodidades. Em vez disso, trouxe algo da rua consigo: uma perspetiva prática que transformou a dinâmica familiar. Quando Mercedes se queixou de que a máquina de lavar roupa era demasiado complicada, Tomás arranjou-a em 10 minutos depois de observar como é que funcionava. Quando o jardim começou a parecer descuidado, Tomás organizou um sistema de rega usando garrafas recicladas que funcionava melhor do que o sistema automatizado caro que Diego tinha instalado. E quando Matías se frustrava com os seus limites físicos, Tomás encontrava soluções criativas que nenhum terapeuta profissional tinha considerado. “Não precisas de alcançar aquela prateleira”, disse-lhe Tomás um dia quando Matías se queixava de não conseguir chegar aos seus livros favoritos. “A prateleira é que precisa de descer até ti.” Numa tarde, os dois meninos reorganizaram completamente o quarto de Matías, colocando tudo o que ele usava regularmente ao seu alcance. Diego observava da porta, apercebendo-se de que durante anos tinha estado a tentar fazer com que Matías se adaptasse ao mundo, quando devia ter estado a adaptar o mundo a Matías.

    A escola, no entanto, foi mais complicada. O primeiro dia de Tomás foi um desastre. Apesar das semanas de tutoria intensiva com Matías, ele continuava muito atrasado. A professora, a Senhora Eugénia, ligou a Diego depois das aulas. “Senhor Santoro, precisamos de falar sobre o Tomás.” Diego sentiu a defensiva a subir imediatamente. “O que é que se passou?” “Nada de mal”, apressou-se a dizer Eugénia. “É só que o menino está claramente muito abaixo do nível do ano. Não sabe ler corretamente. As suas habilidades matemáticas são básicas. E não tem nenhum conhecimento de ciências ou história.” “Ele está a aprender. O Matías está a ajudá-lo.” “Eu sei, e isso é admirável. Mas, Senhor Santoro, talvez o Tomás estivesse melhor num programa especial ou a começar num ano mais baixo.” “Quer separá-lo do Matías?” Eugénia hesitou. “Não se trata de separá-los, trata-se de dar ao Tomás a educação de que ele precisa.” “A educação de que ele precisa é estar com alguém que acredita nele. O Matías acredita nele. Eu acredito nele. E a Senhora, acredita nele, Senhora Eugénia?” A professora corou ligeiramente. “Claro que sim.” “Então, vamos dar-lhe uma oportunidade real. Não três dias. Uma oportunidade verdadeira.” Eugénia finalmente assentiu, embora com reservas.

    Mas Diego notou algo interessante nas semanas seguintes. Enquanto Tomás lutava com a leitura e a matemática tradicionais, sobressaía em coisas que a escola não media. Quando um colega ficou preso num problema de física sobre polias, Tomás explicou-o usando exemplos da vida real de quando movia objetos pesados na rua. Quando a perna de uma cadeira na sala de aula se partiu, Tomás arranjou-a com materiais da sala de arte antes que alguém pudesse chamar o zelador. Os outros meninos começaram a aproximar-se dele não com pena, mas com respeito. Tomás sabia coisas que eles não sabiam. Tinha vivido experiências que eles nunca teriam. E isso tornava-o interessante, valioso.

    Mas nem todos estavam contentes com a presença de Tomás. Uma tarde, Diego recebeu uma chamada da diretora da escola, a Doutora Sánchez. “Senhor Santoro, preciso de o ver. É urgente.” Quando Diego chegou ao escritório da diretora, encontrou três mães sentadas com expressões de indignação. Ele reconheceu-as. Eram do círculo social mais exclusivo da escola, mulheres cujas famílias tinham frequentado o colégio por gerações.

    “Senhor Santoro”, começou a diretora com uma expressão desconfortável, “Estas mães expressaram algumas preocupações sobre o Tomás.” “Que tipo de preocupações?” Uma das mulheres, a Senhora Valdés, falou com voz aguda. “Senhor Santoro, entendemos o seu desejo de fazer caridade, mas este é um colégio de prestígio. Temos padrões. Não podemos simplesmente aceitar crianças de rua que…” “Tomás é meu filho”, interrompeu Diego com voz gelada. “Bem, tecnicamente, ele é o seu pupilo temporário…” “É meu filho”, repetiu Diego com mais firmeza. “E cumpre todos os requisitos de admissão que esta escola exige.” “Mas é que…”, interveio outra mãe. “As outras crianças estão a fazer perguntas. Os nossos filhos querem saber porque é que o Tomás não sabia ler, porque é que ele vivia na rua. Não sabemos como lhes explicar essas coisas.” Diego olhou para elas com incredulidade. “Não sabem como lhes explicar que algumas pessoas nascem em circunstâncias difíceis, que nem todos têm as mesmas oportunidades? Talvez essa seja precisamente a lição mais importante que os vossos filhos poderiam aprender nesta escola.” “Eu não vim aqui para que me deem lições de moral”, retorquiu a Senhora Valdés. “Vim porque o meu filho diz que o Tomás lhe ensinou a roubar comida das máquinas de vending.” “Perdão.” A diretora tossiu, desconfortável. Aparentemente, Tomás mostrou a algumas crianças como conseguir snacks sem pagar, usando uma técnica que aprendeu na rua. Diego teve de se esforçar para não rir. Claro que Tomás sabia fazer isso. Tinha sobrevivido na rua durante anos. “Vou falar com ele sobre isso. Mais alguma coisa?” “Sim”, disse a terceira mãe que tinha estado calada até agora. “A minha filha diz que o Tomás lhe contou que, às vezes, não tinha o que comer quando vivia na rua. Agora, ela recusa-se a desperdiçar comida e acusa-me de deitar dinheiro fora quando compro coisas de que não precisamos.” Diego olhou para a mulher diretamente. “E isso é um problema? Porque… porque é desconfortável, Senhor Santoro. Não quero que a minha filha se sinta culpada por ter uma boa vida.” “Talvez a sua filha esteja a aprender empatia. E isso é algo mau?” A Senhora Valdés levantou-se abruptamente. “Eu não vou ficar aqui a ser insultada. Doutora Sánchez, ou aquele menino se vai, ou eu retiro o meu filho desta escola.” As outras duas mães assentiram em concordância.

    Diego sentiu a raiva a ferver no seu peito. Mas antes que pudesse responder, a diretora levantou a mão. “Senhoras, eu entendo as vossas preocupações, mas o Tomás não violou nenhuma regra importante da escola. E o Senhor Santoro é um dos nossos benfeitores mais generosos. Tenho a certeza de que podemos encontrar uma solução que funcione para todos.” “A solução é simples”, disse a Senhora Valdés. “Ou ele se vai, ou nós vamos.” “Então, vão-se embora”, disse Diego simplesmente. As três mulheres olharam para ele em choque. “Perdão?” “Que se vão embora. Retirem os vossos filhos. Porque o Tomás fica.” “Senhor Santoro…”, a diretora tentou intervir. “Talvez pudéssemos…” “Não há nada a negociar.” Diego virou-se para a diretora. “Doutora Sánchez, vou ser muito claro. Se esta escola prioriza o conforto de pais preconceituosos em detrimento da educação de um menino que realmente quer aprender, então não é o tipo de instituição que eu quero apoiar. E vou falar com os outros benfeitores sobre isto.” O rosto da Doutora Sánchez empalideceu. A doação de Diego representava quase 20% do orçamento anual da escola. “Eu não creio que seja necessário chegar a esses extremos.” “Eu também não. Desde que o Tomás possa continuar a sua educação sem ser assediado por pais que deviam saber mais.” As três mães foram-se embora indignadas, prometendo levar o assunto ao conselho escolar. Diego sabia que haveria consequências, mas não se importava. Tinha passado demasiado tempo preocupado com o que as pessoas pensavam, a tentar encaixar num mundo que valorizava o dinheiro acima da humanidade.

    Quando chegou a casa essa tarde, encontrou Matías e Tomás na garagem a trabalhar noutro projeto. Desta vez, era mais ambicioso. Estavam a construir um protótipo real da bengala convertível que tinham desenhado, usando materiais que Diego tinha comprado. “Como é que vai?”, perguntou Diego. “Bem”, respondeu Matías sem levantar a vista. “O Tomás está a soldar as peças. Ele é realmente bom nisto.” Diego observou Tomás a trabalhar, a sua língua a sair pela concentração, as suas mãos a moverem-se com precisão aprendida de anos de construção improvisada. “Tomás, preciso de falar contigo.” O menino levantou a vista, preocupado com o tom sério. “Fiz algo de errado? Dizem que ensinaste outras crianças a roubar das máquinas de vending.” Tomás corou. “Eu lamento, Senhor Diego. Não pensei que fosse errado. Na rua, se tinhas fome e sabias como arranjar comida, arranjavas. Não pensei que aqui fosse diferente.” “É diferente, porque aqui não precisas de roubar. Se tens fome, há comida.” “Eu sei. Mas o Javier disse que a mãe dele nunca lhe dá dinheiro para snacks e que ele tem sempre fome depois do desporto. Eu só queria ajudá-lo.” Diego sentiu a sua raiva a desvanecer-se. Claro que Tomás estava apenas a tentar ajudar. Era o que ele sempre fazia. “Eu entendo que querias ajudar, mas roubar é errado, mesmo quando tens boas intenções. Se o Javier tem fome, podemos encontrar outra forma de o ajudar. Uma forma que não implique roubar. Tipo o quê? Podíamos falar com a mãe dele, ou eu podia dar-lhe dinheiro, ou tu podias partilhar a tua comida com ele.” Tomás pensou por um momento. “Partilhar parece melhor. Assim, ele não se sentiria mal.” “Exato.”

    Matías tinha estado a ouvir em silêncio. “Pai. As mães zangaram-se porque o Tomás é da rua.” Diego hesitou, a tentar encontrar as palavras certas. “Algumas pessoas têm medo do que não entendem. E o Tomás vem de um mundo muito diferente do delas. Mas isso não o torna mais interessante?” “O Tomás sabe imensas coisas que nós não sabemos. Eu acho que sim. Mas nem todos o veem assim. Então, são tolas”, declarou Matías com a lógica simples de uma criança. Diego não conseguiu evitar sorrir. “Talvez. Mas lembrem-se de algo, ambos. As pessoas vão julgar-vos. Vão fazer suposições baseadas na cadeira do Matías ou no passado do Tomás. A única coisa que podem fazer é provar que estão erradas, vivendo as vossas vidas com integridade.” “O que é integridade?”, perguntou Tomás. “Fazer o que é certo, mesmo quando ninguém está a olhar, mesmo quando é difícil.” Os dois meninos assentiram, a processar a lição. Depois, voltaram para o seu projeto e Diego deixou-os trabalhar.

    Essa noite, depois de ambos os meninos estarem a dormir, Diego sentou-se no seu escritório com um copo de whisky. O seu telemóvel vibrou com mensagens de outros pais da escola. Alguns apoiavam a sua postura, outros criticavam o seu “experimento social perigoso”, mas uma mensagem destacou-se. Era de um pai que Diego mal conhecia. “Senhor Santoro, obrigado. O meu filho tem sido incomodado por ser diferente. Mas depois que o Tomás chegou, as crianças aprenderam que diferente não é mau. O meu filho finalmente tem amigos. Devo-lhe mais do que pode imaginar.” Diego leu a mensagem três vezes, sentindo algo quente a expandir-se no seu peito. Talvez ele não estivesse a mudar o mundo inteiro, mas estava a mudar o mundo de algumas crianças. E talvez isso fosse suficiente.

    Guardou o telemóvel e caminhou pelo corredor, parando em frente ao quarto de Tomás. A porta estava entreaberta, e Diego podia ver o menino a dormir, finalmente em paz, finalmente seguro. No quarto ao lado, Matías também dormia, mas com um sorriso no rosto que Diego não via há anos. Dois meninos que o mundo tinha tentado definir pelas suas limitações, mas juntos se tinham redefinido a si mesmos. E tinham redefinido Diego também.


    Três meses depois de Tomás se ter mudado com eles, Diego recebeu uma chamada que o mudou tudo. Era do advogado que tratava do caso de custódia. “Senhor Santoro, temos um problema.” Apareceu um familiar do Tomás. Diego sentiu que o chão se movia debaixo dos seus pés. “O quê? O Tomás disse que não tinha família.” “Aparentemente, ele tem um tio. Chama-se Roberto Campos. Acabou de sair da prisão. E está a reclamar a custódia do menino.” “Prisão? Por que é que esteve na prisão?” “Roubo agravado. Cumpriu 5 anos. Legalmente, como familiar biológico, ele tem o direito de reclamar o menino.” Diego apertou o telemóvel com tanta força que os seus nós dos dedos ficaram brancos. “E se o Tom…?” “A opinião do menino é tida em conta, mas não é determinante. Se o tio puder demonstrar que tem meios para cuidar dele e um ambiente estável, a lei favorece a reunificação familiar.” Depois de desligar, Diego ficou sentado no seu escritório, atordoado. Não podia perder Tomás. Não agora, não depois de tudo o que tinham construído juntos. Mas não podia contar a Tomás ainda, não até saber mais. Contratou um investigador privado para descobrir tudo sobre Roberto Campos. O que descobriu não foi tranquilizador. Roberto tinha saído da prisão há duas semanas e já tinha um historial de frequentar bares e associar-se com os seus antigos parceiros criminosos. Não tinha emprego estável, nem casa permanente. Estava a viver num hotel barato, pago pelo governo. Mas era família de sangue. E para o sistema, isso significava algo.

    Uma semana depois, chegou a citação. Roberto Campos solicitava formalmente a custódia de Tomás. Haveria uma audiência no tribunal de família em duas semanas. Diego já não podia adiar.

    Essa noite, depois do jantar, reuniu Matías e Tomás na sala. “Preciso de vos dizer algo importante. Tomás, apareceu um homem que diz ser o teu tio. Chama-se Roberto Campos. Conheces?” O rosto de Tomás ficou pálido. “O Tio Roberto era o irmão da minha mãe. Mas eu não o vejo desde que era muito pequeno. A minha mãe dizia que ele era perigoso, que me mantivesse longe dele. Ele está a pedir a tua custódia.” Tomás levantou-se num salto, com pânico nos olhos. “Não! Não quero ir com ele. Não o conheço. Quero ficar aqui!” “Eu sei, Tomás. E eu vou lutar por ti. Mas preciso que entendas que isto pode ser complicado.” Matías rolou a sua cadeira perto de Tomás, pegando na sua mão. “Não vamos deixar que te leve. És parte da nossa família.” “Mas a lei diz que a família de sangue…” “Tu és meu irmão”, interrompeu Matías com ferocidade. “Não importa o que o sangue diga.” Diego sentiu um nó na garganta. O seu filho tinha encontrado em Tomás o que nenhum tratamento médico pôde dar-lhe: um propósito, um igual, um irmão.

    Os dias seguintes foram um turbilhão de preparação legal. O advogado de Diego, o Licenciado Méndez, foi franco sobre as suas probabilidades. “Senhor Santoro, não lhe vou mentir. Os juízes favorecem a reunificação familiar, a menos que possamos demonstrar negligência ou perigo. Claro. O facto de o Roberto ter antecedentes ajuda, mas ele já cumpriu a sua pena. O sistema dá segundas oportunidades. E o facto de o Tomás não querer ir com ele ajuda, mas não é determinante. O Tomás tem 9 anos. O juiz considerará a sua opinião, mas também avaliará o que é melhor para o seu bem-estar a longo prazo.” “Como é que pode ser melhor estar com um criminoso que mal conhece do que com uma família que o ama?” O Licenciado Méndez suspirou. “Porque o senhor legalmente não é a família dele. É um estranho rico que recolheu um menino da rua. Por mais nobres que sejam as suas intenções, há juízes que verão isso com ceticismo.”

    Diego não dormiu essa noite. E quando finalmente chegou o dia da audiência, sentia como se tivesse uma pedra no estômago. O tribunal de família era um edifício cinzento e deprimente. Diego chegou cedo com Tomás, o Licenciado Méndez e Matías, que insistiu em estar presente. “Eu sou o irmão dele”, tinha dito Matías. “Tenho de estar lá.” Roberto Campos já estava no corredor quando chegaram. Era um homem grande, com tatuagens visíveis no pescoço e um olhar duro. Quando viu Tomás, a sua expressão suavizou-se artificialmente. “Tomás, meu filho. Como cresceste!” Tomás escondeu-se atrás de Diego sem responder. “Nem sequer vais cumprimentar o teu tio, a tua família?” “Senhor Campos”, interveio o Licenciado Méndez. “Sugiro que evite o contacto com o menor até que o juiz o autorize.” Roberto levantou as mãos em gesto de paz, mas havia algo calculista nos seus olhos. “Só quero o melhor para o meu sobrinho. É o que a minha irmã teria querido.”

    A audiência começou meia hora depois. O Juiz Morales era um homem de meia-idade com uma expressão séria e um olhar cansado de alguém que tinha visto demasiados casos difíceis. O advogado de Roberto falou primeiro, um defensor público jovem que claramente estava sobrecarregado de trabalho. “Meritíssimo, o meu cliente é o único familiar vivo do Tomás Campos. Cumpriu a sua dívida para com a sociedade e agora deseja reunir-se com o seu sobrinho, providenciar um lar e continuar o legado familiar.” O Licenciado Méndez contra-atacou imediatamente. “Meritíssimo, Roberto Campos acaba de sair da prisão. Não tem emprego estável, não tem residência permanente e não vê esta criança há anos. Enquanto isso, Tomás tem prosperado sob o cuidado do Senhor Santoro. Está matriculado numa excelente escola. Tem cuidados médicos e dentários. Estabilidade. E o mais importante, tem uma família que o ama.” “Uma família que não é realmente a família dele”, interrompeu o advogado de Roberto. “O Senhor Santoro, com todo o respeito, é um estranho, um homem rico que recolheu um menino da rua num ato de caridade bem-intencionado, mas que não substitui os laços de sangue.”

    O Juiz Morales inclinou-se para a frente. “Senhor Santoro, qual é exatamente a sua relação com o menor?” Diego levantou-se. “Meritíssimo, conheci o Tomás há 4 meses. Estava a viver na rua, a ser extorquido por criminosos. Acolhi-o porque era o que era correto. E nestes meses, ele tornou-se parte fundamental da minha família.” “Tem filhos biológicos?” “Tenho um filho, Matías.” O juiz olhou para Matías na sua cadeira de rodas. “E como é que o seu filho se sente em relação a esta situação?” Matías rolou a sua cadeira para a frente sem que ninguém lho pedisse. “O Tomás é meu irmão. Não importa o que o sangue diga. Ele ensinou-me a ver para além da minha cadeira de rodas. Deu-me um propósito. E eu dei-lhe um lar. Isso é família.” O juiz estudou Matías por um longo momento. Depois, virou-se para Tomás. “Tomás, podes aproximar-te?” Tomás caminhou até ao estrado com passos trémulos. Diego queria abraçá-lo, dizer-lhe que tudo ficaria bem, mas não podia. “Tomás, preciso que sejas muito honesto comigo. Conheces o teu Tio Roberto?” “Mal, Meritíssimo. A minha mãe não falava dele. Acho que o vi uma vez quando era muito pequeno.” “E queres viver com ele?” Tomás negou com a cabeça vigorosamente. “Não, Meritíssimo. Quero ficar com o Senhor Diego e com o Matías. Eles são a minha família agora.” “E se eu te disser que a família de sangue é importante, que o teu tio tem o direito de cuidar de ti?” Os olhos de Tomás encheram-se de lágrimas. “A família não é só sangue, Meritíssimo. A família é quem cuida de ti quando tens medo, quem te ensina coisas, quem te faz sentir que vales algo. O Senhor Diego e o Matías fazem isso. O meu tio nem sequer me conhece.”

    O Juiz Morales assentiu lentamente. Depois, virou-se para Roberto. “Senhor Campos, tem emprego atualmente?” Roberto hesitou. “Estou a procurar, Meritíssimo. Acabei de sair. E está difícil com os meus antecedentes.” “Tem residência permanente?” “Estou em processo de conseguir um apartamento.” “Teve contacto com a criança durante os últimos 4 anos enquanto esteve na prisão? Enviou cartas, pediu a alguém que verificasse o bem-estar dele?” Roberto ficou calado. “Então, Senhor Campos, permita-me entender. Não viu o seu sobrinho há anos. Não tentou contactá-lo nem antes nem durante o seu encarceramento. Não tem meios estáveis para o sustentar. E agora, duas semanas depois de sair da prisão, subitamente quer a custódia dele. Está correto?” “É o meu sobrinho, Meritíssimo. É família.” “A família constrói-se com ações, não com palavras”, disse o juiz com um tom seco. Depois, virou-se para Diego. “Senhor Santoro, entendo que tem recursos consideráveis. Está disposto a adotar formalmente o Tomás?” Diego sentiu o seu coração a saltar. “Absolutamente, Meritíssimo.”

    O juiz assentiu, folheando os documentos à sua frente. “O relatório do assistente social indica que Tomás prosperou significativamente sob o seu cuidado. As suas notas estão a melhorar. Tem cuidados médicos e dentários. E mostra sinais de ajustamento emocional saudável.” Olhou para Roberto. “Em contraste, o senhor não pode oferecer nenhum desses elementos atualmente. Mas, Meritíssimo, é a minha família…” “Senhor Campos”, o juiz interrompeu-o. “Se realmente se importasse com esta criança, teria feito um esforço para o contactar antes de agora. Teria construído uma vida estável antes de o reclamar. Mas não o fez. E este tribunal não vai retirar uma criança de um lar onde está a prosperar para a colocar numa situação instável, seja ela familiar biológica ou não.” Diego sentiu que podia respirar de novo.

    “No entanto”, continuou o juiz, “Senhor Campos, tem direito a visitas supervisionadas, se desejar construir uma relação com o seu sobrinho. Tomás pode decidir se aceita essas visitas.” Todos olharam para Tomás. O menino pensou por um longo momento. “Talvez… talvez eu possa conhecê-lo um pouco. Mas eu não quero viver com ele. Quero ficar com a minha família.” O juiz bateu com o seu malhete. “Custódia temporária estendida para o Senhor Santoro com opção a adoção formal. Senhor Campos, se daqui a 6 meses puder demonstrar estabilidade e genuíno interesse no bem-estar do menino, podemos rever as visitas. Caso encerrado.”

    Diego mal processou o resto. A única coisa que importava era que Tomás ficava. Quando saíram do tribunal, Tomás atirou-se para os braços de Diego, a chorar de alívio. Matías envolveu-os com os seus braços da sua cadeira. E por um momento, os três ficaram assim, agarrados um ao outro. “Obrigado, pai”, murmurou Tomás. Era a primeira vez que usava aquela palavra. Diego sentiu lágrimas a escorrer pelo seu rosto, mas não se importou. “Sempre, filho. Sempre.”


    Seis meses depois da audiência, a vida tinha encontrado um ritmo que Diego nunca imaginou possível. Tomás tinha-se adaptado completamente à escola. Embora ainda lutasse com algumas matérias, o seu engenho prático tinha-o convertido no menino a quem todos recorriam quando precisavam de resolver um problema real. Matías tinha mudado de maneiras que iam para além do visível. Já não era o menino calado e resignado que se escondia dos olhares de pena. Agora, participava ativamente na aula, liderava projetos. E tinha formado amizades genuínas. A sua cadeira de rodas já não era a primeira coisa que as pessoas notavam nele. E Diego tinha aprendido a lição mais importante da sua vida: que arranjar não era o mesmo que amar.

    Uma tarde de sexta-feira, Diego chegou cedo a casa. Tinha cancelado todas as suas reuniões da tarde, algo que Cláudia tinha deixado de questionar. Encontrou Matías e Tomás na garagem. Como sempre, a trabalhar no seu projeto mais ambicioso até à data. Tinham transformado a garagem num verdadeiro atelier. Com o apoio financeiro de Diego e o conhecimento prático de Tomás, tinham construído vários protótipos de dispositivos de assistência: a bengala convertível, um sistema de alcance estendido para cadeiras de rodas e o seu projeto atual, uma rampa portátil que se dobrava numa mochila.

    “Pai, olha para isto.” Matías chamou-o, entusiasmado. “O Tomás descobriu como fazer com que a rampa se desdobre automaticamente. Já não precisas de a montar.” Diego examinou o design. Era brilhante na sua simplicidade, usando molas e um sistema de roquete que Tomás tinha adaptado de um guarda-chuva partido. “Isto é incrível, rapazes. Acham que poderíamos fazê-los de verdade?”, perguntou Tomás. “Não só protótipos. Coisas reais que as pessoas possam usar.” Diego tinha estado à espera desta conversa. “Na verdade, eu queria falar convosco sobre isso. Tenho estado a falar com alguns investidores sobre criar uma fundação. Uma que desenhe e fabrique dispositivos de assistência acessíveis, criados por pessoas que realmente entendem as necessidades.”

    Os olhos de ambos os meninos iluminaram-se. “A sério?”, perguntou Matías. “A sério. E preciso de dois consultores principais. Um que entenda as necessidades a partir da experiência pessoal. E outro que saiba como construir coisas com recursos limitados. Conhecem alguém que se qualifique?” Tomás e Matías olharam um para o outro e sorriram. “Acho que poderíamos conhecer alguém”, disse Matías.

    Essa noite, durante o jantar, Mercedes serviu a comida com um sorriso genuíno. Tinha passado de tolerar Tomás a realmente apreciá-lo, especialmente depois de ele ter arranjado a sua televisão favorita que estava avariada há meses. “Senhor Diego”, disse Mercedes enquanto servia. “Chegou uma carta para o Tomás. Do tribunal.” Diego sentiu um arrepio de preocupação. Pegou na carta e abriu-a cuidadosamente. Era a aprovação final de adoção. Tomás Campos legalmente se tornaria Tomás Santoro em duas semanas. “Tomás”, Diego passou-lhe a carta com as mãos trémulas. “És oficialmente o meu filho.” Tomás leu a carta, os seus olhos a percorrer as palavras legais que ele não compreendia completamente, mas entendendo o essencial. “Significa que ninguém pode separar-me de vocês? Nunca.” Confirmou Diego. Matías levantou o seu copo de sumo. “Pela família. A real. Não a de sangue.” “Pela família”, repetiram Diego e Tomás.

    Mas a celebração foi interrompida pela campainha. Mercedes foi abrir e regressou com uma expressão desconfortável. “Senhor Diego, há alguém à porta. Diz que é o Roberto Campos.” O ambiente na sala de jantar gelou. Tomás encolheu-se imediatamente. Tinham passado seis meses sem saber nada de Roberto depois da audiência. “Fica aqui”, disse Diego a Tomás. “Eu trato disso.”

    Mas quando Diego chegou à porta, encontrou um Roberto muito diferente do que tinha visto no tribunal. Estava mais magro, vestido com roupas de trabalho limpas e tinha uma expressão de humildade genuína. “Senhor Santoro, eu sei que não tenho o direito de me apresentar assim, mas preciso de falar consigo.” Diego cruzou os braços, desconfiado. “O que é que queres, Roberto?” “Eu… eu quero pedir desculpa. E explicar-lhe algo. Tens 5 minutos.” Roberto suspirou profundamente. “Quando reclamei o Tomás há 6 meses, não era por ele, era por mim. Acabava de sair da prisão, não tinha nada. E pensei que, se conseguisse a custódia de um menino rico, podia tirar algum dinheiro. Talvez um acordo consigo. Talvez vendendo a história aos meios de comunicação. Não sei. Era um plano estúpido e egoísta.” Diego sentiu a raiva a subir, mas Roberto continuou. “Mas depois que o juiz me rejeitou, eu cheguei ao fundo do poço. Acabei na rua, tal como o Tomás. E ali, eu entendi o que o meu sobrinho tinha vivido: o medo, a fome, a solidão. E apercebi-me do que é que eu realmente tinha perdido.” “E agora, o quê? Vens pedir outra oportunidade?” “Não.” Roberto negou com a cabeça. “Eu venho dizer-lhe obrigado. Por fazer o que eu nunca pude. Por ver o Tomás como uma pessoa, não como uma oportunidade. Por dar-lhe a vida que a minha irmã teria querido para ele.” Diego estudou Roberto, à procura de sinais de manipulação, mas só viu sinceridade cansada. “O que é que tens andado a fazer estes 6 meses?” “Consegui trabalho na construção. Nada de elegante, mas é honesto. Encontrei um programa de reabilitação para ex-reclusos. Estou a tentar reconstruir a minha vida da maneira correta desta vez.” “E por que é que me dizes isto?” “Porque eu precisava que alguém soubesse. Que nem todos os que fracassamos estamos perdidos para sempre. E porque…” Roberto olhou para dentro de casa. “Porque se algum dia o Tomás quiser conhecer-me, eu quero ser alguém de quem ele possa ter orgulho. Não o tio criminoso. O tio que se recuperou.” Diego sentiu a sua perspetiva mudar ligeiramente. 6 meses atrás, Roberto era o vilão, a ameaça. Agora, era apenas um homem quebrado a tentar arranjar-se. “Queres vê-lo?” Roberto pareceu surpreendido. “Ele quereria ver-me?” “Não sei, mas posso perguntar-lhe.”

    Diego voltou para a sala de jantar, onde Tomás e Matías esperavam ansiosos. “Tomás, o teu Tio Roberto está aqui. Diz que quer falar contigo. Mas só se tu quiseres.” Tomás olhou para Matías, que assentiu de forma encorajadora. “Está bem. Posso falar com ele.”

    Diego levou Roberto para a sala. Tomás entrou cautelosamente com Matías junto a ele na sua cadeira, como apoio silencioso. Roberto levantou-se, as suas mãos a tremerem ligeiramente. “Olá, Tomás. Olá, Tio Roberto. Eu não sei o que dizer, exceto que lamento. Lamento não ter estado lá para ti quando precisaste de mim. Lamento ter tentado usar-te para meu próprio benefício. E lamento tudo o que a tua mãe teve de passar por minha causa.” Tomás olhou para ele em silêncio por um longo momento. “A minha mãe dizia sempre que todos merecem uma segunda oportunidade. Que ninguém é só os seus erros. A tua mãe era melhor pessoa do que eu. Talvez. Mas ela também me ensinou a perdoar.” Roberto deixou escapar um soluço que tentou esconder. “Eu não mereço o teu perdão.” “Provavelmente não”, concordou Tomás com a honestidade brutal de uma criança. “Mas eu quero dar-to na mesma. Porque guardar rancor é pesado. E eu já carreguei coisas pesadas suficientes na minha vida.” Diego observava a cena com espanto. Este menino, que tinha vivido nas ruas, que tinha sido abandonado e maltratado, tinha mais sabedoria emocional do que a maioria dos adultos. “Podemos… podemos tentar conhecer-nos?”, perguntou Roberto cautelosamente. “Não como tio e sobrinho a viverem juntos. Só como duas pessoas que partilham sangue a tentar entender-se.” Tomás olhou para Diego, que assentiu. “Talvez devagar. Com o Senhor Diego presente, é claro.” “O que for que precises.”

    Quando Roberto se foi essa noite, Diego sentou-se com Tomás no pátio. “Estou orgulhoso de ti. O que fizeste ali dentro foi muito maduro.” “Achas que foi tolo? Dar-lhe uma oportunidade?” “Não. Acho que foi corajoso e generoso. O Matías disse-me uma vez que eu o ensinei a ver para além da sua cadeira de rodas. Acho que ele me ensinou a ver para além do passado das pessoas. Todos cometemos erros. Todos merecemos a oportunidade de ser melhores.” Diego abraçou o seu filho adotivo, maravilhado com a sua capacidade de perdoar.


    Duas semanas depois, numa cerimónia simples no tribunal, Tomás Campos oficialmente se tornou Tomás Santoro. O Juiz Morales presidiu à adoção com um sorriso pouco comum. “É raro ver um final feliz neste lugar”, admitiu. “Mas isto… isto é como deveria ser.”

    Depois da cerimónia, houve uma pequena celebração em casa. Mercedes tinha preparado um banquete. Alguns colegas da escola de ambos os meninos vieram, até alguns cujos pais tinham protestado a presença de Tomás no início. O Licenciado Méndez estava presente. E, para surpresa de todos, Roberto apareceu à porta com um presente embrulhado de forma desajeitada. “Eu sei que não estou convidado oficialmente”, disse Roberto nervosamente, “mas queria dar isto ao Tomás.” Era um álbum de fotos velho. Lá dentro, havia imagens da mãe de Tomás quando era criança, da família antes que tudo desmoronasse. “Pensei que gostarias de ter isto para te lembrares de onde vens.” Tomás pegou no álbum com reverência, a olhar para as fotos de uma mãe de quem mal se lembrava. “Obrigado, Tio Roberto.” “E isto.” Roberto tirou outro pequeno embrulho. “É para o Matías.” Matías abriu o presente, surpreendido. Era um conjunto de ferramentas de precisão para trabalho fino. “O Tomás contou-me sobre as tuas invenções. Pensei que isto poderia ajudar.”

    A tarde decorreu com risos, histórias e uma sensação de completude que Diego não sentia desde a morte de Paula. Enquanto observava Tomás e Matías a mostrarem aos seus amigos o atelier da garagem, apercebeu-se de algo profundo. Tinha passado anos a tentar arranjar Matías, à procura da cura, do tratamento, da solução. Mas Matías nunca precisou de ser arranjado. Precisava de ser visto, precisava de propósito. Precisava de alguém que o tratasse como uma pessoa completa, não como um projeto. E esse alguém tinha sido um menino descalço da rua com nada mais do que engenho e coração.

    Essa noite, quando todos estavam a dormir, Diego parou no limiar dos quartos dos seus filhos. Matías dormia com um sorriso no rosto, rodeado de desenhos dos seus próximos inventos. Tomás abraçava o álbum de fotos da sua mãe, finalmente em paz com o seu passado. E no quarto de hóspedes, Luís dormia numa cama de verdade pela primeira vez em quem sabe quanto tempo. Diego pensou no dia em que tinha visto Tomás pela primeira vez naquela esquina. Pensou em como facilmente poderia ter passado de largo, como tinha feito centenas de vezes antes. Pensou em como um simples ato de parar e ver realmente tinha mudado não só a vida de Tomás, mas a sua própria e a de Matías. Não tinha sido um milagre médico o que tinha transformado o seu filho. Tinha sido a amizade de um menino descalço que o viu como uma pessoa completa. E não tinha sido o seu dinheiro ou poder o que tinha salvo Tomás. Tinha sido simplesmente vê-lo, ouvi-lo e dar-lhe o espaço para ser quem ele realmente era.

    No final, a lição mais importante não a tinha aprendido numa sala de reuniões ou numa clínica médica cara. Tinha-a aprendido numa esquina suja da cidade, de um menino que não tinha nada, mas que entendia tudo. A família não era sangue, o valor não era dinheiro e o sucesso não era poder. Era amor, era ver, era estar presente. Era um pai a cair de joelhos em gratidão, não por ver o seu filho andar, mas por vê-lo finalmente viver.

  • “Deixem-no ir, ele é meu filho!” gritou o milionário ao ver uma criança de rua levando seu filho embora…

    “Deixem-no ir, ele é meu filho!” gritou o milionário ao ver uma criança de rua levando seu filho embora…

    “Larga-o! É o meu filho!” O grito desesperado do milionário ecoou na praça enquanto um menino de rua se afastava com Leonardo numa velha carroça. Mas o que parecia um sequestro escondia algo que mudaria as suas vidas para sempre. Subscreve o canal e ativa a campainha para não perderes mais histórias.

    Alguma vez um estranho te ensinou algo que mudou a tua perspetiva sobre a vida? Conta-nos nos comentários. Ricardo Salvatore nunca tinha corrido tanto na sua vida. Os seus sapatos italianos de 5.000 euros batiam no pavimento irregular enquanto perseguia a carroça puxada por um cavalo velho que se afastava com o seu filho. “Parem! Leonardo!” A sua voz quebrava-se entre o desespero e a fúria. Tudo tinha acontecido em questão de segundos.

    Ricardo tinha saído da sua carrinha blindada para fazer uma chamada importante longe de ouvidos indiscretos. Deixou Leonardo na sua cadeira de rodas junto ao veículo, a apenas três metros de distância – três malditos metros que agora pareciam um abismo. Quando se virou, viu um menino maltrapilho a empurrar a cadeira do seu filho para uma carroça em mau estado. Antes que pudesse reagir, o rapaz tinha colocado Leonardo no veículo e arrancado. “Polícia! Alguém chame a polícia!”, gritava Ricardo enquanto corria, mas as pessoas na praça apenas olhavam para ele, confusas. A carroça avançava por ruas cada vez mais estreitas. Ricardo sentia que os seus pulmões iam explodir. Não era um homem atlético. A sua vida decorria entre escritórios com ar condicionado e restaurantes de cinco estrelas. Este esforço físico estava a matá-lo, mas não ia parar. Era o seu filho, o seu único filho. Perdeu a carroça de vista ao virar uma esquina. O pânico invadiu-o completamente. “Leonardo!” O seu grito soou mais como um lamento.

    Ricardo Salvatore era temido nas salas de reuniões. Tinha construído um império imobiliário destruindo concorrentes sem pestanejar. Mas naquele momento, a correr por ruas desconhecidas, não passava de um pai aterrorizado. Leonardo tinha 8 anos e não andava desde os três. Um acidente de viação tinha-lhe destroçado a coluna vertebral. Ricardo tinha gasto fortunas nos melhores médicos do mundo. Todos disseram o mesmo: a paralisia era permanente. Desde então, a vida de Leonardo tinha decorrido entre as paredes de uma mansão sob a supervisão constante de enfermeiras e tutores. Ricardo tinha-se assegurado de que o seu filho tinha tudo: a melhor educação, os melhores terapeutas, a tecnologia mais avançada… tudo, exceto uma vida normal.

    “Viu uma carroça a passar?”, ofegou Ricardo a uma mulher que vendia fruta na esquina. “Em direção ao mercado”, respondeu ela, apontando para a frente. Ricardo retomou a corrida. As suas pernas tremiam, a sua camisa encharcada em suor colava-se às suas costas, mas ele não podia parar.

    Na carroça, Leonardo experimentava algo completamente novo: medo e emoção ao mesmo tempo. “Não te preocupes”, disse-lhe o menino que o tinha posto lá. “Eu sou o Miguel. Só quero mostrar-te algo incrível.” “O teu pai… é aquele senhor elegante que estava a gritar?” Miguel sorriu. “Parece muito zangado.” “Ele está sempre zangado”, murmurou Leonardo.

    Miguel tinha 11 anos, embora aparentasse menos devido à sua magreza. As suas roupas estavam remendadas e os seus pés descalços mostravam calos de anos a caminhar sobre pavimento quente, mas os seus olhos brilhavam com uma vivacidade que contrastava com tudo o resto. “O meu avô tem esta carroça. Fazemos passeios turísticos”, explicou Miguel enquanto guiava o cavalo por ruas sinuosas. “Mas hoje é especial. Hoje vou mostrar-te a verdadeira cidade.” “Porquê?”, perguntou Leonardo, agarrando-se aos lados da carroça enquanto viravam uma esquina. “Porque te vi aí parado, nessa cadeira de rodas, a olhar para o céu com essa cara tão triste. E pensei: ‘Esse menino precisa de uma aventura’.” Leonardo não sabia o que dizer. Ninguém lhe tinha falado assim antes. Todos lhe falavam com pena ou com aquele tom especial que as pessoas usam com as crianças doentes.

    Enquanto isso, Ricardo finalmente chegou ao mercado. Era um labirinto de bancas, vendedores ambulantes e pessoas que iam e vinham. O barulho era ensurdecedor, o cheiro a comida, suor e mercadoria atingiu-o como uma parede. “Uma carroça com dois meninos?”, perguntou a um vendedor de tamales. “Por ali”, apontou o homem em direção às oficinas. Ricardo abriu caminho no meio da multidão, empurrando pessoas sem se desculpar. O seu telemóvel tinha tocado 12 vezes. Ignorou todas as chamadas. Nada importava, exceto encontrar Leonardo. Os seus pensamentos enchiam-se dos piores cenários possíveis. “E se esse menino fizesse parte de um grupo de sequestradores? E se estivessem a pedir resgate neste momento? E se Leonardo estivesse ferido, assustado, a chorar pelo pai?” A culpa roía-o. Tinha baixado a guarda. Depois de anos a proteger obsessivamente o seu filho, tinha cometido o erro mais estúpido possível. E agora Leonardo estava nas mãos de um estranho.

    A carroça parou em frente a uma pequena praça que Leonardo nunca tinha visto. Não era como as praças elegantes perto da sua casa, com jardins perfeitamente cuidados e fontes modernas. Esta praça tinha árvores velhas com raízes que levantavam o pavimento, bancos de metal enferrujado e um campo onde várias crianças jogavam futebol com uma bola murcha. “Chegámos”, anunciou Miguel, saltando da carroça.

    “Que lugar é este?” Leonardo olhou à sua volta com uma mistura de curiosidade e nervosismo. “O meu bairro.” Miguel começou a tirar a cadeira de rodas. Era mais pesada do que ele esperava, mas conseguiu sem pedir ajuda. “É aqui que as coisas acontecem de verdade.” Leonardo foi colocado de volta na sua cadeira. Pela primeira vez em anos, estava num lugar público sem o pai, sem guarda-costas, sem enfermeiras. Sentia-se estranhamente exposto e livre ao mesmo tempo.

    “Miguel, o teu avô vai matar-te quando souber”, disse uma voz rouca. Um idoso aproximava-se a coxear. Tinha o cabelo completamente branco e uma cicatriz que lhe atravessava a face esquerda. Vestia um macacão remendado e carregava um balde com água. “Avô Tomás, este é o Leonardo”, apresentou Miguel rapidamente. “Só quiseste sequestrá-lo”, interrompeu o idoso com severidade. Mas os seus olhos mostravam mais preocupação do que raiva. “Esse menino tem família, família rica, pelo que vejo.” “Eu não o sequestrei, eu resgatei-o”, defendeu Miguel. “Estava ali parado, sozinho, a olhar para o céu como se quisesse escapar de algo.” Tomás suspirou profundamente. Conhecia demasiado bem esse impulso do seu neto de ajudar toda a gente. Já os tinha metido em sarilhos antes. “Rapaz”, dirigiu-se a Leonardo. “Estás bem? Ele magoou-te?” “Não, Senhor. Estou bem”, respondeu Leonardo com a voz trémula, “só confuso.” “O teu pai deve estar à tua procura como um louco, provavelmente.” Leonardo baixou o olhar. Não sabia como explicar que parte dele ainda não queria ser encontrado.

    Enquanto isso, Ricardo tinha chegado às oficinas mecânicas. Homens cobertos de graxa olhavam para ele com desconfiança. O seu fato de marca e o seu relógio de ouro marcavam-no como alguém que não pertencia ali. “Procuro o meu filho. Um menino pô-lo numa carroça”, explicou Ricardo, tentando controlar a sua respiração ofegante. “O filho do rico?”, perguntou um mecânico jovem, limpando as mãos com um trapo sujo. “Sim, viram-no? Onde é que ele está?” O mecânico trocou olhares com os seus colegas. Havia algo no desespero daquele homem elegante que despertava uma certa satisfação. Os ricos olhavam sempre por cima do ombro para pessoas como eles. “Talvez o tenha visto. O que me dás pela informação?” Ricardo tirou a carteira e atirou várias notas grandes. “É suficiente.” O mecânico apanhou o dinheiro lentamente, saboreando o momento. “Foram para a Praça de São Judas. Pergunta pelo Velho Tomás.” Ricardo saiu a correr antes que o mecânico terminasse de falar.

    Na praça, Leonardo observava fascinado as crianças a brincar. Nunca tinha visto algo assim. Os seus únicos companheiros de brincadeiras tinham sido outras crianças ricas em festas organizadas onde tudo era supervisionado por adultos. “Queres ir para mais perto?”, ofereceu Miguel. “Não posso jogar futebol.” “E daí? Podes ser o árbitro ou o guarda-redes. Essa baliza é tão grande que nem sequer precisas de te mexer muito.” Antes que Leonardo pudesse responder, Miguel já estava a empurrar a sua cadeira em direção ao campo. “Rapazes, apresento-vos o Leonardo. Ele vai jogar connosco.” As crianças pararam, olharam para a cadeira de rodas, depois para Leonardo, depois de volta para Miguel. “Ele está numa cadeira de rodas”, assinalou um deles, um rapaz robusto com uma camisola rasgada. “Ele tem olhos? Não pode ver a bola?”, respondeu Miguel. “Será o guarda-redes.” “Miguel, isto é uma má ideia”, murmurou Leonardo, sentindo-se exposto. “Confia em mim.”

    Leonardo foi colocado em frente a uma baliza improvisada marcada com duas pedras. As crianças recomeçaram o jogo, no início com cuidado, a chutar suavemente na sua direção. Leonardo defendia a bola com as mãos, surpreendido por estar a participar. Mas então, apareceu ela. Gabriela tinha 9 anos e era conhecida no bairro por duas coisas: a sua habilidade excecional no futebol e a sua língua afiada. Era a única menina no jogo e não gostava que a subestimassem. “A sério? Um guarda-redes em cadeira de rodas?”, troçou, aproximando-se de Miguel. “O que vem a seguir? Um avançado cego?” “Dá-lhe uma oportunidade”, defendeu Miguel. “Isto é ridículo. Vão perder por causa dele.” Gabriela apontou para Leonardo com desprezo.

    Leonardo sentiu a sua cara a arder. Reconhecia aquele olhar. Era a mesma pena disfarçada de preocupação que tinha visto toda a sua vida. “Talvez devesses ir-te embora, menino rico”, continuou Gabriela. “Isto não é para ti.” Algo se partiu dentro de Leonardo. Toda a frustração acumulada de anos a ser tratado como se fosse de cristal explodiu. “Chuta a bola”, disse com uma voz firme que surpreendeu até Miguel. “O quê?” “Que chutes a maldita bola! Dá o teu melhor remate!” Gabriela sorriu com malícia. “Como queiras.” Tomou distância e correu na direção da bola. Foi um remate potente direto para o canto superior. Leonardo esticou-se, estendendo o seu braço o máximo que pôde. Os seus dedos mal roçaram a bola, desviando-a para fora. Houve um segundo de silêncio. Depois, as crianças irromperam em gritos. “Ele defendeu! O menino rico defendeu!” Gabriela olhou, incrédula. Miguel sorria de orelha a orelha. “Queres tentar de novo?”, desafiou Leonardo, sentindo uma emoção que nunca tinha experimentado.

    Mas antes que Gabriela pudesse responder, um grito familiar ressoou na praça. “Leonardo!” Ricardo Salvatore apareceu a correr. O seu fato estava uma desgraça, a sua cara vermelha pelo esforço. Atrás dele vinham dois polícias que tinha encontrado no caminho. Tudo parou. As crianças dispersaram-se instintivamente perante a presença policial. Miguel ficou paralisado. “Afasta-te do meu filho!”, rugiu Ricardo, correndo em direção ao campo. Tomás tentou intercetá-lo. “Senhor, espere. O menino está bem.” “Você!”, Ricardo apontou para Miguel com fúria. “Sequestraste o meu filho. Vais para a prisão!” “Pai, não…”, começou Leonardo. “Silêncio!” Ricardo nunca tinha gritado assim com o filho. O medo tinha-se transformado em raiva descontrolada. “Agentes, prendam este rapaz.” Os polícias aproximaram-se de Miguel, que agora tremia visivelmente. “Foi um mal-entendido”, interveio Tomás, colocando-se à frente do seu neto. “O meu neto é impulsivo, mas não é um criminoso.” “Ele levou o meu filho sem permissão. Isso é sequestro.” “Pai, basta!” A voz de Leonardo surpreendeu todos. Nunca tinha gritado com o pai. “Não o prendam, eu quis vir.” O silêncio que se seguiu ao grito de Leonardo foi absoluto. Até os pássaros pareceram parar de cantar.

    Ricardo olhou para o seu filho como se o estivesse a ver pela primeira vez. “O que é que disseste?” “Que eu quis vir”, repetiu Leonardo, desta vez mais calmo, mas igualmente firme. “O Miguel perguntou-me se eu queria conhecer a cidade de verdade e eu disse que sim.” “Isso não é verdade! Tu estavas…” Ricardo procurava as palavras certas, mas a sua mente continuava toldada pela adrenalina. “Eu estava parado junto à tua carrinha enquanto tu falavas ao telemóvel. Como sempre.” Leonardo sustentou o olhar do pai. “O Miguel perguntou-me se eu queria subir para a carroça dele e eu aceitei.” “Tu tens 8 anos! Não podes decidir entrar no veículo de um estranho.” “Eu tenho 8 anos e nunca decido nada”, respondeu Leonardo com uma maturidade que não lhe conheciam. “Tu decides tudo por mim.”

    Ricardo sentiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Olhou à sua volta: os polícias confusos, o velho a proteger o menino de rua, os rapazes do bairro a observar, e o seu filho, o seu pequeno Leonardo, a desafiá-lo em frente a todos. “Agente”, disse Tomás com voz calma. “Como pode ver, não houve sequestro, apenas um mal-entendido entre crianças.” “O senhor apresentou uma queixa formal”, respondeu um dos polícias, um de meia-idade com bigode espesso. “Alguém tem de ir à esquadra.” “Então, eu vou”, ofereceu-se Tomás. “O meu neto é menor de idade e eu sou o tutor legal dele.” “Não”, interveio Ricardo. A sua voz tinha perdido alguma fúria, mas mantinha a dureza. “Quero falar com o rapaz a sós.”

    Miguel engoliu em seco. Tomás pôs uma mão protetora no seu ombro. “Não vou magoá-lo”, acrescentou Ricardo, notando o gesto. “Só quero entender o que aconteceu.” Os polícias olharam para Tomás, que finalmente assentiu. “Está bem, mas eu fico por perto.” Ricardo aproximou-se de Miguel, que levantou o queixo numa tentativa de parecer corajoso apesar do seu óbvio medo. “Por que é que o fizeste?”, perguntou Ricardo. “Já lhe disse, queria mostrar-lhe a cidade.” “Porquê?” Miguel olhou para Leonardo antes de responder. “Porque ele tinha aquele olhar.” “Que olhar?” “O olhar de alguém que está preso.” Miguel falou com uma honestidade crua. “É como os cavalos que carregam cargas muito pesadas. Têm tudo o que precisam para comer e um lugar para dormir, mas os olhos deles estão mortos. O seu filho tinha esses olhos.” Ricardo sentiu algo a quebrar-se dentro dele. Não era raiva o que sentia agora. Era algo muito mais doloroso. “O meu filho está paralisado. Precisa de cuidados especiais.” “O seu filho precisa de viver”, corrigiu Miguel. “Há uma diferença.” “Tu tens 11 anos! O que é que tu sabes de criar um filho?” “Sei o que é não ter nada e mesmo assim sentir-me livre. E sei o que é ver alguém que tem tudo e mesmo assim estar fechado.” Ricardo queria refutar, defender as suas ações, explicar que tudo o que tinha feito era para o bem de Leonardo, mas as palavras não saíam porque no fundo sabia que aquele menino sujo da rua tinha razão.

    “Pai!”, chamou Leonardo da sua cadeira. “Posso falar contigo?” Ricardo aproximou-se, ajoelhando-se junto ao filho. Era a primeira vez em anos que ficava à sua altura, literalmente. “Não estou zangado contigo”, começou Leonardo. “Sei que cuidas de mim porque me amas, mas pai, estás a cuidar de mim de tal forma que eu já não estou a viver.” “Eu protejo-te. O mundo é perigoso.” “O mundo é perigoso para todos, mas as outras crianças não vivem fechadas. Faz 5 minutos que defendi um remate de futebol. Sabes quando foi a última vez que fiz algo assim?” “Podias ter-te magoado.” “Podia ter-me divertido. E eu diverti-me.” Os olhos de Leonardo brilhavam. Pela primeira vez em anos, sentiu-se como um menino normal. Ricardo olhou para o seu filho. Realmente olhou para ele e viu o que Miguel tinha visto: um menino faminto de vida.

    Mas antes que pudesse responder, uma voz sarcástica cortou o momento. “Que cena comovente!” Todos se viraram. Um homem alto vestido com um fato caro descia de um automóvel preto. Tinha cerca de 40 anos, cabelo gomado para trás e um sorriso que não chegava aos seus olhos. “Maurício“, disse Ricardo, levantando-se abruptamente. “O que é que fazes aqui?” “A tua secretária disse-me que tinhas saído a correr como um louco, a gritar algo sobre o Leonardo. Obviamente, vim de imediato.” Maurício olhou à sua volta com desprezo mal dissimulado. “Embora não esperasse encontrar-te num lugar como este.”

    Maurício Sandoval era o sócio de Ricardo em vários projetos imobiliários. Também era o seu rival mais próximo. Durante anos tinham mantido uma relação de competição mal civilizada, onde cada um procurava superar o outro. “Estou a tratar de um assunto de família”, respondeu Ricardo com frieza. “Já vejo.” Maurício observou Miguel e Tomás com desdém. “Este é o menino que levou o Leonardo. Devias processá-lo, Ricardo. Dar-lhe uma lição.” “Ele não levou ninguém”, interveio Leonardo. “Eu quis ir com ele.” Maurício riu com condescendência. “As crianças dizem coisas, não entendem as consequências.” “As crianças entendem mais do que tu pensas”, respondeu Leonardo com uma frieza que gelou a todos. Maurício aproximou-se de Ricardo, baixando a voz, mas não o suficiente.

    “Olha, sei que isto te afetou, mas não podes mostrar fraqueza, especialmente não em frente a esta gente.” “Esta gente?”, repetiu Tomás com um tom perigoso. “Esta situação é privada, Maurício”, cortou Ricardo. “Não preciso do teu conselho.” “Claro que precisas. Sempre foste demasiado mole com o menino.” Maurício nem sequer olhou para Leonardo ao falar. “É por isso que ele está assim. Mimaste-o e agora ele pensa que pode fazer o que quiser.” “Cala a boca!” A voz de Ricardo saiu como um rosnido. “Alguém tem de te dizer. O teu filho é um impedimento para os negócios. As reuniões que cancelas, as viagens que não fazes, as oportunidades que perdes porque tens de cuidar disso.” Maurício apontou vagamente para Leonardo.

    O que aconteceu a seguir foi tão rápido que ninguém conseguiu reagir a tempo. Ricardo deu um soco na cara de Maurício. Não foi um golpe profissional, mas teve toda a fúria contida de anos de frustração. Maurício caiu no chão, a sangrar do nariz. “Estás louco!”, gritou Maurício enquanto tentava levantar-se. “Isto vai custar-te tudo! A tua empresa, a tua reputação!” “Não me importo com um demónio”, Ricardo parou sobre ele. “Vai-te embora antes que eu te parta mais do que o nariz.” Os polícias finalmente reagiram, separando Ricardo. Maurício levantou-se com ajuda, segurando o nariz. “Isto não fica assim, Salvatore. Vou destruir-te.” Maurício cuspiu sangue antes de entrar no seu carro e ir-se embora.

    Todos ficaram em choque. Miguel olhava para Ricardo com uma mistura de medo e respeito. Tomás mantinha uma expressão neutra. Os polícias pareciam não saber o que fazer, mas Leonardo sorria. Pela primeira vez em anos, tinha visto o pai defender algo que não eram negócios ou dinheiro. Tinha-o defendido a ele.

    Os polícias decidiram não prender ninguém. Depois de meia hora de explicações, declarações e uma generosa contribuição de Ricardo para a caixa da esquadra, todos estavam livres para ir. Ricardo ficou parado no meio da praça, a olhar para a sua carrinha estacionada a vários quarteirões de distância, o seu fato arruinado, os seus nós dos dedos doridos pelo soco, a sua reputação provavelmente em ruínas depois de ter agredido o seu sócio em frente a testemunhas. E, no entanto, sentia-se estranhamente libertado.

    “Senhor Salvatore”, chamou Tomás, aproximando-se com cuidado. “Quero pedir desculpa pelo meu neto. Foi imprudente e não…” “Não”, interrompeu Ricardo. “Ele tinha razão.” Tomás piscou os olhos, surpreendido. “O meu filho tem os olhos mortos… ou tinha.” Ricardo olhou para Leonardo, que conversava animadamente com Miguel sobre o remate que tinha defendido.

    “Há quanto tempo é que eu não o via sorrir assim? As crianças precisam de aventuras”, disse Tomás com sabedoria de anos, “mesmo as que estão em cadeiras de rodas.” “Passei 5 anos a protegê-lo de tudo, da dor, da rejeição, dos olhares, mas nunca me perguntei do que é que eu o estava a proteger realmente. Do mundo. E o mundo é onde se vive.” Ricardo assentiu lentamente. “Posso fazer-lhe uma pergunta estranha?” “À vontade.” “Aceitaria dinheiro para compensar os incómodos, para…” “Não queremos o seu dinheiro”, cortou Tomás com firmeza, mas sem rudeza. “O meu neto não fez isto por dinheiro, fê-lo porque tem um coração demasiado grande para o seu próprio bem.” “Então, deixe-me pelo menos convidá-los para comer. A si, ao Miguel, à…” Ricardo procurou com o olhar. “A Gabriela já foi”, disse Tomás. “Aquela menina não confia nos ricos. Tem as suas razões.”

    “E o senhor confia em mim?” Tomás estudou-o por um longo momento. “Não. Mas confio que ama o seu filho. E isso é suficiente por agora.”

    Terminaram num pequeno restaurante familiar a dois quarteirões da praça. Era o tipo de lugar que Ricardo jamais teria pisado antes. Paredes desbotadas, mesas de plástico, menu escrito à mão num quadro. Mas a comida cheirava incrivelmente bem. Leonardo estava fascinado. Miguel explicava-lhe cada prato como se fosse um especialista culinário. “Os tacos al pastor são o melhor, mas tens de pedir as tortilhas feitas à mão, não as da loja.” “Nunca comi tacos”, confessou Leonardo. Miguel olhou para ele como se ele tivesse dito que nunca tinha respirado.

    “Como é possível que nunca tenhas comido tacos?” “O meu pai diz que a comida de rua não é higiénica.” “O teu pai diz muitas coisas”, murmurou Miguel, ganhando um olhar de aviso do avô.

    Pediram uma variedade de pratos. Quando a comida chegou, Leonardo provou o seu primeiro taco. Os seus olhos arregalaram-se. “Isto é…” Procurou as palavras. “Delicioso”, ofereceu Miguel. “Incrível.” Leonardo deu outra dentada. “Porque é que nunca me deixaram comer isto?” Ricardo, sentado em frente a eles, não tinha resposta. Havia tantas coisas que ele nunca tinha deixado o filho fazer, sempre com a desculpa de o proteger.

    “Seu Tomás”, começou Ricardo, “há quanto tempo vive neste bairro?” “Toda a minha vida. 72 anos aqui.” “Deve ter visto muitas mudanças.” “Algumas boas, a maioria más.” Tomás bebeu o seu refrigerante. “Este bairro está a morrer. Os jovens vão-se embora porque não há trabalho. Os negócios fecham porque não há clientes. E tipos como o seu sócio compram tudo para construir edifícios que as pessoas daqui nunca poderão pagar.” Ricardo sentiu uma pontada de culpa. Ele próprio tinha participado nesse tipo de projetos.

    “O Maurício tem vários terrenos aqui”, continuou Tomás. “Diz que vai revitalizar a zona, mas revitalizar, para ele, significa tirar todos os que vivemos aqui e não podem fazer nada. O que é que vamos fazer? Não temos dinheiro para advogados. Não temos poder.” Tomás olhou diretamente para Ricardo. “Os ricos ganham sempre. É a lei da vida.”

    “Nem sempre”, murmurou Ricardo, a pensar em algo.

    Depois de comer, Miguel insistiu em mostrar mais do bairro a Leonardo. Ricardo hesitou, mas o olhar suplicante do filho convenceu-o. “Uma hora”, concordou, “e eu vou convosco.” Caminharam por ruas que Ricardo nunca tinha percorrido. Miguel assinalava cada lugar com orgulho. A padaria onde faziam o melhor pão doce, a loja onde o dono dava crédito a quem precisava, a oficina mecânica onde arranjavam qualquer coisa, por mais velha que fosse. “Aqui, as pessoas ajudam-se”, explicava Miguel. “Quando a mãe do Juanito adoeceu, todos cooperámos para pagar o hospital. Quando a casa da Dona Carmen ardeu, reconstruímo-la entre todos.”

    Leonardo ouvia maravilhado. No seu mundo, as pessoas competiam constantemente. Ninguém ajudava ninguém sem esperar algo em troca. “E os teus pais?”, perguntou Leonardo. “Onde é que estão?” Miguel parou. Tomás pôs uma mão no seu ombro. “O meu pai morreu há 3 anos”, disse Miguel com voz controlada. “Trabalhava na construção. Caiu de um andaime. Lamento.” “E a minha mãe… ela foi-se embora depois disso. Disse que não aguentava mais.” Miguel chutou uma pedra. “Deixou-me com o meu avô.” “Isso deve doer.” “Dói menos do que antes.” Miguel encolheu os ombros. “O avô diz que algumas pessoas não são feitas para ficar. E que não é minha culpa.” Ricardo sentiu uma ligação inesperada com o menino. Ele também tinha perdido alguém. A esposa de Ricardo, a mãe de Leonardo, tinha morrido no mesmo acidente que deixou o seu filho paralisado. Durante anos, Ricardo tinha carregado essa culpa. Ele estava a conduzir naquela noite.

    “A minha mãe também morreu”, disse Leonardo em voz baixa, “no mesmo acidente onde eu me magoei.” Os dois meninos olharam um para o outro com um entendimento que não precisava de palavras. “É por isso que o teu pai cuida tanto de ti”, disse Miguel finalmente. “Tem medo de te perder também.” Leonardo olhou para o pai, que caminhava alguns passos atrás. Nunca tinha pensado nisso daquela maneira.

    Chegaram a um terreno baldio cheio de lixo e escombros. Miguel apontou para ele com tristeza. “Este era o melhor parque do bairro. Tínhamos baloiços, escorregas, até um campo de basket. Mas o dono vendeu-o.” “A quem?” “A esse tipo, o Maurício, aquele a quem o teu pai bateu.” Miguel sorriu ao lembrar-se. “Isso foi incrível, já agora.” “O que é que ele vai fazer com o terreno?” “Diz que vai construir um parque de estacionamento. Como se alguém aqui tivesse carro.” Miguel chutou uma lata. “Tirou-nos o nosso parque para ganhar dinheiro.” Ricardo observava o terreno com olhos de empresário. Era uma localização privilegiada, perfeita para desenvolvimento. Podia entender porque é que Maurício o tinha comprado. Mas, vendo a tristeza nos rostos das crianças, entendia também o custo humano dessas decisões.

    O seu telemóvel tocou. Era a sua secretária. Tinha 30 chamadas perdidas. 20 mensagens e uma reunião importante dentro de duas horas. “Tenho de voltar ao trabalho”, anunciou Ricardo. “Já…” Leonardo não escondeu a sua desilusão. “Tenho uma reunião importante.”

    Mas Ricardo olhou para o seu filho, depois para Miguel. “Que tal o Miguel vir cá a casa amanhã? Podem passar o dia juntos.” “A sério?” Ambos os meninos perguntaram em uníssono. “A sério.” Ricardo olhou para Tomás. “Se o senhor permitir, é claro.” Tomás estudou Ricardo. “Isto é porque se sente culpado.” “Isto é porque o meu filho acabou de sorrir mais em 3 horas do que em 3 anos. E acho que o seu neto tem algo a ver com isso.” “Está bem, mas eu levo-o e busco-o.” “Combinado.”

    Trocaram informações de contacto. Ricardo levou a cadeira de Leonardo de volta para a carrinha enquanto Miguel os acompanhava. “Obrigado”, disse Leonardo a Miguel ao despedir-se. “Porquê?” “Por me mostrares que há um mundo lá fora.” “Amanhã mostro-te mais”, prometeu Miguel. “E desta vez, sem que o teu pai quase me prenda.” Ambos riram.

    No caminho de regresso a casa, Leonardo olhava pela janela com uma expressão que Ricardo não lhe tinha visto antes. Não era tristeza nem resignação, era esperança. “Pai”, disse Leonardo depois de um longo silêncio. “Sim.” “Obrigado por bateres naquele homem. Ninguém tinha defendido a minha honra assim antes.” Ricardo sentiu um nó na garganta. “Eu vou sempre defender-te, filho, mesmo que me tenha esquecido disso por um tempo.” “Podemos voltar a esse bairro?” “Porquê?” “Porque ali eu senti-me normal. As pessoas não olhavam para mim de forma estranha. O Miguel não me trata como se eu fosse partir-me.” Ricardo assentiu, entendendo mais do que Leonardo dizia do que do que calava.

    Essa noite, Ricardo não conseguiu dormir. Pensava em Maurício, na ameaça de o destruir, nos negócios que provavelmente perderia por ter agredido o seu sócio. Mas também pensava no sorriso de Leonardo, nas palavras daquele menino de rua, no bairro que lutava para sobreviver. E pela primeira vez em anos, Ricardo Salvatore começou a perguntar-se se tinha estado a lutar pelas coisas erradas.

    Na manhã seguinte, Ricardo acordou com 30 mensagens do seu advogado. Maurício tinha apresentado uma queixa por agressão e estava a ameaçar dissolver a sua sociedade comercial. Os números eram devastadores. Ricardo podia perder 40% do seu império. Mas quando desceu para tomar o pequeno-almoço e viu Leonardo já vestido, à espera ansiosamente da chegada de Miguel, nada disso pareceu importar tanto.

    “A que horas é que ele disse que vinha?”, perguntou Leonardo pela quinta vez. “Às 10h”, Ricardo bebeu o seu café, a olhar para o filho. “Faltam 20 minutos.” “Achamos que ele virá mesmo? As pessoas prometem muitas coisas”, murmurou Leonardo com uma sabedoria triste.

    A campainha tocou exatamente às 10h. Leonardo praticamente correu na sua cadeira até à porta. Ricardo seguiu-o. Tomás e Miguel estavam parados em frente à mansão com expressões de espanto mal dissimulado. A casa de Ricardo tinha três andares, jardins enormes, uma fonte à entrada e mais vidro do que paredes. “Meu Deus”, sussurrou Miguel. “Tu vives aqui? É demasiado grande”, respondeu Leonardo com vergonha. “Estou sempre a perder-me.” “Eu viveria feliz na tua casa de banho”, brincou Miguel, conseguindo que Leonardo risse. Tomás cumprimentou Ricardo com um aperto de mão firme. “Trago-o de volta às 5h, como combinámos.” “O que deseja tomar para o pequeno-almoço?”, ofereceu Ricardo. “Já tomei. Além disso, tenho trabalho.” Tomás olhou para o seu neto. “Porta-te bem.” “Eu porto-me sempre bem. É por isso que o digo.”

    Depois de Tomás se ir embora, os dois meninos desapareceram em direção ao quarto de Leonardo. Ricardo tentou voltar aos seus assuntos, mas deu por si a ouvir as risadas que vinham do segundo andar. No quarto, Miguel olhava para tudo com fascínio. “Tens uma televisão do tamanho de uma parede”, observou. “E esse computador parece da NASA.” “Nunca o uso”, admitiu Leonardo, “nem a televisão.” “Estás louco? Se eu tivesse isto, nunca sairia do meu quarto.” “Eu também não saio, mas não é porque não queira.” Leonardo apontou para a sua cadeira. “É mais complicado para mim.” Miguel sentou-se no chão em frente a Leonardo. “Posso perguntar-te algo sem que fiques zangado?” “Claro.” “Sentes falta de andar?”

    Ninguém lhe tinha perguntado isso diretamente. Sempre evitavam, como se falar disso fosse tocar numa ferida. “O tempo todo”, respondeu Leonardo honestamente, “mas já não me lembro como é que se sentia. Tinha 3 anos quando aconteceu, agora tenho 8. Passei mais tempo nesta cadeira do que a andar. E nunca mais vou poder andar de novo.” “Os médicos dizem que não, mas o meu pai continua à procura de tratamentos. Gastou milhões.” Leonardo brincou com as rodas da sua cadeira. “Acho que é a maneira dele de não se sentir culpado.” “Culpado de quê?” “Ele estava a conduzir quando batemos. A minha mãe morreu. Eu fiquei assim e ele saiu sem um arranhão.” Miguel processou esta informação. “Não foi culpa dele. Os acidentes acontecem.” “Diz-lhe isso a ele.”

    Passaram a manhã a jogar videojogos. Miguel era terrível neles, mas ria-se dos seus próprios erros. Leonardo, que normalmente jogava sozinho, descobriu que era mais divertido perder com alguém do que ganhar em solidão. Ao meio-dia, Ricardo pediu comida de um restaurante de cinco estrelas. Mas quando a comida chegou, Miguel olhou para os pratos elegantes com desconfiança.

    “O que é isto?”, perguntou, apontando para algo que parecia espuma verde com pétalas de flores. “Creme de abacate com flores comestíveis”, explicou o chef que tinha trazido a comida pessoalmente. “Parece algo que a minha avó usa para as plantas.” Miguel cheirou com receio. “Tens a certeza de que isto se come?” Leonardo riu. “É horrível, não é? Eu também não percebo.” “Posso ser honesto, Senhor?” Miguel olhou para Ricardo. “Isto parece caro, mas sabe mal.” Ricardo, que tinha pago 200 euros por aquela refeição, não conseguiu evitar sorrir. “O que é que preferirias comer? Sandes? Tacos?” “Comida de verdade, Senhor.” Ricardo chamou o chef. “Pode retirar-se, vamos pedir outra coisa.” O chef foi-se embora ofendido. 20 minutos depois, estavam a comer tacos que Ricardo tinha pedido de uma banca de rua. Miguel tinha razão, era muito melhor.

    Enquanto comiam, o telemóvel de Ricardo tocou. Era o seu advogado. “Tenho de atender”, desculpou-se, saindo para o jardim. “Ricardo, temos um problema”, começou o advogado. “O Maurício está a mexer as peças. Já falou com três dos teus principais investidores. Disse-lhes que és instável, violento, que o teu filho te distrai dos negócios.” “E o que é que eles disseram?” “Dois estão nervosos. Querem reunir-se contigo urgentemente. Se o Maurício conseguir convencê-los, podem retirar o seu capital. Estamos a falar de 50 milhões.” Ricardo olhou para dentro, onde Leonardo e Miguel riam de algo. “Quando é que querem a reunião?” “Amanhã de manhã, às 8h.” “Eu estarei lá.” Desligou e ficou a olhar para o seu jardim perfeitamente cuidado. Tinha trabalhado 20 anos para construir o seu império. E agora podia perdê-lo por um soco. Um soco que defendia o seu filho. Arrependia-se? Não, de todo.

    Regressou lá para dentro. Os meninos tinham acabado de comer e Miguel estava a mostrar algo a Leonardo no seu telemóvel velho. “Olha, estas são fotos do bairro antes de começarem a vender tudo”, explicava Miguel. “Havia uma biblioteca aqui, um centro comunitário ali. Agora são todos terrenos vazios à espera que pessoas como tu… desculpa, à espera de desenvolvimento.” “Pessoas como o meu pai”, completou Leonardo. Miguel corou. “Não queria dizer…” “Está tudo bem, tens razão.” Leonardo olhou para Ricardo. “O meu pai constrói edifícios para ricos, não é, pai?” Ricardo sentou-se junto a eles. “Sim, é o que eu faço.” “Porque é que não constróis coisas para pessoas normais?”, perguntou Miguel com genuína curiosidade. “Porque as pessoas normais não podem pagar o que custa construir.” “Então, só os ricos merecem casas novas?” Era uma pergunta simples, mas atingiu Ricardo como um martelo.

    Durante anos, ele tinha justificado os seus projetos com termos como mais-valia e desenvolvimento urbano. Mas este menino de 11 anos tinha acabado de reduzir tudo à sua essência mais crua. “Não é assim tão simples”, começou Ricardo. “Porque é que não é?”, insistiu Miguel. “O meu avô diz que tudo é simples quando se tira a ganância do meio.” “A construção requer investimento. Os investidores querem lucros.” “E, enquanto isso, famílias como a minha perdem as suas casas porque não podem pagar o novo valor que vocês dão ao bairro.” Miguel não parecia zangado, apenas triste. “A minha vizinha, a Dona Marta, viveu 40 anos na casa dela. Agora tem de se ir embora porque os impostos subiram tanto que já não pode pagá-los. Sabes para onde é que ela vai? Não tem ideia. Aos 70 anos, não tem ideia.” Ricardo não tinha resposta para isso. Ou se tinha, mas eram as mesmas respostas vazias que dava nas reuniões de negócios.

    “Pai”, interveio Leonardo, “aquele terreno que o Maurício comprou, o que era o Parque, o que é que tem? Podias comprá-lo tu e devolvê-lo ao bairro?” Ricardo piscou os olhos. “O quê? Devolvê-lo, fazer com que seja parque de novo.” Leonardo olhava para o pai com esperança. “Disseste que querias fazer algo bom. Isso seria bom.” “Leonardo. Não funciona assim. Esse terreno vale milhões e o Maurício jamais mo venderia, especialmente agora. Por causa do soco que lhe deste?”, perguntou Miguel. “Porque lhe bati.” “Valeu a pena”, sorriram ambos os meninos.

    O resto da tarde passou a voar. Miguel ensinou a Leonardo a fazer truques com a cadeira de rodas que os terapeutas jamais lhe tinham mostrado. Como subir lancis, como virar depressa, como fazer cavalinhos se te inclinares corretamente. “Eu não devia estar a fazer isto”, protestou Leonardo enquanto praticava um cavalinho. “Por que é que não devias? O meu pai diz que é perigoso.” “Tudo é perigoso se tens medo”, Miguel encolheu os ombros. “A vida é perigosa, mas também é divertida.”

    Quando Tomás chegou às 5h, encontrou os dois meninos no jardim a tentar fazer uma rampa com tábuas e pedras. “Meu Deus, o que é que estão a fazer?”, exclamou Tomás. “Física aplicada”, gritou Miguel. “O Leonardo diz que se calcularmos o ângulo correto, ele pode saltar meio metro.” “Ninguém vai saltar nada!” Ricardo apareceu a correr, a tirar as tábuas. “O que é que aconteceu a jogar videojogos tranquilamente?” “Nós aborrecemo-nos”, explicou Leonardo com um sorriso enorme. Tomás e Ricardo trocaram olhares de pais exasperados. “À mesma hora amanhã?”, perguntou Miguel enquanto se despedia. “Não posso amanhã”, respondeu Leonardo com tristeza. “Tenho terapia.” “E depois de amanhã?” Leonardo olhou para o pai, suplicante. Ricardo suspirou. “Depois de amanhã, está bem.”

    Depois de eles se terem ido embora, Ricardo encontrou Leonardo no seu quarto, a olhar pela janela. “Está tudo bem, filho?” “Pai, posso perguntar-te uma coisa?” “Claro.” “Porque é que nunca me deixaste ter amigos como o Miguel?” Ricardo sentou-se na cama. Era uma pergunta que ele temia, mas sabia que chegaria. “Porque eu tinha medo”, admitiu. “Medo que te magoassem, que gozassem contigo, que te fizessem sentir diferente.” “Mas, pai, eu já me sinto diferente. Só que agora tenho um amigo que faz com que eu não me importe tanto.” Ricardo abraçou o seu filho, sentindo que algo fundamental estava a mudar na sua vida.

    Essa noite, depois de deitar Leonardo, Ricardo fechou-se no seu escritório. Reviu os arquivos de todos os projetos que tinha com Maurício. Estudou os mapas do bairro onde viviam Miguel e Tomás. Analisou números, projeções, possibilidades. E lentamente começou a formular um plano – um plano louco, provavelmente impossível, que podia custar-lhe tudo o que tinha construído. Mas pela primeira vez em anos, Ricardo Salvatore estava disposto a arriscar o seu império por algo mais importante do que o dinheiro.

    A reunião com os investidores foi um desastre. Ricardo chegou às 8 em ponto à sala de conferências do hotel mais exclusivo da cidade. Esperavam-no três homens com fatos perfeitos e expressões frias, os seus principais parceiros financeiros. “Ricardo, sejamos diretos”, começou o mais velho deles, um homem chamado Héctor Ruiz. “O Maurício veio ter connosco. Diz que agrediste um sócio no meio da rua, que o teu filho te está a distrair dos negócios, que estás a tomar decisões irracionais.” “E vocês acreditam nele?”, perguntou Ricardo. “Acreditámos quando ele mostrou as fotos, o relatório médico e a queixa. Isto é grave, Ricardo.” “O Maurício insultou o meu filho, chamou-lhe um impedimento. E tu agrediste-o em público. Em frente a testemunhas”, interveio outro investidor. “Entendes o que isso significa para a nossa imagem corporativa?” “Significa que defendo a minha família.” “Significa que és imprevisível”, corrigiu Héctor. “E nós não investimos em pessoas imprevisíveis. Temos demasiado dinheiro em jogo.” Ricardo sentiu a armadilha a fechar-se. Maurício tinha jogado as suas cartas perfeitamente. “O que é que querem?”, perguntou Ricardo. “Queremos garantias. Queremos que resolvas isto com o Maurício. Queremos que demonstres que a tua cabeça está nos negócios, não em…” Héctor procurou as palavras certas. “Situações pessoais.” “O meu filho não é uma situação pessoal, é o meu filho. E ninguém questiona isso.” “Mas, Ricardo, sejamos honestos, desde o acidente tens estado distante. Cancelas reuniões, rejeitas projetos rentáveis, recusas-te a viajar. Entendemos que tens responsabilidades familiares, mas os negócios não podem esperar indefinidamente.” Ricardo olhou para os três homens, homens com quem tinha trabalhado durante anos, homens que tinham ganho milhões graças a ele. E agora olhavam para ele como um ativo que já não rendia o suficiente.

    “Sabem o que é que eu aprendi esta semana?”, disse Ricardo lentamente. “Aprendi que o meu filho de 8 anos tem mais coragem do que qualquer pessoa nesta sala. Aprendi que estava tão ocupado a construir edifícios que me esqueci de construir uma relação com ele. E aprendi que há coisas mais importantes do que os vossos investimentos.” “Ricardo…”, começou Héctor com um tom conciliador. “Eu não acabei.” Ricardo levantou-se. “O Maurício tem razão numa coisa. A minha prioridade mudou. Antes era multiplicar dinheiro. Agora é garantir que o meu filho tenha uma vida que valha a pena ser vivida. Se isso vos faz querer retirar o vosso capital, força, mas eu não vou pedir desculpa por defender o Leonardo.” “Estás a cometer um erro”, advertiu um dos investidores. “Eu já cometi erros suficientes. Este não é um deles.”

    Ricardo saiu da reunião sabendo que provavelmente tinha acabado de destruir a sua empresa. O seu telemóvel começou a tocar antes de chegar ao elevador. Era o seu advogado, depois o seu contabilista, depois a sua secretária. Todos com más notícias. Mas quando chegou a casa e viu Leonardo a praticar os truques que Miguel lhe tinha ensinado, soube que tinha tomado a decisão certa. “Como é que correu a tua reunião?”, perguntou Leonardo. “Podia ter corrido melhor”, admitiu Ricardo. “Mas também podia ter corrido pior.” “Vais perder muito dinheiro, possivelmente. Estás assustado?” Ricardo ajoelhou-se junto ao filho. “Aterrorizado. Mas também estou bem. Isso faz sentido?” Leonardo assentiu. “Acho que sim. É como quando aceitei subir para a carroça do Miguel. Eu estava com medo, mas também sabia que tinha de o fazer.” “Exato.”

    Essa tarde, enquanto Leonardo dormia a sesta, Ricardo recebeu uma chamada inesperada. Era Tomás. “Seu Ricardo, preciso de falar consigo. É urgente.” Encontraram-se num café perto do bairro. Tomás chegou com uma expressão preocupada. “O que é que se passa?”, perguntou Ricardo. “O Maurício está a acelerar os seus planos.” Tomás tirou uns documentos amarrotados. “Um amigo que trabalha na Câmara Municipal passou-me isto. O Maurício apresentou autorizações para começar a construção no próximo mês. Não só no terreno do parque, mas em seis propriedades mais que ele comprou.” Ricardo reviu os documentos. Eram legais, mas o cronograma era suspeitosamente rápido. “Está a pagar subornos para acelerar as autorizações”, observou Ricardo. “É o estilo dele.” “Ele vai demolir metade do bairro”, disse Tomás com voz trémula. “50 famílias vão perder as suas casas. Incluindo a minha. Quando? Têm 30 dias para desalojar.” Maurício ofereceu compensações ridículas. A maioria não tem para onde ir. Ricardo sentiu uma fúria fria. Maurício não o estava apenas a atacar a ele, estava a usar pessoas inocentes como danos colaterais. “Isto é vingança”, murmurou Ricardo. “Contra mim.”

    “O quê? O Maurício sabe que eu estive no vosso bairro, sabe que me liguei às vossas pessoas. Esta é a maneira dele de me magoar.” Ricardo bateu na mesa. “Ele usa famílias inteiras como peões no jogo dele. Pode detê-lo?” Ricardo estudou os documentos. “Legalmente? Não. O Maurício tem todas as autorizações necessárias.” “Mas… mas o quê?” “Há formas de atrasar uma construção. Inspeções ambientais, revisões de impacto social, protestos comunitários.” Ricardo começava a ver um caminho. “Se conseguirmos atrasar o projeto 6 meses, o Maurício vai perder dinheiro, muito dinheiro. Os investidores dele vão ficar nervosos.” “E como é que fazemos isso?” “Preciso de ver os títulos de propriedade, todos os documentos legais. E preciso de falar com as famílias afetadas.” Tomás olhou para ele com ceticismo.

    “Por que é que faria isto por nós?” “Porque o meu filho ensinou-me que há coisas mais importantes do que ganhar dinheiro. E porque o Maurício precisa que alguém lhe ensine uma lição.”

    Essa noite, Ricardo convocou uma reunião de emergência no salão comunitário do bairro. Para sua surpresa, apareceram mais de 100 pessoas. Explicou a situação, os planos de Maurício e a sua proposta para o atrasar. As pessoas ouviam com uma mistura de esperança e desconfiança. “E por que é que devíamos confiar em si?”, perguntou uma mulher mais velha. “O senhor é como o Maurício, um homem rico que vê o nosso bairro como uma oportunidade de negócio.” “Tem razão”, admitiu Ricardo. “Eu fui exatamente como o Maurício. Mas o meu filho mostrou-me que eu estava errado. E agora quero tentar corrigir isso.” “As palavras não custam nada”, interveio outro homem. “Queremos factos.” “Eu dou-vos factos. Vou contratar os melhores advogados. Vou pagar todas as inspeções necessárias. E vou lutar contra o Maurício com tudo o que tenho.” “E o que é que o senhor ganha com isso?”, perguntou mais alguém.

    Ricardo pensou em Leonardo, em Miguel, nas últimas semanas. “Ganho a oportunidade de ser o tipo de homem que o meu filho pode admirar. Neste momento, isso vale mais do que qualquer edifício.” Houve murmúrios. Finalmente, Tomás levantou-se. “Eu confio nele. Eu arrisquei deixar o filho dele passar tempo com o meu neto. Agora ele arrisca-se por nós. É justo.” Lentamente, outros começaram a assentir. Não era confiança total, mas era um começo.

    Depois da reunião, enquanto Ricardo caminhava em direção ao seu carro, ouviu passos a correr atrás dele. Era Gabriela, a menina que tinha desafiado Leonardo no futebol. “Senhor”, chamou timidamente. Ricardo parou. “Sim.” “A minha mãe diz que o senhor vai ajudar-nos. É verdade?” “Vou tentar. Porquê?” “Eu fui má para o seu filho.” Ricardo ajoelhou-se à altura dela. “Queres saber um segredo? O meu filho disse-me que respeita mais a tua honestidade do que a pena dos outros. Disseste o que pensavas. Isso requer coragem. A sério. Além disso, depois confrontaste-o e ele surpreendeu-te, não foi?” Gabriela assentiu lentamente. “Ele tem braços fortes para estar em cadeira de rodas. Porque nunca desiste, tal como tu, eu acho.” Gabriela sorriu pela primeira vez. “O seu filho é estranho, mas do tipo bom de estranho.” “Vou dizer-lhe. Ele vai gostar de saber.”

    No dia seguinte, Ricardo recebeu a confirmação do que esperava. Dois dos seus três principais investidores tinham retirado o seu capital. Perdeu 42 milhões em menos de 24 horas. O seu contabilista estava à beira de um colapso nervoso. “Estás a destruir tudo o que construíste”, gritava enquanto revia os números. “Não, estou a reconstruir o que destruí”, corrigia Ricardo. Maurício, entretanto, não ficava quieto. Apresentou contra-queixas, procurou testemunhas que desacreditassem a designação histórica, pressionou políticos, mas cada movimento seu era contrariado por Ricardo. A batalha legal tornou-se pública. Os meios de comunicação começaram a cobri-la. O milionário que defendia um bairro pobre contra outro milionário. As redes sociais explodiram. Alguns apoiavam Ricardo, outros chamavam-lhe hipócrita, mas a atenção mantinha Maurício em xeque.

    Leonardo tornou-se uma figura inesperada na história. As fotos dele e de Miguel juntos circulavam com manchetes como “A Amizade que Mudou um Milionário”. Alguns jornalistas tentaram entrevistá-lo, mas Ricardo manteve-os afastados. “Não quero que uses isto”, disse Ricardo ao filho. “A tua privacidade é mais importante.” “Mas se falar ajudar o bairro…” “Não. A tua infância não é moeda de troca. Já perdeste o suficiente.”

    Uma semana antes da audiência judicial definitiva, Ricardo recebeu uma visita surpresa. Era um dos seus ex-investidores, Héctor Ruiz. “Vens dizer-me que estou louco?”, perguntou Ricardo. “Venho pedir desculpa”, respondeu Héctor, sentando-se sem convite, “e oferecer-te ajuda.” “O quê?” “Tenho estado a seguir o que estás a fazer. Li sobre o teu pai, sobre o trabalho dele naquele bairro. E apercebi-me de algo. Passei 30 anos a ganhar dinheiro e zero minutos a construir algo que importe.” Héctor tirou um cheque. “Isto deve cobrir a compra de pelo menos três das propriedades do Maurício.” Ricardo olhou para o cheque. Era de 5 milhões. “Porquê?” “Porque eu tenho um filho da idade do Leonardo. E quando o vi nas notícias a defender-te, a confrontar o Maurício, pensei no meu filho. Ele não me defenderia assim. Ele nem sequer me conhece realmente. Estou sempre a trabalhar.” Héctor limpou discretamente os olhos. “Eu quero ser o tipo de pai que merece essa lealdade. E tu estás a mostrar-me como.” Ricardo aceitou o cheque com gratidão. Essa noite, mais dois investidores contactaram com ofertas semelhantes. Não recuperaria tudo o que tinha perdido, mas seria suficiente para comprar as propriedades e proteger o bairro.

    A audiência judicial foi intensa. Maurício tinha três advogados das firmas mais caras do país. Ricardo tinha dois, mas trazia algo mais importante: os residentes do bairro a encherem a sala. O juiz ouviu argumentos durante 6 horas. Maurício argumentava tecnicismos legais, obsolescência da designação histórica, direitos de propriedade. Ricardo argumentava precedente legal, valor cultural, impacto comunitário. No final, o juiz retirou-se para deliberar. Todos esperaram em silêncio tenso. Quando regressou, a sua expressão era neutra. “Depois de rever toda a evidência e os argumentos apresentados, este tribunal determina que a designação de património comunitário permanece válida e em vigor”, bateu com o seu martelo. “Qualquer desenvolvimento na zona designada requer aprovação comunitária formal. O Senhor Sandoval não obteve a referida aprovação. Portanto, todas as suas autorizações de construção ficam anuladas.” O bairro irrompeu em celebração. Maurício levantou-se, furioso, a gritar com os seus advogados. Olhou para Ricardo com ódio puro. “Isto não acaba aqui!”, jurou antes de sair. “Acaba sim”, respondeu Ricardo tranquilamente. “Porque já não tens nada com que lutar.”

    Fora do tribunal, Ricardo foi rodeado pelos residentes do bairro. Abraços, lágrimas, agradecimentos. Era avassalador, mas o que mais lhe importou foi ver Leonardo e Miguel a abraçarem-se e a rir como os meninos que eram.


    Dois meses depois, Ricardo assinou os documentos finais, transferindo as propriedades para o fideicomisso comunitário. O bairro era oficialmente dos seus residentes. A celebração foi na praça reconstruída, o mesmo lugar onde tudo tinha começado com um grito desesperado de “Larga-o, é o meu filho.” Agora, essa praça estava cheia de vida. Crianças brincavam, famílias comiam, música soava. E no centro, tinham instalado uma placa em honra a Ricardo Salvatore, “que se lembrou que as comunidades são mais valiosas do que os edifícios”, e a Leonardo Salvatore, “que ensinou o seu pai a ver de novo”. Leonardo olhava para a placa com vergonha. “Eu não fiz nada de especial.” “Fizeste tudo”, corrigiu Miguel. “Sem ti, o teu pai teria continuado a ser como o Maurício. Sem ti, eu teria continuado fechado no meu quarto”, respondeu Leonardo. Os dois amigos olharam um para o outro e sorriram.

    Ricardo observava de lado, com Tomás ao seu lado. “Arrepende-se de alguma coisa?”, perguntou o idoso. “Honestamente, não.” Ricardo tinha perdido metade do seu império, mas tinha ganho algo inestimável. “O meu filho fala comigo agora, conta-me coisas, ri, vive. Os meninos têm essa capacidade de nos mostrar o que realmente importa. O Miguel tem um dom especial para isso.” “É um bom rapaz, impulsivo, teimoso, mas bom.” Tomás sorriu com orgulho. “Tal como o seu pai. O meu filho teria estado orgulhoso.”

    A festa continuou até tarde. Nalgum momento, Gabriela aproximou-se de Leonardo. “Olá, menino rico.” “Olá, futebolista”, respondeu Leonardo com um sorriso. “Queres tentar outro remate? Sem vantagens desta vez.” “Quando quiseres.” Dirigiram-se para o campo improvisado. Leonardo na sua baliza, Gabriela a preparar-se para chutar. Desta vez, não havia hostilidade, apenas competição amigável. Gabriela correu e chutou com toda a sua força. Leonardo esticou-se, os seus braços estendidos ao máximo. A bola roçou os seus dedos e entrou. “Golo!”, gritou Gabriela, levantando os braços triunfante. “Esteve perto”, admitiu Leonardo, respirando ofegante. “Quase conseguiste. Para a próxima.” Gabriela ofereceu-lhe a mão. Leonardo apertou-a. Nesse momento, algo mudou. Não era pena o que Gabriela sentia, era respeito genuíno.

    Ricardo observava tudo à distância com uma paz que não sentia há anos. O seu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de um cliente potencial a perguntar se estaria interessado num novo projeto. Pela primeira vez, Ricardo não respondeu imediatamente. O trabalho podia esperar. “Pai!”, chamou Leonardo. “Anda jogar! O Miguel diz que podemos jogar dois contra dois. Eu e tu contra ele e a Gabriela.” Ricardo olhou para o seu fato caro, os seus sapatos italianos, a sua imagem de empresário sério. E então, tirou o casaco, arregaçou as mangas da camisa e caminhou em direção ao campo. “Preparem-se para perder”, advertiu com um sorriso.

    Jogaram até escurecer. Ricardo não corria assim há anos. Estava exausto, suado, feliz. Leonardo gritava instruções. Miguel gozava amigavelmente. Gabriela jogava com intensidade profissional. Perderam o jogo, mas Ricardo sentiu que tinha ganho algo muito mais importante.


    Essa noite, enquanto levava Leonardo de regresso a casa, o seu filho falou. “Pai, sabes que dia é hoje? Sábado. Faz exatamente três meses que o Miguel me pôs na carroça dele. A sério, parece uma vida. Sinto que finalmente comecei a viver a minha vida.” Leonardo olhou para o pai. “Obrigado por teres deixado. De quê? Deixares de ter tanto medo, deixares de me proteger de tudo, deixares que eu tenha amigos, aventuras, que eu cometa erros.” Leonardo sorriu. “Deixares que eu seja uma criança.” Ricardo sentiu lágrimas nos seus olhos. “Obrigado a ti por me teres ensinado a ser pai de novo.” Chegaram a casa, mas nenhum queria que o dia terminasse ainda. Sentaram-se no jardim a olhar para as estrelas. “O que é que vai acontecer com a tua empresa?”, perguntou Leonardo. “Vai ser mais pequena, menos projetos, menos dinheiro, mas vou fazer coisas diferentes agora. Construções que ajudem comunidades, não que as destruam. Como o que o teu avô fazia. Exatamente como o que o teu avô fazia.” Ricardo abraçou o seu filho. “Ele teria tido orgulho de ti, sabes? De como enfrentaste o Maurício, da tua coragem.” “Tu tens orgulho de mim. Mais do que as palavras podem expressar.” Ficaram em silêncio, confortáveis por um momento, a desfrutar simplesmente de estarem juntos. “Pai”, disse Leonardo finalmente, “achas que o Miguel e eu seremos amigos para sempre?” “Acho que o Miguel mudou a tua vida. Esse tipo de amizade não desaparece facilmente.” “Eu gostava de pensar que eu também mudei a dele.” “Mudaste. Deste-lhe um propósito. Mostraste-lhe que os seus impulsos loucos de ajudar as pessoas podem fazer uma diferença real.” Leonardo assentiu, satisfeito. “Então, valeu a pena. Tudo valeu a pena.”

    Ricardo não podia estar mais de acordo. Meses depois, Ricardo abriu um novo escritório. Era mais pequeno do que o anterior, com menos luxos, mas mais propósito. O seu primeiro projeto foi desenhar um centro comunitário no bairro de Miguel, não para ganhar dinheiro, mas para retribuir. Leonardo visitava o bairro todas as semanas. Tinha-se tornado parte da comunidade. As crianças incluíam-no em tudo. As pessoas cumprimentavam-no pelo nome. Era simplesmente mais um menino do bairro que casualmente usava cadeira de rodas. Maurício acabou por abandonar a cidade, a sua reputação em ruínas. Ninguém queria trabalhar com o homem que tinha tentado destruir um bairro inteiro por vingança. E na praça, todas as tardes, podias ver dois meninos, um em cadeira de rodas, outro descalço e magro, a brincar e a rir como se o mundo fosse deles, porque de certa forma era.

    Um mundo onde as diferenças não importavam, onde a riqueza se media em amizades, não em dinheiro, onde um menino rico e um menino pobre podiam ensinar a todos sobre o que realmente significava viver. Tudo tinha começado com um grito desesperado de um pai aterrorizado. E tinha terminado com duas famílias, dois mundos, unidos pela lição mais simples e mais profunda de todas: que o amor, a comunidade e a coragem de defender o que é certo valem mais do que qualquer fortuna.

    Leonardo nunca mais voltou a andar, mas aprendeu a voar. E Ricardo nunca recuperou todo o seu dinheiro, mas ganhou algo que nenhuma quantia podia comprar: uma segunda oportunidade de ser o pai que o seu filho precisava e o homem que o seu próprio pai tinha sido. No fundo, talvez isso fosse a única coisa que sempre tinha importado.